REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781720725
RESUMO
Neste trabalho, baseando-se nos pressupostos teóricos da Análise de Discurso francesa, buscamos compreender como são produzidos os imaginários de língua e de cultura francesas pelo senso comum/um saber que não se aprende, segundo o qual tal língua e cultura teriam uma aura de sofisticação, elegância, refinamento. A “invasão europeia” em 1500 e a vinda da Família Real Portuguesa ao Brasil podem ter norteado este imaginário. Diante disso, buscamos responder a seguinte questão: como o imaginário de língua e de cultura francesas constitui efeitos de sentido e possibilidade de mudanças no ensino da Língua, alterando as práticas educativas? Elegemos para análise três recortes: Uma propaganda da Casa Hermanny (início do século XX), um trecho do livro Roberto & Lily de 2004 e uma reportagem do G1 de 2020 sobre o desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira.
Palavras-chave: representação; imaginário; efeitos de sentido; língua e cultura francesas.
ABSTRACT
In this study, drawing on the theoretical premises of French Discourse Analysis, we seek to understand how imaginaries of the French language and culture are produced by common sense—or an untaught knowledge—according to which that language and culture are said to possess an aura of sophistication, elegance, and refinement. The “European invasion” in 1500 and the arrival of the Portuguese Royal Family in Brazil may have shaped this imaginary. Given this, we seek to answer the following question: how does the imaginary of the French language and culture constitute effects of meaning and possibilities for change in language teaching, altering educational practices? We selected three examples for analysis: an advertisement from Casa Hermanny (early 20th century), an excerpt from the 2004 book Roberto & Lily, and a 2020 G1 news report on Judge Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira.
Keywords: representation; imagination; effects of meaning; French language and culture.
INTRODUÇÃO
Essa imagem ilustra o período em que a língua francesa funcionava como língua de contato entre o invasor Francês e os indígenas colonizados pelos Portugueses no período conhecido como Governo Geral2. Mas não só, havia também, nessa época, inúmeros etnólogos Franceses, como André de Thévet, Jean de Léry, Ferdinand Denis, os Capuchinhos Franceses, etc. que faziam esse contato da língua francesa com os indígenas. Como se percebe na nota de rodapé 2, a expressão “dar favor e ajudar” já era um discurso, uma prática comum no meio político, mostrando que “é a relação de poder que organiza a história” (ORLANDI, [1990] 2008, p. 420). Havia, por parte de D. João III, Rei de Portugal, uma preocupação com as invasões estrangeiras na costa brasileira, os Franceses sempre estavam presentes no litoral tentando invadi-lo e se fixar por lá.
A língua francesa enquanto língua do invasor, começou a chamar a atenção por conta dos Franceses instalados na Baía de Guanabara. Devido a essas invasões e, mais tarde, pelo fato de que os livros que chegavam ao Brasil, em sua maioria, eram escritos em francês3. No Brasil Colonial, por volta de 1699/1710, época do Ministro Marquês do Pombal, o ensino de francês4 entre os militares se fazia necessário. Havia, portanto, o medo das invasões estrangeiras e, com isso, num tom irônico da charge, o francês poderia ser utilizado pela população de um modo geral. De fato, ao longo de cinco séculos, o francês ocupou um espaço importante na nossa história, era uma língua de prestígio falada por nossa elite brasileira e, com isso, ela se sobressaía sobre todas as outras línguas estrangeiras, inclusive sobre o inglês, o que fez criar no imaginário popular uma língua com ar de superioridade.
Em se tratando de língua e cultura francesas no Brasil, podemos considerar que há um senso comum/um saber que não se aprende5, “que não se transmite, [...], não se ensina e, no entanto, existe produzindo efeitos.” (PÊCHEUX, 2002, p. 43). No que tange ao que circula sobre a língua, constituindo efeitos, colocamos em suspenso a língua e a cultura francesas, considerando o imaginário popular, em que o francês parece apresentar uma aura de sofisticação, de elegância, de refinamento, tendo influenciado na cultura brasileira e na formação da identidade nacional.
De acordo com Peter (2007) o francês teve bastante influência na história e na cultura brasileiras, especialmente, após a chegada da Missão Francesa em 1816, o que indica que mesmo o Brasil não tendo sido colonizado pela França, ainda assim, contribuiu para a renovação das artes, as mudanças de hábitos sociais e culturais, principalmente das elites. A autora se refere à importação de hábitos e de costumes, destacando que o Brasil faz parte do imaginário social do francês e a recíproca pode ser compreendida desse mesmo modo.
Nesse sentido, a compreensão e funcionamento desse imaginário de língua e o modo de analisá-la decorre de sujeitos inscritos em um espaço e é assim, que as condições de produção envolvem os sujeitos e suas contradições, conforme Pêcheux ([1975/1988] 2014), tendo em conta a interpelação da ideologia. Os sujeitos são a elite, o povo que veem a França, a língua e cultura francesas e os Franceses como superiores, dotados de sofisticação, beleza e erudição. A contradição se dá quanto ao julgamento em relação aos Franceses, vistos como arrogantes, esnobes e que não tomam banho, já que sobre a França e a língua francesa comparecem como belas, sofisticadas, superiores. Esses sujeitos são interpelados ideologicamente criando uma ilusão que se relaciona com os esquecimentos e com as condições de produção, já que o sujeito ‘não se lembra’ de que não é a fonte do dizer (esquecimento no. 01) e que os sentidos sempre podem ser outros (esquecimento no. 02), de acordo com o funcionamento desses dois esquecimentos, outros sentidos possíveis. Esses mesmos sujeitos ao se manifestarem sobre a língua francesa e o povo francês esquecem que o que dizem já vem sendo dito e reproduzido há séculos, a origem do dizer não está com eles. Assim como o que eles dizem ganham sentidos outros, os sentidos escapam, pois ao dizerem sobre a língua francesa, deixam de dizer sobre a relação que existe entre colonizador e colonizado que passa pela língua, o não-dito, nesse caso, também significa.
Desse modo, a explicação para essa tomada de posição em relação à língua e cultura francesas pode vir do fato de que, por quase cinco séculos, a influência francesa sobre o Brasil deu-se em diversas áreas de forma contundente. Essa influência começa a dar início a partir da “invasão europeia” nas terras brasileiras por volta de 1500, comandada por Portugal, mas também pelos franceses e mais tarde com a vinda da família real portuguesa ao Brasil, até os dias de hoje.
A influência francesa no Brasil gerou na população um quadro, um imaginário de França, uma memória de língua e cultura francesas reforçada pelas elites, constituindo efeitos na contemporaneidade. Esse imaginário é reforçado com o que circula em livros, relatos, na imprensa e, principalmente, na mídia, através de telenovelas, programas humorísticos, internet (youtube, snapchat, instagram, tik tok, por exemplo), reportagens, documentários, filmes, peças publicitárias, entre outras. Para Orlandi (2015), esse funcionamento decorre de discursos que se constituem por discursos em rede com outros discursos, sublinhando que um dizer tem relação com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis.
Esse olhar para a língua e para a cultura em questão é da ordem do imaginário, desse modo, pensado pela AD como “a imagem que se fazem uns dos outros, os participantes do diálogo.” (PÊCHEUX e FUCHS, 1997a, p. 82-83). A hipótese dos autores acima citados é a de que, nos processos discursivos, o que funciona é uma série de formações imaginárias que designam o lugar que os sujeitos atribuem a si mesmos e ao “outro”, e a imagem que eles fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro no discurso. Esses lugares são representados, portanto, nos processos discursivos em que são colocados em jogo.
Dizer que o francês é uma língua bela, chique, romântica e sofisticada, remete ao fato de que a França é vista desse jeito, de acordo com a AD (Análise de Discurso) o sujeito se inscreve numa formação discursiva que determina o que deve ser dito sobre a língua francesa e a França, é o interdiscurso produzindo efeitos de sentido através da ideologia que leva a uma memória homogênea que se tem dessa língua e desse país.
Verifica-se assim que a representação que a população brasileira, ao longo dos séculos, vem tendo da língua e cultura francesas tanto no discurso quanto na sua prática social, seja através de hábitos, crenças, comportamentos, interações, por vezes chega a ser estereotipada, pois possuem uma representação social sobre algo que não conhecem muito bem ou que ouviram dizer. A maneira de ver o outro e sua cultura, bem como a si mesmo, revela-se facilmente, pois a representação que se tem de algo se impõe sobre o homem com uma força irresistível justamente por estar imbuída de percepções, ideias e atribuições do mundo em que se vive. Abric (1996) avança em relação a esse entendimento ao considerar que a representação pode tanto ser positiva quanto negativa, dependendo da concepção de mundo e da escala de valores de cada um. De fato, essa representação/imaginário se faz presente ao longo de vários anos na população brasileira, porém a questão que se coloca é quando se chega a um preconceito ou mesmo deslumbre, ou seja, se esse imaginário estereotipado é exagerado ou predominantemente negativo e que efeitos de sentido tal relação poderá trazer mais à frente, por exemplo, no ambiente de sala de aula, que pode implicar ética, postura, posicionamentos, discussões, escolha de materiais didáticos como os documentos autênticos, por exemplo.
Imprensa, Mídias e a Língua Francesa em Funcionamento
Vale lembrar que a imprensa e a mídia de um modo geral não relativizam a representação de língua e culturas francesas, o que nos leva a refletir sobre o papel do aluno de Letras/futuro professor de francês que precisará desenvolver um olhar mais crítico sobre a língua, combatendo os estereótipos que ainda permanecem fortes em nossa sociedade, seja pela escolha do material didático, por sua postura e discussões em sala de aula.
Vale lembrar que os franceses, muitas vezes são mencionados como cultos, galantes e refinados por um lado, porém arrogantes, frios e antipáticos, e como um povo que não toma banho, por outro, isso é fato e aparece constantemente na impressa e nas mídias, nas redes sociais. O professor em sala de aula pode trazer essa discussão no sentido de desconstruir esse discurso.
A título de ilustração, para contrapor esse imaginário, recentemente foi criado um curso de francês no canal do Youtube pela profa. de francês Celine, que é francesa, cujo nome é: os Franceses tomam banho!6 Esse título vem justamente desconstruir esse discurso que circula no Brasil de que os Franceses não tomam banho.
Sendo assim, o que se percebe são efeitos de sentido que levam a uma estereotipagem, uma uniformização do que significa a língua e cultura francesas, incluindo os Franceses. Alguns meios de comunicação acabam, muitas vezes, por inculcar valores equivocados da sociedade francesa por intermédio de estereótipos ultrapassados, principalmente por meio de livros, textos, reportagens, propagandas, telenovelas e programas televisivos. Para o brasileiro, a língua francesa representa musicalidade, melodia, eufonia etc. Ela é vista como a forma de expressão da alta “sociedade francesa”, o que representa poder e status social7 como foi o caso de Pelotas (RS) que buscava “europeizar-se” a partir da França. É nessa via que os brasileiros acreditam na aquisição da língua como um “avanço” que lhes permite ter acesso à cultura e a determinados prazeres sociais experimentados pelos franceses.
Com efeito, a língua francesa pode até soar como chique, bela, romântica, mas ela não é somente isso, ela é também a língua dos imigrantes com sua pronúncia peculiar e vocabulário próprios, é a língua dos jovens com suas gírias, linguagem familiar e vulgar, é também a língua dos diversos sotaques da França e dos países francófonos. É também, a língua da literatura africana, caribenha, quebequense etc. Assim como a França não é somente Paris, Marseille e Lyon, mas também a periferia desses centros urbanos, o seu interior com seus diversos falares, música, ritmos, danças e culturas, portanto a França é o Breton, o Occitano, o Basco, o Catalão, o Alsaciano etc.
Para efeito de análise do corpus, trazemos três recortes que nos dão uma noção dessa representação de língua e cultura francesas. O primeiro traz uma página da revista “o gato”, publicada no início do século XX, mostrando a forte presença francesa na imprensa escrita e como esses dizeres estão relacionados a uma ideia de língua chique e sofisticada.
Texto-imagem 1 – A presença do francês escrito na imprensa brasileira – Início do século XX
O texto-imagem 1 traz o francês escrito, no início do século XX, que se coloca como língua de referência desde a vinda da Família Real em 1808 até meados da década de 1970, quando a Língua Inglesa passa a ser hegemônica, o que vinha ocorrendo após a Segunda Guerra Mundial. O falar francês e o francês escrito/institucionalizado desfrutavam desse prestígio junto à elite brasileira. Seus filhos iam estudar na França, em Paris, desde o Brasil Império. De acordo com Guimarães (2004, p. 143), “uma língua é, pela sua diferença com outras, elemento de uma cultura diferente das outras, mas é elemento de civilização se determinado pelo valor civilizatório que possui”. Com isso, separa-se as culturas, os povos, as línguas pelo conceito de civilização como princípio de valorização, o que vai funcionar perfeitamente para diferenciar os civilizados dos não civilizados. O francês, como língua escrita, nessa imagem, comparece pelo léxico, pela grafia em uma relação com a língua nacional portuguesa, o que traz à memória o Latim como língua-mãe das duas línguas em questão. O próprio vocabulário empregado na propaganda da Casa Hermanny aponta para uma classe com “pessoas de bom gosto”. Uma classe que via o falar francês como língua da nobreza, da Corte, “língua que representava a mais alta expressão da cultura letrada.” (DEZERTO, 2017, p. 57). Segundo o autor: “são sentidos da memória da língua francesa que reverberam em vários momentos” (p. 52), como podemos observar nessa página da Revista O Gato, de 1911.
Pensando em termos de língua, segundo Mariani (2003, p. 74), “um processo colonizador, enquanto acontecimento, não existe sem as línguas”. De acordo com a autora, os povos são distintos e em determinado momento, considerando as condições de produção, a língua colonizadora acabará se impondo sobre as outras línguas colonizadas, em nosso caso, as línguas indígenas e mais tarde, as línguas africanas no período da escravização. Mariani vai mais além afirmando que existe uma relação de submissão entre o colonizador e o colonizado. Para ela:
[...] a língua é um lugar crucial na inter-relação da lei, instrumento real de distribuição de direitos e deveres, com os vassalos. É a língua que vai constituir um dos laços de união dos diferentes sujeitos numa nação organizada juridicamente. [...] é necessária uma unidade para que o aparelho jurídico seja inteligível aos súditos, estejam eles na metrópole ou na colônia, sejam estes súditos portugueses ou índios (2003, p. 80).
Desse modo, a presença francesa no país passou pela língua. Ainda que a Língua Portuguesa tenha se tornado oficial no Brasil bem depois da invasão, o francês imprimiu suas marcas no léxico com cerca de 5.000 palavras de origem francesa. A língua francesa sempre esteve lado a lado com a língua do colonizador, a língua portuguesa. Nesse sentido, a língua passa pela colonização, que, por sua vez, aponta para uma relação de submissão, de vassalagem entre colonizador/colonizado, como ocorre quando a elite brasileira coloca o francês num patamar de superioridade, sofisticação, língua de um país civilizado etc. Tudo o que era bom, perfeito, refinado, culto, vinha da França, de Paris, inclusive a língua.
Essa relação da qual estamos falando ocorreu de modo mais acentuado no momento da vinda da Família Real Portuguesa. Nessa relação, observamos que há uma rede de sentidos que traz repetições históricas, as quais estão inculcadas na sociedade e que vêm ressoando até os dias de hoje.
Sobre a vinda da Família Real Portuguesa em 1808, não há como negar que sua chegada foi emblemática, é da ordem do deslocamento, do contraditório. Por um lado, estão escapando da invasão de Napoleão em Portugal – o imperador ditador francês havia decretado o Bloqueio Continental do comércio numa disputa com a Inglaterra. Por outro, a Família Real traz toda a influência da língua e cultura francesas através da moda, pintura, artes em geral. Partindo de sua posição social, enquanto sujeito que se inscreve em um lugar privilegiado, D. João e sua corte chegam ao Rio de Janeiro, implantam uma série de transformações na cidade, trazem toda a influência francesa europeia da época e promovem a abertura dos portos brasileiros, o que contribuiu para levar o Brasil à independência. A língua francesa se consolida e permanece no imaginário de língua que vem ressoando ao longo de cinco séculos. Ao chegar, a Família Real Portuguesa se depara com a Língua Portuguesa que já havia sido transportada8 em 1500, que em um processo de historização da língua, de distanciamento da língua de Portugal, passou ao processo de transferência. Com o francês pode ter havido essa transferência, ainda que de outro modo, desde a invasão, passando pela vinda da Família Real e aos poucos o francês foi institucionalizado e a língua francesa disciplinarizada, consolidando-se assim, no país, produzindo efeitos de sentidos diferenciados.
Para compreender os sentidos que circulam sobre língua e cultura francesas, considerando esse imaginário de França que se tinha/tem, é preciso perceber “o lugar da memória que se inscreve na ordem do simbólico e faz retornar enunciados já-ditos, significados, por vezes esquecidos.” (VENTURINI, 2009, p. 66). Uma França imaginária que se relaciona à língua imaginária francesa, principalmente por parte da Corte Portuguesa instalada no país a partir de 1808, que não era tão diferente da Corte Francesa.
O segundo recorte traz um trecho do livro Roberto & Lily de 2004. Na capa encontra-se o empresário Roberto Marinho e sua Esposa Lily Marinho. Em determinado trecho do livro, Lily Marinho tece considerações de como os jovens veem a língua francesa.
Texto-imagem 2 – Capa do livro Roberto & Lily (2004)
O trecho contido nesse texto-imagem 2, aponta para o senso comum capaz de exercer sobre nós uma força impositiva e irresistível na medida em que ele traz consigo nossas percepções e apreensões do mundo em que vivemos. Vejamos como exemplo esta citação retirada do livro de Lily Marinho, intitulado Roberto & Lily (2004, p.154):
Tenho a sensação às vezes exasperante, de que os jovens consideram o francês uma língua inútil, decorativa. Absolutamente secundária! Alguns chegam a fazer um juízo extremamente pejorativo de uma das mais belas línguas do mundo, como se ela estivesse reservada ao que restou hoje em dia das jovens de boa família e de jovens estetas. Ora, a França não é apenas um país para senhoritas em viagem de turismo cultural, mas também uma nação que se tornou uma das principais parceiras econômicas de nosso país: L'Oréal, Carrefour, Peugeot, Renault, Michelin, Arcelor, Fnac e outras grandes empresas menos conhecidas do grande público e que criaram no Brasil centenas de milhares de empregos. Não! Sinceramente, os que fazem bico para debochar da pronúncia da letra "u", como se nada houvesse de mais afetado do que esta pronúncia, não merecem atenção!
Nesse trecho, a senhora Marinho tenta argumentar que o francês não é apenas uma língua “decorativa”, mas também a língua de “uma nação que se tornou uma das principais parceiras econômicas de nosso país”. Considerando os sujeitos, as situações e as memórias, podemos dizer que as condições de produção no tempo desses jovens são outras, agora é o inglês a língua hegemônica. Por outro lado, ela também parece compartilhar de um estereótipo sobre o francês. Vale lembrar que sendo francesa e radicada no Brasil, Lily Marinho mantém o estereótipo, já que considera essa língua como “uma das mais belas línguas do mundo” e “ao que restou hoje em dia das jovens de boa família e de jovens estetas”. Seria o caso de questionar o que faz do francês uma língua “bela” e o que faz pensar que o francês era reservado a certa camada da população. Esse trecho revela duas coisas: a existência de uma visão estereotipada sobre o francês, que é senso comum, bem como a relação das pessoas com esse estereótipo.
Certamente isto tem a ver com o que está vinculado em livros, na imprensa e na mídia a respeito da língua e cultura francesas seja através de novelas, reportagens, documentários, filmes, jornais e revistas etc., ou seja, como a língua e a cultura francesas são vistas pelos brasileiros. E é claro que, neste caso, nossos alunos vêm para a sala de aula com esta noção de língua e cultura francesas de acordo com o que lhes foi passado.
Em um terceiro recorte, extraído do Jornal G1 – Globo, a língua francesa torna-se sinônimo de erudição e ao mesmo tempo de humilhação, por conta do desembargador Eduardo Almeida Prado Rocha de Siqueira que ao ser multado por não estar utilizando máscara em plena pandemia em 2020, tenta depreciar um guarda, falando em francês.
Figura-imagem 3 – Desembargador humilha guarda após multa por não usar máscara em SP
Desembargador humilha guarda após multa por não usar máscara em SP: ‘Analfabeto’
19/07/2020 – G1 Globo
No caso da figura-imagem 3 - Desembargador humilha guarda após multa por não usar máscara em SP, a língua francesa comparece como forma de erudição e de intimidação devido à posição-sujeito do desembargador. Pela língua e por sua posição social, este homem (um desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo) tenta se impor para escapar de uma multa, por não cumprir o decreto nº 8.944, de 23 de abril de 2020, que determina o uso obrigatório de máscara facial sob pena de multa no valor de R$ 100. Mas do que isso, ele humilha o guarda civil municipal de Santos chamando-o de “analfabeto”, rasgando a multa e jogando o papel no chão, por fim, dando uma 'carteirada' ao telefonar para o Secretário de Segurança Pública do município, Sérgio Del Bel, para que o mesmo 'intimidasse' o guarda municipal, de acordo com a reportagem. A posição-sujeito do desembargador pertence a uma formação imaginária que designa o lugar que os sujeitos atribuem a si mesmos e ao “outro”, e a imagem que eles fazem de seu próprio lugar e do lugar do outro no discurso. Esses lugares são representados, portanto, nos processos discursivos em que são colocados em jogo, o que produz sentidos e o sujeito se constitui nele e reproduz o que lhes é passado. O desembargador que deveria cumprir a lei, posiciona-se acima dela, desprezando a própria lei e quem a aplica.
Não usar a máscara nessas condições de produção, é uma violência simbólica, uma forma invisível de coação que se apoia, muitas vezes, em crenças e preconceitos que colocam o sujeito acima da lei, mesmo trazendo risco às pessoas. O sujeito avalia o mundo de acordo com os padrões do discurso dominante e do seu discurso legitimado. Um discurso que segundo Pêcheux ([1969],1997), nos remete a questões de condições de produção já que o sujeito não é mais dono de suas falas, ele não é a fonte do seu discurso quando expressa seu preconceito em relação ao outro, existe aí um jogo de imagens numa situação concreta e que traz a língua historicamente imaginária. Nessas imagens o sujeito é interpelado pela ideologia, pois ele se posiciona em relação ao outro de forma arrogante e preconceituosa. Seu discurso não tem a ver mais com a resistência em colocar a máscara, ultrapassa essa questão, trabalha com efeitos de sentidos outros: o preconceito de classe. Esse sujeito pertence à determinada classe social, o que pode determinar seu discurso. Discurso enquanto práxis social que gera produção dos sentidos e se materializa na linguagem, e a língua é a materialização em que se realizam os “efeitos de sentido”. De acordo com Orlandi (2015, p. 41), “os sentidos sempre são determinados ideologicamente. Não há sentido que não o seja”. Ao dizer algo, já somos afetados pela ideologia que produz seus efeitos na discursividade.
Faz-se necessário trazer essas questões de representação de língua e cultura francesas para discussão em sala de aula para que o aluno possa refletir sobre esse imaginário de língua e de cultura francesas e seus efeitos de sentido. E o professor, por sua vez poderá pensar na possibilidade de mudanças no ensino da Língua, na preparação das aulas, na escolha de materiais e em seu posicionamento no campo do ensino, uma vez que diversos livros didáticos, muitas vezes, reforçam ao invés de desconstruir, estereótipos sobre a França, a Língua Francesa e principalmente sobre os Franceses.
Certa vez ao preparar uma aula de língua francesa, um professor se deparou com a seguinte frase contida em um conteúdo didático: Les Français sont sales, mais j’ai une amie qui est propre (Os Franceses são sujos, mas eu tenho uma amiga que é limpa). Era uma frase para se trabalhar os adjetivos, neste caso, “sales” e “propre”. Além de colocar os Franceses em um patamar estereotipado, a conjunção “mais” como “mas” reforça ainda mais o preconceito excetuando a amiga que é “limpa”. Tal fato aponta para o trabalho que um professor de francês precisa fazer para desmistificar, desconstruir esse senso comum tão presente na formação social.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As línguas estrangeiras em geral gozam de maior prestígio por parte da população brasileira, uma espécie de idealização/fetichização da língua estrangeira, língua que dá status, ascensão profissional e no caso do francês, a língua ainda é associada ao chique, belo, melodioso. Tal fato remete à questão da ideologia, pois aquilo que falamos, são conjuntos de dizeres, enunciados que se repetem regularmente através da memória e estão carregados de sentidos, é o pré-construído que retorna no discurso e desencadeia a estigmatização, a fetichização, o estereótipo ou a reificação.
Nos três recortes citados, a língua francesa é representada como superior, sofisticada, pertencente a uma determinada classe social. Partindo do pressuposto de que a representação/imaginário existe e que ela acontece também no meio escolar e acadêmico, através de nossos alunos de FLE (francês língua estrangeira), a presente proposta de pesquisa tenta responder à seguinte pergunta: como o imaginário de língua e de cultura francesas constitui efeitos de sentido e possibilidade de mudanças no ensino da Língua, alterando as práticas educativas? A escolha de materiais didáticos, as discussões em sala de aula apontam para essas questões? Tais discursos conseguem relativizar ou simplesmente reproduzem o senso comum/o saber que não se aprende estabelecido na sociedade através dos meios de comunicação durante longo período? Qual é a postura do futuro professor de francês ao se deparar com esses imaginários? Existe a possibilidade de apresentar esse imaginário de França, de língua e cultura francesas e do povo francês à classe e levantar uma discussão no sentido de olhar crítico para essas questões que permeiam o francês ou simplesmente ignorá-los, enxergando a língua francesa num sentido único.
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VENTURINI, Maria Cleci. Imaginário urbano: espaço de rememoração/comemoração. Passo Fundo: Editora da Universidade de Passo Fundo, 2009.
1 Docente do Ensino Superior, possui graduação em Letras Português-Francês-Espanhol (2001) e Mestrado em Linguística Aplicada (2006), ambos pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Doutorado pelo Programa de Pós-graduação em Estudos Linguísticos da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com pesquisas em Análise do Discurso (AD) e História das Ideias Linguísticas (HIL). É Professor efetivo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Campus Reitoria. Tem experiência como professor de educação superior no ensino de língua francesa, desde 2008. Interessa-se, principalmente, pelos seguintes temas: Intercompreensão, Interculturalidade, Linguística Aplicada, Linguagem, Análise do Discurso e História das Ideias Linguísticas. É pesquisador vinculado aos seguintes grupos de pesquisa: Labell (UNICENTRO) e RASTROS (UFPR). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7180928244769047. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-1358-205X.
2 A palavra “descoberta”, segundo Todorov (2011), parece remeter a um processo limpo de desvelamento, um mero retirar das cobertas, algo que traz à luz o que antes estava na escuridão. “Descoberta”, termo de tonalidade positiva, parece referir-se mais a um ato de encontrar um território novo — que só é “novo”, é claro, quando enxergado a partir da perspectiva daqueles que antes o desconheciam, ou seja, os europeus que aqui aportaram por 1500. Para o autor, o que ocorreu foi mesmo uma “invasão europeia” no Brasil.
3 Com a finalidade de “dar favor e ajuda” aos donatários e centralizar administrativamente a organização da colônia, o rei de Portugal resolveu criar, em 1548, o governo-geral. Resgatou dos herdeiros de Francisco Pereira Coutinho a capitania da Bahia de Todos os Santos, transformando-a na primeira capitania real ou da Coroa, sede do Governo-Geral. Disponível em: http://multirio.rio.rj.gov.br/index.php/estude/historia-do-brasil/america-portuguesa/80-ocupa%C3%A7%C3%A3o-litor%C3%A2nea/8728-o-governo-geral. Acesso em: 01 nov. 2023.
4 Nessa época já havia o francês falado e a língua francesa institucionalizada nos cursos e colégios.
5 O bom treinamento dos oficiais militares e a construção de fortes em suas possessões ultramarinas foram medidas da ação de Pombal para inibir as ações dos povos inimigos. Em 19 de agosto de 1738, uma Ordem Régia tornou a instrução militar obrigatória a todos os oficiais, os quais não poderiam mais ser nomeados ou promovidos sem que tivessem aprovação na Aula de Artilharia e Fortificações. Houve, então, a necessidade do ensino de francês na instrução militar da Colônia. Disponível em: http://www.helb.org.br/index.php/revista-helb/ano-8-no-8-12014/231-a-institucionalizacao-do-ensino-de-frances-no-brasil-1808-1837. Acesso em: 01 nov. 2023.
6 Brasileiros consideram o idioma francês o mais sexy do mundo. Levantamento feito pelo aplicativo de idiomas Babbel revela 41% brasileiros entrevistados consideram a língua francesa mais sexy, enquanto a chinesa e alemã são as menos atraentes. Disponível em: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/suplementos/tur/online/brasileiros-consideram-o-idioma-frances-o-mais sexy-do-mundo-11769486. Acesso em: 10 jan. 2024.
7 Disponível em: https://www.youtube.com/@osfrancesestomambanho. Acesso em: 15 jan. 2024.
8 De acordo com o texto: Influência francesa no patrimônio cultural e construção da identidade brasileira: o caso de Pelotas. “Pelotas buscava “europeizar-se”, dando importância ao comportamento educado, às boas maneiras, aos hábitos e costumes europeus. Assim como acontecia em cidades europeias, principalmente na França, Pelotas irradiava cultura, novidades e informações e recebeu um excepcional impulso em direção a um processo de modernização nas últimas décadas do século XIX, influenciada com certeza, pelos conceitos e ideias de Paris, que era considerada o centro de um imaginário social construído pela modernidade”. Disponível em: https://vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/08.087/222. Acesso em: 15 jan. 2024.
9 Orlandi (2002) define o transporte de uma língua como língua transportada, sem inscrição histórica, dos processos de significação. Discursivamente, a autora distingue transporte e transferência, pois nesta há o trabalho da memória local, do saber discursivo e a produção de deslizamentos historicizados. A Língua Portuguesa foi, então, transportada para a Colônia, mas chegando nela foi iniciado o processo de transferência, produzindo, a partir de então, efeitos de sentidos diferenciados.