INCIDÊNCIA DE MARCAÇÕES DE DUPLO CONTATO: UMA ANÁLISE EM PARTIDAS DE VOLEIBOL DOS JOGOS OLÍMPICOS DE PARIS 2024

INCIDENCE OF DOUBLE-CONTACT CALLS: AN ANALYSIS IN VOLLEYBALL MATCHES OF THE PARIS 2024 OLYMPIC GAMES

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791151668

RESUMO
Objetivo: O presente estudo teve como objetivo analisar a incidência de marcações da regra do duplo contato realizadas pela arbitragem durante as fases finais das partidas de voleibol masculino e feminino dos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Métodos: Foi realizada uma pesquisa descritiva, de abordagem quantitativa e caráter observacional, por meio da análise de vídeos de oito partidas de voleibol de alto rendimento, sendo quatro do torneio feminino e quatro do masculino, correspondentes às semifinais, disputas pelo terceiro lugar e finais. Foram registradas exclusivamente as situações em que a arbitragem assinalou oficialmente a infração de duplo contato, sendo os dados organizados em tabelas para posterior análise descritiva. Resultados: Os resultados demonstraram que não foram identificadas marcações oficiais de duplo contato pela arbitragem nas oito partidas analisadas, correspondendo a uma incidência de 0%. Conclusão: Conclui-se que, nas partidas que compuseram a amostra, não houve marcações oficiais da infração de duplo contato pela arbitragem, indicando ausência de ocorrências dessa penalização nas fases finais analisadas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024.
Palavras-chave: Voleibol; Arbitragem; Duplo contato; Regras; Jogos Olímpicos.

ABSTRACT
Objective: The present study aimed to analyze the incidence of double-contact rule calls made by referees during the final phases of the men's and women's volleyball tournaments at the Paris 2024 Olympic Games. Methods: A descriptive, quantitative, and observational study was conducted through the analysis of videos of eight high-performance volleyball matches, four from the women's tournament and four from the men's tournament, corresponding to the semifinals, third-place matches, and finals. Only situations in which the referees officially called a double-contact fault were recorded, and the data were organized into tables for subsequent descriptive analysis. Results: The results showed that no official double-contact calls were identified by the referees in the eight matches analyzed, corresponding to an incidence of 0%. Conclusion: It was concluded that, among the matches included in the sample, there were no official calls for double-contact faults by the referees, indicating an absence of such penalties in the final phases analyzed at the Paris 2024 Olympic Games.
Keywords: Volleyball; Refereeing; Double contact; Rules; Olympic Games.

INTRODUÇÃO

O voleibol é uma modalidade esportiva coletiva caracterizada pela dinâmica das ações, pela tomada de decisão em curto espaço de tempo e pela interação entre os aspectos técnicos e táticos do jogo. Durante uma partida, fundamentos como saque, recepção, levantamento, ataque, bloqueio e defesa estão relacionados ao desenvolvimento das jogadas e à obtenção dos pontos. Nesse contexto, a análise de jogo constitui uma ferramenta importante para compreender o desempenho das equipes em situações reais de competição (Silva et al., 2016).

Ao longo de sua história, o voleibol passou por transformações relacionadas às regras, à organização das competições e à atuação da arbitragem. Entre essas mudanças estão a adoção do sistema Rally Point System, a introdução do líbero e a utilização de recursos tecnológicos de apoio à arbitragem. Essas alterações acompanharam a evolução técnica e tática da modalidade e contribuíram para tornar o jogo mais dinâmico, especialmente no contexto do alto rendimento (Santos Neto, 2004; Garcia; Meireles; Pereira, 2021).

No voleibol de alto nível, pequenas diferenças na execução dos fundamentos podem influenciar a continuidade das jogadas e o resultado das partidas. A análise técnico-tática permite compreender as ações realizadas pelos atletas e as características das equipes durante as competições (Marzano-Felisatti; Guzmán Luján; Priego-Quesada, 2022). Nesse cenário, os Jogos Olímpicos são a maior competição internacional e constituem um importante ambiente de observação, por reunirem atletas e equipes de elevado nível competitivo.

Entre os fundamentos técnicos da modalidade, o toque possui papel importante na organização das jogadas, principalmente no segundo contato, geralmente realizado pelo levantador para organizar o sistema ofensivo. Essa ação deve respeitar as regras relacionadas ao contato com a bola, incluindo a regra denominada duplo contato ou “dois toques” (Forman, 2025).

A aplicação da mesma, depende da característica do contato e da situação específica da jogada, tornando a interpretação da arbitragem fundamental para determinar a existência ou não da infração (FIVB, 2021).

A relevância do presente estudo está relacionada à compreensão da aplicação das regras e de sua relação com a dinâmica do voleibol de alto rendimento, podendo contribuir para atletas, treinadores, árbitros e demais profissionais envolvidos com a modalidade. Estudos recentes já têm investigado os efeitos de alterações relacionadas ao segundo contato. Forman (2025), por exemplo, analisou os impactos da mudança da regra da NCAA sobre os erros de manejo de bola no segundo contato, identificando redução das infrações cometidas pelos levantadores e um pequeno aumento na continuidade dos rallys. 

Entretanto, ainda são necessárias investigações que busquem compreender de forma mais aprofundada como a flexibilização da interpretação dos dois toques pode influenciar a dinâmica do jogo, a atuação dos levantadores, a tomada de decisão da arbitragem e a continuidade das ações ofensivas no voleibol de alto rendimento. Dessa forma, investigar essa alteração pode contribuir para uma melhor compreensão das possíveis consequências técnicas e táticas decorrentes da mudança na aplicação da regra.

Assim, o objetivo desta pesquisa é analisar a incidência da marcação da regra dos dois toques no levantamento na modalidade de voleibol, nos naipes masculino e feminino, a partir das faltas apontadas pela arbitragem nos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

MÉTODOS

O presente estudo caracteriza-se como uma pesquisa descritiva, de abordagem quantitativa e caráter observacional, realizada por meio da análise de vídeos de partidas de voleibol de alto rendimento. A pesquisa teve como objetivo verificar a incidência de marcação relacionadas à regra do duplo contato pela arbitragem durante as fases finais dos torneios masculino e feminino de voleibol dos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

Para a pesquisa e análise dos vídeos dos jogos das olimpíadas de Paris, que aconteceram no ano de 2024, o acesso aos jogos completos se deu por meio do canal do youtube Cazé Tv, o qual disponibiliza seus materiais em acesso público.

Nos Jogos Olímpicos de Paris 2024, 12 equipes participaram da competição em cada naipe, distribuídas em três grupos de quatro equipes. Ao final da fase de grupos, as duas melhores equipes de cada grupo e as duas melhores terceiras colocadas avançaram para as quartas de final. Para este trabalho, foram analisados somente os jogos das fases semifinal, final e disputa de terceiro lugar, sendo 4 jogos masculino e 4 jogos feminino. A escolha da fase se deu pela quantidade de jogos disponíveis em meio digital e público.

As equipes analisadas nos jogos masculinos foram Polônia, Estados Unidos, Itália e França e no feminino, Brasil, Estados Unidos, Turquia e Itália.

A duração total dos oito jogos somados, totalizam 13 horas e 52 minutos, sendo 6 horas e 52 minutos para os 4 jogos femininos, e 7 horas para os 4 jogos masculinos, com tempo médio de 1 hora e 44 minutos por jogo e 30 minutos por set. A coleta de dados teve início no dia 08 de agosto de 2026, encerrando dia 29 de agosto de 2026.

Para esta pesquisa, considerou-se como incidência somente a marcação em que a arbitragem efetivamente interpretasse a infração de duplo contato durante a partida. Dessa forma, a pesquisa teve como foco a marcação da regra pela arbitragem, não sendo objetivo dos pesquisadores interpretar e determinar tecnicamente se houve ou não duplo contato nas ações dos jogadores que não foram marcadas.

Cada pesquisador realizou seus registros individualmente durante a observação das partidas. Quando houvesse alguma divergência entre as observações, a situação seria posteriormente revista por um terceiro pesquisador, o qual não houve necessidade.

Os dados foram registrados pelos próprios pesquisadores, contendo informações referentes à partida, data, fase da competição, equipes participantes e incidência ou não de interpretação e marcação de duplo contato. Os registros foram organizados em planilhas elaborada pelos próprios pesquisadores para análise dos dados.

A análise foi realizada de forma descritiva, considerando a frequência absoluta e percentual das marcações de duplo contato identificadas nas partidas analisadas. Os resultados foram organizados em tabelas, apresentadas na seção de Resultados.

RESULTADOS

Foram analisadas oito partidas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, sendo quatro do torneio feminino e quatro do torneio masculino, correspondentes às fases semifinal, disputa pelo terceiro lugar e final. Durante a observação integral das partidas, foram registradas as incidências de dois toques marcadas pela arbitragem, conforme os critérios estabelecidos na metodologia. A análise cobriu todas as ações de levantamento e toque de bola que ocorreram ao longo de um total acumulado de 29 sets disputados entre os dois naipes da competição. O mapeamento dessas infrações técnicas envolveu o monitoramento em tempo real de oito das principais potências mundiais da modalidade. Essa amostragem detalhada permitiu quantificar o volume exato de jogo produzido em cada confronto através da contagem direta de todos os rallys finalizados. Com isso, os registros capturaram o comportamento e a precisão das comissões de arbitragem nos momentos de maior pressão do torneio olímpico.

No torneio feminino, foram analisadas quatro partidas. Durante a observação, não foram identificadas marcações da infração de dois toques pela arbitragem, totalizando 0 incidências nas partidas analisadas. Os resultados dos jogos analisados podem ser observados na tabela abaixo, assim como resultado de todos os sets, pontuação e se houve marcação de dois toques de cada time.

Tabela 1. Resultados dos jogos analisados do naipe feminino.

Competição

Disputa

Seleção

Result.

Pontuação cada set

Incidência dois toques

Olimpíadas, Paris 2024. (FEM)

Semifinal

EUA x BRA

3 x 2

25x23, 18x25, 25x15, 23x25, 15x11

0

Semifinal

ITA x TUR

3 x 0

25x22, 25x19, 25x22

0

3º Lugar

BRA x TUR

3 x 1

25x21, 27x26, 22x25, 25x15

0

Final

ITA x EUA

3 x 0

25x17, 25x20, 25x18

0

Total

4 Jogos

8 Seleções

15 Sets

 

0

Fonte: Elaboração própria, 2026. Dados obtidos por meio da análise dos jogos assistidos Cazé TV Olímpicos de Paris 2024.

No torneio masculino, também foram analisadas quatro partidas. Assim como observado na categoria feminina, não foram identificadas marcações da infração de dois toques pela arbitragem ao longo dos confrontos, consolidando um total de 0 incidências nas partidas analisadas.

Tabela 2. Resultados dos jogos analisados do naipe masculino.

Competição

Disputa

Seleção

Result.

Pontuação cada set

Incidência dois toques

Olimpíadas, Paris 2024. (MAS)

Semifinal

POL x EUA

3 x 2

25x23, 25x27, 14x25, 25x23, 15x13

0

Semifinal

FRA x ITA

3 x 0

25x20, 25x21, 25x21

0

3º Lugar

EUA x ITA

3 x 0

25x23, 30x28, 26x24

0

Final

FRA x POL

3 x 0

25x19, 25x20, 25x23

0

Total

4 Jogos

8 Seleções

14 Sets

 

0

Fonte: Elaboração própria, 2026. Dados obtidos por meio da análise das partidas assistidas pela Cazé TV, nos Jogos Olímpicos de Paris 2024.

Com os resultados obtidos por meio da coleta e análise dos dados, foi possível verificar a ausência da marcação dois toques durante os jogos analisados, considerando as seleções femininas e masculinas participantes das Olimpíadas de Paris 2024.

De acordo com os dados coletados, foram analisados 1.051 rallys, distribuídos entre as oito seleções participantes do estudo, sendo quatro do naipe feminino e quatro do naipe masculino. O principal resultado encontrado foi a ausência de marcações de dois toques em todos os rallys analisados, não sendo identificada nenhuma ocorrência desse fundamento durante os oito jogos avaliados.

DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

O presente estudo teve como objetivo analisar a incidência da infração de dois toques durante partidas de voleibol de alto nível, analisando os jogos das semifinais, finais e disputa de terceiro lugar dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, nos naipes masculino e feminino. Os resultados demonstraram que não foi identificada nenhuma incidência da infração de dois toques nas partidas analisadas, correspondendo a uma incidência observada de 0%.

De acordo com as Regras Oficiais de Voleibol da Federação Internacional de Voleibol (FIVB), vigentes durante os Jogos Olímpicos de Paris 2024, o jogador não pode realizar dois contatos consecutivos com a bola, exceto nas situações previstas pela própria regra. A FIVB caracteriza os dois toques como a situação em que um jogador toca a bola duas vezes consecutivamente ou quando a bola entra em contato sucessivo com diferentes partes do corpo do mesmo jogador. Entretanto, existem exceções, como determinados contatos realizados durante o bloqueio e no primeiro contato da equipe, desde que ocorram durante uma mesma ação. Dessa forma, a caracterização da infração depende não apenas da observação de mais de um contato, mas também da sequência e das circunstâncias em que esses contatos acontecem (FIVB, 2021). 

A ausência da incidência de dois toques na pesquisa analisada pode estar relacionada ao elevado nível técnico dos atletas participantes das fases decisivas dos Jogos Olímpicos (Porath et al., 2011). As partidas analisadas correspondem às etapas de maior importância da competição, reunindo equipes que alcançaram as últimas fases do torneio olímpico. Nesse contexto, é possível considerar que a elevada experiência competitiva, associada ao treinamento sistemático e ao domínio dos fundamentos técnicos, possa contribuir para a redução da ocorrência de infrações relacionadas ao controle da bola. Estudos na área confirmam essa premissa ao identificarem uma relação direta entre o tempo de prática esportiva e o aprimoramento do desempenho técnico-tático em jogadores de voleibol, especialmente entre atletas de categorias mais avançadas (Porath et al., 2011).

Dessa forma, a ausência de registros de dois toques pode ser considerada uma possível consequência do elevado nível de desempenho dos atletas analisados, mas não pode ser atribuída exclusivamente à experiência ou à competência técnica dos jogadores.

Palao et al. (2017) destacam a importância do segundo contato na organização ofensiva do voleibol, sendo essa ação frequentemente realizada pelo levantador. Essa função exige elevado controle da bola, precisão e capacidade de tomada de decisão, uma vez que o levantamento determina, em grande medida, as possibilidades ofensivas da equipe. Assim, essa ação caracteriza-se como o segundo contato da equipe, e sua eficácia depende de diferentes fatores, como a posição do levantador, a zona de levantamento, a qualidade da recepção e a técnica utilizada.

Nesse sentido, a ausência de dois toques observada neste trabalho pode ser discutida considerando a necessidade de elevada precisão durante o segundo contato. Palao et al. (2017) destacam que a eficácia do levantamento está relacionada a diferentes fatores, incluindo a qualidade da recepção, a posição do levantador, a zona de levantamento e a técnica utilizada. Em partidas de alto nível, o levantador frequentemente executa essa ação em situações de grande velocidade e pressão, precisando ajustar sua posição corporal e o contato com a bola de acordo com a qualidade da recepção. Assim, a capacidade de executar o fundamento de maneira consistente pode contribuir para a continuidade da jogada sem que sejam cometidas infrações técnicas, mesmo sem avaliar o nível técnico dos levantadores, neste trabalho.

Forman (2025) apresenta uma contribuição particularmente relevante para a compreensão desse resultado. O autor analisou 33.220 partidas de voleibol universitário, correspondentes a mais de 5,2 milhões de rallys, investigando os chamados ball-handling (manuseio de bola) e os efeitos de uma alteração da regra relacionada ao segundo contato. O estudo identificou que os levantadores eram particularmente suscetíveis a esse tipo de infração antes da mudança da regra, sendo responsáveis por mais de 60% das ocorrências de ball-handling (manuseio de bola) na temporada analisada. Após a mudança da regra da NCAA, (National Collegiate Athletic Association) houve redução expressiva dessas infrações, especialmente entre os levantadores (Forman, 2025). 

O mesmo autor Forman (2025) ainda relata que são importantes para a discussão do presente estudo porque demonstram que infrações relacionadas ao controle da bola, principalmente no segundo contato, são fenômenos que podem ser observados no voleibol competitivo. Ao mesmo tempo, a incidência encontrada no presente estudo foi diferente, pois nenhuma incidência foi registrada nas oito partidas analisadas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Essa diferença pode estar relacionada ao contexto competitivo, ao nível dos atletas, ao tamanho da amostra e, principalmente, às diferenças entre as regras aplicadas pela NCAA (National Collegiate Athletic Association) e pela FIVB. Portanto, os resultados de Forman (2025) não devem ser utilizados como comparação direta de incidência, mas como evidência de que os erros relacionados ao controle da bola e ao segundo contato constituem uma variável relevante na análise do voleibol.

Outro aspecto importante para compreender o resultado encontrado está relacionado à própria interpretação da regra. A ausência de uma incidência registrada não significa necessariamente que nenhum contato tenha apresentado características que poderiam gerar dúvida durante a análise. De acordo com a FIVB (2021), a bola pode tocar diferentes partes do corpo simultaneamente, e contatos consecutivos são permitidos em situações específicas. No primeiro contato da equipe e no bloqueio, por exemplo, são permitidos contatos consecutivos, desde que ocorram durante uma mesma ação. Por outro lado, no segundo e no terceiro contato, a bola deve ser tocada de forma limpa, e qualquer assimetria ou toque consecutivo gera a infração de dois toques. Portanto, é necessário diferenciar situações permitidas pela regra de uma efetiva infração.

Essa característica da regra é particularmente importante em estudos observacionais, pois a incidência registrada depende dos critérios utilizados para classificar a ocorrência. Assim, no presente estudo, o valor de 0% representa a ausência de infrações identificadas segundo os critérios estabelecidos para a análise das partidas, e não a inexistência absoluta de situações de contato duplo com a bola. Essa diferenciação aumenta a precisão da interpretação dos resultados e evita uma generalização que não seria sustentada pelo tamanho da pesquisa.

Palao et al. (2018), ao analisarem 2.435 rallys de voleibol feminino universitário, observaram relação entre a eficácia da recepção e o sucesso do side-out, demonstrando que melhores condições de recepção aumentam as possibilidades ofensivas da equipe. No que se refere à defesa, da Silva et al. (2024), ao analisarem 110 jogos do Campeonato Mundial de Voleibol de 2018, Feminino e Masculino adulto verificaram associações entre a ação defensiva do levantador e as ações subsequentes do rally, incluindo o levantamento e o ataque. Os autores evidenciaram que as condições geradas após a ação defensiva estão relacionadas à organização das ações posteriores, reforçando a importância da qualidade do primeiro contato para a continuidade e construção da jogada. Dessa forma, tanto a recepção quanto a defesa podem influenciar as condições em que o segundo contato é realizado, embora essa relação não permita afirmar diretamente que a qualidade desses fundamentos seja responsável pela ocorrência ou ausência de erros de dois toques.

Embora o estudo de Palao et al. (2018) não tenha investigado especificamente a incidência de dois toques, seus resultados auxiliam na compreensão da sequência de ações que antecede o segundo contato. Uma recepção mais precisa tende a proporcionar ao levantador melhores condições espaciais e temporais para realizar o levantamento, enquanto recepções afastadas da rede ou fora do sistema podem exigir deslocamentos e adaptações técnicas mais complexas. Dessa maneira, pode-se considerar que a qualidade da recepção constitui uma variável que merece ser investigada em futuros estudos sobre a ocorrência de dois toques.

Outro aspecto relevante está relacionado ao nível competitivo da pesquisa, Kountouris et al. (2015), ao analisarem as diferenças entre o voleibol masculino e feminino em quatro edições consecutivas dos Jogos Olímpicos Sydney 2000, Atenas 2004, Pequim 2008 e Londres 2012, demonstraram que existem diferenças relacionadas à eficácia dos fundamentos e às características do jogo entre os naipes. Os autores destacaram diferenças na efetividade das ações de saque, ataque, bloqueio e defesa entre homens e mulheres. Entretanto, a ausência de dois toques observada no presente estudo não permite estabelecer diferenças entre os naipes, uma vez que tanto o masculino quanto o feminino apresentaram incidência de 0%. 

Nesse sentido, o resultado encontrado deve ser interpretado como uma característica da pesquisa estudada. Não seria adequado afirmar que homens e mulheres apresentam necessariamente a mesma incidência de dois toques no voleibol de alto rendimento, pois foram analisadas apenas partidas decisivas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024. É possível que uma pesquisa maior, envolvendo partidas de diferentes fases da competição, diferentes torneios internacionais e maior número de rallys, apresentasse ocorrências da infração e permitisse uma comparação estatística entre os naipes.

A baixa ocorrência de erros relacionados ao controle da bola também pode estar associada à evolução do voleibol de alto rendimento. A modalidade apresenta crescente especialização das funções dos jogadores, maior organização dos sistemas ofensivos e defensivos e elevada exigência técnica. No caso do levantador, a necessidade de realizar o segundo contato com precisão é fundamental para que a equipe consiga manter a estrutura ofensiva. Palao et al. (2018) demonstraram que determinadas formas de execução do levantamento estão associadas à construção de ações ofensivas mais eficientes, destacando a importância da qualidade da recepção e da capacidade do levantador para organizar o ataque. 

Para treinadores, a análise da incidência de infrações técnicas pode ser utilizada como uma ferramenta complementar de avaliação do desempenho. Embora a incidência de 0% encontrada neste estudo não permita estabelecer uma relação direta entre a ausência da infração e o desempenho das equipes, a análise de erros técnicos pode contribuir para identificar situações que merecem maior atenção durante o treinamento. Forman (2025) demonstra que alterações na interpretação de uma regra relacionada ao segundo contato podem modificar significativamente a quantidade de infrações registradas e até produzir alterações na continuidade dos rallys, reforçando a importância de acompanhar esse tipo de variável no processo de análise de desempenho. 

Como limitação do presente estudo, destaca-se principalmente o tamanho e a especificidade da pesquisa. Foram analisadas oito partidas dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, correspondentes às fases decisivas da competição. Apesar de representarem partidas de altíssimo nível técnico, essas partidas não representam todo o voleibol disputado durante os Jogos Olímpicos. Além disso, o fato de nenhuma ocorrência ter sido encontrada limita a possibilidade de comparação entre os naipes e impede a realização de análises mais aprofundadas sobre fatores associados à ocorrência da infração.

Para futuras pesquisas, sugere-se ampliar a quantidade de partidas analisadas, incluindo todas as fases dos Jogos Olímpicos e outras competições internacionais, como a Liga das Nações, Campeonato Mundial e campeonatos continentais. Também seria relevante investigar a incidência de dois toques de acordo com a posição dos jogadores, principalmente os levantadores, além de relacionar a infração com a qualidade da recepção, a posição do levantador no momento do contato, o tipo de levantamento, a situação do rally e o resultado da jogada. Outra possibilidade seria comparar diferentes níveis competitivos, como categorias de base, competições nacionais e competições internacionais, buscando verificar se a incidência da infração apresenta relação com o nível técnico dos atletas.

CONCLUSÃO

O presente estudo teve como objetivo verificar a incidência e a interpretação da regra do duplo contato, a partir das marcações realizadas pela arbitragem nas fases finais dos torneios masculino e feminino de voleibol dos Jogos Olímpicos de Paris 2024. Para isso, foram observadas integralmente as partidas selecionadas, considerando como incidência somente as situações em que a arbitragem realizou oficialmente a marcação da infração.

A partir da análise realizada, constatou-se que não houve nenhuma marcação oficial de duplo contato nas partidas observadas. Dessa forma, considerando a amostra analisada, a incidência da infração de duplo contato foi de 0%. Esse resultado indica que, durante os jogos analisados, nenhuma situação relacionada ao segundo contato foi oficialmente penalizada pela arbitragem como duplo contato.

É importante destacar que o resultado de 0% está relacionado exclusivamente às partidas que fizeram parte da amostra desta pesquisa e, portanto, não deve ser generalizado para todas as competições ou níveis do voleibol. A análise de outras competições, períodos e categorias poderá apresentar resultados diferentes e contribuir para uma compreensão mais ampla da aplicação da regra.

Conclui-se, portanto, que, nas fases finais dos torneios masculino e feminino de voleibol dos Jogos Olímpicos de Paris 2024 analisadas neste estudo, a incidência de marcações oficiais de duplo contato foi de 0%. Ao mesmo tempo, os resultados levantam uma questão relevante: se não foram observadas penalizações por duplo contato nas partidas analisadas, quais fatores justificariam a adoção de uma interpretação mais flexível ou eventuais alterações na regra para os próximos Jogos Olímpicos? Essa questão não pôde ser respondida pelo presente estudo, constituindo uma oportunidade para futuras pesquisas que investiguem a evolução da regra e suas implicações no voleibol de alto rendimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BO BOJIKIAN, J. C. M. Ensinando voleibol. 2. ed. São Paulo: Phorte, 2003.

DA SILVA, M. M. et al. Game-related statistics and defensive actions of the setter in high-level volleyball. International Journal of Sports Science & Coaching, v. 19, n. 2, p. 540-551, 2024.

FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE VOLLEYBALL (FIVB). Official Volleyball Rules 2021-2024. Lausanne: FIVB, 2021.

FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE VOLLEYBALL (FIVB). Official Volleyball Rules 2025–2028: Approved by the 39th FIVB World Congress 2024. Lausanne: FIVB, 2024a. Disponível em: https://www.fivb.com/wp-content/uploads/2025/01/FIVB-Volleyball_Rules2025_2028-EN.pdf. Acesso em: 24 ago. 2026.

FÉDÉRATION INTERNATIONALE DE VOLLEYBALL (FIVB). Refereeing Guidelines and Instructions 2024. Lausanne: FIVB, 2024b.

FORMAN, J. Impact of the second-contact rule change on setter performance, referee home advantage, and rally dynamics in NCAA volleyball. Journal of Sports Sciences, v. 43, n. 23, p. 2977-2987, 2025.

GARCIA, R. M.; MEIRELES, C. H. A.; PEREIRA, E. G. B. Evolução e adaptação histórica do voleibol. Lecturas: Educación Física y Deportes, v. 26, n. 281, p. 183-203, 2021.

KOUNTOURIS, P. et al. Comparison of match characteristics between men and women's high-level volleyball over four consecutive Olympic Games. International Journal of Performance Analysis in Sport, v. 15, n. 3, p. 912-923, 2015.

MARZANO-FELISATTI, J. M.; GUZMÁN LUJÁN, J. F.; PRIEGO-QUESADA, J. I. Últimas tendencias en el análisis técnico-táctico del voleibol de alto nivel: revisión sistemática. Retos: nuevas tendencias en educación física, deporte y recreación, n. 46, p. 874-889, 2022.

PALAO, J. M. et al. Effect of setter position and zone on setter actions in high-level volleyball. International Journal of Volleyball Research, v. 15, n. 1, p. 14-25, 2017.

PALAO, J. M. et al. Relationship between serve reception and side-out success in women's collegiate volleyball. Journal of Human Kinetics, v. 62, n. 1, p. 185-196, 2018.

PORATH, M. et al. Relação entre a experiência esportiva e o desempenho técnico-tático de jogadores de voleibol. Perceptual and Motor Skills, v. 113, n. 2, p. 395-408, 2011.

SANTOS NETO, S. C. dos S. A evolução das regras visando o espetáculo no voleibol. Lecturas: Educación Física y Deportes, n. 76, 2004.

SILVA, M.; MARCELINO, R.; LACERDA, D.; JOÃO, P. V. Match analysis in volleyball: a systematic review. Montenegrin Journal of Sports Science and Medicine, v. 5, n. 1, p. 35-46, 2016.


1 Acadêmica do curso de Educação Física, Centro Universitário Fundação Assis Gur gacz. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Acadêmico do curso de Educação Física, Centro Universitário Fundação Assis Gur gacz. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Orientadora, docente do Centro Universitário Fundação Assis Gurgacz.