OCORRÊNCIA DE CASOS DE SÍNDROME DE BURNOUT NOTIFICADOS DE 2019 A 2025 NO ESTADO DO CEARÁ
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18776585
Maria Edileuda Liberato Portella1
Jorge Luis de Paula2
Maria Gessiane de Queiroz Martins3
Maria Gleiciane de Queiroz Martins4
José Jackson do Nascimento Costa5
Roberta Lomonte Lemos de Brito6
Danielle Rocha do Val7
RESUMO
A Síndrome de Burnout é definida como um distúrbio psíquico associado ao trabalho, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização pessoal. Ela surge em resposta ao estresse ocupacional crônico, especialmente em contextos de alta demanda e baixa recompensa, afetando negativamente tanto a saúde física quanto mental dos indivíduos. O presente artigo tem como objetivo avaliar o perfil epidemiológico dos casos notificados Síndrome de Burnout no Ceará entre 2019 e 2025. Trata-se de um estudo epidemiológico, ecológico, com abordagem quantitativa. Foi realizado por meio da obtenção de dados sobre ano e mês de notificação, sexo, faixa etária, raça, grau de escolaridade, evolução no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Foram notificados 75 casos de Síndrome de Burnout no Estado do Ceará. No ano de 2024 foram notificados o maior número de casos (44%) e meses de janeiro e fevereiro apresentaram os maiores percentuais, cada um respondendo por (13,3%) do total de notificações. O gênero feminino teve maior frequência com (68%) das notificações, sendo a faixa etária de 35 a 49 anos a mais afetada com (48,6%). A população parda foi a mais acometida com (61,3%), o nível de escolaridade mais acometido foi ensino superior completo (34,7%) e a maioria evoluiu para incapacidade temporária para o trabalho, representando 54,7% dos registros. m conclusão, os achados deste estudo reforçam a relevância da Síndrome de Burnout como um importante problema de saúde ocupacional no Ceará, evidenciando perfis populacionais específicos mais vulneráveis, como mulheres, adultos em idade produtiva, indivíduos pardos e com maior escolaridade. Esses dados destacam a necessidade de estratégias de prevenção, intervenção e suporte voltadas à promoção da saúde mental no ambiente de trabalho, visando reduzir o impacto do Burnout na qualidade de vida e na capacidade laboral dos trabalhadores.
Palavras-chave: Saúde do trabalhador. Saúde mental. Esgotamento profissional. Doenças ocupacionais.
ABSTRACT
Burnout Syndrome is defined as a work-related psychological disorder characterized by emotional exhaustion, depersonalization, and decreased personal accomplishment. It arises in response to chronic occupational stress, especially in contexts of high demand and low reward, negatively affecting both the physical and mental health of individuals. This article aims to evaluate the epidemiological profile of reported cases of Burnout Syndrome in Ceará between 2019 and 2025. This is an epidemiological, ecological study with a quantitative approach. It was carried out by obtaining data on the year and month of notification, sex, age group, race, level of education, and evolution in the Notifiable Diseases Information System (SINAN). Seventy-five cases of Burnout Syndrome were reported in the State of Ceará. In 2024, the highest number of cases were reported (44%), with the months of January and February showing the highest percentages, each accounting for (13.3%) of the total notifications. Females were more frequent with (68%) of the notifications, with the age group from 35 to 49 years being the most affected with (48.6%). The brown population was the most affected with (61.3%), the most affected level of education was complete higher education (34.7%), and the majority evolved to temporary incapacity for work, representing 54.7% of the records. In conclusion, the findings of this study reinforce the relevance of Burnout Syndrome as an important occupational health problem in Ceará, highlighting specific population profiles that are more vulnerable, such as women, adults of working age, brown individuals, and those with higher education. These data highlight the need for prevention, intervention and support strategies aimed at promoting mental health in the workplace, aiming to reduce the impact of Burnout on workers' quality of life and work capacity.
Keywords: Occupational health. Mental health. Occupational exhaustion. Occupational diseases.
1. INTRODUÇÃO
A Síndrome de Burnout é um distúrbio psíquico associado ao contexto ocupacional, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e redução da realização profissional, sendo resultante da exposição prolongada a estressores crônicos no ambiente de trabalho. Essa condição manifesta-se por meio do esgotamento físico e mental, distanciamento afetivo das atividades laborais e sentimento de ineficácia, comprometendo não apenas o desempenho profissional, mas também a saúde global do trabalhador (COFEN, 2025).
O reconhecimento institucional da síndrome ocorreu com sua inclusão na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11) pela Organização Mundial da Saúde, que passou a classificá-la como um fenômeno ocupacional. Tal reconhecimento representa um marco importante na compreensão do impacto das condições de trabalho sobre a saúde mental, evidenciando que o sofrimento psíquico relacionado ao trabalho não deve ser interpretado apenas como fragilidade individual, mas como resultado de contextos organizacionais adversos, marcados por sobrecarga, pressão por produtividade, falta de reconhecimento e precarização das relações laborais (LIMA & COSTA, 2025).
Nas últimas décadas, transformações no mundo do trabalho, impulsionadas por mudanças econômicas, tecnológicas e organizacionais, têm intensificado demandas psicológicas e emocionais sobre os trabalhadores. A intensificação do ritmo produtivo, a insegurança laboral e a crescente responsabilização individual pelo desempenho têm contribuído para o aumento de transtornos relacionados ao estresse ocupacional, entre os quais a Síndrome de Burnout se destaca como um dos mais relevantes problemas contemporâneos de saúde do trabalhador (SILVA et. al., 2019).
No Brasil, a magnitude do problema tem se tornado cada vez mais evidente. Dados recentes indicam que cerca de 30% dos trabalhadores apresentam sintomas compatíveis com Burnout, colocando o país entre os que apresentam maior prevalência da síndrome em nível global (Cofen, 2025). Esse cenário aponta para a necessidade de compreensão mais aprofundada das condições que favorecem o adoecimento mental relacionado ao trabalho, especialmente em contextos onde há elevada carga emocional e responsabilidade social (RODRIGUES et. al., 2023).
Diversas categorias profissionais têm sido afetadas, com destaque para aquelas que atuam diretamente no cuidado de pessoas, como profissionais da saúde, educação e assistência social. Estudos nacionais evidenciam que a exposição contínua a demandas emocionais, somada à escassez de recursos institucionais e à sobrecarga de funções, contribui significativamente para o desenvolvimento da síndrome. Pesquisa realizada com profissionais da saúde bucal no Sistema Único de Saúde do município de Sobral, Ceará, revelou que, embora a prevalência global de Burnout tenha sido considerada baixa, 37,9% dos trabalhadores apresentaram baixa realização profissional e 22,1% demonstraram altos níveis de exaustão emocional (Silva et al., 2019). Esses achados indicam a presença de dimensões importantes da síndrome, mesmo quando o diagnóstico completo não está configurado.
Apesar do avanço das discussões sobre saúde mental no trabalho e do crescente reconhecimento do Burnout como um problema de saúde pública, ainda persistem lacunas no que se refere à compreensão de sua distribuição epidemiológica em diferentes contextos regionais. No estado do Ceará, em particular, observa-se a escassez de estudos que analisem sistematicamente os casos notificados da síndrome, o que dificulta a identificação de padrões de ocorrência, grupos mais vulneráveis e possíveis tendências temporais LIMA et. al., 2024).
A ausência de dados epidemiológicos consolidados limita a formulação de estratégias eficazes de prevenção e intervenção, comprometendo o desenvolvimento de políticas públicas voltadas à promoção da saúde mental dos trabalhadores. Nesse sentido, compreender o comportamento da síndrome a partir das notificações oficiais torna-se fundamental para subsidiar ações institucionais e orientar o planejamento em saúde do trabalhador (MARTINS et. al., 2023).
Diante desse contexto, emerge o seguinte problema de pesquisa: qual é o perfil epidemiológico dos casos notificados de Síndrome de Burnout no estado do Ceará no período de 2019 a 2025? A relevância desta investigação reside na possibilidade de contribuir para a ampliação do conhecimento sobre o adoecimento relacionado ao trabalho em nível regional, fornecendo subsídios para o fortalecimento das políticas de vigilância em saúde do trabalhador. Além disso, os resultados poderão auxiliar na identificação de grupos de risco e na proposição de medidas voltadas à melhoria das condições laborais e à prevenção do sofrimento psíquico associado ao trabalho (ALMEIDA & SOUZA 2021).
Assim, este estudo tem como objetivo avaliar o perfil epidemiológico dos casos notificados de Síndrome de Burnout no Ceará entre os anos de 2019 e 2025.
2. METODOLOGIA
Trata-se de um estudo epidemiológico do tipo ecológico, com abordagem quantitativa, realizado a partir da análise de dados secundários provenientes do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponibilizados pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS).
A população do estudo foi composta por todos os casos de Síndrome de Burnout notificados no estado do Ceará no período de 2019 a 2025. Foram incluídos todos os registros disponíveis no sistema que continham informações sobre a ocorrência da síndrome nesse intervalo temporal. Foram excluídos os registros com ausência de informações essenciais para análise das variáveis selecionadas.
A unidade de análise correspondeu aos casos notificados de Síndrome de Burnout registrados no SINAN. As variáveis analisadas incluíram: ano e mês de notificação, sexo, faixa etária, raça, grau de escolaridade e evolução do caso.
A coleta de dados foi realizada por meio de acesso à base pública do DATASUS, utilizando-se os filtros correspondentes ao agravo Síndrome de Burnout e ao recorte geográfico do estado do Ceará. Os dados foram organizados em planilhas eletrônicas no programa Microsoft Excel®, no qual também foram realizados os cálculos de frequência absoluta e relativa, além da construção dos gráficos para apresentação dos resultados.
Por se tratar de um estudo baseado exclusivamente em dados secundários, de domínio público e sem identificação dos indivíduos, não houve necessidade de submissão ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), conforme disposto na Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde.
3. RESULTADOS E DISCUSSÇÃO
Entre 2019 e 2025, foram notificados 75 casos de Síndrome de Burnout no Estado do Ceará, Brasil. A maioria dos casos ocorreu em 2024, com 33 notificações, ou seja, 44,00% dos registros (Gráfico 1).
Gráfico 1: Percentual de casos de Síndrome de Burnout notificados de 2019 a 2025 no Estado do Ceará, segundo o ano de notificação
A análise da distribuição mensal dos casos notificados de Síndrome de Burnout revelou que os meses de janeiro e fevereiro apresentaram os maiores percentuais, cada um respondendo por 13,3% do total de notificações. Logo em seguida, o mês de agosto destacou-se com 12% das ocorrências, demonstrando também um pico relevante no período pós-recesso de meio de ano. Por outro lado, o mês de junho foi o que apresentou o menor número de casos notificados, correspondendo a apenas 1,3% do total, o que pode estar relacionado a fatores sazonais, menor demanda laboral ou características específicas do calendário profissional local (Gráfico 2).
Gráfico 2: Percentual de casos de Síndrome de Burnout notificados de 2019 a 2025 no Estado do Ceará, segundo o mês de notificação.
Ao analisar o perfil dos casos notificados de Síndrome de Burnout entre os anos de 2019 a 2025 no estado do Ceará, observou-se uma predominância significativa do sexo feminino. Do total de 75 notificações, 68% (n = 51) referem-se a mulheres, enquanto 32% (n = 24) correspondem ao sexo masculino.
Gráfico 3: Percentual de casos de Síndrome de Burnout notificados de 2019 a 2025 no Estado do Ceará, segundo sexo.
O presente estudo foi possível observar que as pessoas com idade entre 35 e 49 anos foram as mais afetadas, com 36 casos notificados, representando 48,6% do total (Gráfico 4).
Gráfico 4: Percentual de casos de Síndrome de Burnout notificados de 2019 a 2025 no Estado do Ceará, segundo faixa etária
A análise dos casos notificados de Síndrome de Burnout segundo raça revelou que a maioria das ocorrências foi registrada entre indivíduos autodeclarados pardos, representando 61,3% do total. Em seguida, a população branca correspondeu a 22,7% das notificações, mostrando também um impacto relevante. Por outro lado, a população indígena apresentou o menor percentual, com apenas 1,3% dos casos registrados no período analisado (Gráfico 5).
Gráfico 5: Percentual de casos de Síndrome de Burnout notificados de 2019 a 2025 no Estado do Ceará, segundo raça.
Os dados analisados revelaram que, entre os casos notificados de Síndrome de Burnout no período avaliado, 34,7% dos indivíduos apresentavam escolaridade de ensino superior completo, configurando-se como o grupo mais afetado. Em seguida, os indivíduos com ensino médio completo representaram 32% das notificações. Esses resultados sugerem que o esgotamento ocupacional atinge especialmente profissionais com maior nível educacional, muitas vezes inseridos em cargos que demandam alta responsabilidade, longas jornadas e intensa pressão por resultados (Gráfico 6).
Gráfico 6: Percentual de casos de Síndrome de Burnout notificados de 2019 a 2025 no Estado do Ceará, segundo escolaridade.
Entre os casos notificados de Síndrome de Burnout no período analisado, observou-se que a maioria evoluiu para incapacidade temporária para o trabalho, representando 54,7% dos registros. Esse dado evidencia o impacto significativo do Burnout na saúde ocupacional, resultando em afastamentos e licenças médicas prolongadas. Por outro lado, apenas 4% dos casos evoluíram para cura, mostrando que a recuperação completa ainda é um desafio e muitas vezes exige intervenções prolongadas, acompanhamento psicológico e adaptações no ambiente laboral (Gráfico 7).
Gráfico 7: Percentual de casos de Síndrome de Burnout notificados de 2019 a 2025 no Estado do Ceará, segundo evolução.
Os dados deste estudo mostram que entre 2019 e 2025 foram notificados 75 casos de Síndrome de Burnout no Ceará, sendo que 44% ocorreram apenas em 2024. Esse aumento recente reflete tendências observadas em outros contextos nacionais e internacionais. Segundo Souza et al. (2023), após a pandemia de COVID-19, houve uma elevação acentuada nos casos de Burnout entre trabalhadores da saúde, educação e serviços, especialmente a partir de 2023. Da mesma forma, um estudo realizado por Gómez e Pérez (2022) na Espanha relatou um crescimento de 40% nas notificações de Burnout no ano de 2023, destacando fatores como aumento da carga de trabalho e estresse prolongado. Além disso, Lima et al. (2024) apontam que, no Brasil, há uma tendência de subnotificação em anos anteriores, com melhora nos registros apenas a partir de 2023, o que pode explicar parte do salto observado no Ceará em 2024.
A análise mensal dos casos de Síndrome de Burnout no Ceará, com picos em janeiro (13,3%), fevereiro (13,3%) e agosto (12%), está alinhada a padrões descritos na literatura, que destacam aumentos após períodos de férias ou recessos, quando há readaptação às demandas laborais (SILVA et al., 2023). Estudos como o de Fernández e Morales (2022), realizado na Argentina, observaram aumento significativo de Burnout no primeiro trimestre do ano, associado ao retorno às atividades após férias prolongadas. Além disso, Sato et al. (2024) apontaram que meses com menor sobrecarga laboral ou associados a recessos, como junho no Brasil, tendem a registrar menor incidência de casos, reforçando a influência do calendário profissional e das dinâmicas sazonais na distribuição temporal das notificações.
A predominância de mulheres entre os casos notificados de Síndrome de Burnout no Ceará (68%) é consistente com achados da literatura recente, que indicam maior vulnerabilidade feminina ao esgotamento ocupacional, especialmente em profissões marcadas por intensa demanda emocional, como saúde, educação e assistência social (RODRIGUES et al., 2023). Um estudo realizado por Souza e Almeida (2022), em profissionais da área da saúde, identificou que 70% dos casos diagnosticados de Burnout ocorreram em mulheres, atribuindo essa predominância a fatores como a dupla jornada de trabalho e as pressões sociais sobre o papel feminino. Além disso, pesquisa internacional conduzida por Kim e Lee (2021) reforça que mulheres relatam níveis mais elevados de exaustão emocional e despersonalização quando comparadas aos homens, sugerindo um padrão global na distribuição de risco para Burnout.
Os dados deste estudo indicam que indivíduos na faixa etária entre 35 e 49 anos foram os mais acometidos pela Síndrome de Burnout, correspondendo a 48,6% dos casos notificados. Essa tendência é corroborada por estudos recentes que apontam a idade produtiva como período de maior vulnerabilidade ao Burnout, devido às altas demandas profissionais e responsabilidades pessoais acumuladas (MARTINS et al., 2022; LIMA; SOUZA, 2021). Martins et al. (2022) destacam que a combinação do estresse ocupacional com pressões familiares torna esse grupo etário particularmente suscetível ao esgotamento emocional. Da mesma forma, pesquisa de Lima e Souza (2021) em profissionais da saúde reforça a prevalência elevada de Burnout entre adultos na faixa dos 30 aos 50 anos, evidenciando o impacto da sobrecarga de trabalho nessa fase da vida.
Os dados indicam uma maior prevalência de Síndrome de Burnout entre indivíduos autodeclarados pardos, com 61,3% dos casos notificados, seguida pela população branca com 22,7%, enquanto a população indígena apresentou o menor percentual (1,3%). Resultados semelhantes foram observados por Silva et al. (2023), que destacam a influência das desigualdades sociais e raciais na incidência de Burnout, especialmente em grupos raciais historicamente vulnerabilizados. Além disso, estudo de Oliveira e Santos (2021) reforça que a subnotificação em populações indígenas pode refletir barreiras no acesso à saúde e serviços de notificação, contribuindo para a menor representatividade desses grupos em dados oficiais.
Os resultados indicam que a maior proporção de casos de Síndrome de Burnout ocorreu entre indivíduos com ensino superior completo (34,7%), seguida daqueles com ensino médio completo (32%). Esse padrão corrobora achados de Souza et al. (2022), que evidenciam maior prevalência de Burnout em profissionais com maior escolaridade, atribuída à maior carga de responsabilidades e demandas psicológicas em funções de maior complexidade. De forma semelhante, Lima e Costa (2021) destacam que profissionais com formação superior enfrentam maior exposição a estressores ocupacionais, fator chave para o desenvolvimento da síndrome.
Os dados evidenciam que a maioria dos casos de Síndrome de Burnout evoluiu para incapacidade temporária (54,7%), corroborando estudos recentes que apontam o impacto significativo dessa condição na redução da capacidade laboral e aumento dos afastamentos (MARTINS et al., 2023; ALMEIDA; SOUZA, 2021). A baixa taxa de cura observada (4%) reflete a complexidade do tratamento e a necessidade de intervenções multidisciplinares para a recuperação completa, conforme destacado por Fernandes et al. (2022), que ressaltam a importância do suporte psicológico e das modificações no ambiente de trabalho para a reabilitação do paciente.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os achados deste estudo demonstram que a Síndrome de Burnout configurou-se como um importante agravo à saúde ocupacional no estado do Ceará entre 2019 e 2025, com aumento expressivo das notificações, especialmente no ano de 2024. Observou-se maior ocorrência entre mulheres, indivíduos na faixa etária produtiva de 35 a 49 anos e pessoas autodeclaradas pardas, evidenciando que fatores sociodemográficos exercem influência significativa na distribuição da síndrome. A predominância de casos entre indivíduos com ensino superior completo reforça a associação entre maiores níveis de responsabilidade profissional e maior exposição a estressores ocupacionais, contribuindo para o desenvolvimento do esgotamento emocional (MARTINS et al., 2022; RODRIGUES et al., 2023).
Além disso, o impacto da síndrome na capacidade laboral mostrou-se relevante, uma vez que grande parte dos casos evoluiu para incapacidade temporária para o trabalho, indicando prejuízos não apenas individuais, mas também organizacionais e sociais. Esse cenário reforça que o Burnout não deve ser compreendido apenas como um problema individual, mas como um fenômeno relacionado às condições de trabalho e às dinâmicas institucionais, exigindo estratégias que ultrapassem intervenções clínicas isoladas (ALMEIDA & SOUZA, 2021; MARTINS et al., 2023).
Nesse contexto, os resultados deste estudo evidenciam a necessidade de fortalecimento das políticas de vigilância em saúde do trabalhador, bem como da implementação de ações preventivas voltadas à promoção da saúde mental no ambiente laboral. Medidas como reorganização das cargas de trabalho, apoio psicossocial e melhoria das condições organizacionais podem contribuir para a redução do adoecimento e para a preservação da qualidade de vida dos trabalhadores (LIMA & COSTA, 2021).
Dessa forma, conclui-se que a análise do perfil epidemiológico dos casos notificados possibilita melhor compreensão da magnitude da Síndrome de Burnout no contexto regional, contribuindo para o direcionamento de políticas públicas e estratégias institucionais voltadas à prevenção do esgotamento ocupacional e à promoção da saúde mental no trabalho (LIMA et al., 2024).
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1 Docente do Curso Superior de Medicina e Discente do Mestrado em Ciências da Saúde no Semiárido do Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral, Ceará. E-mail: [email protected]
2 Discente do Mestrado em Ciências da Saúde no Semiárido do Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral, Ceará. Enfermeiro pela Universidade Estadual Vale do Acaraú – UVA. E-mail: [email protected]
3 Discente do Curso Superior de Medicina do Centro Universitário INTA (UNINTA) do Instituto Campus Sobral-CE. E-mail: [email protected]
4 Docente do Curso Superior de Medicina e Mestrado em Ciências da Saúde no Semiárido do Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral, Ceará. Doutora em Biotecnologia de Recursos Naturais (PPGBRN/UFC). E-mail: [email protected]
5 Docente do Curso de Bacharelado em Nutrição e Mestrado em Ciências da Saúde no Semiárido do Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral, Ceará. Doutor em Biotecnologia (RENORBIO/UFC). E-mail: [email protected]
6 Docente do Curso Superior de Medicina Veterinária da Universidade Estadual do Ceará. Doutora em Ciências Veterinárias pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP. E-mail: [email protected]
7 Docente do Curso de Bacharelado em Enfermagem e Mestrado em Ciências da Saúde no Semiárido do Centro Universitário INTA (UNINTA) Campus Sobral, Ceará. Doutora em Biotecnologia (RENORBIO/UFPE). E-mail: [email protected]