A DIALÉTICA DA FORMAÇÃO HUMANA ENTRE A SEMIFORMAÇÃO PLATFORMIZADA E A PRÁXIS ESTÉTICA CONTRA-HEGEMÔNICA

THE DIALECTICS OF HUMAN FORMATION BETWEEN PLATFORMIZED SEMI-FORMATION AND COUNTER-HEGEMONIC AESTHETIC PRAXIS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/787806933

RESUMO
O presente artigo analisa os dilemas estruturais e ontológicos da educação contemporânea a partir da tensão dialética fundada entre os modelos de ensino alinhados à reprodução da lógica do capital e as propostas pedagógicas emancipatórias de caráter contra-hegemônico. Fundamentando-se no Materialismo Histórico-Dialético e na Teoria Crítica da Escola de Frankfurt, investigam-se os impactos decorrentes da proliferação de apostilamentos estruturados — com ênfase nas políticas educacionais implementadas no Estado de Mato Grosso —, da plataformização e precarização do trabalho docente em redes públicas estaduais (com recorte para São Paulo) e da expansão desordenada e mercadológica da Educação a Distância (EaD). Argumenta-se que tais arranjos reificam e instrumentalizam a instituição escolar sob a forma de uma educação bancária, alienante e marcada pela semiformação (Halbbildung), convertendo o ato educativo em consumo fetichizado de pacotes digitais e atrofia progressiva dos sentidos. Em contrapartida, analisam-se experiências contra-hegemônicas pautadas na Pedagogia da Alternância e na Práxis Estética — tais como a atuação da Escola Estadual Terra Nova, a Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC/UnB), o programa de Especialização Escola da Terra (UFSCar), os Projetos Integradores articulados às Metodologias Ativas e Design Thinking na Univesp, bem como as vivências artísticas e pedagógicas do Teatro do Oprimido, do Cordel e da confecção de Arpilleras pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Assentamento Wesley Manoel dos Santos (Gleba Mercedes 5, Sinop-MT). Conclui-se que a restauração da experiência profunda (Erfahrung) e a efetivação da formação omnilateral exigem a superação da razão instrumental por meio da práxis política, estética, territorializada e engajada. 
Palavras-chave: Semiformação; Plataformização; Materialismo Histórico-Dialético; Práxis Estética; Educação do Campo.

ABSTRACT
This article analyzes the structural and ontological dilemmas of contemporary education based on the dialectical tension established between educational models aligned with the reproduction of the logic of capital and emancipatory pedagogical proposals of a counter-hegemonic nature. Grounded in the theoretical and methodological framework of Historical-Dialectical Materialism and the Critical Theory of the Frankfurt School, it investigates the impacts resulting from the proliferation of structured curriculum materials—focusing on educational policies implemented in the State of Mato Grosso—, platformization and the precarization of teaching work observed in state public networks (focusing on São Paulo), and the unchecked, market-driven expansion of Distance Education (EaD). It is argued that such arrangements reify and instrumentalize schooling under the guise of banking, alienating education characterized by semi-formation (Halbbildung), converting the educational act into fetichized consumption of digital packages and progressive sensory atrophy. In contrast, counter-hegemonic experiences based on the Pedagogy of Alternation and Aesthetic Praxis are analyzed—such as the Terra Nova State School, the Degree in Rural Education (LEdoC/UnB), the Escola da Terra Specialization program (UFSCar), Integrative Projects based on Active Methodologies and Design Thinking at Univesp, as well as artistic and pedagogical experiences of the Theater of the Oppressed, Cordel literature, and the creation of Arpilleras by the Movement of People Affected by Dams (MAB) at the Wesley Manoel dos Santos Settlement (Gleba Mercedes 5, Sinop-MT). It concludes that the restoration of deep experience (Erfahrung) and the realization of omnilateral formation require transcending instrumental reason through political, aesthetic, territorialized, and engaged praxis.
Keywords: Semi-formation; Platformization; Historical-Dialectical Materialism; Aesthetic Praxis; Rural Education.

1. INTRODUÇÃO

D A crise educacional contemporânea reflete e sintetiza as contradições profundas de um modo de produção capitalista em permanente reelaboração de suas estratégias de dominação ideológica, expropriação territorial e exploração da força de trabalho. Em um cenário historicamente atravessado pela financeirização da economia mundial e pela hegemonia do ideário neoliberal, a instituição escolar e os diversos espaços institucionais de formação humana são tensionados a converter suas finalidades ético-políticas e humanitárias em expedientes pragmáticos, utilitaristas e mercantilizáveis. Esse movimento de mercantilização e tecnocracia manifesta-se com vigor na adoção disseminada de modelos de ensino padronizados, sistemas apostilados estruturados corporativos, gestão plataformizada e na difusão acelerada de modalidades de Educação a Distância (EaD) esvaziadas de densidade reflexiva e crítica.

No Estado de Mato Grosso, por exemplo, a implementação de materiais estruturados padronizados e matrizes curriculares unificadas impõe uma homogeneização cultural que desconsidera as históricas assimetrias socioespaciais e invisibiliza a singularidade dos sujeitos do campo, das águas e das florestas. Paralelamente, em redes estaduais de ensino como a de São Paulo, a conversão da gestão escolar e pedagógica em plataformas digitais regidas por controle algorítmico reduz a atividade docente a metas quantitativas de engajamento virtual e o aprendizado discente ao consumo fragmentado e passivo de telas. Esse quadro opera e atualiza aquilo que Freire (2019) denominou como "educação bancária", na qual o estudante é reificado como mero receptáculo passivo de depósitos de informações desconectadas de sua realidade concreta, e o que Adorno (2010) diagnosticou como "semiformação" (Halbbildung): a fetichização e a degradação da cultura que imunizam a consciência e impedem a apreensão do mundo social em sua totalidade dialética.

Como advertem Marx e Engels (2007), as ideias dominantes de uma época são, invariavelmente, as ideias da classe dominante. A reestruturação da educação pública sob o primado da razão instrumental (Horkheimer, 2002) e do produtivismo tecnocrático objetiva moldar subjetividades adaptáveis, dóceis e funcionais ao mercado de trabalho precarizado. Sob a égide do "capitalismo de vigilância" (Zuboff, 2018), os dados comportamentais e métricas de estudantes e professores são continuamente extraídos e monetizados, enquanto a aceleração do pensamento (Cury, 2013) e o isolamento individualista atrofiam a capacidade contemplativa, a indignação ética e a articulação comunitária.

Diante dessa barbárie pedagógica e civilizatória, torna-se imperativo formular a seguinte problematização central: de que modo é possível tensionar e superar a semiformação bancária e plataformizada, reconstruindo espaços formativos pautados pela emancipação humana, pela reflexão crítica e pelo resgate da experiência profunda (Erfahrung)?

Para responder a essa questão, este estudo fundamenta-se no Materialismo Histórico-Dialético e na Teoria Crítica, articulando rigorosamente os aportes Karl Marx (2013, 2007), Dermeval Saviani (2011), Theodor Adorno (1985, 2010), Walter Benjamin (1987, 2012), Lev Vygotsky (2009), György Lukács (1978), Augusto Boal (2019) e Shoshana Zuboff (2018).

O objetivo geral deste artigo é analisar criticamente as formas contemporâneas de semiformação e alienação pedagógica decorrentes do tecnicismo, da plataformização e do apostilamento, contrapondo a elas o potencial emancipatório de modelos educativos ancorados na Pedagogia da Alternância, no trabalho como princípio educativo e na Práxis Estética.

Especificamente, busca-se:

  1. Desvelar as bases ontológicas, econômicas e políticas que sustentam o modelo bancário e plataformizado;

  2. Investigar o papel das metodologias ativas, dos Projetos Integradores na Univesp e da Pedagogia da Alternância (Escola Estadual Terra Nova, LEdoC/UnB e Especialização Escola da Terra/UFSCar) como espaços de resistência e contra-hegemonia;

  3. Demonstrar como a dimensão estética e as linguagens artísticas engajadas (Teatro do Oprimido, Cordel, Mística e a confecção de Arpilleras pelo Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB) atuam na educação dos afetos, na práxis política e na restauração da Erfahrung (experiência profunda) benjaminiana.

Justifica-se a relevância teórica e prática deste trabalho pela urgência em denunciar a espoliação subjetiva e profissional promovida pelo capital na educação e de visibilizar alternativas pedagógicas territoriais e universitárias que já operam na promoção da autonomia dos oprimidos. O itinerário argumentativo flui do diagnóstico macro-estrutural da alienação contemporânea rumo às mediações territoriais, pedagógicas e estéticas de resistência contra-hegemônica.

A expansão do empresariamento educacional não ocorre por acaso orçamentário, mas responde a exigências profundas de reestruturação produtiva do capital. Quando o Estado delega a elaboração de matrizes curriculares e a gestão pedagógica a fundações privadas e corporações de EdTech, opera-se uma privatização endógena do aparelho escolar público. Os conteúdos são desprovidos de potencial crítico e reorganizados sob a lógica fluida das "competências e habilidades" estritamente funcionais ao mercado. O conhecimento científico, filosófico e artístico acumulado é gradativamente substituído por pílulas comportamentais, módulos de "empreendedorismo de si" e tutoriais de adaptabilidade emocional.

Essa dinâmica aprofunda o estranhamento e a alienação do ato de ensinar. O educador, antes concebido como intelectual crítico e mediador da cultura elaborada, é subsumido a uma rotina Taylorizada. O tempo de planejamento e a autonomia didático-pedagógica são expropriados por métricas computáveis em painéis digitais de controle. A produção do conhecimento escolar deixa de ser um processo vivo, dialogado e artesanal de escuta territorial para converter-se em uma linha de montagem de checagens algorítmicas, na qual a eficácia do ensino é mensurada pelo tempo de permanência em tela e pela quantidade de cliques em plataformas proprietárias

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: A CRÍTICA DA RAZÃO INSTRUMENTAL E DA SEMIFORMAÇÃO

A apreensão dos rumos da educação contemporânea exige o desvelamento das categorias ontológicas que regem a reprodução do ser social no capitalismo. Para Marx (2013), o trabalho constitui a atividade fundante da humanidade, a mediação ontológica pela qual o ser humano transforma a natureza e a si mesmo. Todavia, sob o modo de produção capitalista, o trabalho é desfigurado em trabalho alienado e estranhado. O trabalhador não se reconhece no produto do seu fazer, e suas faculdades criativas são subsumidas à valorização do valor. Esse estranhamento desdobra-se na alienação da própria vida psíquica e cultural.

2.1. A Indústria Cultural, a Semiformação e o Capitalismo de Vigilância

Ao expandir a crítica marxiana para a superestrutura ideológica e cultural, Adorno e Horkheimer (1985) conceituaram a "Indústria Cultural" para demonstrar como o capitalismo monopolista padroniza a arte, a informação e o conhecimento, reduzindo-os a mercadorias de consumo de massa. Sob essa engrenagem, o entretenimento e a instrução técnica visam à adaptação passiva dos sujeitos à ordem estabelecida. Conforme aprofunda Adorno (2010), a educação submetida a esse expediente engendra a semiformação (Halbbildung):

"A semiformação é a cultura apropriada como mero meio de distinção ou utilidade técnica, desprovida de sua força de negação e emancipação. Ela não é a simples ausência de conhecimento, mas a sua saturação fragmentada e superficial, que imuniza a consciência contra a autêntica reflexão e perpetua a barbárie." (Adorno, 2010, p. 33).

A semiformação amputa a capacidade de conectar o fato particular à totalidade histórica. O sujeito semiformado detém fragmentos utilitários fornecidos pelas mídias ou por sistemas apostilados, porém revela-se incapaz de julgar criticamente as determinações sociais e econômicas que o oprimem. Na era contemporânea, esse diagnóstico ganha contornos perversos com a emergência do "capitalismo de vigilância" (Zuboff, 2018), no qual corporações de tecnologia convertem a experiência e o comportamento humano em matéria-prima para a extração de dados e predição algorítmica.

A plataformização educacional — observada ostensivamente na imposição de aplicativos de frequência, aulas gravadas em lote e tutoria automatizada em redes públicas estaduais — transfere a gestão do trabalho pedagógico para corporações privadas de tecnologia. O professor é desqualificado em seu saber intelectual e artesanal, convertendo-se em mero aplicador de rotinas digitais. A pedagogia transforma-se em um somatório de interações efêmeras e métricas quantitativas que alienam docentes e discentes (Bauman, 2001; Habermas, 1999).

2.2. O Modelo Bancário e o Impulso da Alienação Estruturada

A crítica ao tecnicismo encontra respaldo na denúncia de Freire (2019) sobre a "educação bancária". Ao conceber a aula como simples transferência de depósitos do educador (depositante) sobre o educando (depositário), esse modelo anula o diálogo, a curiosidade epistemológica e a práxis. No Estado de Mato Grosso, o avanço dos "sistemas estruturados de ensino" nas redes públicas estaduais e municipais atualiza o modelo bancário sob roupagem modernizada.

Ao impor um roteiro presritivo e padronizado para realidades territoriais heterogêneas — tais como assentamentos da reforma agraria, terras indígenas e periferias urbanas —, o apostilamento corporativo silencia a memória local e rebaixa a autonomia docente. Conforme adverte Saviani (2011), a Pedagogia Histórico-Crítica contrapõe-se radicalmente a essa instrumentalização. Para Saviani, a função social precípua da escola pública não é o treinamento para testes padronizados, mas a garantia do acesso rigoroso aos conhecimentos universais em suas formas mais elaboradas, promovendo a passagem da visão síncrita (caótica) para a síntese concreta e consciente da realidade. O Quadro 1 sintetiza os confrontos dialéticos entre o modelo hegemônico e a práxis contra-hegemônica:

O Quadro 1:

Dimensão

Modelo Hegemônico (Bancário/Plataformizado)

Práxis Emancipatória (Histórico-Crítica/Estética)

Fundamento Teórico

Razão Instrumental; Neoliberalismo; Tecnicismo.

Materialismo Histórico-Dialético; Teoria Crítica.

Concepção de Ensino

Transmissão bancária; apostilamento padronizado.

Formação Omnilateral; trabalho como princípio educativo.

Mediação Tecnológica

Plataformização algorítmica; alienação em EaD.

Metodologias ativas e projetos integradores territoriais.

Papel do Estudante

Consumidor passivo; receptáculo de dados e telas.

Sujeito ativo; espect-ator; construtor da história.

Dimensão Sensível

Atrofia dos sentidos; semiformação e conformismo.

Práxis Estética; catarse social; restauração da Erfahrung.

Fonte: Elaboração própria com base em Adorno (2010), Freire (2019) e Saviani (2011).

3. METODOLOGIA

O presente estudo desenvolve-se sob a abordagem qualitativa de natureza dialética, balizada pelo referencial teórico-metodológico do Materialismo Histórico-Dialético. Do ponto de vista dos procedimentos, trata-se de uma pesquisa exploratório-analítica e bibliográfico-documental de caráter integrativo, articulando a reflexão teórica fundamentada à sistematização de práxis pedagógicas territoriais e vivências formativas em diferentes contextos acadêmicos e sociais. A investigação organiza-se em torno de quatro eixos analíticos interconectados:

  1. Levantamento e Análise Crítica da Literatura: Investigação das obras fundamentais do Materialismo Histórico-Dialético (Marx), da Teoria Crítica (Adorno, Benjamin, Horkheimer), da Pedagogia Histórico-Crítica (Saviani), da Educação Popular (Freire) e da Psicologia Histórico-Cultural (Vygotsky).

  2. Mapeamento de Experiências de Alternância e Inovação Pedagógica: Sistematização documental e analítica da matriz formativa da Escola Estadual Terra Nova (Mato Grosso), do currículo por alternância da Licenciatura em Educação do Campo (LEdoC/UnB), das ações do programa Especialização Escola da Terra (UFSCar) e da dinâmica de Projetos Integradores pautados em Aprendizagem Baseada em Projetos (PBL) e Design Thinking na Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp).

  3. Exame do Corpus das Linguagens Estético-Populares: Análise pedagógica do Teatro do Oprimido (Augusto Boal), da escrita do Cordel (escredocência), das místicas e da confecção de Arpilleras promovida pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) no Assentamento Wesley Manoel dos Santos (Gleba Mercedes 5), localizado em Sinop, Mato Grosso.

  4. Triangulação Dialética: Confronto rigoroso entre os dados das contradições materiais do ensino plataformizado/estruturado e as evidências de emancipação geradas pela práxis estética e territorial.

A apreensão do sofrimento ético-político provocado pela exploração do capital exige a superação do positivismo acadêmico, que insiste em neutralizar a linguagem e afastar a emoção do processo de conhecimento. Na visão histórico-cultural de Vygotsky, a atividade criativa não é um mero reflexo do mundo externo, mas uma reestruturação ativa da consciência. A arte opera a conversão das afecções individuais em sentimentos sociais objetivados. Ao bordar, poetizar ou encenar, os sujeitos não apenas expressam a dor, mas a desprivatizam, transformando-a em pauta política e força coletiva.

A mística, elemento fundamental na tradição formativa dos movimentos sociais na América Latina, atua como mediação sensível que alimenta a esperança e a identidade de classe. Longe de constituir um ritual dogmático, a mística sintetiza símbolos, cantos, poéticas e elementos da natureza para rememorar as lutas do passado e renovar os compromissos do presente. Através da linguagem estética, a mística conecta o saber teórico produzido na universidade com a memória afetiva e histórica dos camponeses, tornando a teoria viva e organicamente vinculada à transformação social.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES: MODELOS DE RESISTÊNCIA E PRÁXIS CONTRA-HEGEMÔNICA

A análise dos dados e das experiências investigadas revela que, em resposta à aridez da semiformação plataformizada, emergem fissuras e alternativas pedagógicas concretas nos territórios camponeses e nas margens da educação pública e superior.

4.1. A Pedagogia da Alternância e os Projetos Integradores Como Desalienação

A Educação do Campo construiu historicamente contra-medidas efetivas à lógica urbanocêntrica e mercantil da escola tradicional. Na Escola Estadual Terra Nova e no curso de Licenciatura em Educação do Campo da Universidade de Brasília (LEdoC/UnB), a Pedagogia da Alte rnância rompe com a dicotomia entre teoria e prática. A alternância organiza a formação em dois tempos articulados: o Tempo-Escola/Universidade (onde se dá o aprofundamento conceitual e a convivência comunitária) e o Tempo-Comunidade (no qual os estudantes aplicam, tensionam e problematizam os conhecimentos em suas propriedades rurais e assentamentos).

Do mesmo modo, a Especialização Escola da Terra, desenvolvida na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), atua na formação continuada de educadores do campo promovendo o trabalho como princípio educativo (Marx, 2013). Em vez de adotar pacotes instrucionais prontos, os docentes em formação elaboram diagnósticos materiais de suas realidades escolares, integrando saberes da agroecologia, da história das lutas pela terra e da diversidade cultural.

Mesmo nos ambientes virtuais de ensino, é possível tensionar a alienação quando a tecnologia é submetida a metodologias ativas e colaborativas. A experiência dos Projetos Integradores na Univesp — ancorados na Aprendizagem Baseada em Problemas/Projetos (PBL) e no Design Thinking — demonstra que os estudantes da graduação podem ser desafiados a sair da passividade da tela. Ao investigarem problemas reais de suas comunidades e proporem soluções tecnológicas, sociais ou educacionais, os alunos reconfiguram a EaD de um mero espaço de consumo para um laboratório de investigação da prática social.

4.2. A Práxis Estética: Teatro do Oprimido, Cordel e Arpilleras Como Formação Omnilateral

Para além da dimensão cognitiva e técnica, a superação da semiformação exige a formação omnilateral (Marx, 2013), a qual abrange a vivência corporal, ética e estética. Vygotsky (2009), em sua Psicologia da Arte, postula que a criação artística funciona como uma "técnica social do sentimento". A arte retira os afetos do isolamento individual e os eleva ao plano da consciência histórica e da catarse social. Como enfatiza Lukács (1978), o reflexo estético permite desalienar o cotidiano heterogêneo, promovendo o reencontro do ser humano com sua essência genericamente humana.

Essa dimensão ganha materialidade pulsante no Teatro do Oprimido de Augusto Boal (2019). Nas oficinas teatrais vivenciadas no espaço acadêmico e nos movimentos sociais, o corpo deixa de ser apenas uma engrenagem de trabalho e torna-se território de expressão política. Pela técnica do teatro-fórum, os sujeitos transformam-se em "espect-atores", encenando as opressões vivenciadas e ensaiando coletivamente as alternativas para sua transformação. Do mesmo modo, a Literatura de Cordel é mobilizada como exercício de "escredocência": a arte de poetizar a docência e a escrita acadêmica no ritmo da rima e da oralidade popular, renegando o rigorismo positivista e aproximando a universidade da linguagem do povo.

A expressão máxima da práxis estética contra-hegemônica revela-se na confecção das Arpilleras pelas mulheres atingidas por usinas hidrelétricas no Assentamento Wesley Manoel dos Santos (Gleba Mercedes 5), em Sinop, Mato Grosso, sob a organização do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Inspiradas no bordado de resistência chileno, essas agricultoras costuram retalhos de pano sobre sacos de aniagem para narrar os impactos socioambientais da Usina Hidrelétrica (UHE) Sinop no Rio Teles Pires.

Ao examinarmos a Arpillera "Sonhos Barrados", apreendemos o conceito benjaminiano de Erfahrung (experiência profunda). Benjamin (1987; 2012) adverte que o capitalismo substituiu a experiência narrativa e comunitária pelo choque da vivência isolada (Erlebnis). A restauração da Erfahrung ocorre quando as mulheres do campo transformam o trauma da inundação de suas terras, a morte da biodiversidade e a imposição de uma indenização injusta em obra de arte coletiva e denúncia política. A cartinha-manifesto que acompanha o bordado explicita a barbárie narrada por Adorno e a redenção almejada por Benjamin:

"Este bordado, a nossa arpillera, foi tecida com fios de amizade, carinho e cooperação [...]. É o tecido da nossa memória e uma crônica da nossa resistência. Ela não é apenas um pedaço de pano; é a materialização da injustiça que inundou mais de 30 mil hectares de florestas e áreas agrícolas. Esta obra grita o que vivemos: o empreendimento não barrou apenas o rio, ele barrou muitos sonhos [...]. Mas o Sol que bordamos no centro é a nossa esperança organizada." (Cartinha das Moradoras da Gleba Mercedes 5, 2025 apud Garcia, 2026).

Como ensina Benjamin (1987), "escovar a história a contrapelo" significa recusar a narrativa triunfalista dos vencedores. O "tempo-agora" (Jetztzeit) é a janela na qual o passado injustiçado é remido pela ação do presente. A mística, o teatro do oprimido, a poética do cordel e o bordado das arpilleras não são adereços folclóricos; são mediações ontológicas essenciais que educam a sensibilidade, forjam a solidariedade de classe e constroem a verdadeira contra-hegemonia (Gramsci, 1981).

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

O percurso teórico e empírico desenvolvido neste artigo permitiu desvelar as profundas contradições que atravessam a educação contemporânea. Evidenciou-se que o avanço de arranjos mercantis — traduzidos na plataformização algorítmica, na apostilização estruturada corporativa e na expansão da EaD instrumental — constitui uma investida direta do capital contra a autonomia docente e a formação crítica dos estudantes. Esse modelo reduz a escola a um terminal de consumo passivo, operando a semiformação (Adorno, 2010), a educação bancária (Freire, 2019) e o definhamento da experiência humana.

Em contraposição a esse diagnóstico de barbárie, o estudo demonstrou que a resistência não é uma abstração utópica, mas uma construção material ancorada nos territórios. A Pedagogia da Alternância na Escola Estadual Terra Nova e na LEdoC/UnB, a formação continuada no programa Escola da Terra (UFSCar) e a reconfiguração da EaD por meio dos Projetos Integradores na Univesp provam ser possível articular o rigor teórico, o trabalho como princípio educativo e a intervenção na realidade concreta.

Ademais, reafirmou-se a centralidade da Práxis Estética na consolidação da formação omnilateral. A incorporação do Teatro do Oprimido, do Cordel e da confecção de Arpilleras pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) realiza a catarse social (Vygotsky, 2009) e resgata a experiência profunda (Benjamin, 1987). Unindo corpo, palavra e trabalho manual, os sujeitos do campo escovam a história a contrapelo, transformando a dor da espoliação em beleza combativa e solidariedade de classe.

Conclui-se que superar o modelo alienante exige defender uma educação pautada pela totalidade dialética, na qual a ciência, a técnica, a ética e a sensibilidade estética caminhem juntas. A classe trabalhadora e os povos do campo têm direito inalienável não apenas à sobrevivência material, mas à apropriação plena da cultura, da arte, do pensamento crítico e da capacidade de emancipar o mundo.

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1 Doutoranda do Programa de Pós graduação da Universidade Federal de São Carlos UFSCAR. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail