REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/777184637
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo investigar as relações entre a noção de literariedade, compreendida como desvio organizado da linguagem comum, e a teoria da individuação de Gilbert Simondon, propondo que a escrita literária constitui um processo de individuação da língua. O percurso teórico articula contribuições de Terry Eagleton, Roman Jakobson, Roberto Acízelo de Souza e Cid Seixas acerca do texto literário e da literariedade com a filosofia da individuação de Simondon, particularmente os conceitos de transdução, concretização e objeto técnico. O percurso metodológico é de natureza qualitativa, ancorado em pesquisa bibliográfica e em análise da prosa de Hilda Hilst, a partir das contribuições de Jardim (2021), tomada como objeto que permite demonstrar a tese proposta. A análise evidencia que a literariedade, lida pelo viés simondoniano, opera como resolução de tensões entre a língua como sistema estável e a linguagem como processo criativo, e que cada desvio literário constitui uma individuação pela qual formas linguísticas novas emergem da tensão entre norma e criação. O artigo contribui para os estudos da língua e da literatura ao propor um modo de compreender a escrita literária como objeto técnico-estético cuja gênese é inseparável do seu devir.
Palavras-chave: Escrita; Literariedade; Individuação; Hilda Hilst.
ABSTRACT
This paper aims to investigate the relations between the notion of literariness, understood as an organized deviation from ordinary language, and Gilbert Simondon's theory of individuation, proposing that literary writing constitutes a process of individuation of language. The theoretical framework articulates contributions from Terry Eagleton, Roman Jakobson, Roberto Acízelo de Souza, and Cid Seixas on the literary text and literariness with Simondon's philosophy of individuation, particularly the concepts of transduction, concretization, and technical object. The methodological approach is qualitative, grounded in bibliographic research and in an analysis of Hilda Hilst's prose, based on the contributions of Jardim (2021), taken as the object through which the proposed thesis is demonstrated. The analysis shows that literariness, read through a Simondonian lens, operates as a resolution of tensions between language as a stable system and language as a creative process, and that each literary deviation constitutes an individuation through which new linguistic forms emerge from the tension between norm and creation. The article contributes to language and literature studies by proposing a way of understanding literary writing as a technical-aesthetic object whose genesis is inseparable from its becoming.
Keywords: Writing; Literariness; Individuation; Hilda Hilst.
1. INTRODUÇÃO
A gênese do ser humano é marcada por acontecimentos e experimentações que constituem o ato de existir. A percepção da língua e a vivência da linguagem nos processos de comunicação, leitura e escrita marcam os eventos de composição do ciclo da vida.
O florescimento diacrônico da vida na língua e na linguagem possibilita percepções que condicionam o desenvolvimento sensível do ser no mundo vivente. É nesse percurso que experimentamos o encontro das formas e dos traços que compõem as palavras, e que nos inserimos no universo da leitura, da escrita, do texto e da literatura.
É de imenso saber que a inserção do ser ao domínio das palavras desempenha um papel de grande importância em seu desenvolvimento psíquico-cognitivo, além de influenciar instintivamente em sua (trans)formação enquanto indivíduo e cidadão. A língua por meio da linguagem, da escrita e da leitura permitem a convivência e o conhecer do mundo e das coisas. Entretanto, o conhecer além, a experimentação linguageira, a criação de vida e a vivência de mundos, que pelas palavras são descritos e concebidos, e só acontecem com o auxílio e as atribuições da literatura.
Destarte, acreditamos que a literatura possa se caracterizar como uma fonte inexorável para individuações, transformações e metamorfoses que se dão através da escrita e do texto literário. O presente trabalho percorre as nuances da literariedade na constituição do texto literário e investiga as metamorfoses da escrita pelo viés da teoria da individuação de Gilbert Simondon. Para demonstrar a tese de que a literariedade opera como individuação da linguagem, o artigo propõe uma leitura da prosa de Hilda Hilst, a partir das contribuições de Jardim (2021), em articulação com os escritos de Terry Eagleton, Leyla Perrone-Moisés, Gilles Deleuze, Roberto Acízelo Quelha de Souza e Cid Seixas.
2. O TEXTO LITERÁRIO
O texto literário emprega, em sua composição, um amálgama da criação linguageira, embebendo-se dos princípios da realidade para suscitar e transmutar os imanentes fluxos do pensar em mundos extraordinariamente fantásticos. Os elementos de sua constituição permitem transposições e atravessamentos metamórficos (individuações3) que ocorrem por meio da linguagem (DELEUZE, 1997).
O texto literário tem como proposição a estética da criação artística que induz e provoca no leitor a experimentação distinta de sentimentos e sensações. A experimentação deste conjunto de emoções advém do processo de fruição da língua(gem) na sua composição textual. De acordo com Seixas (2017), este processo de fruição na escrita devém do emprego de recursos estilísticos (como a utilização de figuras de linguagem) que atuam na atribuição expressiva dos sentidos nos princípios de criação e compreensão textual, sendo inclusive, aquilo que define e difere o texto literário do texto não-literário. Afirma, ainda, o autor (2017) que
O texto literário é antes de tudo um jogo de linguagem, no qual esta pode aparecer tanto quanto o próprio conteúdo veiculado. Como essa linguagem artística é opaca, isto é, retém o olhar sobre si, antes de conduzi-lo ao objeto retratado, ela aparece como parte do objeto. Já o texto destinado a ensinar, a comunicar o saber da ciência, é uma modalidade de discurso informativo onde a linguagem é transparente, permitindo que a atenção do leitor atravesse as palavras e frases e veja de forma clara aquilo que é informado. Como o objetivo é mostrar algo, é explicar um conjunto de saberes, a linguagem científica é transparente – invisível aos olhos que buscam um objeto definido (SEIXAS, 2017, p. 31).
As ponderações de Seixas (2017) evidenciam apontamentos relacionados aos conjuntos de estruturação e formação do texto literário em si, uma vez que, o jogo de linguagem disposto no desenvolvimento de uma criação literária é, consequentemente, diferente daquele empregado a um texto científico-informativo, com preceitos não literários. De fato, a manipulação de certos recursos da língua provoca olhares que penetram e se prendem ao percorrer de um determinado texto, contudo, é importante ressaltar que as proposições de um bom enredo e de uma boa narrativa contribuem para a apreensão de uma boa e prazerosa degustação linguístico-literária.
É interessante enfatizar que no texto literário, as prospecções de sentido contidas em um enredo ou em uma narrativa emitem, em consonância com os recursos da linguagem, dobraduras que tendem a expandir a tessitura do próprio sentido da língua, visto que, durante o processo de produção, o leitor/escritor transpassa a sua própria concepção de escrita, já que, escrever é desvelar, por entre as nuances do viver, a plena potência individuante e (im)pessoal que permite aquele que escreve, o atravessamento conciso do vivível e do vívido para a criação de novas percepções, novos conceitos e novos mundos (DELEUZE, 1997).
O âmbito literário se dá como um campo fértil para as individuações e para as metamorfoses criativas da língua. São as metamorfoses (as individuações) que permitem o transitar do ser na língua(gem). São as metamorfoses que proporcionam a experimentação viva da linguagem na literatura e na criação do texto literário. São as metamorfoses que comportam as linhas de fuga que nos consentem trespassar as fronteiras da língua e dos seus mais variados sentidos para criar (para criar outros sentidos e outras línguas dentro da nossa própria língua). É justamente esse trespassar fugidio e metamórfico que torna oportuno a compreensão sensível de que, assim como a língua, a literatura também se mantém viva4, plena e em constante transformação.
Tais afirmações nos remetem aos escritos de Perrone-Moisés (2016), para quem algumas das principais convicções acerca da literatura, em meados do século XX, descreviam a escrita como um dispositivo de transformação da realidade e a literatura era compreendida como o “desvelamento” do real. Ainda, em decorrência ao texto, a autora discorre sobre a autonomia do texto literário em relação ao olhar daquele que escreve ou daquele que lê, visto que, o texto literário visa as potencialidades do escrever, uma vez que, “[...] a literatura a que nos referimos é a que se manifesta em determinados textos, escritos numa linguagem particular, textos que interrogam e desvendam o homem e o mundo de maneira aprofundada, complexa, surpreendente [...]” (PERRONE-MOISÉS, 2016, p.20).
3. A LITERARIEDADE
Os apontamentos de Perrone-Moisés (2016), nos fazem recorrer ao pensar de Terry Eagleton (2006) acerca da complexa definição do conceito de literatura e dos seus processos relativos à escrita criativa, evidenciando em seu manuscrito, o emprego peculiar da linguagem como própria do texto literário (e aquilo que faz dele o que é). À vista disso, ressalta o autor a importância da linguagem na acepção daquilo que é literatura, ressaltando que,
Talvez nos seja necessária uma abordagem totalmente diferente. Talvez a Literatura seja definível não pelo fato de ser ficcional ou "imaginativa'', mas porque emprega a linguagem de forma peculiar. Segundo essa teoria, a literatura é a escrita que, nas palavras do crítico russo Roman Jakobson, representa uma "violência organizada contra a fala comum". A literatura transforma e intensifica a linguagem comum, afastando-se sistematicamente da fala cotidiana. Se alguém se aproximar de mim em um ponto de ônibus e disser: "Tu, noiva ainda imaculada da quietude", tenho consciência imediata de que estou em presença do literário. Sei disso porque a tessitura, o ritmo e a ressonância das palavras superam o seu significado abstrato - ou, como os linguistas diriam de maneira mais técnica, existe uma desconformidade entre os significantes e os significados. Trata-se de um tipo de linguagem que chama a atenção sobre si mesma e exibe sua existência material, ao contrário do que ocorre com frases como: "Você não sabe que os motoristas de ônibus estão em greve?" (EAGLETON, 2006, p. 3).
Percebe-se, nas palavras de Eagleton (2006), o poder transformador e intensificador da escrita em relação à linguagem e seus sentidos no tocante ao texto literário (e aquilo que faz dele um texto literário). Neste sentido, salientamos a literariedade como parte do percurso metamórfico da linguagem na literatura. De acordo com os escritos de Boris Schnaiderman (desveladas no prefácio da obra Teoria da literatura: formalistas Russos, de Dionísio Toledo, publicado em 1971), o conceito de literariedade foi apresentado, primeiramente, por Roman Jakobson, como a característica principal do texto literário, ou seja, aquilo que distingue o texto literário do texto não literário, enfatizando que “A poesia é linguagem em sua função estética. Deste modo, o objeto do estudo literário não é a literatura, mas a literariedade, isto é, aquilo que torna determinada obra uma obra literária5” (JAKOBSON apud TOLEDO, 1971, p. IX).
A noção de literariedade apresentada por Jakobson denota algumas peculiaridades já conhecidas por nós em relação à constituição do texto literário. Um dos principais aspectos relacionados à literariedade e a concepção da escrita literária está associada ao emprego da linguagem que, como já dito, exerce um poder transfigurador inerente ao processo de captação dos sentidos na escrita que, por sua vez, devém de uma determinada seleção vocabular, formando assim, uma estrutura própria, o chamado texto literário6.
De acordo com Souza (2007), a literariedade pode ser percebida como a propriedade específica das obras que integram a chamada literatura stricto sensu7, sendo, inclusive, o elemento que, quando presente ao texto, permite a distinção de outras composições que não fazem parte do âmbito stricto literário. Afirma, ainda, o autor, que certos “desvios” perceptíveis, utilizados como marcas distintivas de literariedade por alguns autores do campo teórico da literatura, operam na organização e nas conjunturas da linguagem de determinados textos, como por exemplo:
O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão, e protegido por ela — braços largamente abertos, face volvida para os céus, — um soldado descansava. Descansava…
havia três meses.
Morrera no assalto de 18 de julho8
Tomando como exemplo o fragmento da obra Os Sertões, de Euclides Cunha, Souza (2007) evidencia o desvio como a combinação dos fatores lexicais (relativos ao uso vocabular, do verbo “descansar”) e sintáticos (inerentes à estrutura, particularmente, no aspecto peculiar da pontuação) presentes na composição da obra fracionada para demonstrar as marcas do desvio na constituição e na percepção da literariedade. Assim, ressalta o autor que
O "desvio" presente no trecho que nos serve de exemplo é constituído por um fato lexical (isto é, de vocabulário), combinado a um fato sintático ou, mais especificamente, de pontuação. O fato lexical se configura no emprego do verbo descansar. O primeiro parágrafo termina com a palavra "descansava", que em princípio nada tem de especial. Mas algo especial prepara-se quando o parágrafo subseqüente se inicia com a mesma palavra "descansava", à qual se segue a suspensão momentânea da frase, pelo emprego das reticências, concluindo-se o período com o segmento "havia três meses". Assim, antecipa-se o verdadeiro sentido daquele "descansava" inicial, finalmente revelado pela palavra que abre o último parágrafo: "morrera". Quanto ao fato sintático, de pontuação, ele consistiu no uso incomum das reticências, que, em vez de servirem de fecho à frase, operam um corte no meio dela, criando rápido suspense logo desfeito pela precipitação de seu segmento terminal. Ora, tanto o emprego do verbo descansar quanto o uso das reticências constituem, no caso em apreço, um desvio organizado, que afasta a linguagem desse fragmento das ocorrências mais ordinárias dos arranjos verbais. Segue-se disso que o trecho em análise, marcado pelo desvio apontado, constitui literatura em sentido estrito, apresenta propriedades especificamente literárias, possui literariedade (SOUZA, 2007, p. 51).
Levando em consideração as palavras de Souza (2007), podemos acentuar que as marcas desviantes que dão origem a literariedade do texto literário que, por sua vez, advém dos modos particulares de manipulação da linguagem, são, ainda, características relativas às proposições estilísticas que marcam a nuance de cada escritor em seus processos técnicos de criação, buscando sempre em suas técnicas, a obtenção de uma obra com a melhor composição estética. De fato, a literariedade, compreendida como um desvio, é sempre a responsável pela criação de universos ficcionais e imaginários, visto que, sua composição se dá simultaneamente à do texto literário, atravessando as formas, as normas e as barreiras da língua (OLIVEIRA, 2010).
4. O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO, A CONSTITUIÇÃO DA LÍNGUA(GEM) E DA ESCRITA COMO OBJETOS E SISTEMAS TÉCNICOS
Ao aludir acerca das particularidades criativas do texto literário e deslindar sobre alguns dos elementos que lhe dão forma, como a literariedade no emprego das marcas desviantes e no poder transformador que a linguagem possui no âmbito
Ao aludir acerca das particularidades criativas do texto literário e deslindar sobre alguns dos elementos que lhe dão forma, como a literariedade no emprego das marcas desviantes e no poder transformador que a linguagem possui no âmbito da literatura, é que adentramos ao campo filosófico para investigar os processos criativos da escrita e a sua tecnicidade. Aportamos, então, no pensar e nos escritos de Gilbert Simondon, com a teoria da individuação. Entretanto, para que possamos seguir com as inquietações que norteiam este texto, faz-se necessário flanar pelo conceito de individuação9 e sua perspectiva mediante a língua.
Sob o olhar do filósofo francês, Oliveira, Duarte e Peel (2019) explanam que a individuação é um processo que dá forma a uma nova fase do ser. Podendo, ainda, ser compreendida como a teoria da formação do indivíduo, ocorrendo desde os mundos físico, vital/biológico, psíquico e coletivo. A língua, nosso objeto de estudo, como parte vital do ser, compõe duas das quatro esferas da individuação, a vital (biológico) e a psíquica.
Ademais, nos é pertinente evidenciar os dois principais processos que operam no cerne no cerne da individuação, a transdução e a alagmática. Ambos são os processos que operam a individuação, sendo a alagmática o processo responsável pela formação do ser por meio das comutações com o meio. A transdução por outro lado, é um princípio geral e alagmático que permite, por meio da condução de energia interna e ressonante, a individuação. Na teoria da individuação, a transdução é compreendida como
uma operação física, biológica, mental, social, pela qual uma atividade se propaga gradativamente no interior de um domínio, fundando esta propagação sobre a estruturação do domínio operado de região em região: cada região de estrutura constituída serve de princípio de constituição à região seguinte, de modo que uma modificação se estende progressivamente ao mesmo tempo que esta operação estruturante. (SIMONDON, 2020, p.18)
À vista disso, evidenciamos a língua(gem), que, compreendida na esfera vital/biológica e psíquica da individuação, se mantém como um sistema vivo que se contorce e se desdobra, permanecendo sempre em constante transformação, pois, assim como o ser passível de metamorfoses é a língua(gem).
De acordo com Simondon (2020), a individuação eventualmente ocorre no mundo físico, visto que, nesta esfera a matéria adquire a sua forma e nela se conserva, como um cristal10. No entanto, no mundo vivo, a matéria possui uma dinamicidade interna que a concebe constantes individuações. A dinamicidade individuante presente no mundo vivo é acentuado pela noção de interioridade que, pontuando o autor, representa o modo interior de cada ser vivo, o constituindo como um “Teatro de individuações” (SIMONDON, 2020).
As interpelações de Simondon (2020) acerca da individuação no mundo vivo ainda recorrem a um terceiro nível, o coletivo, referindo-se aos modos pelos quais os indivíduos engendram redes, fundando o chamado campo transindividual. Entretanto, é ainda no coletivo que um quarto nível é desvelado, sendo ele, o do homem, evidenciando que a interioridade e a transindividualidade ocorrem no campo de um aparato psíquico. Assim, afirma o autor que
Individuar é resolver um problema existencial. A atividade de resolução nunca chega a um momento conclusivo, exceto no universo da matéria morta. Cada individuação gera uma realidade pré-individual que, por sua vez, servirá para as individuações sucessivas, mas apenas dentro do plano dessa linha “individuatória”: postulá-la como uma realidade geral das individuações seria apelar a um princípio de individuação. Mais: seria equivalente a colocar a realidade pré-individual como a origem das individuações. No pré-individual residem as singularidades que, precisamente por o serem, não podem formar um conjunto definível. Os seres humanos, entre o coletivo e o psíquico, seguem o caminho do pré-individual ao transindividual. (SIMONDON, 2020, p. 18)
Se individuar implica resolver uma tensão existencial, a escrita literária participa desse processo na medida em que a criação de um texto exige do escritor um desdobramento sobre si mesmo e sobre a língua, uma tensão entre o que a linguagem já é e o que ela pode vir a ser. A literariedade, entendida como desvio organizado da linguagem comum, opera precisamente nesse limiar: cada marca desviante é uma resolução provisória de uma tensão entre norma e criação, entre o uso corrente da língua e a sua transfiguração estética. É nesse sentido que a escrita literária pode ser compreendida como uma individuação da linguagem, um processo pelo qual a língua se desdobra sobre si mesma e produz formas que antes não existiam. A este respeito, sob a perspectiva de Simondon (2020), ressalta Jardim (2021) que
todos os seres possuem dentro de si uma unidade transdutiva que proporciona a percepção da individuação que, por sua vez, se dá como um devir do ser com suas múltiplas perspectivas e/ou possibilidades, não limitando-se apenas a uma unidade de identidade impassível de transformações e em estado estável. Em “A individuação à luz das noções de forma e informação”, Simondon elucida que as transformações decorrentes de uma individuação só são possíveis devido à unidade transdutiva presente no ser, pois é a partir dela que o ser consegue desdobrar-se em si mesmo e de um lado a outro desde o seu centro. Vale salientar que a unidade transdutiva permite a individuação constante do ser, uma vez que a individuação nunca se dá por completa e/ou acabada, proporcionando transformações aos seres viventes em resultado de suas inesgotáveis potencialidades e/ou competências intelectuais. (JARDIM, 2021, p. 23)
A tensão individuante se dá a partir das conjunturas do devir11 em estado de gênese, ou seja, em processo de criação. Desta forma, a tensão acontece por meio de estímulos metamórficos que excedem os princípios de forma e informação da matéria vital/biológica/psíquica o que, por sua vez, a faz se desdobrar sobre si mesma e se individuar, se transfigurar mediante a inquietação dos estímulos. É por meio da individuação que a criação acontece. A criação do ser e da vida, a criação da língua e da linguagem, a criação do traçar e dos traços que dão origem à escrita e à própria literatura.
Segundo Simondon (2020), a gênese criativa e metamórfica que denota o ser humano o institui, ainda, com uma característica incomum e distinta, a capacidade de difundir a matéria no mundo através da criação de objetos e sistemas técnicos e, por meio deles, degustar de uma vivência atenuante, sustentável e autônoma. Para o autor, os objetos e os sistemas técnicos são invenções, criação e gênese, ou seja, são as invenções criadas e propagadas pelo homem ao longo de sua existência.
Carvalho (2017) ressalta que a perspectiva de Simondon acerca da gênese, da invenção, emprega em seu conceito o sentido de existência, mesmo quando a criação não caracteriza uma novidade referente àquilo que já existia anteriormente. Destarte, explana o autor que
O conceito de invenção é tanto um instrumental conceitual de análise da realidade técnica quanto um critério de caracterização do que é propriamente técnico, do que faz da técnica uma ordem original de realidade. A invenção constitui o que podemos chamar de “realidade técnica”: método, ferramenta, instrumento, aparelho, dispositivo, máquina e rede técnica. Ela surge da necessidade de resolução de um determinado tipo de problema. (CARVALHO, 2017, p.02)
As proposições simondonianas expostas por Carvalho (2017) nos permitem compreender a língua, a linguagem e suas vertentes estéticas, a escrita e a literatura, como objetos e sistemas técnicos. Como objeto técnico, a língua em sua constante movimentação pelo viés da linguagem expressa uma contínua necessidade de se desdobrar e se expandir. Poderíamos concatenar que durante esse processo de expansão é que a linguagem se torna escrita que, individuando-se, se transforma em um conto; se transforma em uma prosa; se transforma em um verso e se transforma em literatura, carregando consigo traços e desvios estéticos/estilísticos embebidos de percepções que fazem da literatura um lugar de passagem, de morada e de experimentações.
É interessante meditar acerca dos preceitos transdutivos e alagmáticos no processo de individuação do ser na proliferação da linguagem e na criação da escrita literária como parte do seu ser, da sua gênese, visto que, “a gênese do objeto técnico faz parte do seu ser. O objeto técnico é aquilo que não é anterior a seu devir, mas está presente em cada etapa desse devir; o objeto técnico é uno é unidade de devir” (SIMONDON, 2020, p.56).
Outro aspecto importante a respeito dos objetos técnicos é o seu processo de individuação, denominado de “processo de concretização”. Simondon (2020) desvela que, pode-se chamar de processo aquilo que, de fato, é um ato humano que pode ser reprisado, demonstrado e examinado por meio das suas criações. Destarte, esclarece o autor que,
Concretizar é, como individuar, resolver uma tensão existencial, que no caso do técnico é uma dificuldade de funcionamento. Concretizar é construir uma ponte entre a evidente atividade artificializante do homem e o natural. O objeto ou sistema técnico concreto, ou seja, resultante de um processo de concretização, adquire uma autonomia que lhe permite regular seu sistema de causas e efeitos e operar uma relação bem-sucedida com o mundo natural. O artificial é aquilo que, uma vez criado e objetivado pelo homem, ainda exige que sua mão corrija ou proteja sua existência. (SIMONDON, 2020, p.19)
Conforme destaca Simondon (2020), o processo de concretização implica na construção de um vínculo entre a atividade artificializante do homem e o natural. Neste sentido, meditamos acerca da escrita que, como aporte para o registro das perlocuções linguageiras, funciona como um vínculo, interligando as dimensões reais do ser e da língua(gem) para a concepção de uma nova realidade, que pode ser a ficção ou a fantasia. A escrita retém a capacidade inventiva do ser humano, e pelo viés da linguagem dispõe a gênese de universos, realidades e mundos que são experimentados e vivenciados.
Cabe-nos, ainda, enfatizar que a resolução de uma tensão existencial seria a própria necessidade de criação e, desta forma, a escrita e a própria literatura concerniriam na convergência resolutiva desta tensão que, por sua vez, nunca ascenderia a uma conjuntura conclusiva.
Os contornos que moldam a escrita e engendram a literatura do texto carregam a gênese da língua(gem) em suas especificidades e individualidades, visto que ambas (as especificidades e as individualidades) são atributos e modalidades de consistência e convergência desta gênese. As modalidades de consistência e convergência são as responsáveis pela distinção estético-específica da gênese do objeto, contribuindo para a compreensão das características que circundam a totalidade de suas formas. A este respeito, Simondon (2020, p.56) desvela que
Conforme modalidades determinadas, que distinguem a gênese do objeto técnico da de outros tipos de objetos: objeto estético, ser vivo. Essas modalidades específicas da gênese devem ser distinguidas de uma especificidade estética que pudéssemos estabelecer após a gênese, considerando a característica dos diversos tipos de objetos; o uso do método genético tem por objetivo, precisamente, evitar um pensamento classificador, que intervenha depois da gênese para distribuir a totalidade dos objetos em gêneros e espécies convenientes ao discurso. O passado de um ser técnico em evolução permanece nesse ser, essencialmente, sob a forma de tecnicidade. O ser técnico, portador de tecnicidade segundo a via que chamaremos de analética, só pode ser objeto de um conhecimento adequado quando este capta em si o sentido temporal de sua evolução. Esse conhecimento adequado é a cultura técnica, distinta do saber técnico, que se limita a captar na atualidade os esquemas isolados do funcionamento. (SIMONDON, 2020, p.56).
A gênese do objeto técnico, como já dito anteriormente, é um componente constitutivo do ser e está presente em cada etapa do seu devir, ou seja, defronte das transfigurações e metamorfoses do ser em si mesmo. A língua(gem) é a gênese da escrita literária, ou melhor dizendo, da literatura; a escrita carrega a tecnicidade da língua(gem) em seus entremeios; a língua(gem) está presente em todos os processos de evolução da escrita e da literatura. Logo, a escrita fantástica cognominada literatura é um fruto das possíveis e passiveis transmutações de um ser vivo alcunhado língua(gem). É valoroso acentuar que as alcunhas linguístico-linguageiras embebidas de literariedade e sentidos múltiplos conduzem noções individuantes (evolutivas) aos seres que a conhecem e a experimentam.
Outro aspecto importante acerca da individuação está relacionado ao seu princípio evolutivo que, como sabemos, se dá por convergência interna e adaptação de um ser a ele mesmo o que, por sua vez, resulta na formação do objeto técnico. Simondon (2020) nos diz que o objeto técnico se encontra, pois, como uma nuance especifica obtida ao final de uma série de convergências que transladam do modo abstrato ao modo concreto e “tende para um estado no qual o ser técnico seria um sistema inteiramente coerente consigo mesmo, inteiramente unificado” (SIMONDON, 2020, p.60).
Destarte, a escrita e o texto literário seriam um resultado específico das diversas metamorfoses da linguagem que partilham as nuances interpositivas da língua (que se transfigura no decorrer e ao longo do tempo). Com fundamento nas proposições técnicas da individuação, Simondon (2020) enfatiza que o percurso evolutivo dos objetos técnicos (ou técnico-estéticos) comporta patamares definidos pela realização organizacional e progressiva de estruturas e sistemas sucessivos de coerência. À vista disso, Simondon (2020, p.65) evidencia que
A evolução específica dos objetos técnicos não se faz nem de absolutamente contínua nem da maneira completamente descontínua; comporta patamares definidos pelo fato de realizarem sistemas sucessivos de coerência; entre os patamares que marcam uma reorganização estrutural pode haver uma evolução do tipo contínuo, a qual se deve a aperfeiçoamentos de detalhes resultantes da experiência do uso, bem como produção de matérias-primas ou a dispositivos anexos mais adaptados. (SIMONDON, 2020, p. 65).
Diante do exposto por Simondon (2020) é que percebemos os aspectos contínuos de evolução da língua(gem), da escrita e da literatura como objeto técnico-estético, além das suas conjecturas em relação à individuação. Ao longo dos diversos anos de vivência do ser humano, a língua, a linguagem e a escrita engendraram funções relativas as necessidades do ser vivo, transpassando os níveis e as nuances pertinentes as ações comunicativas até a premência de resguardo em registro dos acontecimentos e das histórias de povos e culturas variadas. Poderíamos dizer que a literatura é o objeto linguageiro capaz de expressar e empregar os sentidos que contornam a existência do homem e da vida.
A Literariedade Como Individuação: Uma Leitura da Prosa de Hilda Hilst
O arcabouço teórico construído nas seções anteriores permite agora uma leitura que demonstre, em um texto literário concreto, o funcionamento da literariedade como processo de individuação da linguagem. Para tanto, recorremos à prosa de Hilda Hilst, cuja obra ficcional, inaugurada com Fluxo-floema (1970), constitui um território privilegiado para essa investigação. Como demonstra Jardim (2021), a escrita de Hilst opera por uma intensificação radical dos processos de desvio linguístico, em que a sintaxe se fragmenta, as vozes narrativas se sobrepõem e a linguagem se dobra sobre si mesma até produzir formas que desestabilizam as expectativas do leitor e as convenções do gênero. O que a leitura formalista identificaria como desvio estilístico, a perspectiva simondoniana permite compreender como individuação: cada ruptura sintática, cada deslocamento semântico, cada neologismo constitui uma resolução de tensão entre a língua como sistema estabilizado e a linguagem como processo criativo em curso.
Em Fluxo-floema, a narrativa se constrói por um fluxo de consciência em que as fronteiras entre narrador e personagem, entre discurso direto e indireto, entre prosa e poesia se dissolvem continuamente. A linguagem de Hilst opera por acumulação e ruptura simultâneas: as frases se prolongam, incorporam vozes alheias, se interrompem e reiniciam em outro registro, como se a língua estivesse permanentemente em estado de gênese. Essa escrita pode ser compreendida, nos termos de Simondon (2020), como um teatro de individuações: a cada frase, a linguagem se encontra em estado metaestável, carregando uma tensão entre a forma constituída e a informação nova que a excede. O desvio hilstiano resolve provisoriamente essa tensão ao produzir uma configuração linguística que antes não existia, uma forma que emerge do embate entre o sistema da língua e a potência criativa que o transborda. Conforme evidencia Jardim (2021), a escrita de Hilst realiza o que Simondon denomina transdução: uma operação pela qual a atividade criativa se propaga de região em região do texto, e cada configuração nova serve de princípio para a seguinte, de modo que a individuação da linguagem se estende progressivamente ao longo da obra.
O contraste com a leitura que Souza (2007) realiza do fragmento de Os Sertões, apresentada na seção anterior deste artigo, é revelador. A análise de Souza identifica com precisão os desvios lexicais e sintáticos que constituem a literariedade do trecho de Euclides da Cunha, descrevendo o que acontece na superfície do texto: a ambiguidade do verbo “descansar”, o uso incomum das reticências, o efeito de suspense. Essa descrição é rigorosa e necessária, contudo se detém no plano da constatação do desvio. A perspectiva simondoniana, mobilizada a partir da leitura de Hilst empreendida por Jardim (2021), permite ir além: permite perguntar o que produz o desvio, qual tensão ele resolve, e como a sua resolução gera novas tensões que impulsionam a escrita adiante. No caso de Euclides da Cunha, a tensão se dá entre a língua informativa (o relato de guerra) e a língua literária (a transfiguração estética da morte em descanso), e o desvio constitui a individuação pela qual a linguagem jornalística se desdobra em linguagem literária, produzindo uma forma nova que carrega em si a tecnicidade de ambas. No caso de Hilst, a tensão é ainda mais radical, porque a língua se individua continuamente, em cada frase, sem se estabilizar em nenhuma forma definitiva, permanecendo em estado de gênese permanente.
Essa leitura evidencia que a literariedade, compreendida pelo viés da individuação, é um processo e uma operação, e a tecnicidade da língua é a condição que torna essa operação possível. A escrita literária, de Euclides a Hilst, individualiza a linguagem ao resolver tensões entre o sistema e a criação, e cada resolução carrega consigo a gênese das resoluções seguintes. A literatura, nessa perspectiva, é o objeto técnico-estético que faz da tecnicidade da língua a matéria da sua própria individuação.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O texto literário carrega consigo a gênese de mundos possíveis, criados pela potência da linguagem em seus processos de individuação. É essa potência que o presente artigo buscou investigar, percorrendo as nuances da literariedade e da tecnicidade da escrita.
O percurso deste artigo evidenciou que a literariedade, compreendida como desvio organizado da linguagem comum, constitui o ponto em que a dimensão estética da escrita e a dimensão técnica da individuação se encontram. A noção de desvio, tal como formulada por Jakobson e desenvolvida por Souza (2007), descreve o que acontece na superfície do texto literário: a transfiguração da língua corrente em linguagem opaca, que retém o olhar sobre si. A teoria da individuação de Simondon (2020), por sua vez, permite compreender o que opera sob essa superfície: cada desvio literário é uma resolução de tensão entre a língua como sistema estável e a linguagem como processo criativo, entre a forma já constituída e a informação nova que a excede. A escrita literária, nessa perspectiva, funciona como um objeto técnico-estético cuja gênese é inseparável do seu devir, carregando em cada etapa a tecnicidade da língua que a constitui.
A articulação entre literariedade e individuação abre caminhos para investigações futuras, sobretudo no que diz respeito ao processo de concretização do texto literário, à relação entre o milieu associado do objeto técnico e o contexto de produção da escrita, e às implicações da transdução para a compreensão da leitura como operação individuante. O que este artigo buscou demonstrar é que a escrita literária, ao transfigurar a linguagem comum por meio do desvio, realiza uma individuação da língua, um processo pelo qual formas novas emergem da tensão entre o que a língua já é e o que ela, pela criação, pode vir a ser.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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JARDIM, Carlos Eduardo Herculano. Estilística e Devir nos processos de individuação: Experimentação de escritos de Hilda Hilst à luz das contribuições filosóficas de Deleuze e Simondon. Brasil, 2021. 111 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico) – Curso de Pós-Graduação (Mestrado) em Letras Ensino de Língua e Literatura. Universidade Federal do Tocantins, Tocantins, 2021.
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OLIVEIRA, Luiz Roberto Furtado de; DUARTE, Layssa de Jesus Alves; PEEL, Misleine de Andrade Ferreira. A experimentação das palavras: da imagem-percepção à imagem-relação (da transdução à alagmática). João Pessoa: Ideia, 2019.
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TOLEDO, Dionísio de Oliveira (Org.). Teoria da literatura: formalistas russos. Prefácio de Boris Schnaiderman. Porto Alegre: Globo, 1971.
O presente trabalho foi realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Brasil (CAPES) - Código de Financiamento 001.
1 É Mestre em Ensino de Língua e Literatura pelo Programa de pós-graduação em Ensino de Língua e Literatura (PPGL) da Universidade Federal do Tocantins (UFT); Possui graduação em Letras - Língua Portuguesa e Respectivas Literaturas, também, pela Universidade Federal do Tocantins; É especialista em Didática e Metodologia do Ensino de Língua Portuguesa pela Faculdade Educacional da Lapa (FAEL); Atualmente, é aluno regular do curso de doutorado do Programa de Pós-graduação em Linguística e Literatura (PPGLLIT), da Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT). E-mail: [email protected]
2 Possui pós-doutorado em Letras (Terminologia Gramatical e Ensino de Língua Portuguesa), pela Universidade da Beira Interior; pós-doutorado em Letras Clássicas (Latim), pelo Laboratório de Letras Clássicas da Universidade Federal da Paraíba (2015); graduação em Arquitetura e Urbanismo, pela Universidade Católica de Santos (1982); graduação em Letras Português/Grego, pela Universidade de São Paulo (1988); licenciatura em Português, pela Universidade de São Paulo (1988); mestrado em Letras (Letras Clássicas), pela Universidade de São Paulo (1994); e doutorado em Letras (Letras Clássicas), pela Universidade de São Paulo (2000). É professor da Universidade Federal do Norte do Tocantins / Universidade Federal do Tocantins (Curso de Letras e Programa de Pós-Graduação em Ensino de Língua e Literatura). Tem experiência na área de Letras Clássicas, Filologia, Teoria Literária e Linguística, atuando principalmente nos seguintes temas: semiótica, cognição, lógica, metodologia, arte e filologia. E-mail: [email protected]
4 A nuance metamórfica presente neste trabalho advém da teoria da individuação, do filosofo francês Gilbert Simondon. De acordo com Simondon a individuação é o acontecimento que dá forma a uma nova fase do ser. A individuação pode ser entendida como a teoria da constituição/formação do indivíduo, e essa formação ocorre em quatro esferas: física, biológica, psíquica e coletiva. No cerne da individuação, encontram-se as operações alagmáticas, que promovem a atualização constante do ser por meio de trocas (OLIVEIRA; DUARTE; PEEL, 2019, p. 100). Atentamos, então, ao âmbito literário e linguageiro a noção de individuação para evidenciar as transformações e as metamorfoses da língua(gem) no processo criativo da escrita.
5 De acordo com a percepção linguística, a língua é um sistema vivo e dinâmico que se mantém e/ou permanece em constante transformação e movimento (BAGNO, 2007). Para nós, a literatura é um constructo linguageiro responsável pela condução do ser por entre as linhas do real e do imaginário, transformando (e metamorfoseando) não só a língua, a linguagem e os seus sentidos, como também, a percepção de quem lê e escreve. São as metamorfoses criativas que nos proporcionam a experimentação e o sentir a vida no entrepassar das linhas na literatura.
6 Jakobson, Roman, apud SCHNAIDERMAN, Boris. Prefácio. In: TOLEDO, Dionísio, organização, apresentação e apêndice. Teoria da literatura; formalistas russos. Porto Alegre: Globo, 1971. p. IX-X.
7 Cf. SCHNAIDERMAN, 1971.
8 Roberto Acízelo de Souza, em sua obra Teoria da literatura, publicada em 2007, apresenta em seu quarto capítulo intitulado “A constituição da teoria da literatura”, a literatura latu sensu que, sob a orientação positivista do século XIX, representava todo o conjunto de produção escrita e seus objetos de estudos literários. O autor evidencia, ainda, a Literatura stricto sensu, como sendo aquela responsável por “parte da produção escrita e de certas modalidades de composições verbais de natureza oral (não-escrita), dotadas de propriedades específicas, que basicamente se resumem numa elaboração especial da linguagem e na constituição de universos ficcionais ou imaginários” (SOUZA, 2007, p. 46).
9 CUNHA, Euclides da. Os sertões. Rio de Janeiro: Francisco Alves, p. 29-30. In: Souza, Roberto Acízelo Quelha de. Teoria da Literatura. 10. ed. São Paulo: Ática, 2007.
10 Não entraremos em detalhes a respeito de todos os aspectos responsáveis pela individuação, visto que, não compete a este trabalho, mas apresentaremos o conceito geral para que possamos compreender o processo de concretização que, de fato, será imprescindível para a construção e o entendimento deste. O conceito de individuação é apresentado nos escritos de Gilbert Simondon em A individuação à luz das noções de forma e informação e em Do modo de existência dos objetos técnicos.
11 No mundo físico o principal exemplo de individuação é apresentado pela constituição do cristal de gelo que ao se formar permanece na mesma forma sem sofrer qualquer alteração e/ou mutação.