REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791100204
RESUMO
Este estudo analisou o papel da enfermagem nos setores de urgência e emergência e a articulação entre técnica e humanização no processo de cura. Realizou-se uma revisão integrativa fundamentada nas recomendações do protocolo PRISMA 2020. A busca nas bases MEDLINE, LILACS e SciELO (2020–2026) resultou na seleção de 10 artigos elegíveis. Os achados indicam que o cuidado exclusivamente instrumental é insuficiente, enquanto a união do rigor técnico com a atitude relacional acelera a recuperação do paciente. Estratégias como o Acolhimento com Classificação de Risco, o Cuidado Centrado na Pessoa e a comunicação compassiva reduzem a ansiedade, aliviam a dor e previnem traumas psíquicos. Todavia, a superlotação, a descontinuidade na atenção básica e o déficit de pessoal geram esgotamento profissional e automatização das rotinas. Conclui-se que integrar técnica e humanização expande a eficácia terapêutica, exigindo investimentos estruturais, dimensionamento adequado e educação permanente em enfermagem.
Palavras-chave: Enfermagem em Emergência; Humanização da Assistência; Acolhimento; Comunicação; Cuidado Centrado no Paciente.
ABSTRACT
This study analyzed the role of nursing in urgent and emergency departments and the articulation between technical skills and humanization in the healing process. An integrative review was conducted based on the PRISMA 2020 guidelines. The search in MEDLINE, LILACS, and SciELO databases (2020–2026) resulted in 10 eligible articles. Findings indicate that exclusively instrumental care is insufficient, whereas combining technical rigor with a relational approach accelerates patient recovery. Strategies such as Reception with Risk Classification, Person-Centered Care, and compassionate communication reduce anxiety, alleviate pain, and prevent psychological trauma. However, overcrowding, care discontinuity in primary health care, and understaffing lead to professional burnout and automated routines. It is concluded that integrating technique and humanization expands therapeutic effectiveness, requiring structural investments, proper staffing, and continuing nursing education.
Keywords: Emergency Nursing; Humanization of Assistance; User Embrace; Communication; Patient-Centered Care.
1. INTRODUÇÃO
A assistência de enfermagem nos serviços de urgência e emergência é intrinsecamente pautada pela gravidade dos quadros clínicos e pela necessidade de intervenções em curto intervalo de tempo. Nesse ambiente, a pressão cronológica e o foco central na estabilização hemodinâmica acabam, muitas vezes, secundarizando a dimensão subjetiva do sujeito, o que compromete a escuta, a comunicação e o respeito à sua individualidade (Janerka; Leslie; Gill, 2024).
Essa realidade estabelece um dilema premente para a prática assistencial, pois a qualidade do cuidado em setores críticos não deriva apenas da precisão técnica ou do manejo de tecnologias duras, mas depende fundamentalmente da qualidade do vínculo construído entre a equipe, o paciente e sua rede de apoio (Busch et al., 2019).
Sob essa perspectiva, a humanização em ambientes de alta complexidade fundamenta-se no reconhecimento do paciente como sujeito de direitos e participante ativo do seu processo de saúde. Análises sobre o tema por Busch et al. (2019) demonstram que o cuidado humanizado não se reduz a uma atitude individual ou benevolente do profissional, mas abrange dimensões relacionais, organizacionais e estruturais indissociáveis.
No âmbito da enfermagem, a consolidação dessa prática exige articular o respeito à singularidade do indivíduo e a eficácia das trocas informacionais ao suporte institucional oferecido aos trabalhadores, uma vez que a capacidade de acolher está diretamente condicionada às condições de trabalho do setor (Reyes-Téllez et al., 2024).
Entretanto, a efetivação dessa assistência encontra entraves sistemáticos no cotidiano dos pronto-socorros. A alta demanda de atendimento associada à classificação de risco restringe o tempo de contato com o usuário, reduzindo a consulta de triagem a um procedimento meramente burocrático e focado na queixa física (Janerka; Leslie; Gill, 2024).
Agravando esse cenário, o subdimensionamento crônico da equipe de enfermagem e a superlotação das unidades correlacionam-se diretamente ao aumento do tempo de espera, à permanência prolongada em leitos provisórios e ao retardo em condutas terapêuticas, fatores que fragilizam o diálogo com as famílias e exacerbam o desgaste emocional de todos os envolvidos (Pearce et al., 2024; Drennan et al., 2024; Bissonette et al., 2024).
