FATORES ASSOCIADOS Á CAPACIDADE FUNCIONAL DE IDOSOS INSTITUCIONALIZADOS: UMA REVISÃO NARRATIVA

FACTORS ASSOCIATED WITH THE FUNCTIONAL CAPACITY OF INSTITUTIONALIZED OLDER ADULTS: A NARRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784687159

RESUMO
A institucionalização de pessoas idosas pode resultar em declínio funcional devido à falta de estímulos físicos e cognitivos, afetando negativamente a saúde física e mental dessa faixa etária. A integração de uma equipe multidisciplinar e a promoção de atividades sociais e físicas são cruciais para melhorar a qualidade de vida dos idosos, destacando também a importância do envolvimento familiar no cuidado diário. Objetivo: Identificar os fatores associados à capacidade funcional de pessoas idosas residentes em instituições de longa permanência. Método: Revisão narrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, SciELO e Scopus, incluindo artigos publicados nos últimos cinco anos, em português, inglês e espanhol. Resultados: Foram selecionados seis estudos. Os principais fatores relacionados à perda de funcionalidade foram sintomas depressivos, déficit cognitivo, idade avançada, baixa acuidade visual, incontinência urinária e autopercepção negativa de saúde. Aspectos sociais, como ausência de apoio familiar e escassez de recursos financeiros, também influenciaram negativamente a independência funcional. Conclusão: A capacidade funcional dos idosos institucionalizados é determinada por fatores fisiológicos, psicológicos e sociais. Intervenções multiprofissionais e estratégias de suporte social são essenciais para promover autonomia e qualidade de vida. Há lacunas na literatura sobre estudos longitudinais que avaliem o impacto de intervenções específicas.
Palavras-chave: Pessoa Idosa; Instituição de Longa Permanência; Capacidade Funcional; Saúde Coletiva.

ABSTRACT
Institutionalization of older adults can lead to functional decline due to a lack of physical and cognitive stimulation, negatively affecting the physical and mental health of this age group. Integrating a multidisciplinary team and promoting social and physical activities are crucial for improving the quality of life of older adults, while also highlighting the importance of family involvement in daily care. Objective: To identify factors associated with the functional capacity of older adults residing in long-term care institutions. Method: A narrative literature review was conducted using the PubMed, SciELO, and Scopus databases, including articles published within the last five years in Portuguese, English, and Spanish. Results: Six studies were selected. The main factors associated with the loss of functionality were depressive symptoms, cognitive impairment, advanced age, low visual acuity, urinary incontinence, and negative self-perception of health. Social aspects, such as a lack of family support and limited financial resources, also negatively influenced functional independence. Conclusion: The functional capacity of institutionalized older adults is determined by physiological, psychological, and social factors. Multiprofessional interventions and social support strategies are essential for promoting autonomy and quality of life. There are gaps in the literature regarding longitudinal studies that evaluate the impact of specific interventions.
Keywords: Aged; Long-Term Care Institution; Functional Capacity; Public Health.

1. INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional é um fenômeno global que envolve uma série de transformações fisiológicas, morfológicas, emocionais, sensoriais e motoras, tornando a pessoa mais frágil e propensa ao surgimento de doenças que impactam a sua independência e autonomia (Lupepsa; Maiara, 2021). Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em países em desenvolvimento, como o Brasil, indivíduos com 60 anos ou mais são considerados idosos (World Health Organization, 2020). Como o índice de envelhecimento tem sido crescente, há uma previsão de que em 2043, um quarto da população brasileira terá 60 anos ou mais (IBGE, 2023).

Além do aumento crescente da população idosa, desafios socioeconômicos e culturais, como problemas de saúde, escassez de cuidadores domiciliares e conflitos familiares, contribuem para um aumento na busca por Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) (Pollo, Assis 2020). ILPIs são instituições, sejam elas públicas ou privadas, que oferecem moradia coletiva para indivíduos com 60 anos ou mais. Essas instituições podem acolher pessoas que contam ou não com ajuda da família, devendo assegurar a liberdade, dignidade e cidadania dos residentes (Moraes, 2021).

Capacidade funcional diz respeito à possibilidade do indivíduo de cuidar de si próprio e de viver de forma autônoma, ou seja, de manter suas habilidades físicas e mentais nas atividades básicas e instrumentais do dia a dia. No que se refere às atividades básicas, a capacidade funcional envolve tarefas como alimentar-se, tomar banho, vestir-se, ir ao banheiro, caminhar, levantar-se da cama e controlar os esfíncteres (Machado et al., 2021). A capacidade funcional de pessoas idosas é um fator determinante para a qualidade de vida, pois está diretamente relacionada à autonomia e independência (Montenegro et al., 2019).

A capacidade funcional dos idosos institucionalizados tende a ser menor do que a daqueles que vivem em comunidade (Ikegami et al., 2020). Isso pode ser atribuído à limitação de atividades e à falta de estímulos adequados dentro das ILPIs, sendo eles a falta de uma equipe multidisciplinar com psicólogos, educadores físicos, nutricionistas, fisioterapeutas e enfermeiros(Dias et al., 2021).

Intervenções fisioterapêuticas e acompanhamento multiprofissional desempenham papel fundamental na funcionalidade e melhora da qualidade de vida dos indivíduos institucionalizados, auxiliando e incentivando sua participação em atividades que fortaleçam suas capacidades físicas e cognitivas (Marques 2020 et al., Gonçalves et al., 2010).

2. MÉTODOS

Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, com a finalidade de identificar publicações sobre a capacidade funcional de idosos institucionalizados e fatores associados. Foram utilizadas bases de dados eletrônicas para identificar, selecionar e sintetizar estudos relevantes. As plataformas de busca escolhidas para a coleta de dados foram US National Library of Medicine National Institutes of Health (PubMed), Scientific Eletronic Library Online (Scielo) e Scopus.

As palavras-chave utilizadas para a pesquisa foram cuidadosamente selecionadas para abranger o tema central e foram combinadas com o operador boleano AND Os termos de busca utilizados foram: "capacidade funcional" (functional capacity), "idoso" (elderly) e "instituição de longa permanência para idosos" (long-term care facility for the elderly).

Os critérios de inclusão estabelecidos para a seleção dos artigos foram trabalhos publicados nos últimos cinco anos, publicações em português, inglês ou espanhol, artigos com acesso à versão integral gratuita. Foram excluídos artigos que não abordavam idosos institucionalizados.

Os dados coletados dos estudos selecionados foram organizados em uma matriz de análise, onde se registraram informações essenciais como título, autores, ano de publicação, objetivos, metodologia e resultados principais. Posteriormente, a análise dos dados foi realizada por meio de análise descritiva, buscando identificar padrões, divergências e lacunas no conhecimento acerca da capacidade funcional de idosos institucionalizados. A partir dessa análise, os resultados foram sintetizados e discutidos através do referencial teórico, proporcionando uma visão abrangente sobre o tema e identificando áreas que necessitam de futuras pesquisas.

3. RESULTADOS

A busca foi realizada até a data de 30 de setembro de 2024 e foram identificados um total de 747 artigos, conforme observado no gráfico a seguir (Figura 1).

O quadro 1 sintetiza as principais informações dos seis artigos selecionados, abrangendo o objetivo, metodologia e resultados de cada estudo.

Autor(es), Data

Título do Trabalho

Objetivo do Estudo

Metodologia Utilizada

Principais Resultados

Almeida et al., 2020

Rastreio cognitivo e funcional em idosos com risco de quedas

Investigar a associação do cognitivo dos idosos que sofreram ou não quedas

Estudo quantitativo transversal e exploratório realizado em 68 idosos. Foram aplicadas o MEEM o índice de Katz e DAD Disability Assessment For Dementia, (Portadores de demência)

Entre os idosos avaliados, com idades entre 60 e 97 anos, 13 sofreram quedas. Não foi observada associação entre queda e declínio cognitivo e capacidade funcional, nem com anos de estudo. Foi observada associação de queda com baixa acuidade visual e comorbidades.

Dias et al., 2021

Avaliação da capacidade funcional dos idosos residentes em uma instituição de longa permanência

Avaliar o grau de independência dos idosos nas atividades da vida diária e correlacionar com o perfil sociodemográfico

Estudo transversal descritivo com 24 idosos, utilizando questionário sociodemográfico e escala de Katz

54,2% dos idosos eram independentes, sendo os mais jovens (<80 anos) os que apresentavam maior independência.

Esteves et al., 2021

Idosos institucionalizados: uma avaliação dos sintomas depressivos e capacidade funcional

Avaliar sintomas depressivos e capacidade funcional em idosos institucionalizados

Estudo descritivo transversal com 52 idosos, utilizando escalas de depressão geriátrica e WHODAS 2.0

60% dos idosos apresentavam sintomas depressivos; a presença desses sintomas estava associada à maior dependência funcional.

Guimarães et al., 2019

Sintomas depressivos e fatores associados em idosos residentes em instituição de longa permanência

Investigar a prevalência de sintomas depressivos e fatores associados

Estudo transversal com amostra de 42 idosos utilizando questionário de sintomas depressivos, MEEM, Escala geriátrica de depressão (EDG).Não foi avaliado a capacidade funcional neste estudo.

48% dos idosos apresentaram sintomas depressivos, sendo as mulheres mais afetadas, o que requer intervenções específicas. Qualidade de sono ruim, incontinência urinaria e percepção ruim de saúde interferiram na capacidade funcional.

Mancini et al., 2022

Fatores associados à baixa capacidade funcional em pessoas institucionalizados

Analisar a prevalência e os fatores associados à baixa capacidade funcional em Pessoas idosas institucionalizados

Estudo transversal com 153 idosos residentes em instituições de longa permanência, foram avaliados circunferência da perna, marcha estacionária, velocidade no andar e flexão de cotovelo.

57% dos idosos apresentaram baixa capacidade funcional, associada à idade avançada, déficit cognitivo e baixo número de passos.

Uchoa et al., 2019

Fatores associados a sintomas depressivos e funcional em pessoas idosas.

Analisar a relação entre sintomas depressivos e capacidade funcional em pessoas idosas.

Estudo descritivo com aplicação do Índice de Katz, MEEM, Escala depressão (EDG) aplicados em 100 idosos.

Sintomas depressivos foram associados a uma menor capacidade Funcional, especialmente em idosos do sexo feminino, destacando a necessidade de suporte psicossocial.

4. DISCUSSÃO

O presente estudo teve como objetivo identificar na literatura científica os fatores relacionados à capacidade funcional de idosos institucionalizados em unidades de longa permanência. Entre os resultados obtidos, o estudo de Dias et al. (2021), revelaram que 54,2% dos idosos eram independentes nas atividades de vida diária, com maior independência observada em indivíduos com menos de 80 anos. Mancini et al. (2022), também observaram uma maior prevalência de dependência funcional nos idosos com mais de 80 anos, assim como naqueles com baixo déficit cognitivo e que realizavam menor número de passos na marcha. Isso sugere que estratégias preventivas devem ser implementadas precocemente para prolongar a independência funcional.

Guimarães et al, (2019) destacaram que fatores como incontinência urinária, autopercepção negativa de saúde, qualidade de sono ruim e aposentadoria influenciam o aumento dos índices de depressão, especialmente entre mulheres. Uchoa et al. (2019) observaram associação dos sintomas depressivos e uma autopercepção de saúde ruim com o declínio funcional. Já Esteves et al. (2021) identificaram que 60% dos idosos de seu estudo apresentavam sintomas depressivos, associados a uma maior dependência funcional, frequentemente agravados pelo ambiente institucional. Estes três estudos reforçam que a intervenção em saúde mental, com foco na detecção precoce e tratamento dos sintomas depressivos, é essencial para melhorar a capacidade funcional e a autonomia dos idosos institucionalizados, já que existe uma correlação negativa entre saúde mental e declínio cognitivo.

Almeida et al. (2020), por sua vez, destacaram a associação entre quedas e maior número de comorbidades, recomendando intervenções multidimensionais. Este estudo não encontrou associação entre quedas e declínio funcional, porém destacou que houve um declínio e cognitivo na população estudada, reforçando a necessidade de medidas para prevenir novas quedas e consequentemente melhorar a funcionalidade. A abordagem integrada é crucial, pois permite que diferentes profissionais da saúde contribuam para a manutenção ou recuperação da capacidade funcional das pessoas idosas.

Todos os artigos relacionados, exceto o de Mancini et al. (2022), observaram uma maior perda da capacidade funcional em indivíduos do sexo feminino assim como maior expectativa de vida neste sexo, que vem acompanhada de um declínio da funcionalidade à medida que a idade vai avançando (Mancini et al., 2022).

É importante ressaltar que a institucionalização, embora muitas vezes necessária, não deve ser sinônimo de perda de autonomia e qualidade de vida. Através de uma abordagem centrada no idoso, que envolva tanto a promoção da saúde física quanto o suporte emocional e social, é possível melhorar significativamente a capacidade funcional e o bem-estar dos idosos em instituições de longa permanência (Mancini et al., 2022; Almeida et al., 2020; Guimarães et al., 2019).

5. CONCLUSÃO

Os estudos analisados abordaram, de forma geral, a relação entre fatores demográficos e socioeconômicos com a capacidade funcional dos idosos. As comorbidades mais frequentemente investigado, seguidas pela autopercepção negativa de saúde. Contudo, observou-se que aspectos relacionados às atividades de lazer, especialmente o suporte social, foram pouco explorados nas pesquisas avaliadas, limitação de estímulos, isolamento social e comorbidades, reforçando a importância de uma abordagem integrada e multidisciplinar para o cuidado desses idosos.

Com base nos resultados da análise desenvolvida, conclui-se que a melhoria das intervenções integradas, que envolvem cuidados nutricionais, psicossociais e físicos, é essencial para promover a autonomia e melhorar a qualidade de vida dos idosos institucionalizados. A colaboração entre profissionais de diferentes áreas da saúde é indispensável para oferecer um cuidado holístico.

A escassez de pesquisas longitudinais sobre a eficácia de intervenções de longo prazo prejudica a compreensão mais profunda do impacto dessas estratégias na capacidade funcional dos idosos. Assim, recomenda-se que futuras pesquisas investiguem o impacto da capacidade funcional do idoso institucionalizado. Essas investigações permitirão um direcionamento mais preciso das políticas públicas e estratégias de cuidado e intervenções para esse grupo.

Por fim, a promoção de um envelhecimento saudável e ativo em instituições de longa permanência exige não apenas a adoção de práticas de cuidados multidisciplinares, mas também o apoio de toda a comunidade para que priorizem a qualidade de vida dos idosos, garantindo sua autonomia e dignidade durante o envelhecimento.

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