A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA DA PERSONAGEM FEMININA NO ROMANCE NEORREGIONALISTA ORAÇÃO PARA DESAPARECER, DE SOCORRO ACIOLI

THE CONSTRUCTION OF THE FEMALE CHARACTER'S AUTONOMY IN THE NEO-REGIONALIST NOVEL ORAÇÃO PARA DESAPARECER BY SOCORRO ACIOLI

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792118894

RESUMO
Este artigo analisa a construção da autonomia da personagem feminina Aparecida/Joana no romance Oração para desaparecer (2023), de Socorro Acioli, a partir de sua inserção no Neorregionalismo brasileiro. Parte-se da compreensão de que a narrativa contemporânea reconfigura formas tradicionais de representação da mulher na literatura regionalista ao conferir à protagonista protagonismo, liberdade de escolha e capacidade de reconstrução de sua própria identidade. A análise, de caráter bibliográfico e interpretativo, fundamenta-se principalmente nas contribuições de Herasmo Braga acerca do Neorregionalismo, em diálogo com Antonio Candido, Judith Butler, Joan Scott, Regina Dalcastagnè, Maurice Halbwachs e Wolfgang Iser. Examina-se como a autonomia de Aparecida/Joana é construída por meio de suas escolhas, de seus vínculos afetivos, da recuperação da memória, da ancestralidade e da espiritualidade, bem como das relações estabelecidas com outras personagens femininas. Destaca-se, nesse processo, a importância de Malba, Florice e das demais mulheres que acolhem e orientam a protagonista, constituindo uma rede de cuidado e solidariedade que não restringe sua liberdade, mas cria condições para sua reconstrução identitária. A memória e o pertencimento tremembé assumem igualmente papel fundamental, articulando experiência individual e identidade coletiva. Conclui-se que Oração para desaparecer apresenta uma protagonista cuja autonomia se estrutura especialmente na articulação entre ancestralidade, memória e solidariedade feminina, rompendo com representações tradicionais de submissão e reafirmando o regional como espaço de resistência, pertencimento e produção de novas subjetividades femininas.
Palavras-chave: Neorregionalismo brasileiro; autonomia feminina; ancestralidade; memória.

ABSTRACT
This article analyzes the construction of autonomy in the female character Aparecida/Joana in the novel Oração para desaparecer (2023) by Socorro Acioli, within the context of Brazilian Neo-regionalism. It proceeds from the understanding that contemporary narrative reconfigures traditional forms of representing women in regionalist literature by granting the protagonist agency, freedom of choice, and the capacity to reconstruct her own identity. This analysis, which is bibliographic and interpretive in nature, draws primarily on Herasmo Braga’s contributions regarding Neo-regionalism, while engaging with the ideas of Antonio Candido, Judith Butler, Joan Scott, Regina Dalcastagnè, Maurice Halbwachs, and Wolfgang Iser. It examines how Aparecida/Joana’s autonomy is constructed through her choices, emotional bonds, the recovery of memory, ancestry, and spirituality, as well as the relationships she establishes with other female characters. Key to this process is the role of Malba, Florice, and the other women who welcome and guide the protagonist, forming a network of care and solidarity that does not restrict her freedom but rather creates the conditions for the reconstruction of her identity. Memory and Tremembé belonging also play a fundamental role, linking individual experience with collective identity. The article concludes that Oração para desaparecer presents a protagonist whose autonomy is structured notably through the interplay of ancestry, memory, and female solidarity; this breaks with traditional representations of submission and reaffirms the regional setting as a space of resistance, belonging, and the creation of new female subjectivities.
Keywords: Brazilian Neo-regionalism; female autonomy; ancestry; memory.

1. INTRODUÇÃO

Sendo a literatura uma forma de representação da sociedade, observamos que, na trajetória do romance brasileiro, o papel feminino se apresentou, majoritariamente, marginalizado. Dentro dos romances, as personagens se mostravam subalternas a uma figura masculina, enquanto as produções destinadas ao público feminino eram tidas apenas como elementos de entretenimento e, posteriormente, as autoras, escassas, tiveram suas obras ofuscadas por autores masculinos.

A partir, principalmente, do século XX, esse papel das personagens femininas nos romances brasileiros apresentou uma grande mudança, já que as personagens se apresentavam em maior número e com maior relevância dentro das narrativas. Entretanto, durante o Modernismo brasileiro, pouco se observou, nas produções literárias, a autonomia dessas personagens diante de seus destinos, escolhas e papéis. O comportamento subordinado à trajetória de, principalmente, personagens masculinos pouco conferiu voz a uma representatividade feminina forte.

Quando adentramos em narrativas de cunho regionalista, esse aspecto se mostra ainda mais evidente, visto que a cultura machista atribuída ao homem e ao pensamento sertanejo, reforçados até hoje em muitas localidades do país, colocam a mulher como uma personagem secundária, que deveria existir para servir. Clássico exemplo dessa perspectiva é a personagem Sinhá Vitória, do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, que tem toda a sua trajetória traçada por seu marido Fabiano e sua voz silenciada, mesmo que a do marido não apresente tanta força fora do ambiente familiar.

Contudo, durante o século XXI, podemos observar uma grande mudança nesse panorama. As novas narrativas buscam imprimir aos grupos outrora marginalizados uma voz autônoma, que trate dos seus direitos e seja capaz de traçar, a partir de suas próprias perspectivas e desejos, um futuro. A aproximação dos estudos de gênero e regionalismo se constitui como um campo de investigação cada vez mais relevante nos estudos literários e culturais, visto que permite compreender como as relações de gênero são construídas, representadas e tensionadas em contextos históricos, sociais e espaciais específicos.

A partir de uma perspectiva crítica de gênero, torna-se possível perceber que o espaço regional não é neutro. Ele é atravessado por relações de poder que definem papéis sociais, comportamentos e expectativas para homens e mulheres. Nesse sentido, o regionalismo não apenas descreve uma região, mas também evidencia formas específicas de vivenciar masculinidades e feminilidades. As personagens femininas frequentemente aparecem submetidas às normas patriarcais, às limitações impostas pelo casamento, pela família e pela moralidade local.

Diante desse novo cenário, Herasmo Braga (2017), ao nos apresentar a teoria do Neorregionalismo, evidencia o caráter autônomo das personagens femininas nos novos romances de cunho regional. Para o autor, essa nova tendência da literatura brasileira configura-se por três aspectos que a diferenciam do Regionalismo de 1930: a forma como o espaço é tratado e reconfigurado dentro das narrativas, a autonomia da personagem feminina e a memória como forma de resistência à homogeneização da cultura.

Dessa forma, Braga (2017) ressalta que a “insubordinação diante da cultura patriarcalista constitui um forte elemento dentro das obras neorregionalistas, que marca a tendência e diferencia-a do Regionalismo de 1930” (Braga, 2018, p. 65). Assim, ao nos atentarmos para os diálogos internos e externos das obras (Candido, 2000), somos capazes de observar o protagonismo e o posicionamento ativo dessas personagens diante das situações.

Em Oração para desaparecer, Socorro Acioli nos mostra a trajetória de uma Ressurrecta que, após vencer a morte, renasce em um lugar em que claramente não se sente pertencente, não lembra do seu passado e, mesmo assim, decide, com autonomia, escrever o seu futuro mediante a sua vontade, mesmo com o receio de que, um dia, as lembranças do seu passado possam voltar à tona e prejudicar sua relação com o presente construído.

Nessa obra, a força dada à protagonista é estabelecida por meio de inúmeros fatores, mesmo não conhecendo a sua identidade, Cida (re)descobre sua força nas vivências do dia a dia, compreendendo-se uma mulher de fé, amada e descendente de mulheres fortes. Além disso, a sua reconstrução e sua caminhada são marcadas pela presença de mulheres que também a auxiliam e prestam assistência sem esperar nada em troca, o vínculo entre Aparecida e as chamadas três Marias, que a acolheram e a ensinaram os caminhos da nova vida, se mostrou muito além de uma relação por obrigação ou imposição, o afeto, a força e a sabedoria dessas mulheres são refletidas diretamente na nova forma como Aparecida escolhe ver o mundo.

Além disso, a ancestralidade e a relação com o espiritual se mostram fatores de suma importância para a narrativa, visto que, a todo momento, Aparecida sente a sua conexão com o espiritual e, para além disso, as suas lembranças refletem em seu passado, a sua caminhada havia sido marcada também por essas questões.

Jorge a define como “Foi Iami-Ajé que mandou para mim essa filha de Osun, e eu não pude escapar porque, agora sim, ela tomou meu destino. Eu já sabia, fui avisado” (Acioli, 2023, p. 83). Na tradição iorubá e nas religiões de matrizes africanas, especialmente no Candomblé, Iami-Ajé é uma entidade ancestral que simboliza o poder ancestral feminino ligado à criação, à fertilidade, à ancestralidade, à proteção e também ao mistério da vida, e Oxum é o orixá associado às águas doces, que simboliza fertilidade, beleza, amor, sensibilidade, riqueza, maternidade e poder feminino.

Assim, podemos perceber que há uma necessidade direta da protagonista de construir o seu próprio futuro, mesmo sem a memória do passado e com os riscos intrínsecos a um possível rememoramento, destacando a sua autonomia. E a recuperação da sua autonomia, mesmo diante de um momento de grande vulnerabilidade, só foi possível graças às mulheres que vieram antes de Aparecida, à sua ancestralidade, à rememoração de lapsos de momentos com sua mãe, às Três Marias e à imagem de Nossa Senhora da Conceição.

Desse modo, a aproximação entre gênero e regionalismo permite ampliar a compreensão da literatura regionalista, deslocando o foco exclusivo da paisagem ou da identidade regional para incluir as relações de poder que estruturam a vida social. Essa perspectiva evidencia que as representações do espaço estão intimamente ligadas às representações dos corpos, das identidades e das experiências de homens e mulheres, revelando as múltiplas formas de desigualdade, resistência e transformação presentes nas diferentes regiões brasileiras.

Portanto, este artigo tem como objetivo analisar como a autonomia da personagem feminina Aparecida, no romance Neorregionalista Oração para desaparecer, de Socorro Acioli, ocorre a partir da força ancestral das mulheres que a acolheram e lhe tornaram mais forte, do poder feminino vinculado à espiritualidade e da rememoração da sua vida passada, que também foi caracterizada pela presença de mulheres fortes e que carregavam consigo uma força ancestral.

É importante ressaltarmos que, além dos processos de autonomia da personagem feminina, a presença de uma autora regionalista contribui de forma bastante simbólica para a construção do Neorregionalismo brasileiro, visto que auxilia na quebra de padrões que ligam a qualidade literária à produção masculina, bem como os aspectos regionalistas à figura de uma mulher submissa. Em um campo literário historicamente marcado pelo predomínio de escritores homens, a produção de Socorro Acioli reafirma a capacidade das mulheres de interpretar criticamente a realidade social, histórica e cultural do Nordeste, ampliando as vozes que narram o Nordeste e suas formas de representação.

2. A AUTONOMIA DA PERSONAGEM FEMININA E O NEORREGIONALISMO BRASILEIRO

Em Formação da Literatura Brasileira, Antonio Candido (2000) divide o Regionalismo em três momentos, o primeiro se dá com a valorização dos aspectos locais, durante o Romantismo, em que os autores buscavam contribuir para a formação de cultura estritamente brasileira em um país recém independente; o segundo momento destacado pelo autor é durante a passagem do século XIX para o século XX, em que a paisagem e o homem passam a ser considerados como elementos exóticos de um país não civilizado, característica até então tida como subliteratura; e o terceiro momento ocorre quando, durante os anos 30 e 40 do século XX, os romancistas tomam consciência de seu subdesenvolvimento e passam a se comportar a partir dessa nova perspectiva.

Dentro desse terceiro momento, muitos autores regionalistas ofereceram uma forte contribuição à literatura nacional, visto que suas obras, até os dias atuais, apresentam um forte valor estético e literário. Entretanto, como já mencionado, a perspectiva feminina foi deixada de lado em prol do foco em outros elementos da luta regional, bem como a concepção memorialística e a presença do espaço para além de um pano de fundo das obras. Somados, esses elementos configuram e singularizam o Neorregionalismo brasileiro (Braga, 2017).

As obras literárias devem funcionar como instrumentos de construção dos indivíduos em seu sentido social, cultural, político e sobretudo humanístico e segundo Herasmo Braga (2017, p. 55) “Colocar-se no lugar do outro motivado por uma produção literária, problematizando questões e refletindo sobre elas, acaba por ser uma das forças motrizes das obras neorregionalistas”. Dessa maneira, ao estudarmos o (re)descobrimento da personagem Cida na obra Oração para desaparecer, de Socorro Acioli, entramos em um movimento de (re)descobrimento interno, mediado pela obra literária, tal como proposto por Wolfgang Iser (1996) ao tratar da Teoria do Efeito.

Dessa forma, a autonomia das personagens femininas como configuração do Neorregionalismo brasileiro se constitui por meio de uma insubordinação diante da cultura patriarcalista, há um protagonismo feminino que gera um posicionamento ativo diante das situações, a autonomia se mostra marcada pela “resistência aos discursos impositivos de submissão das mulheres a padrões de comportamentos tidos como morais e dos bons costumes que, na realidade, só serviam para restringir a participação da mulher no meio social público” (Braga, 2017, p. 82).

Em um primeiro momento da narrativa, Aparecida, encontra-se perdida diante do sentido da vida e segue levando os primeiros dias de seu (re)nascimento de modo automático, seguindo os passos de Fernando e Florice, as pessoas que lhe resgataram. Com o passar dos dias, e seu (re)descobrimento de presenças e sentidos através do movimento e do trabalho, bem como da sua observância dos mortos, seu dom, ela assume a “decisão de viver”, como nos é apresentado no seguinte trecho “- Aparecida, estás segura de que assumes a decisão de desistir? - Assumo a decisão de viver. E de confiar na parte da vida que está por vir, o futuro, a vida com Jorge. A única coisa que tenho é o resto da vida” (Acioli, 2023, p. 72).

Mesmo demorando a aceitar a sua condição, Aparecida toma a decisão de viver, ainda que não lembre do seu passado e estando sujeita a nunca mais lembrar. O amor à Jorge, ainda que ela saiba da presença de outro homem em sua vida passada, foi o estalo inicial para a sua escolha, não que ela se sujeite a ele em uma posição de subalterna, mas ela, através do seu sentimento por ele, decide seguir um determinado caminho, ao seu lado, renunciando a um possível amor antigo, mas que visivelmente a marcou, porém, para ela, manter presa a esse passado seria sinônimo de injustiça consigo e isso ela não seria capaz de aceitar, vejamos:

- Pois me diga: o que pode dar errado comigo e com Jorge?

- Tu mesma já disseste: pode ser que seu passado volte e tu queiras ficar lá. Ou ele não queria a mulher que descobriu. Ou nem tu te aceites mais e enlouqueças afogada na sombra.

- Parece trágico em todas as vias, mas não tenho como saber. Vou parar minha vida por isso? Seria injusto comigo. É injusto para qualquer pessoa deixar de viver algo por medo do risco (Acioli, 2023, p. 74).

Esses aspectos da narrativa evidenciam a força e a autonomia da personagem diante das circunstâncias que a cercam. Para ela, sucumbir ao passado, permanecendo à espera de um possível retorno de sua memória significaria manter-se aprisionada às experiências pretéritas, comprometendo sua liberdade e limitando as possibilidades de construção de um futuro que desejava viver com determinação. Nesse sentido, a autonomia da personagem feminina manifesta-se na decisão consciente de não permitir que as ausências e os traumas definam sua existência. Ao contrário, ela assume uma postura ativa diante da própria trajetória, recusando-se a permanecer refém do passado e reafirmando sua capacidade de reconstruir a própria identidade.

Essa autonomia, portanto, rompe com os modelos tradicionais de representação da mulher na literatura regionalista, historicamente associados à submissão e à dependência. A narrativa constrói uma protagonista que exerce sua independência sobre a própria história, evidenciando que sua identidade não é determinada pelas marcas do passado, mas continuamente reconstruída por meio de suas escolhas e ações. Dessa forma, a personagem afirma-se como sujeito de sua própria existência, ressignificando sua trajetória e desafiando as estruturas que historicamente limitaram a autonomia feminina. Braga ainda afirma que

A autonomia reside em fatores secundarizados por boa parte da nossa literatura, como estar de posse de um discurso não marcado pela mentalidade machista hegemônica; ter o domínio do seu corpo e das suas vontades; além de se apresentar como ser pensante e dono de si. Portanto, a personagem marca-se por não estar vinculada à sombra ou mesmo à presença masculina (Braga, 2017, p. 93).

Consoante a esse pensamento, Judith Butler (1990) complementa ao destacar que o que entendemos como masculino, feminino, homem ou mulher é resultado de processos históricos, culturais e discursivos, não uma expressão direta de uma natureza biológica, trazendo o conceito de performatividade de gênero. Para a autora, nenhum indivíduo nasce com uma identidade de gênero pronta, tornamo-nos socialmente homens ou mulheres por meio da repetição constante de práticas, gestos, comportamentos, formas de vestir, falar e agir que a sociedade reconhece como masculinos ou femininos. Assim, a performatividade de gênero não significa fingimento ou atuação consciente, nem tampouco o gênero é algo que possuímos, é algo que realizamos continuamente e assegurada por meio da sociedade.

De acordo com Regina Dalcastagnè (2012), nas narrativas regionalistas podemos observar uma forte contribuição para a manutenção dessa performatividade de gênero, visto que parte de um sistema estruturado por relações patriarcais, em que as personagens masculinas ocupam posições de autoridade, força física, racionalidade e domínio sobre a terra e a família, enquanto as personagens femininas são associadas ao espaço doméstico, ao cuidado, à maternidade, à obediência e à submissão. Essas representações reiteram papéis de gênero que passam a ser percebidos como naturais, contribuindo para a manutenção da performatividade descrita por Butler. Diante disso, as narrativas neorregionalistas buscam romper com essas estruturas ao realizar um contraponto entre as convenções sociais e a atividade da personagem e como essa personagem compreende a si mesma.

Vejamos o seguinte trecho: “- E eu era prostituta? - Não, era livre; amava quem queria” (Acioli, 2023, p. 174). Nessa passagem da obra, Joana questiona sua mãe, Malba, sobre uma das alcunhas levantadas pelo povo de Almofala diante do comportamento de Joana e sua mãe a relembra de sua decisão de enfrentar esses estigmas e ser uma mulher livre, dona de suas vontades, de seu corpo, de seus desejos e prazeres, apesar dos estigmas sociais.

Em seu texto Gender: A Useful Category of Historical Analysis, Joan Scott (1986) propõe que a questão de gênero passasse a ser considerada uma categoria analítica fundamental para compreender a organização das sociedades, visto que apenas a inclusão das mulheres na história não se mostrava suficiente para visibilizar sujeitos historicamente excluídos das narrativas tradicionais, sendo necessário compreender como as diferenças entre homens e mulheres foram historicamente produzidas e utilizadas para estruturar relações de poder.

Para a autora, o gênero organiza as relações sociais e funciona como um sistema simbólico que legitima relações de poder. Instituições como a família, a escola, a religião, o Estado e o mercado de trabalho estabelecem expectativas distintas para homens e mulheres. Assim, a literatura como sendo um reflexo da sociedade e uma produtora das representações que ajudam a consolidar ou questionar as imposições sociais, atua como uma ferramenta poderosa para a criação e a perpetuação das identidades de gênero.

Temos, dessa maneira, que a perspectiva de Scott nos auxilia no entendimento de como as obras regionalistas auxiliam na construção e na assimilação dos papeis de gênero, traçando expectativas sobre masculinidade e feminilidade nos personagens regionais. E como, nas obras neorregionalistas as personagens femininas enfrentam sistemas de poder marcados simultaneamente por gênero, classe, raça e território. Na segunda parte do romance, quando Aparecida, agora Joana, rememora o seu passado e volta à cidade em que desapareceu, vemos essas representações e imposições sociais bem delimitadas, uma vez que em Almofala Joana apresentava alcunhas como prostituta, assassina, feiticeira, alguém que desgraçava a vida de todos que se aproximavam “Agora era chamada de prostituta e assassina por uma parte da cidade. Para outra, era a heroína que tentou salvar a Labareda” (Acioli, 2023, p. 150).

Assim, inspiradas pelo diálogo com Michel Foucault (2014), Joan Scott e Judith Butler contribuem para que a literatura seja entendida como um campo onde circulam discursos sociais, políticos e culturais, deixando de ser apenas um objeto estético e passando a ser também um espaço de disputa simbólica. A crítica inspirada em Scott e Butler permite compreender como as narrativas neorregionalistas produzem novas formas de representação da experiência feminina e desafiam estruturas patriarcais historicamente consolidadas.

Assim, como as identidades dependem da repetição constante das normas, sempre existe a possibilidade de deslocamento, transformação e subversão. Essa resistência, por sua vez ocorre por meio de práticas culturais, artísticas e políticas por suas capacidades de desafiarem os padrões sociais, ocorrendo justamente nos momentos em que os sujeitos reinterpretam ou deslocam as suas expectativas sociais.

Logo a literatura representa tanto o papel de elemento norteador quanto de fator de ruptura, uma vez que pode promover reflexões e ofertar possibilidades diversas aos padrões estabelecidos. A literatura passa a ser compreendida não apenas como um reflexo da realidade, mas como um espaço privilegiado para a produção, contestação e reinvenção das identidades. Assim, a teoria da performatividade permite compreender como essas personagens negociam, recusam ou reinventam identidades impostas socialmente.

Dessa maneira, quando falamos de autonomia da personagem feminina, adentramos na concepção de que o protagonismo feminino dentro da obra possibilita com que essa emancipação feminina possa ocorrer para além das obras literárias. Os efeitos (Iser, 1996) produzidos nos leitores podem ser capazes de promover novas circunstâncias de observação da realidade que nos cerca, de compreendermos o mundo e mudarmos as dinâmicas, principalmente àquelas que se referem à gênero, raça e classe. Aprender sobre essas mulheres que ousaram afirmar suas subjetividades faz parte da autorrealização humana, o que faz com que ocorra uma consolidação dessa autonomia à medida que vamos nos conscientizando dela.

3. AFETOS E A CONSTRUÇÃO DA AUTONOMIA DA PERSONAGEM FEMININA: SER LIVRE

Um aspecto importante a destacar na obra é a importância dos afetos para a construção e perpetuação da autonomia da personagem. Aparecida, mesmo sendo uma mulher livre, toma grande parte de suas decisões para estar perto de quem ama, tanto em relação Miguel, seu primeiro amor quanto a Jorge o amor de sua segunda vida. Apesar de estar ligada a personagens masculinos, sua autonomia não se ofusca, muito menos se torna submissa, visto que o seu poder de escolha faz com que o seu desejo de amar e viver com quem ama seja realizado.

Sobre Miguel, Joana agia da seguinte forma: “Seu plano era ficarmos ainda por um tempo em Almofala para, depois, ganhar o mundo. Queria viajar comigo, ela disse tantas vezes, tantos planos de viagem. Tínhamos uma promessa de vida” (Acioli, 2023, p. 155). Miguel também descreve o relacionamento dos dois da seguinte maneira: “Joana não olhava para trás, não cogitava isso, só pensava adiante, construía sonhos com a frequência das respirações, misturava a realidade com suas quimeras e tinha planos para o resto das nossas vidas” (Acioli, 2023, p. 156). No que diz respeito a Jorge, Joana coloca:

Na confusão de me reencontrar, Jorge me deu a certeza mais forte do amor que sinto por ele e da absoluta impossibilidade de viver longe. Não posso. Não quero viver separada dele. Jorge me chamou de Joana. Será impossível esquecer Aparecida, sua Cida, separá-la de mim, mas Joana Camelo é quem sou. E ele sabe (Acioli, 2023, p. 183).

Assim, mesmo diante de personagens masculinos, Joana exerce a sua autonomia decidindo sobre os seus próprios vínculos afetivos. No trecho, antes de escolher permanecer com Jorge, ela primeiro reconhece quem é. Sua decisão amorosa decorre da autonomia conquistada e não da perda de si no relacionamento. O amor, portanto, deixa de representar submissão para tornar-se uma manifestação da liberdade.

Sob essa perspectiva, a narrativa dialoga com as reflexões de Judith Butler (1990) ao demonstrar que a autonomia feminina não consiste na negação das relações afetivas, mas na possibilidade de vivê-las sem que elas determinem ou limitem a identidade da mulher. Da mesma forma, aproxima-se da compreensão de Joan Scott (1986) de que as relações de gênero constituem espaços de negociação e disputa de poder. Joana não rompe com o amor nem com os homens, rompe, sobretudo, com a lógica patriarcal que historicamente definiu o amor feminino como sinônimo de dependência e renúncia, principalmente em narrativas regionais, que utilizam o estereótipo feminino de mulher submissa, mãe abnegada, esposa fiel e resignada, sempre ligada ao espaço doméstico.

Assim, mesmo diante de personagens masculinos que ocupam lugar importante em sua trajetória, Joana preserva integralmente sua autonomia. Seus afetos não anulam sua liberdade, ao contrário, tornam-se expressão de sua capacidade de decidir sobre a própria vida, reafirmando um dos aspectos centrais da construção da personagem feminina no Neorregionalismo, a escolha do amor, a decisão de amar, com a possibilidade de amar sem abrir mão de si mesma.

4. A CONSTRUÇÃO DOS PROCESSOS DE AUTONOMIA: A ANCESTRALIDADE FEMININA

Outro ponto importante da obra trata da ancestralidade feminina que permite com que Aparecida desenvolva a sua autonomia por meio da inspiração fornecida pelas mulheres que conduziram o seu caminho. Tanto a questão espiritual quanto a questão física da personagem é marcada por mulheres mais velhas e fortes que fornecem cuidado e força para a personagem tanto no primeiro momento da obra em que ela é apenas Aparecida, a Ressurecta que não lembra de como morreu e renasceu e não compreende os motivos que a levaram até ali quanto no segundo momento em que Aparecida volta à sua terra natal e volta a ser Joana. Até mesmo o seu processo de rememoração está ligado à ancestralidade e à força feminina, visto que ela consegue lembrar do que viveu apenas quando vê a imagem de Nossa Senhora da Conceição.

A presença de Nossa Senhora da Conceição é bastante presente na narrativa. Encontrada junto com Aparecida, a imagem da santa fez a travessia de morte com a protagonista, saindo de Almofala no Brasil para Almofala em Portugal. Em Portugal, Nossa Senhora da Conceição ocupa um lugar singular na história nacional e na espiritualidade católica, visto que se trata da rainha e padroeira de Portugal. Essa devoção foi consagrada em 1646 pelo Rei D. João IV que, durante a Guerra da Restauração, em vez de coroar a si mesmo, colocou sua coroa aos pés da imagem de Nossa Senhora da Conceição e, desde então, nenhum rei voltou a usar a coroa durante a cerimônia, reconhecendo Maria como a verdadeira Rainha de Portugal.

Para a religião iorubá, elemento muito presente na obra, Nossa Senhora da Conceição é tida como Oxum, orixá que representa uma força feminina que combina delicadeza e firmeza, sendo frequentemente associada à capacidade de acolher, proteger e transformar situações por meio da inteligência e da sensibilidade. E para os tremembés de Almofala, religião de Joana que envolve história indígena, catolicismo popular e sincretismos locais, Nossa Senhora da Conceição tem um sentido ligado à memória territorial, à identidade coletiva e à história do aldeamento indígena.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Almofala, em Itarema no estado do CE, foi construída no contexto da evangelização dos Tremembé, a igreja atual teve obras concluídas em 1712, tornando-se marco histórico da presença desse. Há uma relação simbólica muito forte: a igreja não é apenas um templo católico, mas um lugar de memória indígena. Assim, para os Tremembés, Nossa Senhora da Conceição aparece vinculada à ancestralidade, à terra e à continuidade do povo, especialmente porque a igreja de Almofala se tornou referência material e espiritual da história da comunidade. Para Joana a igreja “era um prolongamento da sua alma e dos seus ancestrais” (Acioli, 2023, p. 155) e para os tremembés “aquela igreja era um dos pontos de força espiritual mais importantes do Brasil. Na igrejinha de Almofala cabem a dor e a fé do Brasil inteiro” (Acioli, 2023, p. 155). A história da igreja soterrada pelas dunas e depois “reaparecida” reforça essa dimensão de resistência, permanência e pertencimento.

Foi aos pés da santa que Joana foi deixada, foi pela imagem da santa que Joana foi morta e foi por conta da imagem da santa que Aparecida foi capaz de lembrar do seu passado e retornar à sua casa. Trazer a Labareda de volta aos tremembés foi o motivo de sua travessia e o propósito de suas vidas, tanto a primeira quanto a segunda.

Ainda que de forma inconsciente, todos os seus caminhos foram guiados com um forte vinculo à Nossa Senhora da Conceição e todas as suas representações. Mesmo não conseguindo compreender esse fato antes de encontrar a imagem da santa e recuperar sua memória, Aparecida se vê diretamente ligada a uma força espiritual, compreende que enxerga os mortos e quando entende a sua missão de restituir a Labareda para os Tremebés, compreende também as forças que a levaram àquele momento desde a sua infância.

Para Maurice Halbwachs (2006) a memória não constitui um fenômeno exclusivamente individual, mas é reconstruída a partir dos quadros sociais que organizam a experiência coletiva. Recordar implica reencontrar os grupos, os lugares, os símbolos e as relações que conferem sentido à existência. Em Oração para desaparecer, a recuperação da memória da protagonista ocorre precisamente quando ela restabelece seus vínculos com a comunidade tremembé, com Malba, com a Igreja de Nossa Senhora da Conceição e com sua ancestralidade. Nesse processo, recuperar a memória significa também recuperar o pertencimento, reafirmando sua identidade coletiva e sua condição de sujeito histórico. Essa perspectiva evidencia que a autonomia da personagem não decorre apenas de escolhas individuais, mas também da reinserção em uma memória compartilhada que lhe devolve identidade, continuidade e sentido.

Diante disso, temos a presença de Malba, a mãe de Joana que, guiada pelos Encantados, resgatou-a do abandono aos pés de Nossa Senhora da Conceição na igreja de Almofala e a criou como uma tremembé, ensinando-a os seus encantos e a guiando pela sua própria força. Malba, por ser pajé dos Tremembés, conquistou seu espaço por conta da tradição e do conhecimento acumulado ao longo dos anos, representando a guardiã da memória, da ancestralidade e dos saberes tradicionais do povo Tremembé e constituindo um elo entre o mundo visível e o invisível, entre a história individual de Joana e a memória coletiva de seu povo.

Malba simboliza a permanência histórica dos Tremembés diante dos processos de colonização, representando tudo aquilo que permaneceu vivo apesar das violências sofridas, os conhecimentos tradicionais, a espiritualidade indígena e a continuidade cultural, encarnando uma epistemologia própria, distinta da lógica colonial, demonstrando que o conhecimento indígena possui legitimidade e capacidade de explicar e transformar a realidade. Nesse sentido, a personagem rompe com antigos estereótipos do indígena como figura pertencente ao passado, mostrando-se como uma personagem ativa, produtora de conhecimento e diretamente responsável pela preservação da memória do seu povo e assim rompe com a imagem da mulher submissa, sua autoridade é reconhecida por toda a comunidade e suas decisões orientam os caminhos de muitos personagens, inclusive masculinos.

É Malba quem conta a Miguel que Joana não estava morta e é ela quem conduz o processo de recuperação da identidade de Joana quando esta volta à Almofala do Brasil em busca de respostas, através de rituais, banhos de ervas, rezas e práticas espirituais que permitem à protagonista reencontrar sua própria história, isso porque Malba compreende que recuperar as lembranças também é recuperar o pertencimento.

Assim, temos que Malba é uma personagem feminina com autonomia que constrói o romance neorregionalista, visto que materializa a valorização da memória e das identidades locais não como elementos folclóricos, mas como formas de resistência histórica e de produção de novos sentidos para a experiência regional. Sua atuação evidencia que o espaço regional deixa de ser mero cenário para tornar-se um território de saberes plurais, onde a cultura indígena assume centralidade e contribui para a reconstrução da identidade da protagonista.

Assim, temos que a autonomia de Malba impacta diretamente nos processos de construção da autonomia de Joana e, após seu Renascimento, os processos de recuperação dessa autonomia. A postura e os ensinamentos de Malba durante a infância de Joana auxiliaram na formação de sua autonomia e a sua palavra e atitudes ao longo desse processo, principalmente na volta de Joana, fortalecem essa autonomia, visto que Malba não toma as decisões por ela, oferece os meios para que ela reencontre sua própria história e faça suas escolhas, funcionando como mediadora entre memória, ancestralidade e liberdade.

Além de Malba, a presença das mulheres que acolheram Joana após sua reaparição em Portugal também se mostra muito marcante para a construção da autonomia da personagem. Recém saída da terra, ferida, sem compreender o que havia ocorrido e nem os motivos que a levaram até àquela situação, Aparecida se sentiu vulnerável, porém sempre com muito zelo, as mulheres que a acolheram puderam ressignificar a sua vida e lhe permitiram um novo começo.

Entre essas mulheres, Florice ocupa uma posição central, visto que ela quem encontra a protagonista enterrada e, junto com o seu marido Fernando, resgata-a. Enquanto Fernando participa do resgate físico, é Florice quem assume a dimensão afetiva do acolhimento, é ela quem cuida, acompanha sua recuperação, oferece proteção e lhe concede um nome, Aparecida. O gesto de nomear possui grande força simbólica, como a protagonista desperta sem memória e sem identidade, Florice lhe oferece uma identidade provisória, não para substituir seu passado, mas para permitir que continue vivendo até que possa reencontrar quem realmente é.

Florice nunca exige explicações impossíveis nem pressiona a protagonista a recuperar imediatamente suas lembranças, sua relação se fundamenta na confiança, na paciência e no respeito ao tempo da outra, evidenciando uma ética do cuidado baseada no acolhimento incondicional, mesmo com algumas ressalvas. Ao relatar sua aparição, a protagonista coloca “Voltei a enxergar graças ao zelo dela, limpando minhas pálpebras com muita paciência” (Acioli, 2023, p. 14) e então completa “Falava o essencial e continuava limpando com cuidado as orelhas, a pele, o pescoço, o dedo enrolado em um tecido fino cutucava os ouvidos. Suas mãos me devolviam a dignidade, seus olhos não largavam de mim” (Acioli, 2023, p. 14).

Ao longo da narrativa, outras mulheres portuguesas também participam desse processo de integração de Aparecida à comunidade. Ainda que algumas apareçam brevemente, essas mulheres desempenham uma função coletiva importante, visto que normalizam sua presença, oferecem apoio cotidiano e contribuem para que ela construa vínculos sociais em um espaço inicialmente estranho.

Socorro Acioli rompe, assim, com a tradição literária que frequentemente coloca as mulheres em relações de rivalidade. Em vez disso, constrói uma comunidade feminina solidária, na qual o cuidado circula como prática cotidiana. Essa rede de apoio permite que Aparecida experimente a possibilidade de tomar a decisão de construir o seu próprio futuro, mesmo não lembrando do seu passado, uma vez que criam condições para que ela própria reconstrua sua história. Esse aspecto aproxima a narrativa de perspectivas feministas que compreendem o cuidado não como submissão feminina, mas como prática ética capaz de fortalecer a autonomia do outro, sendo assim o acolhimento não limita a liberdade da protagonista, torna-a possível.

A rede de mulheres criada por Socorro Acioli constitui também um contraponto às formas patriarcais de poder presentes na história. Em vez de relações baseadas na autoridade, no domínio ou na hierarquia, como colocado por Scott (1986), o romance privilegia relações marcadas pela reciprocidade, pela escuta e pela partilha. O cuidado feminino deixa de ser apresentado como uma obrigação doméstica e passa a constituir uma prática política de resistência, capaz de preservar vidas e reconstruir sujeitos marcados pela violência.

Sob a perspectiva do Neorregionalismo (Braga, 2017), essas mulheres desempenham uma função que ultrapassa a dimensão individual, visto que representam formas coletivas de resistência e de preservação da humanidade em contextos de deslocamento, perda e desenraizamento. A hospitalidade portuguesa, personificada sobretudo em Florice, dialoga com a ancestralidade indígena preservada por Malba no Brasil, formando uma rede transatlântica de mulheres que sustenta a protagonista até que ela possa reconstituir sua memória e sua identidade.

Segundo Judith Butler, muitas correntes femininas, principalmente do século XX, trataram as mulheres como um grupo homogêneo, ignorando aspectos como raça, classe social, nacionalidade, sexualidade e contexto histórico. Assim, não existe uma experiência feminina única e universal, logo, as diferentes perspectivas femininas que perpassam o romance auxiliam na construção da identidade e da representatividade de Joana. Desse modo, Oração para desaparecer propõe uma autonomia feminina baseada não apenas na autonomia feminina individual observada na personagem Joana, mas também na força das mulheres que transpassam e a auxiliam na construção do seu caminho através de suas próprias autonomias. E assim Joana encerra o romance destacando exatamente a sua identidade e sua autonomia:

Eu, Joana Camelo, uma alma brasileira, emprego travessia por baixo do mar, furo a terra e sou liberta, vejo os mortos e adivinho dos vivos, tenho a companhia das princesas do mar e dos lagos, ando por onde quiser medo, com a flecha certeira de fogo que clareia a floresta mais escura. Sou livre neste mundo e posso abrir qualquer caminho, mas escolho, porque quero, toda vereda que me leve ao estado de amor. O amor, o fogo mais antigo. A única força que dissolve e recria o tempo (Acioli, 2023, p. 199).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante da discussão realizada, podemos compreende que, em Oração para desaparecer, de Socorro Acioli, a autonomia da personagem feminina Aparecida/Joana é construída de modo complexo, articulando memória, ancestralidade, espiritualidade, afetos e liberdade de escolha. A protagonista não se constitui como sujeito autônomo apenas por romper com estruturas patriarcais, mas também por reconstruir sua identidade a partir das relações que estabelece com outras mulheres, com sua origem tremembé e com as forças simbólicas que atravessam sua trajetória.

Nesse sentido, a narrativa de se aproxima das características do Neorregionalismo brasileiro ao deslocar o espaço regional da condição de simples cenário para transformá-lo em território de memória, resistência e produção de subjetividades. A região aparece como espaço vivo, marcado por disputas históricas, culturais e espirituais, no qual a personagem feminina deixa de ocupar uma posição secundária e passa a conduzir sua própria história. Assim, Aparecida/Joana rompe com os modelos tradicionais de representação feminina presentes em parte da literatura regionalista, afirmando-se como mulher livre, capaz de decidir sobre seu corpo, seus afetos, sua memória e seu futuro.

A presença das mulheres que atravessam sua trajetória, Malba, Florice, as mulheres portuguesas que a acolhem e as forças simbólicas associadas à Nossa Senhora da Conceição/Oxum, evidencia que a autonomia feminina, no romance, não se constrói de forma isolada, ao contrário, se fortalece por meio de uma rede de cuidado, escuta, proteção e transmissão de saberes. O acolhimento feminino não aparece como submissão ou obrigação doméstica, mas como prática de resistência, capaz de devolver dignidade, pertencimento e possibilidade de recomeço à protagonista.

Além disso, a ancestralidade feminina ocupa papel fundamental na reconstrução identitária de Joana. A memória de seu povo, os saberes de Malba, a espiritualidade tremembé e a presença de Nossa Senhora da Conceição revelam que a personagem não recupera apenas lembranças individuais, mas também um pertencimento coletivo. Sua autonomia, portanto, está profundamente ligada à história de outras mulheres e à resistência de um povo que permanece vivo apesar dos apagamentos impostos pela colonização e pelas violências históricas.

Dessa forma, o romance de Socorro Acioli contribui para ampliar as possibilidades de representação da mulher na literatura brasileira contemporânea ao construir uma protagonista que ama sem se submeter, lembra sem se aprisionar ao passado e escolhe seu futuro sem negar sua ancestralidade, a autora apresenta uma personagem feminina marcada pela liberdade, pela força e pela capacidade de reinvenção, reinscrevendo o regional a partir de novas vozes, especialmente vozes femininas, indígenas e ancestrais.

Portanto, temos que a autonomia de Aparecida/Joana não está apenas em sua capacidade de sobreviver à morte, mas, sobretudo, em sua decisão de viver. Sua travessia, física e simbólica, revela que ser livre é poder reconstruir-se, escolher seus caminhos e reconhecer-se como sujeito de sua própria história. Nesse percurso, Socorro Acioli reafirma a potência da literatura como espaço de resistência, de memória e de reinvenção das identidades femininas. Assim, temos que a autonomia de Joana/Aparecida se constitui por uma tríade narrativa formada pela ancestralidade, pela memória e pela solidariedade feminina.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ACIOLI, Socorro. Oração para desaparecer. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

BRAGA, Herasmo. Neorregionalismo brasileiro. Teresina: EDUFPI, 2017.

BUTLER, Judith. Gender trouble: feminism and the subversion of identity. New York: Routledge, 1990.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos. 10. ed. Rio de Janeiro: Ouro sobre Azul, 2000. 2 v.

DALCASTAGNÈ, Regina. Literatura brasileira contemporânea: um território contestado. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. 24. ed. São Paulo: Loyola, 2014.

HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Centauro, 2006.

ISER, Wolfgang. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Tradução de Johannes Kretschmer. São Paulo: Editora 34, 1996. 2 v.

SCOTT, Joan W. Gender: a useful category of historical analysis. The American Historical Review, Washington, v. 91, n. 5, p. 1053-1075, 1986.