REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779746990
RESUMO
A ansiedade de separação é um distúrbio comportamental frequentemente observado em cães, caracterizado por vocalização excessiva, destruição de objetos e sinais de estresse quando afastados de seus tutores. Terapias integrativas, como a acupuntura e a moxaterapia, vêm sendo utilizadas como abordagens complementares no manejo de distúrbios comportamentais, promovendo equilíbrio neurofisiológico e redução do estresse. O presente trabalho tem como objetivo relatar o uso da acupuntura associada à moxaterapia no tratamento da ansiedade de separação em um canino da raça Beagle, macho, nove anos de idade, com histórico de vocalização excessiva na ausência da tutora. O tratamento foi realizado com sessões semanais inicialmente, evoluindo para intervalos maiores conforme melhora clínica. Após um mês, observou-se redução significativa dos sinais comportamentais, corroborada por relatos de vizinhos. A associação com terapia floral potencializou os resultados, indicando que terapias integrativas podem ser eficazes no manejo da ansiedade de separação em cães.
Palavras-chave: ansiedade de separação; acupuntura; moxaterapia; comportamento canino; terapias integrativas.
ABSTRACT
Separation anxiety is a behavioral disorder commonly observed in dogs, characterized by excessive vocalization, destructive behavior, and stress signs when separated from their owners. Integrative therapies such as acupuncture and moxibustion have been used as complementary approaches in managing behavioral disorders, promoting neurophysiological balance and stress reduction. This study aims to report the use of acupuncture associated with moxibustion in the treatment of separation anxiety in a nine-year-old male Beagle dog. The treatment initially consisted of twice-weekly sessions, later spaced according to clinical improvement. After one month, a significant reduction in behavioral signs was observed. Flower therapy was also introduced, enhancing the therapeutic response. These findings suggest that integrative therapies may be effective in managing separation anxiety in dogs.
Keywords: separation anxiety; acupuncture; moxibustion; canine behavior; integrative therapies.
INTRODUÇÃO
A medicina veterinária tem evoluído significativamente nas últimas décadas, com crescente utilização de terapias integrativas como complemento aos tratamentos convencionais, visando o bem-estar e a qualidade de vida dos animais (Brito et al., 2021). Entre essas abordagens, destacam-se a acupuntura e a moxaterapia, amplamente utilizadas por sua capacidade de modular o sistema nervoso central, promover liberação de neurotransmissores e reduzir estados de estresse e ansiedade (Xie & Preast, 2013; Luna et al., 2020).
A ansiedade de separação é um dos distúrbios comportamentais mais comuns em cães, caracterizando-se por vocalização excessiva, destruição de objetos, eliminação inadequada e sinais de sofrimento quando o animal é deixado sozinho (Overall, 2013).
Raças como o Beagle apresentam maior predisposição a esse tipo de comportamento, devido ao seu histórico de seleção para trabalho em matilha, elevado nível de energia e necessidade constante de interação social, além de apresentarem, frequentemente, dificuldade de adaptação a regras e treinamentos convencionais (Case, 2013).
Nesse contexto, terapias integrativas surgem como alternativas promissoras, especialmente em casos em que intervenções comportamentais isoladas não apresentam resultados satisfatórios. O presente estudo tem como objetivo relatar o uso da acupuntura associada à moxaterapia no tratamento da ansiedade de separação em um cão da raça Beagle.
RELATO DE CASO
No dia 19 de março de 2026, foi atendido um paciente canino, macho, da raça Beagle,, com nove anos de idade, pesando aproximadamente 26,5 kg, castrado, vacinado e vermifugado, residente na cidade de Manaus, Amazonas.
O animal vivia em ambiente domiciliar com quintal amplo, mantido em boas condições de manejo, realizando passeios noturnos e convivendo com outro cão.
A queixa principal relatada pela tutora foi hiperatividade associada à ansiedade de separação, manifestada por lambedura por estresse das patas dianteiras e principalmente por vocalização excessiva (latidos e uivos) durante sua ausência, gerando incômodo e reclamações por parte de vizinhos.
Durante a avaliação comportamental, observou-se que o animal apresentava baixa obediência, dificuldade em seguir comandos e comportamento pouco sociável com outros animais, mesmo após tentativa prévia de adestramento sem sucesso.
Diante do quadro, optou-se pela implementação de terapias integrativas.
Inicialmente, o protocolo terapêutico incluiu aplicação inicial de procaína para relaxamento na dose de 0,01ml (A).
Foi realizada avaliação segundo os princípios da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), com palpação dos meridianos (B), identificando sensibilidade principalmente nos meridianos da bexiga e do fígado.
Destacaram-se os pontos:
B18 (Ganshu) – relacionado ao fígado
B28 (Pangguangshu) – relacionado à bexiga
Seguindo de moxaterapia com Artemisia vulgaris, técnica de Gua Sha e eletroacupuntura.
Observou-se que a eletroacupuntura (B) promoveu relaxamento mais evidente durante a sessão. Para a realização da técnica, utilizou-se o aparelho Niki Vfix 2 Canais Acupuntura, empregado no modo disperso, com frequência de 2–15 Hz e potência de 10 mAp. As agulhas de acupuntura (A) foram aplicadas nos pontos em que o animal apresentou maior sensibilidade durante a avaliação clínica e palpação, visando potencializar o efeito analgésico e promover maior resposta terapêutica. A aromaterapia, a partir dos florais de Bach, foi testada, porém não houve aceitação inicial pelo animal.
A sessão terapêutica foi realizada com o objetivo de promover a estabilização do quadro comportamental e favorecer uma resposta neuromodulatória mais célere. Durante sua condução, observou-se evolução clínica relevante, evidenciada principalmente pela redução significativa da vocalização excessiva (latidos e uivos) na ausência da tutora, bem como pela diminuição do estado de agitação e hiperatividade previamente relatados.
A melhora comportamental foi corroborada não apenas pela percepção da tutora, mas também por relatos de terceiros, especialmente vizinhos, que passaram a referir redução considerável dos episódios de vocalização, indicando impacto positivo do tratamento no ambiente externo ao domicílio e conferindo maior confiabilidade à avaliação clínica.
Diante da resposta terapêutica satisfatória, optou-se pela redução gradual da frequência das sessões, passando para atendimentos semanais com o objetivo de manutenção dos efeitos obtidos. Posteriormente, com a continuidade da melhora e estabilização do quadro, os intervalos foram ampliados para sessões quinzenais, seguindo protocolos descritos na literatura para terapias integrativas, nos quais a diminuição progressiva da frequência é indicada após controle clínico, visando consolidação dos resultados e adaptação fisiológica do paciente ao novo estado de equilíbrio.
Esse ajuste gradual no intervalo entre as sessões demonstrou-se eficaz para manutenção dos benefícios terapêuticos, sem recorrência significativa dos sinais clínicos iniciais, evidenciando a efetividade do protocolo adotado.
Foi associada terapia aromática, por opção da tutora, sob orientação veterinária, com resposta positiva complementar ao tratamento.
DISCUSSÃO
A ansiedade de separação em cães configura-se como um distúrbio comportamental de natureza multifatorial, envolvendo interações complexas entre fatores neurobiológicos, ambientais e genéticos. Do ponto de vista fisiopatológico, destaca-se a hiperatividade do sistema nervoso central, especialmente de circuitos límbicos associados ao medo e à ansiedade, bem como a disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HHA), resultando em aumento sustentado dos níveis de cortisol e consequente alteração da homeostase neuroendócrina (Karen Overall, 2013). Tal desregulação está diretamente associada a manifestações comportamentais típicas, como vocalização excessiva, manifestação de comportamentos destrutivos, inquietação motora e hipervigilância, frequentemente exacerbadas na ausência do tutor.
No que se refere à predisposição racial, cães da raça Beagle apresentam características etológicas que podem favorecer o desenvolvimento desse distúrbio. Trata-se de uma raça historicamente selecionada para atividades de caça em grupo, com elevada dependência de interação social, alta energia basal e forte motivação olfativa. Essas características, quando associadas a contextos de isolamento ou mudanças ambientais, podem contribuir para a emergência de comportamentos ansiosos. Ademais, estudos indicam que indivíduos dessa raça podem apresentar menor responsividade a métodos convencionais de adestramento, sobretudo quando não há adequada adequação às suas necessidades comportamentais específicas (Linda P. Case, 2013). No presente caso, tais aspectos foram evidenciados pela baixa resposta ao treinamento prévio, reforçando a necessidade de abordagens terapêuticas complementares.
Sob a ótica da Medicina Tradicional Chinesa (MTC), a interpretação do quadro clínico amplia a compreensão do distúrbio ao considerar os desequilíbrios energéticos subjacentes. Os achados observados sugerem desarmonia predominante no fígado (elemento madeira), cuja função está relacionada à livre circulação do Qi e à regulação das emoções. A estagnação do Qi do fígado é classicamente associada a manifestações como irritabilidade, frustração, inquietação e dificuldade de relaxamento, compatíveis com o comportamento apresentado pelo animal. A sensibilidade identificada nos pontos B18 (associado ao fígado) e B28 (associado à bexiga) sugere ainda uma interação entre os elementos madeira e água, indicando possível comprometimento do eixo energético responsável pela adaptação ao estresse e pela estabilidade emocional. Essa inter-relação entre sistemas energéticos reforça a natureza sistêmica do distúrbio, conforme descrito na literatura de acupuntura veterinária (Steve Marsden Schoen, 2001).
A aplicação da moxaterapia, enquanto técnica complementar, mostrou-se relevante ao promover estímulo térmico localizado, parte dorsal, latero lateral direita e latero lateral esquerda, contribuindo para a melhora da circulação sanguínea e energética, além de favorecer a dispersão de estagnações e o fortalecimento de estados de deficiência energética. Do ponto de vista fisiológico, o calor gerado pela moxa pode induzir vasodilatação, aumento do metabolismo local e modulação de vias aferentes sensoriais, potencializando os efeitos terapêuticos sobre o sistema nervoso autônomo.
Adicionalmente, a resposta observada à eletroacupuntura reforça sua eficácia como ferramenta de neuromodulação. Evidências indicam que essa técnica atua na liberação de neurotransmissores e neuromoduladores, como endorfinas, serotonina e noradrenalina, promovendo efeitos analgésicos, ansiolíticos e regulatórios sobre o sistema nervoso central. No presente caso, o relaxamento evidente durante as sessões sugere ativação de mecanismos parassimpáticos e redução da hiperexcitabilidade neuronal, corroborando achados descritos por Carlos Luna e Joaquim Joaquim (2013).
A não aceitação da aromaterapia pelo animal evidencia a importância da individualização terapêutica, princípio fundamental nas abordagens integrativas. A variabilidade na resposta a estímulos sensoriais, especialmente olfativos, pode estar relacionada a fatores individuais, incluindo experiências prévias, sensibilidade neurossensorial e estado emocional do paciente. Tal achado reforça a necessidade de adaptação contínua do plano terapêutico, respeitando a singularidade de cada indivíduo.
Os resultados obtidos durante o tratamento demonstram melhora clínica progressiva e consistente, caracterizada pela redução da vocalização excessiva, diminuição da agitação psicomotora e maior capacidade de adaptação à ausência da tutora. A validação dessas observações por relatos de terceiros confere maior robustez aos achados, reduzindo possíveis vieses de percepção do tutor. Esses resultados sugerem que a abordagem integrativa adotada, combinando técnicas da MTC com intervenções de base neurofisiológica, pode ser eficaz na modulação de distúrbios comportamentais complexos, como a ansiedade de separação.
Dessa forma, o presente estudo contribui para a ampliação do entendimento sobre o uso de terapias integrativas na medicina veterinária comportamental, destacando a importância de abordagens multimodais e individualizadas no manejo de pacientes com alterações emocionais e comportamentais
CONCLUSÃO
A acupuntura associada à moxaterapia mostrou-se eficaz no tratamento da ansiedade de separação em um cão da raça Beagle, promovendo redução significativa dos sinais comportamentais e melhora na qualidade de vida do animal e de sua tutora.
A evolução progressiva observada demonstra que essas terapias atuam de forma gradual, promovendo equilíbrio neurofisiológico e emocional sem a necessidade de intervenções farmacológicas.
A associação de um ou mais abordagens integrativas combinadas podem ser mais eficazes no manejo de distúrbios comportamentais.
Os achados baseados na Medicina Tradicional Chinesa, especialmente relacionados ao desequilíbrio dos meridianos do fígado e da bexiga, reforçam a importância da avaliação energética individualizada para direcionamento do tratamento.
Diante dos achados clínicos observados, conclui-se que a acupuntura associada à moxaterapia constitui uma abordagem terapêutica segura e potencialmente eficaz no manejo da ansiedade de separação em cães, promovendo modulação neurofisiológica e equilíbrio comportamental sem a necessidade inicial de intervenções farmacológicas.
A resposta positiva evidenciada no presente relato, caracterizada pela redução significativa da vocalização excessiva e melhora global do comportamento do animal, reforça o papel dessas terapias como ferramentas adjuvantes relevantes na clínica de pequenos animais, especialmente em pacientes que apresentam baixa responsividade a métodos convencionais, como o adestramento comportamental.
Destaca-se, ainda, que raças com perfil comportamental mais desafiador, como o Beagle — frequentemente associadas à alta energia, necessidade de interação social e maior predisposição a distúrbios ansiosos — podem se beneficiar de abordagens integrativas individualizadas, capazes de atuar tanto nos aspectos fisiológicos quanto emocionais do paciente.
Adicionalmente, a utilização dessas terapias deve ser conduzida por profissionais devidamente capacitados e com conhecimento técnico em Medicina Tradicional Chinesa e suas aplicações na medicina veterinária, garantindo a correta seleção dos pontos de acupuntura, definição do protocolo terapêutico e monitoramento da resposta clínica.
Dessa forma, a acupuntura e a moxaterapia consolidam-se como estratégias promissoras no manejo da ansiedade de separação, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida do animal e de seu tutor, além de ampliar as possibilidades terapêuticas dentro de uma abordagem clínica integrativa.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BACH, E. Os remédios florais. São Paulo: Pensamento, 1931.
BRITO, B. et al. Aplicação da ozonioterapia na clínica de pequenos animais. PUBVET, 2021.
CASE, L. P. The Dog: Its Behavior, Nutrition, and Health. 2. ed. Wiley-Blackwell, 2013.
LUNA, S. P. L.; JOAQUIM, J. G. F. Acupuntura em medicina veterinária. São Paulo: MedVet, 2013.
LUNA, S. P. L. et al. Acupuncture in veterinary medicine. Veterinary Clinics, 2020.
OVERALL, K. L. Manual of Clinical Behavioral Medicine for Dogs and Cats. Elsevier, 2013.
SCHOEN, A. M. Veterinary Acupuncture. 2. ed. Mosby, 2001.
XIE, H.; PREAST, V. Traditional Chinese Veterinary Medicine. 2. ed. 2013.
1 Estudante do curso de Medicina Veterinária do Instituto Metropolitano de Ensino (IME), Manaus, AM
2 Estudante do curso de Medicina Veterinária do Instituto Metropolitano de Ensino (IME), Manaus, AM
3 Professora Especialista do curso de Medicina Veterinária do Instituto Metropolitano de Ensino (IME), Manaus, AM