REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791918007
RESUMO
Este artigo analisa a construção ficcional da personagem Donana no romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, tomando como base os elementos estruturais da narrativa: narrador, personagem, tempo e espaço. A pesquisa fundamenta-se nos estudos de Ligia Chiappini acerca do foco narrativo, nas reflexões de Antonio Candido e Beth Brait sobre a personagem de ficção, bem como nas contribuições de Benedito Nunes e Osman Lins para a compreensão das categorias tempo e espaço na narrativa literária. Por meio de uma abordagem qualitativa e bibliográfica, examina-se a forma como Donana é representada ao longo do romance por diferentes vozes narrativas, destacando-se o papel das narradoras Bibiana, Belonísia e Santa Rita Pescadeira na construção gradual da personagem. A análise demonstra que a composição de Donana se realiza de maneira fragmentária, por intermédio das percepções de outras personagens, o que contribui para a atmosfera de mistério que a envolve e para sua relevância no desenvolvimento do enredo. Observa-se ainda que os elementos temporais e espaciais são fundamentais para a credibilidade da narrativa, articulando-se à realidade histórica e social do sertão baiano e evidenciando permanências de estruturas herdadas do período colonial. Conclui-se que Donana, embora não ocupe o centro da ação narrativa, desempenha papel decisivo na configuração temática do romance, representando a resistência feminina diante da violência, da exploração e das desigualdades sociais que marcam a experiência dos trabalhadores rurais brasileiros.
Palavras-chave: Donana; Torto Arado; personagem; foco narrativo; tempo e espaço.
ABSTRACT
This article analyzes the fictional construction of the character Donana in the novel “Torto Arado” by Itamar Vieira Junior, based on the narrative’s structural elements: narrator, character, time, and space. The research draws upon Ligia Chiappini’s studies on narrative perspective, Antonio Candido and Beth Brait’s reflections on fictional characters, and the contributions of Benedito Nunes and Osman Lins regarding the categories of time and space in literary narrative. Through a qualitative, bibliographical approach, the study examines how Donana is portrayed throughout the novel by various narrative voices, highlighting the roles of narrators Bibiana, Belonísia, and Santa Rita Pescadeira in the character's gradual construction. The analysis demonstrates that Donana is composed in a fragmentary manner through the perceptions of other characters, contributing to the aura of mystery surrounding her and her significance to the plot's development. Furthermore, the study observes that temporal and spatial elements are crucial to the narrative's credibility, linking it to the historical and social reality of the Bahian “sertão” and revealing the persistence of structures inherited from the colonial era. It concludes that, although Donana does not occupy the center of the narrative action, she plays a decisive role in the novel's thematic configuration, representing female resistance against the violence, exploitation, and social inequalities that define the experience of Brazilian rural workers.
Keywords: Donana; Torto Arado; character; narrative perspective; time and space.
1. INTRODUÇÃO
Publicado em 2019, o romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, consolidou-se como uma das obras mais relevantes da literatura brasileira contemporânea ao trazer para o centro da narrativa sujeitos historicamente marginalizados. Ambientado no sertão baiano, mais especificamente em uma comunidade rural marcada por relações de exploração, desigualdade social e disputas por terra, o romance evidencia permanências históricas que remetem às estruturas coloniais ainda presentes na realidade brasileira. Por meio das trajetórias de seus personagens, a obra denuncia a negação de direitos básicos e revela as condições de vida de trabalhadores rurais submetidos a formas de dominação que atravessam gerações.
A relevância social e política da narrativa encontra respaldo na própria experiência do autor, que, ao atuar em regiões rurais do país, deparou-se com situações de servidão e precarização do trabalho que julgava superadas. Dessa forma, Torto Arado configura-se não apenas como uma obra literária de grande valor estético, mas também como um instrumento de reflexão sobre questões históricas e sociais que permanecem presentes no Brasil contemporâneo.
Entre as diversas personagens que compõem o universo ficcional do romance, destaca-se Donana, figura envolta em mistério e responsável por mobilizar alguns dos principais conflitos da narrativa. Embora morra ainda no início da obra e possua poucas falas diretas, sua presença reverbera ao longo de todo o enredo por meio das lembranças, relatos e interpretações das narradoras Bibiana, Belonísia e Santa Rita Pescadeira. Assim, a personagem desempenha papel fundamental na construção da trama e na articulação de temas centrais do romance.
Diante disso, este trabalho tem como objetivo analisar a construção ficcional da personagem Donana em Torto Arado, considerando quatro categorias fundamentais da narrativa: narrador, personagem, tempo e espaço. Para tanto, a pesquisa fundamenta-se nos estudos de Carlos Reis, Lígia Chiappini e Jean Pouillon acerca da narração e do foco narrativo; nas reflexões de Antonio Candido, Beth Brait, Samuel Johnson e E. M. Forster sobre a personagem literária; nas contribuições de Benedito Nunes para a compreensão das temporalidades narrativas; e nos estudos de Antonio Dimas, Osman Lins e Tomachévski referentes ao espaço e à ambientação.
O trabalho está organizado em quatro seções analíticas. Na primeira, examina-se o papel das narradoras e das estratégias de focalização na construção de Donana. Na segunda, discute-se a caracterização da personagem à luz das teorias sobre a personagem ficcional. Na terceira, analisam-se as diferentes manifestações do tempo na narrativa e sua relação com a trajetória da personagem. Na quarta, investiga-se a importância do espaço e da ambientação para a construção da verossimilhança e para a compreensão do percurso vivido por Donana. Por fim, apresentam-se as considerações finais, retomando os principais resultados obtidos pela análise.
2. METODOLOGIA
Este trabalho caracteriza-se como uma pesquisa de natureza qualitativa, de cunho bibliográfico e analítico-interpretativo, desenvolvida a partir da leitura crítica do romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior. O estudo tem como foco a personagem Donana e busca compreender sua construção ficcional por meio da análise das categorias narrativas que estruturam a obra, a saber: narrador, personagem, tempo e espaço.
A pesquisa bibliográfica fundamenta-se em autores que se dedicaram ao estudo da narrativa e de seus elementos constitutivos. Para a análise do narrador e do foco narrativo, foram mobilizadas as contribuições de Carlos Reis, especialmente no que se refere às categorias de narrador autodiegético, homodiegético e heterodiegético, bem como às reflexões sobre focalização narrativa presentes em A Narrativa Literária. Também foram consideradas as discussões de Ligia Chiappini em O Foco Narrativo, particularmente a retomada da teoria das visões narrativas formulada por Jean Pouillon.
No que concerne à análise da personagem, o estudo apoia-se nas reflexões desenvolvidas por Antonio Candido em A Personagem de Ficção, especialmente nas discussões acerca da verossimilhança e das classificações propostas por Samuel Johnson e E. M. Forster sobre personagens de costumes, personagens de natureza, personagens planas e personagens esféricas. Essas perspectivas são complementadas pelas contribuições de Beth Brait, que discute a complexidade da construção ficcional das personagens e os mecanismos que contribuem para sua constituição narrativa.
Para a investigação da categoria tempo, recorre-se às formulações de Benedito Nunes em O Tempo na Narrativa, considerando suas distinções entre tempo físico, psicológico, cronológico, histórico e linguístico. Essas categorias possibilitam compreender não apenas a organização temporal da narrativa, mas também as experiências subjetivas e históricas que atravessam a trajetória da personagem analisada. Já a análise do espaço fundamenta-se principalmente nas contribuições de Antonio Dimas em Espaço e Romance e de Osman Lins, sobretudo no que se refere às distinções entre espaço e ambientação, bem como às classificações de ambientação franca, reflexa e dissimulada. Também são consideradas as contribuições do formalista russo Boris Tomachevski acerca dos motivos associados, motivos livres e mecanismos de motivação narrativa.
O corpus de análise é constituído exclusivamente pelo romance Torto Arado, sendo examinados episódios, descrições e passagens que apresentam Donana de forma direta ou indireta. Considerando que a personagem falece ainda no início da narrativa e possui reduzida participação discursiva, a investigação concentra-se sobretudo na maneira como sua imagem é construída pelas narradoras Bibiana, Belonísia e Santa Rita Pescadeira. Dessa forma, busca-se compreender como a articulação entre narrador, personagem, tempo e espaço contribui para a elaboração ficcional de Donana e para a constituição dos sentidos que ela assume dentro da obra.
Por fim, a análise adota uma abordagem estrutural e textual, centrada nos elementos internos da narrativa, sem desconsiderar as relações que a obra estabelece com o contexto social e histórico representado. Assim, procura-se demonstrar de que maneira a construção literária de Donana dialoga com questões relacionadas à memória, à ancestralidade, à violência, à resistência e às permanências históricas presentes no universo ficcional de Torto Arado.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
3.1. A Construção de Donana Pela Perspectiva Narrativa
Pensar a construção de uma personagem implica, necessariamente, refletir sobre os mecanismos narrativos que possibilitam sua representação. Em Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, a composição de Donana não ocorre por meio de uma apresentação direta da personagem, mas através de diferentes vozes narrativas que gradualmente revelam aspectos de sua trajetória. Assim, compreender a figura de Donana exige, antes de tudo, compreender a estrutura narrativa do romance e os modos de focalização empregados pelo autor.
Carlos Reis (2018) afirma que toda narrativa articula dois planos fundamentais: o plano da história relatada e o plano do discurso que a relata. Em outras palavras, existe um universo diegético composto por acontecimentos, personagens, tempo e espaço, mas esse universo só chega ao leitor por intermédio de uma instância narrativa responsável por organizá-lo e apresentá-lo. É justamente dessa articulação que emergem as chamadas categorias narrativas, entre elas o narrador, a personagem, o tempo e o espaço.
Em Torto Arado, a construção de Donana está intimamente relacionada à multiplicidade de perspectivas narrativas que compõem o romance. A obra encontra-se dividida em três partes: Fio de Corte, narrada por Bibiana; Torto Arado, narrada por Belonísia; e Rio de Sangue, narrada por Santa Rita Pescadeira. Cada uma dessas narradoras contribui para a representação da personagem, revelando facetas distintas de sua trajetória e ampliando progressivamente o conhecimento do leitor sobre sua história.
É por intermédio de Bibiana que Donana surge inicialmente na narrativa. A personagem é apresentada como uma figura cercada por mistério, frequentemente associada a comportamentos que despertam a curiosidade das netas. A narradora descreve os momentos em que a avó parecia conversar sozinha e mencionar pessoas ausentes ou entidades invisíveis:
“Naquele tempo, costumávamos ver nossa avó falar sozinha, pedir coisas estranhas como que alguém – que não víamos – se afastasse de Carmelita, a tia que não havíamos conhecido. Pedia que o mesmo fantasma que habitava suas lembranças se afastasse das meninas.” (Junior, 2019, p. 9).
A partir dessa perspectiva, o leitor conhece uma Donana marcada por lembranças, segredos e inquietações. Contudo, as informações apresentadas por Bibiana são limitadas àquilo que a personagem observa ou interpreta. Trata-se, portanto, de uma visão parcial da realidade narrada. Nesse sentido, é pertinente recorrer à teoria das visões narrativas proposta por Jean Pouillon e retomada por Ligia Chiappini (2007). Segundo o autor, a narrativa pode ser construída a partir de três perspectivas principais: a visão com, a visão por trás e a visão de fora. A visão com corresponde à situação em que o narrador acompanha os acontecimentos a partir de sua própria experiência, possuindo acesso apenas ao que vê, ouve ou compreende. Carlos Reis denomina essa modalidade de focalização interna.
Bibiana e Belonísia enquadram-se precisamente nessa categoria. Como personagens que participam dos acontecimentos narrados, ambas possuem uma percepção limitada dos fatos e das demais personagens. Consequentemente, a imagem de Donana construída por elas resulta de observações fragmentadas, memórias familiares e interpretações pessoais. Belonísia, por exemplo, acrescenta novos elementos à caracterização da avó. É através de sua narração que o leitor toma conhecimento da fama de mulher brava atribuída à personagem, bem como de objetos simbólicos que se tornam fundamentais para sua construção ficcional:
“Minha avó surgiu em meus pensamentos com sua brabeza, com seu chapéu grande, com seu punhal com cabo de marfim, com as histórias que me contavam sobre ela, com seus três casamentos e o mistério da vida de tia Carmelita, de que ninguém tinha notícias.” (Junior, 2019, p. 93).
Esses elementos possuem importância significativa para a constituição da personagem. Conforme observam Candido et al. (2009), a descrição de detalhes aparentemente secundários desempenha papel fundamental na produção do efeito de realidade. Objetos, gestos e características físicas auxiliam na individualização das personagens e reforçam sua verossimilhança. O chapéu grande, a faca de cabo de marfim e a reputação de mulher temida convertem-se, assim, em marcas recorrentes que singularizam Donana no universo ficcional do romance.
Entretanto, é apenas na terceira parte da obra que o leitor obtém acesso a aspectos mais profundos da trajetória da personagem. A entrada de Santa Rita Pescadeira como narradora promove uma ampliação significativa dos horizontes narrativos. Embora participe da diegese, sua condição de entidade permite-lhe acessar acontecimentos desconhecidos por Bibiana e Belonísia, ultrapassando as limitações impostas pela focalização interna.
Graças à sua narração, o leitor descobre episódios decisivos do passado de Donana, especialmente aqueles relacionados à origem da faca de cabo de marfim e ao desaparecimento de um de seus maridos. Um dos maiores mistérios da narrativa é finalmente esclarecido quando Santa Rita Pescadeira revela: “Antes de pensar na justificativa que daria, sangrou o homem como se sangrasse um porco. Arrastou seu corpo com os bolsos cheios de pedras, que ela mesma colocou, para dentro do rio.” (Junior, 2019, p. 212-213).
A revelação desse episódio demonstra como a terceira narradora amplia significativamente o conhecimento do leitor acerca de Donana. Informações que permaneceriam inacessíveis pelas perspectivas de Bibiana e Belonísia tornam-se conhecidas graças à posição singular ocupada por Santa Rita Pescadeira dentro da narrativa. Além disso, a tipologia proposta por Carlos Reis permite classificar Bibiana e Belonísia como narradoras autodiegéticas, uma vez que participam da história narrada como protagonistas. Já Santa Rita Pescadeira aproxima-se da categoria homodiegética, pois integra o universo diegético, mas não ocupa a posição central dos acontecimentos. Essa diversidade de vozes narrativas constitui um dos aspectos mais originais do romance, permitindo que Donana seja construída gradualmente por diferentes olhares e perspectivas.
Dessa forma, a representação da personagem não decorre de uma única voz narrativa, mas da soma de múltiplos ângulos de observação. Itamar Vieira Junior utiliza Bibiana, Belonísia e Santa Rita Pescadeira para compor uma personagem marcada pelo mistério, pela resistência e pela complexidade. Cada narradora acrescenta novos elementos à sua caracterização, fazendo com que Donana se torne uma das figuras mais intrigantes e significativas de Torto Arado.
3.2. Donana e a Construção da Personagem: Entre a Planicidade e a Complexidade
Entre os elementos que compõem a narrativa, a personagem ocupa um lugar privilegiado, pois é através dela que o leitor vivencia os acontecimentos, estabelece vínculos afetivos e compreende os conflitos apresentados pela obra. Segundo Antonio Candido (2002, p. 51), a personagem representa a possibilidade de adesão afetiva e intelectual do leitor, uma vez que é ela quem vivencia o enredo e materializa as ideias presentes na narrativa. Dessa forma, embora seja um ser ficcional, a personagem adquire consistência suficiente para produzir no leitor a impressão de realidade.
Para Candido (2002), uma das características fundamentais da personagem literária reside justamente em sua natureza fragmentária. Diferentemente dos indivíduos reais, que permanecem inesgotáveis em sua complexidade, a personagem é construída a partir de uma seleção de traços realizada pelo autor. Essa seleção não impede, entretanto, que ela pareça dotada de profundidade e verossimilhança. É por meio da disposição gradual dessas informações que o escritor cria a ilusão de uma existência completa.
Em Torto Arado, a construção de Donana ocorre precisamente dessa maneira. A personagem não se apresenta diretamente ao leitor; ao contrário, surge por meio das lembranças, observações e interpretações de outras personagens. Além disso, sua morte ocorre ainda no início da narrativa, o que limita significativamente o acesso direto à sua subjetividade. Tudo o que se conhece sobre ela provém, sobretudo, das narradoras Bibiana, Belonísia e Santa Rita Pescadeira.
Essa condição torna particularmente pertinente a distinção proposta por Samuel Johnson, retomada por Antonio Candido (2002), entre personagens de costume e personagens de natureza. Os personagens de costume são aqueles marcados por características fixas e facilmente identificáveis, enquanto os de natureza revelam gradualmente uma complexidade interior que ultrapassa os traços externos inicialmente apresentados.
Considerando essa classificação, Donana aproxima-se dos personagens de costume. A personagem é constantemente associada a um conjunto de atributos recorrentes que se repetem ao longo da narrativa: sua brabeza, seu grande chapéu, a faca de cabo de marfim, a mala guardada em seu quarto, suas mãos grossas de trabalhadora rural e o mistério que envolve sua trajetória. Esses elementos aparecem de forma tão insistente que passam a funcionar como marcas identificadoras da personagem.
Quando Bibiana e Belonísia evocam a figura da avó, quase sempre recorrem a esses mesmos traços. A caracterização da personagem constrói-se, portanto, por meio de atributos relativamente estáveis e reconhecíveis. Nesse sentido, Donana não é apresentada a partir de um aprofundamento psicológico constante, mas através de características exteriores e comportamentais que a individualizam dentro da narrativa.
Essa constatação aproxima a personagem da categoria dos personagens de costume proposta por Johnson. Contudo, a análise pode ser aprofundada por meio da distinção estabelecida por E. M. Forster entre personagens planas e personagens esféricas. Conforme explica Candido (2002, p. 59), as personagens planas são construídas em torno de uma única ideia ou qualidade dominante, enquanto as personagens esféricas apresentam maior complexidade e capacidade de surpreender o leitor.
À primeira vista, Donana parece enquadrar-se na categoria das personagens planas. Sua presença na narrativa é marcada por um conjunto relativamente limitado de características: a força, a severidade, o mistério e a resistência. Além disso, a ausência de acesso direto aos seus pensamentos impede que o leitor acompanhe de maneira detalhada seus conflitos internos e suas transformações psicológicas. A própria narrativa reconhece a dificuldade de conhecer verdadeiramente a personagem. Em determinado momento, Belonísia afirma:
“De Donana só sabíamos que a chamavam assim, nem sabíamos o nome que sua mãe ou seu pai haviam lhe dado. Quando morreu, não tinha sequer documento [...]. Da boca de Donana não soube quase nada.” (Junior, 2019, p. 147).
O trecho evidencia que a personagem permanece envolta por lacunas e silêncios. Nem mesmo seus familiares conhecem completamente sua história. O leitor, consequentemente, também não possui acesso pleno ao seu universo interior. Entretanto, classificá-la simplesmente como uma personagem plana seria ignorar alguns aspectos importantes de sua construção. Embora Donana não apresente a profundidade psicológica de personagens centrais como Bibiana ou Belonísia, ela desempenha um papel decisivo na organização dos principais mistérios do romance. Grande parte das tensões narrativas está ligada a questões que envolvem sua trajetória: a origem da faca de cabo de marfim, o desaparecimento de Carmelita, seus sucessivos casamentos, suas falas aparentemente desconexas e os motivos de seu constante sofrimento.
Esses elementos produzem uma curiosidade permanente no leitor. A personagem transforma-se em um núcleo de suspense que atravessa toda a narrativa e cuja resolução só ocorre na terceira parte do romance, quando Santa Rita Pescadeira revela episódios fundamentais de seu passado. Nesse ponto, torna-se pertinente retomar as considerações de Beth Brait (1985) acerca das personagens redondas. Segundo a autora, personagens complexas são aquelas capazes de surpreender convincentemente o leitor e de apresentar múltiplas facetas que refletem a complexidade da experiência humana. Embora Donana não alcance plenamente esse grau de elaboração psicológica, ela também não se reduz a uma simples caricatura ou tipo social.
Sua trajetória reúne diferentes dimensões: é trabalhadora rural, parteira, mãe, viúva, guardiã de memórias familiares e mulher marcada pela violência. Além disso, carrega consigo as consequências de escolhas passadas que continuam repercutindo ao longo de toda a narrativa. O assassinato do homem que violentou Carmelita, por exemplo, revela uma faceta inesperada da personagem e contribui para ampliar sua complexidade moral. Assim, Donana ocupa uma posição intermediária entre a planicidade e a complexidade. Sua construção não permite classificá-la como uma personagem plenamente esférica, pois lhe falta o aprofundamento psicológico que caracteriza esse tipo de figura ficcional. Contudo, sua importância estrutural para o romance, associada ao conjunto de mistérios que a envolve, impede que seja reduzida a uma personagem meramente plana.
Mais do que uma personagem individual, Donana assume uma dimensão simbólica dentro de Torto Arado. Sua história dialoga diretamente com a trajetória de inúmeras mulheres negras e trabalhadoras rurais que enfrentaram condições de exploração, violência e silenciamento ao longo da história brasileira. Sua resistência diante das adversidades, sua capacidade de sustentar a família e sua relação com a terra fazem dela uma representação significativa da experiência feminina no contexto rural retratado por Itamar Vieira Junior.
Dessa forma, a importância de Donana ultrapassa sua participação direta nos acontecimentos narrados. Mesmo após sua morte, a personagem continua influenciando as ações, as memórias e os destinos das demais figuras do romance. Sua presença permanece viva na narrativa através dos objetos que deixou, dos segredos que guardou e das histórias que continuam sendo contadas sobre ela, consolidando-a como uma das personagens mais marcantes de Torto Arado.
3.3. Tempo e Memória na Trajetória de Donana
Entre as categorias fundamentais da narrativa, o tempo ocupa uma posição central, uma vez que toda história pressupõe acontecimentos organizados em uma determinada sucessão temporal. Conforme observa Thomas Mann (1980, p. 601), “o tempo é o elemento da narrativa, assim como é o elemento da vida”. Essa afirmação evidencia que a experiência temporal não constitui apenas um aspecto da existência humana, mas também um dos princípios estruturadores da ficção.
Ao discutir essa questão, Benedito Nunes (1988) destaca que o tempo narrativo não se reduz à simples marcação cronológica dos acontecimentos. Pelo contrário, a narrativa pode comportar diferentes modalidades temporais que coexistem e se articulam ao longo da obra. Entre elas, destacam-se o tempo físico, o tempo psicológico, o tempo cronológico e o tempo linguístico. Em Torto Arado, essas diferentes temporalidades contribuem significativamente para a construção da trajetória de Donana e para a compreensão de sua experiência de vida.
O tempo físico, segundo Nunes (1988), está relacionado à sucessão objetiva dos acontecimentos e fundamenta-se na relação de anterioridade e posterioridade. Trata-se de um tempo marcado pelo princípio da causalidade, em que um evento conduz ao outro de forma irreversível. Nessa perspectiva, a vida de Donana pode ser compreendida como uma sequência de acontecimentos cujas consequências se prolongam ao longo dos anos. Um dos exemplos mais evidentes dessa lógica causal é o episódio envolvendo Carmelita. A descoberta da violência sofrida pela filha desencadeia uma série de acontecimentos que alteram definitivamente a vida da personagem. O abuso cometido por seu companheiro resulta na fuga de Carmelita, no assassinato do agressor e, posteriormente, no sentimento de culpa que acompanha Donana até seus últimos dias. A narração de Santa Rita Pescadeira evidencia essa relação entre causa e consequência: “Antes de pensar na justificativa que daria, sangrou o homem como se sangrasse um porco. Arrastou seu corpo com os bolsos cheios de pedras, que ela mesma colocou, para dentro do rio.” (Junior, 2019, p. 212-213).
O assassinato não constitui um acontecimento isolado na narrativa. Pelo contrário, ele surge como resultado de acontecimentos anteriores e produz efeitos duradouros sobre a existência da personagem. A ausência definitiva de Carmelita e o remorso que passa a acompanhar Donana demonstram como os eventos do passado continuam interferindo no presente da personagem, revelando a atuação do tempo físico em sua trajetória. Além da dimensão objetiva dos acontecimentos, a narrativa também permite perceber manifestações do tempo psicológico. Para Nunes (1988, p. 18), o tempo psicológico corresponde à experiência subjetiva da duração, isto é, à maneira como cada indivíduo sente a passagem do tempo. Diferentemente do tempo cronológico, essa modalidade não se submete às medidas exatas dos relógios e calendários, estando associada aos estados emocionais e existenciais do sujeito.
Embora Donana não ocupe a posição de narradora e raramente tenha seus pensamentos explicitados, algumas passagens permitem inferir aspectos de sua experiência interior. Após o acidente envolvendo Bibiana, Belonísia e a faca de cabo de marfim, a personagem passa a apresentar sinais de profundo abatimento: “Parecia abatida, pálida, com as pálpebras caídas e inchadas. Se aproximou de nós para nos afagar com a mesma mão que desabou sobre nossas cabeças. [...] Dali não sairia até o dia seguinte.” (Junior, 2019, p. 21). Posteriormente, Belonísia observa que a avó jamais se recuperou completamente do ocorrido: “Donana jamais se recuperou do ocorrido. Mal saía de casa para o quintal ou terreiro. Costumava sentar na beira da cama, arrumava e desarrumava sua velha mala de couro.” (Junior, 2019, p. 21-22).
A repetição constante desse gesto — organizar e reorganizar os mesmos objetos — sugere uma alteração significativa na relação da personagem com o tempo. Sua rotina torna-se marcada pela estagnação, pela espera e pela permanência das lembranças. O passado parece invadir continuamente o presente, impedindo qualquer possibilidade de superação definitiva dos traumas vividos. Essa presença constante da memória é particularmente relevante na construção da personagem. Donana surge como alguém cuja existência está profundamente vinculada às recordações. Carmelita, por exemplo, permanece viva em suas lembranças muitos anos após seu desaparecimento. A personagem continua chamando pela filha, mencionando seu nome e revivendo acontecimentos passados, como se o tempo não tivesse sido capaz de apagá-los.
Nesse sentido, o tempo psicológico aproxima-se da própria temática da memória. O passado não aparece como algo encerrado, mas como uma presença contínua que acompanha a personagem até sua morte. As fronteiras entre passado e presente tornam-se difusas, revelando uma temporalidade marcada pela permanência da dor e pela impossibilidade do esquecimento. Outra dimensão importante é o tempo cronológico. Conforme Nunes (1988), trata-se do tempo medido socialmente, organizado por calendários, datas e referências históricas. Em Torto Arado, embora o romance não apresente datas precisas para todos os acontecimentos, existem diversos indícios que permitem situar historicamente a narrativa. Um dos exemplos encontra-se na referência à seca de 1932: “Sabíamos que a fazenda existia, pelo menos, desde a chegada de Damião, o pioneiro dos trabalhadores, durante a seca de 1932.” (Junior, 2019, p. 157).
A própria trajetória de Donana contribui para essa reconstrução temporal. A personagem pertence a uma geração próxima aos descendentes diretos de escravizados libertos, convivendo com práticas sociais que revelam a permanência de estruturas herdadas do período colonial. Dessa forma, sua história individual insere-se em um contexto histórico mais amplo, marcado pela exclusão social, pela concentração fundiária e pela permanência de relações de trabalho profundamente desiguais.
Essa articulação entre história individual e história coletiva reforça uma das principais dimensões do romance. A experiência de Donana não representa apenas a trajetória de uma personagem específica, mas também a experiência histórica de grupos marginalizados que permaneceram à margem dos benefícios prometidos após a abolição da escravidão. Por fim, é possível identificar a presença do tempo linguístico, categoria que, segundo Nunes (1988), está relacionada à própria enunciação narrativa. Os marcadores temporais empregados pelas narradoras orientam o leitor e estabelecem relações entre o momento em que os acontecimentos ocorreram e o momento em que são narrados.
Expressões como “hoje”, “naquele tempo”, “antigamente” e “depois” aparecem frequentemente ao longo do romance, permitindo a constante alternância entre presente e passado. Quando Bibiana afirma: “Hoje sei que se diz assim” (Vieira Junior, 2019, p. 14), evidencia-se a distância temporal entre a criança que viveu os acontecimentos e a narradora adulta que os rememora. Esse mecanismo é particularmente importante para a construção de Donana, uma vez que quase tudo o que se conhece sobre ela chega ao leitor através da memória das narradoras. A personagem existe, em grande medida, como lembrança, como relato e como reconstrução do passado. Sua presença na narrativa depende diretamente desse processo de rememoração.
Dessa forma, as diferentes manifestações do tempo em Torto Arado contribuem para a construção de Donana como uma personagem profundamente marcada pela memória. Os acontecimentos de seu passado continuam produzindo efeitos no presente, seus traumas permanecem vivos em suas recordações e sua história individual se entrelaça à história coletiva dos trabalhadores rurais retratados no romance. Mais do que uma categoria estrutural da narrativa, o tempo revela-se um elemento fundamental para compreender a complexidade da trajetória de Donana e os significados que sua personagem assume ao longo da obra.
3.4. O Espaço Como Elemento Constitutivo da Trajetória de Donana
Entre os componentes fundamentais da narrativa, o espaço ocupa uma posição de destaque por constituir o ambiente onde as ações se desenvolvem e onde as personagens estabelecem suas relações com o mundo. Conforme afirma Antonio Dimas (1985, p. 5), o espaço pode alcançar um estatuto tão importante quanto os demais elementos narrativos, uma vez que sua configuração interfere diretamente na construção dos sentidos da obra. Em Torto Arado, o espaço ultrapassa a função de mero cenário e torna-se um elemento indispensável para a compreensão da trajetória de Donana e dos demais habitantes de Água Negra.
A narrativa de Itamar Vieira Junior está situada em uma fazenda fictícia localizada no interior da Bahia, na região da Chapada Diamantina. Trata-se de um espaço marcado pelo trabalho rural, pela pobreza, pela seca, pelas disputas de terra e pela permanência de estruturas sociais herdadas do período colonial. Não se trata, portanto, de uma escolha aleatória. O sertão baiano constitui o ambiente ideal para a representação das desigualdades e formas de exploração denunciadas pelo romance.
Nesse sentido, a trajetória de Donana está profundamente vinculada ao espaço em que vive. Sua identidade é construída a partir da relação que estabelece com a terra, com o trabalho agrícola e com as condições materiais impostas pela vida rural. A personagem pertence a uma realidade em que o cultivo da terra, a escassez de recursos e a dependência dos proprietários rurais fazem parte do cotidiano. Essa relação torna-se evidente quando Santa Rita Pescadeira descreve a força da linhagem familiar da personagem: “Seu nome era coragem. Era da linhagem de Donana, a mulher que pariu no canavial, que ergueu casa e roça com a força de seu corpo.” (Junior, 2019, p. 231-232).
A passagem evidencia que o espaço não constitui apenas um pano de fundo para a ação. Pelo contrário, ele participa ativamente da construção da personagem. O canavial, a roça e a terra aparecem como elementos inseparáveis de sua experiência de vida. A força física, a resistência e a capacidade de sobrevivência atribuídas a Donana estão diretamente relacionadas às condições impostas pelo ambiente em que vive. Além disso, o espaço contribui significativamente para a produção da verossimilhança da narrativa. As experiências vividas por Donana somente se tornam plenamente críveis porque estão inseridas em um contexto social compatível com sua trajetória. Sua condição de trabalhadora rural, parteira e descendente de pessoas submetidas a relações de exploração encontra respaldo nas características históricas e sociais do sertão retratado pelo romance.
Nesse aspecto, pode-se afirmar que o espaço desempenha uma função semelhante àquela observada por Antonio Candido nos romances brasileiros, em que a paisagem deixa de ser um elemento secundário e passa a integrar profundamente a dinâmica narrativa. Em Torto Arado, as personagens não apenas habitam o espaço; suas vidas são moldadas por ele. Para compreender melhor essa relação, é pertinente recorrer à distinção proposta por Osman Lins (1976) entre espaço e ambientação. Segundo o autor, o espaço corresponde aos elementos concretos e materiais que compõem o universo narrativo, enquanto a ambientação diz respeito aos significados produzidos por esses elementos e à atmosfera que deles emerge.
Sob essa perspectiva, o espaço narrativo de Torto Arado é constituído por elementos concretos como os rios, a roça, os quintais, as casas de barro, os canaviais, as matas e as plantações. São componentes físicos que situam geograficamente a narrativa e permitem ao leitor visualizar o universo diegético construído por Itamar Vieira Junior. A ambientação, por sua vez, ultrapassa essa materialidade. A pobreza, a violência, a exploração do trabalho, os conflitos pela posse da terra, a insegurança e a exclusão social não pertencem ao espaço em sua dimensão física, mas aos sentidos produzidos por ele. Dessa forma, a ambientação de Torto Arado é marcada por uma atmosfera de resistência e sofrimento que acompanha continuamente as personagens.
A vida de Donana exemplifica claramente essa relação entre espaço e ambientação. Embora a personagem demonstre força diante das adversidades, sua trajetória é marcada por experiências que refletem diretamente a realidade social daquele ambiente. A exploração do trabalho, a violência sofrida por mulheres, a perda de familiares e a precariedade das condições de vida constituem aspectos que atravessam sua existência e ajudam a explicar muitas de suas atitudes. Outro aspecto relevante diz respeito aos tipos de ambientação sistematizados por Osman Lins. Conforme o autor, a ambientação pode ser franca, reflexa ou dissimulada. Em Torto Arado, predominam especialmente as modalidades reflexa e dissimulada, uma vez que a percepção do ambiente chega ao leitor através das experiências das narradoras-personagens e das ações desenvolvidas ao longo da narrativa.
No caso de Donana, muitos aspectos do ambiente são revelados não por descrições diretas, mas pelas práticas cotidianas que realiza. Seu trabalho na roça, suas atividades como parteira, sua convivência com a seca e sua relação com a terra permitem que o leitor compreenda o espaço sem que seja necessária uma descrição contínua e detalhada. O ambiente emerge das próprias ações da personagem. Essa integração entre personagem e espaço reforça a ideia de que Donana não poderia existir da mesma forma em outro contexto social. Sua história está intimamente ligada às especificidades do sertão baiano e às condições de vida impostas aos trabalhadores rurais. A personagem é resultado desse espaço tanto quanto o espaço é significado por sua presença.
A importância do ambiente também pode ser observada a partir das reflexões de Tomachévski acerca dos motivos narrativos. Segundo o formalista russo, determinados elementos aparentemente secundários podem desempenhar funções importantes na caracterização das personagens e na construção dos sentidos da narrativa. Em Torto Arado, diversos detalhes associados a Donana cumprem essa função. Seu grande chapéu, por exemplo, não constitui apenas um acessório descritivo. Ele remete ao trabalho constante sob o sol intenso do sertão e reforça sua condição de trabalhadora rural. Da mesma forma, suas mãos grossas e calejadas revelam uma existência marcada pelo esforço físico e pela convivência diária com a terra. Esses elementos contribuem para a caracterização da personagem e fortalecem os vínculos entre sua identidade e o espaço em que vive.
Além disso, o espaço assume uma dimensão simbólica ao longo do romance. A terra aparece simultaneamente como fonte de sobrevivência e como motivo de conflito. É dela que os trabalhadores retiram seu sustento, mas é também por sua posse que enfrentam exploração, violência e exclusão. Essa dualidade atravessa toda a narrativa e ajuda a compreender o contexto em que Donana constrói sua trajetória. Por fim, é importante destacar que o espaço em Torto Arado também possui uma dimensão histórica e política. A representação do sertão baiano não busca apenas localizar geograficamente os acontecimentos narrados. Ela evidencia a permanência de estruturas sociais que remontam ao período escravista e que continuam produzindo desigualdades no presente. Assim, a história individual de Donana conecta-se a uma experiência coletiva marcada pela resistência e pela luta por dignidade.
Dessa forma, o espaço revela-se um elemento fundamental para a compreensão da personagem. Mais do que o cenário onde os acontecimentos se desenrolam, ele constitui uma força ativa que molda comportamentos, condiciona experiências e atribui significado às ações das personagens. No caso de Donana, sua força, sua resistência e seus conflitos somente podem ser plenamente compreendidos quando considerados em estreita relação com o sertão baiano e com a realidade social representada por Torto Arado. Assim, a análise do espaço confirma que a trajetória da personagem é inseparável do ambiente histórico, social e cultural que a constitui.
4. CONCLUSÃO
A análise desenvolvida ao longo deste trabalho permitiu compreender como a personagem Donana ocupa uma posição singular na construção narrativa de Torto Arado. Embora sua presença direta na narrativa seja relativamente breve e suas falas sejam escassas, a personagem exerce uma influência decisiva sobre os acontecimentos do romance, tornando-se um dos principais núcleos de mistério, memória e significação da obra. Sua trajetória evidencia que a relevância de uma personagem não depende necessariamente do tempo que permanece em cena, mas da capacidade de mobilizar conflitos, influenciar outras personagens e condensar aspectos fundamentais do universo representado.
No que se refere à categoria do narrador, observou-se que a construção ficcional de Donana ocorre de maneira fragmentada, por intermédio das vozes de Bibiana, Belonísia e Santa Rita Pescadeira. A alternância dessas perspectivas possibilita que o leitor conheça diferentes facetas da personagem, ao mesmo tempo em que evidencia os limites e as potencialidades de cada foco narrativo. Enquanto Bibiana e Belonísia apresentam uma visão condicionada pelas experiências que tiveram com a avó, Santa Rita Pescadeira amplia significativamente os horizontes da narrativa ao revelar acontecimentos e motivações que permaneceriam ocultos. Dessa forma, a multiplicidade de vozes narrativas contribui para a constituição de uma personagem marcada pelo mistério e pela complexidade.
No âmbito da construção da personagem, constatou-se que Donana aproxima-se das classificações de personagem de costumes, proposta por Samuel Johnson, e de personagem plana, formulada por E. M. Forster. Essa aproximação ocorre porque seu perfil é construído sobretudo por meio de características recorrentes e fortemente marcadas, como a brabeza, o chapéu grande, a faca de cabo de marfim e a constante evocação de Carmelita. Entretanto, a personagem não se reduz inteiramente a essas classificações, pois os mistérios que envolvem sua trajetória e as revelações apresentadas na terceira parte do romance conferem-lhe certa profundidade simbólica. Ainda que não alcance o grau de desenvolvimento psicológico das protagonistas Bibiana e Belonísia, Donana permanece como uma figura capaz de despertar interesse e sustentar importantes tensões narrativas.
A análise do tempo demonstrou que a trajetória da personagem é atravessada por diferentes temporalidades. O tempo físico manifesta-se nas relações de causa e consequência que estruturam sua história, especialmente nos acontecimentos relacionados a Carmelita e ao assassinato de seu companheiro. O tempo psicológico, por sua vez, revela-se nos efeitos duradouros da culpa, da perda e do sofrimento que marcam seus últimos anos de vida. Já o tempo cronológico e o histórico permitem situar a personagem dentro de um contexto marcado pelas permanências da exploração social e pelas heranças do período escravista, aspectos que constituem uma das principais preocupações do romance.
Quanto ao espaço, verificou-se que ele não funciona apenas como cenário das ações, mas como elemento essencial para a constituição da narrativa e da própria personagem. O sertão baiano, as fazendas, os rios, as roças e as casas de barro integram um universo que condiciona experiências, comportamentos e modos de vida. A trajetória de Donana está profundamente vinculada a esse espaço, que contribui para sua caracterização como mulher trabalhadora, resistente e inserida em uma realidade marcada por desigualdades históricas. Além disso, a ambientação construída por Itamar Vieira Junior reforça a dimensão social e política da obra, tornando verossímil a experiência vivida pelas personagens.
Diante dessas reflexões, conclui-se que Donana constitui uma personagem fundamental para a compreensão de Torto Arado. Sua história articula elementos centrais da narrativa, conecta diferentes gerações e simboliza a permanência de dores, conflitos e resistências que atravessam a formação social brasileira. Por meio dela, o romance evidencia como as marcas da violência, da exploração e da exclusão permanecem inscritas tanto na memória individual quanto na memória coletiva. Assim, a análise das categorias narrativas permitiu demonstrar que a construção ficcional de Donana ultrapassa sua função de personagem secundária, conferindo-lhe um papel decisivo na estrutura do romance e na representação das experiências históricas e humanas que a obra busca problematizar.
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