REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/774982834
RESUMO
Este artigo analisa a importância dos sofistas na consolidação da democracia Grega do século V e VI a. C, quando propuseram uma nova concepção de educação, que rompia com aquela aristocrática baseada na hereditariedade, na poesia homérica e numa filosofia sobre os princípios da natureza (physis); culminando numa educação integral do ser humano, cujo foco estava voltado para a excelência (areté), como resultado de uma educação enriquecida com múltiplas áreas do saber: filosofia, ciências, política, música e aritmética. Então, inaugurava-se o período humanístico da filosofia grega. A metodologia utilizada nesse artigo é a revisão bibliográfica de livros, artigos e sites acadêmicos, o que caracteriza como um estudo qualitativo baseado em materiais já publicados, sendo o objetivo principal o levantamento de dados para serem analisados. Assim, constata-se por meio dessa pesquisa, que a função de ensinar, tornou-se, com os sofistas, uma nova profissão remunerada.
Palavras-chave: Sofistas. Educação integral. Democracia.
ABSTRACT
This article analyses the importance of sophists in the consolidation of democracy in the centuries V and VI a. C. when they proposed a new educational conception, that breaks with that aristocracy based in heredity, in Homeric poetry and in a philosophy about nature principles (physis); for an integral education for the human being, which focus was concerned to the excellence (areté), as a result of an education enhanced by multiples knowledges areas: philosophy, sciences, politic, music and arithmetic. So, it launches the humanistic period in the Greek philosophy. The methodology used in this article is a bibliographic review of books, articles and academic websites, that qualifies as a qualitative study based in already published materials, as the principal objective the data survey to be examined. Therefore, we realize by this research, that the teaching function, has become with the sophists a paid job.
Keywords: Sophists. Integral Education. Democracy.
INTRODUÇÃO
O objetivo do pensamento filosófico do Período Clássico grego é a preocupação com a formação do cidadão guerreiro e ocioso. Porém, começa-se no final do século IV e termina no século V a. C., a segunda fase da filosofia grega, voltada para temas de política, de ética e do conhecimento em geral. Quando os gregos passaram a conhecer os costumes e práticas de outros povos, como resultado da volta que o historiador Heródoto fez em torno da bacia do Mediterrâneo, e voltando a Grécia, falava da variedade dos costumes não gregos, levando a entender o quanto o mundo era obra das mãos humanas e não apenas da natureza (Hamlyn,1990; Kerferd, 2003; Silva, Cunha, 2021; Zatti, Pagotto-Euzebio, Silva, Dalbosco, 2025).
Além disso, com o afluxo cada vez maior de comerciantes estrangeiros para a cidade de Atenas, ampliando o comércio, ultrapassando as fronteiras da Cidade-Estado, resultando na difusão de novos conhecimentos e de novas experiências entre os viajantes, que comparavam usos, costumes e leis completamente diferentes/opostas em cada Cidade-Estado. Essas questões levariam a admitir o relativismo na prática, pois, dariam a convicção do que foi eternamente válido, já não possuía a mesma importância em outras cidades e circunstâncias históricas (Reale, Antiseri, 2003; Jaeger, 2018).
Esse novo universo humano é a Pólis (cidadãos no seu conjunto e não o estado como entidade abstrata), da democracia direta ateniense, isto é, cada cidadão, além de ter direito a votar, igualmente tinha direito a palavra, quando discursava na ágora, lugar onde as assembleias eram realizadas. Essa Polís foi gerada pela autonomia da palavra, não aquela palavra mágica e mítica pronunciada pelos deuses, mas, a palavra humana do conflito, discussão e da argumentação que fez nascer a política, permitindo ao indivíduo nortear seu destino em praça pública. Assim, surgindo uma nova ordem social: o cidadão da Polís, personagem inexistente naquele mundo tribal e aristocrático rural (Aranha, Martins, 2013).
Essa nova forma de governar, cujo princípio era a isonomia e todos os cidadãos serem iguais perante a Lei, foi o resultado das reformas políticas de Drácon, Sólon e Clístenes, entre os séculos VI e VII a. C., que se fundamentava teoricamente no princípio da isonomia (igualdade de todos os homens perante a lei) da isegoria (direito de todo cidadão expor em público suas opiniões) e da isocracia (igualdade no falar ou a franqueza na palavra). No entanto, a Atenas do século V a. C., não era a mesma Atenas imaginada por Platão no seu livro: A República. Naquela democracia, apenas dez por cento da população tinha direito a votar. Enquanto mulheres e escravos não possuíam esse mesmo direito (Warburton, 2011; Leal, 2018).
Enquanto na aristocracia (domínio de todos os poderes), a educação dos jovens era fundamentada nos princípios do guerreiro belo e bom; com a democracia, essa educação já não mais correspondia aos anseios da sociedade vigente. Portanto, sendo necessário, uma educação voltada para investigar as questões humanas, o conhecimento que os homens tinham sobre si mesmos, e de sua capacidade para conhecer a verdade, no falar em público e persuadir os demais (Chauí, 2004; Oliveira 2023; Guerra, Purificação, Joerke, Júnior, 2025).
O Surgimento do Movimento Sofista e a Virada Antropológica
Essas mudanças socioculturais foram sendo articuladas, em torno do movimento sofista, iniciado no século VI, quando a aristocracia da nobreza foi cedendo à democracia dos cidadãos; a aristocracia dos mitos, sendo substituída pela democracia dos argumentos públicos; a aristocracia dos oráculos recuando-se perante a democracia das leis humanas; a aristocracia da poesia e sua glória para a democracia dos discursos públicos (Fonseca, 2019; Silva, 2024).
Diante das novas condições sociais, culturais e políticas, surgem em Atenas, na segunda metade do século V, os chamados sofistas, “sapiente”, “perito do saber”. São eles os primeiros filósofos humanistas a afirmarem que os filósofos da physis, ainda em vigor, não tinham atingido a verdade em suas filosofias, acerca da physis (terra, água, ar e fogo: mundo natural explicado pelos processos ou fenômenos naturais, cujas causas são encontradas na própria natureza, e não fora dela), e da busca da arché, isto é, do princípio primordial e explicativo do movimento do vir a ser dos fenômenos naturais, que segundo Heráclito IV e V, tudo se encontra em um perpétuo fluxo. Dessa forma, a realidade está sujeita a ser contínua (Cambi, 1999; Antiseri, Reale, 2020).
A partir de agora, o pensamento no horizonte histórico e filosófico migra da visão cosmológica para a discursão antropológica, dos seres humanos em suas relações entre si, por exemplo: a vida social, política e o mundo do conhecimento em geral. Desse modo, para os sofistas, esses filósofos da physis ou pré-socráticos (estudiosos ou teóricos da natureza), apenas tinham expostos opiniões contraditórias e não conclusivas, resultando, assim, num sistema de opiniões individuais e subjetivas sobre a realidade (Aranha, Martins, 2013).
Por isso, seria de grande importância o uso da linguagem, das habilidades argumentativas e da dialética, para persuadir as pessoas nas assembleias, visando prevalecer seus interesses individuais, ou do seu grupo pertencente. Quando as decisões eram tomadas em consenso, superando a ideia de poder e de autoridade, cujas origens eram entendidas como divinas. Nesse contexto, da passagem da tirania (regime em que os bárbaros viviam), e da oligarquia para a democracia, surgem, os sofistas vindos das colônias gregas, cuja profissão é a engenhosa atividade de ensinar e de aprender (Marcondes, 2008; Moura, 2021).
Para os sofistas, a verdade não é absoluta, mas relativa à opinião e à capacidade de persuasão. O foco está em argumentar de modo convincente, independentemente de o conteúdo ser verdadeiro ou falso. Assim, prevalece como “verdade” aquilo que melhor for defendido retoricamente. Nesse sentido, Protágoras é citado como aquele que ensinava ser possível sustentar argumentos favoráveis e contrários sobre qualquer questão (Marrou, 1966, Sell, 2008; Curado, 2010).
Ainda segundo Protágoras, o homem é a medida de todas as coisas. Dessa forma, acentua o humanismo e o relativismo, quando o mundo seria do tamanho que cada pessoa, grupo social ou cultural conseguiria interpretar segundo suas concepções, circunstâncias e modos de viver, que a verdade poderia variar (Marcondes, 2008). Dessa maneira, os sofistas enveredaram para o relativismo e o ceticismo, não buscavam a verdade, antes, a compreendiam de forma temporária e insegura, o que levava ao objetivo de ensinar a retórica recebendo pagamento pelo trabalho prestado,
Os Sofistas Como Educadores Profissionais: Uma Visão Holística da Educação
A rigor, os sofistas não são propriamente filósofos ou que pertençam a história das ciências. Porém, desenvolveram um pensamento sofisticado do ponto de vista filosófico e, sobretudo no que diz respeito a linguagem: o Lógos, (razão/argumento) sendo mestres da oratória (arte de falar bem em público) e da retórica (arte de convencer quem está escutando) como algo extremamente positivo para a educação, o direito, a filosofia, serviço da democracia, e para outros saberes e instituições, pois trata-se de um conhecimento elástico que se amoldava às ciências humanas em geral, estabelecendo as relações humanas (Moura, 2021; Moura, 2025).
E mesmo Platão negando essas respectivas funções dos sofistas, acusando-os de cidadãos sem escrúpulos e antiéticos, que não formulavam seus paradigmas, conforme a verdade estabelecida por Sócrates. Contudo, eles elegeram outro paradigma para lhe dar com a verdade subjetiva em detrimento da verdade enquanto objetividade. De fato, eles não foram investigadores da verdade, mas pedagogos: sua Paideía consiste basicamente em educar os homens cidadãos, para participar da vida política da Pólis. Esta é a definição que, segundo Platão, Protágoras dá de sua própria arte (Marrou, 1966; Incontri, Bigheto, 2010; Kadlubitski, Junqueira, 2013; Nascimento, 2016).
Para compreender melhor o que os sofistas representam para a educação, em Atenas, faz-se necessário ter outro olhar sobre eles, no sentido, de rever e superar o preconceito histórico, cultural, ideológico e intelectual, que tais sofistas sofreram, como enganadores do saber, atribuído a eles por Platão e Aristóteles, quando os rotularam de maneira bem depreciativa, por exemplo: os termos sofista e sofisma carregam historicamente forte negatividade, enquanto que apenas significam sábio/sabedoria. No entanto, essa visão depreciativa vem mudando e eles começam a ser valorizados por suas relevantes contribuições ao estudo da linguagem. Dessa forma, Eduardo Zeller (1814-1908), escrevendo a história da filosofia grega, adota a ideia de Hegel, quando afirma a subjetividade da filosofia dos sofistas (Marcondes, 2008; Aranha, Martins, 2013).
Quando os sofistas analisaram as realidades de toda a educação grega, elegeram a natureza humana como alicerce de toda uma educação possível de se realizar. Assim, de uma areté política, herdada de pai para filho, embasada na ideia de sangue real ou divino, enquanto excelência, que torna o homem líder natural de sua comunidade; para uma areté política, realizada através do ensino, doutrinação e do exercício que transformasse essa aprendizagem numa espécie de segunda natureza. Assim, essa ideia de sangue real ou divino cederia lugar ao conceito geral de natureza humana que de forma mais ampla significa dizer: a totalidade do corpo e da alma. Essa nova compreensão sobre a natureza humana como organismo físico, possuidor de certas qualidades, foi corroborada pela medicina científica (Oliveira, 2018; Vieira, 2018).
Quando Jaeger, no seu livro: Paideía: a formação do homem grego (2018), diz que a ideia de homem em sua omnilateralidade não se origina no campo do mutável, do passageiro, da efemeridade, que não nasce do individual, mas, ao contrário, nasce da ideia do homem sociável. Esse “eu” autônomo, sobressai para um homem enquanto ideia, significando o homem na sua validade universal e normativa. Esse conceito, no entanto, só é entendido com o movimento dos sofistas, revolucionando a história da educação na Grécia antiga, com a reflexão humana (Bortolini, Nunes, 2018; Oliveira, 2018).
Essa educação sofistica acontecia por múltiplos processos, o ensino de um conhecimento enciclopédico abarcando todo tipo de saber, e uma formação espiritual baseada no ensino das virtudes espirituais, (excelência ou virtude), que desenvolvesse o espírito humano, o caráter dos cidadãos, enquanto potencialidade para reerguer um estado decaído. Que seria necessária uma formação integrando as dimensões físicas e espirituais dos homens; preocupando-se em oferecer uma formação integral, levando o cidadão a tomar consciência do valor da retórica para a vida democrática da Pólis, que educava e modelava o cidadão. Para tanto, o orador necessitava de um vasto saber para empreender sua retórica e dialética (Gabrecht, 2006; Andrade, 2023).
Os sofistas introduziram a retórica na vida democrática da Pólis, mostrando, assim, ao mundo que a retórica é uma componente integrante da vida social de todas as pessoas civilizadas, que quisessem seguir a carreira política ou de forma geral a vida. Agregar a retórica à vida coletiva significa não o ato de transformar argumentos e colocar proposições dentro das cabeças dos outros, mas permitir que o indivíduo adquirisse habilidades de ver o assunto por diversos ângulos, do que resulta as pessoas entenderem, como possível, assumir as várias perspectivas advindas do mundo real. Esse homem precisaria conhecer sua própria cultura, as artes, a língua, as letras, enfim, conhecer os caminhos do saber (Crick, 2015; Silva, 2016; El-Jaik, Carvalho, 2018).
Assim, grande parte dos homens importantes do século V, em todas as áreas do conhecimento humano, estudaram com os sofistas. Por exemplo, Péricles (495– 429 a.C.), governante de Atenas; o historiador Tucídides (460-400 a. C.), o escultor Fídias (490-431 a.C.), o comediógrafo Aristófanes (450-385 a.C.), também os dramaturgos Eurípides (485- 406 a.C.) e Sófocles (497 a.C.), dentre outros, essa gama de homens tão ilustres e fundamentais, para o conhecimento e a cultura em geral tanto na Grécia como no mundo, demonstra a importância e a influência decisiva dos sofistas tanto na sua época, quanto para a posteridade (Curado, 2010).
Por exemplo, com a influência da cultura grega no Império Romano, a retórica tornou-se a disciplina mais importante ministrada nas escolas públicas e particulares de Roma; tendo Cícero (106- 43 a.C.), como grande promotor e seguido por seu maior discípulo Marcos Fábio Quintiliano (35-95), cuja obra intitulada Instituto Oratória que influenciou a pedagogia ao longo do tempo, abordando a educação de maneira integral para as crianças, os jovens desde o nascimento até a vida adulta (Freitas, 2018; Figueira, 2020; Moura, 2021).
Portanto, os sofistas contribuíram de maneira relevante, para o progresso dos estudos da linguagem perante a tradição cultural grega, investigando a língua grega, para elaborar um discurso correto e eficaz, dividindo esse discurso em partes, estabelecendo e analisando a etimologia, o significado e a origem das palavras. Esses aspectos, Platão faz uso deles no Diálogo Crátilo. Além disso, os sofistas, também retomam a poesia épica de Homero e Hesíodo, aproveitando desses recursos estilísticos de imagens, metáforas, figuras de linguagem para usar em seus discursos de retórica e de oratória, e como consequência, houve o desenvolvimento da poética e da gramática (Marcondes, 2008; Araújo, 2013).
Sofística, Pedagogia e Democratização do Ensino
Considerando que o sistema de educação na Grécia antiga, era composto por escolas primárias, divididas em três partes, com um professor para cada ensino proposto. Então, os paidotribês ensinavam as práticas esportivas e a educação física; os citharistês ensinavam a educação musical e os grammatistês ensinavam a literatura e a escrita gramatical, quando abordavam os poetas Homero e Hesíodo devido suas grandes sabedorias. Estes estudos eram comuns a quaisquer indivíduos, porém, tornaram-se insuficientes perante as novas exigências de uma sociedade democrática, pois os governantes não mais decretavam as Leis, e sim, que deveriam convencer os cidadãos que essas Leis precisariam ser decretadas para o bem público (Luzuriaga, 1985)
A mais alta educação dos sofistas partia da totalidade das forças espirituais do cidadão, pois segundo o sofista Protágoras (481- 411 a. C.), a poesia e a música seriam as principais forças espirituais modeladoras da alma; em conjunto com a gramática, a retórica e a dialética, formando o homem para a vida prática/política. Desse modo, é possível a reflexão e discussão quanto à possibilidade de uma formação que leve o sujeito à integralidade do saber e do ser. Dessa forma, conduzindo o espírito do homem pela primeira vez à consciência das leis inatas de sua própria estrutura humana. Então, a Paideía com os sofistas passou a ser mais profunda, consciente e racional, levando o homem a uma areté espiritual, como necessidade surgida da decadência do espírito ático, devido as derrotas com as grandes guerras do Peloponeso entre Atenas e Esparta, cujo objetivo seria obter a hegemonia da Grécia Antiga entre 431 e 404 a. C. durando 27 anos (Araújo, 2013; Pomiencinski, 2016; Kubiszeski, 2019; Waltrick, 2021; Velasco, 2022; Zatti, 2026).
De forma geral, os sofistas foram, os primeiros educadores profissionais da história, que deram origem a educação propriamente dita; docentes que cobravam pelos seus trabalhos; eram mestres da arte da retórica e da oratória, artes estas, que diziam poder ensinar, cujo método era a exposição. Eles tinham o objetivo de formar cidadãos para a participação política. Foram também considerados os primeiros educadores, intelectuais e sábios da Grécia antiga, quando a maioria passava grande parte de sua vida viajando, devido a sua atividade profissional itinerante (Luzuriaga, 1984; Vieira, 2018).
Então, no século XIX, os historiadores da Grécia e da filosofia começaram a ver os sofistas como os fundadores da pedagogia democrática, mestres da arte da educação do cidadão. Assim, arte e não ciência, pois eles se apresentavam como técnicos e professores de técnicas e não como filósofos. Sendo o seu ensino, fundamentalmente pragmático, dava aos jovens discípulos as devidas técnicas de argumentação e persuasão necessárias para se imporem na vida cotidiana, nos tribunais e na assembleia. Eles trouxeram para Atenas a educação necessária ao Estado democrático ateniense (Chauí, 2004; Vieira, 2018).
Portanto, o conteúdo dessa ciência seria de armar para a luta política os chefes que haveriam de governar a cidade. Por exemplo, Protágoras queria tornar seus alunos bons cidadãos, capazes de bem governar suas próprias casas e os negócios do Estado. Ele tinha como ambição ensinar aos alunos a arte da política, porque o desenvolvimento da Pólis ateniense exigia uma maior participação dos cidadãos perante o legislativo e o judiciário, o que exigia uma preparação intelectual para além da adolescência, uma vez que é desenvolvida através da aprendizagem, enquanto a virtude moral é alcançada pela repetição dos hábitos (ethos), portanto, para toda a vida, os sofistas são conhecidos como pescadores de homens, pois, atraíam os jovens ricos para ensiná-los o conhecimento jurídico (Marrou, 1966; Oliveira, 2018).
Com o movimento espiritual dos sofistas, a compreensão da palavra Paideía foi ampliada e seu significado passou a ser a mais alta areté humana, a partir da “criação dos meninos” (Manacorda, 1989, p 52). A educação que o filho herdava do pai já não era mais suficiente. Logo, percebeu-se a necessidade de uma nova concepção de educação que estivesse à altura do homem da Pólis. Com o nascimento dessa Paideía foi acontecendo a ruptura com a antiga educação, que compreendia areté apenas aos que tinham sangue real, divino, ou seja, que nasciam virtuosos (Antiseri, Reale, 2020; Luzuriaga, 1984).
Para conseguir areté política, que é uma virtude cívica, na qual se fundamenta o Estado, o cidadão deve ser treinado, corrigido, punido para se tornar melhor, “a punição feita aos cidadãos que atentassem contra a democracia”. (Moraes, 2009, p. 92). Que podiam até ser banidos da sociedade, qualquer líder político que aspirasse à tirania, isto é, governantes que exerciam o poder à força. Por exemplo, ser levado para o “ostracismo” lugar usado para impedir o retorno de tiranos condenados ao exílio (Braick; Mota, 2013, p. 85).
Essa ideia de educação provinda do direito e da legislação estatal pressupõe o Estado que também educa seus cidadãos. Segundo Protágoras, o indivíduo recebe influências educativas desde o nascimento. Quando a mãe, o pai, o pedagogo, mostram-lhe o que é justo, injusto, belo e feio como um tronco retorcido que necessita ser aprumado com ameaças e castigos (Manacorda, 1989).
Depois, na escola, aprende a leitura, a escrita e o manejo da lira. Que aprende a ler de cor os poemas dos melhores poetas, cujos exemplos devem levar a criança a imitá-los. Pelo ensino da música é educado na sophosýne para se afastar das más ações. Pelas composições musicais, introduzir o ritmo e a harmonia na alma do jovem, ensinando-o a se dominar e a ter a justa harmonia (Jaeger, 2018).
Para que se tornem mais mansos, e mais eurrítmico e harmoniosos, sejam valentes no falar e no agir, porque a vida humana inteira precisa de ritmo e harmonia. Dessa forma, as crianças também são levadas a fazer ginástica, para que tendo corpos mais fortes obedeçam melhor as disposições da inteligência. E após a educação recebida dos mestres, entra a educação da cidade pelo cumprimento das leis, isto é, dos direitos e deveres do cidadão e a viver segundo seu modelo. Assim, tamanha é a preocupação do Estado pela vivência da virtude cívica (Manacorda, 1989).
Nesse contexto cultural, é gestado uma nova Paideía, distinta da sapiência do sacerdote, esta, é voltada para a capacidade pessoal do indivíduo, da produção teórica do cientista, das habilidades do técnico especialista. Quando ensina a areté política, o sofista chama de tékhne política a sua profissão. Com a chegada da escrita, da moeda, da lei na Pólis, todos estes fatores ajudam o homem a mudar a visão que tinha de si mesmo, descobrindo-se enquanto um ser individual, liberto dos desígnios divinos, e se tornando capaz de construir o seu futuro pelo debate político, de gerir os destinos da Pólis. Desta forma, a nova configuração da Pólis faz surgir os filósofos-educadores (Cambi, 1999).
Assim, os sofistas dividem o saber em campos, e se especializam nesses assuntos específicos, tornando-se, portanto, especialistas de um saber técnico, conforme a seguir: A conversão da educação numa técnica é um caso particular da tendência geral do tempo a dividir a vida inteira numa série de compartimentos separados, concebidos com vistas a uma finalidade teoricamente fundamentadas por um saber adequado e transmissível. É sobretudo, em matemática, medicina, ginástica, teoria musical, arte dramática, que nós encontramos especialistas e obras especializadas. Até os escultores, como Policleto, escrevem a teoria da sua arte (Jaeger, 2018, p. 349).
Nesse contexto, a formação humanística, moral, retórica-linguística, histórica do homem político é o foco na educação sofista. Essa nova concepção de Paideía vem a ser a função primordial da atividade educativa dos sofistas. (Cambi, 1999). “É o que a téckhe política dos sofistas ensina: é para Protágoras a verdadeira educação e vínculo espiritual que conserva unidas a comunidade e a civilização humanas” (Jaeger, 2018, p. 350).
Sendo que a educação para a política está baseada no dizer, esse dizer a palavra é o meio, o mais precioso instrumento de domínio público para os povos da Hélade. Assim, falar é uma arte, a técnica de um saber fazer, a educação pela educação; no sentido de que os humanos pela palavra superam a vida selvagem, evidenciando o valor humano do indivíduo (Oliveira, 2018, Silva, 2021).
Dessa forma, o “perfeito sofista deve ser aquele capaz de falar sobre qualquer coisa, qualquer assunto: ambição que supõem uma versatilidade universal, um saber extensivo a todas as especialidades técnicas, falando em grego, uma “polimatia” (Marrou, 1966, p. 94). Então, os professores sofistas aprenderam a não confundir e fragmentar o conhecimento, o saber, a ciência, a técnica, as letras, as artes, o ensino, enfim, a educação em seu sentido mais amplo. Desse modo, eram hábeis nos conhecimentos difundidos em seu tempo, debatendo e ensinando praticamente o conhecimento em geral, visando à formação do homem em sua totalidade, uma vez que eram educadores e não indagadores (Oliveira, 2018).
A força física e as estratégias de guerra, bases da areté homérica, vão cedendo lugar para os embates discursivos. Então, a educação dos sofistas tem como objetivo a formação enciclopédica do homem em diversos campos; uma vez que o homem não é considerado um ser abstrato, mas membro da sociedade. Assim, a educação coloca-o em sintonia com o mundo dos valores, e de sua condição social na Pólis (Cáceres, 1998; Jaeger, 2018).
Para os sofistas, será através da educação e da formação de habilidades fundamentais, como retórica e persuasão, que se formará o verdadeiro cidadão. Este para se sobressair, num debate, deve derrubar os argumentos alheios, usando a erística como habilidade, que busca a vitória pela argumentação a todo custo, fazendo uso da técnica, manipulando a palavra, sendo falacioso, ambíguo, silencioso para conseguir impor aos outros seus objetivos políticos (Incontri, Bigheto, 2010; Meier, 2014).
Os sofistas, assim, são os iniciadores do ensino privado na Grécia; ensinavam retórica, oratória, pois nesse novo contexto, a excelência, a perfeição almejada pelos homens é a moral, a política e a ética, virtudes cívicas do cidadão. Esse ensino é dirigido para os filhos dos aristocratas e dos novos comerciantes em ascensão, bem como, pagavam por esse ensino. “Protágoras foi o primeiro a propor um ensino comercializado, pois não havia antes dele, instituição semelhante” (Marrou, 1966, p. 86; Störing, 2008).
Então, isso gerou profundas transformações na educação formal grega, que até então, era reduzida à leitura, à escrita, à aritmética, à música e a educação física. Dessa forma de educação, partiram para uma Paideía da dialética e da oratória, baseada de certa maneira na psicologia, numa cultura geral do saber múltiplo e universal, não apenas retórico ou dialético, com um nível de instrução até então, desconhecido para os atenienses; rompendo com as concepções míticas do privilégio do sangue divino, para a força espiritual e moral do saber: a sophia, a cultura do homem (Luzuriaga, 1984).
Dessa forma, criaram uma educação de nível superior, formulando um currículo de estudos, incluindo gramática, retórica, oratória, lógica, dialética, aritmética, geometria, astrologia e música. Estas disciplinas, do mundo greco-romano chegaram a Idade Média, como as sete artes liberais, constituindo o Trivium (gramática, retórica e dialética) e o Quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). “Ambição de ordem totalmente prática: a “sabedoria”, o “valor” que Protágoras e seus pares proporcionam a seus discípulos, aglutinam um caráter utilitário e pragmático; é a eficácia concreta que sanciona e os mede” (Marrou, 1966, p. 88; Moura, 2021).
Legado Histórico-educativo dos Sofistas
De acordo com Sell (2008), os sofistas assumiam um ensino essencialmente prático voltado para a vida cotidiana, as leis, a conduta, a relação entre o passado e o futuro, o conhecimento, a retórica, a ética, e sobretudo, a busca pela verdade inserida no cotidiano humano; suas divergências, utilidades e funções em relação ao conhecimento, considerando também os limites humanos para perceber integralmente essas questões. Com o advento da medicina e da comédia questionando as relações humanas na Polis, a cultura do homem de forma mais globalizada (Quirim, 2010).
Os sofistas se ocupavam daquilo que o homem fosse capaz de conhecer, e como agiria conforme sua condição limitada de homem. Sendo que não havia em Atenas escolas públicas de ensino superior, coube aos sofistas a instrução dos jovens que podiam pagar pelo ensino recebido. Eles não eram propriamente filósofos, no entanto, alguns deles podiam perfeitamente participar de uma discussão filosófica (Kenny, 1999; Azevedo, 2018).
A finalidade da educação dos sofistas, a qual, decorria num período de três ou quatro anos, tinha como objetivo, não apenas educar o povo em geral, mas aqueles que comandariam a Pólis, ou seja, os chefes. De modo geral, a educação seria voltada para os nobres, cuja virtude seria sobretudo, a persuasão, capacidade de liderança; uma educação voltada para a palavra e à escrita, formando o homem para a oratória, marcada pelo princípio do kalokagathos (do belo e do bom) que busca cultivar os aspectos mais humanos em cada indivíduo, elevando-o a condição de excelência, que não se adquire por força da natureza, mas por meio do estudo e do empenho pessoal de cada pessoa (Marrou, 1966; Cambi, 1999).
Enquanto o sofista se dava por satisfeito em transmitir a sabedoria, ou seja, a educação sobre objetos particulares, Protágoras de Abdera (491- 481 a. C), por exemplo, atribuía a educação do homem um propósito espiritual, como uma educação humanista. Este humanismo significou a educação do homem de acordo com a verdadeira forma humana, com o seu autêntico ser, isto é, da civilização, no sentido de totalidade e de universalidade, assim, a ideia de educação geral (social, moral, ética e política). Pois, para Protágoras, apenas a educação política seria verdadeiramente universal com o surgimento do espaço público (takoina) domínio de todos os indivíduos considerados cidadãos. Desde tempos remotos retórica e educação entrelaçam saberes que se interagem com o homem na busca do seu saber e aperfeiçoamento integral do seu espírito (Silva, 2016; Jaeger, 2018).
Para Protágoras seria o homem enquanto indivíduo, a medida de todas as coisas. Assim, funda-se o relativismo epistemológico porque as coisas são apenas, na medida em que são para o homem. Essa universalidade da educação do indivíduo ab imis culminará em Sócrates, que fazendo uso da dialética, produz a universalização do indivíduo pela discussão racional, cuja “areté seria o agir de acordo com virtude da razão” (Sell, 2008, p. 92; Luzuriaga, 1984; Ribeiro, 2008; Hobuss, 2014).
Assim, o pensamento humanístico racional imprime um novo caráter no ser humano; com a evolução do processo educacional, os sofistas foram tomando consciência de que a educação humana seria a grande tarefa que a história teria confiado a eles, chegando a convicção de que a natureza humana seria o fundamento possível de toda a educação. Dessa forma, por meio do ensino, da doutrinação e do exercício, criasse uma segunda natureza no ser humano, pela Paideía racionalista superar àquela Paideía aristocrática do sangue divino. Então, para os sofistas a virtude poderia ser ensinada, a saber: a força da razão, através da qual o argumento pode tornar-se forte ou fraco (antilogia) e a busca útil para a Pólis (Reale, Antiseri, 2003; Jaeger, 2018).
Ao mesmo tempo que os sofistas fizeram uma ruptura com determinados aspectos da tradição educacional grega, mantiveram-se vinculados com a tradição poética de Homero e Hesíodo, parte essencial do espírito educativo dos gregos. A ação educativa dos sofistas ultrapassou os limites da infância, passando também a ser aplicada ao homem adulto. Assim, foi pela primeira vez que surgiu a Paideía do homem adulto. O que era apenas o processo da educação em si passou a ter o devido significado de formação, exatamente como a palavra alemã Bildung (formação), ou a equivalente latina para cultura, desse processo da formação, passou a designar o ser formado, o próprio conteúdo da cultura, abarcando na totalidade o próprio mundo da cultura espiritual, em que nasce o homem individual, cujo apogeu se dá quando o homem toma consciência do que seja a educação (Aranha, Arruda, 2013; Jaeger, 2018; Oliveira, 2018).
De acordo com Cambi (1999), este assunto sugere maior aprofundamento, conforme a sua concepção a seguir: nasce a pedagogia como saber autônomo, sistemático, rigoroso; o pensamento da educação como episteme, e não mais como éthos práxis apenas. A guinada será determinante para a cultura Ocidental, uma vez que reelabora num nível mais alto e complexo os problemas da educação, e os enfrenta fora de qualquer localismo e determinismo cultural e ambiental, num processo de universalidade racional; ou seja, a educação passa a ser não os filhos imitando seus pais ou as pessoas mais velhas, ensinando naturalmente e, sim, de maneira consciente, não mais aquela noção de Paideía que sustentou por milênios a reflexão educativa, reelaborando-se como Paideía cristã, humanística e depois como bildung que é o desenvolvimento pessoal e cultural, visando a autonomia, a responsabilidade e o desenvolvimento integral da pessoa (Cambi, 1999, p. 87).
Assim, surge, com os sofistas e Sócrates, a pedagogia quanto ciência, saindo de sua dimensão local para uma dimensão teórico-filosófica de caráter universal. Essa base serve de fundamento e inspiração para toda a história do pensamento e da cultura Ocidental, que ultrapassando os limites do tempo e do espaço geográfico, influenciou a cultura em toda a sua posteridade (Moraes, 2009; Mota; Braick, 2013; Cotrin, 2016).
Conforme Nascimento (2010), esses aspectos, ao passo que atravessaram os tempos, influenciaram a história inspirando as mais variadas concepções de formação humana e os momentos mais importantes dessa prática como o Renascimento, o Humanismo e o movimento que a modernidade conheceu sob forma de Bildung. Esses paradigmas, só serão conhecidos, quando voltando a concepção de formação humana na Grécia antiga, que interrogando-se, foram capazes de desenvolver seu projeto antropológico, nascido da confluência de valores estabelecidos e constituídos com características culturais, ideais, físicas e espirituais, que formam a Kalokagathia, ideais alcançados através de uma formação consciente gerando harmonia e unidade (Dherdey, 1986; Silva, 2016).
Dessa forma, de acordo com Jaeger (2018), os sofistas partem da ideia de que a natureza humana é o fundamento teórico da educação, englobando três dimensões do ser humano: natureza, ensino e hábito. Pode-se entender melhor a relação desses três elementos, a partir da analogia da chamada Trindade pedagógica de Plutarco (46 d.C.), quando ele diz:
Uma boa agricultura requer em primeiro lugar uma terra fértil, um lavrador competente e uma semente de boa qualidade. Para a educação, o terreno é a natureza do Homem; o lavrador é o educador; as sementes são as doutrinas e os preceitos transmitidos de viva voz. Quando as três condições se realizam com perfeição, o resultado é extraordinariamente bom, a educação enquanto participação da vida pública. (Silva,2017; Jaeger, 2018, p.363).
Então, o êxito da educação vem justamente quando harmonizando os três aspectos da educação integral, que é a arte de formar o homem em sua totalidade, envolvendo e considerando a sua natureza, ensino e hábito como elementos que são interligados e essenciais para o desenvolvimento integral da pessoa. Nesse sentido, a educação não se restringe a transmitir conhecimentos, mas, ao desenvolvimento de um ser humano integral, que seja capaz de compreender a si mesmo, o outro e o mundo em geral. Essa concepção de educação sofista é capaz até de modificar a natureza humana, no sentido de que recebendo os conhecimentos adequados, recompensem as suas deficiências humanas. Em contrapartida, a natureza humana, por melhor que seja, não recebendo educação, ela se degrada e se empobrece humana e socialmente (Jaeger, 2018; Oliveira, 2018).
É de singular importância a contribuição que os sofistas deixaram para o pensamento filosófico grego, isto se constata, a partir dessas três realizações: a mudança do olhar filosófico da physis para o homem; a fazer do pensamento objeto de reflexão do próprio pensamento; a submissão dos valores éticos à reflexão racional filosófica. Portanto, a sofística foi a transição da filosofia ática para o pensamento racional subsequente, quando utilizou a razão com tal desenvoltura que foram chamados com mérito de iluministas gregos. E a educação sofística sendo definitivamente um ponto culminante, na história interna da educação do Estado grego (Chauí, 2004; Jaeger, 2018; Oliveira, 2018).
Diante de tantos modelos de educação existentes em Atenas, é importante o papel da Paideía, a qual, considerada como centro teórico da elaboração pedagógica da antiguidade grega, séculos V e IV, como a Paideía dos filósofos, que não eliminando a Paideía dos médicos, dos trágicos, chega ao ponto mais alto da maturidade educacional grega. Dessa maneira, passa-se a estudar a Paideía dos filósofos. “Por exemplo, Atenas antes de Sócrates ainda não tinha visto nem filósofos e nem estudos filosóficos (Cambi, 1999; Jaeger, 2018).
Desse modo, os sofistas direcionaram a Paideía grega para a cultura da organização política, tendo como objetivo a formação integral do homem para a vida em sociedade. Assim, trouxeram, para dentro da vida política, o cidadão e sua individualidade, que antes era excluído e homogeneizado no coletivo, representado pelos aristocratas. Então, para os sofistas ensinarem era uma verdadeira profissão, trabalhadores originários da ciência humana, especificamente daquilo que diz respeito ao ser humano. De outra forma, a Paideía dos sofistas contribuiu de maneira efetiva com fundamentos sólidos para uma pedagogia da palavra, recurso indispensável no desenvolvimento do ser humano e de sua convivência social (Curado, 2010; Crick, 2015; Oliveira, 2018).
Considerações Finais
Os sofistas desempenharam papel decisivo na transformação da cultura grega ao deslocarem o foco da filosofia da natureza para o homem, da verdade absoluta para a problematização do conhecimento, e da educação aristocrática para uma formação voltada à vida pública. Em uma sociedade marcada pela democracia direta, tornaram-se responsáveis por preparar o cidadão para agir por meio da palavra, da razão e da persuasão.
Sua contribuição ultrapassa a simples técnica retórica. Eles inauguraram uma nova concepção de educação, fundada na possibilidade de formar o ser humano por meio do ensino, do hábito e da reflexão racional. Ao defenderem a educabilidade da virtude política e o papel central da linguagem na vida social, lançaram bases importantes para a pedagogia, para a cultura humanista e para a tradição intelectual do Ocidente.
Assim, mais do que figuras secundárias ou negativas da filosofia grega, os sofistas devem ser reconhecidos como protagonistas de uma profunda renovação cultural, educacional e política, cuja herança permanece relevante para pensar a formação humana, a cidadania e o valor da palavra na vida em sociedade.
De forma geral, este estudo explorou a concepção de educação integral a partir dos sofistas, e seus impactos que transformaram a Grécia Clássica do século IV e V, em termos políticos, sociais, antropológicos e do conhecimento em geral. Esses resultados indicam que a educação sofista significou a origem autêntica do movimento pedagógico da Grécia Clássica, quando a sua Paideía se voltou essencialmente para o intelecto, as ideias, o discurso e a sociedade, como formação harmônica entre mente, corpo e coração, proporcionando uma educação com características integral e tridimensional; noutras palavras, uma formação física e virtuosa.
A pesquisa também mostrou que os próprios sofistas, não empregaram os conceitos: educação integral, exatamente da mesma maneira, que são utilizados na educação contemporânea. Esses conceitos eram inexistentes naquela época clássica grega, no entanto, encontram-se em seu arcabouço educacional, os elementos basilares que servem como diretrizes para se compreender o que seja de fato educação integral, sem reduzir ou empobrecer essa concepção de educação, que vem cada vez mais se consolidando no sistema educacional vigente.
Os resultados indicam que a educação sofista de forma intencional (refletida/sistematizada) abarcou uma nova forma de educação pública, quando retirou do âmbito familiar e do santuário dos deuses, a educação humana, empreendendo uma formação ao cidadão de caráter moral, retórico-linguística do homem político, ligado a palavra e à escrita. Nesse sentido, está a ideia de educação integral para os sofistas, enquanto formação completa do cidadão, para a vida pública e o sucesso político na democracia grega do século V a.C, sendo fundamental no tocante a valores/instituições nas cidades-estados gregas.
Essa formação do homem orador, era marcada pelo princípio do belo e do bom (kalokagathos). Assim, também os aportes teóricos e pedagógicos encontrados na educação sofista, mostraram que o homem ideal é aquele que não se resume apenas à beleza física; mas, aquele cuja ação engloba as virtudes morais, intelectuais e sociais. Então, erguendo espiritualmente aquela sociedade decaída formando bem seus cidadãos.
Assim, buscando cultivar os aspectos próprios do ser humano em cada indivíduo, elevando-o, enfim, a uma condição de excelência, que todavia, não se herdava ou possuía por natureza; mas, que se adquiria pela instrução, exercício e pelo empenho pessoal para ser um cidadão completo e instruído. Esses aspectos remetem as noções de civilização e de cultura. A partir dessa nova Paideía racional chega-se a um sentimento de ser humano enquanto indivíduo (individualidade), emancipando o indivíduo enquanto ser social a serviço da sociedade.
Apesar das limitações da pesquisa, devido a amplitude do pensamento sofista, (educacional/antropológico) o que tanto dificultou a compreensão profunda e ordenada desse pensamento, que além, de ser por excelência educacional, também profissionalizou a função docente. Esse estudo sugere, que as futuras pesquisas devem explorar essas nuances e aprofundar esses textos, buscando a originalidade e a relevância que o pensamento sofista tem para o sistema educacional vigente, como os fundamentos antropológicos e filosóficos da educação, e a democratização da palavra humana, assim, tecendo o saber e a convivência no âmbito escolar e social. Pois, acredita-se que o pensamento sofista, ainda tem muito a ensinar sobre educação e o ser humano em suas relações políticas e sociais na contemporaneidade.
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1 Licenciado em filosofia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino. Mestre em ciências da educação pela Universidade Christian Business School - Orlando – FL / Universidade Regional do Cariri-Crato-CE. E-mail: [email protected]