REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779160243
RESUMO
O Implanon destaca-se como uma tecnologia eficaz e segura, capaz de liberar etonogestrel de maneira contínua, oferecendo proteção por até três anos e sendo amplamente recomendado por diretrizes nacionais e internacionais. Portanto, a seguinte pesquisa tem por objetivo, analisar a assistência do enfermeiro na inserção e no acompanhamento de mulheres usuárias do Implanon, com foco na segurança, adesão ao método e qualidade do cuidado prestado. Tratou-se de uma revisão integrativa da literatura. A pesquisa resultou em 4 artigos na SciELO, 96 na LILACS e 9 artigos na base de dado PubMed. Obedecendo os critérios de inclusão e exclusão, sendo selecionados 1 artigo na SciELO, 4 na LILACS e 2 na PubMed. Desta forma, restaram 7 artigos para análise desta revisão. Os achados desta revisão evidenciam que o enfermeiro desempenha papel fundamental tanto na inserção quanto no acompanhamento de mulheres usuárias de Implanon, contribuindo para a ampliação do acesso, melhoria da adesão e promoção da saúde reprodutiva. Entretanto, para que essa atuação seja efetiva, é imprescindível o investimento em educação permanente, organização dos serviços e fortalecimento das políticas públicas de saúde. Desta forma, pode-se concluir que a consolidação do uso do Implanon no sistema de saúde depende de uma abordagem integrada que envolva qualificação profissional, fortalecimento das políticas públicas, descentralização das práticas e respeito à autonomia das mulheres, contribuindo para a efetivação dos princípios da atenção integral à saúde reprodutiva.
Palavras-chave: Implanon; Implante contraceptivo; Planejamento familiar; Saúde da mulher; Atenção primária à saúde.
ABSTRACT
Implanon stands out as an effective and safe technology capable of continuously releasing etonogestrel, offering protection for up to three years and being widely recommended by national and international guidelines. Therefore, the objective of this study is to analyze nursing care in the insertion and follow-up of women using Implanon, focusing on safety, adherence to the method, and the quality of care provided. This was an integrative literature review. The search yielded 4 articles in SciELO, 96 in LILACS, and 9 articles in the PubMed database. Following the inclusion and exclusion criteria, 1 article was selected from SciELO, 4 from LILACS, and 2 from PubMed. Thus, 7 articles remained for analysis in this review. The findings of this review show that nurses play a key role in both the initial insertion and follow-up care for women using Implanon, contributing to expanded access, improved adherence, and the promotion of reproductive health. However, for this role to be effective, investment in continuing education, service organization, and the strengthening of public health policies is essential. Thus, it can be concluded that the consolidation of Implanon use within the healthcare system depends on an integrated approach that involves professional training, strengthening of public policies, decentralization of practices, and respect for women’s autonomy, thereby contributing to the implementation of the principles of comprehensive reproductive health care.
Keywords: Implanon; Contraceptive implant; Family planning; Women’s health; Primary health care.
1. INTRODUÇÃO
A ampliação do acesso a métodos contraceptivos eficazes constitui um avanço significativo na promoção da saúde sexual e reprodutiva feminina, especialmente no âmbito da saúde pública (Mendonça et al., 2024). Nesse contexto, os métodos contraceptivos reversíveis de longa duração vêm se consolidando como estratégias prioritárias, não apenas por sua elevada eficácia, mas também por reduzirem a dependência do uso contínuo pela usuária, contribuindo de forma consistente para a diminuição de gravidezes não planejadas e para o fortalecimento da autonomia reprodutiva das mulheres (WHO, 2022). Dentre esses métodos, destaca-se o implante contraceptivo subdérmico de etonogestrel (Implanon), que se configura como o objeto de estudo deste trabalho, em virtude de sua alta eficácia, longa duração e crescente inserção nos serviços de saúde (Bruzaca et al., 2025).
O Implanon destaca-se como uma tecnologia eficaz e segura, capaz de liberar etonogestrel de maneira contínua, oferecendo proteção por até três anos e sendo amplamente recomendado por diretrizes nacionais e internacionais (Bruzaca et al., 2025; WHO, 2022). Entretanto, sua efetividade não depende apenas de suas características farmacológicas, mas também da correta inserção e do acompanhamento adequado das usuárias. Embora seja um procedimento minimamente invasivo, a inserção exige conhecimento técnico e capacitação específica, sendo essencial para garantir a segurança e evitar complicações (Rohden, 2018).
Nesse contexto, destaca-se a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde (APS), que vai além da execução técnica, incluindo acolhimento, escuta qualificada e aconselhamento, promovendo um cuidado integral e centrado nas necessidades das usuárias (COFEN, 2022; WHO, 2022).
A assistência de enfermagem também abrange o acompanhamento contínuo das mulheres durante o uso do método, permitindo monitorar efeitos adversos, avaliar a adaptação e oferecer suporte frente a intercorrências, contribuindo para a continuidade e satisfação com o método (Silveira; Silva, 2025). Contudo, ainda persistem desafios relacionados à aceitação do Implanon, como dúvidas, inseguranças e mitos, especialmente sobre alterações menstruais e efeitos hormonais, que podem comprometer a adesão (COFEN, 2022).
Sendo assim, a atuação qualificada da enfermagem, baseada em conhecimento científico, comunicação eficaz e cuidado humanizado, é fundamental para garantir a inserção segura e o acompanhamento adequado das usuárias. A orientação clara, aliada ao acompanhamento sistemático, favorece a tomada de decisão consciente, aumenta a confiança no método e reduz o abandono precoce (COFEN, 2022; Manica; Nucci, 2017).
Nesse sentido, este estudo justifica-se pela crescente utilização do Implanon e pela necessidade de qualificar a assistência prestada às usuárias. Apesar de sua alta eficácia, sua segurança e continuidade dependem diretamente da atuação do enfermeiro, especialmente na APS.
Além disso, ainda existem lacunas na orientação e no acompanhamento, que podem resultar em inseguranças e abandono do método. Assim, investigar essa atuação é fundamental para fortalecer práticas mais seguras e humanizadas, contribuindo para a melhoria da qualidade do cuidado e das políticas de saúde da mulher.
Dessa forma, este estudo tem como objetivo geral analisar a assistência do enfermeiro na inserção e no acompanhamento de mulheres usuárias do Implanon, com foco na segurança, adesão ao método e qualidade do cuidado prestado.
2. METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, método que permite a síntese do conhecimento científico disponível e a incorporação de evidências na prática em saúde, sendo amplamente utilizado na área da enfermagem e saúde coletiva (Mendes; Silveira; Galvão, 2008).
A revisão integrativa foi realizada segundo as seis etapas metodológicas indicadas por Mendes, Silveira e Galvão (2008): formulação da questão norteadora, busca na literatura, coleta de dados, análise crítica dos estudos, discussão dos achados e apresentação da revisão.
A definição da questão norteadora é fundamental para direcionar a pesquisa, sendo estruturada de forma clara e objetiva. Neste estudo, adotou-se a seguinte questão: “O que se tem produzido sobre a assistência do enfermeiro na inserção e no acompanhamento de mulheres usuárias do Implanon?
A busca dos estudos foi realizada nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS) e National Library of Medicine (PubMed), amplamente utilizadas em revisões integrativas por reunirem produções científicas relevantes na área da saúde.
Foram utilizados descritores controlados extraídos dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), tais como: “Implanon”, “implante contraceptivo”, “planejamento familiar”, “saúde da mulher” e “atenção primária à saúde”, associados por meio dos operadores booleanos AND e OR, estratégia amplamente recomendada ampliar para a sensibilidade das buscas.
Como critérios de inclusão, foram selecionados artigos disponíveis na íntegra, publicados entre 2016 e 2026, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem a temática do implante contraceptivo. Foram excluídos estudos duplicados, revisões narrativas e aqueles que não respondiam à questão norteadora, conforme recomendado em revisões integrativas.
A seleção dos estudos ocorreu em etapas sequenciais: leitura de títulos, leitura de resumos e leitura completa dos artigos selecionados. Esse processo sistemático permite maior rigor metodológico e confiabilidade dos resultados obtidos. A exploração dos dados ocorreu por meio de abordagem descritiva e análise temática, o que possibilitou identificar categorias como inserção do Implanon, seguimento das usuárias, eventos adversos e adesão ao método.
3. RESULTADOS
A pesquisa resultou em 4 artigos na SciELO, 96 na LILACS e 9 artigos na base de dado PubMed. Obedecendo os critérios de inclusão e exclusão, sendo selecionados 1 artigo na SciELO, 4 na LILACS e 2 na PubMed. Desta forma, restaram 7 artigos para análise desta revisão (Figura 1).
Figura 1: Fluxograma de seleção dos artigos identificados através das bases de dados selecionadas.
O Quadro 1 apresenta uma síntese dos estudos selecionados com os nomes dos autores e ano de publicação, título, tipo de estudo, resultados e conclusão. Os estudos analisados evidenciam aspectos relevantes relacionados à inserção e ao acompanhamento de mulheres usuárias de Implanon por enfermeiros, destacando fatores como conhecimento profissional, capacitação, experiência das usuárias e organização dos serviços de saúde.
O estudo de Garrett et al. (2016) demonstrou que médicos de família apresentam maior conhecimento sobre métodos contraceptivos de longa duração quando comparados aos enfermeiros (59% vs. 33%; P < 0,01). Contudo, aproximadamente 70% de ambos os grupos concordaram que enfermeiros podem atuar no aconselhamento contraceptivo. Observou-se ainda resistência à inserção do implante por enfermeiros em áreas urbanas, indicando barreiras institucionais à ampliação desse papel.
De forma complementar, James et al. (2026) evidenciaram que, embora 90,4% dos enfermeiros reconheçam sua influência nas escolhas contraceptivas das mulheres, a prática de inserção de métodos de longa duração ainda é limitada, com apenas 15,9% realizando inserção de implantes. A experiência profissional (≥ 15 anos) e maior qualificação estiveram associadas a melhores níveis de conhecimento e maior realização de procedimentos, indicando a importância da capacitação contínua.
No que se refere à experiência das usuárias, o estudo de Mgobhozi, Mbeje e Mchunu (2021) apontou que, apesar da eficácia do método, os efeitos colaterais, como sangramento intenso, dor, insônia, perda de peso e diminuição da libido, impactam negativamente a continuidade do uso, levando muitas mulheres à descontinuação, embora algumas permaneçam utilizando o método.
Corroborando a importância do acompanhamento em saúde, Rebouças et al. (2019) verificaram que a maioria das usuárias (91,5%) possuía conhecimento adequado sobre a ausência de proteção contra infecções sexualmente transmissíveis. Entretanto, apenas 35,8% apresentaram conhecimento moderado sobre efeitos colaterais, sendo o nível de escolaridade um fator associado ao conhecimento inadequado, o que reforça a necessidade de ações educativas realizadas pelos profissionais de saúde, especialmente enfermeiros.
No contexto da qualificação profissional, Reiss et al. (2018) destacaram que a capacitação de agentes comunitários de saúde para inserção de implantes, aliada à supervisão adequada, pode ampliar o acesso ao método de forma segura e sustentável. Apesar disso, limitações metodológicas, como ausência de randomização e possível viés de observação, foram apontadas.
De forma semelhante, Tilahun et al. (2023) demonstraram que o treinamento realizado no próprio local de trabalho é mais eficiente e econômico, reduzindo o tempo de afastamento dos profissionais e custos, sem comprometer o desempenho em conhecimento e habilidades práticas, o que reforça a viabilidade de estratégias de capacitação descentralizadas.
Por fim, Rodrigues et al. (2025) evidenciaram que o Implanon apresenta alta eficácia (>99%) e elevada satisfação entre usuárias, especialmente quando associado a aconselhamento adequado. Contudo, efeitos adversos, como sangramentos irregulares e alterações de humor, podem comprometer a adesão, destacando a importância do acompanhamento contínuo. O estudo também ressalta que a inserção do método no Sistema Único de Saúde requer investimento em educação em saúde, qualificação profissional e respeito à autonomia das mulheres.
Quadro 1: Descrição da análise dos artigos quanto aos autores e ano de publicação, título, tipo de estudo, resultados e conclusão.
AUTORES/ ANO | TÍTULO | TIPO DE ESTUDO | RESULTADOS | CONCLUSÃO |
Garrett et al. (2016). | Is there a role for practice nurses in increasing the uptake of the contraceptive implant in primary care?: survey of general practitioners and practice nurses. | Estudo observacional transversal. | Participaram 468 médicos de família e 1.142 enfermeiros de prática geral. Os médicos de família demonstraram maior conhecimento sobre os métodos contraceptivos de longa duração (MCLD) do que os enfermeiros de prática geral (59% contra 33%; P < 0,01). Uma proporção semelhante de médicos de família e enfermeiros (70%) concordou que os enfermeiros poderiam se envolver no aconselhamento contraceptivo. Entre os médicos de família, aqueles que atuavam em áreas urbanas eram menos propensos a concordar que sua clínica apoiaria a inserção do implante por enfermeiros (OR = 0,6; IC 95%: 0,4–0,9). | Este estudo constatou altos níveis de aceitação quanto à prestação de aconselhamento sobre contracepção e à inserção do implante contraceptivo por parte das enfermeiras de prática avançada. |
James et al. (2026). | Practice Nurse Provision of Long‐Acting Reversible Contraception: A Cross‐Sectional Survey of Knowledge and Practices. | Estudo transversal. | Das 489 respostas válidas, a maioria dos entrevistados era composta por mulheres e a maioria trabalhava em consultórios em áreas metropolitanas. A maioria (90,4%) acreditava que seus conselhos poderiam influenciar as escolhas contraceptivas das mulheres. Poucos inseriram/removeram dispositivos intrauterinos (DIUs) (11,2%) ou implantes (15,9%). Entre aqueles que inseriram contracepção reversível de longa duração (CRLD), a maioria o fez de uma a cinco vezes no último mês (DIUs 72,2%; implantes 73,6%). A clínica geral como local de trabalho principal foi associada negativamente à prescrição de implantes. Os entrevistados com mais experiência em clínica geral (≥ 15 anos) e/ou qualificações mais elevadas eram mais propensos a responder corretamente às perguntas de conhecimento e a prescrever DIUs ou implantes. A maioria (62,8%) identificou corretamente a adequação do DIU para mulheres nulíparas. | Os enfermeiros de clínica apresentam lacunas de conhecimento e oportunidades limitadas de prática na prestação de CRLD. |
Mgobhozi, Mbeje e Mchunu. (2021). | Women’s experiences on the use of Implanon as a contraceptive method in a selected primary healthcare facility in KwaZulu-Natal. | Estudo qualitativo, descritivo e exploratório. | Os resultados mostraram que algumas participantes ainda estavam dispostas a continuar usando esse método contraceptivo, apesar dos efeitos colaterais indesejados. Os principais efeitos colaterais relatados foram sangramento menstrual intenso, dor e desconforto, perda de peso, insônia e diminuição do interesse sexual, o que levou a maioria das participantes a interromper o uso do Implanon. | A maioria dos participantes sofre efeitos colaterais indesejados devido à falta de triagem, aconselhamento e apoio adequados. Há uma clara necessidade de desenvolver uma ferramenta de triagem e facilitar a capacitação dos profissionais de saúde no início do uso do Implanon. |
Rebouças et al. (2019). | Knowledge of Implanon® users: implications for nursing care. | Estudo transversal | A maioria das mulheres (91,5%) apresentou conhecimento adequado sobre o fato de o método não oferecer proteção às doenças sexualmente transmissíveis. Quanto aos efeitos colaterais, 35,8% apresentaram conhecimento moderado. Anos de estudo apresentou associação com conhecimento inadequado sobre período de troca e ausência de conhecimento sobre efeitos colaterais. Tempo de uso não influenciou conhecimento inadequado sobre características e efeitos colaterais. | A maioria das usuárias apresentou conhecimento adequado sobre características do método, anos de estudo obteve associação com o conhecimento inadequado sobre o período de troca e ausência de conhecimento acerca dos efeitos colaterais. |
Reiss et al. (2018). | Safety, quality, and acceptability of contraceptive subdermal implant provision by community health extension workers versus nurses and midwives in Nigeria: protocol for a quasi-experimental, noninferiority study. | Estudo quase experimental. | A intervenção baseia-se em procedimentos existentes de treinamento e supervisão, o que aumenta a sustentabilidade e a escalabilidade da prestação de serviços de implante pelos agentes comunitários de saúde (ACS). Limitações importantes incluem a falta de randomização, devido ao fato de enfermeiras e parteiras na Nigéria trabalharem em tipos distintos de unidades de saúde em comparação com os ACS, e ao fato de os profissionais avaliarem suas próprias práticas. É inviável observar todos os procedimentos de forma independente, e a observação pode alterar a prática. | O enfermeiro desempenha papel fundamental na capacitação, supervisão e garantia da qualidade dos procedimentos, contribuindo para a segurança e efetividade da inserção do implante. Além disso, sua atuação fortalece a integração da equipe de saúde e a ampliação do acesso aos métodos contraceptivos. |
Rodrigues et al. (2025). | O uso do Implanon, seus impactos na saúde reprodutiva feminina e perspectivas para o SUS. | Revisão integrativa da literatura. | Os resultados indicam que o Implanon é altamente eficaz (>99%), com baixo índice de falhas e elevado grau de satisfação entre usuárias, principalmente quando há aconselhamento adequado. No entanto, a adesão pode ser comprometida por efeitos adversos, como sangramentos irregulares e alterações de humor. A inserção do método no SUS deve ser acompanhada de estratégias de educação em saúde, formação de profissionais e respeito à autonomia das pacientes. | Conclui-se que o Implanon é uma importante ferramenta de promoção da saúde sexual e reprodutiva, especialmente em contextos de vulnerabilidade social. |
Tilahun et al. (2023). | The role of onsite Implanon insertion training for HEWs for sustainable FP programs in Ethiopia: a mixed-method study. | Estudo de método misto. | Os agentes de extensão de saúde treinados no local ficaram afastados do trabalho de rotina por uma média de 3 dias, em comparação com 8 dias para aqueles treinados fora do local (P < 0,001). A diferença no custo médio por participante entre o treinamento no local (2.707 Birr = 87,3 USD) e fora do local (6.006 Birr = 193,7 USD) foi significativa (P < 0,001). Não houve diferença significativa nas pontuações médias dos formandos no local e fora do local no pré-teste de conhecimentos (P < 0,947) e no pós-teste (P < 0,220) ou na prática simulada em um modelo de braço (p < 0,202). | O treinamento presencial é uma abordagem promissora e minimiza a interrupção dos serviços. Trata-se de uma estratégia viável para o treinamento sob demanda de agentes de extensão de saúde e a designação imediata de profissionais qualificados, a fim de garantir o acesso e a continuidade de cuidados de qualidade com o Implanon no âmbito comunitário. |
Fonte: Dados da Pesquisa (2026).
4. DISCUSSÃO
Os métodos contraceptivos reversíveis de longa duração, como o implante subdérmico de etonogestrel (Implanon), são amplamente reconhecidos por sua elevada eficácia na prevenção da gravidez não planejada, com taxas de falha inferiores a 1% ao ano (Winner et al., 2012; Ali; Bahamondes; Landoulsi, 2016). Nesse cenário, sua inserção na APS não depende exclusivamente da disponibilidade do método, mas da capacidade dos serviços em estruturar um cuidado qualificado, no qual o enfermeiro assume papel central ao longo de todas as etapas do processo assistencial, desde a avaliação clínica até o acompanhamento longitudinal das usuárias (Black et al., 2013).
No que se refere à avaliação realizada pelo enfermeiro, observa-se que esta ultrapassa a simples verificação de elegibilidade clínica, configurando-se como um momento estratégico para a construção do cuidado. A literatura aponta que essa avaliação deve ser conduzida por meio de uma abordagem integral, contemplando não apenas aspectos biológicos, como histórico ginecológico, condições clínicas e uso de medicamentos, mas também fatores sociais, reprodutivos e comportamentais que influenciam diretamente na escolha e na adaptação ao método (Bahamondes et al., 2015).
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2015), enfermeiros capacitados estão aptos a realizar essa avaliação com segurança, o que reforça sua inserção no planejamento reprodutivo. No entanto, ao analisar os achados de Garrett et al. (2016), observa-se que, embora haja aceitação do papel do enfermeiro no aconselhamento contraceptivo, persistem diferenças no nível de conhecimento quando comparados a médicos, o que pode comprometer a qualidade da avaliação clínica e da orientação ofertada.
Essa lacuna evidencia que a avaliação não deve ser compreendida apenas como uma etapa protocolar, mas como um processo que exige domínio técnico-científico e capacidade crítica (Rebouças et al., 2019). Nesse sentido, estudos como o de Black et al. (2013) demonstram que a qualificação profissional está diretamente associada à ampliação da oferta de métodos contraceptivos de longa duração, sugerindo que enfermeiros mais capacitados realizam avaliações mais seguras e assertivas. Contudo, os achados de James et al. (2026) revelam uma contradição importante: embora os enfermeiros reconheçam sua influência na escolha contraceptiva, a prática efetiva de inserção ainda é limitada, indicando que a avaliação clínica muitas vezes não se traduz em ação, seja por insegurança profissional ou por barreiras institucionais. Essa discrepância entre conhecimento e prática constitui um ponto crítico na análise da assistência.
No que diz respeito à inserção do implante, observa-se que esta é diretamente influenciada pela qualidade da avaliação prévia. Uma avaliação incompleta ou insuficiente pode resultar em indicação inadequada, aumentando o risco de insatisfação e descontinuação do método. Assim, a literatura evidencia que a experiência profissional e a capacitação contínua são fatores determinantes para garantir a segurança do procedimento e a confiança do enfermeiro em sua execução (Black et al., 2013). A limitação dessa prática, conforme apontado por James et al. (2026), reforça a necessidade de estratégias de educação permanente que articulem teoria e prática no contexto dos serviços de saúde.
No que se refere ao acompanhamento das usuárias, este se configura como uma das dimensões mais relevantes da assistência, sendo determinante para a continuidade do uso do Implanon. A literatura é consistente ao apontar que os efeitos adversos, especialmente sangramentos irregulares, alterações de humor e desconfortos físicos, são os principais fatores associados à descontinuação do método (Bahamondes et al., 2015). Esses achados são corroborados por Mgobhozi et al. (2021) e Rodrigues et al. (2025), que evidenciam que, apesar da alta eficácia e satisfação inicial, a experiência das usuárias ao longo do tempo pode ser negativamente impactada pela ausência de suporte adequado.
Diante disso, o acompanhamento realizado pelo enfermeiro deve ser compreendido como um processo contínuo, que envolve não apenas o monitoramento clínico, mas também a escuta qualificada e o suporte às demandas das usuárias. A literatura indica que intervenções oportunas, como esclarecimento sobre efeitos esperados, manejo de sintomas e reforço das orientações, contribuem significativamente para a adesão ao método (Rodrigues et al., 2025).
Nesse contexto, o estudo de Hubacher et al. (2015) destaca que o aconselhamento prévio à inserção exerce impacto direto na continuidade do uso, ao alinhar as expectativas das mulheres. No entanto, Rebouças et al. (2019) demonstram que ainda existem lacunas no conhecimento das usuárias, o que evidencia fragilidades tanto na avaliação quanto no acompanhamento, indicando que essas etapas não estão sendo plenamente efetivas na prática.
A análise integrada dos estudos permite identificar que avaliação e acompanhamento não devem ser compreendidos como etapas isoladas, mas como dimensões interdependentes do cuidado. Uma avaliação bem conduzida, com orientações claras e realistas, tende a reduzir a ocorrência de insatisfações durante o uso do método, enquanto um acompanhamento qualificado possibilita o manejo adequado das intercorrências, evitando a descontinuação precoce. Entretanto, quando essas etapas são fragilizadas, observa-se um aumento nas taxas de abandono, mesmo diante de um método altamente eficaz (James et al., 2026).
Outro aspecto relevante refere-se à organização dos serviços de saúde, que influencia diretamente a qualidade da avaliação e do acompanhamento. Evidências apontam que a descentralização das ações e a ampliação do escopo de atuação dos enfermeiros são estratégias eficazes para aumentar o acesso aos métodos contraceptivos (Olson et al., 2018; OMS, 2015). Estudos como os de Reiss et al. (2018) e Tilahun et al. (2023) demonstram que a capacitação em serviço contribui para fortalecer a prática clínica, tornando-a mais resolutiva e acessível. No entanto, no contexto brasileiro, Brandão e Cabral (2017) apontam que ainda existem limitações relacionadas à estrutura dos serviços e à formação dos profissionais, o que impacta diretamente a implementação dessas práticas. Além disso, Bahamondes et al. (2020) destacam que desigualdades regionais continuam sendo um entrave importante para a ampliação do acesso aos métodos de longa duração.
Dessa forma, a análise da produção científica evidencia que a assistência do enfermeiro na inserção e no acompanhamento do Implanon é um processo complexo, que envolve competências clínicas, educativas e organizacionais. Observa-se que, embora haja reconhecimento do papel desse profissional, persistem desafios relacionados à qualificação, à segurança na prática e à organização dos serviços, o que impacta diretamente a efetividade da assistência. Assim, para que o cuidado seja de fato integral e resolutivo, torna-se fundamental investir na formação e na educação permanente dos enfermeiros, bem como na estruturação dos serviços de saúde, garantindo condições adequadas para a realização da avaliação, da inserção e do acompanhamento das usuárias (Bahamondes; Landoulsi, 2016; Bahamondes et al., 2020).
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir dos achados analisados, evidencia-se que os métodos contraceptivos reversíveis de longa duração, com destaque para o Implanon, configuram-se como estratégias altamente eficazes na prevenção da gravidez não planejada, porém sua ampliação na prática clínica ainda enfrenta desafios relevantes. Entre esses, destacam-se as lacunas no conhecimento e na capacitação dos profissionais de saúde, especialmente enfermeiros, bem como barreiras institucionais que limitam sua atuação na inserção do método.
Embora haja reconhecimento do papel desses profissionais no aconselhamento contraceptivo, a baixa adesão à prática de inserção evidencia a necessidade de investimentos contínuos em educação permanente, treinamento prático e reorganização dos serviços de saúde, de modo a fortalecer sua autonomia e ampliar o acesso da população a métodos eficazes.
Adicionalmente, observa-se que, apesar da alta eficácia e satisfação associadas ao uso do implante, os efeitos adversos ainda representam um fator determinante para a descontinuação do método, reforçando a importância do acompanhamento contínuo e do aconselhamento qualificado. Nesse contexto, o papel do enfermeiro torna-se central não apenas na inserção, mas também na educação em saúde, no manejo dos efeitos colaterais e na promoção da adesão ao método.
Desta forma, pode-se concluir que a consolidação do uso do Implanon no sistema de saúde depende de uma abordagem integrada que envolva qualificação profissional, fortalecimento das políticas públicas, descentralização das práticas e respeito à autonomia das mulheres, contribuindo para a efetivação dos princípios da atenção integral à saúde reprodutiva.
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1 Discente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário CESMAC. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Docente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário CESMAC. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Docente do Curso de Enfermagem do Centro Universitário CESMAC. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail