REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781156912
RESUMO
O estudo da linguagem e da cognição humana tem sido um dos maiores desafios da psicologia científica. O presente artigo tem como objetivo analisar a evolução teórica e metodológica do estudo da linguagem na análise do comportamento, traçando o percurso desde o modelo skinneriano de comportamento verbal até o paradigma de equivalência de estímulos e, subsequentemente, para a Teoria das Molduras Relacionais (RFT). O referencial teórico baseia-se no behaviorismo radical e no contextualismo funcional, que fornecem as bases filosóficas para a compreensão do comportamento simbólico. O método utilizado foi uma revisão integrativa da literatura, selecionando artigos científicos publicados nos últimos dez anos, além de obras clássicas fundamentais para a área. Os resultados demonstram que a transição do modelo operante básico para a investigação de relações derivadas não treinadas permitiu à análise do comportamento explicar a generatividade e a produtividade da linguagem humana sem recorrer a construtos mentalistas. A RFT, fundamentada no contextualismo funcional, expandiu o conceito de equivalência ao incluir múltiplas famílias de relações arbitrárias, oferecendo um modelo robusto para a cognição. Conclui-se que a integração dessas perspectivas teóricas fornece um arcabouço abrangente e pragmático para a compreensão e intervenção em processos psicológicos complexos, consolidando a ciência comportamental contextual contemporânea.
Palavras-chave: Comportamento Verbal; Equivalência de Estímulos; Teoria das Molduras Relacionais; Contextualismo Funcional; Behaviorismo Radical.
ABSTRACT
The study of language and human cognition has been one of the greatest challenges in scientific psychology. This article aims to analyze the theoretical and methodological evolution of the study of language in behavior analysis, tracing the path from the Skinnerian model of verbal behavior to the stimulus equivalence paradigm and, subsequently, to Relational Frame Theory (RFT). The theoretical framework is based on radical behaviorism and functional contextualism, which provide the philosophical basis for understanding symbolic behavior. The method used was an integrative literature review, selecting scientific articles published in the last ten years, in addition to fundamental classic works in the field. The results demonstrate that the transition from the basic operant model to the investigation of untrained derived relations allowed behavior analysis to explain the generativity and productivity of human language without resorting to mentalistic constructs. Relational Frame Theory (RFT), grounded in functional contextualism, expanded the concept of equivalence by including multiple families of arbitrary relations, offering a robust model for cognition. It concludes that the integration of these theoretical perspectives provides a comprehensive and pragmatic framework for understanding and intervening in complex psychological processes, consolidating contemporary contextual behavioral science.
Keywords: Verbal Behavior; Stimulus Equivalence; Relational Frame Theory; Functional Contextualism; Radical Behaviorism.
1. INTRODUÇÃO
O estudo da linguagem e da cognição humana representou, historicamente, um dos maiores desafios para a psicologia científica, frequentemente abordado por perspectivas mentalistas e estruturalistas que criavam um dualismo mente-corpo de difícil transposição metodológica (Oliveira, 1995). A emergência da perspectiva comportamental propôs uma ruptura epistemológica significativa, buscando estabelecer uma ciência que pudesse explicar processos complexos sem recorrer a construtos hipotéticos internos ou entidades inobserváveis como causas do comportamento (Lopes, 2008). No entanto, o estudo do significado, da compreensão e do pensamento simbólico configurou-se como um obstáculo particular para as teorias de aprendizagem iniciais, exigindo o desenvolvimento de modelos experimentais e conceituais cada vez mais sofisticados para dar conta da complexidade inerente à comunicação humana (De Rose & Bortoloti, 2007).
A compreensão da linguagem na análise do comportamento não permaneceu estática, mas passou por uma evolução teórica rigorosa ao longo das décadas, culminando em modelos contemporâneos robustos que integram diferentes níveis de análise (Oliveira e Silva & Melo, 2021). O marco inicial dessa trajetória foi a publicação da obra "Verbal Behavior", na qual a linguagem passou a ser tratada como comportamento operante, modelado e mantido por consequências mediadas por outros indivíduos (Skinner, 1957). Apesar de sua importância fundacional, o modelo skinneriano enfrentou críticas externas e limitações internas, especialmente no que tange à explicação da produtividade e generatividade da linguagem humana, impulsionando a busca por novos paradigmas investigativos (Schmidt & Cortez, 2025).
A transição metodológica mais significativa ocorreu com a descoberta das relações de equivalência de estímulos, que forneceu, pela primeira vez, um modelo experimental e quantificável para o "significado" e a compreensão semântica (Sidman & Tailby, 1982). Esse paradigma demonstrou como estímulos podem adquirir funções simbólicas e relacionar-se de maneira não diretamente treinada, abrindo caminho para a investigação empírica de processos cognitivos complexos dentro de uma estrutura analítico-comportamental rigorosa (De Rose & Bortoloti, 2007). Posteriormente, a Teoria das Molduras Relacionais (RFT) surgiu como uma extensão direta desses estudos, propondo que a capacidade humana de relacionar estímulos com base em pistas contextuais arbitrárias é o núcleo da linguagem e da cognição (Hayes et al., 2001).
Toda essa evolução teórica foi acompanhada por um refinamento filosófico, consolidado no Contextualismo Funcional, que expandiu o Behaviorismo Radical ao enfatizar o "ato em contexto" e adotar o "funcionamento bem-sucedido" como critério de verdade pragmático (Vilardaga et al., 2009). Diante dessa complexa teia de desenvolvimentos conceituais, justifica-se a necessidade de uma revisão integrativa que conecte historicamente o Behaviorismo Radical, a Equivalência de Estímulos e a RFT sob o guarda-chuva do Contextualismo Funcional. O objetivo deste estudo é, portanto, analisar criticamente essa trajetória evolutiva, demonstrando como a integração dessas perspectivas fornece a base para a compreensão moderna da cognição como comportamento relacional.
2. MÉTODO
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, um método de pesquisa que permite a síntese de múltiplas perspectivas teóricas e empíricas para proporcionar uma compreensão abrangente de um determinado fenômeno (Costa & Xavier, 2026). A escolha desse delineamento metodológico justifica-se pela necessidade de articular conceitos históricos fundacionais com os desenvolvimentos contemporâneos na área da análise do comportamento, da linguagem e da cognição, permitindo a construção de uma narrativa teórica coesa e fundamentada em evidências (Oliveira e Silva & Melo, 2021).
A estratégia de busca foi conduzida em bases de dados eletrônicas reconhecidas na área da psicologia e ciências da saúde, incluindo PePSIC, SciELO, PubMed e Google Scholar, utilizando descritores específicos em português e inglês (Schmidt & Cortez, 2025). Os termos de busca incluíram combinações como "behaviorismo radical", "comportamento verbal", "equivalência de estímulos", "teoria das molduras relacionais", "RFT", "contextualismo funcional", "linguagem" e "cognição", interligados pelos operadores booleanos AND e OR para refinar os resultados (de Moraes et al., 2023).
Os critérios de elegibilidade estabelecidos para a seleção dos estudos priorizaram a atualidade e a relevância teórica (Silva et al., 2025). Foram incluídos artigos científicos revisados por pares publicados nos últimos dez anos (2015-2025) que abordassem diretamente a intersecção entre os temas centrais da pesquisa, bem como livros e artigos de autores clássicos (ex: Skinner, Sidman, Hayes) cujas definições fundacionais são essenciais para a compreensão histórica do campo (Perez et al., 2025). Foram excluídos estudos que não apresentavam alinhamento com a perspectiva analítico-comportamental ou que focavam exclusivamente em intervenções clínicas sem aprofundamento teórico nos processos de linguagem e cognição (Daar et al., 2015).
O procedimento de análise dos dados envolveu a leitura flutuante dos resumos, seguida pela leitura na íntegra dos textos selecionados, visando a extração de informações pertinentes aos objetivos do estudo (Costa & Xavier, 2026). Os dados foram categorizados cronológica e conceitualmente, permitindo a estruturação dos resultados em eixos temáticos que refletem a evolução do pensamento analítico-comportamental: desde as fundações do behaviorismo radical, passando pelo paradigma de equivalência de estímulos, até a consolidação do contextualismo funcional e da RFT (Oliveira e Silva & Melo, 2021).
3. RESULTADOS
3.1. O Behaviorismo Radical e o Comportamento Verbal
O Behaviorismo Radical, proposto por B.F. Skinner, estabeleceu a fundação filosófica para uma ciência do comportamento que incluiu eventos privados, como pensamento e sentimento, no escopo de sua análise, rejeitando o dualismo mente-corpo tradicional (Lopes, 2008). Essa perspectiva filosófica argumenta que os eventos que ocorrem "dentro da pele" não possuem uma natureza especial, sendo regidos pelas mesmas leis que o comportamento publicamente observável, o que permitiu à psicologia abordar a cognição de forma monista e pragmática (Oliveira e Silva & Melo, 2021). A ênfase recaiu sobre as relações funcionais entre o organismo e seu ambiente, histórico e atual, deslocando o foco de estruturas internas hipotéticas para as contingências de reforçamento (Costa & Xavier, 2026).
A aplicação dessa filosofia ao estudo da linguagem culminou na publicação da obra "Verbal Behavior", na qual a linguagem foi definida como comportamento operante, modelado e mantido por consequências mediadas por outros indivíduos (Skinner, 1957). Essa formulação representou uma mudança paradigmática, pois transferiu a análise da estrutura formal da linguagem (sintaxe e gramática) para a sua função no contexto social, enfatizando que o significado de uma emissão verbal não reside na palavra em si, mas nas variáveis que controlam a sua emissão (Schmidt & Cortez, 2025). O comportamento verbal, portanto, passou a ser compreendido como uma ação interativa, dependente de uma comunidade verbal que treina seus membros a responderem de maneiras específicas (Costa & Xavier, 2026).
Para operacionalizar essa análise, foram propostos os operantes verbais básicos, como o mando (controlado por operações motivacionais), o tato (controlado por estímulos discriminativos não-verbais), o ecoico e o intraverbal, que categorizaram a linguagem com base em suas relações funcionais (Skinner, 1957). Essa sistemática permitiu o desenvolvimento de programas de ensino e intervenções precisas, especialmente no contexto do desenvolvimento atípico, demonstrando a utilidade prática da abordagem funcional da linguagem (Daar et al., 2015). A distinção entre os repertórios de falante e ouvinte também se mostrou crucial, evidenciando que a compreensão e a produção da linguagem envolvem processos comportamentais distintos, embora inter-relacionados (Costa & Xavier, 2026).
Apesar de sua robustez conceitual, o modelo skinneriano enfrentou críticas históricas severas, notadamente as de Chomsky, e limitações apontadas pelos próprios analistas do comportamento quanto à sua capacidade de explicar a produtividade e a generatividade da linguagem humana (Schmidt & Cortez, 2025). A principal dificuldade residia em explicar como indivíduos são capazes de produzir e compreender sentenças inéditas sem treino direto prévio, um fenômeno central para a cognição complexa que parecia exigir mecanismos além do condicionamento operante tradicional (Oliveira e Silva & Melo, 2021). Essas lacunas teóricas impulsionaram a busca por novos modelos experimentais que pudessem dar conta da emergência de comportamentos não diretamente ensinados (De Rose & Bortoloti, 2007).
3.2. O Paradigma da Equivalência de Estímulos
A transição metodológica para a compreensão da generatividade da linguagem ocorreu com o trabalho pioneiro sobre equivalência de estímulos, que introduziu um novo paradigma para o estudo do comportamento simbólico (Sidman & Tailby, 1982). Esse modelo demonstrou que, após o treino de um número limitado de relações condicionais entre estímulos, novas relações emergem sem treino direto ou reforçamento adicional, evidenciando uma produtividade comportamental até então não explicada satisfatoriamente (De Rose & Bortoloti, 2007). A descoberta de que organismos com repertório verbal podem formar classes de estímulos equivalentes revolucionou a forma como a análise do comportamento investiga a cognição (Schmidt & Cortez, 2025).
A definição operacional da equivalência de estímulos baseou-se em propriedades matemáticas e lógicas: reflexividade (A=A), simetria (se A=B, então B=A) e transitividade (se A=B e B=C, então A=C), que, quando demonstradas em testes de emparelhamento ao modelo, atestam a formação de uma classe de equivalência (Sidman & Tailby, 1982). Essas propriedades forneceram critérios rigorosos e empiricamente verificáveis para identificar comportamentos com características simbólicas, diferenciando-os de meras associações pareadas (De Rose & Bortoloti, 2007). A capacidade de derivar relações simétricas e transitivas mostrou-se intimamente ligada ao desenvolvimento da linguagem, sendo raramente observada em organismos não-verbais (Daar et al., 2015).
A equivalência de estímulos forneceu, pela primeira vez na análise do comportamento, um modelo experimental e quantificável para o "significado" e a compreensão semântica (De Rose & Bortoloti, 2007). Quando uma palavra falada, um texto escrito e um objeto físico tornam-se equivalentes, eles passam a ser substituíveis entre si em determinados contextos, o que constitui a essência da relação simbólica (Schmidt & Cortez, 2025). Esse modelo permitiu simular em laboratório como as palavras adquirem significado, demonstrando que a compreensão não é um processo mental obscuro, mas o resultado da inserção de estímulos em redes de relações equivalentes e derivadas (Oliveira e Silva & Melo, 2021).
Um fenômeno crucial derivado desse paradigma é a transferência de funções, que explica como o impacto emocional e cognitivo de um estímulo pode se estender a outros membros da mesma classe de equivalência (De Rose & Bortoloti, 2007). Se um estímulo de uma classe adquire uma função aversiva ou reforçadora, os demais estímulos equivalentes passam a eliciar ou discriminar respostas semelhantes, mesmo sem terem sido diretamente pareados com a consequência (Hayes et al., 2001). Esse mecanismo é fundamental para entender a complexidade do sofrimento humano, a formação de preconceitos e a capacidade da linguagem de evocar reações fisiológicas intensas, ampliando significativamente o escopo explicativo da ciência comportamental (de Moraes et al., 2023).
3.3. O Contextualismo Funcional: Uma Nova Base Filosófica
A evolução teórica na análise do comportamento foi acompanhada por um refinamento de suas bases filosóficas, consolidado no Contextualismo Funcional, uma filosofia da ciência enraizada no pragmatismo que expande e clarifica os pressupostos do Behaviorismo Radical (Vilardaga et al., 2009). Essa perspectiva filosófica foi desenvolvida para fornecer um alicerce epistemológico mais adequado para o estudo de fenômenos humanos complexos, como a linguagem e a cognição, superando as limitações de abordagens mecanicistas (Oliveira e Silva & Melo, 2021). O contextualismo funcional enfatiza a inseparabilidade entre o comportamento e o ambiente em que ele ocorre, rejeitando análises reducionistas (Silva et al., 2025).
O conceito central dessa filosofia é o "ato em contexto", que postula que nenhum comportamento pode ser compreendido isoladamente de seu contexto histórico e situacional (Vilardaga et al., 2009). O significado de uma ação não é uma propriedade intrínseca da topografia da resposta, mas deriva inteiramente da rede de relações funcionais na qual a ação está inserida (Oliveira e Silva & Melo, 2021). Essa visão holística e pragmática alinha-se perfeitamente com a necessidade de analisar a linguagem não como um conjunto de regras abstratas, mas como uma atividade humana dinâmica e dependente do contexto social e cultural (Schmidt & Cortez, 2025).
O critério de verdade adotado pelo contextualismo funcional é o "funcionamento bem-sucedido" (successful working), focado na previsão e influência sobre os eventos psicológicos com precisão, escopo e profundidade (Vilardaga et al., 2009). Diferentemente de filosofias que buscam uma correspondência ontológica com a realidade objetiva, o contextualismo avalia a validade de um conceito ou teoria com base em sua utilidade prática para atingir objetivos específicos (Perez et al., 2025). Esse critério pragmático tem impulsionado o desenvolvimento de tecnologias comportamentais altamente eficazes, orientando a pesquisa para a solução de problemas humanos reais (Silva et al., 2025).
O Contextualismo Funcional preparou o terreno epistemológico para uma abordagem mais flexível e abrangente da cognição humana, fornecendo a base filosófica necessária para o surgimento da Teoria das Molduras Relacionais e das terapias contextuais de terceira onda (Oliveira e Silva & Melo, 2021). Ao legitimar o estudo científico de eventos privados e enfatizar a importância do contexto na determinação do significado, essa filosofia permitiu que a análise do comportamento integrasse os achados sobre equivalência de estímulos em um modelo teórico coeso e clinicamente útil (de Moraes et al., 2023). A ciência comportamental contextual contemporânea é, portanto, o produto direto dessa evolução filosófica (Vilardaga et al., 2009).
3.4. Relational Frame Theory (RFT): A Síntese Contemporânea
A Teoria das Molduras Relacionais (RFT) surgiu como uma extensão direta dos estudos de equivalência de estímulos e do comportamento governado por regras, propondo uma síntese integrativa para a compreensão da linguagem e da cognição (Hayes et al., 2001). A RFT argumenta que a capacidade de derivar relações entre estímulos não se limita à equivalência (identidade), mas abrange uma ampla variedade de padrões relacionais que formam a base do pensamento humano complexo (de Moraes et al., 2023). Essa teoria representa um avanço significativo, pois oferece um modelo operante abrangente que explica a generatividade linguística sem recorrer a mecanismos inatos ou mentalistas (Schmidt & Cortez, 2025).
O conceito central da RFT é o Responder Relacional Arbitrariamente Aplicável (RRAA), definido como a capacidade humana de relacionar estímulos com base em pistas contextuais arbitrárias, e não apenas em suas propriedades físicas formais (Hayes et al., 2001). Esse comportamento operante generalizado é aprendido ao longo do desenvolvimento através de múltiplos exemplares fornecidos pela comunidade verbal, permitindo que o indivíduo aplique padrões relacionais a quaisquer novos estímulos (Liu et al., 2025). O RRAA é caracterizado por três propriedades definidoras: implicação mútua (bidirecionalidade), implicação combinatória (relações derivadas entre múltiplos estímulos) e transformação de função (de Moraes et al., 2023).
A RFT expande substancialmente o modelo de Sidman ao identificar múltiplas famílias de relações, denominadas molduras relacionais, que incluem coordenação, oposição, distinção, comparação, hierarquia, causalidade, tempo, espaço e dêitica (Hayes et al., 2001). Essa diversidade relacional permite explicar fenômenos cognitivos complexos, como o raciocínio analógico, a resolução de problemas e a formação do self, que não poderiam ser compreendidos apenas através de relações de equivalência (Liu et al., 2025). A capacidade de enquadrar eventos relacionalmente de forma flexível e complexa é vista como a essência da inteligência e da linguagem humana (de Moraes et al., 2023).
O mecanismo de transformação de função é o aspecto mais clinicamente relevante da RFT, detalhando como as funções dos estímulos são alteradas com base nas relações específicas em que estão inseridos (Hayes et al., 2001). Por exemplo, se um estímulo A é aversivo e o indivíduo aprende que B é "maior que" A, o estímulo B pode eliciar uma resposta de medo ainda mais intensa que A, mesmo sem nunca ter sido pareado com perigo (de Moraes et al., 2023). Esse processo explica a complexidade do sofrimento psicológico humano, demonstrando como a linguagem pode criar armadilhas cognitivas e amplificar a dor emocional, fundamentando intervenções clínicas modernas como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) (Perez et al., 2025).
4. DISCUSSÃO
A trajetória evolutiva do estudo da linguagem e cognição na análise do comportamento revela um progresso científico notável, caracterizado pela expansão contínua do escopo explicativo e metodológico da disciplina (Oliveira e Silva & Melo, 2021). O percurso histórico, que se inicia com a análise da função operante básica proposta por Skinner, avança para a descoberta empírica da emergência de relações não treinadas por Sidman, e culmina na formulação abrangente do responder relacional complexo por Hayes, demonstra a vitalidade e a capacidade de renovação do paradigma comportamental (Schmidt & Cortez, 2025). Essa evolução não representa uma ruptura com os princípios fundamentais do behaviorismo radical, mas sim um refinamento e uma sofisticação necessários para lidar com a complexidade inerente aos fenômenos simbólicos humanos (Costa & Xavier, 2026).
A integração dessas perspectivas teóricas permitiu à Análise do Comportamento resolver antigas dicotomias e responder de forma robusta às críticas históricas sobre sua suposta incapacidade de explicar a generatividade da linguagem (Schmidt & Cortez, 2025). Ao demonstrar que a derivação de relações arbitrárias é, em si mesma, um comportamento operante generalizado aprendido socialmente, a RFT forneceu o elo perdido entre o condicionamento básico e a cognição superior (de Moraes et al., 2023). Essa compreensão desmistifica o pensamento e o significado, tratando-os como atividades relacionais em contexto, o que elimina a necessidade de postular estruturas mentais inatas ou processadores de informação internos para explicar a produtividade linguística (Oliveira e Silva & Melo, 2021).
As implicações clínicas e aplicadas dessa evolução teórica são vastas e transformadoras, fundamentando o desenvolvimento de intervenções baseadas em evidências altamente eficazes (Perez et al., 2025). A compreensão detalhada da transformação de funções através de molduras relacionais forneceu a base científica para a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), que visa alterar a relação do indivíduo com seus eventos privados em vez de tentar modificar o conteúdo dos pensamentos (Silva et al., 2025). Além disso, no campo da educação e do desenvolvimento atípico, os princípios da equivalência de estímulos e da RFT têm orientado a criação de currículos precisos para o ensino de linguagem e habilidades cognitivas para indivíduos com autismo, demonstrando a utilidade pragmática do modelo (Daar et al., 2015).
Apesar dos avanços significativos, a pesquisa sobre RFT e cognição ainda enfrenta desafios e apresenta lacunas que direcionam investigações futuras (Liu et al., 2025). A complexidade metodológica dos protocolos experimentais para avaliar molduras relacionais mais sofisticadas, como as relações dêiticas e hierárquicas, exige o desenvolvimento de novos instrumentos de medida e delineamentos de pesquisa (de Moraes et al., 2023). Ademais, a integração completa entre a análise skinneriana clássica do comportamento verbal e a abordagem relacional da RFT continua sendo um campo fértil para debates teóricos e investigações empíricas, buscando uma síntese que aumente o poder preditivo e de influência da ciência comportamental contextual (Schmidt & Cortez, 2025).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presente revisão integrativa alcançou seu objetivo ao traçar a evolução histórica e conceitual do estudo da linguagem e cognição humana dentro da perspectiva analítico-comportamental. A análise demonstrou que a disciplina transcendeu as limitações iniciais apontadas por seus críticos, desenvolvendo um arcabouço teórico e empírico robusto, capaz de explicar a complexidade, a generatividade e a produtividade do comportamento simbólico humano. A transição do modelo operante básico para o paradigma de equivalência de estímulos e, posteriormente, para a Teoria das Molduras Relacionais, evidencia uma ciência em constante amadurecimento.
O Contextualismo Funcional destaca-se como a base filosófica essencial que permitiu essa integração, fornecendo um critério de verdade pragmático focado na previsão e influência, e enfatizando a inseparabilidade entre o ato e seu contexto. Essa postura epistemológica não apenas validou o estudo científico rigoroso de eventos privados, mas também orientou o desenvolvimento de tecnologias de mudança comportamental compassivas e eficazes, como as terapias contextuais de terceira onda.
Como limitações deste estudo, ressalta-se que, por se tratar de uma revisão integrativa da literatura, os resultados estão condicionados ao recorte metodológico adotado, às bases de dados consultadas, aos critérios de inclusão estabelecidos e ao recorte temporal definido para a seleção dos estudos, fatores que delimitam o conjunto de evidências analisadas. As contribuições desta revisão residem na síntese didática e integrativa de conceitos frequentemente tratados de forma isolada na literatura, oferecendo um panorama coeso da ciência comportamental contextual. Sugere-se que futuros pesquisadores invistam em estudos empíricos que testem a integração entre os operantes verbais skinnerianos e as molduras relacionais em contextos aplicados, bem como no desenvolvimento de metodologias mais acessíveis para a avaliação do responder relacional complexo em populações diversas.
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1 Docente Titular do curso de Psicologia na Universidade Salgado de Oliveira; Doutorando e Mestre em Psicologia; Especialista em Neuropsicologia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Orcid: https://orcid.org/0009-0002-1266-0041