INGESTÃO DE PROTEÍNAS E FATORES INTERFERENTES NA ALIMENTAÇÃO DE IDOSOS ACOMPANHADOS PELA ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA

PROTEIN INTAKE AND INTERFERING FACTORS IN THE DIET OF ELDERLY PEOPLE FOLLOWED BY THE FAMILY HEALTH STRATEGY

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775366658

RESUMO
O acelerado envelhecimento populacional brasileiro traz desafios relevantes para a saúde pública, entre eles a adequação da ingestão proteica, fundamental para a preservação da massa muscular e da funcionalidade dos idosos. Este estudo teve como objetivo avaliar o consumo de proteínas de idosos atendidos pelas Estratégias de Saúde da Família do município de Adamantina-SP e identificar possíveis fatores interferentes nessa ingestão. Trata-se de uma pesquisa quantitativa, descritiva e transversal, realizada com 50 idosos (≥60 anos), na qual foram coletados dados socioeconômicos, clínicos e antropométricos, além da avaliação do consumo proteico por meio de questionário de frequência alimentar, da autopercepção da mastigação e do rastreio de sarcopenia pelo SARC-F. A ingestão proteica média foi de 0,75±0,27 g/kg/dia, inferior às recomendações da ESPEN, sendo que 86% dos idosos apresentaram consumo abaixo de 1,0 g/kg/dia; entretanto, apenas 28% exibiram preditivo positivo para sarcopenia pelo instrumento de rastreio utilizado. Não foram observadas associações estatisticamente significativas entre o consumo proteico e variáveis sociodemográficas, clínicas, funcionais ou sensoriais, como renda, escolaridade, mastigação, deglutição, uso de prótese dentária ou percepção do sabor. Os resultados indicam que a inadequação do consumo proteico é frequente nessa população e não parece ser explicada por fatores isolados, reforçando a necessidade de estratégias integradas na Atenção Primária à Saúde, com ênfase em ações nutricionais e educativas voltadas à promoção de uma ingestão proteica adequada e à melhoria da qualidade de vida dos idosos.
Palavras-chave: Consumo Alimentar. Idoso. Capacidade Funcional. Perfil Socioeconômico. Ingestão proteica.

ABSTRACT
The accelerated aging of the Brazilian population presents significant challenges to public health, including ensuring adequate protein intake, which is fundamental for preserving muscle mass and functionality in older adults. This study aimed to evaluate the protein consumption of older adults served by the Family Health Strategies in the municipality of Adamantina-SP and to identify possible interfering factors in this intake. This is a quantitative, descriptive, and cross-sectional study conducted with 50 older adults (≥60 years), in which socioeconomic, clinical, and anthropometric data were collected, in addition to assessing protein consumption through a food frequency questionnaire, self-perception of chewing, and sarcopenia screening using the SARC-F. The average protein intake was 0.75±0.27 g/kg/day, lower than the ESPEN recommendations, with 86% of older adults having consumption below 1.0 g/kg/day; however, only 28% showed a positive predictive value for sarcopenia according to the screening instrument used. No statistically significant associations were observed between protein consumption and sociodemographic, clinical, functional, or sensory variables, such as income, education, chewing, swallowing, use of dental prostheses, or taste perception. The results indicate that inadequate protein consumption is frequent in this population and does not appear to be explained by isolated factors, reinforcing the need for integrated strategies in Primary Health Care, with an emphasis on nutritional and educational actions aimed at promoting adequate protein intake and improving the quality of life of older adults.
Keywords: Eating. Aged. Functional Capacity. Socioeconomic Profile. Protein Intake.

1. INTRODUÇÃO

O Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), evidencia o acelerado processo de envelhecimento populacional do país, ao indicar que aproximadamente 32 milhões (15,6% da população total) são idosos (60 anos ou mais), revelando um aumento de 56% em relação à 2010, quando representavam 10,8% (IBGE, 2023).

Como consequência normal do envelhecimento, ocorrem mudanças fisiológicas e comportamentais que influenciam o padrão alimentar, como alterações de paladar, olfato, perda dentária, xerostomia e outras alterações da cavidade oral, que podem dificultar a mastigação e deglutição, tornando a alimentação menos prazerosa e mais difícil, podendo levar a falta de apetite, escolhas alimentares limitadas e menor ingestão de nutrientes (RAYMOND & CALLIHAN, 2022), comprometendo o estado nutricional nessa faixa etária.

A sarcopenia, caracterizada pela perda progressiva de massa e força muscular no contexto do envelhecimento, possui um impacto funcional relevante. Estudos indicam que ingestões proteicas insuficientes estão associadas a maior risco de sarcopenia e a maior ocorrência de quedas e desfechos adversos (SANCHEZ-TOCINO et al., 2024).

No que concerne à proteína, as recomendações de ingestão para idosos são maiores do que as usadas para adultos, devendo ser de pelo menos 1 grama de proteína por quilograma de peso corporal por dia, conforme as diretrizes da ESPEN sobre nutrição clínica em pacientes idosos, para preservação da massa corporal magra, funções corporais e saúde (VOLKERT et al., 2022).

A nutrição, neste quesito, desempenha um papel importante na saúde da população idosa. Um bom estado nutricional impacta positivamente o sistema musculoesquelético, a densidade e força óssea, reduz o risco de quedas, fraturas e problemas de instabilidade postural e de mobilidade, melhora a qualidade de vida e previne uma série de outros resultados negativos em diferentes sistemas e órgãos (KUPISZ-URBANSKA & MARCINOWSKA-SUCHOWIERSKA, 2022).

Visto que as condições de saúde da população agravam-se com a idade, aumentam as limitações funcionais, piora o estado de saúde e aumenta a utilização de serviços de saúde (MREJEN, NUNES & GIACOMIN, 2023), este trabalho visa avaliar o consumo de proteínas dos idosos atendidos nas estratégias de saúde da família do município de Adamantina-SP e identificar fatores que possam estar interferindo na ingestão e assim, futuramente, possa ser utilizado como documento base para intervenções nutricionais e educacionais, criação ou aprimoramento de política públicas e melhora da qualidade de vida dos idosos.

2. METODOLOGIA

Trata-se de uma pesquisa quantitativa, com delineamento descritivo e transversal, realizada com idosos atendidos pelas Estratégias de Saúde da Família (ESF) do município de Adamantina-SP. A população do estudo foi composta por idosos (≥ 60 anos) cadastrados nas unidades de ESF do município. A amostragem foi por conveniência, considerando idosos que atendam aos critérios de inclusão e aceitem participar da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), conforme é determinado por regulamentação específica de pesquisa com seres humanos.

Os idosos de ambos os sexos foram recrutados, sendo excluídos da pesquisa aqueles que: não possuir capacidade cognitiva para compreender e realizar os procedimentos do estudo, estar acamado, institucionalizado, fazer uso de suplementos hiperproteicos e possuir recomendação médica para menor ingestão proteica.

Os dados foram coletados nas ESFs em salas disponíveis para tal. Inicialmente foi respondido um questionário socioeconômico a fim de caracterização da amostra, contendo questões sobre sexo, idade, nível de escolaridade, composição e rendimento familiar, hábitos de vida, capacidade de autonomia e condições clínicas.

A análise do estado nutricional foi realizada por meio da coleta de dados antropométricos de peso e estatura dos participantes. O peso foi aferido em uma balança digital devidamente calibrada, posicionada em uma superfície lisa e nivelada e a estatura com um estadiômetro, estando o indivíduo descalço, em pé, ereto, com os braços estendidos ao longo do corpo, com a cabeça erguida e olhando para um ponto fixo na altura dos olhos. Os idosos foram pesados descalços e orientados a retirarem quaisquer objetos pesados que possam interferir no peso (BRASIL, 2011).

A partir dos dados de peso e estatura foi calculado o índice de massa corporal (IMC), pela equação que divide o peso em quilogramas pela estatura em metros ao quadrado, classificando segundo a norma técnica do sistema de vigilância alimentar e nutricional (SISVAN) (BRASIL, 2011).

Para a análise do consumo proteico foi aplicado um questionário de frequência alimentar (QFA) validado (RIBEIRO et al., 2006) e adaptado para alimentos fontes de proteína. Além disso, foram utilizadas imagens do manual fotográfico de quantificação alimentar (CRISPIM et al., 2017) para contribuir na identificação das porções consumidas. A quantidade de proteína ingerida por cada participante foi calculada com base na Tabela Brasileira de Composição dos Alimentos (TBCA) (UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO, 2025). E a ingestão diária de proteínas foi analisada em gramas por quilograma de peso (g/kg/dia), utilizando a classificação de ingestão proteica proposta pela Sociedade Europeia de Nutrição Clínica e Metabolismo (ESPEN) (VOLKERT et al., 2022).

A verificação de fatores associados a mastigação/deglutição, relacionados às dificuldades na ingestão de proteínas e à percepção e comportamento alimentar, foi realizada a partir da Escala de Autopercepção da Mastigação (SOUZA, SILVA & SCELZA NETO, 2019) adaptada. E o possível impacto funcional através de questões da ferramenta SARC-F (NUTRICIA, 2021).

Os dados obtidos foram tabulados e a análise foi realizada por meio da estatística descritiva e por meio da estatística analítica usando testes estatísticos apropriados conforme a normalidade dos dados.

As variáveis categóricas foram descritas em frequências absolutas e percentuais. A associação entre o desfecho consumo de proteína com as variáveis explicativas, foi avaliada por meio de tabelas de contingência. O teste do qui-quadrado de Pearson foi utilizado quando todas as frequências esperadas eram ≥5; caso contrário, aplicou-se o teste exato de Fisher. Adotou-se nível de significância de 5% (p < 0,05). As análises foram realizadas no software R.

A pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário de Adamantina (CAAE: 89167025.8.0000.0438), respeitando os princípios éticos da Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Os participantes foram informados sobre os objetivos e procedimentos do estudo, sendo garantidos o anonimato, a confidencialidade das informações e o direito de recusa ou desistência a qualquer momento.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

O estudo contou com 50 participantes, dos quais 90% eram do sexo feminino e a média de idade foi de 69,94±6,7 anos. Em relação à escolaridade, observou-se predominância de ensino fundamental incompleto (46%), enquanto a renda familiar concentrou-se sobretudo na faixa de 2 a 4 salários mínimos (62%), conforme apresentado na Tabela 1.

No que diz respeito às condições de saúde, a comorbidade mais prevalente foi a hipertensão arterial sistêmica (HAS). Entre os participantes, 30% apresentavam apenas HAS, enquanto outros 40% tinham a condição associada a outras doenças crônicas, como diabetes mellitus e/ou dislipidemias. Apenas um indivíduo (2%) relatou hábito tabagista, indicando baixa exposição ao tabaco no grupo estudado.

Os dados antropométricos, obtidos a partir do peso e da estatura, mostraram que a maioria dos participantes se encontra em sobrepeso (60%), enquanto 34% estão eutróficos e 6% apresentam baixo peso.

Tabela 1. Caracterização da amostra

Variáveis

n (%)

Gênero

Masculino

5 (10)

Feminino

45 (90)

Autonomia

Totalmente independente

40 (80)

Parcialmente dependente

10 (20)

Escolaridade

Analfabeto

5 (10)

Fundamental incompleto

23 (46)

Fundamental completo

3 (6)

Médio incompleto

2 (4)

Médio completo

13 (26)

Superior incompleto

1 (2)

Superior completo

3 (6)

Rendimento familiar

Menos de 1 salário mínimo

2 (4)

De 1 a 2 salários mínimos

12 (24)

De 2 a 4 salários mínimos

31 (62)

Mais de 4 salários mínimos

5 (10)

Comorbidades

Nenhuma

11 (22)

Hipertensão arterial

15 (30)

Diabetes mellitus

0 (0)

Dislipidemias

4 (8)

HAS e DM

6 (12)

HAS e Dislipidemias

6 (12)

HAS, DM e Dislipidemias

8 (16)

Tabagista

Não

49 (98)

Sim

1 (2)

Classificação do IMC

Baixo peso

3 (6)

Eutrofia

17 (34)

Sobrepeso

30 (60)

A ingestão proteica média na amostra foi de 0,75±0,27 g/kg/dia, inferior às recomendações presentes na diretriz da ESPEN para idosos, correspondendo a um consumo médio de 53,04±19,64 g/dia. O consumo inferior a 1,0 g/kg/dia de proteína esteve presente em 86% dos idosos, os quais apresentaram uma média de consumo de 0,68±0,21 g/kg/dia. E 14% apresentaram uma média de 1,21±0,17 g/kg/dia.

Um estudo prospectivo realizado em Viçosa (MG) verificou a prevalência de baixa ingestão proteica em 60,9% das 621 pessoas idosas avaliadas. Além disso, de acordo com seus resultados inferiram que a baixa ingestão de proteína pode aumentar o risco de morte em idosos (SOUZA et al., 2024).

Observa-se na Tabela 2 que 52% dos idosos consumiram menos de 0,8 g/kg recomendados pela RDA (Ingestão Dietética Recomendada), e 36% não atingiram nem a necessidade média estimada (EAR) de 0,66 g/kg. Porém, ao questionar se acreditavam consumir proteína suficiente todos os dias, 29 (58%) responderam que sim, 18 (36%) que não consumiam e 3 (6%) não souberam dizer.

Tabela 2. Consumo proteico da amostra

Variável

n (%)

Consome = ou > 0,66 g/kg/dia de PTN (EAR)

Não

18 (36)

Sim

32 (64)

Consome = ou > 0,8 g/kg/dia de PTN (RDA)

Não

26 (52)

Sim

24 (48)

Consome = ou > 1,0 g/kg/dia de PTN

Não

43 (86)

Sim

7 (14)

Ingestões abaixo do RDA (0,8 g/kg) agravam a perda de massa muscular e função (CAMPBELL et al., 2023). Além disso, uma meta-análise com idosos coreanos (HAN, WOO & KIM, 2024) demonstrou que níveis de ingestão proteica inferiores a 0,8 g/kg/dia foram associados a risco significativamente maior de sarcopenia e diminuição da força de preensão manual. Por fim, em uma análise de coortes longitudinais na Europa e América do Norte, participantes com ingestão abaixo de 0,8 g/kg tiveram maior probabilidade de desenvolver limitações de mobilidade ao longo do tempo (MENDONÇA et al., 2021).

No entanto, mesmo com um baixo consumo proteico, no geral, apenas 14 idosos (28%) apresentaram preditivo positivo de sarcopenia com base na ferramenta de rastreio usada no estudo, sugerindo que outros fatores, como atividade física, qualidade da proteína e distribuição ao longo do dia, podem interferir na massa e na função muscular. Nesse sentido, um estudo longitudinal com idosos paulistanos (coorte SABE) reforçou a importância não só da quantidade, mas da regularidade e da origem da proteína alimentar (DAUN & PINTO-E-SILVA, 2025).

Nesse contexto, a não conformidade entre a elevada prevalência de ingestão proteica abaixo das recomendações e a baixa proporção de idosos com preditivo positivo para sarcopenia pode ser explicada por limitações da ferramenta SARC-F, que embora amplamente empregada, apresenta sensibilidade limitada, sendo mais eficaz na identificação de casos mais avançados de sarcopenia, podendo não considerar os casos em estágios iniciais (SANCHEZ-TOCINO et al., 2024; REIS et al., 2021).

Tabela 3. Consumo proteico médio de acordo com a renda familiar

Renda familiar

n

Média±DP

< 1 salário mínimo

2

0,71±0,31

1-2 salários mínimos

12

0,65±0,33

2-4 salários mínimos

31

0,79±0,26

> 4 salários mínimos

5

0,79±0,18

Em relação aos determinantes socioeconômicos (Tabela 3 e 4), observou-se que idosos pertencentes às faixas de renda mais elevadas e com maior nível de escolaridade apresentaram médias ligeiramente superiores de ingestão proteica quando comparados aos com menor renda e menor escolaridade. Embora, estatisticamente, não houve diferenças significativas entre as médias das faixas de renda (p=0,481) e dos níveis de escolaridade (p=0,683).

Tabela 4. Consumo proteico médio de acordo com o nível de escolaridade

Escolaridade

n

Média±DP

Analfabeto / Fundamental Incompleto

28

0,72±0,28

Fundamental Completo / Médio Incompleto

5

0,78±0,34

Médio Completo / Superior Incompleto e Completo

17

0,79±0,26

No estudo transversal realizado com adultos e idosos suíços saudáveis, os autores avaliaram a ingestão de proteína e energia e observaram que variáveis como renda e nível de escolaridade não se associaram de forma significativa ao baixo consumo proteico, mesmo após ajustes por características sociodemográficas e de estilo de vida (WIMMER et al., 2023). De maneira semelhante, outro estudo analisou a prevalência de ingestão proteica abaixo das recomendações em idosos e não identificou diferenças consideráveis entre subgrupos definidos por idade, escolaridade, situação de moradia ou perda de peso recente, indicando que, embora fatores socioeconômicos possam influenciar o padrão alimentar de forma geral, eles podem ter efeito pequeno na ingestão proteica (HENGEVELD et al., 2020), possivelmente devido à influência de outros determinantes, o que vai ao encontro dos resultados observados no presente estudo.

Além disso, a amostragem por conveniência e o contexto das ESF podem ter contribuído para uma relativa homogeneidade socioeconômica da amostra, reduzindo a variabilidade necessária para a identificação de diferenças estatísticas.

A Tabela 5 apresenta a associação entre o consumo de proteínas e fatores sociodemográficos, clínicos, funcionais e sensoriais dos idosos avaliados. Observa-se que a maioria dos participantes, independentemente do consumo proteico, não morava sozinha, não apresentava dificuldades para mastigar ou engolir e não possuía preditivo de sarcopenia.

O uso de prótese dentária foi frequente na amostra, especialmente entre os idosos com consumo proteico inadequado, contudo sem diferença estatisticamente significativa entre os grupos (p=0,595). De forma semelhante, o hábito de substituir carnes por outros alimentos esteve presente em parte da amostra, não sendo observada associação significativa com o consumo proteico (p=0,999).

Em relação à percepção do sabor dos alimentos pelos idosos, grande parte relatou estar com a função preservada, tanto entre os com consumo proteico inadequado quanto entre os que atingiram a recomendação. Embora nenhum dos idosos que relataram alteração na percepção do sabor tenha apresentado consumo proteico adequado, essa diferença não foi estatisticamente significativa.

Tabela 5. Associação entre consumo adequado de proteína e fatores avaliados.

Variável

Consumo adequado de proteína

P-valor

Não

Sim

Mora sozinho

   

Não

32

6

0,999

Sim

11

1

Possui prótese dentária

Não

7

2

0,595

Sim

36

5

Dificuldade mastigar/engolir

Não

37

6

0,999

Sim

6

1

Percepção do sabor

Não

6

0

0,576

Sim

37

7

Costuma substituir carnes por outro alimento

Não

28

5

0,999

Sim

15

2

Preditivo de sarcopenia

Não

31

5

0,999

Sim

12

2

A ausência de associação entre o consumo proteico e fatores relacionados à mastigação, uso de prótese dentária e percepção do sabor pode estar relacionada à obtenção dessas informações por meio da autopercepção dos participantes.

De modo geral, não foram observadas associações estatisticamente significativas entre o consumo de proteínas e as variáveis analisadas (p>0,05), indicando que fatores avaliados de forma isolada podem não explicar, de maneira suficiente, as inadequações no consumo proteico nessa população.

Nesse contexto, um estudo demonstrou que aspectos como o nível de conhecimento sobre a importância da ingestão proteica, a percepção de risco e o apoio social exercem influência significativa sobre o consumo de proteínas em idosos. Reforçando que o consumo proteico na velhice não depende exclusivamente de fatores clínicos ou funcionais, sendo também fortemente influenciado por determinantes cognitivos e sociais (VERWIJS et al., 2022), os quais não foram diretamente avaliados no presente estudo.

4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados deste estudo evidenciaram que a ingestão proteica dos idosos atendidos pelas Estratégias de Saúde da Família do município de Adamantina-SP encontra-se, de forma geral, abaixo dos valores recomendados pelas diretrizes atuais para essa faixa etária. Embora a maioria da amostra tenha apresentado consumo inferior a 1,0 g/kg/dia de proteína, apenas 28% demonstraram predição positiva para sarcopenia.

Em relação aos fatores que poderiam influenciar a ingestão proteica, não foram identificadas associações estatisticamente significativas com variáveis sociodemográficas, clínicas, funcionais ou sensoriais, como renda, escolaridade, mastigação, deglutição, uso de prótese dentária ou percepção do sabor, quando analisadas de forma isolada.

Os resultados sugerem que a inadequação do consumo proteico observada não pode ser explicada por um único fator isolado, indicando a necessidade de abordagens integradas na Atenção Primária à Saúde que considerem aspectos nutricionais, educativos e comportamentais para a promoção de uma ingestão proteica adequada entre idosos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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1 Nutricionista – Residência Multiprofissional na Área Saúde Coletiva e Atenção Básica - FAI  E-mail: [email protected]

2 Docente do Curso Superior de Nutrição do Centro Universitário de Adamantina FAI e Doutoranda no Programa de Pós Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional – UNOESTE  E-mail: [email protected]