A ATUAÇÃO DA TERAPIA OCUPACIONAL NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE NA INTERVENÇÃO PRECOCE EM CRIANÇAS COM TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA: REVISÃO INTEGRATIVA DE LITERATURA

OCCUPATIONAL THERAPY PRACTICE IN PRIMARY HEALTH CARE IN EARLY INTERVENTION FOR CHILDREN WITH AUTISM SPECTRUM DISORDER: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790389944

RESUMO
O estudo analisa a atuação do terapeuta ocupacional na Atenção Primária à Saúde (APS), com foco na intervenção precoce em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Para alcançar esse objetivo, realizou-se uma revisão integrativa da literatura com abordagem qualitativa e caráter descritivo nas bases de dados Google Acadêmico, SciELO, PubMed, BVS e LILACS, considerando publicações do período de 2015 a 2025. A análise dos dados revelou diversas possibilidades de intervenção profissional, com destaque para o acompanhamento do desenvolvimento infantil, a orientação familiar, o uso do brincar, a organização da rotina diária, o estímulo às habilidades sociais, a oferta de recursos de comunicação e a articulação intersetorial com a escola. Identificou-se, no entanto, uma escassez de estudos dedicados especificamente a esse cenário de prática. Conclui-se que a Terapia Ocupacional na APS desempenha papel estratégico na intervenção precoce ao favorecer a autonomia e a participação social da criança, além de oferecer suporte às famílias, evidenciando-se a importância do fortalecimento de novas pesquisas na área.
Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; Terapia Ocupacional; Atenção Primária à Saúde; Intervenção Precoce.

ABSTRACT
This study analyzes the practice of occupational therapists in Primary Health Care (PHC), focusing on early intervention for children with Autism Spectrum Disorder (ASD). To achieve this objective, an integrative literature review with a qualitative and descriptive approach was conducted across the Google Scholar, SciELO, PubMed, VHL, and LILACS databases, considering publications from 2015 to 2025. Data analysis revealed diverse possibilities for professional intervention, highlighting child development monitoring, family guidance, the use of play, daily routine organization, encouragement of social skills, provision of communication resources, and intersectoral articulation with schools. However, a scarcity of studies specifically dedicated to this practice setting was identified. It is concluded that Occupational Therapy in PHC plays a strategic role in early intervention by fostering autonomy and social participation for the child, while offering support to families, highlighting the importance of strengthening further research in this field.
Keywords: Autism Spectrum Disorder; Occupational Therapy; Primary Health Care; Early Intervention.

1. INTRODUÇÃO

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é conceituado como uma condição do neurodesenvolvimento de etiologia multifatorial, caracterizada por especificidades na comunicação social, na interação interpessoal e pela presença de padrões restritos ou repetitivos de comportamento (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2023; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2022).

Devido à acentuada heterogeneidade de suas manifestações clínicas, o autismo impacta diretamente o desempenho ocupacional da criança, impondo desafios significativos para a autonomia nas Atividades de Vida Diária (AVDs) — como alimentação, vestuário e higiene —, além de restringir a participação social e a livre exploração do brincar (SILVA et al., 2024).

Nos primeiros anos de vida, fase marcada por uma intensa neuroplasticidade em que o cérebro apresenta elevada capacidade de aprendizado e reorganização, a identificação oportuna dessas particularidades constitui uma janela de oportunidade determinante para o desenvolvimento infantil integral (GOIS et al., 2025).

No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Primária à Saúde (APS) consolida-se como a porta de entrada preferencial e o centro ordenador da Rede de Atenção à Saúde (RAS). No SUS, o terapeuta ocupacional na APS frequentemente atua de forma matricial ou integrado às equipes multiprofissionais (eMulti) e à Estratégia Saúde da Família (ESF) (COSTA; GUARANY, 2021).

A inserção territorial e o acompanhamento longitudinal próprios da rede básica criam um ambiente altamente favorável para a vigilância contínua do desenvolvimento, permitindo que as equipes identifiquem precocemente sinais atípicos de comportamento e comunicação, além de oferecerem acolhimento contínuo às famílias no seu próprio território.

Contudo, a rotina dos serviços básicos de saúde ainda enfrenta importantes obstáculos operacionais, como a escassez de capacitação continuada dos profissionais da ponta e fragilidades na articulação intersetorial, o que frequentemente atrasa o início do suporte terapêutico necessário (FERREIRA et al., 2021; REZENDE et al., 2020).

Nesse cenário, a intervenção precoce surge como uma abordagem fundamental para minimizar prejuízos funcionais, prevenir agravos secundários e otimizar o potencial de aprendizagem e adaptação da criança. Todavia, observa-se que o reconhecimento de sinais atípicos no desenvolvimento nem sempre se traduz em acesso rápido e fluido aos serviços de reabilitação, evidenciando gargalos importantes no fluxo assistencial da rede pública (FERREIRA et al., 2021).

Para superar essas barreiras e garantir um cuidado integral, a Terapia Ocupacional oferece contribuições essenciais ao fundamentar sua prática na análise da relação dinâmica entre a pessoa, suas ocupações e o contexto em que vive.

No atendimento infantil, o terapeuta ocupacional atua diretamente na promoção da autonomia e do engajamento ocupacional, utilizando como recursos centrais as atividades lúdicas, a estruturação de ambientes, a organização de rotinas diárias e o suporte ao processamento e integração sensorial (FERNANDES et al., 2022).

Quando essa prática é transposta para o cenário comunitário da APS, a atuação da Terapia Ocupacional extrapola a dimensão clínica individual, abrangendo a vigilância do desenvolvimento nas consultas de puericultura, a educação em saúde, o suporte matricial às equipes e a orientação direta aos cuidadores (COSTA; GUARANY, 2021).

Apesar da reconhecida relevância da Atenção Primária e da Terapia Ocupacional na promoção da saúde infantil, a produção científica nacional que articula simultaneamente esses dois campos no contexto do autismo e da intervenção precoce ainda se encontra dispersa e pouco aprofundada. Diante dessa lacuna, estrutura-se a seguinte questão norteadora desta pesquisa: como a literatura científica descreve e caracteriza as práticas do terapeuta ocupacional inserido na Atenção Primária à Saúde voltadas à intervenção precoce em crianças com Transtorno do Espectro Autista?

Para responder a essa problematização, este estudo tem como objetivo geral analisar a produção científica acerca da atuação do terapeuta ocupacional na Atenção Primária à Saúde com foco na intervenção precoce no autismo, identificando as principais estratégias utilizadas, as contribuições para o desenvolvimento infantil e os desafios vivenciados no contexto do SUS.

1.1. Justificativa

A escolha deste tema fundamenta-se na necessidade de compreender como a Terapia Ocupacional se insere na Atenção Primária à Saúde (APS) no cuidado prestado a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Embora o Sistema Único de Saúde (SUS) disponha de diretrizes consolidadas para a organização da atenção básica e para o cuidado integral à pessoa com autismo (BRASIL, 2014), a efetivação dessas ações no cotidiano dos serviços enfrenta entraves operacionais relevantes, sobretudo no que tange à vigilância contínua do desenvolvimento infantil e à coordenação do cuidado entre os diferentes níveis de atenção (FERREIRA et al., 2021).

A intervenção precoce é amplamente reconhecida como um elemento determinante para otimizar o desenvolvimento de crianças no espectro nos primeiros anos de vida, período de elevada plasticidade cerebral. No entanto, a identificação de sinais de alerta no desenvolvimento atípico não assegura, por si só, a rapidez do itinerário terapêutico nem o encaminhamento imediato para serviços especializados.

É justamente nesse gargalo assistencial que a Atenção Primária assume um papel decisivo: por sua proximidade com o território e pelo vínculo longitudinal mantido com as famílias, a APS está em posição privilegiada para detectar vulnerabilidades, acolher cuidadores e organizar o percurso assistencial na rede pública.

Apesar desse potencial estratégico, identifica-se uma relevante lacuna no conhecimento sobre as formas específicas de atuação e as possibilidades práticas do terapeuta ocupacional na atenção básica. A Terapia Ocupacional destaca-se por centrar suas intervenções no desempenho ocupacional, na autonomia e na participação social da criança, utilizando o brincar, o treino de Atividades de Vida Diária (AVDs), a organização da rotina e a adaptação dos ambientes domésticos e escolares (SILVA et al., 2024).

Do ponto de vista teórico, esta pesquisa justifica-se por reunir, sintetizar e problematizar achados científicos dispersos na literatura, fortalecendo a produção acadêmica nacional no campo da Terapia Ocupacional em Saúde Coletiva. Na dimensão prática e social, o estudo contribui para evidenciar estratégias terapêuticas replicáveis na rede básica, oferecendo subsídios para o aprimoramento dos fluxos de intervenção precoce no SUS, para o planejamento de políticas públicas em saúde infantil e para o fortalecimento do suporte oferecido às famílias.

1.2. Objetivos

Objetivo Geral

Analisar, por meio de uma revisão integrativa da literatura, a atuação do terapeuta ocupacional na Atenção Primária à Saúde, com foco nas práticas de intervenção precoce direcionadas a crianças com Transtorno do Espectro Autista.

Objetivos Específicos

  • Identificar as formas de inserção e a atuação do terapeuta ocupacional na Atenção Primária à Saúde no cuidado de crianças com TEA;

  • apear as principais estratégias e recursos de intervenção precoce utilizados pela Terapia Ocupacional descritos na literatura científica;

  • Analisar as contribuições da intervenção precoce para o desenvolvimento infantil, a funcionalidade e o engajamento ocupacional das crianças no espectro;

  • Discutir o impacto das ações de Terapia Ocupacional na promoção da autonomia, na participação social, no fortalecimento da rede de suporte familiar e na superação dos desafios operacionais do SUS.

2. REVISÃO DA LITERATURA

2.1. O Transtorno do Espectro Autista na Infância e a Relevância da Intervenção Precoce

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é conceituado como uma condição do neurodesenvolvimento de etiologia multifatorial, caracterizada por especificidades na comunicação social, na interação interpessoal e pela presença de padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades (AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION, 2023).

A heterogeneidade de suas manifestações clínicas resulta em diferentes níveis de necessidade de suporte, afetando de maneira singular a forma como a criança explora o ambiente, estabelece vínculos e responde aos estímulos sensoriais do meio.

Os primeiros anos de vida representam uma janela crítica para o desenvolvimento humano, caracterizada por intensa neuroplasticidade — a capacidade do sistema nervoso central de modificar sua estrutura e função em resposta a experiências e estímulos ambientais (VIANA, 2021).

Nesse contexto, a intervenção precoce configura-se como um conjunto de ações terapêuticas e educativas implementadas ao primeiro sinal de risco ou atraso no desenvolvimento, mesmo antes da consolidação do diagnóstico formal (GOIS et al., 2025).

A literatura aponta que a identificação e a intervenção oportunas nos primeiros anos de vida podem contribuir para a redução dos impactos associados ao transtorno, favorecer o desenvolvimento de habilidades cognitivas e adaptativas e alterar positivamente o prognóstico da criança com Transtorno do Espectro Autista (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2019).

Dessa forma, a intervenção precoce não busca a eliminação de características neurodivergentes, mas sim o favorecimento do potencial máximo de desenvolvimento e da qualidade de vida da criança e de sua família (SILVA et al., 2024).

2.2. A Atenção Primária à Saúde Como Ordenadora do Cuidado e Espaço Territorial no SUS

No âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), a Atenção Primária à Saúde (APS) consolida-se como a porta de entrada preferencial e o centro articulador da Rede de Atenção à Saúde (RAS) (MENDES, 2015). Pautada pelos princípios da universalidade, acessibilidade, vínculo e longitudinalidade, a APS acompanha os indivíduos e suas famílias ao longo do tempo em seus territórios de vida.

No tocante à saúde da criança, a APS desempenha papel estratégico na vigilância do desenvolvimento infantil. A proximidade das equipes de saúde da família com a comunidade possibilita o rastreio precoce de sinais de alerta para o TEA — como alteração no contato visual, ausência de resposta ao chamado pelo nome, atrasos na linguagem e ausência de atenção compartilhada (COSTA; GUARANY, 2021).

Contudo, a literatura sinaliza que a consolidação da atenção ao autismo na rede básica ainda enfrenta desafios importantes. Entre os principais entraves, destacam-se a carência de capacitação continuada das equipes de ponta, a sobrecarga dos serviços, o atraso no encaminhamento para serviços especializados e a fragilidade na articulação intersetorial entre saúde, educação e assistência social (FERREIRA et al., 2021; REZENDE et al., 2020).

2.3. A Terapia Ocupacional no Contexto Comunitário: Desempenho Ocupacional, Rotina e Suporte Familiar

A Terapia Ocupacional fundamenta sua práxis no estudo da ocupação humana e em sua capacidade de engajar-se em atividades significativas. A prática baseia-se na relação dinâmica entre pessoa, ambiente e ocupação. Na infância, as principais ocupações estão relacionadas ao brincar, ao autocuidado e à aprendizagem, sendo a participação nessas ocupações relevante para o desenvolvimento físico, cognitivo, social, afetivo e ocupacional da criança (CAMPOS FOLHA; DELLA BARBA, 2022).

Para a criança com TEA, o terapeuta ocupacional intervém sobre as barreiras que limitam o desempenho funcional e a participação plena nos contextos cotidianos. Entre as abordagens e estratégias utilizadas na Terapia Ocupacional, destacam-se:

  • Organização de rotinas e estruturação do ambiente: Utilização de suportes visuais e previsibilidade para diminuir a ansiedade e facilitar as transições diárias;

  • Uso do brincar como meio e fim terapêutico: Estímulo à exploração, imaginação, autonomia e interação social por meio de atividades lúdicas motivadoras;

  • Integração sensorial e adaptações ambientais: adequação de estímulos táteis, auditivos, visuais e proprioceptivos para favorecer a autorregulação e o processamento sensorial;

  • Orientação e empoderamento familiar: capacitação dos cuidadores para a continuidade das estratégias nos ambientes naturais da criança (FERNANDES et al., 2022).

Quando inserida na Atenção Primária à Saúde, a atuação do terapeuta ocupacional assume caráter comunitário e preventivo, articulando ações individuais, familiares, coletivas e interprofissionais. Além dos atendimentos diretos ou compartilhados, o profissional pode atuar por meio do apoio matricial, da promoção da saúde, da atenção domiciliar e da articulação com diferentes equipamentos do território, como escolas, creches e outros espaços comunitários (SILVA; OLIVER, 2020).

Apesar desse reconhecido potencial transformador, a produção científica específica sobre a práxis do terapeuta ocupacional voltada ao TEA na APS ainda se apresenta dispersa, reforçando a necessidade do aprofundamento investigativo (COSTA; GUARANY, 2021).

3. METODOLOGIA

3.1. Delineamento do Estudo

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo. A revisão integrativa é um método que permite sintetizar e incorporar conhecimentos produzidos por múltiplos estudos sobre um determinado objeto de investigação, viabilizando uma análise abrangente da produção científica e a identificação de lacunas no conhecimento (ERCOLE; MELO; COELHO, 2014; SOUZA; SILVA; CARVALHO, 2010).

A escolha por essa abordagem metodológica decorre da necessidade de compreender, de forma ampla, como a literatura descreve e caracteriza a atuação do terapeuta ocupacional no cuidado a crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), com ênfase na Atenção Primária à Saúde (APS) e na intervenção precoce.

A abordagem qualitativa, por sua vez, possibilita a interpretação contextual e analítica dos achados, considerando as particularidades da Atenção Primária, as estratégias de cuidado, a participação das famílias e as implicações para a integralidade da atenção à saúde infantil (MINAYO, 2014).

Quanto aos seus objetivos, o estudo classifica-se como descritivo por ter como finalidade identificar, registrar, analisar e sintetizar aspectos, estratégias e desafios da prática profissional sem a interferência direta do pesquisador (MARCONI; LAKATOS, 2021).

3.2. Estratégia de Busca e Fontes de Informação

Para a seleção dos estudos que compõem o corpus da pesquisa, foram realizadas buscas sistematizadas em bases de dados nacionais e internacionais reconhecidas nas áreas da Saúde Coletiva, Terapia Ocupacional e Desenvolvimento Infantil. As bases consultadas foram:

  • PubMed (U.S. National Library of Medicine);

  • LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde);

  • SciELO (Scientific Electronic Library Online);

  • BVS (Biblioteca Virtual em Saúde);

  • Google Acadêmico (utilizado como fonte complementar de literatura cinzenta e artigos indexados).

A estratégia de busca fundamentou-se no cruzamento de Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e Medical Subject Headings (MeSH), combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR. Foram empregados os seguintes termos, em português e inglês: “Terapia Ocupacional” (Occupational Therapy), “Atenção Primária à Saúde” (Primary Health Care), “Intervenção Precoce” (Early Intervention), “Transtorno do Espectro Autista” (Autism Spectrum Disorder), “Autismo” (Autism), “Desenvolvimento Infantil” (Child Development) e “Saúde da Criança” (Child Health).

3.3. Critérios de Inclusão e Exclusão

Para o refinamento dos resultados e seleção do material, foram definidos os seguintes critérios:

Critérios de Inclusão:

  1. 1. Artigos originais, relatos de experiência, estudos de caso e revisões de literatura publicados no recorte temporal de janeiro de 2015 a dezembro de 2025;

  2. 2. Publicações redigidas nos idiomas português, inglês ou espanhol;

  3. 3. Trabalhos com acesso na íntegra que abordassem diretamente a intervenção precoce em crianças com TEA no contexto da Terapia Ocupacional, da Atenção Primária à Saúde ou da atenção comunitária/territorial.

Critérios de Exclusão:

  1. 4. Publicações duplicadas entre as bases de dados;

  2. 5. Estudos voltados exclusivamente à população adulta ou idosa;

  3. 6. Trabalhos que não abordassem a Terapia Ocupacional ou o TEA;

  4. 7. Resumos de anais de eventos, editoriais, notas prévias, dissertações e teses.

3.4. Seleção, Extração e Análise dos Dados

A seleção das fontes seguiu três etapas consecutivas:

  1. 1. Triagem Inicial: Identificação das publicações por meio da aplicação dos descritores e remoção de duplicatas;

  2. 2. Seleção de Resumos: Leitura criteriosa dos títulos e resumos para verificação do alinhamento com a pergunta e os objetivos do estudo;

  3. 3. Leitura na Íntegra: Avaliação completa do texto das publicações pré-selecionadas para confirmação da elegibilidade.

Os dados dos estudos finais foram tabulados e organizados em um Quadro Sinóptico, contendo as seguintes variáveis: Título do estudo, Autores, Ano de publicação, Periódico/Base de dados, Objetivo do estudo, Delineamento metodológico e principais resultados/contribuições para a Terapia Ocupacional.

A análise do material compilado foi realizada de forma descritivo-interpretativa, agrupando os achados por eixos temáticos que convergiam para as possibilidades de atuação, estratégias utilizadas e lacunas da prática do terapeuta ocupacional na APS.

3.5. Aspectos Éticos

Por se tratar de uma pesquisa de revisão bibliográfica baseada exclusivamente na análise de literatura científica de livre acesso público, sem a participação direta de seres humanos ou manipulação de dados pessoais identificáveis, o presente estudo esteve dispensado de apreciação pelo Sistema CEP/CONEP (Comitê de Ética em Pesquisa), conforme o disposto nas Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012, 2016). Respeitaram-se integralmente os direitos autorais e as citações dos autores consultados, conforme as normas acadêmicas vigentes.

Fluxograma PRISMA - Processo de Seleção dos Estudos

Abaixo apresenta-se o fluxograma adaptado do modelo PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), detalhando as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos artigos na revisão integrativa.

Identificação dos estudos via bases de dados e registros

Identificação

Registros identificados nas bases de dados

(PubMed, LILACS, SciELO, BVS)

(n = 28)

Registros identificados em fontes complementares

(Google Acadêmico)

(n = 8)

 

⬇

Total de registros identificados

(n = 36)

Triagem Inicial

⬇

Registros removidos antes da triagem:

  • Registros duplicados removidos: (n = 6)
  • Registros marcados como inelegíveis por ferramentas automáticas: (n = 0)
  • Registros removidos por outros motivos (ex: resumos de anais): (n = 2)

Triagem

⬇

Registros triados por Título e Resumo

(n = 28)

⬇

Registros excluídos na triagem de Título/Resumo

(n = 11)

 

⬇

Relatórios buscados para recuperação na íntegra

(n = 17)

⬇

Relatórios não recuperados (texto indisponível)

(n = 1)

Elegibilidade

⬇

Relatórios avaliados para elegibilidade (leitura na íntegra)

(n = 16)

⬇

Relatórios excluídos por motivos específicos: (n = 5)

  • Fora do recorte temporal 2015-2025: (n = 1)
  • Não abordava Terapia Ocupacional nem intervenção precoce: (n = 3)
  • Foco exclusivo em população adulta: (n = 1)

Inclusão

⬇

Estudos incluídos na revisão

(n = 11)

Fonte: Elaborado pelos autores (2026).

Descrição das Etapas para o Texto da Metodologia / Resultados

  1. Identificação: Foram encontrados 36 registros nas buscas (28 nas bases de dados indexadas PubMed, LILACS, SciELO e BVS, e 8 no Google Acadêmico).

  2. Triagem Inicial: Excluíram-se 6 duplicatas e 2 resumos incompletos, restando 28 artigos para avaliação de título e resumo.

  3. Triagem: Dos 28 avaliados por título e resumo, 11 foram descartados por não atenderem à temática. Dos 17 restantes buscados na íntegra, 1 texto não estava acessível.

  4. Elegibilidade: Foram lidos na íntegra 16 artigos, dos quais 5 foram excluídos com justificativas claras (1 fora do período, 3 sem foco em TO/intervenção precoce e 1 com foco em adultos).

  5. Inclusão: A amostra final desta revisão integrativa resultou em 11 artigos selecionados

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

O A busca realizada nas bases de dados resultou na seleção de 11 pesquisas publicadas no período entre 2015 e 2025. Os trabalhos analisados trazem diferentes abordagens sobre a Terapia Ocupacional, o atendimento ao autismo e a atuação na saúde pública.

O Quadro 1 apresenta a síntese dos artigos selecionados, detalhando o ano de publicação, o título, os autores, a revista de divulgação e os principais achados de cada pesquisa.

Quadro 1. Síntese dos artigos incluídos na revisão integrativa (2015-2025)

Nº

Autor / Ano

Título do Artigo

Periódico

Metodologia

Principais Achados

1

COSTA; GUARANY (2021)

O reconhecimento dos sinais de autismo por profissionais atuantes nos serviços de puericultura na atenção básica

REVISBRATO

Quantitativo / Transversal

Evidencia lacunas no conhecimento dos profissionais da atenção básica para o reconhecimento dos sinais de TEA, reforçando a necessidade de educação permanente para favorecer a identificação precoce.

2

GOIS et al. (2025)

Instrumento de rastreamento para identificação de Transtorno do Espectro Autista na educação infantil (IRTEA.Educ): evidências de validade baseada no conteúdo

Cad. Bras. Ter. Ocup.

Estudo Metodológico

Desenvolve e apresenta evidências de validade de conteúdo de instrumento destinado à identificação de sinais de TEA na educação infantil, destacando o potencial do rastreamento para favorecer o encaminhamento para avaliação e intervenção.

3

SILVA; OLIVER (2020)

The interface of occupational therapists practices with regards primary health care attributes

Cad. Bras. Ter. Ocup.

Métodos Mistos

Analisa a inserção da Terapia Ocupacional na APS, evidenciando práticas clínicas e de apoio pedagógico, bem como sua interface com os atributos da Atenção Primária e o trabalho no NASF-AB.

4

JURDI; TEIXEIRA; SÁ (2017)

Vulnerabilidade sócio ambiental e o cuidado na primeira infância: o olhar da terapia ocupacional para o trabalho em creche

Rev. Ter. Ocup. Univ. São Paulo

Estudo Qualitativo / Ação

Discute a atuação do terapeuta ocupacional no território da Atenção Básica e equipamentos comunitários, promovendo a vigilância do desenvolvimento infantil e o suporte a cuidadores e educadores.

5

SILVA; JURDI; PEREIRA (2025)

Percepção sobre o processamento sensorial em crianças com transtorno do espectro autista: influências de idade, educação familiar e formação profissional

Cad. Bras. Ter. Ocup.

Quantitativo / Inferencial

Avalia a percepção de familiares e profissionais sobre o processamento sensorial de crianças com TEA (3 a 6 anos), apontando a importância do suporte às famílias no manejo de rotinas e estímulos sensoriais.

6

FOLHA; DELLA BARBA (2022)

Classificação da participação de crianças em ocupações nos contextos escolares na perspectiva da terapia ocupacional

Cad. Bras. Ter. Ocup.

Estudo Descritivo / Misto

Identifica barreiras e facilitadores relacionados à participação infantil em ocupações no contexto escolar (incluindo crianças com TEA) e destaca possibilidades de intervenção da Terapia Ocupacional para potencializar a participação.

7

REZENDE et al. (2020)

Conhecimento sobre Transtorno do Espectro Autista entre profissionais da atenção básica de saúde

Manuscripta Medica

Quantitativo / Descritivo

Identifica lacunas de conhecimento técnico sobre TEA entre médicos e enfermeiros da Atenção Básica, ressaltando o gargalo inicial no rastreio do desenvolvimento infantil.

8

FERREIRA et al. (2021)

O cuidado primário para as crianças com autismo na saúde brasileira

Saúde Coletiva

Revisão Integrativa

Discute as barreiras de acesso e os gargalos assistenciais da rede pública, ressaltando o papel estratégico e os desafios da Atenção Primária no itinerário terapêutico do TEA.

9

VIANA; NASCIMENTO (2021)

Efeitos da intervenção precoce no desenvolvimento de uma criança com TEA: interface entre neurociências e educação

Humanas Sociais & Aplicadas

Estudo de Caso Qualitativo

O estudo de caso identificou avanços nas respostas aos estímulos sensoriais, interação, imitação e linguagem em pré-escolar após intervenção precoce orientada ao desenvolvimento.

10

FERNANDES et al. (2022)

O telemonitoramento como estratégia de intervenção da terapia ocupacional com crianças e adolescentes com transtorno do espectro autista no contexto pandêmico

Cad. Bras. Ter. Ocup.

Relato de Experiência / Qualitativo

Apresenta estratégias de Terapia Ocupacional focadas no cotidiano de crianças com TEA e suas famílias, destacando a estruturação de rotinas, quadros visuais e adaptações ambientais.

11

CESTARI et al. (2024)

O referencial teórico-metodológico de Jô Benetton nas intervenções de terapia ocupacional com crianças: uma revisão de escopo

Cad. Bras. Ter. Ocup.

Revisão de Escopo

Analisa a utilização do referencial teórico-metodológico de Jô Benetton em intervenções de Terapia Ocupacional com crianças, destacando a importância da compreensão da criança em sua situação concreta, das relações estabelecidas e das atividades do cotidiano

Fonte: Elaborado pelos autores (2026).

A análise dos 11 estudos selecionados permitiu organizar os principais achados em cinco eixos temáticos: identificação precoce e rastreamento do Transtorno do Espectro Autista (TEA); atuação da Terapia Ocupacional na Atenção Primária à Saúde (APS) e articulação em rede; intervenção precoce e desenvolvimento infantil; processamento sensorial, rotina e suporte familiar; e participação, ocupações e contextos escolares e comunitários. Embora os estudos apresentem diferentes delineamentos e enfoques, observa-se uma aproximação entre eles ao considerar a criança de forma integral, inserida em diferentes contextos de vida e em interação constante com a família, a escola, os profissionais e o território.

4.1. Identificação Precoce e Rastreamento do TEA na Atenção Primária à Saúde

A identificação precoce dos sinais relacionados ao TEA constitui um dos principais aspectos observados nos estudos analisados. Costa e Guarany (2021) investigaram o reconhecimento dos sinais de autismo por profissionais que atuam nos serviços de puericultura na atenção básica, evidenciando a importância da preparação dos profissionais para observar alterações no desenvolvimento infantil. De maneira semelhante, Rezende et al. (2020) analisaram o conhecimento de profissionais da atenção básica sobre o TEA, apontando a necessidade de ampliar a qualificação desses profissionais para favorecer o reconhecimento dos sinais e o encaminhamento adequado das crianças.

Nesse sentido, a APS apresenta uma posição estratégica, uma vez que acompanha a criança durante diferentes etapas do desenvolvimento. O contato frequente com os serviços de saúde possibilita a observação de aspectos relacionados à comunicação, interação social, comportamento e participação nas atividades cotidianas. Entretanto, o reconhecimento desses sinais depende tanto do acompanhamento sistemático do desenvolvimento quanto do conhecimento dos profissionais envolvidos nesse processo.

O estudo de Gois et al. (2025) acrescenta a essa discussão a elaboração e análise de evidências de validade de conteúdo do Instrumento de Rastreamento para Identificação de Transtorno do Espectro Autista na Educação Infantil (IRTEA.Educ). A utilização de instrumentos de rastreamento pode contribuir para organizar a identificação de sinais de risco e favorecer o encaminhamento para avaliação especializada. Entretanto, o rastreamento não deve ser entendido como diagnóstico, mas como um recurso que pode auxiliar na identificação de crianças que necessitam de investigação mais aprofundada.

A partir da Terapia Ocupacional, a identificação precoce também pode ser compreendida a partir da observação da criança em suas atividades e ocupações. O terapeuta ocupacional pode contribuir para reconhecer dificuldades relacionadas à participação, interação, brincadeira, rotina, alimentação, autocuidado e desempenho em diferentes ambientes. Dessa forma, sua atuação pode complementar a percepção de outros profissionais e favorecer uma compreensão mais ampla das necessidades da criança.

Os estudos analisados indicam, portanto, que a identificação precoce não depende exclusivamente da existência de instrumentos de rastreamento, mas também da capacidade dos profissionais de observar o desenvolvimento infantil e articular os diferentes serviços envolvidos no cuidado. Nesse processo, a capacitação das equipes e a organização dos fluxos de encaminhamento tornam-se elementos importantes para evitar atrasos na avaliação e no início das intervenções.

4.2. Práticas da Terapia Ocupacional na APS e Articulação em Rede

A atuação da Terapia Ocupacional na APS é discutida diretamente por Silva e Oliver (2020), que analisaram a interface das práticas dos terapeutas ocupacionais com os atributos da atenção primária. O estudo evidencia a diversidade das possibilidades de atuação profissional, envolvendo ações clínicas e pedagógicas, acompanhamento nos territórios, atividades em espaços comunitários e articulação com outros profissionais e serviços.

Essa perspectiva amplia a compreensão da Terapia Ocupacional para além do atendimento individual realizado em um espaço específico. Na APS, o profissional pode desenvolver ações considerando o cotidiano da criança, sua família, seus ambientes de convivência e as condições sociais que interferem em sua participação. Dessa maneira, o cuidado pode ser construído de forma articulada com outros pontos da rede de atenção.

Essa compreensão também se aproxima do estudo de Jurdi, Teixeira e Sá (2017), que aborda a vulnerabilidade socioambiental e o cuidado na primeira infância a partir do trabalho da Terapia Ocupacional em creches. As autoras discutem a importância de considerar o ambiente em que a criança está inserida e as relações estabelecidas nesse espaço, destacando a possibilidade de atuação da Terapia Ocupacional em ações de cuidado, educação e prevenção de riscos ao desenvolvimento.

A aproximação entre saúde e educação torna-se especialmente relevante quando se considera o desenvolvimento infantil. A criança não permanece exclusivamente no serviço de saúde e, portanto, aspectos observados na escola ou na creche podem complementar as informações obtidas durante o atendimento em saúde. A comunicação entre esses contextos pode favorecer uma compreensão mais abrangente do desempenho e das necessidades da criança.

Ferreira et al. (2021), ao discutirem o cuidado primário de crianças com autismo na saúde brasileira, contribuem para essa análise ao abordar aspectos relacionados à organização da atenção e às dificuldades encontradas no cuidado dessas crianças na rede de saúde. Assim, os desafios identificados não estão restritos à atuação de um profissional específico, mas também envolvem a organização dos serviços e a articulação entre os diferentes níveis de atenção.

Nesse cenário, a Terapia Ocupacional pode exercer uma função importante na articulação entre criança, família, serviços de saúde, escola e comunidade. O foco nas ocupações e na participação permite que o profissional considere não apenas características individuais da criança, mas também as demandas e barreiras presentes nos ambientes em que ela vive.

4.3. Intervenção Precoce e Desenvolvimento Infantil

A intervenção precoce aparece nos estudos como uma estratégia relacionada ao acompanhamento do desenvolvimento e à possibilidade de favorecer a participação da criança em suas atividades cotidianas. Viana e Nascimento (2021), em um estudo de caso, analisaram os efeitos de uma intervenção precoce no desenvolvimento de uma criança com TEA, discutindo a interface entre neurociências e educação. Os resultados apresentados no estudo apontam mudanças em aspectos relacionados às respostas sensoriais, interação, imitação e linguagem ao longo do processo acompanhado.

Apesar de se tratar de um estudo de caso, seus achados contribuem para a discussão sobre a importância de intervenções iniciadas diante das necessidades identificadas no desenvolvimento infantil. Esse tipo de estudo não permite generalizar os resultados para todas as crianças com TEA, mas possibilita compreender, em uma situação específica, como o acompanhamento precoce pode estar relacionado a mudanças observadas no desenvolvimento.

Cestari et al. (2024), por sua vez, realizaram uma revisão de escopo sobre o referencial teórico-metodológico de Jô Benetton nas intervenções de Terapia Ocupacional com crianças. Embora o estudo não seja específico para crianças com TEA, seus achados são relevantes para compreender possibilidades de intervenção na infância, especialmente por enfatizarem a análise das necessidades da criança em sua situação concreta, a relação triádica e a participação de pessoas significativas de seu cotidiano.

Essa perspectiva é pertinente à Terapia Ocupacional porque desloca a intervenção de uma abordagem centrada exclusivamente na dificuldade ou no diagnóstico para uma compreensão da criança em suas relações e atividades cotidianas. No caso do TEA, essa compreensão pode favorecer intervenções que considerem as particularidades da criança, suas formas de comunicação, interesses, rotina e possibilidades de participação.

Assim, a intervenção precoce pode ser compreendida não apenas como uma tentativa de modificar determinados comportamentos ou habilidades, mas como uma oportunidade de favorecer o desenvolvimento e a participação da criança nos contextos em que está inserida. Para a Terapia Ocupacional, isso significa considerar as atividades significativas e as demandas reais do cotidiano como elementos importantes para o planejamento das intervenções.

4.4. Processamento Sensorial, Rotina e Suporte Familiar

Outro eixo identificado nos estudos está relacionado ao processamento sensorial, à organização da rotina e ao suporte oferecido às famílias. Silva, Jurdi e Pereira (2025) investigaram a percepção sobre o processamento sensorial em crianças com TEA, considerando fatores como idade, educação familiar e formação profissional. Esse estudo contribui para a compreensão de que as características relacionadas ao processamento sensorial podem interferir na maneira como a criança responde às demandas presentes em diferentes ambientes.

Para a Terapia Ocupacional, a compreensão dessas características é relevante porque as respostas sensoriais podem estar relacionadas ao desempenho e à participação da criança em atividades do cotidiano. Situações como alimentação, higiene, sono, brincadeiras, atividades escolares e interação social podem apresentar diferentes demandas sensoriais, exigindo do profissional uma avaliação individualizada.

Além disso, o suporte à família constitui um componente importante do cuidado. A família participa diretamente da organização da rotina e das atividades da criança e, portanto, pode contribuir para a identificação de dificuldades e para a construção de estratégias que sejam possíveis de serem incorporadas ao cotidiano.

Fernandes et al. (2022) apresentam uma contribuição específica nesse sentido ao relatarem uma experiência de telemonitoramento da Terapia Ocupacional com crianças e adolescentes com TEA e suas famílias durante o contexto pandêmico. As intervenções envolveram organização da vida diária, estruturação da rotina e orientações às famílias, além da manutenção do contato com equipes escolares. O estudo demonstra, dentro daquele contexto específico, a possibilidade de utilização do telemonitoramento para continuidade do cuidado, escuta e orientação.

Embora a experiência tenha ocorrido em uma situação excepcional, marcada pelas restrições impostas pela pandemia, seus achados permitem refletir sobre a importância de estratégias de acompanhamento que considerem a rotina familiar e mantenham a comunicação entre os diferentes contextos de vida da criança. A experiência também reforça que o cuidado não precisa estar limitado ao atendimento presencial individual, podendo incluir orientação e acompanhamento de acordo com as necessidades identificadas.

Nesse sentido, a Terapia Ocupacional pode auxiliar as famílias na identificação de barreiras presentes na rotina e na construção de estratégias que favoreçam a participação da criança. O objetivo não deve ser simplesmente adaptar a criança às exigências do ambiente, mas também analisar se o ambiente e as atividades podem ser modificados para tornar a participação mais acessível.

4.5. Participação, Ocupações e Contextos Escolares e Comunitários

A participação da criança nas ocupações e nos diferentes contextos sociais constitui outro aspecto relevante identificado na literatura analisada. Folha e Della Barba (2022) investigaram a participação de crianças em ocupações nos contextos escolares a partir da perspectiva da Terapia Ocupacional. Ainda que o estudo não tenha sido desenvolvido exclusivamente com crianças com TEA, sua amostra incluiu crianças com diferentes condições, entre elas crianças com TEA, permitindo discutir aspectos relacionados às barreiras e aos facilitadores da participação no ambiente escolar.

A escola constitui um espaço fundamental para o desenvolvimento infantil, pois envolve diferentes ocupações e experiências sociais. Participar das atividades escolares significa não apenas realizar tarefas pedagógicas, mas também brincar, interagir com outras crianças, alimentar-se, deslocar-se pelos espaços, seguir rotinas e participar de atividades coletivas. Dessa forma, dificuldades de participação podem estar relacionadas tanto às características individuais da criança quanto às demandas e condições oferecidas pelo ambiente.

Essa compreensão aproxima-se dos achados de Jurdi, Teixeira e Sá (2017), que destacam a importância de considerar o contexto socioambiental no cuidado da primeira infância. A atuação em espaços como creches permite ao terapeuta ocupacional observar a criança em situações reais e identificar aspectos do ambiente que podem favorecer ou dificultar seu desenvolvimento e participação.

Os achados de Cestari et al. (2024) também contribuem para essa perspectiva ao enfatizarem intervenções de Terapia Ocupacional centradas nas necessidades situacionais da criança, na relação com pessoas significativas e na participação em atividades da vida cotidiana. Assim, a intervenção pode ser planejada considerando não somente a criança, mas também as relações e os ambientes nos quais suas ocupações acontecem.

Fernandes et al. (2022), ao relatarem a experiência de telemonitoramento, também destacaram a necessidade de orientação e suporte às equipes escolares. Essa articulação demonstra a importância de estabelecer comunicação entre os diferentes ambientes frequentados pela criança, evitando que as estratégias utilizadas em um contexto sejam completamente desconectadas das necessidades observadas em outro.

A participação, portanto, pode ser compreendida como um importante indicador para o trabalho da Terapia Ocupacional com crianças com TEA. Mais do que observar se a criança adquiriu determinada habilidade, é necessário analisar se essa habilidade contribui para que ela participe de forma mais efetiva das atividades que fazem parte de sua vida.

4.6. Síntese dos Achados e Implicações para a Terapia Ocupacional

A análise conjunta dos 11 estudos permite compreender que a atuação da Terapia Ocupacional relacionada ao TEA pode envolver diferentes momentos do cuidado, desde a identificação de sinais de alteração no desenvolvimento até o acompanhamento da participação da criança em suas ocupações e contextos de vida. Os estudos também evidenciam que essas ações não devem ser compreendidas de maneira isolada, pois estão relacionadas à família, à escola, aos serviços de saúde e às características do território.

Na APS, essa perspectiva apresenta particular importância devido à possibilidade de acompanhamento longitudinal da criança e de articulação com outros serviços. A identificação precoce dos sinais, discutida por Costa e Guarany (2021), Rezende et al. (2020) e Gois et al. (2025), pode favorecer o encaminhamento e a avaliação das necessidades da criança. Entretanto, para que esse processo seja efetivo, é necessário que exista uma rede organizada e profissionais preparados para reconhecer os sinais e orientar as famílias.

A intervenção, por sua vez, precisa considerar o cotidiano infantil. Os estudos de Viana e Nascimento (2021) e Cestari et al. (2024) contribuem para essa compreensão ao apresentarem diferentes perspectivas sobre intervenção na infância, enquanto Silva, Jurdi e Pereira (2025) destacam a relevância das questões relacionadas ao processamento sensorial. Fernandes et al. (2022) acrescentam a importância da organização da rotina, da orientação familiar e da articulação com a escola.

Outro aspecto importante é a participação. Os achados de Folha e Della Barba (2022) mostram a relevância de analisar as ocupações e os contextos escolares, enquanto Jurdi, Teixeira e Sá (2017) contribuem para uma compreensão ampliada do ambiente e das condições socioambientais. Dessa forma, o foco da Terapia Ocupacional pode ultrapassar a aquisição isolada de habilidades e direcionar-se para a possibilidade de a criança participar das atividades que compõem sua vida cotidiana.

Diante disso, os estudos analisados indicam que a Terapia Ocupacional pode contribuir para o cuidado de crianças com TEA na APS por meio de ações de avaliação, acompanhamento do desenvolvimento, orientação familiar, organização da rotina, análise das ocupações, identificação de barreiras ambientais, articulação com escolas e outros serviços e desenvolvimento de estratégias voltadas à participação.

Entretanto, também permanecem desafios relacionados à qualificação dos profissionais, à identificação oportuna dos sinais do TEA, à organização dos fluxos de atendimento e à articulação entre os diferentes pontos da rede. Portanto, fortalecer a atuação multiprofissional e intersetorial mostra-se relevante para que o cuidado seja construído de maneira contínua e contextualizada.

De forma geral, os resultados desta revisão apontam para a necessidade de compreender a criança com TEA para além do diagnóstico, considerando suas características individuais, sua família, suas ocupações e os ambientes nos quais participa. Nesse contexto, a Terapia Ocupacional apresenta possibilidades de contribuição tanto no âmbito da atenção à saúde quanto na articulação com os demais espaços de desenvolvimento infantil, favorecendo um cuidado centrado nas necessidades reais da criança e em sua participação no cotidiano.

5. CONCLUSÃO

A realização desta revisão integrativa da literatura permitiu analisar a produção científica nacional relacionada à atuação da Terapia Ocupacional na Atenção Primária à Saúde (APS), com enfoque na intervenção precoce e no cuidado de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). A análise dos 11 estudos selecionados evidenciou diferentes possibilidades de contribuição da Terapia Ocupacional nesse contexto, envolvendo a identificação de sinais relacionados ao desenvolvimento, o acompanhamento das necessidades da criança, a orientação às famílias, a organização da rotina, a compreensão das demandas sensoriais e a promoção da participação em atividades e contextos do cotidiano.

Os resultados indicam que a atuação do terapeuta ocupacional na APS pode ultrapassar uma perspectiva centrada exclusivamente na reabilitação individual, considerando a criança em sua relação com a família, a escola, os serviços de saúde e o território. Nesse sentido, os estudos analisados apontam para a importância de compreender as demandas ocupacionais e os fatores ambientais que podem favorecer ou dificultar a participação infantil. A atuação em diferentes contextos possibilita uma avaliação mais próxima das situações reais vivenciadas pela criança e pode contribuir para a construção de estratégias individualizadas de cuidado.

No âmbito da identificação precoce, os estudos de Costa e Guarany (2021), Rezende et al. (2020) e Gois et al. (2025) reforçam a importância da qualificação dos profissionais e da utilização de estratégias de rastreamento para o reconhecimento de sinais de risco para o TEA. Embora o rastreamento não substitua a avaliação diagnóstica, sua utilização pode contribuir para identificar crianças que necessitam de investigação especializada e favorecer o encaminhamento oportuno. Nesse processo, a Terapia Ocupacional pode contribuir por meio da observação do desempenho da criança em suas atividades, interações e diferentes ambientes de participação.

Os estudos também permitiram identificar a relevância da articulação entre os diferentes espaços que fazem parte da vida da criança. A atuação da Terapia Ocupacional na APS, discutida por Silva e Oliver (2020), pode envolver ações clínicas, pedagógicas e territoriais, enquanto Jurdi, Teixeira e Sá (2017) destacam a importância de considerar as condições socioambientais e o contexto da primeira infância. Esses achados reforçam a necessidade de um cuidado que não esteja restrito ao serviço de saúde, mas que considere os ambientes nos quais a criança desenvolve suas atividades e estabelece relações.

Em relação à intervenção precoce, os estudos analisados indicam a importância de considerar as necessidades específicas da criança e sua participação no cotidiano. Viana e Nascimento (2021) apresentam, por meio de um estudo de caso, mudanças observadas em aspectos do desenvolvimento após uma intervenção precoce, enquanto Cestari et al. (2024), em uma revisão de escopo sobre intervenções de Terapia Ocupacional com crianças, ressaltam a importância de considerar as necessidades situacionais, as relações estabelecidas e as atividades da vida cotidiana. Esses achados contribuem para uma compreensão da intervenção como um processo individualizado e contextualizado, no qual as características da criança e de seu ambiente devem ser consideradas conjuntamente.

Outro aspecto relevante refere-se às demandas relacionadas ao processamento sensorial e à organização da rotina. Silva, Jurdi e Pereira (2025) contribuem para essa discussão ao abordarem a percepção sobre o processamento sensorial em crianças com TEA, enquanto Fernandes et al. (2022) relatam uma experiência de telemonitoramento da Terapia Ocupacional envolvendo organização da vida diária, estruturação da rotina e orientação às famílias e às equipes escolares. Dessa forma, os resultados reforçam a importância de considerar o cotidiano familiar e os diferentes ambientes frequentados pela criança no planejamento das intervenções.

A participação também se mostrou um elemento central para a Terapia Ocupacional. O estudo de Folha e Della Barba (2022), que investigou a participação de crianças em ocupações no contexto escolar, incluindo crianças com TEA, evidencia a importância de observar as barreiras e os facilitadores presentes nos ambientes. Essa perspectiva permite compreender que as dificuldades de participação não estão necessariamente relacionadas apenas às características da criança, mas também podem ser influenciadas pela organização das atividades, pelas condições ambientais e pelas relações estabelecidas nos diferentes contextos.

Apesar das contribuições identificadas, os estudos analisados também apontam desafios para a consolidação do cuidado às crianças com TEA na rede de atenção. Entre eles, destacam-se a necessidade de maior qualificação dos profissionais para o reconhecimento de sinais relacionados ao TEA, a organização dos fluxos de encaminhamento, a articulação entre os diferentes serviços e a integração entre saúde, educação, família e demais espaços de convivência da criança. Ferreira et al. (2021) contribuem para essa discussão ao abordarem aspectos relacionados ao cuidado primário de crianças com autismo na saúde brasileira, evidenciando a complexidade da organização desse cuidado na rede.

Como limitação desta revisão, destaca-se a diversidade metodológica dos estudos encontrados e a quantidade ainda restrita de pesquisas nacionais diretamente voltadas à atuação da Terapia Ocupacional com crianças com TEA no âmbito específico da APS. Além disso, parte dos estudos apresenta enfoques mais amplos sobre infância, participação, escola ou organização da atenção, não sendo todos exclusivamente direcionados ao TEA ou à Terapia Ocupacional na APS. Essa característica exige cautela na generalização dos resultados e demonstra a necessidade de ampliar a produção científica específica sobre o tema.

Diante dos achados, recomenda-se o desenvolvimento de novas pesquisas nacionais que investiguem, de maneira mais sistemática, as práticas da Terapia Ocupacional na APS direcionadas às crianças com TEA, incluindo estudos de acompanhamento longitudinal, pesquisas de campo e investigações que avaliem os resultados das intervenções sobre participação, desempenho ocupacional, rotina familiar e inclusão nos diferentes contextos de vida. Também se mostra relevante ampliar estudos sobre estratégias de rastreamento e identificação precoce, bem como sobre a articulação entre os profissionais da APS, os serviços especializados, as instituições educacionais e as famílias.

Conclui-se que a Terapia Ocupacional apresenta possibilidades relevantes de contribuição para o cuidado de crianças com TEA na Atenção Primária à Saúde, especialmente por sua perspectiva centrada nas ocupações, na participação e na relação entre pessoa e ambiente. A atuação profissional pode contribuir para a identificação de necessidades, o acompanhamento do desenvolvimento, a orientação às famílias, a organização do cotidiano e a redução de barreiras que dificultam a participação da criança. Entretanto, para que essas possibilidades sejam fortalecidas, são necessários profissionais qualificados, maior articulação entre os serviços e produção científica nacional que aprofunde a compreensão sobre a atuação da Terapia Ocupacional na APS. Assim, o fortalecimento de práticas integradas e contextualizadas pode favorecer um cuidado mais contínuo, humanizado e centrado nas necessidades da criança e de sua família.

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1 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro Do Sul Campus Arapiraca/Alagoas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional UNICID Campus Tatuapé São Paulo/SP. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro do Sul – Campus Boituva/SP E-mail [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro do Sul Campus São Gonçalo/RJ. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro do Sul - Campus Ribeirão Pires/SP. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

6 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional UNICID Campus Tatuapé São Paulo/SP. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

7 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro do Sul Campus Freguesia Rio de Janeiro/RJ. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

8 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro do Sul Campus Arapiraca/Al. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

9 Discente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro do Sul Campos Santo Amaro São Paulo/SP E-mail [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

10 Docente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro do Sul. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

11 Docente do Curso Superior de Terapia Ocupacional Cruzeiro do Sul. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail