REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781481010
RESUMO
A Atenção Básica constitui a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde, sendo responsável pelo desenvolvimento de ações de promoção, prevenção, proteção e recuperação da saúde. Nesse contexto, o farmacêutico assume papel estratégico na equipe multiprofissional, contribuindo para o uso racional de medicamentos, o acompanhamento farmacoterapêutico e a qualificação da assistência prestada à população. Entretanto, apesar dos avanços observados na inserção desse profissional na Atenção Primária à Saúde, ainda persistem desafios relacionados à sua atuação clínica, integração com as equipes de saúde e condições estruturais dos serviços. O presente trabalho, objetivou analisar a importância da atuação do farmacêutico na farmácia básica das Unidades Básicas de Saúde, destacando os impactos da ausência do responsável técnico sobre a qualidade da Assistência Farmacêutica e sobre o cuidado prestado aos usuários do Sistema Único de Saúde. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada por meio de pesquisas em bases de dados científicas nacionais e internacionais. Foram selecionados estudos publicados entre 2020 e 2025, relacionados à atuação do farmacêutico na Atenção Primária à Saúde, assistência farmacêutica, cuidado farmacêutico e trabalho multiprofissional. A análise dos estudos permitiu a identificação dos principais desafios, contribuições e perspectivas relacionadas à atuação farmacêutica na Atenção Básica. Os estudos analisados evidenciaram que a atuação do farmacêutico contribui significativamente para a promoção do uso racional de medicamentos, adesão terapêutica, prevenção de problemas relacionados aos medicamentos e fortalecimento do cuidado integral ao usuário. Além disso, verificou-se que a integração do farmacêutico com as equipes multiprofissionais favorece a qualificação da assistência e a melhoria dos resultados em saúde. Contudo, foram identificadas lacunas relacionadas à sobrecarga de atividades burocráticas, insuficiência de infraestrutura adequada, limitações na formação clínica e dificuldades de integração entre os profissionais de saúde, fatores que ainda comprometem a efetivação do cuidado farmacêutico na Atenção Básica. Conclui-se que o farmacêutico desempenha papel fundamental na equipe multiprofissional da Atenção Básica, contribuindo para a integralidade do cuidado e para a melhoria da qualidade da assistência à saúde. No entanto, a superação das lacunas identificadas exige investimentos em qualificação profissional, fortalecimento da assistência farmacêutica, melhoria das condições estruturais dos serviços e ampliação das práticas colaborativas entre os profissionais de saúde. Dessa forma, será possível potencializar a atuação do farmacêutico e consolidar sua participação como agente estratégico na promoção da saúde e no fortalecimento do Sistema Único de Saúde.
Palavras-chave: Atenção básica; Atenção primária à saúde; Farmacêutico; Equipe multiprofissional; Assistência farmacêutica.
ABSTRACT
Primary Health Care constitutes the main entry point to the Brazilian Unified Health System (SUS), being responsible for developing actions for health promotion, prevention, protection, and recovery. In this context, the pharmacist assumes a strategic role in the multidisciplinary team, contributing to the rational use of medications, pharmacotherapeutic monitoring, and the improvement of care provided to the population. However, despite the advances observed in the inclusion of this professional in Primary Health Care, challenges related to their clinical practice, integration with health teams, and the structural conditions of the services still persist. This study aimed to analyze the importance of the pharmacist's role in the basic pharmacy of Primary Health Care Units, highlighting the impacts of the absence of a technical manager on the quality of Pharmaceutical Care and on the care provided to users of the Unified Health System. This is an integrative literature review, conducted through research in national and international scientific databases. Studies published between 2020 and 2025 related to the pharmacist's role in Primary Health Care, pharmaceutical assistance, pharmaceutical care, and multidisciplinary work were selected. Analysis of these studies allowed for the identification of the main challenges, contributions, and perspectives related to the pharmacist's role in Primary Health Care. The analyzed studies showed that the pharmacist's role contributes significantly to promoting the rational use of medications, therapeutic adherence, prevention of medication-related problems, and strengthening comprehensive user care. Furthermore, it was found that the integration of the pharmacist with multidisciplinary teams favors the qualification of care and the improvement of health outcomes. However, gaps related to the overload of bureaucratic activities, insufficient adequate infrastructure, limitations in clinical training, and difficulties in integration among health professionals were identified—factors that still compromise the effectiveness of pharmaceutical care in Primary Health Care. It is concluded that the pharmacist plays a fundamental role in the multidisciplinary team of Primary Health Care, contributing to the comprehensiveness of care and the improvement of the quality of health care. However, overcoming the identified gaps requires investments in professional training, strengthening pharmaceutical care, improving the structural conditions of services, and expanding collaborative practices among health professionals. In this way, it will be possible to enhance the pharmacist's role and consolidate their participation as a strategic agent in health promotion and the strengthening of the Unified Health System (SUS).
Keywords: Primary care; Primary health care; Pharmacist; Multiprofessional team; Pharmaceutical care.
1. INTRODUÇÃO
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Atenção Primária à Saúde (APS) é considerada a principal porta de entrada dos sistemas de saúde, desempenhando papel estratégico na coordenação do cuidado e na integralidade da atenção (WHO, 2022). No Brasil, a APS é estruturada pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que garante o acesso universal, integral e gratuito aos serviços, constituindo-se como eixo fundamental para a promoção, prevenção e recuperação da saúde (Brasil, 2021).
Nesse cenário, a Assistência Farmacêutica assume posição central, visto que o uso racional de medicamentos é um dos pilares da efetividade das ações em saúde. A Política Nacional de Assistência Farmacêutica (PNAF), instituída pela Portaria nº 3.916/1998, reforça a necessidade de garantir a disponibilidade, a qualidade e o uso adequado dos medicamentos no âmbito do SUS (Batista e Martins, 2025).
Apesar dos avanços normativos, a realidade de muitas Unidades Básicas de Saúde (UBS) brasileiras ainda é marcada pela ausência de farmacêuticos responsáveis técnicos, transferindo para outros profissionais administrativos a execução de atividades como armazenamento, controle de estoque, dispensação e registros de medicamentos. Essa lacuna compromete a qualidade do serviço, podendo gerar problemas relacionados ao uso incorreto de fármacos, falhas na adesão terapêutica e desperdício de recursos públicos (Silva et al., 2025).
O farmacêutico, quando inserido de forma efetiva na equipe multiprofissional da APS, desempenha funções que ultrapassam a simples entrega de medicamentos. Cabem a ele a realização de orientações individualizadas, acompanhamento farmacoterapêutico, identificação de interações medicamentosas e o desenvolvimento de estratégias para a promoção do uso racional de medicamentos (Oliveira e Andrade, 2023).
Além disso, sua atuação contribui para o fortalecimento das ações de educação em saúde, a redução da judicialização de medicamentos e a melhoria dos indicadores clínicos e econômicos do SUS. Assim, compreender os desafios e as perspectivas da atuação farmacêutica nas UBS sem responsável técnico se torna essencial para subsidiar discussões e apontar caminhos de fortalecimento da Atenção Básica no Brasil (Munhoz et al., 2024).
A Assistência Farmacêutica na APS representa um dos maiores desafios para a consolidação do SUS. Apesar de sua relevância, ainda é comum encontrar UBS sem a presença de farmacêuticos responsáveis técnicos, o que resulta na execução de atividades relacionadas à dispensação e ao controle de medicamentos por profissionais administrativos ou de enfermagem, muitas vezes sem formação específica para essa função (Santos; Silva, 2025).
Essa realidade gera uma série de problemas: erros de dispensação, armazenamento inadequado, uso irracional de medicamentos, desperdício de recursos públicos e, principalmente, falhas na orientação ao paciente, que passa a utilizar os fármacos sem acompanhamento adequado (Batista e Martins, 2025).
O farmacêutico, por sua formação e atribuições legais, é o profissional qualificado para atuar na gestão da Assistência Farmacêutica, assegurando o acesso, a segurança e a eficácia do tratamento medicamentoso. Sua ausência na APS compromete a integralidade do cuidado em saúde, fragilizando o vínculo terapêutico e ampliando os riscos associados ao uso inadequado de medicamentos (Giomo, 2023).
A presença do farmacêutico na APS possibilita o acompanhamento farmacoterapêutico, a detecção de reações adversas, a prevenção de interações medicamentosas e a garantia da segurança no uso de fármacos (Oliveira e Andrade, 2023).
Quando esse profissional está ausente, os usuários ficam desassistidos, o que pode levar ao uso incorreto de medicamentos, falhas de adesão terapêutica e agravamento de condições de saúde, além de implicar em custos adicionais ao sistema público (Saraiva e Souza, 2025).
Ademais, estudos apontam que a inserção efetiva do farmacêutico na equipe multiprofissional reduz índices de internações hospitalares evitáveis, melhora a adesão ao tratamento e contribui para a redução da judicialização da saúde (Pires, Lucena e Mantesso, 2022). Dessa forma, investigar os impactos da ausência do farmacêutico responsável técnico e destacar a relevância de sua atuação é fundamental para o fortalecimento da política pública de saúde no Brasil.
Portanto, o problema central que se impõe é: quais são as implicações da ausência do farmacêutico responsável técnico na farmácia básica das UBS e de que forma sua inserção efetiva poderia impactar positivamente a qualidade da atenção à saúde na APS?
Este estudo visa analisar a importância da atuação do farmacêutico na farmácia básica das UBSs, destacando os impactos da ausência do responsável técnico sobre a qualidade da Assistência Farmacêutica e sobre o cuidado prestado aos usuários do SUS. Bem como, identificar as principais atribuições do farmacêutico na Atenção Primária à Saúde; verificar os desafios enfrentados pelas UBS que não possuem farmacêutico responsável técnico; e propor reflexões sobre estratégias de fortalecimento da Assistência Farmacêutica no âmbito do SUS.
A relevância acadêmica deste trabalho reside na necessidade de ampliar as discussões científicas acerca da atuação do farmacêutico na Atenção Básica, abordando lacunas que ainda persistem no cotidiano das UBS. Já sua relevância social e prática está no fornecimento de subsídios que possam apoiar a gestão em saúde e sensibilizar sobre a importância de garantir a presença desse profissional em todas as unidades, assegurando a qualidade da Assistência Farmacêutica e a efetividade do cuidado prestado à população.
2. DESENVOLVIMENTO
2.1. Metodologia
A presente pesquisa caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter exploratório-descritivo, desenvolvida com o objetivo de analisar a importância do farmacêutico na equipe multiprofissional da Atenção Básica, identificando suas principais contribuições, lacunas existentes e perspectivas para o fortalecimento da assistência em saúde.
A escolha pela revisão integrativa justifica-se por possibilitar a síntese e análise crítica de estudos já publicados, permitindo uma compreensão ampla e sistematizada acerca da atuação do profissional farmacêutico no contexto da APS (Cabral et al., 2023; Dantas, 2022).
O levantamento bibliográfico foi realizado a partir de publicações científicas produzidas entre os anos de 2020 e 2025, visando reunir evidências atualizadas sobre a temática. As buscas ocorreram em bases de dados reconhecidas na área da saúde, tais como SciELO, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS e Google Scholar. Para a identificação dos estudos, foram utilizados descritores em português e inglês, associados por operadores booleanos AND e OR, como: “atenção básica”, “atenção primária à saúde”, “farmacêutico”, “equipe multiprofissional”, “assistência farmacêutica”, “Basic Health Care”, “Primary Health Care”, “pharmacist”, “multidisciplinary team” e “pharmaceutical care”.
Os critérios de inclusão estabelecidos foram: artigos científicos completos, disponíveis gratuitamente, publicados entre 2020 e 2025, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem diretamente a atuação do farmacêutico na Atenção Básica e sua integração na equipe multiprofissional. Foram incluídos estudos originais, revisões sistemáticas e pesquisas de campo relacionadas às contribuições clínicas, assistenciais e estratégicas do farmacêutico na APS.
Como critérios de exclusão, foram desconsiderados artigos duplicados, resumos simples, editoriais, cartas ao leitor, dissertações, teses e publicações que não apresentassem relação direta com o objeto de estudo. Também foram excluídos estudos que abordassem exclusivamente contextos hospitalares ou farmacêuticos sem vínculo com a Atenção Básica.
O processo de seleção dos estudos foi conduzido em etapas, seguindo os princípios metodológicos recomendados para revisões integrativas e apresentado por meio de fluxograma de inclusão e exclusão dos artigos. Inicialmente, realizou-se a identificação dos estudos nas bases de dados selecionadas. Em seguida, ocorreu a triagem mediante leitura dos títulos e resumos, sendo posteriormente realizada a leitura completa dos artigos potencialmente elegíveis. Ao final, os 15 estudos que atenderam integralmente aos critérios estabelecidos compuseram a amostra final da revisão.
A organização do processo metodológico poderá ser representada da seguinte forma:
Figura 1. Fluxograma do percurso metodológico da captação amostral.
A análise dos dados foi realizada por meio da técnica de análise de conteúdo temática, conforme proposta por Laurence Bardin, amplamente utilizada em pesquisas qualitativas na área da saúde. O processo ocorreu em três etapas: (1) pré-análise, com leitura exploratória dos materiais selecionados; (2) exploração do conteúdo, com categorização dos principais temas relacionados à atuação do farmacêutico, integração multiprofissional, assistência farmacêutica e desafios da Atenção Básica; e (3) tratamento e interpretação dos resultados, buscando identificar contribuições, fragilidades e perspectivas futuras encontradas na literatura científica recente (Lakatos e Marconi, 2021).
Para assegurar maior rigor metodológico, foram adotados os princípios de sistematização, transparência e reprodutibilidade da pesquisa, conforme recomendações contemporâneas para revisões integrativas da literatura (Sousa, Bezerra e Egypto, 2023). Dessa forma, a metodologia utilizada possibilita uma análise crítica e aprofundada acerca da importância do farmacêutico na equipe multiprofissional da Atenção Básica, contribuindo para o fortalecimento das práticas assistenciais e da integralidade do cuidado em saúde.
2.2. Resultados e Discussão
O quadro apresenta 15 estudos que reforçam a importância do farmacêutico na equipe multiprofissional da Atenção Básica, com ênfase em desafios, perspectivas e resultados positivos de sua atuação. Os artigos indicam que, apesar das lacunas existentes, a presença do farmacêutico pode contribuir significativamente para a melhoria da saúde da população.
Quadro 1. Artigos selecionados.
AUTOR/ANO | TÍTULO | TIPO DE ESTUDO | RESULTADOS |
Barberato et al. (2022) | O farmacêutico entre o trabalho prescrito e o real na Atenção Primária à Saúde | Estudo de caso | Evidenciou divergências entre as atribuições previstas para o farmacêutico e as atividades efetivamente desenvolvidas, destacando sobrecarga administrativa e limitações assistenciais. |
Barbosa; Schimiguel (2025) | Atuação do farmacêutico na equipe multiprofissional da atenção primária: relato de experiência em cuidado integral do paciente | Relato de experiência com abordagem qualitativa e descritiva | Demonstrou que a atuação integrada do farmacêutico junto à equipe multiprofissional favorece o acompanhamento clínico dos pacientes, a prevenção de problemas relacionados aos medicamentos e a promoção do cuidado integral. |
Barros Neto (2022) | A prática da integralidade no cuidado farmacêutico na atenção primária à saúde | Pesquisa qualitativa | Demonstrou que a integralidade do cuidado farmacêutico depende da articulação entre assistência clínica, ações educativas e trabalho multiprofissional, contribuindo para a melhoria da atenção à saúde. |
Bezerra et al. (2020) | Eu realizo mais atividades burocráticas: análise da Assistência Farmacêutica na Atenção Primária à Saúde | Entrevista | Verificou que a maior parte do tempo de trabalho dos farmacêuticos é destinada a atividades gerenciais e burocráticas, reduzindo a realização de ações clínicas junto aos usuários. |
D’andréa; Wagner; Schveitzer (2022) | Percepção de farmacêuticos na implantação do Cuidado Farmacêutico na Atenção Básica | Estudo qualitativo com abordagem descritiva | Identificou que os farmacêuticos reconhecem a importância do cuidado farmacêutico para a qualificação da assistência, porém destacam dificuldades relacionadas à infraestrutura, tempo disponível e capacitação profissional para sua efetiva implementação. |
Destro et al. (2021) | Desafios para o cuidado farmacêutico na Atenção Primária à Saúde | Estudo de caso, descritivo e interpretativo | Evidenciou que a insuficiência de capacitação clínica, limitações estruturais e dificuldades de integração com a equipe multiprofissional constituem barreiras para a consolidação do cuidado farmacêutico na APS. |
Destro et al. (2023) | A formação para o cuidado farmacêutico na atenção primária à saúde na perspectiva dos farmacêuticos | Estudo de caso qualitativo, descritivo e interpretativo | Evidenciou lacunas na formação acadêmica e na educação permanente dos farmacêuticos, apontando a necessidade de fortalecimento das competências clínicas para atuação na Atenção Primária à Saúde e integração com equipes multiprofissionais. |
Faraco; Rover; Leite (2025) | Avaliação da capacidade de gestão da assistência farmacêutica na Atenção Primária à Saúde dos municípios brasileiros | Pesquisa quantitativa, transversal | Demonstrou que a capacidade de gestão da assistência farmacêutica varia entre os municípios brasileiros, influenciando diretamente a qualidade dos serviços prestados à população. |
Henriques et al. (2025) | Percepção dos profissionais de uma unidade básica de saúde acerca da atuação do farmacêutico na atenção primária à saúde | Pesquisa de campo, do tipo transversal, descritivo e exploratório, com abordagem qualitativa-quantitativa | Identificou que os profissionais da Unidade Básica de Saúde percebem a atuação do farmacêutico como essencial para o uso racional de medicamentos, apoio às equipes de saúde e melhoria da qualidade da assistência prestada aos usuários da Atenção Primária à Saúde. |
Lira; Almeida (2023) | Atuação do farmacêutico em uma residência multiprofissional em saúde da família: desafios e perspectivas | Estudo descritivo, do tipo relato de experiência | Relatou que a inserção do farmacêutico na residência multiprofissional ampliou a realização de consultas farmacêuticas, ações educativas, visitas domiciliares e atividades interdisciplinares, fortalecendo o cuidado integral à comunidade. |
Loss; Alves-Zarpelon; Bueno et al. (2021) | Compreensão de território nos serviços farmacêuticos da atenção básica à saúde: um estudo qualitativo | Entrevistas | Evidenciou que o conhecimento do território e das características da população contribui para o planejamento das ações farmacêuticas e fortalecimento do cuidado integral. |
Oliveira et al. (2022) | Trabalho do farmacêutico na atenção básica em saúde de municípios da região sul do Brasil | Estudo transversal | Identificou participação crescente dos farmacêuticos em ações clínicas, educativas e de promoção da saúde, embora com diferenças entre municípios. |
Paiva et al. (2025) | Percepções dos profissionais de saúde da Atenção Básica (AB) sobre a atuação do farmacêutico nas UBS do município de Santarém, Pará, Brasil | Estudo descritivo e exploratório, de abordagem qualitativa | Evidenciou que os profissionais de saúde reconhecem a importância do farmacêutico para o acompanhamento farmacoterapêutico, promoção do uso racional de medicamentos e qualificação da assistência prestada aos usuários da Atenção Primária à Saúde. |
Peixoto et al. (2022) | O farmacêutico na Atenção Primária à Saúde no Brasil: análise comparativa 2014-2017 | Estudo transversal, retrospectivo e analítico | Identificou crescimento da inserção do farmacêutico na APS e ampliação das atividades clínicas, embora persistam desigualdades regionais e limitações estruturais. |
Soares et al. (2025) | A importância da inserção do farmacêutico clínico na equipe multiprofissional da atenção primária à saúde | Pesquisa de campo descritiva com abordagem quantitativa | Demonstrou que a presença do farmacêutico clínico favorece o uso racional de medicamentos, melhora a adesão terapêutica e fortalece o trabalho interdisciplinar. |
Fonte: Autor, 2024
A APS constitui a principal porta de entrada do SUS e desempenha papel fundamental na promoção, prevenção e recuperação da saúde da população. Nesse contexto, a atuação do farmacêutico vem ganhando destaque ao longo dos últimos anos, especialmente devido à ampliação das atividades clínicas e à crescente inserção desse profissional nas equipes multiprofissionais. Os 15 estudos analisados demonstram avanços importantes na consolidação da assistência farmacêutica na APS, ao mesmo tempo em que evidenciam desafios relacionados à gestão, à formação profissional, às condições estruturais e à organização do processo de trabalho.
Os resultados apresentados por Peixoto et al. (2022) demonstram que houve crescimento da inserção do farmacêutico na APS entre os anos de 2014 e 2017, acompanhado pela ampliação das atividades clínicas desenvolvidas por esses profissionais. Esse avanço também foi identificado por Oliveira et al. (2022), que observaram participação crescente dos farmacêuticos em ações clínicas, educativas e de promoção da saúde em municípios da região Sul do Brasil. Os achados de ambos os estudos sugerem que a assistência farmacêutica vem passando por um processo de transformação, deixando de estar restrita às atividades logísticas relacionadas à aquisição, armazenamento e dispensação de medicamentos para assumir um papel mais ativo no cuidado aos usuários.
Entretanto, apesar desse avanço, os estudos apontam que a expansão das atribuições clínicas ainda ocorre de forma heterogênea entre os diferentes municípios e regiões do país. Nesse sentido, Faraco, Rover e Leite (2025) verificaram que a capacidade de gestão da assistência farmacêutica varia significativamente entre os municípios brasileiros, influenciando diretamente a qualidade dos serviços ofertados à população. Tal resultado complementa os achados de Peixoto et al. (2022), ao demonstrar que a ampliação da presença do farmacêutico não garante, por si só, a efetividade dos serviços, sendo necessário o fortalecimento dos processos de gestão e organização da assistência farmacêutica.
A importância do farmacêutico para o desenvolvimento do cuidado integral é evidenciada em diversos estudos. Barbosa e Schimiguel (2025) demonstraram que a atuação integrada do farmacêutico na equipe multiprofissional favorece o acompanhamento clínico dos pacientes, a prevenção de problemas relacionados aos medicamentos e a promoção da integralidade do cuidado. Esses resultados são corroborados por Soares et al. (2025), que verificaram que a presença do farmacêutico clínico contribui para o uso racional de medicamentos, melhora a adesão terapêutica e fortalece o trabalho interdisciplinar. Da mesma forma, Paiva et al. (2025) identificaram que os profissionais de saúde reconhecem a relevância do farmacêutico para o acompanhamento farmacoterapêutico e para a qualificação da assistência prestada aos usuários da Atenção Primária.
Essa valorização do farmacêutico por outros profissionais da saúde também foi observada por Henriques et al. (2025), cujos resultados demonstraram que os trabalhadores das UBSs percebem a atuação farmacêutica como essencial para a promoção do uso racional de medicamentos, para o apoio às equipes multiprofissionais e para a melhoria da qualidade da assistência. Os achados de Henriques et al. (2025), Paiva et al. (2025), Barbosa e Schimiguel (2025) e Soares et al. (2025) convergem ao destacar que o farmacêutico deixou de ser visto apenas como responsável pela gestão dos medicamentos, assumindo papel estratégico no cuidado direto aos pacientes e no suporte às decisões terapêuticas da equipe.
A integralidade do cuidado constitui outro aspecto amplamente discutido pelos estudos analisados. Barros Neto (2022) destaca que a prática da integralidade no cuidado farmacêutico depende da articulação entre assistência clínica, ações educativas e trabalho multiprofissional. Essa compreensão é reforçada pelos resultados de Lira e Almeida (2023), que demonstraram que a inserção do farmacêutico em programas de residência multiprofissional possibilitou a ampliação das consultas farmacêuticas, das visitas domiciliares, das ações educativas e das atividades interdisciplinares. Ambos os estudos evidenciam que a integralidade não se limita ao atendimento clínico individual, mas envolve a construção de estratégias coletivas de cuidado voltadas às necessidades da comunidade.
Além disso, Loss et al. (2021) acrescentam que o conhecimento do território e das características da população é fundamental para o planejamento das ações farmacêuticas e para o fortalecimento do cuidado integral. Segundo os autores, compreender os aspectos sociais, econômicos e culturais que influenciam o processo saúde-doença permite ao farmacêutico desenvolver intervenções mais adequadas às necessidades locais. Essa perspectiva complementa as discussões de Barros Neto (2022), demonstrando que a integralidade do cuidado depende não apenas da integração multiprofissional, mas também da capacidade dos profissionais de compreenderem o contexto em que os usuários estão inseridos.
Embora os benefícios da atuação farmacêutica sejam amplamente reconhecidos, os estudos também evidenciam diversos obstáculos que dificultam a consolidação do cuidado farmacêutico na APS. Entre os principais desafios identificados está a sobrecarga administrativa enfrentada pelos farmacêuticos. Bezerra et al. (2020) verificaram que grande parte da jornada de trabalho desses profissionais é destinada à execução de atividades burocráticas e gerenciais, reduzindo significativamente o tempo disponível para o desenvolvimento de ações clínicas junto aos usuários. Essa constatação é corroborada por Barberato et al. (2022), que identificaram divergências entre o trabalho prescrito e o trabalho efetivamente realizado pelos farmacêuticos na APS. Segundo os autores, embora as normativas prevejam uma atuação clínica ampliada, a realidade cotidiana ainda é marcada pela predominância de atividades administrativas relacionadas à gestão da assistência farmacêutica.
Os resultados de Bezerra et al. (2020) e Barberato et al. (2022) revelam uma importante contradição existente na prática profissional: ao mesmo tempo em que se espera uma atuação clínica cada vez mais abrangente, os farmacêuticos permanecem sobrecarregados por tarefas burocráticas que limitam sua participação direta no cuidado aos pacientes. Essa situação compromete o potencial de contribuição do profissional para a promoção da saúde e para a prevenção de problemas relacionados ao uso de medicamentos.
Outro conjunto de estudos destaca dificuldades relacionadas à infraestrutura, à qualificação profissional e à integração com as equipes de saúde. D’andréa, Wagner e Schveitzer (2022) verificaram que os farmacêuticos reconhecem a importância do cuidado farmacêutico para a qualificação da assistência, porém relatam barreiras relacionadas à falta de espaço físico adequado, à escassez de tempo para consultas e à necessidade de capacitação específica para o exercício das atividades clínicas. Esses achados são semelhantes aos encontrados por Destro et al. (2021), que identificaram limitações estruturais, insuficiência de capacitação clínica e dificuldades de integração multiprofissional como obstáculos para a consolidação do cuidado farmacêutico na APS.
A questão da formação profissional é aprofundada por Destro et al. (2023), que apontam lacunas na formação acadêmica e na educação permanente dos farmacêuticos. Segundo os autores, muitos profissionais ingressam na Atenção Primária sem preparo suficiente para desenvolver atividades clínicas complexas, o que reforça a necessidade de investimentos em qualificação e atualização profissional. Os resultados de Destro et al. (2023) complementam os achados de D’andréa, Wagner e Schveitzer (2022) e Destro et al. (2021), evidenciando que o fortalecimento das competências clínicas constitui uma condição indispensável para a efetiva implementação do cuidado farmacêutico.
A análise conjunta dos estudos permite compreender que os desafios encontrados na assistência farmacêutica não decorrem exclusivamente de limitações individuais dos profissionais, mas também de fatores institucionais e organizacionais relacionados à estrutura dos serviços de saúde. Nesse sentido, a qualificação da assistência farmacêutica exige investimentos simultâneos em gestão, infraestrutura, formação profissional e reorganização dos processos de trabalho.
De modo geral, os autores convergem ao reconhecer que a atuação do farmacêutico na APS produz impactos positivos sobre a qualidade da assistência, o uso racional de medicamentos, a adesão terapêutica e a integralidade do cuidado. Ao mesmo tempo, evidenciam que a consolidação desse modelo de atuação depende da superação de barreiras históricas relacionadas à burocratização do trabalho, às limitações estruturais dos serviços e às lacunas na formação clínica dos profissionais.
Assim, os estudos analisados demonstram que o farmacêutico ocupa posição estratégica no fortalecimento da APS, contribuindo para a construção de um cuidado mais resolutivo, humanizado e centrado nas necessidades dos usuários. Contudo, para que essa potencialidade seja plenamente alcançada, torna-se necessário ampliar investimentos em capacitação profissional, fortalecer a gestão da assistência farmacêutica, melhorar as condições estruturais das unidades de saúde e promover maior integração entre os membros das equipes multiprofissionais, favorecendo a consolidação do cuidado farmacêutico como componente essencial da atenção integral à saúde.
3. CONCLUSÃO
A presente pesquisa permitiu compreender a relevância da atuação do farmacêutico na equipe multiprofissional da Atenção Básica, evidenciando que esse profissional desempenha papel fundamental na promoção do uso racional de medicamentos, no acompanhamento farmacoterapêutico, na prevenção de problemas relacionados aos medicamentos e na qualificação da assistência prestada à população.
A inserção do farmacêutico nos serviços de APS fortalece o cuidado integral, amplia a resolutividade das ações de saúde e contribui para a melhoria dos indicadores relacionados à segurança e à efetividade dos tratamentos.
Os estudos analisados demonstraram que a atuação integrada do farmacêutico junto às equipes multiprofissionais favorece a construção de estratégias de cuidado mais abrangentes e centradas nas necessidades dos usuários. Além disso, evidenciaram que as atividades clínicas, educativas e de promoção da saúde desenvolvidas por esses profissionais contribuem significativamente para a adesão terapêutica, para a prevenção de agravos e para a melhoria da qualidade de vida da população assistida.
Entretanto, apesar dos avanços observados nas últimas décadas, a pesquisa também identificou importantes lacunas que ainda dificultam a consolidação do cuidado farmacêutico na Atenção Básica. Entre os principais desafios destacam-se a sobrecarga de atividades burocráticas e administrativas, as limitações estruturais das unidades de saúde, a insuficiência de recursos materiais e humanos, as dificuldades de integração com as equipes multiprofissionais e as fragilidades relacionadas à formação clínica e à educação permanente dos farmacêuticos.
Nesse contexto, torna-se evidente a necessidade de fortalecimento das políticas públicas voltadas à assistência farmacêutica, com investimentos na qualificação profissional, na melhoria das condições de trabalho e na ampliação dos espaços destinados ao desenvolvimento das atividades clínicas. Também se faz necessário estimular a integração entre os diversos profissionais da saúde, promovendo práticas colaborativas que favoreçam a integralidade do cuidado e a construção de planos terapêuticos mais efetivos.
Quanto às perspectivas futuras, observa-se uma tendência crescente de valorização do farmacêutico como agente estratégico na APS. O fortalecimento do cuidado farmacêutico, aliado ao avanço das práticas clínicas, da educação em saúde e do trabalho interdisciplinar, poderá ampliar ainda mais a contribuição desse profissional para o Sistema Único de Saúde.
Dessa forma, espera-se que o farmacêutico seja cada vez mais reconhecido como membro essencial da equipe multiprofissional, participando ativamente das ações de promoção, prevenção, recuperação e manutenção da saúde da população.
Conclui-se, portanto, que o farmacêutico exerce papel indispensável na Atenção Básica, sendo sua atuação determinante para a qualificação da assistência, para o fortalecimento das equipes multiprofissionais e para a efetivação dos princípios da integralidade, da universalidade e da equidade que orientam o Sistema Único de Saúde. Contudo, a superação das lacunas identificadas constitui condição fundamental para que seu potencial de atuação seja plenamente desenvolvido, contribuindo para uma atenção à saúde cada vez mais humanizada, eficiente e centrada nas necessidades dos usuários.
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LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
APS | Atenção Primária à Saúde |
OMS | Organização Mundial da Saúde |
PNAF | Política Nacional de Assistência Farmacêutica |
SUS | Sistema Único de Saúde |
UBS | Unidades Básicas de Saúde |
Monografia apresentada ao Curso de Farmácia da Faculdade Estácio como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel em Farmácia.