REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790739246
RESUMO
Os cuidados paliativos constituem uma abordagem de assistência direcionada à promoção da qualidade de vida de pessoas com doenças ameaçadoras da vida, considerando aspectos físicos, emocionais, sociais e espirituais. Nesse contexto, a Terapia Ocupacional apresenta importante contribuição para a manutenção da autonomia, participação e desempenho ocupacional, além do controle de sintomas e da adaptação das atividades cotidianas às condições clínicas do paciente. Entretanto, a atuação do terapeuta ocupacional nesse campo ainda apresenta desafios relacionados à formação profissional, à escassez de evidências científicas, à organização dos serviços, à atuação interdisciplinar e à necessidade de adequação dos objetivos terapêuticos diante do processo de adoecimento e finitude. O presente artigo tem como objetivo discutir os principais desafios enfrentados pelos terapeutas ocupacionais na assistência a pessoas em cuidados paliativos. Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, baseada em artigos científicos relacionados à Terapia Ocupacional e aos cuidados paliativos. Os estudos analisados demonstram que a atuação profissional deve priorizar o significado das ocupações, a autonomia possível, o conforto, a participação e a qualidade de vida, respeitando os desejos, valores e limites de cada pessoa. Conclui-se que o fortalecimento da Terapia Ocupacional nos cuidados paliativos depende da ampliação da formação específica, do desenvolvimento de pesquisas e da consolidação da atuação do terapeuta ocupacional nas equipes multiprofissionais.
Palavras-chave: Terapia Ocupacional; Cuidados paliativos; Qualidade de vida; Autonomia; Desempenho ocupacional.
ABSTRACT
Palliative care is an approach to healthcare aimed at promoting the quality of life of people with life-threatening illnesses, considering their physical, emotional, social, and spiritual dimensions. In this context, Occupational Therapy plays an important role in maintaining autonomy, participation, and occupational performance, as well as in symptom management and the adaptation of daily activities to patients’ clinical conditions and individual needs. However, the practice of occupational therapists in this field still faces challenges related to professional training, the limited body of scientific evidence, service organization, interdisciplinary practice, and the need to adapt therapeutic goals throughout the processes of illness and end of life. This article aims to discuss the main challenges faced by occupational therapists in providing care to people receiving palliative care. This is a narrative literature review based on scientific articles addressing Occupational Therapy and palliative care. The studies analyzed indicate that professional practice should prioritize the meaning of occupations, attainable autonomy, comfort, participation, and quality of life, while respecting each person’s wishes, values, needs, and limitations. It is concluded that strengthening Occupational Therapy within palliative care requires expanding specialized training, developing further research, and consolidating the role of occupational therapists within multidisciplinary teams.
Keywords: Occupational Therapy; Palliative Care; Quality of Life; Autonomy; Occupational Performance.
1. INTRODUÇÃO
Os cuidados paliativos representam uma abordagem de assistência voltada às pessoas que vivenciam doenças graves, progressivas e ameaçadoras da vida. Seu propósito não se limita ao tratamento da doença, mas envolve a promoção da qualidade de vida, o alívio do sofrimento e a atenção às necessidades do paciente e de seus familiares. Dentro dessa perspectiva, o cuidado deve considerar o indivíduo em sua integralidade, valorizando suas necessidades físicas, psicológicas, sociais e espirituais.
A Terapia Ocupacional possui características que dialogam diretamente com os princípios dos cuidados paliativos, uma vez que sua prática está relacionada à participação do indivíduo em ocupações significativas e às possibilidades de realização das atividades cotidianas. Em situações de doença avançada, essas ocupações podem sofrer alterações em decorrência da dor, fadiga, alterações cognitivas, limitações motoras, alterações emocionais e redução da capacidade funcional.
Nesse cenário, o terapeuta ocupacional pode contribuir para preservar a autonomia possível, favorecer a participação em atividades significativas, adaptar tarefas e ambientes, orientar familiares e cuidadores e utilizar estratégias não farmacológicas para conforto e manejo de sintomas.
Apesar dessa contribuição, a inserção da Terapia Ocupacional nos cuidados paliativos ainda enfrenta dificuldades. Revisões da literatura identificam escassez de estudos específicos, necessidade de atualização da prática profissional e lacunas na formação acadêmica para atuação nesse campo.
Dessa forma, torna-se relevante compreender quais são os principais desafios enfrentados pelos terapeutas ocupacionais e como esses profissionais podem desenvolver uma prática ética, humanizada e fundamentada nas necessidades reais das pessoas em cuidados paliativos.
2. OBJETIVO
2.1. Objetivo Geral
Discutir os principais desafios encontrados pelos terapeutas ocupacionais na prática profissional em cuidados paliativos com crianças, adultos e idosos.
2.2. Objetivos Específicos
Identificar as principais contribuições da Terapia Ocupacional nos cuidados paliativos.
Analisar as dificuldades relacionadas à formação e à prática profissional.
Discutir a importância da atuação interdisciplinar.
Refletir sobre a contribuição da Terapia Ocupacional para autonomia, participação e qualidade de vida.
Destacar a necessidade de ampliação das pesquisas sobre Terapia Ocupacional e cuidados paliativos.
3. METODOLOGIA
Este estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa da literatura, de abordagem qualitativa, realizada a partir da análise de produções científicas relacionadas à Terapia Ocupacional e aos cuidados paliativos. A escolha pela revisão narrativa justifica-se pela possibilidade de reunir e discutir diferentes perspectivas presentes na literatura acerca da atuação do terapeuta ocupacional no contexto dos cuidados paliativos, permitindo uma compreensão ampla dos desafios, das possibilidades de intervenção e das contribuições desse profissional para a assistência à saúde. Foram considerados artigos científicos publicados em periódicos especializados, com destaque para estudos brasileiros que abordam a atuação do terapeuta ocupacional em diferentes contextos de atenção à saúde, incluindo ambientes hospitalares, domiciliares, serviços de saúde mental e unidades destinadas aos cuidados paliativos. Também foram consideradas produções que discutem a participação da Terapia Ocupacional no cuidado de pessoas com doenças crônicas, progressivas e ameaçadoras da vida, bem como estudos relacionados à qualidade de vida, autonomia, independência e participação ocupacional. A seleção dos estudos teve como foco produções que apresentassem relação direta com a prática da Terapia Ocupacional em cuidados paliativos. Foram priorizados trabalhos que discutissem estratégias de intervenção terapêutico-ocupacional, manejo de sintomas, preservação da funcionalidade, promoção da autonomia e manutenção das atividades significativas para o paciente. Também foram considerados aspectos relacionados ao suporte aos familiares e cuidadores, à adaptação das atividades e do ambiente, à comunicação com a equipe multiprofissional e à atuação diante das mudanças provocadas pelo processo de adoecimento e pela terminalidade. Entre os estudos analisados, destaca-se a revisão integrativa de Yamasaki e Bombarda, que investigou a produção científica sobre a atuação de terapeutas ocupacionais em cuidados paliativos e identificou aspectos relacionados ao controle de sintomas, manutenção da funcionalidade e independência, qualidade de vida e dificuldades na prática paliativa. Esses aspectos são relevantes para a compreensão da Terapia Ocupacional como uma área que busca favorecer a participação do indivíduo em atividades significativas, considerando suas necessidades, desejos, limitações e possibilidades ao longo do processo de adoecimento. A análise da literatura também considerou os desafios encontrados pelos terapeutas ocupacionais no desenvolvimento de suas práticas. Entre eles, destacam-se a necessidade de formação específica em cuidados paliativos, a complexidade das condições clínicas apresentadas pelos pacientes, a necessidade de atuação integrada com diferentes profissionais da saúde e a dificuldade de estabelecer intervenções diante da progressão da doença e da proximidade da morte. Nesse sentido, a prática do terapeuta ocupacional exige uma abordagem individualizada e centrada na pessoa, respeitando seus valores, preferências, história de vida e prioridades de cuidado. Além disso, foram analisadas as contribuições da Terapia Ocupacional para a promoção do conforto e da qualidade de vida, considerando que, nos cuidados paliativos, os objetivos terapêuticos podem ser modificados conforme a evolução do quadro clínico. A intervenção pode envolver adaptações para facilitar a realização das atividades de vida diária, conservação de energia, posicionamento, adequação ambiental, utilização de recursos de tecnologia assistiva e manutenção de atividades que possuam significado para o paciente. A análise dos estudos foi realizada de forma descritiva e interpretativa, buscando identificar os principais temas relacionados à atuação da Terapia Ocupacional nos cuidados paliativos. Os achados foram organizados a partir de eixos temáticos, contemplando os benefícios da intervenção terapêutico-ocupacional, os desafios encontrados na prática profissional, a manutenção da autonomia e funcionalidade, a qualidade de vida, o controle de sintomas e a atuação junto à família e à equipe multiprofissional. Dessa forma, a metodologia adotada possibilitou reunir diferentes contribuições da literatura e compreender, de maneira abrangente, os desafios e as possibilidades da prática do terapeuta ocupacional nos cuidados paliativos. A revisão buscou evidenciar a importância desse profissional na assistência integral à pessoa, considerando não apenas os aspectos físicos da doença, mas também as dimensões emocionais, sociais, familiares e ocupacionais envolvidas no processo de cuidado.
4. TERAPIA OCUPACIONAL NOS CUIDADOS PALIATIVOS
A Terapia Ocupacional compreende o indivíduo a partir de sua relação com as ocupações, com o ambiente e com os diferentes contextos nos quais está inserido. No contexto dos cuidados paliativos, essa perspectiva torna-se especialmente relevante, uma vez que o processo de adoecimento pode provocar mudanças significativas na rotina, nos papéis ocupacionais, na autonomia, na independência e na capacidade de participação do indivíduo em atividades que fazem parte de sua vida cotidiana. Diante dessas transformações, o terapeuta ocupacional busca compreender a pessoa para além de sua condição clínica, considerando sua história de vida, seus valores, preferências, necessidades e atividades que possuem significado pessoal. A intervenção terapêutico-ocupacional deve partir da compreensão de que, mesmo diante de limitações funcionais e da progressão da doença, o indivíduo permanece como sujeito ativo de suas escolhas e pode continuar participando de experiências significativas. Nesse sentido, a atuação do terapeuta ocupacional nos cuidados paliativos não está necessariamente voltada para a recuperação ou ampliação da capacidade funcional. O foco pode estar na manutenção das habilidades existentes, na adaptação das atividades, na conservação de energia, na redução de desconfortos e na criação de estratégias que possibilitem ao paciente realizar atividades importantes dentro de suas condições clínicas. O objetivo é favorecer a autonomia possível, o conforto, a dignidade e a participação ocupacional, respeitando os limites e as prioridades estabelecidas pela própria pessoa. O raciocínio clínico da Terapia Ocupacional nesse contexto deve considerar os objetivos do paciente e as possibilidades reais de intervenção. Assim, o profissional precisa avaliar continuamente as mudanças decorrentes da evolução da doença e adequar suas estratégias às necessidades apresentadas em cada momento. Essa abordagem contribui para evitar que o cuidado seja centrado exclusivamente na recuperação de funções, priorizando, quando necessário, a qualidade da experiência vivenciada pelo paciente e a preservação de atividades que apresentem significado em sua vida. As intervenções podem envolver diferentes áreas da ocupação humana, como alimentação, higiene pessoal, vestuário, mobilidade, comunicação, descanso e sono, lazer, espiritualidade, participação social, interação com familiares e amigos, atividades domésticas e outras ocupações significativas. Essas atividades podem ser mantidas, modificadas, simplificadas ou substituídas de acordo com as condições clínicas, os níveis de energia, as capacidades funcionais e os desejos do paciente. A adaptação das atividades e do ambiente constitui uma importante possibilidade de intervenção. O terapeuta ocupacional pode propor modificações na forma de realizar determinadas tarefas, orientar familiares e cuidadores, indicar recursos de tecnologia assistiva e adaptar objetos e espaços para facilitar a participação do paciente. Essas estratégias podem contribuir para reduzir o esforço durante as atividades, promover maior segurança e possibilitar que a pessoa mantenha algum nível de autonomia, mesmo diante da progressão das limitações. Outro aspecto importante refere-se à conservação de energia e ao gerenciamento da fadiga. Em situações nas quais o paciente apresenta redução da resistência física, dor, dispneia ou outros sintomas que interferem na realização das atividades, o terapeuta ocupacional pode auxiliar na organização da rotina, priorizando atividades significativas e estabelecendo períodos adequados de descanso. Dessa maneira, busca-se equilibrar as demandas ocupacionais com as condições físicas e emocionais do indivíduo. A Terapia Ocupacional também pode contribuir para a manutenção dos vínculos afetivos e sociais. Atividades compartilhadas com familiares, momentos de lazer, comunicação, participação em eventos importantes e realização de experiências que tenham valor afetivo podem ser incorporados ao plano terapêutico. Nessa perspectiva, a ocupação pode assumir um papel importante na expressão da identidade, na manutenção dos vínculos e na construção de experiências significativas durante o processo de adoecimento. Além disso, a atuação do terapeuta ocupacional pode estender-se aos familiares e cuidadores, especialmente quando estes assumem papel importante na assistência cotidiana. A orientação quanto às formas de auxiliar nas atividades, ao posicionamento, às adaptações ambientais e à organização da rotina pode contribuir para proporcionar maior segurança e conforto ao paciente e, ao mesmo tempo, reduzir dificuldades enfrentadas pelos cuidadores. É importante destacar que a atuação em cuidados paliativos exige uma abordagem individualizada e integrada à equipe multiprofissional. O terapeuta ocupacional deve estabelecer comunicação com profissionais de diferentes áreas, compartilhando informações e contribuindo para a construção de um plano de cuidado que considere as dimensões física, emocional, social, familiar e ocupacional do paciente. Dessa forma, a Terapia Ocupacional nos cuidados paliativos amplia a compreensão do cuidado para além do controle da doença e da manutenção de funções. Sua contribuição está relacionada à possibilidade de preservar, adaptar ou ressignificar ocupações importantes para o indivíduo, favorecendo conforto, autonomia possível, participação e qualidade de vida. Mesmo diante de limitações progressivas, o foco permanece na pessoa, em sua singularidade e naquilo que atribui significado à sua existência.
5. PRINCIPAIS DESAFIOS DA PRÁTICA PROFISSIONAL
5.1. Formação Profissional
Um dos principais desafios está relacionado à formação do terapeuta ocupacional para atuar diante da terminalidade e do processo de morte e morrer.
A formação acadêmica tradicional pode apresentar maior ênfase na reabilitação, recuperação funcional e independência. Entretanto, nos cuidados paliativos, nem sempre é possível ou desejável buscar a recuperação funcional. Em determinadas situações, o objetivo principal passa a ser proporcionar conforto, preservar a dignidade, favorecer experiências significativas e reduzir o sofrimento.
Estudos apontam a necessidade de atualização tanto da prática profissional quanto dos currículos educacionais relacionados aos cuidados paliativos e à Terapia Ocupacional. Portanto, a formação deve contemplar conhecimentos sobre cuidados paliativos, comunicação, manejo de sintomas, luto, processo de morte e morrer, ética, espiritualidade, atuação interdisciplinar e apoio aos familiares.
5.2. Mudança dos Objetivos Terapêuticos
Outro desafio importante consiste na mudança da lógica de intervenção.
Na reabilitação convencional, frequentemente se busca recuperar funções e ampliar a independência. Nos cuidados paliativos, entretanto, a intervenção precisa ser ajustada às condições clínicas, aos desejos e às prioridades da pessoa.
O terapeuta ocupacional deve reconhecer quando determinada atividade deixa de ser funcionalmente viável e buscar alternativas que preservem seu significado. Uma atividade pode ser simplificada, adaptada ou realizada com auxílio de outra pessoa.
Essa mudança exige do profissional capacidade de raciocínio clínico, flexibilidade e compreensão de que pequenas experiências ocupacionais podem representar importantes ganhos de qualidade de vida.
5.3. Controle e Manejo de Sintomas
Dor, fadiga, fraqueza, dispneia, alterações cognitivas, ansiedade e outros sintomas podem comprometer significativamente a participação ocupacional.
Nesse contexto, o terapeuta ocupacional pode utilizar estratégias não farmacológicas, adaptações ambientais, técnicas de conservação de energia, posicionamento, organização da rotina e modificação das atividades.
Entretanto, o manejo dos sintomas exige conhecimento clínico e integração permanente com os demais profissionais da equipe. A atuação do terapeuta ocupacional deve ocorrer dentro de suas competências profissionais e de maneira articulada ao plano terapêutico multiprofissional.
5.4. Preservação da Autonomia
A perda progressiva da capacidade funcional pode provocar dependência e mudanças nos papéis ocupacionais. Essa situação pode afetar a autoestima, a identidade e o sentimento de autonomia.
O desafio do terapeuta ocupacional é identificar aquilo que o paciente ainda consegue realizar e possibilitar sua participação dentro dos limites existentes.
A autonomia, nesse contexto, não significa necessariamente realizar uma atividade sem ajuda. Pode significar participar da escolha da roupa, decidir o que comer, escolher uma atividade de lazer, organizar seus objetos pessoais ou expressar suas preferências.
Portanto, preservar a autonomia também significa preservar o direito de escolha e a participação nas decisões relacionadas à própria vida.
5.5. Atuação com Familiares e Cuidadores
Os cuidados paliativos também afetam significativamente os familiares e cuidadores. A necessidade de assistência contínua pode modificar a rotina familiar, aumentar a sobrecarga e reduzir a participação dos cuidadores em suas próprias ocupações.
Estudos relacionados à Terapia Ocupacional apontam mudanças importantes na organização da rotina dos cuidadores de pessoas em cuidados paliativos, demonstrando a necessidade de considerar também suas demandas ocupacionais.
Nesse sentido, o terapeuta ocupacional pode orientar os familiares quanto às adaptações das atividades, organização da rotina, posicionamento, utilização de recursos auxiliares e estratégias para facilitar o cuidado.
Além disso, deve reconhecer os limites do cuidador e estimular uma divisão adequada das responsabilidades sempre que possível.
5.6. Atuação Interdisciplinar
Os cuidados paliativos exigem atuação integrada de diferentes profissionais. O terapeuta ocupacional deve estabelecer comunicação efetiva com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, assistentes sociais, fonoaudiólogos e demais integrantes da equipe.
A atuação interdisciplinar possibilita uma compreensão ampliada das necessidades do paciente e evita intervenções fragmentadas.
Entretanto, a delimitação das competências profissionais pode constituir um desafio, especialmente em serviços nos quais a Terapia Ocupacional ainda não está consolidada. A divulgação das contribuições específicas da profissão é, portanto, fundamental para fortalecer sua inserção nas equipes de cuidados paliativos.
5.7. Escassez de Evidências Científicas
A produção científica específica sobre Terapia Ocupacional em cuidados paliativos ainda apresenta limitações.
Uma revisão de escopo identificou poucas evidências sobre o perfil dos terapeutas ocupacionais e destacou desafios relacionados à atualização da prática, formação curricular e necessidade de novas pesquisas capazes de demonstrar a eficácia das intervenções sobre desempenho ocupacional e qualidade de vida.
Essa limitação dificulta a construção de protocolos específicos e a consolidação de práticas baseadas em evidências.
Consequentemente, é necessário ampliar pesquisas nacionais, estudos clínicos, estudos qualitativos e pesquisas que avaliem os resultados das intervenções da Terapia Ocupacional nos diferentes cenários de cuidados paliativos.
6. HUMANIZAÇÃO E SIGNIFICADO DAS OCUPAÇÕES
Um dos principais diferenciais da Terapia Ocupacional nos cuidados paliativos está na valorização do significado das ocupações e na compreensão do indivíduo para além de sua condição clínica. Nesse contexto, as ocupações não são consideradas apenas atividades que precisam ser realizadas, mas experiências que podem estar relacionadas à identidade, à história de vida, aos vínculos afetivos, aos valores e às formas pelas quais cada pessoa atribui sentido à própria existência. O processo de adoecimento e a progressão de uma doença podem provocar mudanças profundas na rotina e na participação ocupacional. Atividades anteriormente realizadas de forma independente podem tornar-se difíceis ou até mesmo inviáveis. Entretanto, a perda ou redução da capacidade funcional não significa necessariamente a perda da possibilidade de vivenciar experiências significativas. Diante dessas mudanças, a Terapia Ocupacional busca identificar quais ocupações permanecem importantes para a pessoa e de que maneira podem ser mantidas, adaptadas ou ressignificadas. Atividades aparentemente simples podem adquirir grande importância no contexto dos cuidados paliativos. Ouvir uma música significativa, conversar com familiares, escrever uma carta, participar de uma refeição, cuidar de um objeto pessoal, observar fotografias, assistir a um programa de televisão, realizar atividades manuais, receber visitas ou participar de práticas religiosas e espirituais podem representar momentos de prazer, pertencimento, expressão e conexão com outras pessoas. Nesse sentido, a intervenção terapêutico-ocupacional deve considerar a singularidade de cada indivíduo. O terapeuta ocupacional precisa conhecer sua história de vida, seus hábitos, papéis ocupacionais, interesses, crenças, relações familiares e preferências, buscando compreender quais experiências são consideradas importantes pelo próprio paciente. Essa compreensão permite que o planejamento terapêutico seja construído de maneira individualizada e coerente com seus desejos e possibilidades. A humanização do cuidado está relacionada, portanto, à valorização da pessoa como sujeito de direitos, escolhas e desejos, mesmo diante de uma condição de saúde que imponha limitações. Em vez de direcionar o cuidado exclusivamente para a doença ou para aquilo que foi perdido, a Terapia Ocupacional pode concentrar sua atenção nas capacidades preservadas e nas possibilidades existentes em cada momento do processo de adoecimento. Outro aspecto relevante é a preservação da autonomia. Nos cuidados paliativos, autonomia não deve ser compreendida apenas como a capacidade de realizar uma atividade sem ajuda, mas também como a possibilidade de participar das decisões relacionadas ao próprio cuidado. Dessa forma, permitir que o paciente escolha o que deseja fazer, como deseja realizar determinada atividade, com quem deseja compartilhar determinado momento ou quais experiências considera prioritárias constitui uma forma de respeitar sua individualidade e seus valores. A manutenção de ocupações significativas também pode contribuir para a preservação da identidade. Quando a doença modifica papéis e rotinas, existe o risco de que a pessoa passe a ser percebida apenas a partir de sua condição de paciente. A Terapia Ocupacional pode contribuir para ampliar essa perspectiva, reconhecendo que o indivíduo continua exercendo diferentes papéis, como familiar, amigo, trabalhador, cuidador, membro de uma comunidade ou participante de um grupo religioso, mesmo quando sua capacidade de desempenhá-los sofre alterações. Além disso, as ocupações podem favorecer a manutenção dos vínculos afetivos. Atividades realizadas em conjunto com familiares e pessoas significativas podem proporcionar oportunidades de comunicação, expressão de sentimentos e compartilhamento de memórias. Em determinadas situações, quando a realização de uma atividade já não é possível da mesma maneira, podem ser utilizadas adaptações ou novas formas de participação, permitindo que o paciente continue envolvido em experiências que considera importantes. A espiritualidade também pode estar presente nesse processo, especialmente quando possui significado para o paciente. Práticas religiosas, momentos de oração, leitura de textos espirituais, participação em celebrações ou outras formas de expressão da espiritualidade podem ser incorporadas ao cuidado quando desejadas pela pessoa. Cabe ao terapeuta ocupacional respeitar diferentes crenças e escolhas, sem impor valores ou práticas, reconhecendo a espiritualidade como uma dimensão que pode fazer parte da experiência individual de adoecimento. Dessa maneira, a intervenção terapêutico-ocupacional passa a ser construída não apenas a partir daquilo que o paciente consegue realizar, mas também daquilo que deseja vivenciar. O foco deixa de estar exclusivamente na recuperação de capacidades e passa a incluir a criação de possibilidades para que a pessoa continue participando de experiências que considera significativas, dentro de suas condições e prioridades. Essa perspectiva está diretamente relacionada aos princípios dos cuidados paliativos, que valorizam a qualidade de vida, o alívio do sofrimento, a dignidade e o respeito às escolhas do indivíduo. Ao reconhecer o significado das ocupações e adaptar suas intervenções às necessidades e desejos de cada pessoa, a Terapia Ocupacional contribui para uma assistência mais humanizada, integral e centrada na pessoa.Portanto, humanizar o cuidado, no contexto da Terapia Ocupacional, significa reconhecer que mesmo diante das limitações impostas pela doença, existem possibilidades de escolha, participação, expressão e construção de significado. O trabalho do terapeuta ocupacional consiste em identificar essas possibilidades e criar, juntamente com o paciente e sua rede de apoio, estratégias que favoreçam experiências significativas e contribuam para uma vida com maior qualidade e dignidade durante o processo de cuidados paliativos.
7. DISCUSSÃO
A análise da literatura demonstra que a Terapia Ocupacional possui importante potencial de contribuição nos cuidados paliativos, especialmente nas áreas relacionadas à qualidade de vida, autonomia, participação, desempenho ocupacional, adaptação das atividades e orientação aos familiares.
Entretanto, a consolidação dessa atuação ainda depende da superação de diferentes barreiras. Entre elas destacam-se a formação insuficiente, a necessidade de maior reconhecimento profissional, a escassez de pesquisas específicas e as dificuldades relacionadas à inserção do terapeuta ocupacional em equipes especializadas.
A literatura demonstra também que a atuação deve ser adaptada às necessidades individuais. Em vez de utilizar protocolos rígidos, o terapeuta ocupacional precisa realizar avaliação contínua e considerar as condições clínicas, emocionais, familiares e ocupacionais do paciente.
Estudos brasileiros reforçam a importância da manutenção de atividades significativas, preservação de funções e utilização de estratégias não farmacológicas para o controle de sintomas.
Dessa forma, a Terapia Ocupacional pode ocupar um espaço importante na equipe paliativa, contribuindo para que o cuidado não seja direcionado exclusivamente à doença, mas à pessoa e à sua experiência de vida.
8. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os cuidados paliativos apresentam desafios específicos para a Terapia Ocupacional, pois exigem uma mudança na perspectiva tradicional de intervenção. O objetivo deixa de estar exclusivamente relacionado à recuperação funcional e passa a priorizar conforto, qualidade de vida, autonomia possível, participação e significado das ocupações.
Entre os principais desafios identificados estão a necessidade de formação específica, o manejo de sintomas, a adaptação das atividades, a preservação da autonomia, o acompanhamento de familiares e cuidadores, a atuação interdisciplinar e a escassez de evidências científicas.
Apesar dessas dificuldades, a Terapia Ocupacional apresenta importante contribuição para uma assistência centrada na pessoa. A partir da compreensão das ocupações e de seus significados, o profissional pode auxiliar o paciente a manter experiências importantes, participar de decisões e realizar atividades compatíveis com suas condições e desejos.
Conclui-se que o fortalecimento da Terapia Ocupacional nos cuidados paliativos depende da ampliação da formação acadêmica e profissional, do desenvolvimento de pesquisas e da maior inserção dos terapeutas ocupacionais nas equipes multiprofissionais. Investir nessa área significa ampliar as possibilidades de cuidado humanizado e contribuir para que a pessoa em cuidados paliativos tenha sua dignidade, autonomia e história de vida respeitadas até o final da vida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BALTazar, C. R.; PESTANA, C.; SANTANA, M. A. Contributo da intervenção da terapia ocupacional nos cuidados paliativos. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional.
GOMES, M. C. V.; NASCIMENTO, J. S.; BOMBARDA, T. B. Caracterização da atuação dos terapeutas ocupacionais em cuidados paliativos no Brasil. Medicina (Ribeirão Preto), 2025. DOI: 10.11606/issn.2176-7262.rmrp.2025.222409.
OTHERo, M. B. Raciocínio clínico em terapia ocupacional no campo da reabilitação: um modelo a partir do referencial dos cuidados paliativos. Revista de Terapia Ocupacional da Universidade de São Paulo, 2023. DOI: 10.11606/issn.2238-6149.v32i1-3pe206041.
PORTELA, S. G.; GALHEIGO, S. M. Cuidados paliativos na atenção domiciliar: a perspectiva de terapeutas ocupacionais. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional. DOI: 10.4322/0104-4931.ctoAO472.
SILVA, A. A.; OLIVEIRA, I. B. S.; OLIVEIRA, L. S. M.; OMURA, K. M. Transtornos mentais crônicos e cuidados paliativos: a prática de terapeutas ocupacionais. Revista Família, Ciclos de Vida e Saúde no Contexto Social, 2021. DOI: 10.18554/refacs.v9i0.5655.
TREVISAN, A. R.; REKSUA, S.; ALMEIDA, W. D.; CAMARGO, M. J. G. A intervenção do terapeuta ocupacional junto às pessoas-hospitalizadas: adotando a abordagem dos cuidados paliativos. Cadernos Brasileiros de Terapia Ocupacional. DOI: 10.4322/2526-8910.ctoAO1263.
YAMASAKI, V. S.; BOMBARDA, T. B. A atuação da Terapia Ocupacional nos cuidados paliativos: revisão integrativa. Revista Família, Ciclos de Vida e Saúde no Contexto Social, v. 10, n. 3, p. 608-625, 2022. DOI: 10.18554/refacs.v10i3.6443.