A PREDOMINÂNCIA FEMININA NA BUSCA POR CONTEÚDOS SOBRE O LUTO: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

THE PREDOMINANCE OF WOMEN IN THE SEARCH FOR CONTENT ABOUT GRIEF: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790793603

RESUMO
Objetivo: Compreender os fatores que contribuem para a predominância da participação feminina em pesquisas, espaços de apoio e buscas de informações relacionadas ao luto de familiares vítimas da COVID-19. Métodos: Revisão Integrativa da literatura, realizada nas bases de dados LILACS, MEDLINE, PubMed, Web of Scienc e Google Scholar, contemplando estudos entre 2020 a 2024, utilizando os Descritores de Ciências da Saúde (DaCS): luto, COVID-19, gênero. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão e do processo de seleção baseados nas recomendações PRISMA, foram incluídos dez estudos para análise. Resultados: Os resultados evidenciaram que o luto durante a pandemia foi marcado por fatores de risco; a importância do suporte social e acolhimento dos profissionais de saúde e a predominância de mulheres na maioria dos estudos analisados, sendo apenas um estudo composto majoritariamente por participantes do sexo masculino. Conclusão: Verificou-se que, além do luto constituir um importante desafio para a saúde pública, a predominância feminina observada aponta para a necessidade de se ampliar a inclusão masculina nos estudos, de modo a favorecer uma compreensão mais abrangente das diferentes experiências de enlutamento e suas particularidades relacionadas ao gênero.
Palavras-chave: Luto; COVID-19; Gênero.

ABSTRACT
Objective: To understand the factors that contribute to the predominance of female participation in research, support spaces, and information searches related to the bereavement of family members who were victims of COVID-19. Methods: An integrative literature review was conducted using the LILACS, MEDLINE, PubMed, Web of Scienc, and Google Scholar databases, encompassing studies from 2020 to 2024, using the Health Sciences Descriptors (DaCS): bereavement, COVID-19, gender. After applying the inclusion and exclusion criteria and the selection process based on PRISMA recommendations, ten studies were included for analysis. Results: The results showed that bereavement during the pandemic was marked by risk factors; the importance of social support and acceptance by healthcare professionals; and the predominance of women in most of the analyzed studies, with only one study composed predominantly of male participants. Conclusion: It was found that, in addition to grief constituting an important challenge for public health, the observed female predominance points to the need to broaden the inclusion of men in studies, in order to favor a more comprehensive understanding of the different experiences of grief and their particularities related to gender.
Keywords: Grief; COVID-19; Gender.

1. INTRODUÇÃO

O presente artigo apresenta um recorte de uma tese de doutorado desenvolvida em um Programa de Pós Graduação Interdisciplinar com a proposta de compreender os processos subjetivos envolvidos na experiência de luto de familiares de vítimas da pandemia. A predominância da participação feminina em espaços de busca de informações, apoio emocional e compartilhamento de experiências relacionadas ao luto constatada conduziu ao questionamento acerca dos fatores que contribuem para a maior presença das mulheres em pesquisas e contextos de apoio voltados ao enfrentamento da perda. Com o intuito de aprofundar a compreensão desse fenômeno, desenvolveu-se a presente revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa, buscando identificar e analisar evidências científicas que possam explicar a predominância feminina em processos de busca de suporte e elaboração do luto.

O luto constitui uma experiência universal e inevitável da existência humana. A perda de uma pessoa significativa provoca uma ruptura na continuidade da vida, exigindo um processo de reorganização emocional, cognitiva e relacional. Trata-se de uma vivência profundamente humana, que evidencia a importância dos vínculos afetivos construídos ao longo da trajetória de vida.

Nas últimas décadas, os estudos sobre perdas e luto têm se ampliado significativamente, impulsionados tanto pela necessidade de aprofundar o conhecimento científico sobre o tema quanto pelos desafios emergentes que atravessam as sociedades contemporâneas. Entre os focos de interesse dos pesquisadores contemporâneos destacam-se as experiências de morte em massa decorrentes de desastres, acidentes, conflitos armados, atos terroristas e epidemias, situações que frequentemente expõem indivíduos e comunidades a perdas abruptas, violentas ou inesperadas.

Em 2020, novos questionamentos sobre o luto ganharam centralidade com o surgimento da pandemia da COVID-19. O que inicialmente se configurou como um surto local de infecção respiratória evoluiu rapidamente para uma pandemia global, conforme declarado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2020. Diante do acelerado aumento dos casos, diversos países adotaram medidas emergenciais de saúde pública, incluindo distanciamento social, suspensão de atividades presenciais, restrições de deslocamento e períodos de confinamento domiciliar (Santos, 2020).

O luto dos familiares de vítimas da COVID-19 passou a ser marcado por características singulares, como a ruptura abrupta dos vínculos cotidianos, a impossibilidade de acompanhamento do processo de adoecimento, as limitações impostas às despedidas e as restrições aos rituais fúnebres. Em razão dessas especificidades, a atenção de pesquisadores e profissionais voltou-se para a compreensão das repercussões psicossociais do luto na pandemia e para a necessidade de desenvolvimento de estratégias de cuidado e intervenção, evidenciando a disparidade entre o tempo cronológico dos acontecimentos e o tempo subjetivo necessário à elaboração psíquica da perda (OLIVEIRA, et al., 2020).

Tais experiências impuseram extensas demandas adaptativas tanto aos familiares enlutados quanto aos profissionais responsáveis por seu acompanhamento, sendo necessária a oferta de serviços de atenção psicossocial ao número crescente de enlutados, associados com o sofrimento psíquico dos profissionais de saúde que atuavam na linha de frente em unidades de saúde e hospitais voltados para pacientes com COVID-19, conforme assinala Franco (2021).

Inserindo-se nesse campo de investigação e considerando as particularidades das experiências contemporâneas de luto, especialmente aquelas decorrentes da pandemia, o presente estudo tem como objetivo compreender os fatores que contribuem para a predominância da participação feminina, em comparação à masculina, em espaços de busca de informações, apoio emocional e compartilhamento de experiências relacionadas ao luto.

2. METODOLOGIA

Para a realização da presente revisão integrativa da literatura, foram seguidas as seguintes etapas: identificação do tema e seleção da hipótese ou questão de pesquisa, amostragem ou busca na literatura, extração de dados ou categorização, análise crítica dos estudos incluídos, interpretação dos dados e apresentação da revisão integrativa (Dantas et al., 2021).

A pergunta norteadora desta revisão foi: por que, ao buscar informações e conteúdos sobre o luto, observa-se nas publicações acadêmicas a predominância da participação de mulheres em relação aos homens? Como critérios de inclusão foram contemplados estudos publicados no período de 2020 a 2024, que abordaram a vivência do luto em adultos familiares no contexto da COVID-19, em três línguas (inglês, português e espanhol), sendo originais e de revisão. Como critérios de exclusão estudos que abordaram a experiência do luto em crianças e adolescentes e estudos não disponibilizados na íntegra.

As buscas foram realizadas no período entre os meses de fevereiro a maio de 2026, sendo consultadas as seguintes bases de dados: LiLacs MedLine, PubMed, Google Scholar e Web of Science, utilizando descritores de acordo com os Descritores em Ciências da Saúde/Medical Subject Headings (DeCS/MeSH), com o auxílio dos operadores booleanos “AND” e “OR”, conforme descritores e agrupamentos nos idiomas português (“Luto” “OR” “Perda” “OR” “Enlutamento” “AND” “COVID-19” “OR” “Novo Coronavírus” “OR” “Coronavírus 2019” “AND” “Homens” “OR” “Mulheres” “OR” “Familiares” “AND” “Comportamento” “OR” “Experiência” “OR” “Conduta”), espanhol (“Aflicción” “OR” “Pérdida” “OR” “Congoja”  “AND” “COVID-19“OR” “Nuevo Coronavirus" "OR” “Coronavirus 2019”  “AND” “Hombres” “OR” “Mujeres” “OR” “Miembros de la Familia” “AND” “Comportamiento” “OR” “Experiencia” “OR” “Conducta”)  e ingles (“Bereavement” “OR” “Loss” “OR “Mourning” “AND” COVID-19” “OR” “Novel Coronavirus” “OR” “2019 Coronavirus” “AND” “Men”  “OR” “Women” “OR” “Family Members” “AND” “Behavior” “OR” “Experience” “OR” “Conduct”).

Os estudos resultantes das estratégias de pesquisa foram importados para o aplicativo Rayyan® para a realização da organização e triagem pelos pesquisadores, que ocorreu em 4 etapas, seguindo a recomendação do Preferred Reporting Itens for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA): exclusão dos estudos duplicados, leitura dos títulos, leitura dos resumos e leitura na íntegra (Dourado e Melo, 2020). 

Após a seleção dos estudos, foram extraídas as principais informações de cada um dos selecionados, e organizadas em tabelas utilizando o software Microsoft Word® para serem então analisados e correlacionados com resultados achados na literatura.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Foram identificados 296 artigos nas bases de dados consultadas, sendo que 31 foram excluídos por estarem duplicados, resultando em 271 artigos. Após a leitura dos títulos e resumos, 28 artigos foram selecionados para a leitura na íntegra. Ao final, considerando os critérios de inclusão, 10 artigos foram selecionados para a realização desta revisão. A seleção dos artigos foi realizada por dois avaliadores de forma cega, sendo necessário um terceiro avaliador para a seleção dos artigos que apresentaram conflitos. A figura 1 apresenta o fluxograma do processo de seleção dos artigos a partir da recomendação PRISMA.

Figura 1. Fluxograma PRISMA do processo de seleção dos artigos.

Fonte: Castellani LJ, et al., 2026.

Dos dez artigos incluídos nesta revisão, três foram desenvolvidos no Brasil, três no Reino Unido, um na Austrália, um na Alemanha, um no Canadá e um em Portugal. As publicações ocorreram entre os anos de 2019 e 2024, evidenciando o interesse crescente da comunidade científica em compreender os impactos do luto associado à pandemia de COVID-19. O Quadro 1 apresenta a caracterização dos artigos conforme os autores, ano de publicação e título.

Quadro 1. Caracterização dos artigos conforme os autores, ano de publicação e título.

CÓD

ANO

AUTORES

TÍTULO

A1

2021

Schloesser K, et al.

"Saying goodbye all alone with no close support was difficult"- Dying during the COVID-19 pandemic: an online survey among bereaved relatives about end-of-life care for patients with or without SARS-CoV2 infection

A2

2022

Pereira, EPOB

Experiências de Luto em Tempos de Pandemia Covid-19

A3

2022

Lima, MRP

Percepção social e características do luto na viuvez

A4

2024

Lightbody S, et al

Bereavement in the time of Covid-19: learning from experiences of the bereaved

A5

2023

Santos, SC

COVID-19 e luto: restrições da pandemia e o impacto nos familiares das vítimas: estudo transversal realizado em um hospital público de Porto Alegre

A6

2023

Sola, PPB

Herdeiros da COVID-19: lutos de familiares durante a pandemia

A7

2023

Harrop E, et al.

Prolonged grief during and beyond the pandemic: factors associated with levels of grief in a four time-point longitudinal survey of people bereaved in the first year of the COVID-19 pandemic

A8

2023

Selman LE, et al.

Engaging and supporting the public on the topic of grief and bereavement: an evaluation of Good Grief Festival

A9

2023

Tong E, et al.

The impact of COVID-19 on the experiences of patients and their family caregivers with medical assistance in dying in hospital

A10

2024

Ivynian SE, et al.

Support needs of Australians bereaved during the COVID-19 pandemic: A cross-sectional survey study

Fonte: Castellani LJ, et al., 2026.

O Quadro 2 apresenta a caracterização das informações apresentadas nos artigos selecionados, referente ao local da pesquisa, à revista de publicação, aos objetivos, número de participantes/estudos incluídos e metodologia utilizada.

Quadro 2. Caracterização dos artigos selecionados para esta revisão integrativa

COD

TIPO DE PESQUISA E METODOLOGIA

PARTICIPANTES

OBJETIVOS

RESULTADOS

A1

Qualitativa, observacional

81 participantes

(83% do sexo feminino)

Descrever as experiências de familiares enlutados de pacientes que morreram durante a pandemia de SARS-CoV-2

58 dos 81 familiares sentiram-se sobrecarregados pelas restrições de visita e 60 dos 81 sofreram estresse relacionado à pandemia. Dez pacientes morreram sozinhos devido às restrições de visita. O sofrimento dos familiares no ambiente hospitalar foi maior em comparação com os familiares de pacientes que morreram em casa. 45 dos 81 familiares relataram que os médicos tiveram tempo para discutir a condição do paciente, e 44 dos 81 afirmaram o mesmo em relação aos enfermeiros. Apesar disso, os familiares relataram falta de comunicação proativa por parte dos profissionais de saúde.

A2

Quantitativo, exploratório e descritivo

42 participantes

(85,7% do sexo feminino)

Conhecer as circunstâncias das perdas e despedidas do ente querido e respetiva experiência de luto em contexto de pandemia, tendo a morte ocorrido por COVID-19 ou não

Verificou-se que 35.7% dos participantes apresentavam possível presença de perturbação emocional, 69% apresentava distress subjetivo relacionado com a perda, 16.7% dos enlutados evidenciaram a possível presença de luto complicado, enquanto 23.8% evidenciava possível luto traumático. Os estilos de coping mais utilizados pelos enlutados foram a aceitação, planear, suporte emocional e coping ativo, sendo os menos utilizados, o abuso de substâncias, o desinvestimento comportamental e a negação. Os resultados sugerem também que estes processos de luto são marcados pela presença de um conjunto de fatores de risco para o desenvolvimento de lutos complicados, nomeadamente, as circunstâncias da morte, existência de múltiplas perdas primárias e secundárias em tempos pandêmicos e de restrição do contacto social, mortes consideradas súbitas/inesperadas e a ausência de oportunidade de se despedir, entre outros fatores.

A3

Transversal, descritiva, quali-quanti

12 participantes

(83% do sexo feminino)

Compreender as especificidades do luto por morte segundo a experiência de viúvos (as) e suas percepções quanto às reações da sociedade.

Dos relatos emergiram quatro categorias: reações intrapessoais (percepção de suas reações), reações interpessoais (percepção das reações sociais), apoio social e luto prolongado. As principais reações intrapessoais foram desorganização e negação (no momento da notícia) tristeza e abalo diante da concretude da morte (no ritual de sepultamento). Quanto às reações interpessoais foram descritos descrença/negação e manifestações de cuidado e afeto (no momento da notícia) por parte da sociedade. A maioria recebeu apoio; a família foi mais citada, seguida pelos amigos e religião. Uma participante apresentou diagnóstico para luto prolongado, segundo o Instrumento PG-13.

A4

Transversal, descritiva, quali-quanti

149 registros de chamadas

(41,7% do sexo feminino)

Análise dos registros de chamadas do “Bereavement Welfare Hub” (BWH), descrevendo as experiências dos enlutados com o objetivo de identificar formas de melhorar essa experiência

Foram identificados seis temas que influenciaram as experiências de luto e o estado de sofrimento dos destinatários das ligações. Esses temas incluíram: apoio familiar e comunitário, cuidados até o momento da morte, comunicação, cuidados após a morte e rituais e costumes relacionados ao falecimento

A5

Quantitativo, transversal

203 participantes

(79,8% do sexo feminino)

Avaliar os fatores associados com o luto prolongado provocado pelo 

falecimento de familiar com COVID-19, ou em decorrência desta

O modelo de regressão logística identificou o nível de escolaridade do entrevistado e a presença de uma doença crônica pré-existente no falecido como fatores associados a um provável TLP em parentes de vítimas da COVID-19. Esse modelo identificou que os indivíduos com menor escolaridade apresentaram razão de chances 7 vezes maior (RC = 7,1; IC95% 1,8 - 27,9) para provável TLP, quando comparados àqueles com ensino superior completo. Por sua vez, no caso de o falecido apresentar uma doença crônica anterior, foi observado uma redução no risco de provável TLP (RC = 0,34; IC95% 0,12 - 0,99). Por fim, um total de 12,8% (n = 26) dos participantes apresentaram sintomas de um provável TLP, conforme os critérios avaliativos do PG-13.

A6

Qualitativa, transversal e descritiva

10 participantes

(80% do sexo feminino)

Compreender os impactos da 

pandemia na experiência de luto de pessoas que perderam familiares em decorrência da  COVID-19 no cenário brasileiro

Constatou-se que a ruptura do mundo presumido em tempos pandêmicos, a impossibilidade de despedida do ente querido e os baixos níveis de apoio social dificultaram a experiência do luto durante a crise sanitária. Considera-se, ainda, que o luto continua a ser vivido muito tempo após a morte, e que o tempo continua sendo, mesmo após o período mais crítico da pandemia no Brasil, um fator importante para o planejamento de intervenções a fim de oferecer suporte à população enlutada.

A7

Quantitativa, longitudinal

1.574 participantes (88,6% do sexo feminino)

Apresentar fatores associados aos sintomas de transtorno do luto prolongado em pessoas enlutadas

34,6% dos participantes atingiram o ponto de corte para Transtorno de Luto Prolongado (PGD) aproximadamente 13 meses após a perda, e 28,6% no acompanhamento final. O isolamento social e a solidão no início do luto, bem como a falta de apoio social ao longo do tempo, contribuíram fortemente para níveis mais elevados de sintomas de luto prolongado, enquanto sentir-se bem apoiado por profissionais de saúde após a morte esteve associado à redução desses sintomas. As características da pessoa falecida mais fortemente associadas a níveis mais baixos de sintomas de luto prolongado foram: um relacionamento mais distante (por exemplo, morte de um avô ou avó), uma morte esperada e morte ocorrida em uma instituição de cuidados de longa permanência. Características dos participantes associadas a níveis mais elevados de sintomas de luto prolongado incluíram baixo nível de escolaridade formal e presença de condições médicas.

A8

Qualitativa

4.470 participantes (91% do sexo feminino)

Avaliar o alcance e o impacto do Good Grief Festival

Os participantes da pesquisa pré-festival relataram participar para aprender sobre luto/perda (77%), sentir-se inspirados (52%) e fazer parte de uma comunidade (49%). Os participantes pós-festival relataram sentir-se parte de uma comunidade (68%), aprender sobre luto/perda (68%) e sentir-se inspirados (66%). 89% classificaram o festival como excelente/muito bom e 75% concordaram que se sentiam mais confiantes para falar sobre luto após participar. Avaliações mais positivas e maior confiança estiveram associadas à participação em mais eventos. As atitudes pós-festival melhoraram em todos os quatro aspectos (p<0,001). Os participantes apreciaram o festival, valorizando especialmente o formato online, as oportunidades de conexão durante o lockdown e a diversidade e qualidade dos palestrantes. As sugestões incluíram melhorar o processo de inscrição, oferecer eventos mais interativos e reduzir a quantidade de conteúdo.

A9

Qualitativa, observacional

30 participantes (63,3% do sexo feminino)

Compreender como a pandemia impactou a experiência da MAiD (Assistência Médica para Morrer) em hospitais para pessoas que solicitaram MAiD (pacientes) e seus entes queridos (cuidadores) no Canadá

Quatro temas foram gerados com respeito ao impacto da COVID-19 e de suas medidas de contenção sobre a experiência da MAiD (Assistência Médica para Morrer) em hospital: aceleração da decisão pela MAiD; comprometimento da compreensão e enfrentamento familiar; interrupção da realização da MAiD; e apreciação da flexibilidade das regras.

A10

Quali-quanti, transversal

1.878 participantes

(94,9% do sexo feminino)

Identificar os apoios ao luto utilizados pelos australianos durante a pandemia de COVID-19, a percepção sobre a utilidade desses apoios, a prevalência e as áreas de necessidades de suporte não atendidas, bem como as características das pessoas que apresentavam essas necessidades não atendidas

As cinco formas de apoio mais utilizadas foram: familiares e amigos, recursos de autoajuda, clínicos gerais/médicos da atenção básica, psicólogos e grupos comunitários on-line/internet. Notavelmente, cada uma dessas formas de apoio foi indicada tanto como a mais útil quanto como a menos útil pelos participantes. Dois terços (66%) relataram necessidades específicas de apoio não atendidas. Aqueles com necessidades não atendidas apresentaram piores escores em medidas de saúde mental. Os fatores associados às necessidades não atendidas incluíram: idade mais jovem, ser cônjuge ou pai/mãe da pessoa falecida, relatar maiores impactos das medidas de saúde pública e não indicar familiares e amigos como fonte de apoio. A necessidade não atendida mais frequente foi a de apoio social após a morte e durante o período de lockdown/confinamento.

Fonte: Castellani et al, 2026.

Nove dos dez estudos apresentaram maioria feminina. Entre eles, a proporção de mulheres variou de 63,3% a 94,9%, enquanto Lightbody et al. (2024) foi a única exceção, com 41,7% de mulheres e 57,8% de homens. As maiores proporções femininas ocorreram no levantamento australiano on-line sobre necessidades de apoio (94,9%), na avaliação voluntária do Good Grief Festival (91%) e no estudo longitudinal sobre luto prolongado (88,6%). Esse padrão sugere que a modalidade de recrutamento pode influenciar a composição das amostras, sobretudo quando a participação depende de auto seleção, acesso digital ou interesse prévio em apoio e informação.

A relação dos estudos com a questão de gênero foi predominantemente indireta. Nenhum dos dez trabalhos foi delineado especificamente para explicar a maior participação feminina. Em seis, sexo ou gênero apareceu somente na descrição da amostra; em quatro, o tema se relacionou indiretamente ao objetivo por envolver procura por apoio, adesão a atividade on-line, uso de serviço ou experiência de viuvez. Portanto, os estudos sustentam a constatação da predominância feminina, mas não demonstram seus determinantes.

A avaliação pelo MMAT indicou adequação geral entre perguntas, delineamentos e análises, mas também limitações recorrentes: amostras de conveniência, recrutamento on-line, uso de autorrelato, pequenos grupos qualitativos, estudos de centro único e ausência de análises comparativas segundo gênero. A heterogeneidade de cenários e instrumentos impede a comparação direta das proporções como se derivassem de uma mesma população. Por isso, a síntese foi narrativa e as proporções foram interpretadas em relação às formas de acesso e recrutamento de cada estudo.

4. DISCUSSÃO

O quadro 2 apresenta os principais resultados dos estudos analisados. Observou-se que os processos de luto foram influenciados por um conjunto de fatores de vulnerabilidade relacionados ao desenvolvimento do luto complicado, incluindo as circunstâncias que envolveram a morte, a vivência simultânea de perdas primárias e secundárias em contexto pandêmico, as restrições ao contato social, o caráter súbito e inesperado de muitas mortes e a ausência de oportunidades para despedidas e rituais de encerramento, entre outros aspectos relevantes (Pereira, 2022).

Observou-se também que a ruptura do mundo presumido em decorrência da pandemia, associada à impossibilidade de despedida dos entes queridos e à redução do suporte social, contribuiu significativamente para o agravamento das experiências de luto durante a crise sanitária (Sola, 2023). Ademais, constatou-se que o processo de luto persiste por longos períodos após a ocorrência da perda, indicando que o tempo permanece um elemento central para o desenvolvimento de estratégias e intervenções destinadas ao acompanhamento e suporte das pessoas enlutadas, mesmo após a fase mais crítica da pandemia.

Os estudos indicaram que entre as principais formas de apoio acessadas pelos participantes destacaram-se o suporte de familiares e amigos, os recursos de autoajuda, os profissionais da atenção básica à saúde, os psicólogos e os grupos comunitários disponíveis na internet. A percepção acerca da efetividade dessas estratégias variou consideravelmente, uma vez que cada uma delas foi apontada por diferentes participantes tanto como altamente benéfica quanto como pouco útil no processo de enfrentamento do luto (IVYNIAN, et al, 2024).

Outros indicadores observam que o isolamento social e a solidão experimentados no período inicial do luto, aliados à carência de apoio social ao longo do tempo, constituíram fatores associados ao aumento da intensidade dos sintomas de luto prolongado. A percepção de apoio efetivo oferecido pelos profissionais de saúde após a perda esteve relacionada a menores níveis desses sintomas, reforçando o papel protetivo do suporte profissional no processo de elaboração do luto (HARROP, et al, 2023).

Em todos os estudos analisados, a amostra foi composta por participantes de ambos os sexos. No entanto, observou-se uma predominância de mulheres na maioria das pesquisas incluídas. Apenas o estudo de Lightbody et al. (2024) apresentou maior participação de indivíduos do sexo masculino (57,8%) e nos demais nove estudos citados no Quadro 1, ocorreu uma representação majoritária de participantes do sexo feminino, evidenciando uma maior adesão das mulheres às pesquisas sobre luto.

A predominância de mulheres nos estudos analisados corrobora com Jopp, Lampraki e colaboradores (2021), os quais identificaram que o sexo feminino esteve associado a uma maior procura por suporte profissional após perdas significativas. Mulheres apresentam maior probabilidade de buscar apoio profissional e social diante de situações de perda, além de demonstrarem maior disponibilidade para compartilhar experiências emocionais em contextos de pesquisa

De modo semelhante, Entilli e Cipolleta (2023) ao abordar o suporte apoio social e luto apontam que as mulheres tendem a utilizar com maior frequência recursos formais e informais de cuidado, o que pode favorecer sua participação em investigações científicas. Fatores socioculturais relacionados aos papéis de gênero, à expressão emocional e à busca por ajuda podem contribuir para explicar a maior representação feminina observada nas pesquisas sobre luto. Ao discutir sobre experiências de luto durante a pandemia, observaram a participação expressiva de mulheres em estudos qualitativos sobre perdas e rituais de despedida, fenômeno recorrente nas pesquisas mais contemporâneas.

Além dos autores contemporâneos, autores clássicos levantam hipóteses sobre a maior participação feminina em pesquisas de luto e saúde mental. É o caso de Tannen (1990), Pennebaker (1997); Doka e Martin (2010), que argumentam que a maior disposição das mulheres nas pesquisas sobre luto ocorre devido a maior disposição para expressar suas emoções. Kessler (1993), Thoits (2011), relatam que a participação feminina nas pesquisas é resultado da maior busca por apoio e cuidado em saúde. Gilligan (1982) e Hochscild (1989), argumentam sobre o papel social de cuidadora, associando as mulheres a papeis sociais de cuidado e responsabilidade relacional. Pollack (1998); Connel (2005), Oliffe (2019) sustentam que a menor participação masculina nas pesquisas relaciona-se ao conceito de masculinidade hegemônica e a dificuldade em expressar vulnerabilidade emocional.

5. CONCLUSÃO

Os estudos analisados evidenciam que o processo de luto vivenciado durante a pandemia de COVID-19 foi marcado por circunstâncias singulares que potencializaram o sofrimento dos enlutados e aumentaram o risco para o desenvolvimento do luto prolongado. Observou-se, ainda, uma predominância de mulheres entre os participantes dos estudos, aspecto que pode estar relacionado à maior busca por apoio emocional e serviços de saúde, bem como à maior disposição para compartilhar experiências de sofrimento em contextos de pesquisa. Tal achado sugere a necessidade de investigações que ampliem a compreensão das experiências masculinas de luto, frequentemente sub-representadas na literatura.

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1 Docente do Curso de Psicologia, UniGuairaca, Guarapuava – PR. E-mail:[clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Docente do Curso de Fonoaudiologia, UNICENTRO, Irati – PR. E-mail; [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Docente do curso de Psicologia na UniGuairacá, Guarapuava – PR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Mestre em Desenvolvimento Comunitário, UNICENTRO, Irati – PR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail