RELAÇÃO TRABALHO E SAÚDE MENTAL NA ENFERMAGEM: REVISÃO DA LITERATURA

RELATIONSHIP BETWEEN WORK AND MENTAL HEALTH IN NURSING: A LITERATURE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792378337

RESUMO
Este artigo tem como objetivo analisar a relação entre trabalho e saúde mental na enfermagem, com foco nas condições laborais que expõem profissionais a sofrimento psíquico, fadiga, alterações do sono, estresse ocupacional, sintomas ansiosos, sintomas depressivos, burnout e afastamentos do trabalho. A pesquisa foi desenvolvida por meio de revisão da literatura, com seleção de artigos publicados entre 2022 e 2026, nas bases de dados Scielo, utilizando como descritores 'Saúde mental', 'Ambiente de trabalho', 'Enfermagem' e 'Esgotamento'; ‘Riscos’ e ‘Ambiente de trabalho’, ‘Transtornos’ e ‘Esgotamento’. A análise permitiu identificar que a saúde mental na enfermagem envolve organização do trabalho, sobrecarga, turnos, relações interpessoais, reconhecimento profissional, estrutura dos serviços e acesso a estratégias de proteção. Os resultados indicam que serviços hospitalares, urgência, emergência, atenção primária, centros de materiais e esterilização e instituições de longa permanência apresentam fatores próprios de desgaste, embora compartilhem a presença de pressão emocional, exigência técnica e responsabilidade direta pelo cuidado. O estudo reforça a necessidade de políticas institucionais de promoção da saúde do trabalhador, monitoramento dos riscos psicossociais, melhoria das escalas e fortalecimento de espaços de escuta, apoio e prevenção.
Palavras-chave: Enfermagem; Saúde do trabalhador; Saúde mental; Revisão.

ABSTRACT
This article aims to analyze the relationship between work and mental health in nursing, focusing on the working conditions that expose professionals to psychological distress, fatigue, sleep disorders, occupational stress, anxiety symptoms, depressive symptoms, burnout, and sick leave. The study was conducted through a literature review, selecting articles published between 2022 and 2026 in the SciELO database, using the descriptors "Mental health," "Work environment," "Nursing," and "Burnout"; "Risks" and "Work environment"; "Disorders" and "Burnout." The analysis revealed that mental health in nursing involves work organization, overload, shift work, interpersonal relationships, professional recognition, service structure, and access to protective strategies. The results indicate that hospital services, urgent care, emergency, primary care, material and sterilization centers, and long-term care institutions present unique strain factors, while sharing emotional pressure, technical demands, and direct responsibility for patient care. The study highlights the need for institutional policies to promote worker health, monitor psychosocial risks, improve shift scheduling, and strengthen spaces for listening, support, and prevention.
Keywords: Occupational health; Mental health; Nursing; Review.

1. INTRODUÇÃO

O trabalho é um pilar fundamental na existência humana, pois consiste em um meio de subsistência, realização pessoal e valorização social. Mais do que garantir o sustento econômico, a atividade profissional insere o indivíduo em um ambiente coletivo, onde ele compartilha culturas, crenças e valores, além de proporcionar um sentimento de utilidade e reconhecimento.

Diante disso, o ambiente laboral conecta-se diretamente com a saúde mental, que é definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um direito humano fundamental e um estado de bem-estar que viabiliza o desenvolvimento individual e a contribuição comunitária (WHO, 2014). Esse bem-estar inclui um espectro complexo, onde fatores adversos elevam o risco de transtornos e sofrimentos significativos. Contudo, apesar de tratáveis, essas condições enfrentam um subfinanciamento crônico e amplas lacunas de tratamento nos sistemas de saúde mundiais. Trata-se de um componente indissociável da saúde integral humana, que é constantemente modulada por fatores socioeconômicos, biológicos e ambientais.

A partir desse conceito, é possível compreender que o trabalho estabelece importante relação com a saúde mental. E, ao mesmo tempo em que pode favorecer a qualidade de vida, o trabalho pode se tornar fonte de adoecimento, a depender das condições concretas em que é realizado. Nesse sentido, Dejours (2017) afirma que a relação entre o trabalho e a saúde mental não se estabelece de forma neutra, pois resulta em aspectos positivos e negativos. Dessa maneira, o trabalho possibilita o desenvolvimento e reconhecimento do trabalhador, mas, dependendo das condições na qual é realizado, pode contribuir para o desgaste e o surgimento ou agravamento de doenças. Essa leitura é importante porque impede uma interpretação simplificada da saúde mental, como se ansiedade, exaustão ou tristeza fossem sempre produto exclusivo da vida privada do trabalhador.

Interessa, para esta pesquisa, a análise sobre o trabalho na enfermagem. A enfermagem ocupa lugar central na produção do cuidado, pois acompanha pessoas em situações de dor, dependência, risco clínico e necessidade contínua de atenção. Essa proximidade com o sofrimento humano exige preparo técnico, equilíbrio emocional e capacidade de resposta rápida, mas também coloca trabalhadores diante de situações que podem ultrapassar os limites de adaptação individual.

Na enfermagem, a experiência cotidiana mostra que a relação entre cuidado, exigência institucional e sofrimento psíquico precisa ser discutida de modo articulado. Em sentido complementar, Mendes et al. (2025), apontam que, quando a rotina passa a reunir excesso de atendimentos, conflitos de equipe, baixa disponibilidade de materiais e cobrança por rapidez, o trabalho deixa de ser apenas espaço de realização profissional e passa a compor um ambiente de desgaste mental.

O debate sobre saúde do trabalhador na enfermagem ganha força quando se observa que a categoria atua em diferentes serviços, como hospitais, pronto atendimento, atenção primária, unidades de urgência, centros de materiais e instituições de longa permanência. Em cada espaço, mudam as demandas, os fluxos e os riscos, mas permanece a centralidade da responsabilidade pelo outro. Essa responsabilidade sustenta a relevância social da profissão, ao mesmo tempo em que pode intensificar a sensação de cobrança contínua e de pouca margem para erro (Moura et al., 2025).

Silva et al. (2022) mostram que a rotina hospitalar de enfermeiros se associa a prejuízos na qualidade do sono, sobretudo quando existem turnos, horas extras e outros vínculos de trabalho. O sono, nesse caso, não aparece como elemento secundário, mas como indicador sensível da relação entre corpo, jornada e saúde mental. A privação de descanso afeta atenção, memória, humor e capacidade de tomada de decisão, de modo que o cuidado prestado também sofre impacto quando o trabalhador não consegue recuperar suas energias.

Os sintomas de ansiedade e depressão em profissionais de enfermagem revelam que o sofrimento mental não se limita a uma experiência passageira de cansaço. A presença de jornadas prolongadas, dupla atividade, maior carga diária e inserção em ambientes marcados por tensão podem ampliar a vulnerabilidade psíquica, principalmente em grupos mais jovens e em mulheres. A leitura desses dados auxilia a compreender que o adoecimento tem relação com fatores laborais e não apenas com fragilidades pessoais (Fuzinelli et al., 2025).

Diante tais considerações, este artigo partiu do seguinte problema de pesquisa: como as condições de trabalho se relacionam à saúde mental dos profissionais de enfermagem, de acordo com as produções científicas recentes? A partir dessa pergunta, o objetivo geral consistiu em analisar a produção científica sobre a relação trabalho e saúde mental na enfermagem. Como objetivos específicos, buscou-se discutir fatores laborais associados ao sofrimento mental, identificar repercussões sobre o sono, a ansiedade, a depressão e o burnout, e refletir sobre estratégias de proteção à saúde do trabalhador.

2. METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de natureza descritiva e abordagem qualitativa, elaborada a partir da leitura e análise de artigos científicos disponíveis na plataforma Scielo. O recorte temporal adotado priorizou materiais publicados entre 2022 e 2026, no idioma português, mantendo coerência com a exigência de referências recentes e com a proposta de analisar a relação entre trabalho, saúde mental e enfermagem. A escolha por pesquisa bibliográfica se deu pela possiblidade de organizar contribuições de diferentes estudos e construir uma interpretação crítica sobre um problema recorrente na saúde ocupacional (Marconi; Lakatos, 2021).

Os descritores de busca foram selecionados a partir do DeCS (Descritores em Ciências da Saúde), sendo: 'Saúde mental', 'Ambiente de trabalho', 'Enfermagem' e 'Esgotamento'; ‘Riscos’ e ‘Ambiente de trabalho’, ‘Transtornos’ e ‘Esgotamento’, combinados entre si por meio do operador booleano AND. Cada artigo recuperado foi categorizado conforme a sua respectiva linha de descritores antecedentes, demonstrando quais combinações de termos foram eficazes para mapear a literatura sobre a saúde do trabalhador.

Foram considerados artigos que abordaram saúde do trabalhador, estresse ocupacional, sono, ansiedade, depressão, burnout, afastamentos laborais, trabalho por turnos, estratégias de enfrentamento e enfermagem do trabalho. Foram excluídos artigos que não se encontravam disponíveis na íntegra, bem como artigos que estudaram a saúde mental durante a pandemia de COVID-19, considerando que esse período foi marcado por circunstâncias sanitárias e laborais singulares, capazes de repercutir significativamente sobre a saúde mental dos profissionais de enfermagem e, consequentemente, comprometer a homogeneidade analítica da amostra investigada.

A pesquisa dos artigos foi realizada em quatro etapas, apresentadas na Figura 1.

Figura 1. Etapas da pesquisa

Fonte: as autoras, 2026.

Na primeira etapa, foram usados os descritores na busca pelos artigos combinados conforme mostra o Quadro 1. Nessa etapa, foram aplicados os critérios de inclusão, como o idioma e o recorte temporal estabelecidos, bem como foram aplicados os critérios de exclusão, resultando em 26 artigos.

Quadro 1. Combinações entre descritores para busca e seleção dos artigos

Descritores combinados

Resultado inicial

Resultado após aplicação dos critérios de inclusão

Resultado final após aplicação dos critérios de exclusão

Jornada AND atividades AND Enfermagem

14

14

1

Saúde mental AND riscos AND ambiente de trabalho

36

12

3

Saúde mental AND esgotamento AND ambiente de trabalho

21

5

2

Trabalho AND saúde mental AND enfermagem

1070

239

6

Trabalho AND Transtornos AND enfermagem

344

58

4

Saúde mental AND ambiente de trabalho

402

119

4

Saúde mental AND enfermagem AND condições de trabalho

48

48

3

Saúde mental AND enfermagem AND estresse ocupacional

48

18

3

Total

-

-

26

Fonte: as autoras, 2026.

Como segunda etapa, foi realizada leitura, analisando título, objetivo, desenho metodológico e principais achados dos artigos selecionados. Na terceira etapa da pesquisa, os artigos foram agrupados por eixo temático, de acordo com o assunto abordado. A quarta etapa consistiu da leitura e análise dos artigos selecionados, suas principais informações foram articuladas em texto corrido, com uma referência por parágrafo, a fim de manter rastreabilidade e evitar sobreposição de autores em uma mesma afirmação. Tais achados são discutidos a seguir.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise detalhada evidenciou que a relação entre o trabalho e a saúde mental na enfermagem é atravessada por fatores organizacionais estruturais, jornadas exaustivas e pela intensa exigência emocional inerente ao cuidado. Os dados mapeados apontam que os profissionais de enfermagem estão submetidos a um desgaste contínuo que repercute de forma direta em manifestações psicossomáticas, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e no desenvolvimento da Síndrome de Burnout.

Observou-se que os diferentes cenários de atuação hospitalar, de urgência e emergência, bem como a atenção primária e as instituições de longa permanência, moldam perfis específicos de adoecimento. Enquanto em ambientes de alta complexidade o trabalho em turnos e a sobrecarga de ritmo geram fadiga acentuada e prejuízos ao descanso, na atenção primária e diversos cenários da assistência o acúmulo de funções e a complexidade do vínculo relacional intensificam a vulnerabilidade psíquica dos profissionais. Desse modo, os resultados confirmam que o sofrimento mental na categoria não decorre de fragilidades individuais, mas está intimamente associado às condições concretas e à organização do trabalho em saúde.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse estudo permitiu analisar a relação entre o trabalho e saúde mental na enfermagem a partir de produções de artigos recentes disponíveis nas bases de dados Scielo. Os resultados mostram que o profissional de enfermagem está exposto a fatores laborais diversos, como sobrecarga de funções, turnos, pressão por agilidade, e eficiência, falta de materiais, conflitos, baixa valorização e acúmulo de funções. Tais fatores mostram estreita relação com relevantes expressões de desgaste profissional como ansiedade, depressão, estresse, alterações do sono, burnout e afastamentos do trabalho.

A pesquisa realizada indicou que a saúde mental dos profissionais de enfermagem precisa ser tratada como responsabilidade institucional e coletiva. Alternativas e estratégias individuais, como atividade física, fé, reflexão, higiene do sono e terapias complementares, podem auxiliar no enfrentamento. Todavia, a iniciativa individual não se sobrepõe às ações organizacionais de prevenção e se tornam obsoletas. Caso não haja melhoria condições de trabalho, dimensionamento adequado, escuta qualificada e apoio psicológico, o desgaste emocional continuará negligenciado, restrito a esfera individual e gerenciado de forma isolada pelos próprios trabalhadores

Observou-se também que diferentes espaços de atuação da enfermagem produzem formas específicas de desgaste. Hospitais e serviços de emergência destacam os efeitos dos turnos, da fadiga e da urgência, enquanto a atenção primária revela a sobrecarga das múltiplas funções. De um lado, os centros de materiais mostram o peso de uma atividade técnica pouco reconhecida, de outro, as instituições de longa permanência evidenciam o desgaste do cuidado contínuo. Essa variedade direciona e confirma a necessidade de políticas específicas para cada realidade de trabalho, lembrando que se trata do cuidar.

Como contribuição, esta pesquisa reitera a indissociabilidade entre a saúde mental do profissional e a excelência da assistência de enfermagem prestada. Desse modo, o cuidado em saúde mental significa também cuidar da qualidade da assistência.

A relação trabalho e saúde mental na enfermagem é uma temática complexa e dinâmica, exigindo constante atualização. Por isso, pesquisas futuras sobre o assunto podem contribuir para o surgimento de propostas para a promoção da saúde mental no trabalho da enfermagem, bem como para maior reconhecimento da profissão.

DECLARAÇÃO DE USO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Os autores declaram que foram utilizadas as seguintes ferramentas de Inteligência artificial: Gemini e Chat GPT com a finalidade de refinar os termos de linguagem para melhor compreensão, correção ortográfica, organização dos quadros e auxílio na organização das referências.

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1 Discente do Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Federal de Uberlândia Campus Umuarama. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Docente do Curso Técnico em Enfermagem da Escola Técnica de Saúde da Universidade Federal de Uberlândia Campus Umuaram. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail