REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792529011
RESUMO
A adolescência constitui uma etapa fundamental do desenvolvimento humano, marcada por transformações psicossociais e pela construção da identidade, processo que pode assumir maior complexidade quando vivenciado em contextos de vulnerabilidade social. As condições de desigualdade, fragilização de vínculos, restrição de direitos, estigmatização e limitações de acesso a oportunidades podem atravessar os processos de subjetivação, a autopercepção e os projetos de vida dos adolescentes. Diante dessa problemática, este estudo justifica-se pela necessidade de compreender as repercussões das condições sociais sobre a construção identitária, contribuindo para uma atuação psicológica contextualizada e para o fortalecimento de políticas públicas voltadas à garantia de direitos. O objetivo foi analisar, a partir da produção bibliográfica em Psicologia, como o contexto de vulnerabilidade social influencia os processos de subjetivação e a formação da identidade na adolescência, considerando os referenciais relacionados a identidade, adolescência e vulnerabilidade social, bem como os impactos do estigma, do território e da desigualdade social. Realizou-se uma pesquisa bibliográfica, de caráter descritivo e exploratório, fundamentada em fontes secundárias e em produções científicas publicadas em língua portuguesa nos últimos dez anos, com análise temática do material selecionado. Os resultados demonstraram condições sociais, vínculos, pertencimento, ao território, às desigualdades e aos processos de reconhecimento e estigmatização. Evidenciou-se, ainda, que a vulnerabilidade social não determina a identidade dos adolescentes, mas pode influenciar suas oportunidades, relações e experiências de pertencimento. Conclui-se que a psicologia deve compreender o adolescentes de maneira integral e contextualizada, evitando interpretações individualizantes e deterministas, além de contribuir para o fortalecimento de vínculos, garantia de direitos, participação social e desenvolvimento de políticas públicas protetivas.
Palavras-chave: adolescência; identidade; processos de subjetivação; vulnerabilidade social.
ABSTRACT
Adolescence is a fundamental stage of human development, marked by psychosocial transformations and identity construction, a process that may become more complex when experienced in contexts of social vulnerability. Conditions of inequality, weakened social bonds, restricted rights, stigmatization, and limited access to opportunities may affect processes of subjectivation, self-perception, and adolescents’ life projects. In view of this issue, this study is justified by the need to understand the repercussions of social conditions on identity construction, contributing to contextualized psychological practice and to the strengthening of public policies aimed at guaranteeing rights. The objective was to analyze, based on the psychological literature, how the context of social vulnerability influences processes of subjectivation and identity formation during adolescence, considering theoretical frameworks related to identity, adolescence, and social vulnerability, as well as the impacts of stigma, territory, and social inequality. A descriptive and exploratory bibliographic study was conducted, based on secondary sources and scientific publications in Portuguese from the last ten years, with thematic analysis of the selected material. The results demonstrated that adolescent identity is dynamically constructed and related to social conditions, social bonds, belonging, territory, inequalities, and processes of recognition and stigmatization. It was also evidenced that social vulnerability does not determine adolescents’ identities, but may influence their opportunities, relationships, and experiences of belonging. It was concluded that Psychology should understand adolescents in an integral and contextualized manner, avoiding individualizing and deterministic interpretations, while contributing to the strengthening of social bonds, the guarantee of rights, social participation, and the development of protective public policies.
Keywords: adolescence; identity; processes of subjectivation; social vulnerability.
1. INTRODUÇÃO
A adolescência se constitui como uma etapa fundamental do desenvolvimento humano, marcada não apenas por transformações biológicas e hormonais, mas sobretudo por profundas reconfigurações psicossociais. Nesse período, o indivíduo vivencia a transição para novos papéis na sociedade, processo que convoca a reorganização de sua subjetividade e a construção de sua identidade. Quando a adolescência é atravessada por contextos de vulnerabilidade social, caracterizada pela escassez de recurso socioeconômicos, fragilização de vínculos e restrição de acesso a direitos básicos, essa fase de transição ganha contornos de maior complexidade, podendo impactar de maneira significativa a saúde mental, as percepções de si e os projetos de futuro dos adolescentes.
Diante desse cenário, torna-se fundamental problematizar de que modo as condições objetivas de vida e as barreiras socioestruturais atravessam a dimensão subjetiva dos sujeitos em desenvolvimento. A construção da identidade na adolescência não ocorre de forma isolada, mas em contínua relação com o meio e com os discursos que circulam nos territórios ocupados por esses jovens. Assim, esta pesquisa busca compreender de que maneira a literatura científica em psicologia analisa e discute a influência do contexto de vulnerabilidade social na formação da identidade de adolescentes, identificando os principais aportes teóricos, as lacunas do conhecimento acumulado e os impactos dessas vivências na saúde mental e nos projetos de vida dessa população.
Em virtude da problemática apresentada, tem-se como objetivo geral analisar, a partir da produção bibliográfica em Psicologia, como o contexto de vulnerabilidade social influencia os processos de subjetivação e a formação da identidade na adolescência. A partir deste norte, tem-se como objetivos específicos: identificar os principais referenciais teóricos utilizados na literatura para conceituar identidade, adolescência e vulnerabilidade social, mapear as principais discussões científicas sobre o impacto do estigma, do território e da desigualdade social na autopercepção dos adolescentes para a prática da Psicologia e o fortalecimento de políticas públicas.
Esta pesquisa justifica-se através do reconhecimento da adolescência se constituir como uma etapa do desenvolvimento humano caracterizado por profundas reconfigurações psíquicas sociais e relacionais momento em que o sujeito reorganiza Sua percepção de si e elabore seus projetos de futuro. Contudo, esse processo de estruturação identidade não ocorre no vazio: ele é profundamente perpassado pelas condições materiais, territoriais simbólicas do meio e que os jovens estão inseridos. Quando essa fase do ciclo vital transcorre em cenário de vulnerabilidade social, marcados pela negação de direitos fundamentais, precarização de vínculos e exposição a estigmas, a trajetória de subjetivação e a construção da identidade podem sofrer impactos expressivos.
A realização deste estudo justifica-se, no âmbito social, pela urgência de se lançar luz sobre as assimetrias e desigualdades que afetam a juventude contemporânea. Compreender como os marcadores de classe, território e exclusão social incidem sobre a autopercepção dos Adolescentes é fundamental para combater a individualização de problemas que são, em sua essência, sócio estruturais do ponto de vista científico acadêmico a pesquisa se fundamenta na importância de sistematizar e analisar criticamente o acervo bibliográfico produzido pela psicologia.
Diante da pluralidade de referenciais teórico sobre o tema, a compilação e o mapeamento dessa literatura permitem identificar as principais correntes explicativas, os consensos gerados teóricas ainda existentes no conhecimento acumulado por fim, no campo da prática da Psicologia justificativa resíduo Na necessidade de fornecer subsídios conceituais para qualificar a atuação de psicólogos Em contextos de vulnerabilidade, seja na proteção social básica e especial (como no CRAS e CREAS), nas escolas ou em projetos comunitários.
Para atender aos objetivos propostos, já apresentados neste trabalho, este estudo caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de caráter descritivo exploratório, fundamentada exclusivamente em fontes secundárias. O levantamento bibliográfico será realizado por meio de busca em base de dados acadêmicas tais como SciELO, PePSIC, LILACS e Google Acadêmico como critério de exclusão serão selecionados artigos científicos de dissertações e teses publicados em língua portuguesa. No recorte temporal dos últimos dez anos que aborda de forma direta a articulação entre adolescência e identidade vulnerabilidade social sobre a perspectiva da Psicologia.
Em contrapartida, serão excluídas obras fora do período delimitado de investigações que não foquem no público adolescente ou que fujam do escopo teórico da ciência psicológica. Por fim, o procedimento de análise consistirá na organização e leitura analítica de material selecionado, seguindo a caracterização temática do conteúdo, visando evidências principais convergências vírgulas divergências e lacunas presentes na literatura científica.
2. IDENTIDADE, VULNERABILIDADE SOCIAL E PROCESSOS DE SUBJETIVAÇÃO NA ADOLESCÊNCIA
2.1. Identidade, Adolescência e Vulnerabilidade Social
A compreensão da identidade na adolescência exige considerar que esse processo não ocorre de maneira isolada ou exclusivamente relacionado às características individuais do sujeito. A construção da identidade acontece em permanente relação com a experiências sociais, culturais, familiares, educacionais e históricas que atravessam a trajetória de cada adolescente. Nesse sentido, compreender adolescentes em situação de vulnerabilidade social implica reconhecer que suas formas de perceber a si mesmo e estabelecer vínculo são influenciadas pelas condições concretas nas quais vivem, pelas oportunidades que encontram e pelo significado atribuídos às suas experiências.
A adolescência constitui o período marcado por transformações físicas vírgulas psicológicas e sociais, mas sua compreensão não deve ser reduzida a uma etapa universal vivenciada de maneira idêntica por todos os indivíduos. Silva e Lopes (2009) discutem justamente a necessidade de compreender a adolescência e a juventude considerando diferentes contextos sociais e as formas pelas quais esses conceitos são produzidos também pelas políticas públicas. Essa perspectiva permite compreender que as experiências adolescentes são atravessadas pelas condições históricas e sociais nas quais os sujeitos estão inseridos.
Na perspectiva psicossocial de Erikson (1968), adolescência ocupa lugar importante no processo de Constituição da identidade. O período envolve a necessidade de integrar experiências anteriores, experiências futuras e diferentes possibilidades de atuação social a identidade, nessa perspectiva, relaciona-se a construção de uma percepção relativamente coerente de si e do próprio lugar no mundo. Entretanto, quando esse processo é analisado considerando a adolescência em situação de vulnerabilidade, torna-se necessário ampliar a compreensão para além dos aspectos individuais, observando as condições sociais que podem favorecer ou dificultar a elaboração dessas experiências.
Essa compreensão aproxima-se da discussão apresentada por Bauman (2005), para que a identidade não deve ser entendida como algo completamente fixo e acabado. A identidade está relacionada ao processo de construção e reconstrução que acompanha as transformações vivenciadas pelos sujeitos. Dessa maneira, pensar a identidade durante a adolescência significa considerar um processo em movimento, no quadro das relações sociais as experiências vividas participou da definição de pertencimentos, diferenças, expectativas e projetos de vida.
A relação entre identidade e contexto social também aparece na discussão de Dayrell (2007), ao considerar a juventude a partir da sua inserção concreta no mundo social o jovem não pode ser compreendido somente pela idade cronológica ou por características atribuídas genericamente a juventude, pois suas experiências são constituídas em diferentes espaços sociais a escola, a família, o território e os grupos de convivência, por exemplo, participa da construção dessas experiências juvenis e influenciam as possibilidades de elaboração de projetos para o presente e para o futuro
Nesse sentido, a vulnerabilidade social não deve ser compreendida simplesmente como uma característica individual do adolescente. Soares, Ávila e Savetti (1998), ao discutir a vulnerabilidade de adolescentes, contribuem para uma compreensão que considera a relação entre os sujeitos e as condições sociais que podem ampliar sua exposição à situação de risco e limitar a possibilidade de proteção. Essa perspectiva é importante porque desloca a análise de uma interpretação individualizante para uma abordagem que considera as relações sociais e as condições objetivas de existência.
A vulnerabilidade, portanto, pode interferir nos processos de desenvolvimento e subjetivação à medida que determinadas condições sociais restringem o acesso a recursos , direitos, espaço de participação e oportunidades. entretanto, isso não significa estabelecer uma relação automática entre vulnerabilidade e uma determinada identidade. adolescentes que vivem em contexto semelhantes podem construir trajetórias diferentes, Justamente porque a constituição da subjetividade resulta da interação entre condições sociais, relações interpessoais, experiências individuais e possibilidades de significação.
Amparo, Alves e Cárdenas (2004), ao abordarem pertencimento e identidade em adolescentes em situações de risco, contribuem para compreender a importância das relações estabelecidas com grupos e contextos sociais da construção e identidade. O sentimento de pertencimento pode participar da maneira como adolescente se reconhece e se posiciona socialmente, especialmente quando se encontra em situações marcadas por fragilidades sociais. Dessa forma, a identidade pode ser compreendida também a partir dos vínculos que possibilitam o sujeito reconhecer-se como parte de determinados grupos e espaços.
Discussão sobre adolescência situação de rua realizada por Dezonet e Wollmann (2015) amplia essa questão ao problematizar os processos identificatórios diante da experiência de intensa vulnerabilidade a ruptura ou fragilização de vínculos e a exposição a contentes sociais adversas podem interferir nas formas pelas quais o adolescente atribui significados a própria trajetória. Nesse caso, a identidade não pode ser analisada separadamente das relações sociais e das experiências concretas que atravessam o cotidiano.
Sales (2014), ao discutir a constituição da identidade na adolescência considerando trabalho, classe e gênero, reforça a necessidade de reconhecer que os processos de identidade são atravessados por diferentes dimensões sociais. A adolescência não representa uma experiência homogênea. As condições de classe, as relações de gênero e as possibilidades de inserção social podem produzir experiências distintas e influenciar a maneira como adolescente constrói expectativas, interpreta sua realidade e se posiciona diante dela.
Essa perspectiva permite compreender que falar em identidade adolescente significa considerar simultaneamente dimensões individuais e sociais. A identidade é construída na relação entre aquilo que o sujeito reconhece a si, aquilo que vivencia nas relações com os outros e os lugares sociais que eles são atribuídos. Assim, situações de vulnerabilidade podem produzir obstáculos importantes para a construção de trajetórias mais protegidas, sobretudo quando se associam à exclusão, à ausência de oportunidades e à fragilização dos vínculos.
Desse modo, a vulnerabilidade social não deve ser interpretada como elemento capaz de determinar previamente a identidade de um adolescente. Ela constitui um conjunto de condições que podem influenciar a experiência, vínculos, oportunidades e formas de pertencimento, essa compreensão conduz ao eixo seguinte desta fundamentação no qual torna-se necessário aprofundar com estigma território e desigualdade participando desse processo.
2.2. Estigma, Território e Desigualdade Social na Construção da Identidade do Adolescente
Se a identidade é construída na relação entre sujeito e contexto, torna-se necessário analisar os significados sociais atribuídos aos espaços, grupos e características associados aos adolescentes em situação de vulnerabilidade. O contexto social não influencia a identidade apenas por meio das condições materiais de existência, mas também por meio das representações sociais, dos processos de reconhecimento e das formas de classificação que atravessam as relações cotidianas
A estigmatização constituem, nesse sentido, um aspecto relevante para compreender a experiência de adolescentes inserida em contextos periféricos ou socialmente vulnerabilizados. Carneiro e Antunez (2020), ao discutirem Juventude periférica e estigmatização social, coloca em evidência a relação entre Juventude, território e processo de atribuição de marcas sociais a maneira como determinado grupo percebido socialmente pode influenciar as relações estabelecidas com esse grupo e participa dos processos por meio dos quais seus integrantes constroem percepções sobre si.
O estigma não deve, entretanto, ser compreendida apenas com uma característica presente nas relações interpessoais. Ele pode assumir dimensão social mais ampla com determinados territórios ou grupos associados predominantemente a violência, à pobreza ou ao risco. Oliveira, Luiz e Couto (2022), ao analisarem adolescentes, áreas de pobreza e violência a partir de uma perspectiva interseccional, evidenciam a importância de considerar a articulação entre diferentes condições sociais na compreensão das experiências adolescentes.
A perspectiva territorial também permite compreender que o espaço onde o adolescente vive não representa apenas uma localização geográfica, o território participa da construção das relações sociais, das oportunidades disponíveis e das experiências de pertencimento. Dayrell (2007) contribui para essa compreensão ao enfatizar a importância dos espaços sociais da experiência juvenil. A escola e outros espaços de convivência constituem ambientes nos quais os jovens produzem relações, constroem significados e elaboram suas experiências.
Ao relacionar-se pertencimento e identidade em adolescente em situação de risco, reforça-se a importância dos vínculos sociais para a Constituição da identidade. o pertencimento envolve a possibilidade de reconhecer-se em determinados grupos e contextos (Amparo; Alves; Cárdenas, 2004). Quando o adolescente encontra espaços nos quais é reconhecido e valorizado, esses vínculos podem contribuir para a sua construção de identidade. Em contrapartida, experiências de exclusão ou desvalorização podem produzir conflitos relacionados à maneira como o sujeito percebe seu lugar social.
Essa questão pode ser relacionada aos processos identificatórios analisados por Dezonet e Wollmann (2015) em adolescentes em situação de rua. Em contextos caracterizados por fragilização de vínculos e instabilidade, a construção da identidade pode ser atravessada por experiências de ruptura e pela necessidade de reorganizar referências sociais. A situação de vulnerabilidade, portanto, não elimina a capacidade de construção e identidade, mas pode tornar esse processo mais complexo ao modificar as condições nas quais os vínculos e pertencimentos são estabelecidos.
A discussão de Sales (2014 contribui para ampliar essa análise ao evidenciar que trabalho, classe e gênero fazem parte das experiências que atravessa a Constituição da identidade na adolescência Isso significa que não é suficiente analisar vulnerabilidade a partir de uma única dimensão. Diferentes posições sociais podem se articular e produzir experiências específicas. A condição socioeconômica, as expectativas relacionadas ao gênero e as formas de iniciação no trabalho, por exemplo, podem participar conjuntamente da construção das trajetórias juvenis.
Essa compreensão aproxima-se da perspectiva interseccional apresentada por Oliveira, Luiz e Couto (2022). Considerar intersecção de diferentes dimensões sociais permite evitar interpretações simplificadas da vulnerabilidade de adolescentes que não vivenciam pobreza, violência, desigualdade e pertencimento e territorial de maneira idêntica. As experiências são atravessadas por diferentes posições e relações sociais da Psicologia uma análise contextualizada.
Outro aspecto relevante é a relação entre território e pertencimento. Hernández et al. (2026), ao analisar mudanças nos espaços de atividade, sentimento de pertencimento e identidade étnico-racial de adolescentes de origem imigrante latino-americana, demonstram a pertinência de observar os espaços nos quais os adolescentes circulam e as relações que estabelecem com esses ambientes. Embora o estudo se situe em um contexto específico, sua contribuição permite reforçar a importância dos espaços sociais e do pertencimento na compreensão dos processos identitários durante a adolescência.
A relação entre espaço e identidade também pode ser observada quando determinada território passa a funcionar como marcador social, o local de moradia pode influenciar a maneira como adolescente é percebido pelos outros e consequentemente, as experiências de reconhecimento e discriminação que vivencia. Neste cenário, o adolescente pode enfrentar uma tensão entre a identidade que constrói a partir de suas experiências e as identidades que lhe são atribuídas socialmente. Essa tensão é relevante porque a construção da identidade envolve também processo de reconhecimento. A maneira como outra percebe no meu sujeito pode interferir nas possibilidades de pertencimento e na construção de significado sobre si.
A questão da identidade também pode envolver dimensões relacionadas ao gênero. Nunes, Garcia e Argimon (2023), ao discutirem as dificuldades relacionadas a identidade de gênero entre jovens vulneráveis, evidenciam a necessidade considerar as experiências e identidades em sua complexidade. A identidade não é construída a partir de uma única dimensão e pode ser atravessada por diferentes desafios sociais, especialmente em contexto de vulnerabilidade.
Assim, estigma, território e desigualdade social devem ser compreendidos como dimensões articuladas. O território pode produzir pertencimento, mas também pode ser associado a representações negativas. A desigualdade pode limitar as oportunidades, enquanto o estigma pode interferir nas relações sociais e nos processos de reconhecimento. Essas dimensões, quando articuladas, ajudam a compreender porque a construção da identidade não pode ser dissociada do contexto social.
Guareschi (2007), ao abordar a intervenção da condição de vulnerabilidade social e a produção de sentido com adolescentes, contribui para destacar justamente a importância dos significados construídos pelos próprios sujeitos. O adolescente não é apenas receptor passivo das condições sociais ele produz sentido sobre suas experiências, estabelece relações e participa da construção da sua própria trajetória. Por isso compreender a vulnerabilidade requer escutar o sujeito e considerar os significados que atribuem ao contexto em que vivem.
A partir dessa perspectiva, a psicologia precisa evitar uma compreensão que reduz adolescentes vulneráveis à condição de vítimas ou as características negativas atribuídas ao seu território. A análise dos processos de identidades exige reconhecer tantas condições desigualdades quanto a capacidade de adolescentes de construir vínculos, produz e significados em desenvolver diferentes formas de participação social.
O contexto social influencia a construção da identidade por múltiplos caminhos. O território estabelece condições de convivência e pertencimento; a desigualdade interfere nas oportunidades disponíveis; o estigma participa dos processos de reconhecimento social; e os marcadores sociais podem produzir experiências diferenciadas. Compreender essas relações é fundamental para pensar nas formas de atuação psicológica que não responsabilizam individualmente adolescentes por condições produzidas socialmente.
2.3. Contribuições da Psicologia para o Enfrentamento da Vulnerabilidade Social
A análise dos processos de identidade de adolescentes em situação de vulnerabilidade social possuem implicações importantes para psicologia, especialmente porque exigem uma atuação que considera simultaneamente aspectos subjetivos e condições sociais. Quando a vulnerabilidade é compreendida apenas como problema individual existe um risco de desconsiderar os fatores sociais que participam da produção das dificuldades e vivenciadas pelos adolescentes por outro lado, uma abordagem contextualizada permite compreender como relações, instituições, territórios e políticas públicas podem participar tanto da produção de vulnerabilidades quanto da construção de possibilidade de proteção.
A contribuição da Psicologia pode começar pela própria forma de compreender um adolescente. Em vez de considerar a vulnerabilidade como uma característica física do sujeito, é possível entendê-la como uma condição relacionada às circunstâncias sociais e relacionadas às quais a vida se desenvolve, como já vimos anteriormente.
Essa compreensão também está relacionada ao debate sobre políticas públicas. Silva e Lopes (2009) demonstram a importância de compreender a adolescência e juventude em articulação com as políticas destinadas a esses grupos. A existência de políticas públicas voltadas à garantia de direitos representa a parte fundamental do enfrentamento das condições que podem ampliar a vulnerabilidade. Nesse sentido, a psicologia pode contribuir não apenas em atendimentos individuais, mas também em espaços institucionais e comunitários nos quais são desenvolvidas ações de proteção social.
Cruz e Andrade (2023) discutem justamente as principais políticas públicas destinadas a adolescentes em situação de vulnerabilidade social e as possíveis contribuições da Psicologia para a promoção e garantia de direitos. Essa perspectiva amplia a atuação profissional para além de intervenções centradas exclusivamente no indivíduo. O trabalho psicológico pode envolver ações de prevenção, promoção de direitos, fortalecimento de vínculos e articulação com diferentes políticas e serviços.
Ao pensar em uma prática psicológica que considere a experiência subjetiva dos próprios adolescentes deve-se reconhecer suas narrativas e compreender os sentidos que atribuem às experiências sociais . Escuta psicológica, nesse contexto, pode constituir um instrumento para compreender como as condições sociais são vivenciadas e significadas subjetivamente.
A questão territorial também apresenta implicações para a atuação profissional. Se o território influencia as oportunidades, relações e experiências de pertencimento, as intervenções psicológicas precisam considerar os espaços concretos em que os adolescentes vivem e circulam. A atuação descontextualizada pode produzir interpretações limitadas, pois determinar as manifestações subjetivas podem estar relacionadas às condições sociais experimentadas pelo sujeito.
A literatura discutida anteriormente evidencia ainda que as experiências de vulnerabilidade não são homogêneas. Dessa forma, na atuação psicológica deve se considerar classe e gêneros nos processos de identidade desses adolescentes. O psicólogo deve se manter sensível às diferenças existentes entre os sujeitos e as diferentes formas pelas quais desigualdades sociais podem se articular.
Da mesma forma, a discussão sobre Juventude periférica e estigmatização apresentada por Carneiro e Antúnez (2020) aponta para necessidade de atenção aos processos sociais que produzem determinadas representações sobre os adolescentes. A psicologia, ao atuar com esses grupos, precisa evitar reproduzir estereótipos relacionados à pobreza, ao território ou à juventude. A compreensão crítica do contexto é necessária para que a intervenção não transforme desigualdades sociais em supostas características individuais.
A produção científica reunida também demonstra a importância do pertencimento evidenciando a relação entre pertencimento e identidade em adolescentes em situação de risco, indicando a relevância das relações sociais na construção identitária. Esse aspecto possui implicações para a práticas que buscam fortalecer espaços de convivência, participação e reconhecimento.
Dessa forma, as políticas públicas assumem papel central nesse processo. Cruz e Andrade (2023) destacam as possíveis contribuições da Psicologia para a promoção e garantias de direitos de crianças e adolescentes em situações de vulnerabilidade. Essa atuação pode ocorrer em diferentes espaços e serviços, demandando do profissional uma compreensão ampliada do sujeito de sua realidade social.
Assim, o enfrentamento da vulnerabilidade não pode depender exclusivamente da capacidade individual do Adolescente de superar a diversidade, as condições sociais também precisam ser consideradas nas estradas de intervenção. O fortalecimento de vínculo a ampliação de espaços de participação a garantia de direitos e articulações entre políticas públicas constituem dimensões importantes para a construção de contextos mais protetivos.
As condições de vida, os vínculos, o território, o pertencimento, os estigmas, a desigualdade de classe e gênero e as experiências institucionais participam dos processos de subjetivação, sem que isso implica em determinar de forma absoluta a identidade dos sujeitos. A vulnerabilidade pode ser compreendida com uma condição que através dos processos de construção identitária, influenciando oportunidades, relações, experiências de pertencimento e formas de reconhecimento. Ao mesmo tempo, os adolescentes permanecem sujeitos ativos na produção de sentido sobre suas experiências.
Portanto, essa dupla dimensão, social e subjetiva, é fundamental para uma compreensão psicológica que não reduz adolescentes às condições de vulnerabilidade nas quais está inserido. Em síntese conclui-se que na psicologia existe a necessidade de considerar o adolescente em sua integralidade e em seu contexto. A atuação profissional precisa reconhecer os impactos da desigualdades sociais sem produzir interpretações deterministas, valorizando os recursos subjetivos e coletivos presentes na trajetória juvenil. Evidencia-se a importância de políticas públicas articuladas a garantia de direitos e a criação de condições sociais que favoreçam pertencimento, participação e desenvolvimento .
3. CONSIDERAÇÕES E RESULTADOS
A análise realizada ao longo desta pesquisa permitiu compreender que a construção da identidade na adolescência está diretamente relacionada às experiências sociais vivenciadas pelos sujeitos e às condições concretas em que se desenvolvem. Nesse sentido, o problema de pesquisa, centrado na compreensão de como o contexto de vulnerabilidade social influencia os processos de subjetivação e a formação da identidade de adolescentes, foi respondido a partir da identificação de diferentes dimensões que atravessam esse processo. Os resultados evidenciaram que a vulnerabilidade social não determina de forma absoluta a identidade dos adolescentes, mas interfere nas possibilidades de construção de vínculos, pertencimento, reconhecimento, participação social e elaboração de projetos de vida.
A partir da análise da produção bibliográfica selecionada, identificou-se que a identidade adolescente constitui um processo dinâmico, construído continuamente a partir da interação entre experiências individuais e relações sociais. As condições de vida, o território, os vínculos familiares e comunitários, as experiências escolares, as relações de gênero, as condições socioeconômicas e as oportunidades disponíveis participam da maneira como o adolescente interpreta sua trajetória e atribui significado a si mesmo e ao mundo. Dessa forma, os resultados indicam que adolescentes inseridos em contextos de vulnerabilidade não podem ser compreendidos exclusivamente a partir de características individuais, uma vez que suas experiências subjetivas estão relacionadas às condições sociais que atravessam seu cotidiano.
Outro resultado identificado refere-se à importância do pertencimento e do reconhecimento na construção identitária. A existência de vínculos e espaços nos quais o adolescente possa ser reconhecido, valorizado e participar ativamente pode favorecer processos de identificação e desenvolvimento. Em contrapartida, experiências de exclusão, fragilização de vínculos e desvalorização podem dificultar a construção de referências positivas sobre si e sobre seu lugar na sociedade. Nesse processo, o território também assume relevância, pois não representa apenas o espaço físico onde o adolescente vive, mas envolve relações, oportunidades, experiências de convivência e significados sociais. Quando determinados territórios são associados à pobreza, violência ou risco, o local de moradia pode tornar-se também um marcador social capaz de influenciar a forma como o adolescente é percebido pelos outros e, consequentemente, suas experiências de reconhecimento e discriminação.
A pesquisa também permitiu identificar que estigma e desigualdade social constituem elementos importantes para compreender as experiências de adolescentes em situação de vulnerabilidade. As desigualdades podem restringir oportunidades e acesso a direitos, enquanto os processos de estigmatização podem produzir classificações sociais que interferem nas relações e na autopercepção. Entretanto, os resultados não indicam uma relação determinista entre vulnerabilidade e formação da identidade. Os adolescentes permanecem sujeitos ativos na produção de significados sobre suas experiências, podendo construir diferentes trajetórias mesmo diante de condições sociais semelhantes. Assim, compreender a vulnerabilidade exige considerar simultaneamente os limites impostos pelas condições sociais e os recursos subjetivos e coletivos mobilizados pelos próprios adolescentes.
Quanto às contribuições para a Psicologia, os resultados apontam para a necessidade de uma atuação que ultrapasse interpretações individualizantes e considere o adolescente em sua realidade social. A prática psicológica pode contribuir para o fortalecimento de vínculos, ampliação de espaços de participação e reconhecimento, escuta das experiências dos adolescentes e articulação com políticas públicas e serviços de proteção social. Nesse sentido, o estudo reforça a importância de intervenções que não responsabilizem individualmente o adolescente por dificuldades produzidas ou intensificadas por desigualdades sociais, mas que considerem as condições que atravessam sua trajetória.
Entre as limitações da pesquisa, destaca-se seu caráter exclusivamente bibliográfico, baseado em fontes secundárias e na produção científica disponível dentro do recorte estabelecido. Dessa forma, não foram realizadas investigações diretamente com adolescentes em situação de vulnerabilidade, o que limita a possibilidade de compreender de maneira aprofundada suas experiências e percepções a partir de suas próprias narrativas. Além disso, a diversidade de contextos sociais e territoriais presentes na literatura dificulta a generalização dos resultados para todos os adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Diante disso, pesquisas futuras podem ampliar a investigação por meio de estudos de campo que considerem diretamente as narrativas dos adolescentes, contemplando diferentes territórios, condições sociais e experiências de pertencimento. Também podem ser desenvolvidos estudos que aprofundem a relação entre identidade, estigma, gênero, território e acesso às políticas públicas, contribuindo para a construção de estratégias de intervenção mais adequadas às diferentes realidades juvenis.
Conclui-se, portanto, que a vulnerabilidade social influencia os processos de subjetivação e a construção da identidade na adolescência principalmente por meio das condições de vida, dos vínculos, das oportunidades, do pertencimento, do reconhecimento social e das experiências de desigualdade e estigmatização. Entretanto, essa influência não deve ser compreendida como determinante, pois os adolescentes permanecem participantes ativos na construção de suas trajetórias e significados. A principal resposta encontrada pela pesquisa é, portanto, que compreender a identidade de adolescentes em situação de vulnerabilidade exige uma perspectiva que articule dimensão subjetiva e realidade social. Essa compreensão contribui para uma Psicologia mais contextualizada, capaz de reconhecer tanto os impactos das desigualdades quanto as potencialidades dos adolescentes e dos espaços coletivos na construção de trajetórias mais protegidas e participativas.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AMPARO, Deise Matos do; ALVES, Paola Biasoli; CÁRDENAS, Carmen J. Pertencimento e identidade em adolescentes em situação de risco de Brasília. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, São Paulo, v. 14, n. 1, p. 11-20, 2004. DOI: https://doi.org/10.7322/jhgd.39787. Disponível em: https://doi.org/10.7322/jhgd.39787. Acesso em: 24 set. 2026
BAUMAN, Zygmunt. Identidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2005.
CARNEIRO, M.; ANTÚNEZ, E. Juventude periférica e estigmatização social. São Paulo: Cortez, 2020.
CRUZ, Daniel da Aparecida de Sousa; ANDRADE, Alcilene Lopes de Amorim. Principais políticas públicas para adolescentes em situação de vulnerabilidade social: possíveis contribuições da Psicologia na promoção/garantia de direitos. Revista Multidisciplinar do Nordeste Mineiro – REMUNOM, v. 2, n. 1, 2023 Disponível em: https://remunom.ojsbr.com/multidisciplinar/pt_BR/article/view/961. Acesso em: 24 set. 2026
DAYRELL, Juarez. A escola e o jovem: entre o presente e o futuro. Belo Horizonte: UFMG, 2007.
ERIKSON, Erik H. Identidade: juventude e crise. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.
GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2019.
HERNÁNDEZ, Guadalupe López; KARRAS, Juliana; MERCADO RAMOS, Danieli M.; BOLEAGA, Brian. Developmental shifts in Latinx immigrant-origin adolescents' activity spaces, sense of belonging, and ethnic-racial identity. Journal of Research on Adolescence, v. 36, n. 2, e70178, 2026. DOI: https://doi.org/10.1111/jora.70178. Disponível em: https://doi.org/10.1111/jora.70178. Acesso em: 24 set. 2026
MARCONI, M. de A.; LAKATOS, E. M. Fundamentos de metodologia científica. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2017.
NUNES, Esther Abigail Helena Maciel; GARCIA, Guilherme; ARGIMON, Irani Iracema de Lima. Era da informação ou da desinformação? As dificuldades na identidade de gênero em jovens vulneráveis. Revista Contemporânea, v. 3, n. 12, p. 30038-30053, 2023. DOI: https://doi.org/10.56083/RCV3N12-267 Disponivel em: https://doi.org/10.56083/RCV3N12-267. Acesso em: 24 set. 2026
OLIVEIRA, Elda de; LUIZ, Olinda do Carmo; COUTO, Márcia Thereza. Adolescents, poverty areas, violence, and public health: an intersectional perspective. Revista Brasileira de Enfermagem, v. 75, supl. 2, e20190685, 2022. DOI: https://doi.org/10.1590/0034-7167-2019-0685. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0034-7167-2019-0685. Acesso em: 24 set. 2026
SALES, Marta Santos. O processo de constituição da identidade na adolescência: trabalho, classe e gênero. Psicologia & Sociedade, v. 26, número especial, p. 161-171, 2014. DOI: https://doi.org/10.1590/S0102-71822014000500017. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0102-71822014000500017. Acesso em: 24 set. 2026
SANTORO, M. Adolescência e vulnerabilidade social. Rio de Janeiro: Vozes, 2022.
SILVA, Carla Regina; LOPES, Roseli Esquerdo. Adolescência e juventude: entre conceitos e políticas públicas. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional, São Carlos, v. 17, n. 2, p. 87-106, 2009. Acesso em: 24 set. 2026
SOARES, Cássia Baldini; ÁVILA, Lívia Keismanas de; SALVETTI, Marina de Goes. Vulnerabilidade de adolescentes no SILOS-Butantã. Saúde e Sociedade, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 63-81, 1998. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-12901998000200006.Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0104-12901998000200006. Acesso em: 24 set. 2026
VERGARA, S. C. Projetos e relatórios de pesquisa: teoria e prática. 14. ed. São Paulo: Atlas, 2016.
1 Acadêmico(a) do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz, MA.
2 Professora Especialista do Curso de Psicologia da Faculdade de Educação Santa Terezinha – FEST, Imperatriz, MA.