REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774789400
RESUMO
A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) consolidou-se como uma das mais relevantes epidemias infecciosas do século XX, em razão de seu expressivo impacto na saúde pública global. Evidências científicas indicam que intervenções educativas conduzidas por equipes multiprofissionais, especialmente por farmacêuticos e enfermeiros, apresentam resultados promissores na qualificação do cuidado, na promoção da adesão terapêutica e no fortalecimento do vínculo entre profissionais de saúde e pessoas vivendo com HIV/aids. Nesse contexto, a revisão integrativa teve como objetivo identificar e analisar as ações e metodologias de Educação em Saúde desenvolvidas por farmacêuticos e enfermeiros, bem como os resultados obtidos, visando subsidiar sua incorporação no aprimoramento da formação acadêmica e profissional de graduandos do bacharelado em farmácia e enfermagem. A revisão foi conduzida conforme as recomendações do PRISMA-ScR, e questão de pesquisa estruturada com base na estratégia PCC, considerando: P (evidências científicas), C (Educação em Saúde) e C (profissionais farmacêuticos, enfermeiros e pacientes com HIV/aids). A pergunta norteadora definida foi: “Quais são as evidências científicas relacionadas às práticas de Educação em Saúde realizadas por farmacêuticos e enfermeiros direcionadas a pessoas vivendo com HIV/aids?”. Foram incluídos artigos primários de diferentes delineamentos metodológicos (excetuando-se estudos opinativos), disponíveis na íntegra, em acesso aberto, publicados nos últimos cinco anos, nos idiomas português, inglês ou espanhol. As buscas foram realizadas nas bases de dados MEDLINE/PubMed, LILACS e SciELO, utilizando os descritores HIV/AIDS, Educação em Saúde, Enfermeiro e Farmacêutico, combinados por meio de estratégias específicas de associação. Inicialmente, foram identificados 759 artigos relacionados à atuação de enfermeiros e 74 referentes à atuação de farmacêuticos. Após aplicação dos critérios de elegibilidade e análise dos estudos, a amostra final foi composta por 12 artigos, sendo nove envolvendo enfermeiros e três envolvendo farmacêuticos. A análise comparativa dos estudos evidenciou que intervenções de baixo custo baseadas em Educação em Saúde, uso de tecnologias digitais, reorganização dos serviços e atuação multiprofissional apresentam impactos estatisticamente significativos na prevenção do HIV, na adesão à terapia antirretroviral e na continuidade do cuidado. Tais achados indicam que essas estratégias possuem elevado potencial de incorporação nos processos formativos de profissionais de saúde farmacêuticos e enfermeiros.
Palavras-chave: Educação em Saúde, Farmacêutico, Enfermeiro, HIV/AIDS.
ABSTRACT
Acquired immunodeficiency syndrome (AIDS) has become one of the most significant infectious epidemics of the 20th century due to its substantial impact on global public health. Scientific evidence indicates that educational interventions conducted by multidisciplinary teams, especially pharmacists and nurses, show promising results in improving the quality of care, promoting therapeutic adherence, and strengthening the bond between healthcare professionals and people living with HIV/AIDS. In this context, this integrative review aimed to identify and analyze the health education actions and methodologies developed by pharmacists and nurses, as well as the results obtained, in order to support their incorporation into the improvement of the academic and professional training of undergraduate students in Pharmacy and Nursing courses. The review was conducted according to the PRISMA-ScR recommendations. The research question was structured based on the PCC strategy, considering: P (scientific evidence), C (health education), and C (pharmacists, nurses, and patients with HIV/AIDS). The guiding question defined was: “What is the scientific evidence related to health education practices carried out by pharmacists and nurses directed at people living with HIV/AIDS?”. Primary articles of different methodological designs (excluding opinion studies), available in full, in open access, published in the last five years, in Portuguese, English or Spanish were included. The searches were carried out in the MEDLINE/PubMed, LILACS and SciELO databases, using the descriptors HIV/AIDS, Health Education, Nurse and Pharmacist, combined through specific association strategies. Initially, 759 articles related to the work of nurses and 74 related to the work of pharmacists were identified. After applying the eligibility criteria and analyzing the studies, the final sample consisted of 12 articles, nine involving nurses and three involving pharmacists. A comparative analysis of the studies showed that low-cost interventions based on health education, the use of digital technologies, the reorganization of services, and multidisciplinary action have statistically significant impacts on HIV prevention, adherence to antiretroviral therapy, and continuity of care. These findings indicate that these strategies have high potential for incorporation into the training processes of pharmacists and nurses.
Keywords: Health Education, Pharmacist, Nurse, HIV/AIDS
1. INTRODUÇÃO
A síndrome da imunodeficiência adquirida (aids) emergiu como uma das mais relevantes epidemias infecciosas do século XX, em função de seu marcante impacto sobre a saúde pública global (BIGGAR, 1988; DE COCK, 2011). A condição é decorrente da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) e caracteriza-se pelo comprometimento progressivo do sistema imunológico, com destaque para a imunidade mediada por células, embora também envolva alterações na imunidade humoral (SPIVAK, 1984). No Brasil no período de 1980 a setembro de 2025, foram registradas 1.679.622 pessoas vivendo com HIV ou aids no país, sendo em 2024, detectados 39.216 novas infecções pelo HIV. (BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO, 2025). Atualmente, a aids é reconhecida como uma condição de caráter crônico em virtude dos avanços alcançados na terapia antirretroviral; contudo, os eventos adversos associados aos fármacos permanecem como um obstáculo relevante à adesão terapêutica (GRANT, 2011). Nesse contexto, a Educação em Saúde destaca-se como estratégia essencial para o esclarecimento, a promoção da autonomia e o fortalecimento da adesão terapêutica em pessoas vivendo com HIV/aids (ABU et al., 2020; LUO et al., 2020). Importante ressaltar que a Educação em Saúde pode estender-se a outras Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST), em que as pessoas infectadas pelo HIV podem estar expostas, bem como a utilização de Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), Profilaxia Pós-Exposição e demais ações de prevenção. (BOLETIM EPIDEMIOLÓGICO, 2025)
Evidências demonstram que ações educativas conduzidas por equipes multiprofissionais, especialmente pela enfermagem, apresentam resultados promissores na qualificação do cuidado e no fortalecimento do vínculo terapêutico (REIS, 2014; ARAUJO et al., 2020). No âmbito da farmácia, observa-se que a adesão ao tratamento antirretroviral ainda é limitada, como evidenciado por estudo realizado no Sistema Único de Saúde, no qual apenas 50% dos pacientes apresentaram boa adesão, reforçando a necessidade de intervenções educativas sistematizadas (DE MELO, 2022). Ademais, fatores socioeconômicos, culturais e comportamentais interferem diretamente no uso correto dos medicamentos, o que reforça a relevância de ações contínuas de Educação em Saúde (REMONDI, 2014; FREITAS, 2015).
Apesar da ampla participação de enfermeiros e médicos em ações educativas, a atuação do farmacêutico ainda é pouco explorada na literatura, embora este profissional possua competências essenciais para a orientação sobre o uso racional de medicamentos (AQUILANTE, 2003; CHAVES, 2006). Assim, a sistematização da Educação em Saúde no âmbito do cuidado farmacêutico configura-se como uma estratégia relevante para a promoção da saúde, a melhoria da adesão ao tratamento e a qualificação do cuidado às pessoas vivendo com HIV/aids (NAVES, 2004; PEREIRA, 2008).
Neste contexto, identificar as ações e metodologias de Educação em Saúde desenvolvidas por farmacêuticos e enfermeiros, bem como os resultados alcançados com vistas à proposição de sua implementação na formação acadêmica de graduandos do v farmácia e enfermagem, apresenta-se como oportunidade de aprimoramento profissional e melhoria na qualidade da sua futura assistência à pessoa vivendo com HIV/aids.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo de revisão integrativa, que busca explorar a incipiência do tema “A prática da Educação em Saúde realizada por farmacêuticos e enfermeiros à pacientes HIV/aids”
Para tanto, foi utilizada as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses Extension for Scoping Reviews (PRISMA-ScR), constituído por uma lista de verificação com 20 itens, que visa assegurar a construção metodológica do estudo.
A questão de revisão foi elaborada por meio da estratégia PCC, que utilizou o acrônimo mnemônico: P (População), C (Conceito) e C (Contexto) – o qual foi composto por P (Evidência Cientifica), C (Educação em Saúde) e C (profissionais farmacêuticos, enfermeiros e pacientes HIV/aids)
Portanto, a questão de revisão elaborada foi: “Quais são as evidências cientificas relacionadas a prática da educação em saúde realizada por farmacêuticos e enfermeiros à pacientes HIV/aids?”
Os critérios de inclusão definidos na seleção de artigos primários foram delineados a partir de qualquer metodologia de pesquisa, exceto aqueles de natureza opinativa; disponíveis eletronicamente na íntegra; livre acesso, publicados nos últimos 5 anos nos idiomas: português, inglês e espanhol; com adesão ao objeto de estudo após leitura do título e resumo.
As bases de dados consultadas foram a Medical Literature Analysis and Retrieval System Online via PubMed (MEDLINE/PubMed), Literatura LatinoAmericana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e Scientific Electronic Library Online (SciELO).
Os descritores (DeCS/Mesh) utilizados para a elaboração dessa revisão foram "HIV AIDS", Educação em Saúde, Enfermeiro e Farmacêutico nos três idiomas propostos. Na primeira busca nas bases de dados foram realizadas associações dos termos “HIV OR AIDS AND Educação em Saúde AND Enfermeiro, e no segundo processo de busca foram realizadas as associações dos termos “HIV OR AIDS AND Educação em Saúde AND Farmacêutico. Os processos de seleção dos artigos são apresentados na figura 1, bem como ano de publicação, título, país de origem, profissional e objetivos estão presentes no quadro 1.
Fonte: Santana CA,2026
Quadro 1: Caracterização dos artigos incluídos na revisão integrativa a partir do ano de publicação, título, país de origem, profissional e objetivos
| Ano | Título | País | Profissional | Objetivo Primário e metodologia | |
| 1 | 2025 | Construção e validação de Portal Informativo sobre a prevenção combinada do HIV | Brasil | Enfermeiro | Construir e validar um portal de comunicação para aprendizagem sobre recomendações assistenciais, clínicas e prevenção de HIV. Avaliado por TI, Enfermeiros, pacientes com e sem HIV |
| 2 | 2023 | The role of community pharmacies in the HIV and HCV care continuum. | EUA | Farmacêutico | Avaliar o impacto nos cuidados à pessoa em situação de rua, por farmacêuticos em farmácia comunitária, em relação ao HIV e HCV através da triagem, educação em saúde, aconselhamento e encaminhamento médico |
| 3 | 2022 | Construction and validation of podcast for teen sexual and reproductive health education. | Brasil | Enfermeiro | Construir e validar o conteúdo de um podcast para educação em saúde sexual e reprodutiva de adolescentes. |
| 4 | 2022 | Impact of Motivational Enhanced Adherence Counseling and Point-of-Care Viral Load Monitoring on Viral Load Outcome in Women on Life-Long ART: A Randomized Pilot Study. | Zimbabwe | Enfermeiro | Avaliar redução de carga viral através do grupo intervenção (adoção do modelo "informação, motivação e comportamento") versus grupo controle |
| 5 | 2022 | Implementation and Evaluation of a Collaborative, Pharmacy-Based Hepatitis C and HIV Screening Program. | EUA | Farmacêutico | Avaliar o impacto da implementação de serviços de triagem de HIV e HCV em um ambiente de farmácia comunitária através de triagem, educação em saúde, aconselhamento |
| 6 | 2021 | Community-Based Interventions as Opportunities to Increase HIV Self-Testing and Linkage to Care Among Men Who Have Sex With Men - Lessons From Ghana, West Africa. | Gana | Enfermeiro | Apresentar resultados de outros estudos baseados em workshop para grupos focais e 2 aplicativos de orientações de prevenção e acesso direto a enfermeiras para orientações. |
| 7 | 2021 | Personalized feedback improves cardiovascular risk perception and physical activity levels in persons with HIV: results of a pilot randomized clinical trial. | EUA | Enfermeiro | Avaliar diminuição do risco cardiovascular através de grupo intervenção (feedback personalizados de 45 minutos e atividades/ações motivacionais) e grupo controle (sessões de 20 minutos com informações gerais sobre doenças cardíacas e dieta saudável) |
| 8 | 2021 | Impact and acceptance of pharmacist-led interventions during HIV care in a third-level hospital in Spain using the Capacity-Motivation-Opportunity pharmaceutical care model: the IRAFE study. | EUA | Farmacêutico | Avaliar aumento das taxas de adesão e diminuição de carga viral após intervenção com entrevista motivacional |
| 9 | 2020 | A couple-focused, integrated unplanned pregnancy and HIV prevention program in urban and rural Zambia. | Zâmbia | Enfermeiro | Integrar serviços de saúde utilizando enfermeiros para aconselhamento, teste e planejamento familiar para prevenir o HIV e a gravidez não planejada |
| 10 | 2020 | Two-Way Short Message Service (SMS) Communication May Increase Pre-Exposure Prophylaxis Continuation and Adherence Among Pregnant and Postpartum Women in Kenya. | Quênia | Enfermeiro | Avaliar uma plataforma de comunicação bidirecional via SMS para melhorar a continuidade e adesão à profilaxia pré-exposição (PrEP) para prevenção do HIV entre mulheres grávidas e no pós-parto. |
| 11 | 2020 | Prevention of mother-to-child transmission activities after one-off clinical mentorship training in selected health facilities, Zimbabwe: 2014-2018. | Zimbabwe | Enfermeiro | Avaliar indicadores de saúde do período de 2014 a 2018 a partir de capacitação em programa de aconselhamento feito por enfermeiros implantado em 2013. |
| 12 | 2019 | Do Brief Educational Sessions Increase Electronic Health Literacy of Low-Income Persons Living With HIV/AIDS? | EUA | Enfermeiro | Avaliar a alfabetização eletrônicas através de 2 grupos. Grupo 1. assistir vídeos de orientação sobre HIV. Grupo 2. assistir vídeos de orientação sobre HIV e 15 minutos de orientação com enfermeiros |
Fonte: Santana CA,2026
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
A Educação em Saúde à pacientes HIV/aids, na prática profissional de farmacêuticos e enfermeiros, se apresenta com abordagens diferentes, tanto de forma quantitativa como qualitativa. No entanto, propostas visam melhorar os indicadores epidemiológicos da doença nos aspectos da prevenção, diagnóstico e tratamento (UNAIDS, 2014)
Em relação as ações de educação em saúde, observam-se uma diferença quantitativa importante, entre os artigos publicados pelos profissionais farmacêuticos e enfermeiros com 25% (3) e 75% (9) respectivamente. Na análise referente a localização dos artigos, 41,7% têm origem nos EUA e 41,7% nos países africanos, destaca-se de forma negativa que apenas 16,6% da produção cientifica foi realizada no Brasil, embora, o país seja o primeiro no mundo a fornecer gratuitamente tratamento à população HIV/aids. (BRASIL, 1996).
FARMACÊUTICOS
Atuação da farmácia comunitária no cuidado ao HIV e HCV
O estudo conduzido por Kherghehpoush e McKeirnan (2023) avaliou a atuação e aconselhamento de farmacêuticos comunitários no rastreamento e encaminhamento de pessoas em situação de rua para o cuidado do HIV e HCV. A amostra foi composta por 50 sujeitos, majoritariamente homens (80%) e usuários de drogas ilícitas (94%), que receberam 3 intervenções de orientação sobre prevenção de IST. Os resultados demonstraram elevada prevalência de infecção por HCV, com 44% (n = 22) apresentando teste reagente, enquanto 2% (n = 1) tiveram resultado reagente para HIV. Observou-se que 76% (n = 38) dos participantes preenchiam critérios para uso de PrEP, entretanto apenas 36% (n = 14) aceitaram encaminhamento específico para essa estratégia preventiva. No total, 56% (n = 28) foram encaminhados para serviços de saúde, e destes, 71% (n = 20) efetivamente estabeleceram vínculo assistencial. Esses achados indicam que a intervenção farmacêutica apresentou impacto positivo na identificação precoce de casos, na elegibilidade para PrEP e, sobretudo, na vinculação ao cuidado, mesmo em populações altamente vulneráveis.
Implementação de triagem para HIV em farmácias comunitárias
O estudo de Klepser et al. (2022) avaliou a implementação de serviços de testagem rápida para HIV e hepatite C em 61 farmácias comunitárias nos Estados Unidos, envolvendo 1.164 participantes. Foram realizados 1.479 testes, sendo 612 para HIV. A taxa de resultados reagentes para HIV foi de 0,8% (n = 5), enquanto para HCV foi de 20,9% (n = 181). O estudo demonstrou viabilidade operacional e efetividade do modelo de farmácias como ponto de acesso ao diagnóstico, especialmente para populações de risco. Embora não tenha empregado testes inferenciais complexos, os dados descritivos evidenciam impacto relevante na ampliação do rastreamento e no encaminhamento para o cuidado.
Intervenções farmacêuticas e desfechos clínicos
No estudo conduzido por Cantillana-Suárez et al. (2021) avaliaram intervenções farmacêuticas estruturadas baseadas no modelo Capacidade–Motivação–Oportunidade em um hospital terciário espanhol. Foram incluídos 349 pacientes, dos quais 76,1% eram do sexo masculino. Observou-se aumento estatisticamente significativo da adesão à terapia antirretroviral, que passou de 85,6% (±33,7) antes da intervenção para 96,4% (±17,7) após a intervenção (p<0,001). A aceitação das intervenções foi elevada tanto entre médicos (97,7%) quanto entre pacientes (93,3%), acompanhada de melhora na supressão viral
ENFERMEIROS
Construção e validação de portal informativo sobre prevenção combinada do HIV
O estudo de Lioi et al. (2025) teve como objetivo a construção e validação de uma tecnologia educacional digital (portal PREVIN@IDST) voltada à prevenção combinada do HIV. Participaram do processo de validação 24 enfermeiros especialistas em saúde e 23 profissionais da área de Tecnologia da Informação.
Os resultados estatísticos evidenciaram altos índices de validade de conteúdo, com Índice de Validade de Conteúdo (IVC) global de 0,94 entre enfermeiros e 0,96 entre especialistas em Tecnologia da Informação. Os atributos avaliados apresentaram valores expressivos, destacando-se: adequação do conteúdo (IVC = 0,98), linguagem (IVC = 1,00), relevância (IVC = 0,96), atratividade (IVC = 0,91) e inovação (IVC = 0,90). Tais resultados confirmam a consistência metodológica e a adequação do portal como ferramenta educativa em saúde.
Sessões educativas breves para literacia eletrônica
O estudo de Nokes e Reyes (2019) avaliou uma intervenção educativa breve voltada à literacia eletrônica em saúde entre pessoas vivendo com HIV/AIDS de baixa renda (n=100). Observou-se aumento significativo da literacia eletrônica em saúde ao longo do tempo, independentemente do tipo de intervenção recebida. A comparação entre o grupo que assistiu apenas ao vídeo educativo e aquele que recebeu reforço adicional de um enfermeiro não revelou diferenças estatisticamente significativas entre os grupos (p>0,05). A única variável associada de forma significativa aos níveis de literacia eletrônica foi a idade mais avançada (p<0,05), conforme modelagem lineares generalizados.
Comunicação por SMS
De forma complementar, Pintye et al. (2020) demonstraram impacto significativo do uso de comunicação bidirecional por SMS na continuidade da profilaxia pré-exposição (PrEP) entre gestantes e puérperas no Quênia. Em comparação ao período pré-intervenção, mulheres incluídas no programa de SMS apresentaram maior retorno à primeira consulta de seguimento (53% vs. 40%) e maior continuidade do uso da PrEP (43% vs. 22%). Entre as participantes, 94% relataram que o SMS contribuiu para melhor compreensão da PrEP e 99% confirmaram recebimento adequado das mensagens.
Aconselhamento de planejamento familiar para casais
O programa integrado de prevenção do HIV e de gravidez não planejada com foco em casais, avaliado por Malama et al. (2020), apresentou resultados expressivos em escala populacional. A intervenção alcançou 208.211 casais em clínicas urbanas e rurais da Zâmbia e foi associada à prevenção estimada de 21.148 infecções por HIV em adultos, 98.626 gestações não planejadas e 892 infecções perinatais por HIV. O programa também capacitou 1.201 profissionais de saúde para oferta integrada de aconselhamento em HIV e planejamento familiar, com ampliação do acesso a métodos contraceptivos reversíveis de longa duração.
Aconselhamento de testagem e o início da terapia antirretroviral (TARV) em gestantes e crianças expostas ao HIV.
Mandewo et al. (2020) analisaram os efeitos de um treinamento único de mentoria clínica para enfermeiros em serviços de prevenção da transmissão vertical do HIV no Zimbábue. Entre 2014 e 2018, 92% das 106.411 gestantes foram testadas para HIV, e 98% das mulheres diagnosticadas iniciaram terapia antirretroviral (TARV). Entre os 15.846 lactentes expostos ao HIV, 96% realizaram diagnóstico precoce por meio de coleta, entretanto, apenas 51% das crianças diagnosticadas com HIV iniciaram TARV. Diferenças estatisticamente significativas foram observadas em favor de unidades urbanas e daquelas com maior número de enfermeiros treinados (p<0,05, teste qui-quadrado de Pearson)
Feedback personalizado para diminuição de risco cardiovascular
O ensaio clínico randomizado piloto conduzido por Cioe et al. (2021) incluiu 40 pessoas vivendo com HIV, randomizadas para intervenção com feedback personalizado sobre risco cardiovascular ou grupo controle. Às 12 semanas, observou-se tamanho de efeito moderado na percepção de risco cardiovascular e nos comportamentos alimentares e de atividade física com aumento de número de passos entre os participantes de maior risco. Resultados indicam eficácia preliminar da intervenção comportamental personalizada.
Construção e validação de podcast educativo sobre saúde sexual
Leite et al. (2022) desenvolveram e validaram um podcast educativo voltado à saúde sexual e reprodutiva de adolescentes, incluindo temas como HIV/aids baseado em 4 etapas quadro teórico, identificação de temas, elaboração da tecnologia educacional e validação do material. Participaram 60 adolescentes e 11 especialistas na validação do conteúdo. O instrumento apresentou IVC por item de 0,87 e coeficiente alfa de Cronbach de 0,951, indicando excelente consistência interna e validade. Embora não tenha avaliado desfechos clínicos, o estudo demonstrou robustez metodológica na validação de tecnologia educacional, com potencial impacto na prevenção de infecções sexualmente transmissíveis.
Intervenção comunitária para aumento de autotestagem
O estudo de Abubakari et al. (2021) analisou três intervenções comunitárias voltadas a homens que fazem sexo com homens (HSH) em Gana. Na intervenção Nyansapo (adaptação do programa 3MV), baseado em 7 sessões com enfermeiras com intuito de reduzir risco de HIV e IST, observou-se aumento de 13% na testagem para HIV e incremento de 15% no uso de preservativos durante sexo anal. Além disso, 100% dos participantes relataram maior compreensão sobre a importância da testagem. Na intervenção digital, Auntie’s Corner, representado por um aplicativo com acesso ao enfermeiro, 85% dos participantes entraram em contato com profissionais de saúde e 97% reportaram sintomas por meio do aplicativo, indicando alta aceitabilidade e forte vínculo com o cuidado. Em relação ao aplicativo HIVE3, rede de HSH e pares mentores, houve aceitação e interação entre os participantes nos compartilhamentos de conhecimento e informação.
Aconselhamento motivacional
O ensaio clínico randomizado piloto de Mutambanengwe-Jacob et al. (2022) avaliou o impacto do aconselhamento em adesão tratamento realizado por enfermeiro associado ao monitoramento da carga viral, em mulheres vivendo com HIV (n = 50). O aconselhamento ocorreu no momento da entrega do resultado da carga viral, e por 2 meses consecutivos. Aos 6 meses, a supressão viral (<200 cópias/ml) foi observada em 64% das participantes, sem diferença estatisticamente significativa entre grupo intervenção e controle (p = 0,124). Aos 12 meses, a supressão foi de 69%, novamente sem diferença significativa (p = 0,739). Apesar disso, maior adesão às sessões de aconselhamento foi observada no grupo intervenção, sugerindo benefícios comportamentais, embora sem impacto virológico sustentado.
CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise comparativa dos 12 estudos evidencia que intervenções de baixo custo, baseadas em educação em saúde, tecnologias digitais, reorganização dos serviços e atuação multiprofissional, apresentam impactos estatisticamente significativos na prevenção do HIV, na adesão ao tratamento antirretroviral e na continuidade do cuidado. Apesar das diferenças metodológicas, os estudos convergem ao demonstrar ampliação do acesso ao diagnóstico e fortalecimento da vinculação aos serviços de saúde.
Estratégias estruturais, como a atuação da farmácia comunitária e o uso de tecnologias educacionais validadas, mostraram maior efetividade quando associadas ao apoio contínuo fora do ambiente clínico. Intervenções comportamentais personalizadas apresentaram efeitos moderados, como percepção de risco e adesão inicial. Tecnologias educativas demonstraram elevado rigor metodológico, porém ainda carecem de avaliação de impacto clínico direto. Persistem desafios relevantes na vinculação ao tratamento em populações específicas, especialmente crianças com HIV, reforçando a complexidade do manejo da infecção e a necessidade de abordagens integradas e sustentáveis.
No entanto, todas as abordagens apresentam-se como possibilidades reais de serem adotadas por graduandos do curso de farmácia e enfermagem no aprimoramento da formação acadêmica e profissional.
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1 Docente Curso Superior do Bacharelado em Farmácia e Enfermagem; Centro Universitário Senac, unidade Tiradentes – São Paulo. E-mail: [email protected]