IMPACTO DE PRÁTICAS DE EDUCAÇÃO NUTRICIONAL ASSOCIADAS A TERAPIAS INTEGRATIVAS NO CUIDADO INDIVIDUAL E COLETIVO DE PACIENTES ONCOLÓGICOS NO ATENDIMENTO AMBULATORIAL

IMPACT OF NUTRITION EDUCATION PRACTICES ASSOCIATED WITH INTEGRATIVE THERAPIES ON THE INDIVIDUAL AND COLLECTIVE CARE OF ONCOLOGY PATIENTS IN OUTPATIENT SETTINGS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/789519852

RESUMO
O câncer está associado a alterações nutricionais, sintomas e impactos que podem comprometer o autocuidado e a qualidade de vida. Nesse contexto, a Educação Alimentar e Nutricional (EAN), associada a Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), pode ampliar o cuidado e favorecer a humanização da assistência. Objetivo: Avaliar o impacto de práticas de EAN associadas às PICS no cuidado de pacientes oncológicos em atendimento ambulatorial, considerando aspectos nutricionais, hábitos alimentares e conhecimento. Metodologia: Estudo de campo, descritivo, transversal, com abordagem quanti-qualitativa, realizado durante nove meses em ambulatório de oncologia da Grande Vitória (ES). Foram avaliados 64 pacientes, mediante ASG-PPP, antropometria e questionário “Como está sua alimentação?”. Paralelamente, 78 pacientes participaram de ações coletivas, incluindo dez encontros de EAN e práticas de meditação, respiração consciente, mindfulness, automassagem e aromaterapia. A percepção foi avaliada por escala Likert de cinco pontos. Os dados foram analisados por estatística descritiva. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do UniSales (CAAE nº 80937724.5.0000.5068). Resultados: Observou-se elevada vulnerabilidade nutricional, com 60,9% dos participantes apresentando comprometimento. Identificaram-se necessidades de aprimoramento dos hábitos alimentares e conhecimento limitado sobre as PICS: 56% não as conheciam e 86% não as utilizavam. As intervenções apresentaram elevada aceitação, com índices superiores a 95% de satisfação, aprendizado e motivação, além de relatos de redução da ansiedade, bem-estar, acolhimento e fortalecimento do autocuidado. Conclusão: A integração entre EAN e PICS mostrou-se viável e bem aceita, constituindo estratégia complementar para promoção da saúde, autocuidado e humanização do cuidado oncológico ambulatorial.
Palavras-chave: Neoplasias; Educação Alimentar e Nutricional; Práticas Integrativas e Complementares em Saúde; Autocuidado; Humanização da Assistência.

ABSTRACT
Cancer is a public health concern and is associated with nutritional changes and symptoms that negatively affect patients’ quality of life. In this context, nutrition education combined with Integrative and Complementary Health Practices (ICHPs) may promote self-care, reduce anxiety, and contribute to more humanized healthcare. Thus, this study aimed to evaluate the impact of nutrition education practices associated with ICHPs on the care of oncology patients receiving outpatient care, considering their contribution to self-care. This was a descriptive, cross-sectional field study with a quantitative and qualitative approach, conducted in an oncology outpatient clinic in Greater Vitória, Espírito Santo, Brazil. Nutritional assessments were performed in 64 patients, and nutrition education activities associated with ICHPs were conducted in the outpatient waiting room, involving 78 patients. The interventions were carried out over nine months and included guidance on healthy eating, hydration, and mindful eating, combined with meditation, mindfulness, aromatherapy, and self-massage. Data were analyzed using descriptive statistics. The study was approved by the Research Ethics Committee of UniSales (CAAE No. 80937724.5.0000.5068). A high prevalence of nutritional alterations and a need to improve dietary habits were identified. The interventions increased participants’ knowledge of healthy eating, hydration, and food choices. Limited knowledge and low previous use of ICHPs were observed. The activities showed high acceptance, with satisfaction, learning, and motivation rates above 95%, as well as reports of reduced anxiety, increased well-being, and a greater sense of being welcomed and cared for. In conclusion, the combination of nutrition education and ICHPs proved to be feasible and well accepted, contributing to health promotion, humanized care, and strengthening of self-care among oncology patients.
Keywords: Neoplasms; Food and Nutrition Education; Integrative and Complementary Health Practices; Self-Care; Humanization of Care.

1. INTRODUÇÃO

O câncer constitui um dos principais problemas de saúde pública mundial, representando importante causa de morbimortalidade e impondo desafios aos sistemas de saúde. No Brasil, as projeções para o período de 2023-2025 indicaram aproximadamente 704 mil novos casos anuais, evidenciando a magnitude da doença e seu impacto populacional (INCA, 2023). O aumento da incidência e da mortalidade está relacionado às transições demográfica e epidemiológica, ao envelhecimento populacional e às mudanças comportamentais e ambientais, incluindo alterações nos padrões alimentares e no estilo de vida (PENEIRA et al., 2025). No Espírito Santo, destaca-se a ocorrência de neoplasias de mama, próstata e do aparelho respiratório, reforçando a necessidade de estratégias de prevenção, diagnóstico precoce e cuidado multidimensional (INCA, 2023).

O tratamento oncológico pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia e, mais recentemente, modalidades como a imunoterapia, utilizadas isoladamente ou em associação. Embora fundamentais para o controle da doença, essas terapias podem produzir efeitos adversos que comprometem diferentes dimensões da saúde. Os medicamentos antineoplásicos, por atuarem também sobre células normais de rápida renovação, podem ocasionar náuseas, vômitos, alterações do paladar, mucosite, xerostomia, diarreia, constipação e disfagia, interferindo diretamente na ingestão alimentar e hídrica (INCA, 2022; ANAND et al., 2022; BRUNTON; HILAL-DANDAN; KNOLLMANN, 2023; CASARI et al., 2021; JAPUR, 2024).

Nesse contexto, o comprometimento nutricional constitui uma importante complicação no paciente oncológico. A própria doença pode desencadear alterações metabólicas associadas à Síndrome Anorexia-Caquexia, caracterizada por inflamação sistêmica, estado hipercatabólico e perda progressiva de massa muscular (MARQUES et al., 2021; BAROCOS, 2023). A caquexia compromete a funcionalidade e pode reduzir a resposta ao tratamento antineoplásico (ARENDS et al., 2021). Dessa forma, pacientes com desnutrição ou inadequações no consumo alimentar apresentam maior risco de complicações, pior tolerância ao tratamento e comprometimento da qualidade de vida, tornando fundamental a identificação precoce do risco nutricional e a implementação de estratégias individualizadas de cuidado (BRASPEN, 2021; RODRIGUES et al., 2026).

A atuação do nutricionista é, portanto, essencial no acompanhamento do paciente oncológico, possibilitando a avaliação periódica do estado nutricional, a identificação de alterações e a elaboração de estratégias alimentares adequadas às necessidades individuais e aos sintomas relacionados ao tratamento (CFN, 2018). O suporte nutricional pode contribuir para a manutenção da funcionalidade, melhora do bem-estar e qualidade de vida, além de favorecer a adesão ao tratamento e a redução de complicações associadas à desnutrição (DE SOUZA et al., 2021; SILVA et al., 2023). As diretrizes da Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral reforçam a importância da triagem nutricional precoce e do estabelecimento de metas de cuidado para pacientes em risco nutricional (BRASPEN, 2021).

Além da assistência nutricional individualizada, a Educação Alimentar e Nutricional (EAN) constitui importante estratégia para ampliar o conhecimento, favorecer a autonomia e fortalecer o autocuidado. Segundo o Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas, a EAN corresponde a um campo de conhecimento e prática contínua, permanente, transdisciplinar, intersetorial e multiprofissional, voltado à promoção de práticas alimentares saudáveis e autônomas (SANTOS et al., 2024). No contexto oncológico, ações educativas podem auxiliar os pacientes a compreender e adaptar suas escolhas alimentares diante dos sintomas e das demandas do tratamento, favorecendo maior participação no próprio cuidado (SILVA et al., 2025). Entretanto, a implementação de estratégias educativas em ambientes clínicos ainda apresenta desafios, especialmente diante da vulnerabilidade nutricional e da necessidade de abordagens mais participativas e centradas nas necessidades dos pacientes (CAMARGO, 2023; BARRÉRE et al., 2021).

Paralelamente, as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) vêm sendo incorporadas ao cuidado em saúde por meio da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), com a finalidade de ampliar as possibilidades terapêuticas e promover a integralidade da assistência (BRASIL, 2018). No contexto oncológico, práticas como meditação, mindfulness, respiração consciente, aromaterapia, automassagem e outras estratégias de relaxamento têm sido utilizadas como recursos complementares para o manejo de sintomas físicos e emocionais, especialmente ansiedade, estresse, fadiga e sofrimento emocional (LOPES-JÚNIOR et al., 2024). Estudos também apontam o potencial dessas práticas para favorecer acolhimento, bem-estar e cuidado humanizado (JARDIM et al., 2024).

A regulamentação das atribuições do nutricionista nas PICS, estabelecida pela Resolução CFN nº 679/2021, amplia as possibilidades de integração entre assistência nutricional e práticas terapêuticas complementares, valorizando uma abordagem integral e humanizada do indivíduo (CONSELHO FEDERAL DE NUTRICIONISTAS, 2021). Entretanto, sua aplicação deve ser individualizada, segura, supervisionada e fundamentada em evidências, especialmente no contexto oncológico, considerando as condições clínicas dos pacientes e possíveis sensibilidades relacionadas a determinadas práticas, como a aromaterapia (AHN; KIM, 2023; MONTEIRO-OLIVEIRA et al., 2021).

Diante disso, a associação entre Educação Alimentar e Nutricional e PICS apresenta-se como uma possibilidade de ampliar o cuidado nutricional para além da dimensão exclusivamente biológica, contemplando aspectos emocionais, comportamentais e de autonomia. Essa integração pode favorecer a construção de um cuidado mais acolhedor e centrado nas necessidades dos pacientes, estimulando práticas de autocuidado, alimentação consciente, hidratação adequada, relaxamento e enfrentamento das dificuldades relacionadas ao tratamento (JARDIM et al., 2024). Apesar do potencial dessas estratégias, ainda são limitados os estudos que investigam sua utilização integrada em pacientes oncológicos em atendimento ambulatorial, especialmente considerando simultaneamente aspectos nutricionais, educativos, percepção dos participantes e humanização da assistência (LOPES-JÚNIOR et al., 2020).

Dessa forma, considerando a vulnerabilidade nutricional dos pacientes oncológicos e a necessidade de estratégias que favoreçam o autocuidado e a humanização da assistência, o presente estudo teve como objetivo avaliar o impacto de práticas de Educação Alimentar e Nutricional associadas às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde no cuidado de pacientes oncológicos em atendimento ambulatorial, considerando sua contribuição para a promoção da saúde, o autocuidado e a humanização da assistência.

2. METODOLOGIA

2.1. Desenho do Estudo e Participantes

Trata-se de um estudo de campo, descritivo, transversal, com abordagem quantitativa e componente de avaliação da percepção dos participantes, realizado com pacientes adultos e idosos, de ambos os sexos, em tratamento oncológico ambulatorial, provenientes majoritariamente da Grande Vitória, Espírito Santo.

O estudo foi desenvolvido durante aproximadamente nove meses e contemplou duas etapas complementares: (1) avaliação nutricional individual e (2) desenvolvimento de ações coletivas de Educação Alimentar e Nutricional (EAN) articuladas às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS).

Na primeira etapa, foram avaliados 64 pacientes oncológicos atendidos no Centro Integrado de Atenção à Saúde da Católica (CIASC), considerando características sociodemográficas, estado nutricional e hábitos alimentares. Na segunda etapa, participaram 78 pacientes das atividades educativas e integrativas desenvolvidas na sala de espera do ambulatório de oncologia. A participação nas atividades coletivas ocorreu de forma espontânea, envolvendo pacientes que aguardavam atendimento ou consulta no momento das intervenções, incluindo participantes que também integravam a etapa de avaliação nutricional.

Foram incluídos pacientes em tratamento oncológico ambulatorial, com idade entre 20 e 80 anos, de ambos os sexos, que concordaram voluntariamente em participar da pesquisa mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Foram excluídos indivíduos que não atendiam à faixa etária estabelecida ou que se recusaram a participar da pesquisa ou a assinar o TCLE.

2.2. Aspectos Éticos

O estudo foi encaminhado ao Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Salesiano e aprovado sob o CAAE nº 80937724.5.0000.5068. Todos os participantes foram previamente esclarecidos quanto aos objetivos, procedimentos, possíveis desconfortos, riscos e benefícios da pesquisa e, posteriormente, aqueles que aceitaram participar assinaram o TCLE.

Foram assegurados o sigilo das informações coletadas e sua utilização exclusivamente para fins científicos, em conformidade com as Resoluções nº 466/2012 e nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2012; BRASIL, 2016).

2.3. Procedimentos e Instrumentos de Coleta de Dados

A coleta de dados ocorreu presencialmente e contemplou informações sociodemográficas, avaliação do estado nutricional, investigação dos hábitos alimentares, conhecimento e utilização das PICS, além da avaliação da percepção dos participantes sobre as ações educativas e integrativas desenvolvidas.

As variáveis sociodemográficas incluíram idade, sexo, escolaridade, cor/raça, renda familiar, ocupação, religião, procedência, nível de atividade física, doenças preexistentes, consumo de bebidas alcoólicas e tabagismo, além de informações relacionadas ao tipo de câncer.

2.3.1. Avaliação do Estado Nutricional

O estado nutricional foi avaliado por meio da Avaliação Subjetiva Global Produzida pelo Paciente (ASG-PPP), avaliação antropométrica e investigação da perda de peso recente.

A ASG-PPP foi utilizada para rastreamento e classificação do estado nutricional dos pacientes oncológicos, considerando as categorias: A, correspondente a bem nutrido; B, suspeita ou presença de desnutrição moderada; e C, desnutrição grave. O instrumento contempla informações relacionadas ao peso, ingestão alimentar, sintomas com impacto nutricional, capacidade funcional, demanda metabólica e exame físico (GONZALEZ et al., 2010).

A avaliação antropométrica incluiu peso corporal, estatura, índice de massa corporal (IMC), circunferência da cintura, circunferência do braço e circunferência da panturrilha. O peso foi aferido em balança digital calibrada e a estatura por meio de estadiômetro portátil, seguindo as recomendações do Ministério da Saúde (BRASIL, 2011). O IMC foi calculado pela relação entre peso corporal e estatura ao quadrado (kg/m²), utilizando-se os pontos de corte da Organização Mundial da Saúde para adultos (WHO, 1995) e de Lipschitz (1994) para idosos.

A circunferência da cintura foi utilizada como indicador de adiposidade central e risco cardiometabólico; a circunferência do braço como parâmetro complementar das reservas corporais; e a circunferência da panturrilha como marcador indireto de massa muscular. Também foi investigada a perda de peso não intencional nos seis meses anteriores. O diagnóstico de desnutrição foi considerado segundo os critérios da Global Leadership Initiative on Malnutrition (GLIM), envolvendo critérios fenotípicos e etiológicos, com classificação da gravidade em moderada ou grave (CEDERHOLM et al., 2019).

2.3.2. Avaliação dos Hábitos Alimentares

Os hábitos alimentares foram avaliados por meio do questionário “Como está sua alimentação?”, elaborado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2013).

O instrumento permitiu investigar aspectos relacionados à regularidade das refeições, consumo de alimentos in natura e ultraprocessados, ingestão de água, padrão das refeições e qualidade geral da alimentação. Escores iguais ou superiores a 43 pontos foram considerados indicativos de hábitos alimentares adequados; pontuações entre 29 e 42 pontos indicaram necessidade de maior atenção à alimentação, atividade física e ingestão de água; e resultados iguais ou inferiores a 28 pontos indicaram hábitos alimentares inadequados e necessidade de mudanças no estilo de vida.

2.3.3. Intervenção Integrada de Educação Alimentar e Nutricional e PICS

As ações de Educação Alimentar e Nutricional foram desenvolvidas de forma articulada às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, constituindo a estratégia central de cuidado coletivo proposta pelo estudo.

As atividades educativas foram fundamentadas nos princípios do Marco de Referência de Educação Alimentar e Nutricional para as Políticas Públicas, no Guia Alimentar para a População Brasileira e no I Consenso Brasileiro de Nutrição Oncológica (BRASIL, 2012; BRASIL, 2014; SBNO, 2021).

Foram realizados dez encontros temáticos, abordando alimentação variada, compostos bioativos dos alimentos, manejo nutricional dos sintomas decorrentes do tratamento, hidratação, consumo adequado de proteínas, carboidratos e lipídios, além de estratégias relacionadas ao autocuidado. Os conteúdos foram adaptados às características socioculturais e ao nível de escolaridade dos participantes, utilizando linguagem acessível e recursos visuais.

As atividades utilizaram metodologias participativas e ativas, incluindo rodas de conversa, exposição dialogada, dinâmicas em grupo, atividades lúdicas, demonstrações práticas e compartilhamento de experiências. Essa abordagem buscou estimular a participação dos pacientes, a troca de saberes e a construção compartilhada do conhecimento, favorecendo a autonomia nas escolhas alimentares.

De forma complementar, foram desenvolvidas PICS, com destaque para meditação guiada, respiração consciente, mindfulness, automassagem e aromaterapia. As práticas foram realizadas na sala de espera do ambulatório de oncologia, de maneira educativa e participativa, com enfoque em relaxamento, acolhimento emocional, redução da ansiedade e fortalecimento do autocuidado.

Na aromaterapia foram utilizados aromas suaves, incluindo lavanda, baunilha, erva-cidreira e bergamota. As práticas meditativas envolveram exercícios de respiração, mindfulness e relaxamento orientado, conduzidos de maneira simples e acessível aos participantes.

2.3.4. Avaliação do Conhecimento, Utilização e Percepção Sobre as PICS

O conhecimento e a utilização das PICS foram investigados por meio de questionário estruturado, elaborado com base em estudos nacionais sobre o tema, especialmente Jardim et al. (2024).

Foram avaliados o conhecimento prévio sobre as PICS, quantidade e tipos de práticas conhecidas, realização de práticas integrativas, quantidade e tipos utilizados, recomendação das práticas a outras pessoas, percepção de melhora após sua utilização e ocorrência de possíveis efeitos indesejados.

2.3.5. Avaliação da Percepção e Aceitabilidade das Intervenções

Ao término das atividades educativas e integrativas, os participantes foram convidados a avaliar sua percepção sobre as intervenções por meio de escala do tipo Likert de cinco pontos.

Na avaliação das ações de EAN foram considerados aspectos relacionados à clareza das informações, relevância dos conteúdos, satisfação com a atividade, motivação para aplicação dos conhecimentos e percepção de aprendizado.

Nas atividades envolvendo PICS, foram considerados aspectos relacionados ao bem-estar, relaxamento, ansiedade, tensão emocional, cansaço e sensação de acolhimento. Também foram registrados relatos dos participantes relacionados às experiências vivenciadas durante as práticas.

Importante: essas avaliações foram utilizadas para caracterizar a percepção e a aceitabilidade das intervenções. Não foi estabelecida, com base nos procedimentos descritos nos trabalhos originais, uma comparação experimental pré e pós-intervenção.

2.4. Análise dos Dados

Os dados quantitativos foram organizados em planilhas eletrônicas e analisados por estatística descritiva. Para as variáveis categóricas foram calculadas frequências absolutas e relativas, enquanto as variáveis numéricas foram apresentadas por meio de medidas de tendência central e dispersão.

As informações provenientes dos relatos e das avaliações de percepção dos participantes foram utilizadas de forma complementar à análise quantitativa, permitindo caracterizar as experiências relacionadas às ações de EAN e PICS, especialmente quanto à satisfação, aprendizado percebido, motivação, relaxamento, bem-estar, acolhimento e autocuidado.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Participaram da etapa de avaliação nutricional 64 pacientes em tratamento oncológico, sendo 51,6% (n=33) idosos e 48,4% (n=31) adultos. Houve predominância do sexo feminino (64,1%; n=41), seguida por participantes autodeclarados pardos (48,4%; n=31). Quanto à escolaridade, 53,1% (n=34) possuíam ensino fundamental, enquanto 37,5% (n=24) eram aposentados. A maioria dos participantes residia na Grande Vitória (98,4%; n=63), conforme apresentado na Tabela 1.

Tabela 1. Variáveis sociodemográficas de pacientes com câncer

Variáveis

n

%

Sexo

  

Feminino

41

64,1

Masculino

23

35,9

Cor/raça

  

Negra

11

17,2

Branca

22

34,4

Parda

31

48,4

Amarela

0

0,0

Não declarou

0

0,0

Escolaridade

  

Analfabeto

2

3,1

Ensino fundamental

34

53,1

Ensino médio

21

32,8

Ensino superior

7

10,9

Renda familiar

  

Menos de 1 salário mínimo

2

3,1

1 salário mínimo

8

12,5

1,5 salário mínimo

13

20,3

2 salários mínimos

12

18,8

2,5 salários mínimos

4

6,2

Entre 3 e 5 salários mínimos

14

21,9

5 salários mínimos ou mais

3

4,7

Não respondeu

8

12,5

Ocupação/profissão

  

Autônomo(a)

14

21,9

Profissional de carteira assinada

8

12,5

Funcionário público

2

3,1

Aposentado(a)

24

37,5

Dona de casa

11

17,2

Pensionista

2

3,1

Outro

2

3,1

Não respondeu

1

1,6

Cidade

  

Grande Vitória

63

98,4

Minas Gerais

1

1,6

Fonte: Dados da pesquisa, 2024

O predomínio feminino observado na amostra é compatível com a maior participação das mulheres em serviços de saúde e ações preventivas e de autocuidado descrita no trabalho de EAN (SILVA et al., 2025). A predominância de participantes com ensino fundamental também possui implicações importantes para o planejamento das ações educativas. A baixa escolaridade pode representar uma barreira à compreensão de informações técnicas e prescrições complexas, justificando a utilização de linguagem acessível, recursos visuais e metodologias participativas nas oficinas de EAN (SILVA et al., 2025).

A presença expressiva de idosos e aposentados também caracteriza uma população que pode apresentar maior vulnerabilidade clínica e nutricional. Nesse cenário, as ações de cuidado precisam considerar não apenas o diagnóstico oncológico, mas também as características sociais, funcionais e econômicas dos participantes. A distribuição da renda familiar demonstra ainda heterogeneidade socioeconômica, aspecto que deve ser considerado nas orientações nutricionais. A EAN precisa favorecer escolhas alimentares possíveis dentro da realidade econômica dos pacientes, evitando recomendações incompatíveis com sua capacidade de aquisição e preparo dos alimentos. Essa perspectiva está de acordo com a proposta de autonomia e adequação sociocultural da EAN (BRASIL, 2012; BRASIL, 2014).

A tabela 2 apresenta demonstrou que os tumores do sistema digestório foram os mais frequentes (32,8%; n=21), seguidos pelos tumores de mama (31,3%; n=20) e do sistema reprodutivo e urinário (18,8%; n=12). O diagnóstico entre dois e três anos foi o mais frequente (54,7%; n=35). Quanto ao tratamento, a quimioterapia esteve presente em 59,4% (n=38) dos participantes.

Tabela 2. Aspectos clínicos e mudanças alimentares de pacientes com câncer

Variáveis

n

%

Tipo de tumor

  

Tumores de cabeça e pescoço

2

3,1

Tumores de mama

20

31,3

Tumores de pele

1

1,6

Tumores ósseos

4

6,3

Tumores do sistema digestório

21

32,8

Tumores de próstata

7

10,9

Sistema reprodutivo e urinário

12

18,8

Sistema linfático

1

1,6

Tumores pulmonares

5

7,8

Ano do diagnóstico

  

No último ano

22

34,4

De 2 a 3 anos

35

54,7

De 3 a 5 anos

3

4,7

5 anos ou mais

4

6,3

Tratamento atual/prévio

  

Quimioterapia

38

59,4

Radioterapia

7

10,9

Imunoterapia

3

4,7

Quimioterapia + radioterapia

10

15,6

Cirurgia

20

31,3

Tabagismo

  

Sim

6

9,4

Não

40

62,5

Já fumou no passado

18

28,1

Mudança no hábito alimentar após início do tratamento

  

Mudou totalmente

17

26,6

Mudou em partes

39

60,9

Não houve mudanças

8

12,5

Qualidade da alimentação melhorou após diagnóstico

  

Sim

37

57,8

Não

18

28,1

Não respondeu

9

14,1

Nota: A soma das frequências e percentuais referentes aos tipos de tumor pode ultrapassar 100%, pois alguns participantes apresentavam mais de um diagnóstico oncológico.
Fonte: Dados da pesquisa (2026).

A predominância de tumores digestórios e de mama acompanha, em parte, o perfil epidemiológico descrito pelo INCA para o Brasil (INCA, 2022). A frequência de tumores digestórios também merece atenção nutricional, considerando a relação desses órgãos com digestão, absorção e ingestão alimentar (ARENDS et al., 2021).

A quimioterapia foi a modalidade terapêutica mais frequente, isoladamente ou associada a outras terapias. Esse achado é relevante porque os efeitos adversos do tratamento podem interferir diretamente na alimentação. Náuseas, alterações do paladar, mucosite, xerostomia e redução do apetite podem comprometer a ingestão e favorecer deterioração do estado nutricional (ALZOUBI; LOMAN, 2025; INCA, 2022).

Apesar dessas dificuldades, 60,9% (n=39) dos participantes relataram mudança parcial dos hábitos alimentares desde o início do tratamento e 26,6% (n=17) referiram mudança total. Além disso, 57,8% (n=37) perceberam melhora da qualidade da alimentação após o diagnóstico. Esse achado pode indicar maior preocupação com o autocuidado após o diagnóstico, criando uma oportunidade para intervenções educativas fundamentadas cientificamente (BRASIL, 2012; BRASIL, 2014; SILVA et al., 2025).

A avaliação antropométrica revelou um perfil nutricional heterogêneo. Entre os adultos, 6,2% apresentavam desnutrição, enquanto sobrepeso e obesidade corresponderam, conjuntamente, a 34,4%. Entre os idosos, 12,5% apresentavam baixo peso e 25,0% sobrepeso. A perda de peso nos seis meses anteriores foi relatada por 65,6% dos participantes, sendo que 32,8% perderam mais de 10% do peso corporal conforme apresentado na tabela 3.

Tabela 3. Estado nutricional e indicadores antropométricos de pacientes oncológicos

Variáveis

n

%

IMC – adultos (n=31)

  

Desnutrição

4

6,2

Eutrofia

5

7,8

Sobrepeso

12

18,8

Obesidade

10

15,6

IMC – idosos (n=33)

  

Baixo peso

8

12,5

Eutrofia

9

14,1

Sobrepeso

16

25,0

Perda de peso nos últimos 6 meses

  

1–5%

12

18,8

5–10%

9

14,1

Mais de 10%

21

32,8

Não perdeu peso

22

34,4

Circunferência da panturrilha

  

Desnutrido

20

31,2

Eutrófico

44

68,8

Circunferência da cintura

  

Sem risco

21

32,8

Risco aumentado

16

25,0

Risco muito aumentado

27

42,2

Circunferência do braço

  

Baixo peso

14

21,9

Eutrofia

33

51,6

Sobrepeso

17

26,6

Fonte: Dados da pesquisa (2026).

A presença simultânea de perda ponderal e excesso de peso demonstra a complexidade do estado nutricional em oncologia. O IMC isoladamente pode não identificar alterações na composição corporal, especialmente perda de massa muscular associada ao excesso de gordura (MUSCARITOLI et al., 2021). Por isso, a utilização de medidas complementares, como circunferência da panturrilha e circunferência da cintura, amplia a capacidade de identificação de riscos nutricionais.

A perda de mais de 10% do peso corporal em 32,8% da amostra constitui um achado clínico relevante. A literatura já utilizada no trabalho relaciona a perda de massa muscular e a caquexia ao processo catabólico associado ao câncer, com repercussões sobre funcionalidade, tolerância ao tratamento e prognóstico (BARACOS, 2019; ARENDS et al., 2021).

A circunferência da panturrilha identificou desnutrição em 31,2% dos participantes, resultado que reforça a necessidade de atenção à massa muscular. Esse indicador tem sido utilizado como marcador complementar de massa muscular e risco nutricional, particularmente em populações vulneráveis (CARVALHO et al., 2022; GONÇALVES et al., 2019). A circunferência da cintura revelou risco muito aumentado em 42,2% da amostra. Esse resultado demonstra que a avaliação do risco nutricional precisa considerar também a distribuição da gordura corporal e o risco cardiometabólico, independentemente do IMC (TIGRE et al., 2024; POWELL-WILEY et al., 2021).

A ASG-PPP evidenciou importante comprometimento nutricional, conforme apresentado na tabela 4. Do total da amostra, 39,1% (n=25) foram classificados como bem nutridos, 35,9% (n=23) apresentaram desnutrição moderada ou risco de desnutrição e 25,0% (n=16) apresentaram desnutrição grave. Portanto, 60,9% dos participantes apresentaram algum grau de comprometimento nutricional.

Tabela 4. Avaliação subjetiva do estado nutricional e hábitos alimentares de pacientes com câncer

Variáveis

n

%

Ingestão alimentar durante o último mês

  

Mais que o habitual

11

17,2

Menos que o habitual

37

57,8

Não houve mudanças

16

25,0

Tipo de dieta

  

Dieta normal

56

87,5

Dieta branda

3

4,7

Pastosa

2

3,1

Alimentação via sonda ou NPT

3

4,7

Capacidade funcional

  

Normal, sem disfunção

31

48,4

Não totalmente normal

24

37,5

Sem disposição para a maioria das coisas

6

9,4

Capaz de fazer pouca atividade

3

4,7

Demanda metabólica

  

Moderado estresse

18

28,1

Baixo estresse

29

45,3

Sem estresse

17

26,6

Classificação pela ASG-PPP

  

Bem nutrido

25

39,1

Moderadamente desnutrido/risco de desnutrição

23

35,9

Desnutrição grave

16

25,0

Pontuação do questionário alimentar

  

Vida saudável

3

4,7

Mais atenção

29

45,3

Fique atento

32

50,0

Fonte: Dados da pesquisa (2026).

A ingestão alimentar inferior a habitual foi relatada por 57,8% dos participantes. Além disso, 51,6% apresentaram algum grau de comprometimento da capacidade funcional. Esses resultados reforçam a relevância da ASG-PPP, uma vez que o instrumento permite integrar aspectos relacionados à ingestão alimentar, capacidade funcional e repercussões da doença sobre o estado nutricional.

A combinação de ingestão reduzida, perda ponderal e comprometimento funcional é compatível com a vulnerabilidade nutricional observada em pacientes oncológicos. A redução da ingestão alimentar pode decorrer tanto da própria doença quanto dos efeitos adversos do tratamento, contribuindo para deterioração progressiva do estado nutricional (INCA, 2022; ARENDS et al., 2021).

A análise dos hábitos alimentares mostrou que apenas 4,7% (n=3) apresentavam classificação correspondente a uma alimentação saudável, enquanto 95,3% necessitavam de atenção ou mudanças. Esse resultado demonstra que a necessidade de intervenção não se restringia aos pacientes classificados como desnutridos, alcançando também indivíduos com excesso de peso ou aparentemente eutróficos.

Esse achado é particularmente importante porque reforça que o cuidado nutricional em oncologia não deve estar centrado exclusivamente na recuperação do peso. A qualidade da alimentação, a adequação da ingestão e a capacidade de manejar sintomas relacionados ao tratamento também devem ser consideradas (BRASIL, 2013; BRASIL, 2014; INCA, 2022).

A tabela 5 mostra os dez encontros realizados de EAN, abordando alimentação variada, compostos bioativos dos alimentos, alimentação prática durante o tratamento, hidratação, proteínas, carboidratos, lipídios, higienização dos alimentos, alimentação e imunidade e saúde mental e alimentação. As atividades utilizaram metodologias participativas, rodas de conversa, exposição dialogada, dinâmicas e atividades práticas. Os resultados demonstraram elevada aceitabilidade das ações educativas. Os indicadores de clareza, satisfação, motivação e aprendizado percebido permaneceram entre 95% e 100% em todos os encontros. A elevada aceitação pode estar relacionada à utilização de linguagem acessível e metodologias participativas. Esse aspecto é particularmente relevante diante do perfil educacional da amostra, no qual 53,1% apresentavam ensino fundamental.

Tabela 5. Avaliação da percepção dos participantes sobre as práticas de Educação Alimentar e Nutricional em oncologia

Tema da prática educativa

Participantes n (%)

Clareza n (%)

Satisfação n (%)

Motivação n (%)

Aprendizado percebido n (%)

Importância da alimentação variada

34 (100)

33 (98)

33 (98)

33 (98)

34 (100)

Compostos bioativos dos alimentos

30 (100)

29 (98)

29 (98)

29 (98)

29 (96)

Alimentação prática durante o tratamento

37 (100)

36 (98)

36 (98)

36 (98)

37 (99)

Importância da hidratação consciente

32 (100)

31 (98)

31 (98)

31 (98)

30 (95)

Importância das proteínas

37 (100)

36 (98)

36 (98)

36 (98)

35 (95)

Importância dos carboidratos

37 (100)

36 (98)

36 (98)

36 (98)

35 (95)

Importância dos lipídios

41 (100)

40 (98)

40 (98)

40 (98)

39 (96)

Higienização dos alimentos

31 (100)

30 (98)

30 (98)

30 (98)

30 (96)

Alimentação e imunidade

36 (100)

35 (98)

35 (98)

35 (98)

35 (97)

Saúde mental e alimentação

36 (100)

35 (98)

35 (98)

35 (98)

35 (96)

Fonte: Dados da pesquisa (2026).

Os resultados estão de acordo com os princípios da EAN, que valorizam autonomia, diálogo, participação e construção compartilhada do conhecimento (BRASIL, 2012). Também são coerentes com VINCHA et al., (2021), que discutem a importância da educação alimentar para o fortalecimento do conhecimento e do letramento em saúde.

A utilização de rodas de conversa, dinâmicas e compartilhamento de experiências aproxima-se da perspectiva de Freire (2019), na qual o indivíduo deixa de ser receptor passivo da informação e passa a participar da construção do conhecimento. O trabalho original também relaciona essa estratégia à possibilidade de fortalecimento do autocuidado e da adesão às orientações nutricionais (SILVA et al., 2023; BARRÉRE et al., 2021). É importante destacar, entretanto, que os percentuais apresentados representam aprendizado percebido e não mudança objetiva de conhecimento ou comportamento, uma vez que a avaliação foi realizada ao final das atividades.

Na etapa das PICS participaram 78 pacientes. Na tabela 6 observou-se que 56% (n=44) não conheciam essas práticas e 44% (n=34) relataram algum conhecimento. Quanto à utilização, 86% (n=67) afirmaram não realizar nenhuma PICS. Entre as práticas conhecidas, destacaram-se a meditação (28%; n=22) e a aromaterapia (26%; n=20). Entre as práticas utilizadas, a aromaterapia foi a mais frequente (22%; n=17), seguida da meditação (6%; n=5) e da acupuntura (5%; n=4). Entre os participantes que já realizavam alguma PICS, 14% (n=11) relataram perceber melhora e nenhum relatou efeito indesejado

Tabela 6. Conhecimento, utilização e tipos de Práticas Integrativas e Complementares em Saúde entre pacientes oncológicos

Variáveis

n

%

Conhece PICS

  

Sim

34

44

Não

44

56

Quantidade de PICS conhecidas

  

Nenhuma

44

56

1–3

31

40

4–7

1

1

8–10

2

3

Realiza alguma PICS

  

Não

67

86

Sim

11

14

Quantidade de PICS realizadas

  

Nenhuma

67

86

1–3

6

8

4–6

2

3

7–9

3

4

Percebeu melhora

  

Nunca praticou

67

86

Sim

11

14

Não

0

0

Efeito indesejado

  

Nunca praticou

67

86

Sim

0

0

PICS conhecidas

  

Acupuntura

7

9

Massagem

12

15

Meditação

22

28

Ioga

12

15

Hidroterapia

3

4

Musicoterapia

3

4

Relaxamento

7

9

Reiki

2

3

Florais

2

3

Aromaterapia

20

26

Outras

5

6

PICS utilizadas

  

Acupuntura

4

5

Meditação

5

6

Aromaterapia

17

22

Reiki

2

3

Hidroterapia

3

4

Outras

2

3

Fonte: Dados da pesquisa (2026).

O baixo conhecimento prévio das PICS evidencia uma oportunidade para ações educativas voltadas à apresentação dessas práticas e à sua utilização segura. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares reconhece essas estratégias como componentes que podem ampliar as possibilidades de cuidado e contribuir para integralidade e humanização da assistência (BRASIL, 2018).

Os resultados também dialogam com Lopes-Júnior et al. (2020), utilizados no trabalho original para fundamentar o potencial de práticas como meditação e aromaterapia sobre aspectos emocionais no contexto oncológico.

A ausência de relatos de efeitos indesejados deve, contudo, ser interpretada com cautela, pois apenas 14% dos participantes referiram utilizar PICS previamente. Portanto, o resultado demonstra ausência de eventos adversos relatados na amostra, não permitindo concluir sobre segurança clínica geral dessas práticas.

As práticas integrativas foram desenvolvidas articuladamente às ações de educação nutricional e incluíram respiração consciente, exercício de gratidão, atenção plena com alimento, atenção plena com água saborizada, aromaterapia e automassagem (tabela 7). As práticas apresentaram elevada aceitação, com percentuais superiores a 95% para clareza, satisfação, motivação e aprendizado percebido. A participação foi de 100% entre os pacientes presentes em cada atividade.

Tabela 7. Avaliação da percepção dos participantes sobre as práticas integrativas aplicadas ao cuidado nutricional

Tema da prática integrativa

Participantes n (%)

Clareza n (%)

Satisfação n (%)

Motivação n (%)

Aprendizado percebido n (%)

Respiração consciente – método “ACALME-SE”

34 (100)

33 (98)

33 (96)

33 (96)

34 (100)

Exercício de gratidão

30 (100)

29 (98)

29 (98)

29 (98)

30 (99)

Atenção plena com alimento

31 (100)

30 (98)

30 (98)

30 (98)

31 (100)

Atenção plena com água saborizada

30 (100)

29 (98)

29 (96)

29 (96)

29 (96)

Aromaterapia com bergamota

35 (100)

34 (98)

34 (96)

34 (96)

34 (96)

Automassagem das mãos com óleo de lavanda

37 (100)

36 (98)

36 (96)

36 (96)

36 (96)

Aromaterapia com lavanda

39 (100)

38 (98)

37 (96)

37 (96)

37 (96)

Uso de roll-on de lavanda

30 (100)

29 (98)

29 (96)

29 (96)

28 (95)

Aromaterapia com essência de baunilha

30 (100)

29 (96)

29 (96)

29 (96)

29 (98)

Aromaterapia com spray aromático de erva-cidreira

30 (100)

29 (96)

29 (96)

29 (96)

29 (96)

Nota: Valores apresentados em frequência absoluta e relativa. A avaliação foi realizada por meio de escala Likert de cinco pontos aplicada ao final de cada prática integrativa. Fonte: Dados da pesquisa (2026).

A respiração consciente foi utilizada com objetivo de promover relaxamento e controle respiratório, sendo fundamentada por BRASIL (2015) e Lopes-Júnior et al. (2020). O exercício de gratidão foi associado ao estímulo de emoções positivas e acolhimento emocional, tendo como referência Tan et al. (2023).

A atenção plena com alimento representa um ponto particularmente importante para este estudo, pois estabelece uma conexão direta entre PICS e EAN. A proposta busca ampliar a percepção sobre o ato de comer, aproximando a prática integrativa dos conceitos de alimentação consciente e autonomia alimentar já presentes no Guia Alimentar para a População Brasileira (BRASIL, 2014).

A aromaterapia foi outra estratégia de destaque. A bergamota e a erva-cidreira foram utilizadas com objetivo de favorecer relaxamento e acolhimento, enquanto a lavanda foi empregada em diferentes estratégias de autocuidado. Essas intervenções foram fundamentadas nas referências já utilizadas no trabalho, incluindo Ahn e Kim (2023), National Cancer Institute (2024), Posadzki et al. (2012) e Monteiro-Oliveira et al. (2021).

A utilização de aromas também foi relacionada ao acolhimento emocional e às memórias afetivas, fundamentada em Herz (2016). Essa perspectiva amplia a compreensão do cuidado para além da dimensão estritamente fisiológica, valorizando experiências subjetivas e emocionais durante o tratamento.

A elevada aceitação das PICS também dialoga com Mascarenhas e Morais (2022), referência utilizada no trabalho original para discutir o potencial dessas práticas como estratégias complementares de cuidado humanizado no contexto oncológico.

Entretanto, assim como observado nas ações de EAN, os resultados de aprendizado, satisfação e motivação correspondem à percepção dos participantes ao final das atividades. Portanto, não permitem afirmar que as PICS produziram redução objetiva da ansiedade, melhora clínica ou mudança sustentada do comportamento.

Assim, a integração entre EAN e PICS mostrou-se viável e bem aceita como estratégia complementar de cuidado, especialmente por articular conhecimentos relacionados à alimentação, hidratação e manejo de sintomas a práticas voltadas ao relaxamento, atenção plena, acolhimento e autocuidado.

Essa integração está alinhada aos princípios da EAN, que valorizam autonomia e participação (BRASIL, 2012), e à perspectiva das PICS como estratégias complementares para integralidade e humanização do cuidado (BRASIL, 2018). Os achados também dialogam com Freire (2019), ao valorizar metodologias participativas e construção compartilhada do conhecimento, e com Lopes-Júnior et al. (2020) e Mascarenhas e Morais (2022), que fundamentam a utilização das PICS no cuidado oncológico.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados deste estudo evidenciaram a presença de importante vulnerabilidade nutricional entre os pacientes oncológicos avaliados, caracterizada por perda de peso, comprometimento da massa muscular, alterações na distribuição da gordura corporal e inadequações nos hábitos alimentares. A elevada frequência de ingestão alimentar inferior à habitual, de perda ponderal superior a 10% e de risco ou comprometimento nutricional identificado pela ASG-PPP reforça a necessidade de acompanhamento nutricional sistemático e individualizado durante o tratamento oncológico.

Nesse contexto, as ações de Educação Alimentar e Nutricional mostraram-se uma estratégia viável e de elevada aceitação, apresentando índices superiores a 95% de satisfação, motivação, clareza e aprendizado percebido. As atividades possibilitaram abordar temas relacionados à alimentação saudável, hidratação, nutrientes, alimentação durante o tratamento, imunidade e saúde mental, favorecendo a ampliação do conhecimento e o fortalecimento do autocuidado.

Em relação às Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, observou-se conhecimento prévio limitado e baixa utilização entre os participantes. Entretanto, as práticas realizadas no ambiente ambulatorial apresentaram elevada aceitação, com relatos de acolhimento, bem-estar, relaxamento e percepção positiva das atividades. A associação de práticas como meditação, mindfulness, respiração consciente, aromaterapia e automassagem às ações educativas ampliou as possibilidades de cuidado e favoreceu uma abordagem mais integral e humanizada.

Dessa forma, a integração entre Educação Alimentar e Nutricional e Práticas Integrativas e Complementares em Saúde mostrou-se factível, bem aceita e pertinente ao cuidado ambulatorial de pacientes oncológicos, especialmente como estratégia complementar ao acompanhamento nutricional convencional. A proposta contribuiu para aproximar conhecimento científico, práticas de autocuidado, acolhimento e humanização da assistência, valorizando as dimensões nutricional, física e emocional do cuidado.

Embora os achados demonstrem elevada aceitação e percepção positiva das intervenções, os resultados não permitem estabelecer relação causal ou afirmar efeitos clínicos sustentados sobre o estado nutricional, ansiedade ou mudanças comportamentais, constituindo uma limitação do estudo. Recomenda-se, portanto, a realização de estudos longitudinais, com acompanhamento sistemático e instrumentos específicos de avaliação de desfechos nutricionais, comportamentais e emocionais, a fim de verificar os efeitos da integração entre Educação Alimentar e Nutricional e PICS em pacientes oncológicos. Em síntese, a experiência demonstrou que cuidar da alimentação também pode ser uma forma de cuidar das emoções e que humanizar o cuidado oncológico significa olhar para o paciente para além do diagnóstico.

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1 Centro Universitário Salesiano – UniSales. Vitória/ES, Brasil. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

2 Centro Universitário Salesiano – UniSales. Vitória/ES, Brasil. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.

3 Centro Universitário Salesiano – UniSales. Vitória/ES, Brasil. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5537-4323.