A INFLUÊNCIA DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO: UMA ANÁLISE A PARTIR DE PERSPECTIVAS CLÁSSICAS E CONTEMPORÂNEAS

THE INFLUENCE OF ARTIFICIAL INTELLIGENCE ON KNOWLEDGE PRODUCTION: AN ANALYSIS FROM CLASSICAL AND CONTEMPORARY PERSPECTIVES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780548367

RESUMO
Este artigo analisa a profunda influência da Inteligência Artificial (IA) na produção do conhecimento, tratando-a não apenas como ferramenta tecnológica, mas como um fenômeno com vastas implicações epistemológicas, sociais e éticas. Por meio de um diálogo crítico com pensadores clássicos e contemporâneos, como Kant, Marx, Gramsci, Adorno, Lyotard, Freire, entre outros, investiga-se como a IA desafia concepções tradicionais de autoria, originalidade e a própria natureza da verdade. A revisão bibliográfica aborda a reconfiguração do trabalho intelectual e da educação, questionando se a IA atuará como força de emancipação ou como instrumento de controle e aprofundamento das desigualdades. Analisam-se, ainda, os desafios emergentes, incluindo o viés algorítmico, a desinformação e a necessidade de uma governança ética. Conclui-se que a IA transcende a condição de mera ferramenta, exigindo uma abordagem interdisciplinar e crítica. O futuro da produção do conhecimento e da formação humana dependerá da capacidade de integrar a IA de forma ética, responsável e politicamente comprometida com a emancipação, garantindo que sirva à expansão do saber e da justiça social, e não à reprodução de hegemonias e desigualdades.
Palavras-chave: Inteligência Artificial; Produção do Conhecimento; Filosofia da Educação; Sociologia do Trabalho; Ética.

ABSTRACT
This article analyzes the profound influence of Artificial Intelligence (AI) on knowledge production, treating it not merely as a technological tool, but as a phenomenon with vast epistemological, social, and ethical implications. Through a critical dialogue with classical and contemporary thinkers, such as Kant, Marx, Gramsci, Adorno, Lyotard, Freire, among others, it investigates how AI challenges traditional conceptions of authorship, originality, and the very nature of truth. The literature review addresses the reconfiguration of intellectual work and education, questioning whether AI will act as a force for emancipation or as an instrument of control and deepening of inequalities. Furthermore, it analyzes emerging challenges, including algorithmic bias, disinformation, and the need for ethical governance. It concludes that AI transcends the condition of a mere tool, requiring an interdisciplinary and critical approach. The future of knowledge production and human formation will depend on the ability to integrate AI in an ethical, responsible, and politically committed manner towards emancipation, ensuring that it serves the expansion of knowledge and social justice, rather than the reproduction of hegemonies and inequalities.
Keywords: Artificial Intelligence; Knowledge Production; Philosophy of Education; Sociology of Work; Ethics.

1. A INTELIGENCIA ARTIFICIAL NA GÊNESE DO CONHECIMENTO

Este artigo analisa a profunda influência da Inteligência Artificial (IA) na produção do conhecimento, tratando-a não apenas como uma ferramenta tecnológica, mas como um fenômeno com vastas implicações epistemológicas, sociais e éticas.

Através de um diálogo crítico com pensadores clássicos e contemporâneos, como Kant, Marx, Lyotard e outros, investigamos como a IA desafia concepções tradicionais de autoria, originalidade e a própria natureza da verdade.

Esta revisão de bibliografia abordará a reconfiguração do trabalho intelectual e da educação, questionando se a IA atuará como força de emancipação ou como instrumento de controle e aprofundamento das desigualdades, analisando ainda, os desafios emergentes, incluindo o viés algorítmico, a desinformação e a necessidade de uma governança ética.

A ascensão da Inteligência Artificial nas últimas décadas tem reconfigurado profundamente a atividade humana, e a produção do conhecimento não é exceção, sendo percebida diferente de ser apenas uma nova ferramenta, mas como um emergente fenômeno com implicações que nos forçam a questionar o modo como o conhecimento é gerado, validado e disseminado.

A capacidade de processar vastas quantidades de dados, identificar padrões complexos e até mesmo criar conteúdo original, levanta questões fundamentais sobre autoria, originalidade e a própria natureza da verdade em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos. 

Neste diapasão, é proposto a análise dessa influência multifacetada, estabelecendo um diálogo crítico entre as transformações impulsionadas pela atual tecnologia de produção artificial e as perspectivas de pensadores clássicos e contemporâneos, e como eles podem nos ajudar a interpretar os desafios e oportunidades que este campo nos traz.

A problemática central reside em como se redefine a natureza do conhecimento e como as estruturas sociais e educacionais são impactadas por essa reconfiguração, nos convidando a uma reflexão sobre o futuro do saber.

Para tanto, a proposta está estruturada em seções que abordam os fundamentos filosóficos do conhecimento, as transformações no mundo do trabalho e da educação, e os desafios éticos e epistemológicos que emergem.

A análise se aprofundará nas contribuições dos autores especificados, buscando pontos de convergência e divergência com o cenário atual. Por fim, serão apresentadas as conclusões e as implicações futuras dessa complexa interação entre a inteligência humana e a artificial. 

2. FUNDAMENTOS TEÓRICOS DA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO E O CONTEXTO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

2.1. O Conhecimento na Filosofia Clássica e Moderna

Compreender a produção de conhecimento na era da IA exige um retorno aos fundamentos filosóficos que moldaram nossa percepção sobre o saber, a exemplo do pensamento de Immanuel Kant, figura central do Iluminismo, que defendia a autonomia da razão como pilar para o progresso.

Para ele, o conhecimento é construído na interação entre a experiência e as categorias do entendimento, visto em sua máxima, “Sapere Aude!” (Ousa saber!), ressoando como um convite à liberdade de pensamento (KANT, 2004).

No entanto, a emergência da IA, com sua capacidade de gerar respostas sem um processo de reflexão individual, levanta uma questão paradoxal: não estaríamos arriscando uma nova forma de menoridade intelectual, onde a confiança na máquina substitui o exercício crítico da própria razão?

Julián Marías por sua vez, explora o conhecimento como uma atividade intrínseca ao ser humano, uma forma de “habitar” o mundo (MARIAS, 1966), sendo enfatizado que a dimensão histórica e dinâmica do saber, ao se alimentar a inteligência motorizada de vastos repositórios de dados, pode simular essa compreensão contextualizada.

Entretanto a questão permanece como uma pergunta resistente: essa simulação constitui conhecimento genuíno ou é apenas um arranjo sofisticado de informações? A filosofia de Marías nos convida a distinguir entre a mera informação e o conhecimento verdadeiro, que implica uma apropriação existencial.

Nesse sentido, a IA pode ser uma ferramenta poderosa para organizar a informação, mas a produção de conhecimento, em sua plenitude, ainda dependeria da capacidade humana de interpretar, significar e atribuir valor. 

2.2. O Conhecimento na Perspectiva Crítica e Dialética

A perspectiva crítica oferece um contraponto fundamental, trazido por Karel Kosik, em sua “Dialética do Concreto”, onde distingue o conhecimento autêntico da “pseudoconcreticidade”, a aparência imediata da realidade, desprovida de sua essência.

Com alicerce em sua capacidade de manipular grandes volumes de dados, a inteligência pode tanto auxiliar no desvelamento de estruturas ocultas quanto reforçar essa superficialidade, ao apresentar resultados descontextualizados como verdades absolutas.

A questão que se coloca é se ao automatizar a “descoberta”, não estaria, em alguns casos, produzindo uma nova forma de pseudoconhecimento, funcional, mas carente de profundidade (KOSIK, 1989), conforme se percebe abaixo:

“A IA, com sua capacidade de manipular grandes volumes de dados, pode tanto auxiliar no desvelamento de estruturas ocultas quanto reforçar essa superficialidade, ao apresentar resultados descontextualizados como verdades absolutas. A questão que se coloca é se a IA, ao automatizar a “descoberta”, não estaria, em alguns casos, produzindo uma nova forma de pseudoconhecimento, funcional, mas carente de profundidade (KOSIK, 1989).”

Karl Marx e Friedrich Engels argumentaram que o conhecimento está intrinsecamente ligado às relações sociais de produção e que, para eles, a ideologia é uma forma de conhecimento que serve aos interesses da classe dominante (MARX, ENGELS, 1984).

No contexto da artificialidade inteligente, essa perspectiva ganha nova relevância, ao passo que fora desenvolvida e é controlada por grandes corporações e Estados, contando com seus algoritmos que refletem os valores de seus criadores, levantando assim, a preocupação de que ela possa ser utilizada para reproduzir e intensificar desigualdades, controlando o acesso à informação e moldando narrativas de forma ideológica.

A reconfiguração do trabalho intelectual também desafia a compreensão marxista do trabalho como atividade fundamental na produção do conhecimento, como bem cita Sérgio Lessa, onde explora o trabalho como categoria central para a compreensão do ser social, pois a produção do conhecimento é, nesse sentido, uma forma de trabalho (LESSA, 2005).

A IA, ao assumir funções antes exclusivas do intelecto humano, coloca em xeque essa centralidade no ser, emulando a questão que, se ela pode gerar conhecimento de forma autônoma, qual o papel do trabalho humano nesse processo? E essa questão nos força a repensar a própria definição de produção de conhecimento em uma era dominada por máquinas inteligentes.

Ampliando a análise sobre a dimensão ideológica, a contribuição de Antônio Gramsci sobre a hegemonia cultural torna-se indispensável, sob o ponto de vista que, para ele, a dominação de uma classe não se sustenta apenas pela força, mas pela construção de um consenso que legitima sua visão de mundo, disseminada por meio de instituições como a escola e a mídia (GRAMSCI, 2001).

Nesse sentido, a IA pode ser vista como um potente aparelho hegemônico, capaz de moldar o "senso comum" de maneira sutil e generalizada, ao personalizar e filtrar o conhecimento que chega aos indivíduos. A aparente neutralidade dos algoritmos pode mascarar uma profunda intencionalidade política, reforçando valores e perspectivas que sustentam o Stato Quo.

Como adverte Gramsci, a luta pela hegemonia é, antes de tudo, uma batalha de idéias, travada no campo da cultura e da educação, o que nos obriga a questionar criticamente quem define os parâmetros e os objetivos dos sistemas de inteligência artificial que medeiam nosso acesso ao saber.

Adicionalmente, a perspectiva da Escola de Frankfurt, em especial a crítica de Theodor Adorno à racionalidade instrumental, oferece ferramentas para aprofundar o debate.

Adorno alertava para o risco da "semiformação" (Halbbildung), um tipo de conhecimento superficial e fragmentado que, embora útil para fins (ADORNO, 1995), pragmáticos, impede o desenvolvimento da autonomia e do pensamento crítico.

A IA, ao privilegiar a eficiência e a obtenção de respostas rápidas, pode inadvertidamente promover essa semiformação, entregando informações desvinculadas de seu contexto histórico e social, prontas para o consumo, mas desprovidas de um potencial emancipatório.

O perigo reside em confundir o acesso à informação com a aquisição de conhecimento genuíno, um processo que, para Adorno exige reflexão, negação e um engajamento profundo com as contradições da realidade, algo que a lógica puramente instrumental da tecnologia tende a suprimir.

2.3. O Conhecimento na Pós-modernidade e Suas Críticas

A era pós-moderna, caracterizada pela descrença nas grandes narrativas, encontra na Inteligência Artificial um novo e complexo elemento de análise, como podemos perceber através de Jean-François Lyotard, em sua obra seminal, onde descreveu a transformação do conhecimento em mercadoria, na qual a eficiência e a performatividade se tornam os critérios centrais de validação.

Nesse cenário, a IA, com sua capacidade de otimizar processos e quantificar resultados, parece se encaixar perfeitamente. No entanto, Lyotard também alerta para os perigos da instrumentalização do saber e da consequente perda de sentido, uma vez que a IA, ao processar informações de forma descontextualizada, pode contribuir para a superficialidade e dificultar uma compreensão profunda da realidade (LYOTARD, 1988).

Ampliando a análise para o campo educacional, as reflexões de Pierre Bourdieu sobre o capital cultural e o habitus oferecem uma lente crítica para examinar o impacto da IA, pois os algoritmos de personalização, embora promovidos como ferramentas de democratização do ensino, podem inadvertidamente reforçar as desigualdades existentes.

Ao moldar o percurso de aprendizagem com base em dados prévios, a IA corre o risco de perpetuar o habitus do estudante, limitando sua exposição a novos campos do saber e cristalizando as disparidades de capital cultural.

A eficiência algorítmica, nesse contexto, pode otimizar a reprodução das estruturas sociais, em vez de promover a mobilidade e a equidade educacional (BOURDIEU, 2007).

Stuart Hall, ao discutir a identidade cultural, explora sua fluidez em um mundo globalizado (HALL, 2006), percebe que a inteligência artificial, com seus algoritmos de personalização, molda ativamente as experiências individuais, influenciando a percepção da realidade e a formação de identidades e sua capacidade de gerar conteúdo sintético borra as fronteiras entre o real e o simulado, podendo levar a uma crise de representação.

Gianni Vattimo, por sua vez, argumenta que a modernidade culminou em um niilismo e com ela há chance de se intensificar esse processo ao apresentar uma realidade mediada por sistemas sem consciência, enfraquecendo a noção de uma verdade objetiva e dificultando o discernimento (VATTIMO, 1996).

Sob a ótica da pedagogia crítica de Paulo Freire, a integração da IA na educação suscita um debate fundamental e se utilizada de forma acrítica, a tecnologia pode solidificar uma "educação bancária", na qual o aluno é visto como um repositório de informações a serem preenchidas e testadas, reforçando a passividade.

Contudo, há também o potencial para que se torne uma ferramenta de "educação libertadora", ao automatizar tarefas repetitivas e fornecer acesso a um vasto universo de informações, podendo liberar tempo e recursos para que educadores e alunos se engajem em um processo dialógico, crítico e criativo, utilizando a tecnologia para investigar problemas do mundo real e construir conhecimento de forma colaborativa (FREIRE, 2019).

Agnes Heller analisa a relação entre a vida diária e as grandes estruturas históricas, ao se integrar ao cotidiano, desde assistentes virtuais até sistemas de recomendação, transformando a forma como interagimos com o conhecimento e como a automação de tarefas pode alterar como aprendemos e tomamos decisões (HELLER, 1970).

No entanto, Heller também alerta para o perigo de uma vida cotidiana alienada, pois nesse contexto, pode tanto libertar o indivíduo de tarefas repetitivas quanto aprisioná-lo em bolhas de informação que limitam sua visão de mundo, ecoando a necessidade de uma práxis educativa que promova a consciência crítica e a ação transformadora.

3. A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E A RECONFIGURAÇÃO DO TRABALHO E DA EDUCAÇÃO

3.1. Trabalho e Tecnologia

A emergência da Inteligência Artificial (IA) como força motriz da contemporaneidade impõe uma reavaliação profunda das estruturas sociais, sendo o mundo do trabalho um dos epicentros dessa transformação. A influência da IA na produção e disseminação do conhecimento é, portanto, indissociável de sua capacidade de reconfigurar as relações laborais.

Nesse contexto, a análise de Ricardo Antunes sobre a precarização na era digital torna-se um referencial sociológico indispensável. Segundo o autor, as novas tecnologias, ao mesmo tempo que ampliam a produtividade, aprofundam a lógica de um trabalho cada vez mais flexível, intermitente e desprovido de garantias, fenômeno que ele conceitua como a nova morfologia do trabalho (ANTUNES, 2002).

A IA se apresenta, assim, como um fenômeno marcadamente ambivalente. Por um lado, acena com a promessa de otimização de processos e de um salto qualitativo na produtividade, automatizando tarefas repetitivas e ampliando a capacidade humana de análise. Por outro, intensifica a automação a um nível sem precedentes, gerando inquietações sobre o desemprego tecnológico em larga escala.

O trabalho intelectual, antes considerado um refúgio seguro contra a automação, agora se vê diretamente impactado por algoritmos capazes de redigir textos, analisar dados complexos e até mesmo criar arte. Essa nova realidade levanta um questionamento filosófico fundamental: qual será o lugar do ser humano em um mundo onde as máquinas podem não apenas executar, mas superar suas capacidades cognitivas?

A transição para essa nova configuração social e produtiva é também um fenômeno econômico. Conforme as análises de Paulo Sandroni, que oferece um vasto panorama das dinâmicas do capital, a IA introduz variáveis disruptivas, catalisando a criação de novos mercados e modelos de negócio (SANDRONI, 2002).

A chamada "economia do conhecimento", impulsionada pela IA, valoriza exponencialmente a informação e a capacidade de processá-la, transformando dados brutos em ativos estratégicos. Contudo, essa nova dinâmica carrega o risco de exacerbar as desigualdades existentes.

A concentração do poder e da riqueza pode se intensificar nas mãos de uma elite tecnológica que detém o controle sobre os algoritmos e a infraestrutura digital, fazendo que a compreensão aprofundada das implicações econômicas da IA seja crucial para analisar como a produção e o acesso ao conhecimento se inserem nesse novo e complexo arranjo de poder.

3.2. Educação e Ideologia na Era da IA: Entre a Emancipação e o Controle

Se a IA redefine o trabalho, seu impacto sobre a educação é igualmente profundo e dialético. A educação, como campo de disputa de projetos sociais, reflete as tensões e as possibilidades de seu tempo.

A obra de Carlos R. Jamil Cury, ao analisar a relação entre educação e ideologia, fornece um arcabouço crítico para pensar o papel da IA. Para Cury (1978), a educação nunca é neutra; ela pode ser tanto um instrumento de dominação, reproduzindo as estruturas de poder vigentes, quanto uma ferramenta de emancipação, promovendo a consciência crítica e a autonomia.

A IA, com suas ferramentas de personalização do ensino, pode ser vista como um potente catalisador para a democratização do conhecimento, adaptando-se às necessidades individuais de cada estudante. No entanto, o risco de a tecnologia se converter em um veículo para a disseminação de ideologias dominantes e para a reprodução de vieses algorítmicos é iminente e considerável.

A questão central que se impõe é: como garantir que a IA na educação sirva a propósitos genuinamente emancipatórios?

Nesse debate, a perspectiva da pedagogia histórico-crítica, desenvolvida por Demerval Saviani, oferece um contraponto fundamental à visão meramente instrumental da tecnologia. Saviani (1991) defende que a educação deve ser um processo de apropriação crítica do conhecimento historicamente acumulado pela humanidade.

A IA pode ser uma poderosa aliada nesse processo, facilitando o acesso a informações e a simulação de cenários complexos, entretanto a pedagogia histórico-crítica alerta para o perigo de uma educação que, seduzida pelo aparato tecnológico, se restrinja ao desenvolvimento de habilidades técnicas e à manipulação de ferramentas digitais.

Se não for utilizada de forma crítica e reflexiva, pode desviar o foco da apropriação consciente do saber para a mera gestão de dados, esvaziando o sentido mais profundo da formação humana.

A superação desse risco exige uma pedagogia que integre a tecnologia a um projeto de formação integral, explanado por pensadores como Manacorda (1991), Pistrak (2003), Furter (1981), Severino (1986) e Schmitz (1984), que, embora com abordagens distintas, convergem na defesa de uma educação que promova a reflexão crítica, a autonomia do pensamento e uma conexão orgânica com a vida social e seus desafios.

A formação humana na era digital demanda, portanto, uma prática pedagógica que não apenas prepare os indivíduos para lidar com a complexidade tecnológica, mas que os capacite a questionar seus usos, seus limites e seus impactos éticos e sociais.

Diante do exposto, é imperativo que a implementação da IA nos sistemas de ensino seja acompanhada por políticas públicas robustas que assegurem a equidade no acesso e no uso dessas ferramentas, para que a tecnologia sirva como um instrumento de superação das desigualdades históricas, e não como um novo mecanismo de sua perpetuação e aprofundamento.

3.3. A Visão Gramsciana Sob a Ótica da IA

A reflexão de Antônio Gramsci sobre a consciência crítica como produto histórico ganha singular relevância na era da Inteligência Artificial (IA) no ensino superior. Para o pensador, o ponto de partida da elaboração crítica reside na autoconsciência, no entendimento de si como resultado de um processo histórico que acumulou em nós inúmeros traços culturais.

Gramsci (1999) nos convoca a realizar um inventário minucioso desses traços, questionando o que foi recebido sem uma análise criteriosa de seus benefícios.

Essa convocação ressoa com urgência no ambiente acadêmico, pois a crescente adoção de algoritmos de aprendizagem e sistemas de tutoria redefine as práticas pedagógicas, mas também introduz, silenciosamente, uma nova hegemonia tecnológica (ALMEIDA et al., 2025).

Tais ferramentas, longe de serem neutras, carregam pressupostos epistemológicos e ideológicos que, se não examinados, são assimilados de maneira acrítica pelas instituições, reforçando a lógica do capital sob a aparência de avanço técnico (ECHALAR, 2025).

O desafio, portanto, transcende a mera aplicação tecnológica. Alinhado ao pensamento gramsciano, é imperativo que a comunidade acadêmica realize seu próprio “inventário” das implicações da IA, analisando como essas tecnologias moldam não apenas os métodos de ensino, mas as concepções de conhecimento, autonomia intelectual e formação humana.

A ausência desse escrutínio crítico arrisca a subordinação da educação a uma lógica puramente instrumental, onde a eficiência técnica se sobrepõe à formação de um sujeito autônomo e consciente de seu papel histórico.

Adotar uma perspectiva crítica sobre a tecnologia educacional é, assim, um passo essencial para evitar a reprodução de hegemonias e garantir uma prática pedagógica de fato emancipadora (SANTOS, 2024).

Evitar que a tecnologia seja adotada sem o devido “benefício no inventário” de suas consequências sociais e políticas é tarefa fundamental para preservar o potencial transformador da educação superior.

4. DESAFIOS EPISTEMOLÓGICOS E ÉTICOS DA IA NA PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO

A crescente integração da IA levanta uma série de desafios que exigem uma reflexão mais aprimorada sobre um dos pontos mais críticos que é a questão da autoria e originalidade, visto que, em se perguntando quando um algoritmo gera um conteúdo, nos vem outra pergunta sobre quem é o autor.

Essa indefinição desafia as noções tradicionais de propriedade intelectual e criatividade, pois a já amplamente perceptível capacidade da IA de imitar estilos também nos faz questionar o valor da originalidade e a singularidade da criação humana. 

Aprofundando outro desafio significativo chagamos ao viés algorítmico, no passo que os sistemas de IA, treinados com dados que refletem os preconceitos da sociedade, podem reproduzir e amplificar esses vieses, resultando em discriminação.

A validação do conhecimento produzido se torna, portanto, deveras complexa e com a necessidade de garantir que os resultados não sejam apenas eficientes, mas também justos sob a ótica da transparência e a explicabilidade dos algoritmos, os quais são cruciais, mas ainda representam um campo em desenvolvimento. 

A desinformação e a validação do conhecimento são preocupações prementes, no momento que percebemos a facilidade com que a IA pode produzir conteúdo convincente, mas inverídico, dificultando assim o discernimento e comprometendo a confiança nas fontes.

A validação do conhecimento, por sua vez, antes baseada em critérios como a revisão por pares, precisa ser repensada em um cenário onde a autoria é difusa e a velocidade de propagação da informação é altíssima. 

Por fim, as implicações éticas são vastas. A privacidade dos dados, a segurança dos sistemas, a responsabilidade por erros e o impacto no emprego são dilemas que precisam ser enfrentados. A corrida pelo desenvolvimento da IA, muitas vezes impulsionada por interesses econômicos, pode negligenciar a dimensão ética.

É fundamental que o desenvolvimento e a aplicação da IA sejam guiados por princípios éticos robustos, contando com a colaboração entre cientistas, filósofos, legisladores e a sociedade civil, mostrando que é essencial esta diagramação para construir um futuro onde a IA seja uma força para o progresso e não para a desumanização. 

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

A presente revisão bibliográfica buscou analisar as profundas implicações da Inteligência Artificial (IA) na produção do conhecimento, a partir de um diálogo crítico com a filosofia e a sociologia da educação.

Ao longo deste trabalho, foi possível constatar que a IA transcende a sua condição de mera ferramenta tecnológica, configurando-se como um fenômeno complexo que reconfigura as fronteiras do saber, da autonomia e da própria condição humana.

A análise da literatura permitiu não apenas mapear os discursos sobre o tema, mas também aprofundar a reflexão sobre os desafios e as potencialidades que emergem dessa nova realidade.

Para além da dimensão estritamente pedagógica, a presença da IA na educação nos compele a uma análise sociológica mais ampla, que considere as relações de poder e as desigualdades estruturais que permeiam a sociedade.

Reconhecemos as limitações deste estudo, por se tratar de uma revisão bibliográfica, visto que a análise se ateve ao campo teórico, não incluindo pesquisas que poderiam oferecer um contraponto prático às reflexões aqui desenvolvidas.

Como sugestão para trabalhos futuros, vislumbramos a pertinência de estudos de caso que analisem experiências concretas de implementação em ambientes educacionais, investigando seus impactos na autonomia dos estudantes e na prática docente.

A investigação sobre a formação de professores para o uso crítico e criativo das novas tecnologias também se apresenta como um campo fértil para futuras pesquisas.

Em suma, este trabalho permitiu concluir que a influência na educação é um fenômeno complexo que exige uma abordagem interdisciplinar, crítica e contínua e não se trata de uma aceitação ingênua ou de uma rejeição apriorística, mas de uma compreensão profunda de suas potencialidades e riscos.

O futuro da produção do conhecimento e da formação humana dependerá da nossa capacidade de integrar a inteligência artificial de forma ética, responsável e politicamente comprometida com a emancipação, garantindo que ela seja uma ferramenta para a expansão do saber e da justiça social, e não para a sua restrição, distorção ou para o aprofundamento das desigualdades.

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TCC produzido para obtenção do título de Especialista em Docência do Ensino Superior, apresentado à Universidade Católica Dom Bosco, em 07 de novembro de 2025.

1 Bacharel em Sociologia pela UINTER, no ano de 2025. Orcid: https://orcid.org/0009-0002-8757-4252