INTERVENÇÃO DA TERAPIA OCUPACIONAL EM CRIANÇAS COM PARALISIA CEREBRAL: IMPACTO NAS ATIVIDADES DA VIDA DIÁRIA (AVD)

OCCUPATIONAL THERAPY INTERVENTION IN CHILDREN WITH CEREBRAL PALSY: IMPACT ON ACTIVITIES OF DAILY LIVING (ADL)

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780253446

RESUMO
Objetivo: Analisar a importância da terapia ocupacional no tratamento de crianças com paralisia cerebral, destacando o impacto dessa intervenção profissional nas atividades da vida diária. Método: Trata-se de uma pesquisa básica, de natureza bibliográfica, desenvolvida a partir da análise de artigos científicos, livros e documentos técnicos disponíveis em bases de dados nacionais e internacionais, selecionados conforme sua relevância e atualidade. Utiliza-se de método indutivo, pesquisa explicativa e enfoque qualitativo. Resultados: Os resultados demonstram que a terapia ocupacional se mostra fundamental na promoção da autonomia funcional de crianças com paralisia cerebral, contribuindo para o aprimoramento das habilidades motoras, cognitivas e psicossociais necessárias à execução das atividades da vida diária. Observa-se que intervenções baseadas em abordagens centradas na criança, no contexto familiar e nas demandas ocupacionais favorecem ganhos significativos na independência, na participação social e na qualidade de vida. Conclusão: Isto posto, infere-se que a terapia ocupacional é relevante no processo de reabilitação.
Palavras-chaves: Atividades da Vida Diária; Paralisia Cerebral; Terapia Ocupacional.

ABSTRACT
Objective: To analyze the importance of occupational therapy in the treatment of children with cerebral palsy, highlighting the impact of this professional intervention on activities of daily living (ADL). Method: This is a basic research study of a bibliographic nature, developed through the analysis of scientific articles, books, and technical documents available in national and international databases, selected according to their relevance and timeliness. An inductive method was employed, with an explanatory research design and a qualitative approach. Results: The results demonstrate that occupational therapy plays a fundamental role in promoting the functional autonomy of children with cerebral palsy, contributing to the improvement of motor, cognitive, and psychosocial skills required for performing activities of daily living. It is observed that interventions based on child-centered approaches, family context, and occupational demands favor significant gains in independence, social participation, and quality of life. Conclusion: Thus, it is inferred that occupational therapy is highly relevant in the rehabilitation process of children with cerebral palsy, as its interventions positively impact occupational performance, promoting greater autonomy, functionality, and social inclusion.
Keywords: Activities of Daily Living; Cerebral Palsy; Occupational Therapy.

INTRODUÇÃO

A paralisia cerebral corresponde a uma condição neurológica não progressiva, caracterizada por alterações permanentes do movimento e da postura, resultantes de lesões ocorridas no cérebro em desenvolvimento, sendo que tais alterações repercutem de forma significativa no desempenho funcional da criança, especialmente nas atividades da vida diária, como alimentação, higiene, vestuário e mobilidade. Nas pegadas desse processo, a terapia ocupacional destaca-se como uma área essencial no cuidado integral à criança com paralisia cerebral, uma vez que tem como foco a promoção da autonomia, da funcionalidade e da participação ocupacional (Ferreira et al., 2021).

No âmbito da reabilitação infantil, a intervenção da terapia ocupacional é importante ao considerar não apenas os aspectos motores comprometidos, mas também os componentes cognitivos, sensoriais, emocionais e psicossociais envolvidos no desempenho ocupacional. Inserida em um contexto interdisciplinar, essa atuação se ancora em abordagens centradas na criança e na família, valorizando o ambiente, as rotinas e as demandas ocupacionais reais, o que potencializa os ganhos funcionais e favorece a inclusão social da criança com paralisia cerebral (Manzini et al., 2021).

Diante desse cenário, surge como problema o seguinte questionamento, o qual norteia a pesquisa: qual é o impacto da intervenção da terapia ocupacional no desempenho das atividades da vida diária de crianças com paralisia cerebral? Essa indagação norteia a investigação ao buscar compreender de que maneira as estratégias terapêuticas adotadas contribuem para a autonomia funcional e para a melhoria da qualidade de vida desse público.

Como possíveis respostas ao problema proposto, parte-se da premissa de que a terapia ocupacional exerce influência positiva sobre o desempenho das atividades da vida diária, ao favorecer o desenvolvimento de habilidades motoras, cognitivas e psicossociais. Ademais, supõe-se que intervenções fundamentadas em abordagens centradas na ocupação, no contexto familiar e nas necessidades individuais da criança promovem maior independência funcional, participação social e adaptação às demandas do cotidiano.

Dessa forma, o objetivo geral deste estudo é analisar a importância da terapia ocupacional no tratamento de crianças com paralisia cerebral, com ênfase no impacto dessa intervenção nas atividades da vida diária. Como objetivos específicos, busca-se identificar as principais contribuições da terapia ocupacional para a autonomia funcional dessas crianças, reconhecer as abordagens e estratégias terapêuticas mais utilizadas no contexto das atividades da vida diária e refletir sobre os efeitos dessas intervenções na participação social e na qualidade de vida.

A realização desta pesquisa justifica-se pela relevância científica e social do tema, considerando a alta prevalência da paralisia cerebral e os desafios enfrentados por crianças e famílias no desempenho das atividades cotidianas. Além disso, o estudo contribui para o fortalecimento do conhecimento teórico na área da terapia ocupacional, ao evidenciar práticas baseadas em evidências e ao subsidiar a atuação profissional voltada à promoção da funcionalidade, da inclusão e da autonomia.

O presente trabalho está estruturado da seguinte forma: a presente introdução, em seguida, lança-se à baila o método, com o percurso científica da pesquisa. Além disso, traz- se os resultados e discussão, com os achados do estudo. Por fim, tem-se as conclusão, com a síntese e fechamento das ideias elencadas.

MÉTODO

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa básica, a qual tem como finalidade ampliar e consolidar conhecimentos teóricos acerca de um determinado fenômeno, sem a pretensão imediata de aplicação prática ou intervenção direta na realidade que se estuda. Ora, esse tipo de pesquisa é adequado ao objetivo proposto, pois busca compreender e sistematizar os fundamentos conceituais e científicos relacionados à intervenção da terapia ocupacional em crianças com paralisia cerebral, especialmente no que concerne às atividades da vida diária (Marconi; Lakatos, 2017).

Em que concerne aos procedimentos técnicos, trata-se de uma revisão bibliográfica, desenvolvida a partir da análise de produções científicas já publicadas, como artigos, livros e documentos técnicos. A revisão bibliográfica possibilita o levantamento, a organização e a interpretação de diferentes perspectivas teóricas sobre o tema, permitindo a construção de uma visão contextualizada e integrada do conhecimento existente. Sua relevância reside no fato de reunir contribuições de diversos autores, favorecendo a compreensão do estado atual das discussões científicas acerca da terapia ocupacional no campo da reabilitação infantil.

No que se refere ao método de abordagem, adotou-se o método indutivo, por meio do qual, a partir das contribuições particulares de autores específicos, constroem-se constatações gerais sobre o impacto da intervenção da terapia ocupacional nas atividades da vida diária de crianças com paralisia cerebral. A pesquisa assume caráter explicativo, uma vez que busca compreender relações, fatores e implicações envolvidos no fenômeno estudado, indo além da simples descrição dos fatos apresentados na literatura.

O enfoque adotado é qualitativo, considerando que o interesse do estudo não se limita à quantificação de dados, mas à interpretação dos significados, das práticas e das abordagens descritas nos materiais analisados. Assim, pretende-se, na medida do possível, aprofundar a compreensão do fenômeno investigado, valorizando aspectos contextuais, funcionais e ocupacionais relacionados à atuação da terapia ocupacional.

Para a composição do corpus teórico, foram selecionados livros e artigos científicos provenientes de bibliotecas físicas e virtuais, bem como de bases de dados como SciELO e Google Acadêmico. O critério cronológico priorizou publicações dos últimos cinco anos, sendo a atualidade também verificada materialmente a partir da correspondência do conteúdo dos textos às demandas e práticas observadas na contemporaneidade. Os descritores utilizados nas buscas foram Terapia Ocupacional, Paralisia Cerebral e Atividades da Vida Diária.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A análise dos estudos selecionados permite compor uma leitura integrada sobre a intervenção da terapia ocupacional junto a crianças com paralisia cerebral, especialmente no que se refere às atividades da vida diária, sem perder de vista os contextos, os métodos e os horizontes de atuação descritos por cada autor. Duarte (2022) apresenta uma síntese panorâmica acerca do contributo da terapia ocupacional na implementação de sistemas aumentativos e alternativos de comunicação, evidenciando como tais recursos atravessam o cotidiano da criança e repercutem diretamente em sua autonomia comunicacional nas atividades rotineiras. Menezes (2024) desloca o foco para os elementos ambientais, discutindo barreiras e facilitadores à participação em atividades de recreação e lazer, o que amplia a compreensão das AVD ao situá-las em ambientes concretos e socialmente compartilhados. Cestari (2024), ao revisitar o referencial teórico-metodológico de Jô Benetton, oferece bases conceituais que sustentam práticas clínicas voltadas à singularidade da criança, contribuindo para uma leitura mais situada das intervenções ocupacionais. Mastropietro (2022) complementa esse conjunto ao discutir o método da terapia ocupacional dinâmica com crianças, destacando o cotidiano como espaço legítimo de negociação, aprendizagem e construção de autonomia funcional.

No segundo eixo, Missio (2022) descreve o processo de construção de uma tecnologia assistiva voltada ao auxílio nas atividades da vida diária, enfatizando a articulação entre necessidades concretas, adaptação de recursos e participação do sujeito no uso da tecnologia. Barros (2026) avança nessa discussão ao relatar a construção e utilização de um dispositivo de tecnologia assistiva para a alimentação de uma criança hipotônica, evidenciando como soluções contextualizadas podem favorecer maior independência em uma AVD específica. Táparo (2024), embora situada no campo da saúde mental infantojuvenil, contribui ao ampliar a compreensão dos fazeres da terapia ocupacional, ressaltando que aspectos emocionais e relacionais atravessam o desempenho ocupacional e influenciam, ainda que de modo indireto, a realização das atividades cotidianas.

No terceiro eixo, Almohalha (2023) discute estratégias e recursos empregados na estimulação precoce, sublinhando a relevância de intervenções iniciais para o desenvolvimento de habilidades que futuramente se expressam nas AVD. Melo (2023) traz uma reflexão sobre o estágio supervisionado em terapia ocupacional, permitindo compreender como a formação profissional dialoga com práticas voltadas ao cotidiano da criança e à construção de respostas terapêuticas coerentes com suas demandas. Parente (2024) aborda as terapias com equinos como estratégia complementar para indivíduos com paralisia cerebral, apontando efeitos sobre aspectos posturais, motores e relacionais que repercutem no desempenho funcional. Paulino (2024), por fim, retoma a estimulação precoce como estratégia para minimizar sequelas da paralisia cerebral, reforçando a importância de intervenções contínuas e articuladas desde os primeiros anos de vida para favorecer maior autonomia nas atividades diárias.

De forma articulada, os estudos analisados oferecem um panorama consistente das possibilidades de atuação da terapia ocupacional no campo da paralisia cerebral, evidenciando que as AVD não podem ser compreendidas de modo isolado, mas como práticas atravessadas por comunicação, ambiente, tecnologia, vínculos e processos formativos. O conjunto das contribuições permite sustentar uma leitura integrada, sensível às singularidades das crianças e às condições concretas de seu cotidiano. Tudo consoante o Quadro 1, que sintetiza o que se obteve nesta pesquisa:

Quadro 1 – Autores e contribuições para a pesquisa

Autor

contribuição para a pesquisa

correspondência ao objetivo específico

Duarte (2022)

análise do uso de sistemas aumentativos e alternativos de comunicação no cotidiano da criança com paralisia cerebral

identificar contribuições da terapia ocupacional para a autonomia funcional

Menezes (2024)

discussão sobre barreiras e facilitadores ambientais na participação em atividades de recreação e lazer

identificar contribuições da terapia ocupacional para a autonomia funcional

Cestari (2024)

fundamentação teórico-metodológica das intervenções em terapia ocupacional com crianças

identificar contribuições da terapia ocupacional para a autonomia funcional

Mastropietro (2022)

abordagem do método da terapia ocupacional dinâmica aplicada ao cotidiano infantil

identificar contribuições da terapia ocupacional para a autonomia funcional

Missio (2022)

descrição da construção de tecnologia assistiva voltada às atividades da vida diária

reconhecer abordagens e estratégias terapêuticas utilizadas nas AVD

Barros (2026)

relato de experiência sobre dispositivo de tecnologia assistiva para a alimentação

reconhecer abordagens e estratégias terapêuticas utilizadas nas AVD

Táparo (2024)

reflexão sobre os fazeres da terapia ocupacional na saúde mental infantojuvenil

reconhecer abordagens e estratégias terapêuticas utilizadas nas AVD

Almohalha (2023)

análise de estratégias de estimulação precoce empregadas por terapeutas ocupacionais

refletir sobre efeitos das intervenções na participação e qualidade de vida

Melo (2023)

discussão sobre estratégias didáticas no estágio supervisionado em terapia ocupacional

refletir sobre efeitos das intervenções na participação e qualidade de vida

Parente (2024)

análise das terapias com equinos como estratégia complementar na paralisia cerebral

refletir sobre efeitos das intervenções na participação e qualidade de vida

Paulino (2024)

abordagem da estimulação precoce para minimizar sequelas da paralisia cerebral

refletir sobre efeitos das intervenções na participação e qualidade de vida

Fonte: Dados da Pesquisa (2026).

À luz do quadro apresentado, observa-se que as contribuições dialogam entre si e com os objetivos específicos do estudo, compondo um mosaico teórico que sustenta a compreensão da terapia ocupacional como uma prática situada, atenta ao cotidiano e às condições reais de vida das crianças com paralisia cerebral. Essa articulação reforça a pertinência de análises que não se restrinjam a técnicas isoladas, mas considerem a complexidade das experiências ocupacionais ao longo do desenvolvimento infantil.

Como visto, o conjunto das produções analisadas permite observar que a intervenção da terapia ocupacional em crianças com paralisia cerebral tem sido descrita a partir de perspectivas que privilegiam o cotidiano, a adaptação às condições concretas de vida e a construção compartilhada das práticas terapêuticas. Ainda que os autores partam de recortes distintos, há uma convergência quanto à compreensão das atividades da vida diária como espaço privilegiado de observação, intervenção e avaliação do desempenho ocupacional.

Acerca disso, é pertinente trazer ao debate o seguinte dado:

Dados epidemiológicos internacionais indicam que a PC é a causa mais comum de deficiência física na infância, afetando aproximadamente 1,6 em cada 1.000 nascidos vivos em países de alta renda. Apesar das limitações dos dados, em países de baixa e média renda a prevalência de PC é de 3,4 por 1.000 nascidos vivos (Menezes; Curi; Jardi, 2022, p. 2).

Prosseguem os autores destacando que a paralisia cerebral corresponde a uma condição dotada de heterogeneidade etiológica e fisiopatológica (Menezes; Curi; Jardi, 2022). Assim como a origem é complexa, deve-se pensar que as estratégias de intervenção precisam ser diversificadas e dotadas de multidisciplinaridade.

Duarte (2022) introduz a discussão ao situar a comunicação como elemento transversal às AVD, evidenciando que a possibilidade de expressar desejos, necessidades e escolhas interfere diretamente na participação cotidiana da criança. Menezes (2024) amplia essa compreensão ao deslocar o olhar para os ambientes de recreação e lazer, mostrando que o desempenho ocupacional não pode ser analisado dissociado das condições físicas, sociais e atitudinais que o sustentam. Essa leitura encontra respaldo teórico em Cestari (2024), cuja revisão do referencial de Jô Benetton reforça a centralidade do cotidiano como espaço clínico legítimo, enquanto Mastropietro (2022) tensiona as práticas tradicionais ao propor uma atuação baseada na negociação constante do fazer diário.

No campo das estratégias práticas, Missio (2022) e Barros (2026) evidenciam que a tecnologia assistiva, quando construída de forma contextualizada, deixa de ser apenas um recurso compensatório e passa a integrar a rotina da criança, mediando sua relação com o ambiente e com as tarefas cotidianas. Táparo (2024), por sua vez, contribui ao evidenciar que os aspectos emocionais e relacionais atravessam o desempenho ocupacional, ainda que nem sempre estejam explicitamente associados às AVD. Almohalha (2023), Melo (2023), Parente (2024) e Paulino (2024) reforçam que os efeitos das intervenções descritas tendem a se distribuir ao longo do tempo, especialmente quando há continuidade do cuidado, articulação com a família e atenção ao desenvolvimento infantil desde os primeiros anos. Abaixo, no quadro 2, tem-se alguns eixos temáticos constatados na amostra selecionada:

Quadro 2 – Eixos temáticos predominantes nos estudos analisados

Autor

Eixo temático predominante

Duarte (2022)

comunicação funcional no cotidiano

Menezes (2024)

ambiente e participação

Cestari (2024)

fundamentos teórico-metodológicos da prática

Mastropietro (2022)

cotidiano como método terapêutico

Missio (2022)

tecnologia assistiva personalizada

Barros (2026)

alimentação e adaptação de recursos

Táparo (2024)

dimensões emocionais do cuidado

Almohalha (2023)

estimulação precoce

Melo (2023)

formação profissional e prática

Parente (2024)

estratégias corporais complementares

Paulino (2024)

continuidade das intervenções precoces

Fonte: Dados da Pesquisa (2026).

Este quadro evidencia que os estudos se organizam em torno de eixos que atravessam comunicação, ambiente, tecnologia, formação e desenvolvimento, compondo um panorama integrado das práticas contemporâneas em terapia ocupacional.

Abaixo, no Quadro 3, demonstram-se as atividades de vida diária que apareceram com certa frequência na literatura estudada.

Quadro 3 – Atividades da vida diária mais recorrentes nos estudos

Autor

atividades 

Duarte (2022)

comunicação no cotidiano

Menezes (2024)

lazer e participação social

Cestari (2024)

rotinas diárias e ocupações significativas

Mastropietro (2022)

organização do cotidiano infantil

Missio (2022)

mobilidade e uso de dispositivos

Barros (2026)

Alimentação

Táparo (2024)

autocuidado em interface com aspectos emocionais

Almohalha (2023)

atividades iniciais do desenvolvimento

Melo (2023)

atividades cotidianas como campo formativo

Parente (2024)

atividades influenciadas pelo controle postural

Paulino (2024)

atividades básicas da infância

Fonte: Dados da Pesquisa (2026).

A partir desse recorte, observa-se que as AVD são tratadas de forma ampliada, extrapolando tarefas isoladas e sendo compreendidas como práticas situadas, atravessadas por relações, contextos e processos de desenvolvimento. O Quadro 4 infra ilustra modalidades de intervenção descritas nas produções científicas.

Quadro 4 – Modalidades de intervenção descritas nos estudos

Autor

modalidade de intervenção

Duarte (2022)

mediação comunicacional

Menezes (2024)

adaptação Ambiental

Cestari (2024)

intervenção fundamentada em referenciais teóricos

Mastropietro (2022)

intervenção dinâmica no cotidiano

Missio (2022)

construção de tecnologia assistive

Barros (2026)

adaptação de dispositivos de alimentação

Táparo (2024)

intervenção psicossocial

Almohalha (2023)

estimulação precoce

Melo (2023)

intervenção mediada pela formação

Parente (2024)

terapias com equinos

Paulino (2024)

acompanhamento precoce e contínuo

Fonte: Dados da Pesquisa (2026).

Este quadro reforça a diversidade de modalidades de intervenção descritas, evidenciando que a terapia ocupacional se estrutura a partir de práticas flexíveis, ajustadas às condições concretas de cada criança e de seu contexto. Logo, o Quadro 5 traz os atores envolvidos nas intervenções pesquisadas.

Quadro 5 – Atores envolvidos nas intervenções descritas

Autor

Atores diretamente envolvidos

Duarte (2022)

criança e parceiros de comunicação

Menezes (2024)

criança, família e comunidade

Cestari (2024)

criança e terapeuta

Mastropietro (2022)

criança e terapeuta

Missio (2022)

usuário e terapeuta

Barros (2026)

criança, família e terapeuta

Táparo (2024)

criança, família e equipe

Almohalha (2023)

criança e família

Melo (2023)

estudante, supervisor e criança

Parente (2024)

criança, terapeuta e animal

Paulino (2024)

criança e família

Fonte: Dados da Pesquisa (2026).

A leitura desse conjunto evidencia que as intervenções raramente se concentram apenas na criança, sendo construídas a partir de relações múltiplas que atravessam o cuidado, a aprendizagem e o cotidiano.

CONCLUSÃO

A presente investigação partiu de uma inquietação recorrente no campo da reabilitação infantil, a saber, de que modo a intervenção da terapia ocupacional repercute no desempenho das atividades da vida diária de crianças com paralisia cerebral. Essa questão, longe de ser meramente técnica, convoca reflexões sobre cotidiano, autonomia, participação e modos de existir na infância marcada por limitações funcionais. Ao longo do estudo, buscou-se enfrentar essa indagação sem recorrer a simplificações, assumindo a complexidade que envolve tanto a condição clínica quanto as respostas terapêuticas possíveis.

A paralisia cerebral, enquanto condição não progressiva e heterogênea, impõe desafios que extrapolam o domínio motor e alcançam dimensões comunicacionais, sensoriais, emocionais e sociais. Diante disso, torna-se pertinente questionar se intervenções centradas apenas na correção de déficits seriam suficientes para produzir mudanças concretas no cotidiano dessas crianças. Os achados da pesquisa sugerem que não. O que se evidencia é a necessidade de abordagens que considerem a criança em interação constante com seus contextos de vida, suas rotinas e seus vínculos. Nesse sentido, a terapia ocupacional se apresenta como um campo de saber-fazer que se constrói na proximidade com o cotidiano. As atividades da vida diária deixam de ser vistas apenas como tarefas funcionais e passam a ser compreendidas como práticas carregadas de significado, mediadas por ambientes, relações e possibilidades concretas de participação. Essa mudança de olhar desloca o foco da normalização para a construção de modos possíveis de agir no mundo.

Retomar o objetivo geral deste estudo é fundamental neste momento. Analisar a importância da terapia ocupacional no tratamento de crianças com paralisia cerebral, com ênfase no impacto dessa intervenção nas atividades da vida diária, mostrou-se um propósito factível e alcançado. A literatura analisada permite afirmar que há uma relação consistente entre as intervenções da terapia ocupacional e melhorias no desempenho ocupacional cotidiano, ainda que essas melhorias não possam ser reduzidas a parâmetros únicos ou universais.

A pergunta que orientou a pesquisa, qual é o impacto da intervenção da terapia ocupacional no desempenho das atividades da vida diária de crianças com paralisia cerebral, encontra resposta direta nos resultados obtidos.

A intervenção da terapia ocupacional impacta o desempenho das AVD ao favorecer maior organização do cotidiano, ampliar possibilidades de participação, adaptar ambientes e recursos e sustentar processos de autonomia compatíveis com as condições singulares de cada criança.

Esse impacto, contudo, não se manifesta de forma homogênea. Ele depende da articulação entre estratégias terapêuticas, envolvimento familiar, condições ambientais e continuidade do cuidado. Tal constatação provoca uma reflexão incômoda, porém necessária, sobre práticas padronizadas e intervenções descoladas da realidade vivida pelas crianças. O estudo sugere que intervenções descontextualizadas tendem a produzir efeitos limitados no cotidiano. Outro ponto que merece destaque é o lugar ocupado pela tecnologia assistiva nas intervenções analisadas. Longe de ser compreendida como um recurso meramente compensatório, ela se configura como mediadora da ação, possibilitando que a criança amplie seu repertório de participação nas atividades diárias. Isso levanta a questão sobre o quanto os serviços de saúde e reabilitação estão preparados para investir em soluções construídas de forma artesanal, dialogada e situada.

As discussões também evidenciam que os aspectos emocionais e relacionais não podem ser tratados como elementos periféricos. O desempenho nas atividades da vida diária é atravessado por afetos, vínculos e experiências anteriores, o que exige do terapeuta ocupacional uma escuta qualificada e uma postura ética sensível às singularidades. Ignorar tais dimensões implica reduzir a intervenção a um conjunto de técnicas desprovidas de sentido para a criança.

A presença da família ao longo das intervenções aparece como um elemento recorrente e incontornável. O cotidiano infantil é compartilhado, e as atividades da vida diária são, em grande parte, vividas em contextos familiares. Assim, pensar a intervenção sem considerar esse núcleo relacional seria desconsiderar parte substantiva do problema e, consequentemente, das possíveis respostas terapêuticas.

Outro aspecto relevante diz respeito à formação profissional. As produções analisadas indicam que a atuação da terapia ocupacional em contextos tão complexos exige uma formação que articule teoria, prática e reflexão crítica. Isso suscita questionamentos sobre os currículos e os espaços formativos, especialmente no que se refere à preparação para lidar com o cotidiano real das crianças com paralisia cerebral.

A estimulação precoce, amplamente discutida na literatura, também se revela como um campo que demanda cautela. Mais do que antecipar marcos do desenvolvimento, trata- se de oferecer experiências que façam sentido no cotidiano da criança, respeitando seus tempos e possibilidades. A intervenção precoce, quando dissociada dessa perspectiva, corre o risco de se tornar apenas uma antecipação de exigências.

Ao longo deste estudo, torna-se evidente que a terapia ocupacional não opera isoladamente. Sua efetividade está relacionada à articulação com outros saberes e práticas, bem como à capacidade de dialogar com políticas públicas, serviços de saúde e educação. Esse dado conduz à reflexão sobre a necessidade de abordagens interdisciplinares que não se limitem à soma de especialidades, mas construam ações integradas.

Do ponto de vista científico, a pesquisa contribui ao sistematizar achados recentes e oferecer uma leitura integrada da produção acadêmica sobre o tema. Ainda assim, reconhece-se que se trata de uma revisão bibliográfica, o que impõe limites quanto à generalização dos resultados. Esse reconhecimento não fragiliza o estudo, mas delimita seu alcance e aponta caminhos possíveis.

Nesse sentido, sugere-se que pesquisas futuras avancem para estudos empíricos, especialmente de natureza qualitativa, que deem voz às crianças e às famílias, permitindo compreender como as intervenções são vivenciadas no cotidiano. Investigações longitudinais também podem contribuir para analisar os efeitos das intervenções ao longo do tempo, considerando as mudanças próprias do desenvolvimento infantil.

Também se mostra pertinente investir em estudos que analisem a interface entre terapia ocupacional, políticas públicas e acesso aos serviços, sobretudo em contextos de maior vulnerabilidade social. A reflexão sobre o impacto das intervenções não pode se furtar a discutir as condições materiais e institucionais que as tornam possíveis ou limitadas.

Destarte, este estudo reafirma que pensar a intervenção da terapia ocupacional em crianças com paralisia cerebral é, antes de tudo, pensar sobre modos de viver o cotidiano. As atividades da vida diária, longe de serem apenas tarefas a serem treinadas, constituem espaços de construção de sentido, participação e pertencimento. Reconhecer isso não encerra o debate, mas o mantém aberto, convidando profissionais, pesquisadores e gestores a repensarem continuamente suas práticas e escolhas.

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