A falha no fluxo comunicacional assume contornos ainda mais graves em cenários de risco iminente de morte, a exemplo da parada cardiorrespiratória. Durante as manobras de reanimação, a concentração do esforço multiprofissional na recuperação das funções vitais frequentemente isola os acompanhantes no momento de maior vulnerabilidade emocional.
Embora a presença da família na sala de emergência possa mitigar traumas psicológicos posteriores, a evidência científica atual apresenta baixa certeza quanto aos seus efeitos, o que exige dos enfermeiros uma avaliação criteriosa que pondere a segurança do procedimento, a dinâmica do setor e o preparo da equipe para oferecer suporte adequado aos familiares (Afzali Rubin et al., 2023).
Diante de tamanha complexidade, o enfermeiro desponta como elemento articulador na integração entre a equipe multidisciplinar, o paciente e seus acompanhantes. Por atuar na linha de frente da triagem, no gerenciamento da unidade e no planejamento do cuidado, a postura desse profissional reflete não apenas sua formação ética, mas a política institucional em que está inserido (Reyes-Téllez et al., 2024). Redefinir essa atuação implica compreender que a humanização em serviços de emergência não se opõe ao rigor metodológico ou às condutas invasivas, mas integra a eficiência clínica ao compromisso inegociável com a dignidade humana (Busch et al., 2019).
Assim, frente às barreiras operacionais e relacionais que permeiam a rotina desses serviços, torna-se premente investigar de que modo a enfermagem pode conciliar a agilidade exigida pela urgência com a oferta de um cuidado centrado na pessoa. O presente estudo analisou a produção científica sobre a humanização da assistência de enfermagem em serviços de urgência e emergência, identificando seus impactos sobre pacientes e familiares, bem como as evidências concernentes às estratégias de acolhimento, comunicação e suporte institucional no ambiente crítico
2. OBJETIVO
Analisar o papel da enfermagem no atendimento nos setores de urgência e emergência e discutir como a integração entre humanização e técnica impacta no processo de cura dos pacientes.
3. METODOLOGIA
O presente estudo caracterizou-se como uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e abordagem qualiquantitativa. Esse método possibilitou reunir e sintetizar resultados de diferentes delineamentos de pesquisa, favorecendo uma compreensão ampliada acerca da humanização da assistência de enfermagem nos serviços de urgência e emergência. A revisão foi fundamentada na metodologia de Whittemore e Knafl (2005) e nas recomendações do PRISMA 2020, utilizadas para orientar e apresentar de forma transparente o processo de identificação e seleção dos estudos (Page et al., 2021).
Para a elaboração da questão norteadora, utilizou-se o acrônimo PICo, sendo a População (P) constituída pela equipe de enfermagem; o Fenômeno de Interesse (I), pela humanização da assistência, incluindo acolhimento, comunicação, cuidado centrado na pessoa, preservação da dignidade e suporte aos pacientes e familiares; e o Contexto (Co), pelos serviços de urgência e emergência. A partir desses elementos, estabeleceu-se a seguinte questão: “Qual é o papel da equipe de enfermagem na humanização da assistência e no acolhimento de pacientes e familiares nos serviços de urgência e emergência?”
A busca dos estudos foi realizada nas bases MEDLINE, por meio do acesso à plataforma PubMed, LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e SciELO (Scientific Electronic Library Online). Foram utilizados descritores provenientes dos vocabulários Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), associados a termos livres em português, inglês e espanhol. Os termos foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR.
A estratégia de busca foi estruturada a partir dos eixos humanização, enfermagem e urgência/emergência, incluindo termos relacionados ao acolhimento, comunicação, cuidado centrado no paciente, família e dignidade. A combinação geral utilizada foi: (“Humanização” OR “Humanização da Assistência” OR “Cuidado Humanizado” OR “Cuidado Centrado no Paciente” OR “Acolhimento” OR “Comunicação” OR “Humanization” OR “Humanized Care” OR “Patient-Centered Care” OR “Reception” OR “Communication” OR “Dignity” OR “Humanización” OR “Humanización de la Atención” OR “Cuidado Humanizado” OR “Atención Centrada en el Paciente” OR “Acogimiento” OR “Comunicación” OR “Dignidad”) AND (“Enfermagem” OR “Cuidados de Enfermagem” OR “Enfermeiros” OR “Nursing” OR “Nursing Care” OR “Nurses” OR “Emergency Nursing” OR “Enfermería” OR “Cuidados de Enfermería” OR “Enfermeros”) AND (“Urgência” OR “Emergência” OR “Serviços de Urgência” OR “Serviços de Emergência” OR “Urgent Care” OR “Emergency” OR “Emergency Service, Hospital” OR “Emergency Medical Services” OR “Emergency Department” OR “Urgencias” OR “Emergencias” OR “Servicios de Urgencia” OR “Servicios de Emergencia”).
A estratégia foi adaptada às particularidades de cada base de dados, mantendo-se os mesmos eixos temáticos. A busca contemplou publicações entre 2020 e 2026, nos idiomas português, inglês e espanhol. Foram incluídos artigos científicos originais, disponíveis na íntegra, com abordagem quantitativa, qualitativa ou mista, que apresentassem relação direta com a humanização da assistência de enfermagem em serviços de urgência e emergência.
Foram excluídos estudos duplicados, publicações sem acesso ao texto completo, editoriais, cartas ao editor, comentários, resumos de eventos, livros, capítulos de livros, teses, dissertações, trabalhos de conclusão de curso, protocolos de pesquisa e revisões de literatura. Também foram excluídos estudos direcionados exclusivamente a procedimentos técnicos ou intervenções clínicas de emergência sem relação com a humanização, acolhimento, comunicação ou atuação da equipe de enfermagem.
A seleção ocorreu mediante a identificação e retirada das duplicidades, seguida da leitura dos títulos e resumos. Os estudos considerados pertinentes foram avaliados na íntegra para confirmação da elegibilidade. O processo de identificação, triagem e inclusão dos artigos foi apresentado em fluxograma, conforme as recomendações do PRISMA 2020 (Page et al., 2021).
Para a extração dos dados, foi utilizado um instrumento contendo informações como autores, ano de publicação, periódico, país, objetivo, metodologia, população estudada, principais resultados e conclusões. Também foram registrados aspectos relacionados às práticas de humanização, acolhimento, comunicação, suporte familiar e atuação da enfermagem.
Os dados foram analisados de forma descritiva e categorial, agrupando-se os estudos conforme a aproximação de seus resultados. A síntese permitiu identificar os principais fatores que interferiram na humanização da assistência e as estratégias relacionadas à atuação da equipe de enfermagem no acolhimento e cuidado de pacientes e familiares nos serviços de urgência e emergência.
4. RESULTADO E DISCUSSÕES.
A busca bibliográfica inicial resultou na identificação de 232 publicações distribuídas entre as bases de dados selecionadas: 192 artigos na MEDLINE, 22 na LILACS e 18 na SciELO. Especificamente na base MEDLINE, foram pré-selecionados 8 estudos, dos quais 7 foram submetidos à leitura na íntegra, culminando na inclusão final de 6 artigos. Na LILACS, por sua vez, 5 artigos tiveram seus resumos analisados, dos quais 3 preencheram os requisitos de elegibilidade. Por fim, na SciELO, apenas 1 artigo atendeu rigorosamente aos critérios estabelecidos. Desse modo, a amostra final foi constituída por 10 artigos científicos elegíveis. Todo processo de extração esta descrito na tabela 1 no formato PRISMA 2020.
Com o propósito de conferir densidade analítica ao estudo e, concomitantemente, responder ao objetivo central de investigar o papel da enfermagem nos setores de urgência e emergência, discutindo como a articulação entre a técnica e a humanização repercute na restauração da saúde, os dados foram categorizados em três eixos analíticos. A síntese descritiva dos estudos encontra-se exposta na Tabela 2.
4.1. A Integração Entre a Competência Técnica e o Cuidado Relacional na Emergência
A análise comparativa da literatura científica revela uma reflexão no que tange à relação entre a dimensão instrumental e a dimensão relacional do cuidar em cenários de urgência. Sob essa ótica, quatro trabalhos da amostra (Cézar & Souza, 2021; Gamst-Jensen et al., 2025; Soares et al., 2022; Näsström et al., 2023) salientam que a identidade da enfermagem emergencista foi historicamente moldada pelo domínio de procedimentos invasivos, pela agilidade na tomada de decisão e pelo suporte avançado à vida.
Todavia, um contraponto crítico emerge no estudo de Gamst-Jensen et al. (2025), visto que os autores constatam que, em virtude da pressão imposta por ambientes acelerados, os profissionais tendem a reduzir a assistência a tarefas biológicas automatizadas. Consequentemente, o estabelecimento de vínculo com o paciente passa a ser tratado como um elemento secundário ou dispensável, assumindo um status opcional na rotina de trabalho. Em contrapartida direta a essa visão reducionista, o estudo de Cézar e Souza (2021) demonstra um consenso prático inequívoco, posto que 100% dos enfermeiros entrevistados na pesquisa afirmaram que o cuidado humanizado não se resume a um adorno ético, mas configura um fator determinante que acelera a melhora clínica do paciente.
Nesse contexto, a convergência entre a acurácia técnica e a atitude acolhedora encontra sua expressão prática no Acolhimento com Classificação de Risco (ACCR). Enquanto dois artigos focados na atenção hospitalar e pré-hospitalar geral (Soares et al., 2022; Cézar & Souza, 2021) analisam o ACCR como uma ferramenta gerencial indispensável para organizar o fluxo de demanda e priorizar a gravidade clínica, outros dois estudos com recorte internacional (Janerka et al., 2025a; Janerka et al., 2025b) ampliam essa discussão ao argumentar que a triagem constitui o momento mais crítico para a segurança relacional do usuário. Para Soares et al. (2022), o julgamento clínico do enfermeiro durante a classificação só atinge sua máxima eficácia quando combinado à escuta atenta e à empatia, aliviando o estresse ocupacional e, por conseguinte, estabelecendo uma relação de confiança imediata entre o usuário e a equipe de saúde.
Ademais, quando a análise se volta para populações específicas, a articulação entre técnica e humanização ganha contornos singulares. Enquanto a maioria dos trabalhos investiga a emergência adulta convencional, o estudo de Näsström et al. (2023) traz uma contribuição inédita ao examinar o atendimento pré-hospitalar pediátrico. Os autores observaram que, embora manobras de reanimação e suporte de vida sobreponham-se temporariamente à dimensão relacional em casos de extrema gravidade, os enfermeiros aplicam o Child-Centered Care (CCC) — ou Cuidado Centrado na Criança — assim que a estabilização hemodinâmica é alcançada. Nesse cenário, estratégias como a adequação da linguagem, a ludicidade e a inclusão guiada dos pais atuam como intervenções terapêuticas indiretas, reduzindo a dor percebida, mitigando o trauma emocional e facilitando a execução dos procedimentos invasivos.
4.2. Acolhimento, Diversidade Cultural e Cuidado Centrado na Pessoa: A Dimensão Humana na Cura
A dimensão humanizada do cuidado no que se refere ao suporte emocional no pronto-socorro foi abordada por quatro pesquisas da amostra (Mattson & Berry, 2026; Janerka et al., 2025a; Janerka et al., 2025b; Abubshait & Rizek, 2026), as quais enfatizam que a dor física raramente se manifesta de forma isolada do sofrimento psíquico.
Um dos dados empíricos mais expressivos acerca desse impacto é apresentado por Mattson e Berry (2026). Ao investigarem o atendimento a mulheres em situação de perda gestacional precoce na emergência, os autores demonstraram que uma intervenção educacional multiprofissional focada em comunicação compassiva e suporte ao luto gerou um ganho estatisticamente significativo () no conhecimento e na conduta da equipe. Desse modo, esse achado comprova que o acolhimento estruturado possui um valor terapêutico mensurável, atuando diretamente na prevenção do luto complicado e do Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT).
Paralelamente, dois estudos complementares conduzidos por Janerka et al. (2025a, 2025b) debruçam-se sobre a implementação do Person-Centered Care (PCC) — Cuidado Centrado na Pessoa — na triagem e na sala de espera dos serviços de urgência. Enquanto Janerka et al. (2025a) identificaram que condutas simples, tais como a presença física do enfermeiro na sala de espera, o alívio precoce da dor e a comunicação clara sobre o tempo estimado de atendimento, reduzem a ansiedade e a evasão de pacientes, o estudo subsequente de Janerka et al. (2025b) avança na construção de frameworks operacionais. Em virtude dessa abordagem, esse segundo trabalho demonstra que o PCC não deve depender da boa vontade individual do profissional, devendo ser estruturado em eixos institucionais que contemplem a comunicação fluida, o ambiente acolhedor e a capacitação contínua da equipe.
Complementando esse panorama, a questão da pluralidade cultural é trazida ao debate por Abubshait e Rizek (2026). Enquanto os estudos europeus e latino-americanos da amostra focam majoritariamente na relação interpessoal direta e na organização do fluxo, o trabalho de Abubshait e Rizek (2026) ressalta que o atendimento humanizado na emergência é indissociável da responsividade e da humildade cultural.
Diante disso, os autores argumentam que a adoção de estratégias como o modelo LEARN de comunicação e a avaliação cultural rápida na triagem permite respeitar crenças religiosas e dinâmicas familiares. Em última análise, essa adequação reduz barreiras de adesão aos tratamentos prescritos, otimiza o manejo da dor e consolida a aliança terapêutica necessária para a recuperação integral do paciente.
4.3. Barreiras Estruturais, Descontinuidade do Cuidado e o Impacto na Atuação da Enfermagem
A despeito do amplo consenso científico sobre os benefícios da integração entre técnica e humanização, cinco estudos da amostra (Cogo et al., 2020; Cézar & Souza, 2021; Soares et al., 2022; Janerka et al., 2025a; Gamst-Jensen et al., 2025) denunciam a existência de graves gargalos operacionais que dificultam a aplicação prática desses conceitos no cotidiano assistencial.
Nesse viés, a superlotação das unidades de emergência é apontada de forma unânime por quatro desses trabalhos (Cogo et al., 2020; Cézar & Souza, 2021; Soares et al., 2022; Janerka et al., 2025a) como a principal barreira estrutural. O estudo de Cogo et al. (2020) ilustra essa problemática ao evidenciar que a retenção prolongada de pacientes graves (como os oncologicamente comprometidos) em razão da falta de leitos nas enfermarias transforma o pronto-socorro em uma unidade de terapia intensiva improvisada, sobrecarregando os enfermeiros e comprometendo a privacidade do atendimento.
Investigando as causas subjacentes a esse colapso sistêmico, o estudo de Villalón et al. (2021) estabelece um contraponto essencial ao analisar a relação entre a Atenção Primária à Saúde (APS) e os serviços de urgência. Ao examinarem o índice de Continuity of Care (CoC) (Continuidade do Cuidado), os autores constataram uma relação inversamente proporcional, isto é, quanto maior o acompanhamento longitudinal e a resolutividade na rede básica, menor é a taxa de procura frequente e desnecessária pelos prontos-socorros. Em consonância com esses achados, Soares et al. (2022) e Janerka et al. (2025a) apontam que as falhas de cobertura e a descontinuidade da APS canalizam demandas de baixa complexidade para as urgências, criando um ambiente ruidoso e sobrecarregado que inviabiliza a escuta qualificada.
Por fim, o impacto direto dessa desestruturação sobre a saúde mental e a prática profissional da enfermagem é tematizado por Gamst-Jensen et al. (2025). Os autores alertam que a combinação entre dimensionamento insuficiente de pessoal, ritmo de trabalho exaustivo e ausência de treinamentos voltados às habilidades socioemocionais induz os profissionais a adotarem um mecanismo de defesa psíquica. Por conseguinte, o enfermeiro tende a distanciar-se da dimensão humana, automatizando a rotina e restringindo sua atuação ao cumprimento burocrático de metas e procedimentos físicos, cenário frequentemente associado à síndrome de burnout.
Em suma, a síntese dos 10 estudos analisados confirma que a atuação da enfermagem nos setores de urgência e emergência constitui a espinha dorsal do atendimento ao paciente em estado crítico. Restou comprovado que a articulação harmoniosa entre a acurácia técnica e a dimensão humanizada expande a eficácia terapêutica e acelera o processo de recuperação da saúde. Para que essa prática se consolide, todavia, é imperativo superar as barreiras estruturais do sistema de saúde por meio do dimensionamento adequado das equipes, do fortalecimento da Atenção Básica e da implementação de processos contínuos de educação permanente.
Tabela 1. Esquema PRISMA 2020 com a triagem dos trabalhos.
Tabela 2. Extração de dados.
ID | Autores / Ano | País / Desenho | Objetivo | População | Principais Achados |
E1 | Cogo et al. (2020) | Brasil / Qualitativo descritivo | Conhecer a percepção profissional sobre a assistência ao paciente oncológico no pronto-socorro. | 12 profissionais (6 enfermeiros e 6 médicos). | • Cuidado diferenciado frente às especificidades oncológicas. • Barreiras à humanização: superlotação, estrutura precária e déficit de tempo para escuta atenta. • Permanência prolongada no setor por falta de leitos de internação. • Trabalho em equipe como estratégia de superação das adversidades. |
E2 | Villalón et al. (2021) | Argentina / Observacional, cohorte retrospectiva | Cuantificar os níveis de continuidade do cuidado (CoC) e sua associação com a utilização de serviços de emergência e internações. | 112.062 pacientes afiliados a um seguro de saúde universitário. | • Associação inversa significativa entre o nível de CoC e a quantidade de visitas à central de emergências (quanto maior a continuidade no atendimento primário, menor a busca pelo serviço de emergência). • Não foi demonstrada associação significativa em relação às internações hospitalares. • A continuidade do cuidado atua como elemento central para organizar a atenção e otimizar o uso de serviços de urgência/emergência. |
E3 | Cézar & Souza (2021) | Brasil / Quantitativo descritivo | Analisar a visão da enfermagem sobre o atendimento humanizado no setor de urgência e emergência e identificar fatores que dificultem esse processo. | 16 profissionais da equipe de enfermagem (10 técnicos, 3 enfermeiros e 3 enfermeiros pós-graduados). | • Reconhecimento do significado do atendimento humanizado e desejo de aprofundar conhecimentos sobre o tema. • Todos os profissionais (100%) concordam que a humanização contribui para a melhora clínica do paciente e expressam interesse em resolver seus problemas. • Principais barreiras/dificuldades: sobrecarga de trabalho gerada pela superlotação do setor, escassez de recursos e déficit de profissionais para atender à alta demanda. • Necessidade de gestão/estratégias para lidar com fluxos intensos e revisão do quantitativo de pessoal. |
E4 | Soares et al. (2022) | Brasil / Revisão Integrativa | Analisar as produções científicas sobre a assistência humanizada prestada por enfermeiros nos serviços de emergência e urgência e sua influência no cuidado do paciente adulto. | 11 estudos primários selecionados nas bases de dados (BVS, SciELO, Capes, Scopus, WOS, CINAHL). | • A humanização do cuidado de enfermagem não depende exclusivamente da capacitação profissional, envolvendo infraestrutura hospitalar e dimensionamento de recursos humanos.• O Acolhimento com Classificação de Risco (ACCR) é evidenciado como método central para reorganização do serviço, priorização de casos graves e promoção de segurança/confiança. • Principais entraves: baixa resolutividade da atenção básica (gerando superlotação nos prontos-socorros), escassez de materiais/recursos, longas jornadas de trabalho e comunicação deficiente. • A adesão a protocolos e o entendimento do paciente sobre os fluxos assistenciais ajudam a otimizar a atenção e reduzir o estresse ocupacional. |
E5 | Janerka et al. (2025) | Austrália / Transversal (Survey) | Explorar a perspectiva dos enfermeiros sobre o cuidado centrado na pessoa na triagem e na sala de espera do pronto-socorro. | 176 enfermeiros de triagem de pronto-socorro em 7 estados/territórios da Austrália. | • Enfermeiros compreendem e valorizam o cuidado centrado na pessoa, reconhecendo seu impacto na segurança do paciente e na qualidade assistencial, mas a prestação prática varia significativamente. • Principais barreiras: restrições de tempo, alto volume de pacientes, déficit de pessoal, superlotação, ambiente barulhento/sem privacidade e violência/agressividade verbal. • Apenas cerca de um terço dos profissionais relatou que o treinamento formal de triagem ou as políticas locais abordavam explicitamente o cuidado centrado na pessoa. • Estratégias utilizadas: habilidades de comunicação interpessoal (escuta ativa, empatia, respeito), fornecimento de informações sobre tempo de espera, alívio da dor, presença de enfermeiro na sala de espera e medidas de conforto (cobertores, água). |
E6 | Gamst-Jensen et al. (2025) | Dinamarca / Qualitativo exploratório | Explorar como os enfermeiros de emergência vivenciam e realizam o trabalho relacional no pronto-socorro. | Enfermeiros de emergência participantes de 38 grupos de aprendizagem contínua em 2 hospitais universitários. | • Enfermeiros priorizam avaliações iniciais e tarefas biomédicas/instrumentais em detrimento do cuidado relacional devido ao ambiente acelerado. • O estabelecimento de vínculo relacional é tratado como algo opcional e realizado a critério individual de cada enfermeiro, variando drasticamente. • Falta aos enfermeiros um vocabulário formal e conhecimento estruturado para expressar e executar o cuidado relacional e atender às necessidades psicossociais dos pacientes nas internações de curta duração. • Risco de negligenciar necessidades psicossociais e perda de dignidade/vulnerabilidade dos pacientes. • Necessidade de reconhecimento e fortalecimento do cuidado relacional e da centralidade no paciente por parte das lideranças de enfermagem. |
E7 | Abubshait & Rizek (2026) | EUA / Artigo Clínico-Conceitual (Estudo de Casos) | Examinar como enfermeiros de emergência podem manter a sensibilidade cultural e a humildade cultural durante o atendimento de urgência/emergência a populações diversas. | Análise de evidências e 3 cenários de casos clínicos reais no setor de emergência (religioso, dinâmica familiar e práticas tradicionais de cura). | • Necessidade de combinar competência cultural com humildade cultural (autoavaliação contínua e reconhecimento do paciente como especialista de sua própria experiência). • Demonstra a viabilidade de conciliar intervenções biomédicas de emergência com adaptações culturais (privacidade, preferência por profissionais do mesmo sexo, integração de curadores tradicionais e tomada de decisão centrada na família). • Protocolos pré-estabelecidos de acomodação cultural, intérpretes profissionais e programas de ligação cultural reduzem atrasos no tratamento e aumentam a satisfação do paciente. • O uso de modelos de comunicação (ex.: LEARN) e a avaliação cultural rápida na triagem fortalecem a confiança, o manejo da dor e a adesão ao plano terapêutico. |
E8 | Mattson & Berry (2026) | EUA / Cuasi-experimental (Pré e Pós-intervenção) | Avaliar o efeito de uma intervenção educacional multiprofissional sobre o conhecimento, atitudes e habilidades de cuidado psicossocial/luto reprodutivo no pronto-socorro. | 39 profissionais de saúde em amostra pareada (61,6% enfermeiros, além de técnicos de emergência, capelães, assistentes sociais e técnicos de radiologia). | • A perda gestacional precoce é reconhecida como uma emergência emocional/traumática para a qual equipes de emergência costumam estar despreparadas ou desconfortáveis. • Intervenção educacional estruturada (treinamento baseado em trauma, acompanhamento/companioning e comunicação compassiva) gerou aumento estatisticamente significativo ($p < 0,0001$) em todos os domínios avaliados. • Maiores ganhos observados em: suporte emocional, cuidado centrado no paciente, planejamento da alta e cuidados de luto/bereavement. • Demonstra a eficácia da capacitação multiprofissional e do uso de kits/protocolos específicos para humanizar o atendimento e reduzir o risco de luto complicado e TEPT. |
E9 | Näsström et al. (2023) | Suécia / Análise Temática Reflexiva (Qualitativo) | Descrever as experiências de enfermeiros de ambulância na facilitação do Cuidado Centrado na Criança (CCC) no ambiente pré-hospitalar. | 17 enfermeiros de ambulância (Ambulance Nurses) com experiência em atendimento pediátrico pré-hospitalar. | • Enfermeiros de ambulância aplicam intuitivamente os princípios do Cuidado Centrado na Criança (CCC), embora de forma não formalizada. • Estratégias principais: adaptação do ritmo e linguagem ao nível infantil, comunicação direta/honesta, ludicidade e participação guiada (guided participation). • Inclusão ativa dos pais para reduzir a ansiedade e construir confiança mútua. • Em situações de emergência grave, a prioridade de salvamento sobrepõe-se temporariamente à autonomia relacional. • Necessidade de elevar o CCC a um nível consciente para capacitação de equipes, reflexão de casos e alinhamento ao Estatuto da Criança (Child Act). |
E10 | Janerka et al. (2025) | Austrália / Misto integrado (Multifásicos baseados em co-design) | Desenvolver um framework de cuidado centrado na pessoa para uso na triagem e na sala de espera de departamentos de emergência (DE). | 225 pacientes e 176 enfermeiros de triagem (pesquisas quanti-quali), além de 10 participantes em grupos focais/workshop de co-design. | • Co-desenvolvimento de um framework estruturado em 5 eixos centrais: suporte à equipe, sistemas e processos, ambiente e instalações, comunicação e informação, e necessidades individuais de cuidado. • Intervenções recomendadas em três níveis (Micro, Meso e Macro): scripts de comunicação compassiva, check-ins regulares na sala de espera, fornecimento transparente de tempos de espera, design ambiental acolhedor, inclusão do bem-estar dos profissionais e dimensionamento adequado de pessoal. • Destaca que o fluxo focado apenas em metas operacionais impacta negativamente a interação humana, tornando essencial a padronização prática centrada na pessoa na triagem e espera. |
Fonte: Acervo dos acadêmicos, 2026.
5. CONCLUSÃO
A presente pesquisa cumpriu integralmente o objetivo proposto ao analisar o papel da enfermagem nos setores de urgência e emergência, discutindo como a articulação sinérgica entre a competência técnica e a assistência humanizada impacta no processo de recuperação e cura dos pacientes.
Ao longo da síntese crítica das evidências científicas, ficou demonstrado que o trabalho da enfermagem nesses ambientes transcende a mera execução mecânica de rotinas operacionais ou a resposta biológica imediata. A atuação do enfermeiro consolida-se como a espinha dorsal da assistência ao paciente em estado crítico. Nesse cenário, o rigor técnico e a sensibilidade humana atuam como dimensões indissociáveis e mutuamente fortalecedoras para a prestação de um cuidado integral.
Ficou comprovado que a primazia do modelo biomédico e a valorização exclusiva de tecnologias duras, em detrimento do vínculo relacional, mostram-se insuficientes para garantir a eficácia do cuidado em sua totalidade. Em contrapartida, a integração entre o julgamento clínico acurado e condutas humanizadas atua como verdadeiro catalisador terapêutico. Destacam-se o Acolhimento com Classificação de Risco, a escuta qualificada, o suporte emocional em situações traumáticas, o Cuidado Centrado na Pessoa e a responsividade às especificidades culturais. Essa prática integrada mitiga o estresse, a ansiedade e o risco de sequelas psíquicas de longo prazo, a exemplo do luto complicado e do Transtorno de Estresse Pós-Traumático, além de otimizar a tomada de decisão e fortalecer a aliança terapêutica.
Por outro lado, o estudo evidenciou que a consolidação desse modelo assistencial enfrenta barreiras estruturais e organizacionais severas no cotidiano dos serviços de saúde. A superlotação crônica dos pronto-socorros, a descontinuidade da assistência na Atenção Primária à Saúde, a retenção prolongada de pacientes de alta complexidade por escassez de leitos de internação e o dimensionamento inadequado das equipes figuram como os principais gargalos. Esse cenário de hipersolicitação empurra o profissional para o esgotamento físico e psíquico. Sob tais condições adversas, a dimensão humana tende a ser suprimida em prol do cumprimento burocrático de procedimentos automatizados, demandando intervenções imediatas na gestão dos serviços.
Diante desses achados e com o intuito de subsidiar transformações concretas, apresentam-se importantes recomendações práticas voltadas aos gestores, às instituições de ensino e às equipes de enfermagem. Inicialmente, faz-se premente a institucionalização da Educação Permanente por meio de capacitações contínuas e interprofissionais focadas em competências relacionais e socioemocionais. Isso inclui estratégias de comunicação compassiva, suporte ao luto, atendimento centrado na pessoa e protocolos de escuta qualificada na triagem. Paralelamente, torna-se indispensável a reorganização dos processos de trabalho e do Acolhimento com Classificação de Risco, instituindo a presença ativa de enfermeiros na sala de espera para monitoramento e alívio precoce da dor.
Do ponto de vista da gestão e da rede assistencial, mostra-se urgente a adequação do dimensionamento profissional em conformidade com a carga de trabalho dos setores de emergência, medida vital para reduzir a sobrecarga física e mitigar os riscos da síndrome de burnout.
Outro ponto fundamental reside na valorização da responsividade cultural, mediante a incorporação de diretrizes institucionais de humildade e competência cultural nas rotinas para respeitar identidades e crenças heterogêneas. Ademais, é crítico o fortalecimento da Rede de Atenção à Saúde, articulando a emergência com a Atenção Primária para garantir a continuidade do cuidado e reduzir a procura indevida por agravos de baixa complexidade.
Por fim, recomenda-se o incentivo a novos estudos empíricos primários e investigações longitudinais no contexto brasileiro que meçam o impacto de intervenções relacionais padronizadas sobre indicadores clínicos de morbimortalidade e tempo de internação. Em suma, humanizar o atendimento de urgência e emergência sem abdicar da excelência técnica não constitui um ideal utópico, mas uma urgência ética, científica e assistencial. Investir na valorização do profissional de enfermagem e na superação dos gargalos estruturais das unidades é a via indispensável para garantir uma assistência segura, resolutiva e profundamente respeitosa à dignidade humana.
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1 Acadêmico do curso de enfermagem do Centro Universitário Fametro. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Acadêmico do curso de enfermagem do Centro Universitário Fametro. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
3 Acadêmico do curso de enfermagem do Centro Universitário Fametro. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Acadêmico do curso de enfermagem do Centro Universitário Fametro. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Orientador do Trabalho de Conclusão de Curso do curso de enfermagem do Centro Universitário Fametro. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Orientador do Trabalho de Conclusão de Curso do curso de enfermagem do Centro Universitário Fametro. [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail