REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789154505
RESUMO
Este estudo foi realizado no Orfanato Lourenço Amadeu, localizado na comuna de Malembo, província de Cabinda, Angola, instituição que acolhe crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, oferecendo serviços de proteção, educação, alimentação, acompanhamento psicossocial e apoio ao desenvolvimento integral. O estudo teve como objetivo analisar os sentimentos e as emoções dos adolescentes institucionalizados no Orfanato Lourenço Amadeu. A investigação caracteriza-se por uma abordagem qualitativa, de natureza descritiva e caráter exploratório. A amostra foi constituída por 10 adolescentes do sexo masculino, com idades compreendidas entre 12 e 17 anos, selecionados por meio de uma amostragem não probabilística, por conveniência, considerando a disponibilidade dos participantes para integrar a investigação e o cumprimento dos critérios previamente estabelecidos. Os resultados evidenciaram que a institucionalização constitui uma experiência complexa, marcada por desafios emocionais associados à separação familiar, à perda de vínculos afetivos e às situações de vulnerabilidade vivenciadas pelos adolescentes antes do acolhimento institucional. Conclui-se que os sentimentos e as emoções dos adolescentes institucionalizados são influenciados por um conjunto de fatores individuais, familiares e institucionais, que podem repercutir na forma como vivenciam a institucionalização, estabelecem relações interpessoais e percepcionam o seu presente e o seu futuro.
Palavras-chave: Sentimentos; emoções; adolescentes institucionalizados; Orfanato Lourenço Amadeu do Malembo.
ABSTRACT
This study as conducted at the Lourenço Amadeu Orphanage, located in the Malembo commune, Cabinda province, Angola—an institution that cares for socially vulnerable children and adolescents by providing protection, education, meals, psychosocial support, and assistance for their holistic development. The study aimed to analyze the feelings and emotions of adolescents living in the Lourenço Amadeu Orphanage. The research employed a qualitative approach, characterized by a descriptive and exploratory nature. The sample consisted of 10 male adolescents, aged 12 to 17, selected through non-probability convenience sampling based on their availability to participate and their fulfillment of pre-established criteria. The results revealed that institutionalization is a complex experience marked by emotional challenges linked to family separation, the loss of emotional bonds, and situations of vulnerability experienced by the adolescents prior to their admission to the institution. It is concluded that the feelings and emotions of these adolescents are influenced by a combination of individual, familial, and institutional factors, hich can impact ho they experience institutionalization, form interpersonal relationships, and perceive their present and future.
Keywords: Feelings; emotions; institutionalized adolescents; Lourenço Amadeu do Malembo Orphanage.
1. INTRODUÇÃO
A adolescência corresponde a uma fase de intensas transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais, sendo considerada um período determinante para a construção da identidade, da autonomia e das relações interpessoais. As experiências vivenciadas nessa etapa influenciam significativamente o desenvolvimento psicológico e a adaptação social ao longo da vida. Quando esse processo ocorre em contextos de vulnerabilidade, como o acolhimento institucional, os desafios relacionados ao desenvolvimento emocional tendem a tornar-se mais complexos (Santos, 2025).
A institucionalização representa uma medida de proteção destinada a crianças e adolescentes cujos direitos foram violados ou que se encontram privados de cuidados familiares adequados. Embora essas instituições desempenhem um papel essencial na garantia da proteção e do acesso à educação, à alimentação e aos cuidados básicos, a permanência prolongada em ambiente institucional pode influenciar o desenvolvimento afetivo, a formação de vínculos e a regulação emocional dos adolescentes (Silveira, 2026).
Diversos estudos indicam que adolescentes institucionalizados podem apresentar sentimentos de tristeza, insegurança, ansiedade, medo, solidão e dificuldades na construção de relações interpessoais estáveis. Entretanto, a forma como essas emoções são vivenciadas depende de fatores individuais, familiares e institucionais, incluindo a qualidade do acolhimento, o apoio psicossocial recebido e as oportunidades de fortalecimento dos vínculos afetivos (Pires, 2024).
No contexto angolano, ainda são limitadas as investigações que abordam especificamente as experiências emocionais de adolescentes residentes em instituições de acolhimento. Essa lacuna científica evidencia a necessidade de estudos que permitam compreender como esses jovens percebem e expressam seus sentimentos, contribuindo para o aperfeiçoamento das práticas de intervenção psicológica e das políticas de proteção social (Pires, 2024).
A relevância desta investigação reside na possibilidade de ampliar o conhecimento científico sobre os impactos da institucionalização no desenvolvimento emocional dos adolescentes, fornecendo subsídios para a atuação de psicólogos, assistentes sociais, educadores e demais profissionais envolvidos no acolhimento institucional. Espera-se, ainda, que os resultados contribuam para o fortalecimento das políticas públicas voltadas à promoção da saúde mental e à proteção integral da infância e da adolescência em Angola (Cavadas, 2025).
O presente estudo foi desenvolvido no Orfanato Lourenço Amadeu, localizado em Malembo, na província de Cabinda. A investigação parte da seguinte questão: como os adolescentes institucionalizados no Orfanato Lourenço Amadeu vivenciam e expressam seus sentimentos e emoções no contexto da institucionalização?
O objetivo principal do estudo, consiste em analisar os sentimentos e as emoções dos adolescentes institucionalizados no Orfanato Lourenço Amadeu. Além disso, o estudo também visa, identificar os principais sentimentos manifestados pelos participantes; compreender os fatores associados às suas experiências emocionais e discutir estratégias que possam favorecer o seu bem-estar psicológico e social.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Adolescência: Conceito e Características
A adolescência representa uma etapa essencial do desenvolvimento humano, caracterizada por profundas transformações biológicas, cognitivas, emocionais e sociais. Essa fase marca a transição entre a infância e a vida adulta e constitui um período de intensas mudanças que influenciam a formação da identidade, da autonomia e das relações interpessoais. Embora seja frequentemente associada às alterações físicas decorrentes da puberdade, a adolescência envolve também importantes mudanças psicológicas e sociais que condicionam o modo como o indivíduo percebe a si mesmo e interage com o meio (Rosa et al., 2025).
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2022), a adolescência compreende, em geral, a faixa etária entre 10 e 19 anos. Durante esse período, o indivíduo desenvolve competências cognitivas mais complexas, amplia a capacidade de reflexão e fortalece os processos de tomada de decisão. Paralelamente, consolida valores, crenças e projetos de vida, elementos fundamentais para a construção da identidade pessoal.
Na perspetiva do desenvolvimento psicossocial, Erikson (1968) afirma que o principal desafio da adolescência consiste na resolução do conflito entre identidade e confusão de papéis. O sucesso nesse processo favorece a formação de uma identidade sólida e de relações sociais saudáveis. Em contrapartida, dificuldades nesse percurso podem contribuir para insegurança, baixa autoestima e maior vulnerabilidade emocional.
Além dos fatores individuais, o desenvolvimento do adolescente é influenciado pelo contexto familiar, escolar e comunitário. Ambientes caracterizados por apoio afetivo, estabilidade e relações de confiança tendem a favorecer um desenvolvimento saudável. Em contrastes, situações de abandono, negligência, violência ou institucionalização podem interferir negativamente no desenvolvimento emocional e na capacidade de estabelecer vínculos seguros (Guedes, 2025).
Nesse contexto, compreender a adolescência como um fenómeno biopsicossocial é fundamental para interpretar as experiências vivenciadas por adolescentes institucionalizados. As mudanças próprias dessa etapa, quando associadas às dificuldades decorrentes da separação familiar e da vida em instituições de acolhimento, podem aumentar a vulnerabilidade emocional e influenciar a forma como esses jovens expressam seus sentimentos e constroem suas relações interpessoais (Santos, 2024).
2.2. Sentimentos e Emoções na Adolescência
As emoções e os sentimentos desempenham um papel central no desenvolvimento humano, especialmente durante a adolescência, período marcado por intensas mudanças biológicas, cognitivas e sociais. Nessa fase, os adolescentes vivenciam novas experiências, constroem relações interpessoais mais complexas e enfrentam desafios relacionados à formação da identidade, fatores que influenciam diretamente a forma como percebem, interpretam e expressam as suas emoções (Silva, 2025).
Embora os termos emoção e sentimento sejam frequentemente utilizados como sinónimos, a literatura psicológica estabelece uma distinção entre ambos. As emoções correspondem a respostas psicofisiológicas automáticas desencadeadas por estímulos internos ou externos, manifestando-se por alterações fisiológicas, cognitivas e comportamentais. Os sentimentos, por sua vez, representam a experiência consciente dessas emoções, sendo influenciados pelas interpretações individuais, pelas experiências de vida e pelo contexto sociocultural. Assim, enquanto a emoção constitui uma reação imediata, o sentimento corresponde à forma como essa reação é percebida, interpretada e integrada pela pessoa (Campos et al., 2025).
Durante a adolescência, o desenvolvimento emocional está intimamente relacionado com a maturação cerebral, especialmente das regiões responsáveis pelo controlo dos impulsos, pela tomada de decisões e pela regulação das emoções. Essa fase caracteriza-se por maior sensibilidade emocional, impulsividade e procura de aceitação social, tornando os adolescentes mais suscetíveis às influências do ambiente familiar, escolar e comunitário (Ricarte, 2022).
A capacidade de reconhecer, compreender e regular as emoções constitui um importante fator de proteção para a saúde mental. Adolescentes que desenvolvem estratégias adequadas de regulação emocional tendem a apresentar maior autoestima, melhores relações interpessoais e maior capacidade para enfrentar situações de stress e adversidade. Em contrapartida, dificuldades nesse processo podem favorecer comportamentos de isolamento, agressividade, ansiedade e sintomas depressivos (Monteiro, 2025).
No contexto da institucionalização, a expressão das emoções pode ser significativamente influenciada pelas experiências de abandono, perda ou afastamento familiar. Muitos adolescentes acolhidos desenvolvem sentimentos de tristeza, insegurança, medo, rejeição e solidão, que podem comprometer a construção de vínculos afetivos e o desenvolvimento de competências socioemocionais. Contudo, a presença de profissionais qualificados, relações de apoio e ambientes institucionais acolhedores pode contribuir para fortalecer a resiliência e promover o bem-estar emocional (Vieira, 2025).
Dessa forma, compreender os sentimentos e as emoções dos adolescentes institucionalizados é essencial para identificar as suas necessidades psicológicas e orientar intervenções que favoreçam o desenvolvimento saudável, a adaptação social e a construção de projetos de vida mais positivos (Deus, 2025).
2.3. Institucionalização de Crianças e Adolescentes
A institucionalização constitui uma medida de proteção aplicada a crianças e adolescentes que, por diferentes razões, não podem permanecer temporária ou permanentemente sob os cuidados da família de origem. Essa medida tem como principal finalidade assegurar a proteção integral, garantindo direitos fundamentais como alimentação, educação, saúde, segurança e desenvolvimento biopsicossocial. Contudo, embora represente um mecanismo de proteção, a institucionalização também pode produzir repercussões significativas no desenvolvimento emocional e social, sobretudo quando ocorre por períodos prolongados (Santos, 2025).
As principais causas da institucionalização incluem situações de abandono, negligência, violência física, psicológica ou sexual, extrema vulnerabilidade socioeconómica, morte dos cuidadores, conflitos familiares e incapacidade temporária ou permanente da família para assegurar os cuidados necessários ao desenvolvimento da criança e do adolescente. Nesses contextos, o acolhimento institucional procura oferecer um ambiente seguro enquanto se busca o fortalecimento dos vínculos familiares ou outras soluções de proteção (Farinha, 2022).
Entretanto, a literatura demonstra que a experiência da institucionalização é complexa e não deve ser analisada apenas pelos seus efeitos negativos. O impacto sobre o desenvolvimento depende de diversos fatores, como a idade em que ocorreu o acolhimento, o tempo de permanência na instituição, a qualidade das relações estabelecidas com os cuidadores, a estabilidade do ambiente institucional e a existência de uma rede de apoio familiar e comunitária. Em instituições que oferecem acompanhamento psicológico, ambiente acolhedor e relações afetivas consistentes, os adolescentes podem desenvolver competências de resiliência e adaptação, reduzindo parte dos efeitos decorrentes das experiências traumáticas anteriores ao acolhimento (Coutinho; Evangelista, 2026).
Do ponto de vista psicológico, a institucionalização pode estar associada a sentimento de perda, abandono, insegurança e medo, especialmente quando os adolescentes interpretam o afastamento da família como rejeição. Essas experiências podem comprometer a autoestima, a confiança nas relações interpessoais e a capacidade de estabelecer vínculos afetivos seguros. Por outro lado, quando a instituição proporciona relações estáveis, apoio emocional e oportunidades de desenvolvimento pessoal, ela pode tornar-se um importante fator de proteção e promoção da saúde mental (Coelho, 2022).
No contexto angolano, as instituições de acolhimento desempenham um papel relevante na proteção de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social. Contudo, ainda são escassos os estudos que investigam de forma aprofundada as experiências emocionais dos adolescentes institucionalizados, especialmente na província de Cabinda. Essa lacuna científica reforça a importância da presente investigação, uma vez que compreender os sentimentos e as emoções desses adolescentes pode contribuir para o aperfeiçoamento das práticas de acolhimento e para a formulação de políticas públicas mais eficazes (Issenguele, 2025).
Assim, a institucionalização deve ser compreendida como uma medida de proteção que, embora necessária em muitas situações, exige intervenções contínuas voltadas para o fortalecimento dos vínculos afetivos, da saúde mental e do desenvolvimento integral dos adolescentes. Nessa perspetiva, o papel do psicólogo, dos educadores e dos demais profissionais da equipa multidisciplinar torna-se essencial para minimizar os impactos negativos do acolhimento institucional e promover condições favoráveis ao desenvolvimento humano (Nascimento, 2026).
2.4. Teoria do Apego e Desenvolvimento Socioemocional
A teoria do apego constitui um dos principais referenciais da Psicologia do Desenvolvimento para compreender a importância das relações afetivas na infância e na adolescência. Desenvolvida por John Bo lby (1988), essa teoria defende que a necessidade de estabelecer vínculos afetivos seguros com as figuras cuidadoras é uma característica inerente ao ser humano e desempenha um papel determinante no desenvolvimento emocional, social e cognitivo. Esses vínculos proporcionam segurança, proteção e confiança, favorecendo a exploração do ambiente e a construção de relações interpessoais saudáveis ao longo da vida.
Segundo Bo lby (1988), a qualidade das primeiras relações afetivas influência a forma como o indivíduo percebe a si próprio, interpreta o comportamento dos outros e responde às situações de stress. Crianças que desenvolvem vínculos seguros tendem a apresentar maior autoestima, melhor capacidade de regulação emocional e relações sociais mais estáveis. Em contrapartida, experiências marcadas por abandono, negligência, maus-tratos ou separações prolongadas podem comprometer o desenvolvimento socioemocional, aumentando a vulnerabilidade a dificuldades emocionais e comportamentais.
Os estudos de Mary Ains orth et al. (1978) complementaram a teoria de Bo lby ao demonstrar que a sensibilidade e a disponibilidade dos cuidadores influenciam diretamente a qualidade do apego. A partir da Situação Estranha (Strange Situation), as autoras identificaram diferentes padrões de apego, como o seguro, o inseguro-evitante e o inseguro-ambivalente. Posteriormente, Main e Solomon (1990) acrescentaram o padrão de apego desorganizado, frequentemente associado a experiências de trauma, negligência ou violência.
No contexto da institucionalização, a teoria do apego oferece uma importante base para compreender os desafios enfrentados pelos adolescentes acolhidos. A separação da família, as perdas afetivas e a possibilidade de mudanças frequentes de cuidadores podem dificultar a formação de vínculos seguros. Essas experiências podem manifestar-se por meio de sentimentos de rejeição, medo, insegurança, baixa autoestima e dificuldades em confiar nos outros, interferindo na adaptação social e no bem-estar psicológico (Mariano et al., 2023).
Contudo, a literatura contemporânea demonstra que a institucionalização não determina, por si só, resultados negativos. A presença de cuidadores estáveis, relações afetivas consistentes, apoio psicológico e um ambiente acolhedor podem favorecer a construção de novos vínculos de confiança e fortalecer a resiliência dos adolescentes (Mariano et al., 2023). Assim, a qualidade das relações estabelecidas dentro da instituição constitui um fator de proteção capaz de reduzir os efeitos adversos das experiências anteriores de abandono ou negligência.
No Orfanato Lourenço Amadeu, compreender os vínculos afetivos construídos pelos adolescentes torna-se particularmente relevante, uma vez que esses relacionamentos podem influenciar a forma como expressam seus sentimentos, enfrentam situações de adversidade e desenvolvem competências emocionais. Sob essa perspetiva, a teoria do apego oferece um suporte conceptual consistente para interpretar os resultados desta investigação e compreender os fatores que contribuem para o desenvolvimento emocional dos adolescentes institucionalizados (Silva, 2025).
2.5. Saúde Mental dos Adolescentes Institucionalizados
A saúde mental constitui um componente essencial do desenvolvimento humano e refere-se à capacidade do indivíduo de reconhecer as suas potencialidades, lidar com as dificuldades do quotidiano, estabelecer relações interpessoais saudáveis e participar de forma produtiva na sociedade. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a saúde mental não corresponde apenas à ausência de transtornos mentais, mas representa um estado de bem-estar no qual a pessoa consegue enfrentar os desafios da vida, desenvolver as suas capacidades e contribuir para a comunidade ( orld Health Organization, 2022).
Durante a adolescência, a saúde mental assume particular relevância devido às intensas mudanças físicas, cognitivas, emocionais e sociais características dessa fase do desenvolvimento. A construção da identidade, a procura por autonomia, as transformações corporais e a necessidade de aceitação pelos pares tornam os adolescentes mais sensíveis às influências do contexto familiar e social. Quando essas mudanças ocorrem em ambientes marcados pela instabilidade, abandono ou privação de cuidados parentais, aumentam os riscos para o desenvolvimento de dificuldades emocionais e comportamentais (Santos, 2024).
No contexto da institucionalização, os adolescentes podem vivenciar experiências de perda, separação familiar e ruptura de vínculos afetivos, fatores reconhecidos pela literatura como importantes determinantes da saúde mental. Essas experiências podem favorecer sentimentos de tristeza, ansiedade, medo, insegurança, baixa autoestima e isolamento social. Em alguns casos, também podem surgir dificuldades de regulação emocional, problemas de comportamento e sintomas compatíveis com transtornos de ansiedade ou depressão, sobretudo quando o acolhimento institucional não é acompanhado por suporte psicossocial adequado (Rodrigues; Sousa, 2024).
Contudo, a institucionalização não deve ser interpretada exclusivamente como um fator de risco. Estudos recentes demonstram que instituições que oferecem relações afetivas estáveis, acompanhamento psicológico, acesso à educação, atividades recreativas e oportunidades de participação social podem atuar como importantes fatores de proteção (Farinha, 2025). Nessas condições, os adolescentes desenvolvem maior capacidade de adaptação, fortalecem a autoestima e constroem estratégias de enfrentamento mais eficazes diante das adversidades.
Outro conceito relevante para compreender a saúde mental dos adolescentes institucionalizados é a resiliência, entendida como a capacidade de enfrentar situações adversas, adaptar-se positivamente às dificuldades e reconstruir projetos de vida. A resiliência não é uma característica inata, mas resulta da interação entre fatores individuais, familiares, institucionais e comunitários. Dessa forma, adolescentes que recebem apoio emocional consistente, mantêm relações de confiança com cuidadores e têm acesso a serviços de saúde mental apresentam maiores possibilidades de desenvolvimento saudável, mesmo após experiências de abandono ou violência (Inácio, 2025).
Nesse contexto, o psicólogo desempenha um papel fundamental na identificação precoce de sinais de sofrimento psíquico, na promoção da saúde mental e na implementação de intervenções que favoreçam o desenvolvimento emocional. Além do atendimento individual, a atuação psicológica pode incluir grupos terapêuticos, atividades psicoeducativas, fortalecimento das competências socioemocionais e apoio à equipa multidisciplinar, contribuindo para a construção de um ambiente institucional mais acolhedor e promotor do bem-estar (Vieira, 2025).
Considerando a realidade do Orfanato Lourenço Amadeu, compreender os fatores que influenciam a saúde mental dos adolescentes institucionalizados torna-se essencial para interpretar os sentimentos e as emoções identificados nesta investigação. Os resultados deste estudo poderão fornecer informações relevantes para o aperfeiçoamento das práticas de acolhimento e para a elaboração de estratégias de intervenção psicológica adaptadas às necessidades dessa população (Pestana, 2024).
2.6. O Papel do Psicólogo nas Instituições de Acolhimento
A atuação do psicólogo nas instituições de acolhimento é fundamental para promover o desenvolvimento integral de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Para além da identificação e do tratamento de dificuldades emocionais e comportamentais, esse profissional desempenha um papel essencial na promoção da saúde mental, no fortalecimento da autoestima, na construção de vínculos afetivos seguros e no desenvolvimento de competências socioemocionais que favoreçam a adaptação ao contexto institucional e à vida em sociedade (Alves, 2024).
Os adolescentes institucionalizados vivenciam, frequentemente, experiências marcadas por perdas, abandono, negligência, violência ou separação familiar. Essas situações podem comprometer o desenvolvimento emocional e aumentar a vulnerabilidade a problemas de saúde mental. Nesse contexto, a intervenção psicológica torna-se indispensável para compreender as necessidades individuais de cada adolescente, identificar fatores de risco e potencialidades e desenvolver estratégias de intervenção adequadas às suas características e ao contexto em que estão inseridos (Pestana, 2024).
A avaliação psicológica constitui uma das principais atribuições do psicólogo nas instituições de acolhimento (Pestana, 2024). Por meio de entrevistas, observações, testes psicológicos autorizados e outros instrumentos cientificamente validados, o profissional pode identificar dificuldades emocionais, problemas comportamentais, sintomas de ansiedade ou depressão, bem como recursos pessoais que possam ser fortalecidos durante o acompanhamento. Essas informações subsidiam o planeamento de intervenções individualizadas e favorecem uma atuação mais eficaz da equipa técnica.
Além do atendimento psicológico individual, o psicólogo desenvolve intervenções grupais voltadas para o fortalecimento das competências socioemocionais, da comunicação, da resolução de conflitos e da convivência interpessoal. Grupos psicoeducativos, oficinas terapêuticas e atividades de promoção da autoestima contribuem para que os adolescentes expressem os seus sentimentos, desenvolvam estratégias de regulação emocional e construam relações interpessoais mais saudáveis (Pestana, 2024).
Outra dimensão relevante da atuação do psicólogo consiste no trabalho interdisciplinar. A complexidade das necessidades dos adolescentes institucionalizados exige uma intervenção articulada entre psicólogos, assistentes sociais, educadores, pedagogos, profissionais de saúde e gestores da instituição. Essa colaboração favorece a elaboração de planos de acompanhamento mais abrangentes, garantindo que os aspetos emocionais, sociais, educacionais e familiares sejam considerados de forma integrada (Osvaldt, 2024).
O psicólogo também desempenha um papel importante no fortalecimento dos vínculos familiares, sempre que a reintegração familiar for possível e recomendada. Nesses casos, o acompanhamento psicológico pode contribuir para a reconstrução das relações familiares, preparação dos cuidadores e mediação de conflitos, promovendo um retorno mais seguro ao convívio familiar. Quando essa possibilidade não existe, o profissional auxilia o adolescente no processo de adaptação a outros projetos de vida, favorecendo o desenvolvimento da autonomia e da integração social (Romão, 2025).
No contexto do Orfanato Lourenço Amadeu, a atuação do psicólogo revela-se particularmente relevante, considerando que os adolescentes acolhidos apresentam histórias de vida marcadas por diferentes formas de vulnerabilidade. A implementação de ações contínuas de promoção da saúde mental, prevenção do sofrimento psíquico e fortalecimento das competências socioemocionais pode contribuir significativamente para melhorar a qualidade de vida, o bem-estar psicológico e as perspetivas de futuro desses adolescentes (Fernandes, 2025).
Dessa forma, a atuação psicológica nas instituições de acolhimento não deve restringir-se ao atendimento clínico individual. O psicólogo deve atuar como agente de promoção da saúde mental, de fortalecimento das relações interpessoais e de defesa dos direitos das crianças e adolescentes, contribuindo para a construção de ambientes institucionais mais acolhedores, humanizados e promotores do desenvolvimento integral (Sousa, 2024).
3. METODOLOGIA
3.1. Tipo de Pesquisa
A presente investigação caracteriza-se como uma pesquisa de abordagem qualitativa, de natureza descritiva e caráter exploratório. A escolha pela abordagem qualitativa justifica-se pela possibilidade de compreender, de forma aprofundada, as percepções, experiências, sentimentos e emoções vivenciados por adolescentes institucionalizados, considerando os significados por eles atribuídos às suas experiências no contexto do acolhimento institucional. Essa abordagem permite, portanto, apreender aspectos subjetivos e singulares de suas vivências, favorecendo uma compreensão mais ampla do fenômeno investigado.
Segundo Cres ell e Poth (2018), a pesquisa qualitativa permite compreender fenómenos sociais complexos a partir da perspetiva dos participantes, favorecendo uma análise aprofundada da realidade investigada. A natureza descritiva justifica-se pelo objetivo de descrever as características emocionais dos adolescentes institucionalizados, enquanto o caráter exploratório decorre da escassez de estudos sobre essa temática no contexto da província de Cabinda.
3.2. Local da Pesquisa
O estudo foi realizado no Orfanato Lourenço Amadeu, localizado na comuna de Malembo, província de Cabinda, Angola. A instituição acolhe crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, oferecendo serviços de proteção, educação, alimentação, acompanhamento psicossocial e apoio ao desenvolvimento integral.
A escolha dessa instituição deveu-se à sua relevância social e ao facto de acolher adolescentes que vivenciam experiências de institucionalização, permitindo analisar os sentimentos e as emoções desenvolvidos nesse contexto.
3.3. População e Amostra
A população do estudo foi composta por adolescentes residentes no Orfanato Lourenço Amadeu. A amostra foi composta por 10 adolescentes do sexo masculino, com idades entre 12 e 17 anos, selecionados por amostragem não probabilística, por conveniência, considerando a disponibilidade para participar da investigação e o cumprimento dos critérios estabelecidos pelo estudo. Optou-se por esse tipo de amostragem devido ao reduzido número de adolescentes residentes na instituição e às características específicas do contexto investigado, que inviabilizavam a utilização de técnicas probabilísticas.
3.4. Critérios de Inclusão e Exclusão
Critérios de inclusão
Adolescentes residentes no Orfanato Lourenço Amadeu;
Adolescentes com idades entre 12 e 17 anos;
Adolescentes que apresentavam condições cognitivas aceitáveis
Adolescentes que aceitaram participar voluntariamente da investigação.
Critérios de exclusão
Adolescentes que apresentavam limitações cognitiva
Adolescentes que se apresentaram disponíveis para participar da pesquisa;
Adolescentes ausentes da instituição durante o período de recolha a pesquisa.
3.5. Instrumentos de Coleta de Dados
Para a recolha dos dados foram utilizados dois instrumentos:
Questionário semiestruturado, destinado à caracterização sociodemográfica dos participantes e à identificação dos principais sentimentos e emoções relacionados com a institucionalização;
Entrevista semiestruturada, utilizada para aprofundar as percepções, experiências e significados atribuídos pelos adolescentes à sua vivência no contexto institucional.
A utilização desses instrumentos possibilitou a triangulação das informações, aumentando a profundidade da análise e a compreensão do fenómeno investigado.
3.6. Procedimentos de Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada após autorização da direção do Orfanato Lourenço Amadeu e observância dos princípios éticos aplicáveis à investigação.
Inicialmente, os participantes foram informados sobre os objetivos da pesquisa, a confidencialidade das informações, o carácter voluntário da participação e a possibilidade de desistirem do estudo a qualquer momento, sem qualquer prejuízo.
Posteriormente, aplicou-se o questionário e realizaram-se as entrevistas individuais em ambiente reservado, garantindo privacidade e condições adequadas para que os adolescentes expressassem livremente as suas perceções e experiências.
3.7. Procedimentos de Análise dos Dados
Os dados quantitativos provenientes do questionário foram organizados em tabelas e analisados por meio de estatística descritiva, utilizando frequências absolutas e percentuais para caracterizar os participantes.
Os dados qualitativos obtidos nas entrevistas foram analisados por meio da análise de conteúdo, conforme proposta por Bardin (2016). Esse processo compreendeu três etapas:
Pré-análise;
Exploração do material;
Tratamento e interpretação dos resultados.
As categorias temáticas foram construídas a partir dos objetivos da investigação e das respostas apresentadas pelos participantes, permitindo identificar os principais sentimentos, emoções e experiências relacionados com a institucionalização.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Para uma melhor compreensão, a apresentação dos resultados foi organizada em três eixos principais: caracterização sociodemográfica dos participantes; sentimentos e emoções predominantes entre os adolescentes institucionalizados; impactos da institucionalização no desenvolvimento emocional e social.
A discussão de cada categoria procura responder à questão de investigação e aos objetivos propostos, evidenciando os fatores que influenciam as experiências emocionais dos adolescentes acolhidos.
4.1. Caracterização Sociodemográfica dos Participantes
A caracterização da amostra constitui uma etapa fundamental para contextualizar os resultados da investigação, permitindo compreender o perfil dos adolescentes participantes e interpretar as suas experiências à luz das suas características individuais.
A amostra foi composta por 10 adolescentes do sexo masculino, com idades compreendidas entre 12 e 17 anos, residentes no Orfanato Lourenço Amadeu. O tempo de institucionalização variou entre três e oito anos, enquanto o nível de escolaridade situou-se entre a 4.ª e a 7.ª classe.
Observa-se que a maioria dos participantes se encontra institucionalizada há um período relativamente prolongado. Esse aspeto merece destaque, uma vez que estudos sobre acolhimento institucional indicam que o tempo de permanência pode influenciar significativamente a adaptação emocional, a construção de vínculos afetivos e o desenvolvimento psicossocial dos adolescentes. Assim, a análise dos resultados deve considerar que as experiências relatadas refletem não apenas as condições atuais da instituição, mas também as vivências acumuladas ao longo do processo de institucionalização.
Outro aspeto relevante refere-se à faixa etária dos participantes, correspondente a um período marcado por intensas transformações físicas, cognitivas e emocionais. Durante a adolescência, a procura por autonomia, o fortalecimento da identidade e a necessidade de pertença tornam-se particularmente importantes, podendo tornar os adolescentes mais sensíveis aos efeitos da separação familiar e da ausência de vínculos afetivos consistentes.
Embora a amostra seja composta exclusivamente por adolescentes do sexo masculino, os resultados obtidos fornecem informações relevantes sobre a realidade vivenciada pelos participantes e contribuem para compreender as experiências emocionais de adolescentes institucionalizados no contexto estudado. Contudo, essa característica limita a possibilidade de generalização para adolescentes do sexo feminino, devendo ser considerada na interpretação dos resultados.
O perfil da amostra demonstra que os participantes partilham características comuns relacionadas com a institucionalização prolongada e a fase do desenvolvimento em que se encontram. Esses fatores reforçam a importância de analisar os sentimentos e as emoções dos adolescentes considerando a interação entre idade, tempo de acolhimento, qualidade das relações estabelecidas na instituição e oportunidades de desenvolvimento pessoal.
Esses resultados são consistentes com a literatura, que destaca a adolescência como um período de maior vulnerabilidade emocional, sobretudo quando associada a experiências de separação familiar e institucionalização. Entretanto, a presença de relações de apoio e de um ambiente institucional acolhedor pode atuar como fator de proteção, favorecendo a adaptação e o desenvolvimento da resiliência.
4.2. Principais Sentimentos e Emoções dos Adolescentes Institucionalizados
A Tabela 1 apresenta os principais sentimentos e emoções relatados pelos adolescentes institucionalizados que participaram da pesquisa. A análise desses resultados possibilita compreender de que modo a experiência da institucionalização pode repercutir no desenvolvimento emocional dos adolescentes, bem como na percepção que constroem de si próprios, das suas relações interpessoais e das perspetivas em relação ao futuro.
Tabela 1. Principais sentimentos e emoções manifestados pelos adolescentes institucionalizados
Unidade de registo | Frequência (n) | % |
Tristeza e solidão | 1 | 10 |
Rejeição e abandono | 3 | 30 |
Raiva e revolta | 2 | 20 |
Ansiedade e medo do futuro | 1 | 10 |
Baixa autoestima | 1 | 10 |
Esperança e gratidão | 2 | 20 |
Total | 10 | 100 |
Nota. Dados da pesquisa (2025).
Os resultados demonstram que o sentimento de rejeição e abandono foi o mais frequentemente referido pelos participantes, correspondendo a 30% (n = 3) das respostas. Esse resultado sugere que a separação do convívio familiar continua a exercer um impacto significativo sobre a vida emocional dos adolescentes, mesmo após um período de adaptação ao ambiente institucional. A percepção de abandono pode comprometer a construção de vínculos afetivos seguros, influenciar a autoestima e dificultar o desenvolvimento de relações interpessoais baseadas na confiança.
Em seguida, destacam-se os sentimentos de raiva e revolta e de esperança e gratidão, ambos com 20% (n = 2). A presença de raiva e revolta pode refletir a dificuldade dos adolescentes em compreender as circunstâncias que conduziram à institucionalização, bem como os efeitos das experiências de negligência, violência ou perda vividas anteriormente. Por outro lado, os relatos de esperança e gratidão revelam que alguns participantes reconhecem a instituição como um espaço de proteção, segurança e acesso a oportunidades que contribuem para a construção de expectativas positivas em relação ao futuro.
Os sentimentos de tristeza e solidão, ansiedade e medo do futuro e baixa autoestima apresentaram frequência de 10% (n = 1) cada. Embora menos frequentes, esses resultados não devem ser minimizados, pois representam experiências emocionais que podem comprometer o bem-estar psicológico dos adolescentes. A tristeza e a solidão estão frequentemente relacionadas com a ausência de convivência familiar, enquanto a ansiedade e o medo do futuro refletem as incertezas quanto à reintegração familiar, à autonomia e à inserção social após a saída da instituição. Já a baixa autoestima pode resultar de experiências de rejeição, discriminação ou dificuldades na construção de uma imagem positiva de si.
Os resultados obtidos são consistentes com a Teoria do Apego, proposta por Bo lby (1988), segundo a qual a separação das figuras de referência e a fragilidade dos vínculos afetivos podem desencadear sentimentos de rejeição, insegurança e sofrimento emocional. Da mesma forma, Ains orth et al. (1978) demonstram que a qualidade das relações estabelecidas com os cuidadores influencia diretamente o desenvolvimento da confiança, da autoestima e da capacidade de regulação emocional.
O predomínio dos sentimentos de rejeição e abandono encontrado neste estudo reforça a importância de estratégias institucionais que favoreçam a construção de vínculos afetivos estáveis entre adolescentes e cuidadores. A literatura evidencia que adolescentes acolhidos em instituições onde existem relações de confiança, apoio emocional e acompanhamento psicológico tendem a apresentar melhores indicadores de saúde mental e maior capacidade de enfrentar situações adversas (World Health Organization, 2022).
Por outro lado, a identificação de sentimentos de esperança e gratidão demonstra que a institucionalização não produz apenas efeitos negativos. Esses resultados sugerem que o Orfanato Lourenço Amadeu desempenha um papel relevante na proteção e no desenvolvimento dos adolescentes, oferecendo condições que favorecem a construção de projetos de vida e o fortalecimento da resiliência. Esse achado confirma que os efeitos da institucionalização dependem, em grande medida, da qualidade do ambiente institucional e das relações estabelecidas no quotidiano.
É igualmente importante destacar que a coexistência de emoções negativas e positivas revela a complexidade da experiência vivida pelos adolescentes. Os participantes não percebem a instituição exclusivamente como um espaço de perda ou sofrimento, mas também como um local de acolhimento, aprendizagem e oportunidade. Essa dualidade demonstra que os sentimentos são dinâmicos e influenciados tanto pelas experiências passadas como pelas condições atuais de vida.
Os resultados da Tabela 1 permitem concluir que os sentimentos dos adolescentes institucionalizados são marcados principalmente pela percepção de rejeição e abandono, mas coexistem com manifestações de esperança e gratidão. Essa combinação evidencia que a institucionalização constitui uma experiência emocional complexa, cujos efeitos dependem não apenas da separação familiar, mas também da qualidade do acolhimento, do apoio psicológico e dos vínculos afetivos construídos no contexto institucional. Esses achados respondem ao objetivo central desta investigação e reforçam a necessidade de intervenções que promovam a saúde mental, a autoestima e o desenvolvimento socioemocional dos adolescentes institucionalizados.
4.3. Análise dos Efeitos da Institucionalização
A Tabela 2 apresenta as percepções dos adolescentes sobre os principais efeitos da institucionalização na sua vida emocional, afetiva e social. A análise das respostas permite compreender como a experiência do acolhimento institucional influencia o desenvolvimento psicológico e as relações interpessoais dos participantes.
Tabela 2. Efeitos da institucionalização na perspectiva dos adolescentes
Categoria temática | Frequência (n) | % |
Ausência de vínculos afetivos | 2 | 20 |
Desestruturação emocional | 3 | 30 |
Convivência com regras rígidas | 3 | 30 |
Distúrbios emocionais | 1 | 10 |
Atenção psicossocial | 1 | 10 |
Total | 10 | 100 |
Nota. Dados da pesquisa (2025).
Os resultados indicam que desestruturação emocional e convivência com regras rígidas foram as categorias mais frequentes, representando 30% (n = 3) das respostas cada. Esses achados demonstram que os adolescentes percebem a institucionalização como uma experiência que afeta o equilíbrio emocional e exige adaptação a normas e rotinas específicas da instituição.
A desestruturação emocional pode estar relacionada às experiências vividas antes do acolhimento, como abandono, negligência, violência ou perda de familiares, bem como às dificuldades de adaptação ao novo contexto de vida. Esses fatores podem contribuir para alterações no bem-estar psicológico, influenciando a forma como os adolescentes lidam com os seus sentimentos, estabelecem relações interpessoais e enfrentam situações de adversidade.
A convivência com regras rígidas também foi apontada por uma parcela significativa dos participantes. Embora as normas institucionais sejam necessárias para garantir a organização, a segurança e a convivência coletiva, quando aplicadas de forma excessivamente inflexível, podem limitar a autonomia, a participação e a expressão emocional dos adolescentes. Dessa forma, torna-se importante equilibrar disciplina e acolhimento, promovendo um ambiente que favoreça o desenvolvimento integral.
A ausência de vínculos afetivos foi mencionada por 20% (n = 2) dos participantes, evidenciando que alguns adolescentes percebem dificuldades na construção de relações afetivas consistentes dentro do ambiente institucional. A limitação desses vínculos pode comprometer o sentimento de pertença, a confiança interpessoal e a segurança emocional, aspetos considerados fundamentais para o desenvolvimento saudável durante a adolescência.
As categorias distúrbios emocionais e atenção psicossocial, ambas com 10% (n = 1), revelam dois aspetos distintos da experiência institucional. Enquanto a primeira evidencia manifestações de sofrimento psicológico decorrentes das experiências de vida dos adolescentes, a segunda demonstra que parte dos participantes reconhece a importância do apoio psicossocial oferecido pela instituição, indicando que o acompanhamento profissional pode constituir um fator de proteção para a saúde mental.
Os resultados obtidos corroboram a Teoria do Apego de Bo lby (1988), segundo a qual a interrupção ou fragilidade dos vínculos afetivos pode comprometer o desenvolvimento emocional e dificultar a construção de relações de confiança. A elevada frequência de respostas relacionadas à desestruturação emocional e à ausência de vínculos afetivos reforça a importância de estratégias institucionais voltadas para o fortalecimento das relações interpessoais entre adolescentes e cuidadores.
Por outro lado, a referência à convivência com regras rígidas evidencia que a organização institucional, embora necessária, deve ser acompanhada por práticas educativas humanizadas. A literatura sobre acolhimento institucional destaca que ambientes excessivamente normativos podem limitar o desenvolvimento da autonomia e da participação ativa dos adolescentes. Em contrapartida, instituições que conciliam disciplina, diálogo e apoio emocional tendem a favorecer melhores resultados no desenvolvimento psicossocial.
Outro resultado relevante refere-se ao reconhecimento da atenção psicossocial como um elemento positivo da experiência institucional. Esse achado demonstra que a presença de profissionais qualificados, especialmente psicólogos e assistentes sociais, pode contribuir para reduzir os impactos emocionais da institucionalização, fortalecer a resiliência e promover estratégias mais eficazes de enfrentamento das dificuldades vivenciadas pelos adolescentes.
Esses resultados também dialogam com o modelo bioecológico de Bronfenbrenner, que compreende o desenvolvimento humano como resultado da interação contínua entre o indivíduo e os diferentes contextos em que está inserido. Nessa perspectiva, a instituição de acolhimento constitui um microssistema que pode atuar tanto como fator de risco quanto como fator de proteção, dependendo da qualidade das relações estabelecidas e das oportunidades de desenvolvimento oferecidas aos adolescentes.
A análise da Tabela 2 demonstra que os efeitos da institucionalização são multidimensionais e não podem ser reduzidos apenas aos impactos negativos do afastamento familiar. Embora os adolescentes relatem desestruturação emocional, ausência de vínculos afetivos e dificuldades relacionadas às regras institucionais, os resultados também evidenciam que o apoio psicossocial representa um recurso importante para a promoção do bem-estar emocional. Assim, os achados reforçam que a qualidade do acolhimento, a estabilidade das relações afetivas e a atuação da equipa técnica são fatores determinantes para minimizar os efeitos adversos da institucionalização e favorecer o desenvolvimento saudável dos adolescentes.
4.4. Sinais de Impacto Psicológico nos Adolescentes Institucionalizados
A Tabela 3 apresenta os principais sinais de impacto psicológico identificados nos adolescentes participantes da investigação. A análise dessas respostas permite compreender de que forma a experiência da institucionalização influencia o funcionamento emocional, cognitivo e social dos adolescentes.
Tabela 3. Sinais de impacto psicológico identificados nos adolescentes institucionalizados
Categoria temática | Frequência (n) | % |
Ansiedade | 3 | 30 |
Dificuldades de relacionamento interpessoal | 1 | 10 |
Dificuldades de aprendizagem | 2 | 20 |
Crises de identidade | 1 | 10 |
Introspeção | 2 | 20 |
Depressão | 1 | 10 |
Total | 10 | 100 |
Nota. Dados da pesquisa (2025).
Os resultados evidenciam que a ansiedade foi o sinal de impacto psicológico mais frequente, representando 30% (n = 3) das respostas. Esse achado sugere que uma parcela significativa dos adolescentes vivencia sentimentos persistentes de preocupação, insegurança e tensão relacionados tanto às experiências anteriores à institucionalização quanto às incertezas sobre o futuro. A ansiedade pode interferir no desempenho escolar, nas relações interpessoais e na capacidade de enfrentar situações quotidianas, constituindo um importante indicador de vulnerabilidade psicológica.
As categorias dificuldades de aprendizagem e introspeção, ambas com 20% (n = 2), também merecem destaque. As dificuldades de aprendizagem podem estar relacionadas não apenas a aspetos cognitivos, mas também aos efeitos do sofrimento emocional sobre a atenção, a memória e a motivação para os estudos. Por sua vez, a introspeção pode representar uma estratégia de proteção emocional, na qual o adolescente reduz a interação social como forma de lidar com experiências de sofrimento, perda ou rejeição. Contudo, quando persistente, esse comportamento pode favorecer o isolamento social e dificultar a construção de vínculos afetivos.
As categorias dificuldades de relacionamento interpessoal, crises de identidade e depressão, cada uma com 10% (n = 1), embora menos frequentes, revelam aspetos relevantes do desenvolvimento psicológico dos participantes. As dificuldades nas relações interpessoais podem comprometer a integração social e a confiança nos outros. As crises de identidade refletem os desafios próprios da adolescência, que podem ser intensificados pela ausência de referências familiares estáveis. Já os sinais de depressão indicam a necessidade de atenção especializada, uma vez que o sofrimento emocional prolongado pode comprometer significativamente a qualidade de vida e o desenvolvimento saudável dos adolescentes.
Os resultados obtidos estão em consonância com a literatura científica, que identifica a ansiedade como uma das manifestações mais frequentes entre adolescentes expostos a situações de adversidade, incluindo abandono, negligência, violência e institucionalização. Segundo a orld Health Organization (2022), a adolescência constitui um período de elevada vulnerabilidade para o desenvolvimento de problemas de saúde mental, sendo fundamental a implementação de estratégias de prevenção, identificação precoce e intervenção psicológica.
A presença de dificuldades de aprendizagem evidencia que os impactos da institucionalização ultrapassam a dimensão emocional e podem refletir-se no desempenho académico. Estudos demonstram que experiências adversas na infância e na adolescência podem comprometer funções cognitivas, como atenção, memória e concentração, influenciando o rendimento escolar e o desenvolvimento das competências necessárias para a vida adulta.
Os resultados relativos à introspeção e às dificuldades de relacionamento interpessoal também podem ser compreendidos à luz da Teoria do Apego de Bo lby (1988). A fragilidade ou interrupção dos vínculos afetivos durante o desenvolvimento pode dificultar a construção de relações de confiança e favorecer comportamentos de retraimento social. Contudo, esses padrões não são permanentes e podem ser modificados quando os adolescentes estabelecem relações seguras e estáveis com cuidadores e outros adultos significativos.
As crises de identidade observadas neste estudo também são coerentes com a teoria do desenvolvimento psicossocial de Erikson (1968), que considera a adolescência uma fase marcada pela busca de identidade e definição do projeto de vida. Para adolescentes institucionalizados, esse processo pode tornar-se mais complexo devido às experiências de separação familiar e à necessidade de reconstrução da própria história.
Por fim, embora a depressão tenha sido identificada em apenas um participante, esse resultado deve ser interpretado com cautela. Em estudos qualitativos, a frequência reduzida de um fenómeno não diminui a sua relevância clínica, especialmente quando se trata de um problema de saúde mental que pode comprometer o funcionamento psicológico, as relações sociais e a perspetiva de futuro dos adolescentes.
Os resultados da Tabela 3 evidenciam que a institucionalização está associada a diferentes manifestações de impacto psicológico, destacando-se a ansiedade, as dificuldades de aprendizagem e a introspeção. Esses achados demonstram que os efeitos da institucionalização não se restringem ao sofrimento emocional imediato, influenciando também o desenvolvimento cognitivo, social e identitário dos adolescentes. Assim, torna-se indispensável que as instituições de acolhimento disponham de programas permanentes de promoção da saúde mental, acompanhamento psicológico e apoio educacional, favorecendo o desenvolvimento integral dos adolescentes e reduzindo os riscos de agravamento do sofrimento psíquico.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo teve como objetivo compreender os sentimentos e as emoções dos adolescentes institucionalizados no Orfanato Lourenço Amadeu, localizado na comuna de Malembo, província de Cabinda. Os resultados evidenciaram que a institucionalização constitui uma experiência complexa, marcada por desafios emocionais decorrentes da separação familiar, da perda de vínculos afetivos e das experiências de vulnerabilidade vivenciadas antes do acolhimento institucional.
A análise dos dados revelou que sentimentos como rejeição, abandono, tristeza, medo, ansiedade, baixa autoestima e solidão estão presentes na experiência de muitos adolescentes. Esses sentimentos refletem o impacto das rupturas familiares e das vivências adversas que antecederam a institucionalização, influenciando o desenvolvimento emocional, a construção da identidade e a capacidade de estabelecer relações interpessoais saudáveis. Também foram identificadas manifestações de impacto psicológico, como ansiedade, introspeção, dificuldades de aprendizagem, crises de identidade e dificuldades de relacionamento interpessoal, evidenciando que a institucionalização exige um acompanhamento contínuo da saúde mental dos adolescentes.
Por outro lado, os resultados demonstraram que a institucionalização não produz apenas consequências negativas. A presença de sentimentos de esperança e gratidão indica que o ambiente institucional pode desempenhar um papel protetor quando oferece segurança, estabilidade, acesso à educação, acompanhamento psicológico e relações afetivas pautadas no respeito e no acolhimento. Esses fatores contribuem para o fortalecimento da autoestima, da confiança e da resiliência, favorecendo a reconstrução dos projetos de vida dos adolescentes.
Os depoimentos dos profissionais do orfanato reforçaram essa compreensão ao evidenciarem que o cuidado diário, o diálogo, o apoio psicológico e as atividades socioeducativas constituem estratégias importantes para promover o desenvolvimento emocional dos adolescentes. Ao mesmo tempo, os profissionais reconheceram limitações relacionadas à escassez de recursos humanos e materiais, apontando a necessidade de ampliar a equipa técnica, fortalecer a formação continuada e investir em ações que promovam um acompanhamento mais individualizado.
Os resultados deste estudo confirmam que a qualidade das relações estabelecidas no ambiente institucional influência significativamente a forma como os adolescentes enfrentam as dificuldades emocionais decorrentes da institucionalização. Assim, o acolhimento institucional deve ultrapassar a satisfação das necessidades básicas, contemplando também o fortalecimento dos vínculos afetivos, a promoção da saúde mental e o desenvolvimento de competências socioemocionais que favoreçam a autonomia e a inclusão social.
Apesar das contribuições da pesquisa, algumas limitações devem ser reconhecidas. O estudo foi realizado em uma única instituição de acolhimento e contou com um número reduzido de participantes, o que restringe a possibilidade de generalização dos resultados para outros contextos. Além disso, a natureza qualitativa da investigação privilegiou a compreensão aprofundada das experiências dos participantes, não permitindo estabelecer relações causais.
Diante desses aspetos, recomenda-se que futuras pesquisas incluam adolescentes institucionalizados em diferentes províncias de Angola, contemplem amostras mais diversificadas e utilizem métodos mistos para ampliar a compreensão dos fatores que influenciam o desenvolvimento emocional dessa população. Também se sugere investigar a efetividade de programas de intervenção psicológica, educação socioemocional e fortalecimento dos vínculos familiares como estratégias para promover a saúde mental e a qualidade de vida dos adolescentes acolhidos.
Em síntese, conclui-se que os sentimentos e as emoções dos adolescentes institucionalizados são influenciados por um conjunto de fatores individuais, familiares e institucionais. A experiência do acolhimento pode representar tanto uma fonte de sofrimento emocional quanto uma oportunidade de reconstrução pessoal. Quando a instituição oferece apoio psicológico qualificado, relações afetivas estáveis e um ambiente seguro e acolhedor, torna-se possível minimizar os efeitos negativos da institucionalização e promover o desenvolvimento integral, a resiliência e a preparação dos adolescentes para uma vida autónoma e socialmente integrada.
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1 Doutorando do Curso Superior de Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem do Campus de Ribeirão Preto da universidade de São Paulo. Mestre em Recursos Humano na Universidade Alberto Hurtado de Santiago Chile. Licenciado em Psicologia Clínica no Instituto Superior Politécnico de Cabinda da Universidade 11 de Novembro. Docente de Psicologia Medica na Faculdade de Medicina da Universidade 11 de Novembro. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Licenciado em Psicologia Clínica Instituto Superior Politécnico de Cabinda da Universidade 11 de Novembro. Docente da de Psicologia Medica na Faculdade de Medicina da Universidade 11 de Novembro. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Docente de Psicologia no Instituto Superior Politécnico de Cabinda da Universidade 11 de Novembro. Licenciado em Psicologia Clínica Instituto Superior Politécnico de Cabinda da Universidade 11 de Novembro.
4 Doutorando do Curso Superior de Neurociências da Faculdade de Medicina do Campus do Ribeirão Preto da universidade de São Paulo. Docente de Instituto Superior de Educação do Uige. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail