A RELAÇÃO ENTRE DOENÇAS SISTÊMICAS E SAÚDE BUCAL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA

THE RELATIONSHIP BETWEEN SYSTEMIC DISEASES AND ORAL HEALTH IN PRIMARY HEALTH CARE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792002526

RESUMO
A relação entre doenças sistêmicas e saúde bucal tem recebido crescente atenção devido às evidências científicas que demonstram a influência recíproca entre essas condições e seus impactos na saúde integral dos indivíduos. O objetivo é analisar a relação entre doenças sistêmicas e saúde bucal no contexto da Atenção Primária à Saúde, enfatizando a atuação do cirurgião-dentista na promoção do cuidado integral, na prevenção de agravos, no diagnóstico precoce e no acompanhamento de pacientes com doenças crônicas. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, desenvolvida por meio da análise de artigos científicos publicados entre 2018 e 2026, selecionados nas bases Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Os estudos analisados evidenciaram associação consistente entre doença periodontal e enfermidades como diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial e doença renal crônica, destacando mecanismos inflamatórios compartilhados e a influência bidirecional entre saúde bucal e saúde sistêmica. Os resultados também demonstraram que a Atenção Primária à Saúde constitui ambiente estratégico para o desenvolvimento de ações preventivas, educativas e interdisciplinares, fortalecendo a integração entre o cirurgião-dentista e os demais profissionais da equipe multiprofissional. Conclui-se que a incorporação da saúde bucal ao cuidado integral favorece o diagnóstico precoce, a prevenção de complicações e a melhoria da qualidade de vida da população, reforçando a importância da atuação do cirurgião-dentista na consolidação de práticas assistenciais integradas.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Cirurgião-dentista; Doença periodontal; Doenças sistêmicas; Saúde bucal.

ABSTRACT
The relationship between systemic diseases and oral health has received increasing attention due to scientific evidence demonstrating the reciprocal influence between these conditions and their impact on comprehensive health. The objective is to analyze the relationship between systemic diseases and oral health within the context of Primary Health Care, emphasizing the role of the dentist in promoting comprehensive care, preventing health complications, supporting early diagnosis, and monitoring patients with chronic diseases. This is an integrative literature review with a qualitative approach, based on the analysis of scientific articles published between 2018 and 2026 and retrieved from the Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed, and the Virtual Health Library (VHL). The selected studies showed a consistent association between periodontal disease and conditions such as diabetes mellitus, cardiovascular diseases, hypertension, and chronic kidney disease, highlighting shared inflammatory mechanisms and the bidirectional relationship between oral and systemic health. The findings also demonstrated that Primary Health Care provides a strategic setting for preventive, educational, and interdisciplinary actions, strengthening the integration of dentists with other healthcare professionals. It is concluded that incorporating oral health into comprehensive healthcare contributes to early diagnosis, prevention of complications, and improved quality of life, reinforcing the essential role of dentists in integrated healthcare practices.
Keywords: Dentist; Oral health; Periodontal disease; Primary Health Care; Systemic diseases.

1. INTRODUÇÃO

A saúde bucal constitui um componente indispensável da saúde geral e exerce influência direta sobre a qualidade de vida, o bem-estar e a capacidade funcional dos indivíduos. Durante muitos anos, as condições bucais foram analisadas de forma isolada, com ênfase apenas nos aspectos locais da cavidade oral. Entretanto, o avanço das pesquisas científicas tem demonstrado que alterações bucais, especialmente as doenças periodontais, apresentam estreita relação com diversas doenças sistêmicas, evidenciando que o organismo deve ser compreendido de maneira integrada. Nesse contexto, a promoção da saúde bucal deixa de representar apenas uma estratégia de prevenção de doenças odontológicas, passando a constituir um importante elemento para a manutenção da saúde integral (Peres et al., 2019).

As doenças sistêmicas crônicas, como diabetes mellitus, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares e doença renal crônica, figuram entre os principais problemas de saúde pública no Brasil e no mundo. Essas enfermidades apresentam elevada prevalência, impacto econômico significativo e importante repercussão sobre a morbimortalidade da população. Estudos recentes demonstram que tais condições podem influenciar diretamente a saúde bucal, ao mesmo tempo em que processos inflamatórios e infecciosos da cavidade oral podem contribuir para o agravamento do quadro sistêmico, estabelecendo uma relação bidirecional entre essas condições (SBD, 2024; Papapanou et al., 2018).

Entre as alterações bucais mais investigadas, destaca-se a doença periodontal, caracterizada por um processo inflamatório crônico que compromete os tecidos de suporte dos dentes. Evidências científicas indicam que a inflamação periodontal favorece a liberação de mediadores inflamatórios para a circulação sistêmica, contribuindo para alterações metabólicas e cardiovasculares, enquanto doenças sistêmicas, especialmente o diabetes mellitus, podem intensificar a progressão das doenças periodontais em decorrência das alterações imunológicas e vasculares presentes nesses pacientes (Chapple et al., 2017).

Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde desempenha papel estratégico na promoção, prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento das condições bucais e sistêmicas. A incorporação das equipes de Saúde Bucal à Estratégia Saúde da Família ampliou o acesso aos serviços odontológicos e fortaleceu a integração entre os diferentes profissionais da saúde, favorecendo uma assistência centrada no cuidado integral do indivíduo. Dessa forma, o cirurgião-dentista assume importante responsabilidade não apenas na identificação e tratamento das doenças bucais, mas também no reconhecimento de manifestações orais relacionadas às doenças sistêmicas e na atuação conjunta com os demais profissionais da equipe multiprofissional (Brasil, 2023).

Apesar dos avanços observados nas políticas públicas e na produção científica, ainda existem desafios relacionados à integração efetiva entre a assistência odontológica e o acompanhamento das doenças crônicas na Atenção Primária à Saúde. Em muitos serviços, a fragmentação do cuidado dificulta o reconhecimento das interações entre as condições sistêmicas e bucais, comprometendo a prevenção, o diagnóstico precoce e o planejamento terapêutico integral. Diante dessa realidade, emerge o seguinte problema de pesquisa: qual é a relação entre as doenças sistêmicas e a saúde bucal no contexto da Atenção Primária à Saúde, e de que forma a atuação do cirurgião-dentista pode contribuir para a promoção do cuidado integral?

A realização desta pesquisa justifica-se pela necessidade de ampliar a compreensão acerca das evidências científicas que demonstram a interdependência entre saúde bucal e doenças sistêmicas, contribuindo para o fortalecimento das práticas clínicas e das ações de promoção da saúde desenvolvidas na Atenção Primária. Além da relevância acadêmica, o estudo apresenta importância social por reforçar a necessidade de uma assistência multiprofissional capaz de integrar os cuidados odontológicos às demais ações de saúde, favorecendo melhores desfechos clínicos e maior qualidade de vida da população.

Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar a relação entre doenças sistêmicas e saúde bucal na Atenção Primária à Saúde, enfatizando a atuação do cirurgião-dentista na promoção do cuidado integral, na prevenção de agravos, no diagnóstico precoce e no acompanhamento de indivíduos acometidos por doenças crônicas, fundamentando-se nas evidências disponíveis na literatura científica.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Atenção Primária à Saúde e a Política Nacional de Saúde Bucal

A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui o primeiro nível de atenção do Sistema Único de Saúde (SUS) e representa a principal porta de entrada da população aos serviços de saúde. Fundamentada nos princípios da universalidade, integralidade, equidade e coordenação do cuidado, a APS tem como finalidade desenvolver ações de promoção da saúde, prevenção de doenças, diagnóstico, tratamento, reabilitação e manutenção da saúde, considerando as necessidades individuais e coletivas da população. Nesse contexto, a Estratégia Saúde da Família (ESF) consolidou-se como o principal modelo organizador da Atenção Primária no Brasil, favorecendo a aproximação entre os serviços de saúde e a comunidade e fortalecendo a assistência baseada no cuidado contínuo e humanizado (Santos et al., 2023).

A inserção da saúde bucal na Atenção Primária representou um importante avanço para a Odontologia brasileira. A criação da Política Nacional de Saúde Bucal (PNSB), em 2004, conhecida como Brasil Sorridente, ampliou significativamente o acesso da população aos serviços odontológicos públicos, promovendo a expansão das Equipes de Saúde Bucal (eSB) na Estratégia Saúde da Família e fortalecendo a organização da rede de atenção odontológica. Além da ampliação da assistência clínica, a política passou a valorizar ações de promoção da saúde, prevenção de agravos, educação em saúde e cuidado integral, rompendo com o modelo tradicional centrado exclusivamente em procedimentos curativos (Santos et al., 2023).

A Lei nº 14.572, de 2023, reforçou esse processo ao instituir a Política Nacional de Saúde Bucal no âmbito do SUS, reconhecendo a saúde bucal como componente essencial da saúde integral e fortalecendo sua inserção nas políticas públicas brasileiras. Esse marco legal reafirma a responsabilidade do Estado na garantia do acesso universal aos serviços odontológicos e evidencia a necessidade de integração das ações de saúde bucal com os demais níveis de atenção à saúde, especialmente na Atenção Primária.

Nesse cenário, o cirurgião-dentista passou a exercer papel estratégico nas equipes multiprofissionais da Atenção Primária. Sua atuação extrapola a realização de procedimentos clínicos, abrangendo atividades de educação em saúde, diagnóstico precoce, acompanhamento de indivíduos com doenças crônicas, planejamento de ações coletivas e integração com médicos, enfermeiros e demais profissionais da equipe. Essa abordagem favorece o cuidado integral do usuário e contribui para a identificação precoce de alterações bucais relacionadas às doenças sistêmicas, fortalecendo a resolutividade da assistência (Fusco et al., 2023).

Embora a Política Nacional de Saúde Bucal tenha promovido avanços significativos na organização dos serviços odontológicos, estudos recentes demonstram que ainda persistem desafios relacionados ao financiamento, à cobertura assistencial e à integração efetiva da saúde bucal nas Redes de Atenção à Saúde. A literatura destaca que o fortalecimento da APS depende da consolidação das equipes de saúde bucal, da ampliação das ações preventivas e da incorporação de práticas interprofissionais capazes de responder às necessidades de saúde da população de forma integrada (Calvasina, 2023; Santos et al., 2023).

2.2. Relação Entre Saúde Bucal e Doenças Sistêmicas

A saúde bucal integra o conceito de saúde geral e exerce influência direta sobre o bem-estar físico, funcional e social dos indivíduos. Nas últimas décadas, estudos científicos têm demonstrado que as doenças da cavidade oral, especialmente a doença periodontal, não se restringem aos tecidos de suporte dos dentes, podendo desencadear respostas inflamatórias sistêmicas capazes de interferir no desenvolvimento, progressão ou agravamento de diversas doenças crônicas. Da mesma forma, alterações sistêmicas podem comprometer a resposta imunológica do hospedeiro, favorecendo o surgimento ou a progressão de doenças bucais, caracterizando uma relação bidirecional entre essas condições (Kalhan et al., 2022).

Entre as doenças bucais, a periodontite destaca-se como uma enfermidade inflamatória crônica de origem multifatorial, associada ao desequilíbrio do biofilme dental e à resposta imunoinflamatória do hospedeiro. Durante sua progressão, ocorre destruição dos tecidos periodontais, perda de inserção clínica e reabsorção óssea alveolar. Além dos danos locais, a inflamação periodontal favorece a disseminação de bactérias e mediadores inflamatórios para a corrente sanguínea, contribuindo para um estado inflamatório sistêmico persistente, capaz de influenciar diferentes órgãos e sistemas (Bhuyan et al., 2022).

Os mecanismos biológicos envolvidos nessa associação incluem bacteremias transitórias, liberação de citocinas pró-inflamatórias, estresse oxidativo e alterações na resposta imunológica. Esses processos favorecem a disfunção endotelial, alterações metabólicas e intensificação da inflamação sistêmica, fatores relacionados ao desenvolvimento e à progressão de doenças como diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, síndrome metabólica, artrite reumatoide e doenças respiratórias. Embora a intensidade dessa associação possa variar entre as diferentes enfermidades, as evidências científicas indicam que a saúde bucal deve ser considerada parte integrante do cuidado em saúde (Hajishengallis, 2022).

Uma ampla revisão de evidências conduzida por Botelho et al. (2022) identificou associações consistentes entre doenças bucais e diversas doenças crônicas não transmissíveis, reforçando que indivíduos acometidos por essas enfermidades apresentam maior prevalência de alterações periodontais. Os autores destacam que, embora algumas relações ainda necessitem de estudos adicionais para estabelecer causalidade, existe sólido respaldo científico para reconhecer a interação entre saúde bucal e saúde sistêmica, especialmente por meio dos mecanismos inflamatórios compartilhados.

Diante desse cenário, torna-se evidente que a avaliação da saúde bucal deve integrar o acompanhamento clínico de pacientes com doenças crônicas na Atenção Primária à Saúde. A atuação do cirurgião-dentista em conjunto com os demais profissionais da equipe multiprofissional favorece o diagnóstico precoce, o controle dos fatores de risco comuns e a implementação de estratégias preventivas capazes de contribuir para melhores desfechos clínicos e para a promoção do cuidado integral.

2.3. Principais Doenças Sistêmicas Relacionadas à Saúde Bucal

As evidências científicas produzidas nas últimas décadas demonstram que diversas doenças sistêmicas apresentam estreita relação com a saúde bucal, especialmente com as doenças periodontais. Essa interação ocorre, em grande parte, devido aos mecanismos inflamatórios compartilhados, às alterações imunológicas e às modificações metabólicas que influenciam tanto a cavidade oral quanto outros órgãos e sistemas do organismo. Nesse contexto, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, doença renal crônica e alterações fisiológicas da gestação figuram entre as condições mais frequentemente associadas às manifestações bucais, reforçando a necessidade de um cuidado integral na Atenção Primária à Saúde (Hajishengallis, 2022).

Entre as doenças sistêmicas, o diabetes mellitus apresenta uma das associações mais bem estabelecidas com a doença periodontal. A hiperglicemia crônica favorece alterações vasculares, aumento do estresse oxidativo e comprometimento da resposta imunológica, fatores que aumentam a suscetibilidade às infecções periodontais e dificultam o processo de cicatrização. Em contrapartida, a inflamação periodontal contribui para o aumento da resistência à insulina e para o pior controle glicêmico, caracterizando uma relação bidirecional amplamente reconhecida pela literatura científica. Estudos demonstram que o tratamento periodontal pode contribuir para a melhora do controle metabólico em indivíduos com diabetes, reforçando a importância da assistência odontológica integrada ao acompanhamento desses pacientes (Sanz et al., 2020; Sociedade Brasileira de Diabetes, 2024).

As doenças cardiovasculares também apresentam associação relevante com a saúde bucal. A doença periodontal favorece a liberação de bactérias e mediadores inflamatórios na corrente sanguínea, promovendo disfunção endotelial e intensificação da resposta inflamatória sistêmica, fatores envolvidos no desenvolvimento e na progressão da aterosclerose. Embora a doença periodontal não seja considerada causa direta das doenças cardiovasculares, as evidências apontam que seu controle pode contribuir para a redução da carga inflamatória sistêmica e para a melhoria da saúde geral dos indivíduos, especialmente daqueles que apresentam fatores de risco cardiovasculares (Machtei et al., 2020).

No caso da hipertensão arterial sistêmica, observa-se que processos inflamatórios crônicos decorrentes da doença periodontal podem contribuir para alterações vasculares relacionadas ao aumento da pressão arterial. Além disso, medicamentos anti-hipertensivos frequentemente utilizados podem provocar manifestações bucais, como xerostomia e hiperplasia gengival, exigindo acompanhamento odontológico contínuo. Embora a relação causal ainda seja objeto de investigação, estudos recentes indicam associação significativa entre hipertensão e doença periodontal, principalmente em pacientes com controle inadequado dos fatores de risco (Muñoz Aguilera et al., 2020).

A doença renal crônica também apresenta importante repercussão sobre a saúde bucal. Pacientes com comprometimento da função renal frequentemente apresentam alterações salivares, maior acúmulo de biofilme dental, doença periodontal, halitose, xerostomia e alterações da mucosa oral. Ao mesmo tempo, infecções periodontais podem contribuir para a manutenção do estado inflamatório sistêmico observado nesses indivíduos, interferindo negativamente na evolução clínica da doença renal. Dessa forma, o acompanhamento odontológico torna-se componente essencial da assistência multiprofissional oferecida aos pacientes nefropatas (Zhang et al., 2021).

Durante a gestação, as alterações hormonais promovem modificações na resposta inflamatória dos tecidos periodontais, aumentando a susceptibilidade ao desenvolvimento de gengivite e à exacerbação de doenças periodontais preexistentes. Embora ainda existam divergências quanto à intensidade dessa associação, diversos estudos sugerem que a doença periodontal pode estar relacionada a desfechos obstétricos desfavoráveis, como parto prematuro e baixo peso ao nascer, reforçando a importância da assistência odontológica durante o pré-natal como estratégia de promoção da saúde materno-infantil (Iheozor-Ejiofor et al., 2017; World Health Organization, 2022).

2.4. Atuação do Cirurgião-Dentista na Promoção da Saúde e Prevenção de Agravos na Atenção Primária

A atuação do cirurgião-dentista na Atenção Primária à Saúde ultrapassa a realização de procedimentos clínicos e restauradores, abrangendo ações voltadas à promoção da saúde, prevenção de doenças, diagnóstico precoce e acompanhamento longitudinal dos indivíduos e das famílias. Inserido na Estratégia Saúde da Família, esse profissional participa do planejamento das ações de saúde, do desenvolvimento de atividades educativas, da vigilância em saúde e do trabalho integrado com os demais membros da equipe multiprofissional, contribuindo para a efetivação dos princípios da integralidade e da equidade preconizados pelo Sistema Único de Saúde (Fusco et al., 2023).

A promoção da saúde bucal na Atenção Primária fundamenta-se na adoção de estratégias capazes de reduzir fatores de risco comuns às doenças bucais e sistêmicas, tais como alimentação inadequada, tabagismo, consumo abusivo de álcool, sedentarismo e controle insuficiente de doenças crônicas. Nesse contexto, as ações educativas desenvolvidas pelo cirurgião-dentista possibilitam ampliar o conhecimento da população sobre hábitos saudáveis, autocuidado, higiene bucal e prevenção de agravos, favorecendo mudanças comportamentais e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida (Carvalho, Akerman & Cohen, 2023).

Além das ações preventivas, a integração da saúde bucal à Atenção Primária tem sido reconhecida internacionalmente como estratégia essencial para ampliar o acesso aos serviços odontológicos e melhorar o manejo das doenças crônicas. Revisão sistemática publicada por Christian et al. (2023) demonstrou que modelos de integração entre saúde bucal e atenção primária favorecem o aprimoramento dos fluxos de encaminhamento, aumentam a oferta de medidas preventivas, fortalecem a atuação interprofissional e contribuem para melhores resultados em saúde, especialmente entre grupos populacionais mais vulneráveis.

No cuidado aos indivíduos com doenças sistêmicas, o cirurgião-dentista desempenha papel fundamental na identificação de manifestações bucais associadas às condições crônicas, no controle da doença periodontal e na orientação quanto aos fatores de risco modificáveis. A comunicação permanente com médicos, enfermeiros, nutricionistas e demais profissionais da equipe permite o planejamento terapêutico compartilhado, favorecendo o diagnóstico precoce, a continuidade do cuidado e a redução de complicações decorrentes da interação entre doenças bucais e sistêmicas. Essa abordagem fortalece o modelo de atenção centrado na pessoa e amplia a resolutividade dos serviços ofertados na Atenção Primária (Christian et al., 2023).

Apesar dos avanços observados nas últimas décadas, estudos apontam que persistem desafios relacionados ao acesso aos serviços odontológicos, à organização das redes de atenção, ao financiamento e à consolidação do trabalho interdisciplinar. A literatura evidencia que o fortalecimento da Atenção Primária depende da ampliação das ações de promoção da saúde, da qualificação permanente das equipes e da integração efetiva da saúde bucal às políticas públicas, permitindo que o cuidado odontológico seja compreendido como parte indissociável da saúde geral (Borges Júnior, 2023; Christian et al., 2023).

Dessa forma, a atuação do cirurgião-dentista na Atenção Primária à Saúde constitui elemento indispensável para a promoção do cuidado integral, pois possibilita não apenas a prevenção e o tratamento das doenças bucais, mas também a identificação precoce de alterações relacionadas às doenças sistêmicas, contribuindo para a melhoria dos indicadores de saúde e para a consolidação de um modelo assistencial baseado na integralidade, na prevenção e na qualidade da atenção prestada.

3. METODOLOGIA

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de natureza qualitativa, com objetivo descritivo e exploratório, realizada por meio da análise e síntese de evidências científicas relacionadas à associação entre doenças sistêmicas e saúde bucal no contexto da Atenção Primária à Saúde.

A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), por serem reconhecidas pela relevância e abrangência de publicações na área das Ciências da Saúde. Foram considerados artigos científicos publicados no período de 2019 a 2026, nos idiomas português e inglês.

Para a estratégia de busca, utilizaram-se os descritores "saúde bucal", "doenças sistêmicas", "atenção primária à saúde", "doença periodontal", "diabetes mellitus" e "cirurgião-dentista", combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, de acordo com as especificidades de cada base de dados.

Foram incluídos estudos disponíveis na íntegra que abordassem a relação entre doenças sistêmicas e saúde bucal no contexto da Atenção Primária à Saúde, bem como pesquisas que apresentassem evidências sobre a atuação do cirurgião-dentista na prevenção, diagnóstico e manejo dessas condições. Foram excluídos artigos duplicados, estudos publicados fora do período estabelecido, trabalhos sem acesso ao texto completo, resumos de eventos científicos, cartas ao editor, dissertações, teses e publicações que não apresentassem relação direta com o tema proposto.

Após a seleção dos estudos, os artigos foram submetidos à leitura exploratória e analítica, possibilitando a extração, organização e interpretação das informações relevantes. Os dados foram organizados de forma descritiva e analisados por meio da comparação dos resultados apresentados pelos diferentes estudos, permitindo identificar convergências, divergências e as principais evidências científicas acerca da relação entre doenças sistêmicas e saúde bucal na Atenção Primária à Saúde.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

4.1. Caracterização dos Estudos Incluídos

Foram analisados 12 artigos científicos publicados entre 2019 e 2026, selecionados nas bases Scientific Electronic Library Online (SciELO), PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), conforme os critérios metodológicos previamente estabelecidos, confira a tabela 1.

Tabela – Caracterização dos estudos incluídos

Características

Resultados

Tipo de estudo

Revisão integrativa da literatura

Artigos analisados

12

Período de publicação

2018–2026

Bases consultadas

SciELO, PubMed e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS)

Idiomas

Português, inglês

Principais temas

Doença periodontal, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, doença renal crônica, gestação, Atenção Primária à Saúde e Saúde Bucal

Fonte: próprio autores, 2026

Os estudos abordaram, principalmente, a relação entre doença periodontal e diabetes mellitus, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, doença renal crônica e a atuação do cirurgião-dentista na Atenção Primária à Saúde. Em conjunto, as publicações evidenciaram que a saúde bucal exerce influência sobre as condições sistêmicas e, ao mesmo tempo, sofre impacto das doenças crônicas, reforçando a necessidade de uma abordagem integrada e multiprofissional.

4.2. Principais Achados

Os estudos analisados demonstraram consenso quanto à existência de uma relação bidirecional entre saúde bucal e doenças sistêmicas. A doença periodontal foi a condição mais frequentemente investigada, sendo associada ao agravamento do diabetes mellitus, das doenças cardiovasculares e da doença renal crônica. Os artigos também destacaram que a inflamação periodontal favorece a liberação de mediadores inflamatórios para a circulação sistêmica, contribuindo para alterações metabólicas e vasculares, enquanto as doenças sistêmicas podem comprometer a resposta imunológica e aumentar a susceptibilidade às infecções bucais (Sanz et al., 2020; Hajishengallis, 2022).

Outro aspecto recorrente foi o reconhecimento da Atenção Primária à Saúde como espaço estratégico para prevenção, diagnóstico precoce e acompanhamento dos pacientes com doenças crônicas. Os estudos enfatizaram que a atuação integrada do cirurgião-dentista com os demais profissionais da Estratégia Saúde da Família contribui para a identificação precoce de manifestações bucais, redução de fatores de risco e fortalecimento do cuidado integral (Fusco et al., 2023; Christian et al., 2023).

Além das associações entre doença periodontal e doenças crônicas, os estudos evidenciaram que fatores de risco compartilhados, como tabagismo, alimentação inadequada, envelhecimento e condições socioeconômicas desfavoráveis, influenciam simultaneamente a ocorrência de doenças sistêmicas e alterações bucais. Esse achado reforça a necessidade de estratégias preventivas voltadas ao controle dos fatores de risco comuns, fortalecendo as ações desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde e ampliando a efetividade das políticas públicas de promoção da saúde (Botelho et al., 2022; Carvalho, Akerman & Cohen, 2023).

Outro aspecto recorrente entre os estudos foi a importância do acompanhamento odontológico contínuo dos indivíduos portadores de doenças crônicas. Os autores ressaltam que a identificação precoce de alterações bucais, associada ao tratamento periodontal e às ações educativas, pode contribuir para a redução da carga inflamatória sistêmica e favorecer melhores desfechos clínicos. Dessa forma, a atuação preventiva do cirurgião-dentista representa importante estratégia para qualificar o cuidado integral e reduzir complicações relacionadas às doenças sistêmicas (Christian et al., 2023; Fusco et al., 2023).

4.3. Discussão

Os resultados desta revisão demonstram convergência entre os estudos analisados. Hajishengallis (2022) destaca que a resposta inflamatória desencadeada pela doença periodontal exerce repercussões sistêmicas importantes, entendimento corroborado por Bhuyan et al. (2022), que descrevem a participação de mediadores inflamatórios na interação entre doenças bucais e enfermidades crônicas. Da mesma forma, Botelho et al. (2022) identificaram associação consistente entre doenças periodontais e doenças crônicas não transmissíveis, reforçando que a saúde bucal deve ser considerada parte integrante da assistência em saúde.

Em relação ao diabetes mellitus, Sanz et al. (2020) demonstram que o tratamento periodontal pode favorecer o controle glicêmico, resultado compatível com as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (2024), que reconhecem a importância da assistência odontológica no acompanhamento desses pacientes. Quanto às doenças cardiovasculares, Machtei et al. (2020) e Bhuyan et al. (2022) concordam que a inflamação periodontal contribui para a intensificação do processo inflamatório sistêmico, embora ressaltem que essa associação decorre de mecanismos biológicos compartilhados e não de uma relação causal isolada.

No âmbito da Atenção Primária à Saúde, os achados também apresentaram elevada concordância. Fusco et al. (2023) evidenciam que a atuação do cirurgião-dentista deve ultrapassar o atendimento clínico, incorporando ações de promoção da saúde e prevenção de agravos. Esse entendimento é reforçado por Christian et al. (2023), ao demonstrarem que a integração entre saúde bucal e atenção primária favorece o cuidado multiprofissional, amplia o acesso aos serviços odontológicos e contribui para melhores desfechos clínicos. Assim, os estudos analisados sustentam que a integração entre saúde bucal e saúde sistêmica representa um dos principais desafios e, ao mesmo tempo, uma das maiores potencialidades da Atenção Primária à Saúde.

De modo geral, observa-se elevada convergência entre os estudos analisados quanto à importância da integração entre saúde bucal e saúde sistêmica na Atenção Primária à Saúde. Hajishengallis (2022) defende que a resposta inflamatória decorrente da doença periodontal repercute em diferentes sistemas do organismo, entendimento corroborado por Bhuyan et al. (2022), que atribuem essa interação à disseminação de mediadores inflamatórios e à resposta imunológica desencadeada pela infecção periodontal. Na mesma perspectiva, Botelho et al. (2022) ampliam essa discussão ao demonstrarem que a associação entre doenças bucais e doenças crônicas não transmissíveis é consistente em diferentes populações estudadas. No âmbito da assistência em saúde, Fusco et al. (2023) destacam a importância da atuação do cirurgião-dentista nas equipes da Atenção Primária, posição reforçada por Christian et al. (2023), que evidenciam melhores resultados clínicos quando a saúde bucal é integrada ao cuidado multiprofissional.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados desta revisão integrativa demonstram que a relação entre doenças sistêmicas e saúde bucal é amplamente reconhecida pela literatura científica, evidenciando que alterações bucais, especialmente as doenças periodontais, podem influenciar o curso de doenças crônicas, ao mesmo tempo em que essas enfermidades interferem nas condições de saúde da cavidade oral. Dessa forma, o estudo confirma a importância da abordagem integrada entre Odontologia e as demais áreas da saúde na Atenção Primária.

Os objetivos propostos foram alcançados, uma vez que foi possível analisar as principais evidências científicas sobre a associação entre doenças sistêmicas e saúde bucal, identificar as condições clínicas mais frequentemente relacionadas e evidenciar a relevância da atuação do cirurgião-dentista na promoção da saúde, na prevenção de agravos, no diagnóstico precoce e no acompanhamento de pacientes com doenças crônicas. Esses achados reforçam a necessidade de fortalecer o trabalho multiprofissional e a integração da saúde bucal às ações desenvolvidas na Estratégia Saúde da Família.

Do ponto de vista teórico e prático, esta pesquisa contribui para ampliar a compreensão sobre a influência recíproca entre saúde bucal e saúde sistêmica, destacando a necessidade de incorporar a avaliação odontológica como parte do cuidado integral ofertado na Atenção Primária à Saúde. Além disso, evidencia que ações educativas, preventivas e de acompanhamento contínuo podem favorecer melhores desfechos clínicos e contribuir para a melhoria da qualidade de vida da população.

Como limitação, destaca-se que o estudo se baseou em evidências provenientes de pesquisas publicadas, cujos delineamentos metodológicos apresentam diferenças quanto às populações estudadas e aos métodos empregados. Assim, recomenda-se que futuras pesquisas desenvolvam estudos clínicos e longitudinais que aprofundem a compreensão dos mecanismos envolvidos na interação entre doenças sistêmicas e saúde bucal, bem como avaliem o impacto das intervenções odontológicas sobre os desfechos clínicos de pacientes acompanhados na Atenção Primária à Saúde.

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1 Discente do Curso Superior de Odontologia do Unibras Gama. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Docente do Curso Superior de Odontologia do Unibras Gama. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail