SAÚDE MENTAL E CONDIÇÕES DE TRABALHO DE ENFERMEIROS DA ATENÇÃO PRIMÁRIA: ANSIEDADE, DEPRESSÃO E SOBRECARGA EMOCIONAL

MENTAL HEALTH AND WORKING CONDITIONS OF PRIMARY HEALTH CARE NURSES: ANXIETY, DEPRESSION, AND EMOTIONAL OVERLOAD

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/793319986

RESUMO
A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui um componente fundamental da organização dos serviços de saúde. Embora a atuação do enfermeiro seja indispensável para a efetivação das ações desenvolvidas na APS, o exercício profissional ocorre em contextos marcados por diferentes demandas assistenciais, administrativas e organizacionais, que podem intensificar a carga de trabalho e ampliar as responsabilidades atribuídas a esses trabalhadores. Este estudo teve como objetivo analisar a relação entre as condições de trabalho e a saúde mental dos enfermeiros da Atenção Primária à Saúde, com foco nas manifestações de ansiedade, depressão e sobrecarga emocional. Tratou-se de uma revisão integrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, realizada a partir de artigos científicos publicados entre 2020 e 2025, nas bases de dados PubMed, SciELO, LILACS e BDENF. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, foram selecionados 12 artigos para compor a revisão. Os resultados apontaram que a sobrecarga de atividades, as jornadas extensas, a insuficiência de recursos humanos e materiais, as dificuldades nas relações interpessoais e a fragilidade do apoio institucional estiveram associadas a experiências de sofrimento psíquico, estresse ocupacional e desgaste emocional entre os enfermeiros. Além disso, os estudos abordaram manifestações de ansiedade e depressão, evidenciando a importância das condições organizacionais para o bem-estar desses profissionais. Concluiu-se que as condições de trabalho constituíram fatores relevantes para a compreensão da saúde mental dos enfermeiros da Atenção Primária à Saúde, destacando-se a necessidade de estratégias institucionais voltadas à redução da sobrecarga, ao fortalecimento do apoio psicossocial e à valorização profissional.
Palavras-chave: Enfermagem; Saúde Mental; Atenção Primária à Saúde; Condições de Trabalho; Saúde do Trabalhador.

ABSTRACT
Primary Health Care (PHC) is a fundamental component of health service organization. Although the role of nurses is indispensable for the implementation of PHC activities, their professional practice takes place in contexts marked by diverse care-related, administrative, and organizational demands, which can intensify workloads and expand the responsibilities assigned to these workers. This study aimed to analyze the relationship between working conditions and the mental health of PHC nurses, focusing on manifestations of anxiety, depression, and emotional overload. It was an integrative literature review with a qualitative approach and descriptive nature, based on scientific articles published between 2020 and 2025 in the PubMed, SciELO, LILACS, and BDENF databases. After applying inclusion and exclusion criteria, 12 articles were selected for the review. The results indicated that excessive workloads, long shifts, insufficient human and material resources, interpersonal relationship difficulties, and weak institutional support were associated with experiences of psychological distress, occupational stress, and emotional exhaustion among nurses. Furthermore, the studies addressed manifestations of anxiety and depression, highlighting the importance of organizational conditions for the well-being of these professionals. It was concluded that working conditions are significant factors in understanding the mental health of PHC nurses, underscoring the need for institutional strategies aimed at reducing workload, strengthening psychosocial support, and fostering professional appreciation.
Keywords: Nursing; Mental Health; Primary Health Care; Working Conditions; Occupational Health.

1. INTRODUÇÃO

A Atenção Primária à Saúde (APS) constitui um componente fundamental da organização dos serviços de saúde, se caracterizando como espaço estratégico para a promoção da saúde, prevenção de agravos, acompanhamento contínuo dos usuários e coordenação do cuidado. Nesse contexto, o enfermeiro desempenha um papel essencial na assistência à população, uma vez que suas atribuições abrangem atividades clínicas, educativas, gerenciais e administrativas, exigindo competências técnicas, capacidade de tomada de decisão e articulação com a equipe multiprofissional (Brasil, 2017; OMS; UNICEF, 2020).

Diante dessa conjuntura, a diversidade das demandas assistenciais e a responsabilidade pelo acompanhamento das necessidades de saúde da comunidade conferem maior complexidade ao exercício profissional, especialmente diante das exigências relacionadas à organização dos serviços e à continuidade da assistência.

Embora a atuação do enfermeiro seja indispensável para a efetivação das ações desenvolvidas na Atenção Primária à Saúde, o exercício profissional ocorre em contextos marcados por diferentes demandas assistenciais, administrativas e organizacionais, que podem intensificar a carga de trabalho e ampliar as responsabilidades atribuídas a esses trabalhadores. Nesse cenário, a necessidade de conciliar o atendimento direto aos usuários com atividades de planejamento, supervisão de equipes, registros e cumprimento de metas institucionais, associada à insuficiência de recursos humanos e materiais, pode contribuir para o desgaste físico e emocional (Moraes; Figueiredo; Servo, 2026).

Consequentemente, as condições laborais assumem relevância central na compreensão do processo de saúde e adoecimento dos enfermeiros, notadamente quando as exigências profissionais ultrapassam os recursos e suportes disponíveis para a realização adequada de suas atividades.

Nesse contexto, a exposição contínua a demandas assistenciais elevadas, pressões institucionais e limitações estruturais pode representar um fator de risco psicossocial para os enfermeiros que atuam na Atenção Primária à Saúde, sobretudo quando associada à insuficiência de apoio organizacional e às dificuldades para conciliar as responsabilidades profissionais.

Diante desse cenário, a necessidade de responder às demandas dos usuários, administrar situações de vulnerabilidade social e lidar com exigências relacionadas à continuidade do cuidado pode intensificar o desgaste emocional desses trabalhadores, favorecendo experiências de estresse ocupacional e sofrimento psíquico (Celestino et al., 2020).

Compreender a relação entre a organização do trabalho e a saúde mental dos profissionais torna-se, portanto, fundamental, considerando que o adoecimento não deve ser analisado exclusivamente a partir de características individuais, mas também das condições institucionais e sociais nas quais a prática da enfermagem se desenvolve.

O sofrimento psíquico relacionado ao trabalho pode se manifestar por meio de diferentes alterações emocionais e comportamentais, incluindo sintomas de ansiedade, humor deprimido, irritabilidade, dificuldades de concentração e sensação persistente de esgotamento emocional e, essas manifestações, embora apresentem características distintas, podem coexistir e comprometer o bem-estar dos profissionais, sobretudo quando associadas à exposição prolongada a situações de tensão, conflitos interpessoais e ausência de suporte institucional adequado.

Torna-se, então, necessário compreender que a ansiedade e a depressão constituem condições clínicas específicas quando atendem aos respectivos critérios diagnósticos, enquanto a sobrecarga emocional representa uma experiência de desgaste que pode estar relacionada às exigências do cotidiano profissional, sem necessariamente configurar um transtorno mental. Assim, a identificação dessas manifestações e de seus possíveis fatores associados contribui para ampliar a compreensão das repercussões das condições laborais sobre a saúde mental dos enfermeiros (Rocha et al., 2022).

Além das consequências para a saúde e o bem-estar dos enfermeiros, o sofrimento psíquico relacionado às condições de trabalho pode apresentar repercussões sobre o desempenho profissional e a qualidade da assistência prestada à população. Isso ocorre porque o desgaste emocional persistente pode repercutir na concentração, na tomada de decisões e nas relações estabelecidas com os usuários e demais integrantes da equipe de saúde.

Em decorrência disso, as dificuldades enfrentadas no cotidiano laboral, associadas à insuficiência de recursos institucionais e às exigências assistenciais, tendem a comprometer a continuidade do cuidado, além de intensificar sentimento de frustração e impotência diante das necessidades da comunidade.

Dessa maneira, a promoção de condições adequadas de trabalho e o fortalecimento das relações interpessoais constituem aspectos importantes para a preservação da saúde mental dos enfermeiros, especialmente diante das dificuldades organizacionais e dos conflitos vivenciados no cotidiano da Atenção Primária à Saúde (Rocha et al., 2022).

Considerando a complexidade das condições de trabalho na APS e suas possíveis repercussões sobre o bem-estar dos profissionais, se torna relevante aprofundar a compreensão acerca dos fatores laborais associados ao sofrimento psíquico dos enfermeiros, especialmente no tocante às manifestações de ansiedade, depressão e sobrecarga emocional. Embora a literatura científica contemple investigações sobre estresse ocupacional, esgotamento profissional e sofrimento relacionado ao trabalho, a análise conjunta dessas diferentes dimensões pode contribuir para uma compreensão mais abrangente das relações entre a organização dos serviços e a saúde mental dos trabalhadores.

Nessa perspectiva, a realização de uma revisão integrativa se justifica pela possibilidade de reunir, sistematizar e analisar criticamente as evidências disponíveis, favorecendo, assim, a identificação de fatores associados ao adoecimento, de possíveis repercussões na assistência e de estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde mental no contexto da enfermagem.

Diante do exposto, considerando a relevância da saúde mental dos enfermeiros para a qualidade da assistência e a necessidade de compreender as repercussões das condições laborais sobre o bem-estar desses profissionais, o presente estudo teve como objetivo geral analisar as evidências científicas acerca da relação entre as condições de trabalho e as manifestações de ansiedade, depressão e sobrecarga emocional em enfermeiros da Atenção Primária à Saúde.

Como objetivos específicos buscou descrever as manifestações de sofrimento psíquico relatadas na literatura, examinar suas possíveis repercussões na prática profissional e na qualidade do cuidado, bem como identificar estratégias institucionais voltadas à promoção da saúde mental e à prevenção do adoecimento psíquico no contexto da enfermagem.

2. METODOLOGIA

2.1. Tipo de Pesquisa

O presente estudo se caracterizou como uma pesquisa bibliográfica, do tipo Revisão Integrativa da Literatura, cujo propósito consistiu em reunir, analisar e sintetizar as evidências científicas disponíveis acerca da relação entre as condições de trabalho e o adoecimento psíquico de enfermeiros atuantes na Atenção Primária à Saúde (APS). A escolha desse método se fundamentou na possibilidade de integrar estudos com diferentes delineamentos metodológicos, favorecendo uma compreensão abrangente do fenômeno investigado e contribuindo para a sistematização do conhecimento científico na área da saúde e da enfermagem (Dantas et al., 2022).

Para assegurar o rigor metodológico e a organização sistemática das informações, a investigação foi estruturada em seis etapas interdependentes. Inicialmente, foi realizada a delimitação do tema e a formulação da questão norteadora, seguidas pelo estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão dos estudos. Posteriormente, foram definidas as informações a serem extraídas das publicações, realizada a avaliação crítica das pesquisas selecionadas e desenvolvidas a interpretação dos resultados e a síntese do conhecimento produzido (Mendes; Silveira; Galvão, 2008).

2.2. Estratégia de Busca e Coleta dos Dados

A estratégia de busca bibliográfica foi estruturada a partir da questão norteadora do estudo, considerando a necessidade de identificar produções científicas que abordassem a relação entre as condições de trabalho e os agravos à saúde mental de enfermeiros atuantes na Atenção Primária à Saúde. Para tanto, foram definidas como fontes de investigação a Scientific Electronic Library Online (SciELO), a Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), a Base de Dados de Enfermagem (BDENF), ambas acessíveis por meio da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), e a PubMed, em razão de sua abrangência e relevância para a produção científica nas áreas da saúde e da enfermagem.

Para a elaboração das estratégias de busca, foram considerados os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e os termos correspondentes do Medical Subject Headings (MeSH), contemplando os conceitos de “Atenção Primária à Saúde”, “Enfermeiras e Enfermeiros”, “Saúde Mental”, “Condições de Trabalho”, “Ansiedade”, “Depressão” e “Estresse Ocupacional”, bem como seus equivalentes em inglês. Esses termos foram organizados por meio dos operadores booleanos AND e OR, com o propósito de combinar os diferentes conceitos investigados e ampliar a identificação de publicações pertinentes à temática, respeitando as particularidades de indexação de cada base de dados.

A delimitação temporal compreendeu publicações de 2020 a 2025, considerando a relevância de reunir evidências produzidas no período delimitado para a revisão acerca das condições laborais e suas possíveis repercussões sobre a saúde mental dos enfermeiros. Além disso, foram estabelecidos filtros relacionados ao período de publicação e aos idiomas português e inglês, de modo a favorecer a identificação de estudos compatíveis com os objetivos da investigação.

2.3. Critérios de Inclusão

Foram estabelecidos como critérios de inclusão os estudos científicos originais publicados entre 2020 e 2025, disponíveis na íntegra nos idiomas português e inglês, que abordassem a relação entre as condições de trabalho e a saúde mental de enfermeiros atuantes na Atenção Primária à Saúde (APS).

Foram considerados elegíveis estudos com abordagens quantitativas, qualitativas ou métodos mistos, desde que apresentassem resultados relacionados às condições laborais e às manifestações de sofrimento psíquico, especialmente sintomas de ansiedade, depressão e sobrecarga emocional. Também foram contempladas pesquisas desenvolvidas em Unidades Básicas de Saúde, equipes da Estratégia Saúde da Família e demais serviços caracterizados como integrantes da APS, considerando-se a pertinência dos resultados para a compreensão dos fatores associados ao adoecimento psíquico e de suas possíveis repercussões sobre a prática profissional.

2.4. Critérios de Exclusão

Foram definidos como critérios de exclusão os estudos publicados fora do recorte temporal estabelecido, as publicações duplicadas nas bases de dados consultadas e trabalhos que não apresentaram relação direta com a questão norteadora da pesquisa.

Foram excluídos artigos de revisão, estudos teóricos, editoriais, cartas ao editor, relatos de experiência, dissertações, teses e resumos publicados em anais de eventos científicos, bem como pesquisas realizadas exclusivamente com profissionais de enfermagem atuantes em ambientes hospitalares ou em outros níveis de atenção à saúde. Também foram considerados inelegíveis os estudos que abordaram a saúde mental de equipes multiprofissionais sem apresentar resultados específicos dos enfermeiros da Atenção Primária à Saúde, assim como aqueles que investigaram exclusivamente aspectos assistenciais ou organizacionais sem estabelecer relação com o sofrimento psíquico, a ansiedade, a depressão ou a sobrecarga emocional desses profissionais.

2.5. Seleção dos Estudos

O processo de seleção dos estudos foi organizado em etapas sucessivas, se iniciando pela identificação das publicações nas bases de dados previamente estabelecidas, seguida pela verificação e remoção dos registros duplicados. Posteriormente, foi realizada a triagem dos títulos e resumos, considerando sua correspondência com a questão norteadora e os critérios de elegibilidade definidos para a revisão.

Na etapa seguinte, foi realizada a avaliação dos textos completos das publicações potencialmente elegíveis, com a finalidade de verificar a pertinência dos objetivos, das características da população investigada e dos resultados apresentados em relação às condições de trabalho e à saúde mental dos enfermeiros da Atenção Primária à Saúde.

Por fim, os estudos considerados elegíveis foram incluídos na amostra final da revisão, sendo o processo de identificação, triagem, avaliação e inclusão representado por meio de um fluxograma (Figura 1) adaptado das recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses – PRISMA (Page et al., 2021).

Figura 1. Fluxograma dos artigos incluídos.

2.6. Extração e Organização dos Dados

Para a extração e organização dos dados, foi elaborado um instrumento de sistematização das informações, estruturado em formato de matriz bibliográfica, com a finalidade de reunir os elementos essenciais dos estudos selecionados. Foram estabelecidos campos referentes à identificação dos autores, ano de publicação, título do artigo, objetivo da pesquisa, delineamento metodológico, características da população investigada e principais resultados relacionados à temática.

A organização dessas informações foi estruturada de maneira a favorecer a comparação entre os estudos e a identificação de aproximações, divergências e aspectos relevantes para a compreensão do fenômeno investigado. Os dados foram distribuídos conforme sua correspondência com a questão norteadora e os objetivos específicos da pesquisa, permitindo estabelecer uma relação entre os fatores laborais associados ao sofrimento psíquico, suas possíveis consequências para a assistência e as medidas de prevenção e promoção da saúde mental no contexto da Atenção Primária à Saúde.

2.7. Análise e Síntese dos Dados

Para a análise e síntese dos dados, foi definida uma abordagem descritiva e temática, fundamentada na interpretação crítica das evidências científicas e na comparação dos resultados apresentados pelos estudos selecionados. Foi realizada a leitura integral das publicações elegíveis, considerando seus objetivos, procedimentos metodológicos e principais achados, de modo a identificar informações relacionadas às condições de trabalho e às manifestações de sofrimento psíquico entre enfermeiros da Atenção Primária à Saúde. Em seguida, foi proposta a organização das evidências por aproximação temática, considerando as convergências, divergências e particularidades dos estudos, com atenção às diferenças entre sintomas de ansiedade, depressão, estresse ocupacional e sobrecarga emocional.

A sistematização da análise foi orientada pelos objetivos específicos da pesquisa, a partir dos quais foram definidos três eixos temáticos preliminares: condições de trabalho e manifestações de adoecimento psíquico dos enfermeiros; repercussões do sofrimento psíquico na prática profissional e na qualidade da assistência; e estratégias institucionais de promoção da saúde mental e prevenção do sofrimento psíquico. Essa organização buscou favorecer a articulação entre os resultados das diferentes investigações, sem desconsiderar as características metodológicas e os contextos em que foram desenvolvidas. Por fim, a síntese das evidências foi apresentadade forma narrativa e interpretativa, relacionando os achados à questão norteadora e à literatura científica pertinente.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise da literatura científica permitiu identificar estudos que abordaram diferentes dimensões das condições de trabalho e da saúde mental dos profissionais de enfermagem na Atenção Primária à Saúde (Quadro 1). Entre os aspectos investigados, se destacaram as dificuldades relacionadas à organização dos serviços, às relações interpessoais, à sobrecarga de atividades e aos recursos institucionais disponíveis, os quais foram examinados em pesquisas com distintos delineamentos metodológicos.

Para favorecer a compreensão dos achados, a discussão foi estruturada em três eixos temáticos preliminares, correspondentes aos objetivos específicos da investigação: condições de trabalho e manifestações de adoecimento psíquico; repercussões do sofrimento psíquico na prática profissional e na qualidade da assistência; e estratégias institucionais de promoção da saúde mental.

Essa organização possibilitou estabelecer relações entre os resultados apresentados pelos diferentes autores, respeitando as particularidades dos estudos e evitando generalizações que não encontrassem sustentação nas evidências analisadas.

Quadro 1. Caracterização Dos Estudos Incluídos.

Autores/ano

Delineamento e participantes

Principais achados

Base Indexada

Celestino et al. (2020)

Qualitativo; 18 enfermeiros da Estratégia Saúde da Família.

Riscos psicossociais, excesso de tarefas, ritmo acelerado e desgaste físico e mental.

BDENF / LILACS / SciELO

Julio et al. (2021)

Transversal, quantitativo; profissionais de enfermagem da APS.

Avaliou ansiedade, depressão e work engagement (HADS e UWES).

SciELO / LILACS / BDENF

Silva et al. (2021)

Estudo na APS.

Avaliou síndrome de Burnout e transtornos mentais comuns.

LILACS / SciELO

Garcia e Marziale (2021)

Estudo com 122 enfermeiros de 45 unidades da APS.

Investigou satisfação e estresse ocupacional; 32% apresentaram níveis consideráveis de estresse.

SciELO / PubMed / LILACS

Nóbrega et al. (2021)

Pesquisa com 500 enfermeiros da APS, no Brasil e em Portugal.

Vivências de prazer e sofrimento no trabalho, com destaque para reconhecimento e desgaste.

SciELO / BDENF

Julio et al. (2022)

Transversal, quantitativo; trabalhadores da APS.

Prevalência e fatores associados a sintomas de ansiedade e depressão (HADS).

SciELO / Scopus

Martinez et al. (2022)

Estudo na APS.

Avaliou estresse, ansiedade e depressão entre os trabalhadores.

LILACS / SciELO

Rocha et al. (2022)

Qualitativo; 11 enfermeiras da APS.

Sofrimento relacionado à gestão, conflitos com usuários e fragilidades da rede de apoio.

SciELO / BDENF

Costa et al. (2023)

Estudo na APS.

Investigou a relação entre sobrecarga de trabalho e saúde mental.

SciELO / LILACS

Wang et al. (2024)

Estudo multinível; 175 enfermeiros de 38 centros comunitários, China.

Avaliou resiliência organizacional, segurança psicológica e depressão; associação com depressão não significativa.

PubMed / Web of Science

Marinho et al. (2024)

Qualitativo; 108 enfermeiros da APS de capitais do Sudeste.

Condições desfavoráveis e sobrecarga; relato de depressão relacionada ao ambiente de trabalho.

SciELO / LILACS

Silva et al. (2024)

Qualitativo; 45 enfermeiros da APS na Paraíba.

Sobrecarga de funções e desgaste físico e emocional no trabalho interdisciplinar.

SciELO / BDENF

Fonte: Elaboração própria, a partir dos doze artigos selecionados.

3.1. Condições de Trabalho e Manifestações de Sofrimento Psíquico dos Enfermeiros

As condições de trabalho dos enfermeiros da APS constituíram uma dimensão relevante nas investigações sobre sofrimento psíquico, especialmente em razão das exigências assistenciais, administrativas e relacionais que caracterizaram o cotidiano desses profissionais. Nesse contexto, Celestino et al., (2020), ao investigarem os riscos psicossociais presentes no trabalho de enfermeiros da Estratégia Saúde da Família (ESF), identificaram dificuldades relacionadas à organização dos serviços, às condições institucionais e às relações interpessoais, evidenciando que o sofrimento vivenciado pelos profissionais esteve associado a diferentes aspectos do ambiente laboral.

Ao aprofundarem a análise desses riscos psicossociais, Celestino et al., (2020), em estudo qualitativo realizado com 18 enfermeiros da ESF, identificaram riscos psicossociais relacionados tanto ao contexto quanto ao conteúdo do trabalho, se destacando a insuficiência de recursos humanos e materiais, a extensão da carga de trabalho, os conflitos interpessoais e a violência psicológica. Dessa maneira, os resultados evidenciaram que o sofrimento relacionado ao trabalho não poderia ser compreendido exclusivamente a partir de características individuais dos profissionais, uma vez que as condições institucionais e organizacionais também integraram o conjunto de fatores investigados.

Essa compreensão foi ampliada por Rocha et al., (2022), que identificaram dificuldades na relação com a gestão, fragilidades da rede de apoio e conflitos com usuários como elementos presentes nas experiências de sofrimento de enfermeiras da APS. Assim, a aproximação entre os estudos permitiu reconhecer a recorrência de problemas relacionados à organização do trabalho e às relações institucionais, embora as diferenças entre seus delineamentos e contextos tenham exigido cautela quanto à generalização dos resultados.

Em consonância com essas evidências, Garcia e Marziale (2021), ao investigarem a satisfação, o estresse e o esgotamento profissional de enfermeiros gestores e assistencialistas da APS, identificaram a presença de estresse ocupacional entre os participantes, reforçando a importância das condições de trabalho na compreensão do desgaste profissional. De maneira complementar, Marinho et al., (2024), ao analisarem as condições laborais de enfermeiros da APS em capitais da Região Sudeste do Brasil, evidenciaram dificuldades relacionadas ao cotidiano dos serviços, ampliando a discussão sobre as exigências enfrentadas pelos profissionais e suas possíveis repercussões sobre o bem-estar.

As evidências analisadas apontaram para a importância de considerar as condições concretas de exercício profissional na compreensão do sofrimento psíquico dos enfermeiros, uma vez que a sobrecarga de atividades, a insuficiência de recursos e as dificuldades de apoio institucional apareceram de maneira recorrente nas pesquisas.

A investigação das manifestações de sofrimento psíquico também contemplou a presença de sintomas de ansiedade e depressão entre os profissionais de enfermagem da APS. Nesse sentido, Julio et al., (2021), ao analisarem os níveis desses sintomas e sua relação com o engajamento no trabalho, identificaram ansiedade moderada entre enfermeiros e manifestações depressivas predominantemente leves, embora os participantes tenham apresentado níveis elevados de engajamento profissional. Esses achados evidenciaram que a disposição para o exercício das atividades laborais não representou, necessariamente, ausência de sofrimento psíquico, reforçando a importância de considerar conjuntamente os indicadores de saúde mental e as características da experiência profissional.

De maneira complementar, Julio et al., (2022), em investigação realizada com trabalhadores de diferentes categorias da APS, identificaram manifestações de ansiedade e depressão, com diferenças entre os grupos profissionais avaliados. Embora os resultados globais não possam ser atribuídos exclusivamente aos enfermeiros, o estudo contribuiu para contextualizar a presença desses sintomas nos serviços de atenção básica e a necessidade de estratégias institucionais voltadas à saúde dos trabalhadores.

3.2. Repercussões do Sofrimento Psíquico na Prática Profissional e na Qualidade da Assistência

As repercussões das condições de trabalho sobre a prática profissional dos enfermeiros da APS constituíram uma dimensão importante para a compreensão do sofrimento psíquico, considerando que as atividades desenvolvidas nesse nível de atenção envolveram responsabilidades assistenciais, gerenciais e educativas, além da necessidade de estabelecer vínculos contínuos com os usuários e suas famílias.

Nesse contexto, Rocha et al., (2022) identificaram situações de sofrimento relacionadas às dificuldades na organização do trabalho, às relações com a gestão e aos conflitos vivenciados no cotidiano profissional, evidenciando a importância de considerar as condições institucionais na compreensão das experiências desses trabalhadores.

De maneira complementar, Celestino et al., (2020) identificaram riscos psicossociais associados à insuficiência de recursos humanos e materiais, à extensão da carga de trabalho e às dificuldades nas relações interpessoais, aspectos que evidenciaram desafios presentes no exercício profissional dos enfermeiros da ESF. A partir desses achados, observou-se que as condições organizacionais constituíram elementos relevantes para a compreensão das exigências enfrentadas no cotidiano dos serviços, especialmente diante da necessidade de conciliar diferentes atribuições e responder às demandas da população atendida.

No que se refere às manifestações de sofrimento psíquico, Julio et al., (2021) identificaram sintomas de ansiedade e depressão entre profissionais de enfermagem da APS, ao mesmo tempo em que observaram níveis elevados de engajamento no trabalho. Essa associação de resultados demonstrou que o comprometimento profissional e a presença de sintomas emocionais não foram condições necessariamente excludentes, permitindo compreender que a continuidade do desempenho das atividades laborais não significou, por si só, ausência de sofrimento psíquico.

Além disso, Nóbrega et al., (2021), ao investigarem as experiências de prazer e sofrimento de enfermeiros no cuidado à pessoa com transtorno mental e à família, contribuíram para a compreensão das exigências emocionais envolvidas na prática assistencial, especialmente diante das relações estabelecidas com os usuários e seus familiares.

Nessa perspectiva, os resultados dialogaram com as discussões sobre o sofrimento psíquico no exercício profissional, permitindo reconhecer que as demandas emocionais do cuidado constituíram uma dimensão importante da experiência de trabalho, embora não tenham permitido estabelecer uma relação causal direta entre sofrimento psicológico e qualidade da assistência prestada.

Dessa maneira, a aproximação entre os estudos permitiu reconhecer a importância de analisar conjuntamente as condições de trabalho, as manifestações emocionais e as exigências da prática profissional. Entretanto, embora as pesquisas tenham identificado fatores relacionados ao sofrimento e à organização dos serviços, não foi possível afirmar, a partir desses resultados isoladamente, que a ansiedade ou a depressão produziram redução direta da qualidade da assistência, uma vez que tal conclusão dependeria de estudos que avaliassem especificamente essa relação.

3.3. Estratégias Institucionais de Promoção da Saúde Mental e Prevenção do Sofrimento Psíquico

A discussão sobre as estratégias de promoção da saúde mental dos enfermeiros da APS exigiu considerar tanto os recursos individuais de enfrentamento quanto as condições institucionais relacionadas à organização do trabalho.

Nesse sentido, Rocha et al., (2022), ao investigarem as experiências de sofrimento e os mecanismos de defesa utilizados por enfermeiras da APS, evidenciaram a importância das relações profissionais e das condições organizacionais para a compreensão das formas de enfrentamento desenvolvidas diante das dificuldades vivenciadas no cotidiano laboral.

Em perspectiva complementar, Celestino et al., (2020) identificaram estratégias utilizadas pelos enfermeiros para lidar com os riscos psicossociais, incluindo o apoio familiar, a espiritualidade, a música e a leitura. Entretanto, embora esses recursos tenham sido reconhecidos como formas de enfrentamento, os resultados também evidenciaram riscos associados à insuficiência de profissionais, às limitações materiais e às relações interpessoais, indicando que as dificuldades investigadas ultrapassaram a esfera individual.

Sob essa perspectiva, Silva et al., (2024), ao investigarem o trabalho interdisciplinar e as condições laborais de enfermeiros da APS, identificaram dificuldades relacionadas à sobrecarga de atividades e ao desgaste emocional, aspectos que reforçaram a importância de considerar a organização dos serviços na discussão sobre a saúde mental desses profissionais.

Wang et al., (2024), em estudo realizado com enfermeiros da atenção primária na China, analisaram as relações entre resiliência organizacional, condições de trabalho e bem-estar profissional, contribuindo para ampliar a compreensão sobre o papel do contexto institucional. Desse modo, os estudos ofereceram elementos para discutir a necessidade de suporte organizacional, sem que isso significasse comprovação da eficácia de intervenções específicas de prevenção do adoecimento psíquico.

A partir dessa compreensão, destacou-se a necessidade de considerar medidas institucionais direcionadas à melhoria das condições de trabalho, ao fortalecimento das relações profissionais e à identificação dos fatores psicossociais presentes nos serviços. Essas medidas constituíram implicações possíveis das evidências analisadas, embora não devessem ser confundidas com intervenções cuja eficácia tivesse sido comprovada pelos estudos incluídos.

Assim, a síntese das investigações permitiu compreender que a promoção da saúde mental dos enfermeiros não deveria se restringir às estratégias individuais de enfrentamento, mas contemplar também a responsabilidade institucional pela organização de ambientes de trabalho mais favoráveis. Desse modo, o reconhecimento dos riscos psicossociais e das necessidades de apoio aos profissionais apresentou-se como elemento relevante para subsidiar futuras ações de prevenção do sofrimento psíquico no contexto da APS.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente revisão integrativa teve como objetivo analisar as evidências científicas acerca da relação entre as condições de trabalho e a ocorrência de ansiedade, depressão e sobrecarga emocional em enfermeiros da Atenção Primária à Saúde. A análise dos estudos identificados apontou que a organização dos serviços, a multiplicidade de atribuições, a insuficiência de recursos e as dificuldades nas relações institucionais constituíram aspectos relevantes para a compreensão das experiências de sofrimento psíquico desses profissionais.

Nesse contexto, as investigações examinadas evidenciaram manifestações de sofrimento relacionadas ao trabalho, incluindo sintomas de ansiedade e depressão, bem como estratégias individuais de enfrentamento das exigências profissionais. Entretanto, observou-se a necessidade de distinguir os diferentes desfechos investigados, uma vez que sofrimento psíquico, estresse ocupacional, burnout e transtornos mentais não representaram condições equivalentes.

No que se refere às repercussões sobre a prática profissional, os estudos contribuíram para a compreensão dos desafios vivenciados pelos enfermeiros no cotidiano da Atenção Primária à Saúde, embora as evidências examinadas não tenham permitido estabelecer, de maneira conclusiva, uma relação causal entre o adoecimento psíquico e a redução da qualidade da assistência. Além disso, a identificação de riscos psicossociais reforçou a importância de medidas institucionais voltadas à melhoria das condições de trabalho, ao fortalecimento das relações profissionais e à promoção da saúde mental.

Dessa forma, a síntese preliminar ressaltou a necessidade de compreender a saúde mental dos enfermeiros como uma questão relacionada não apenas aos recursos individuais de enfrentamento, mas também às condições organizacionais e institucionais em que o trabalho foi desenvolvido.

Por fim, destacou-se a importância de novas investigações que avaliem especificamente ansiedade, depressão e sobrecarga emocional entre enfermeiros da Atenção Primária à Saúde, contribuindo para a produção de evidências que subsidiem ações de prevenção do adoecimento e de valorização desses profissionais.

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1 Discente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Discente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Discente do curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

5 Tutora do curso de Enfermagem do Centro Universitário Fametro. Mestre em Doenças Tropicais e Infecciosas da Universidade do Estado do Amazonas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

6 Professora do Ensino Superior do curso de Enfermagem do Centro Univers itário Fametro (Manaus-AM), Doutora em Genética, Conservação e Biologia Evolutiva pelo INPA-AM. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail