ENFRENTAMENTO DO CÂNCER DE MAMA SOB A PERSPECTIVA BIOPSICOSSOCIAL: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

COPING WITH BREAST CANCER FROM A BIOPSYCHOSOCIAL PERSPECTIVE: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/779662194

RESUMO
O câncer de mama é a neoplasia mais incidente entre mulheres e envolve impactos que ultrapassam a dimensão biológica. Este estudo analisou como o enfrentamento da doença se articula com as dimensões biopsicossociais em mulheres, por meio de revisão integrativa da literatura. A busca foi realizada na Biblioteca Virtual da Saúde, incluindo estudos publicados entre 2020 e 2025. Foram selecionados seis artigos conforme critérios de elegibilidade e diretrizes PRISMA. Os resultados evidenciaram impactos emocionais, alterações na autoimagem e repercussões nas relações sociais. O apoio social, a espiritualidade e a atuação da equipe de saúde destacaram-se como estratégias relevantes de enfrentamento. Também foram observados processos de adaptação e crescimento pós-traumático. Conclui-se que o enfrentamento atua como elemento integrador das dimensões biopsicossociais, influenciando a vivência do adoecimento e a adaptação ao tratamento, reforçando a necessidade de uma abordagem integral no cuidado em saúde.
Palavras-chave: Apoio social; Câncer de mama; Enfrentamento; Saúde mental.

ABSTRACT
Breast cancer is the most prevalent neoplasm among women and involves impacts that extend beyond the biological dimension. This study analyzed how coping with the disease is articulated with biopsychosocial dimensions in women through an integrative literature review. The search was conducted in the Virtual Health Library, including studies published between 2020 and 2025. Six articles were selected according to eligibility criteria and PRISMA guidelines. The results revealed emotional impacts, changes in self-image, and repercussions in social relationships. Social support, spirituality, and the role of the healthcare team were highlighted as relevant coping strategies. Processes of adaptation and post-traumatic growth were also observed. It is concluded that coping acts as an integrative element of biopsychosocial dimensions, influencing the experience of illness and adaptation to treatment, reinforcing the need for a comprehensive approach to healthcare.
Keywords: Breast cancer; Coping; Mental health; Social support.

1. INTRODUÇÃO

O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres, excetuando-se o de pele não melanoma, sendo também a principal causa de morte por câncer na população feminina. Sob o aspecto biológico, caracteriza-se pela proliferação desregulada de células mamárias, com potencial de invasão e disseminação para outros órgãos (INCA, 2025a).

O desenvolvimento das células cancerígenas ocorre nos ductos mamários ou nos lóbulos produtores de leite da mama. Os principais sinais incluem nódulo ou espessamento mamário, vermelhidão, alterações na pele, modificação na aparência do mamilo ou aréola e secreção anormal ou sanguinolenta pelos mamilos; no entanto, a presença dessas alterações não indica, necessariamente, câncer de mama (OMS, 2024).

Os casos de câncer de mama em mulheres têm aumentado ao longo dos anos, tornando-se um problema de saúde pública devido à sua elevada mortalidade. Em 2022, cerca de 2,3 milhões de casos foram registrados e aproximadamente 670 mil mortes foram estimadas em todo o mundo (OMS, 2024). Para cada ano do triênio 2026 a 2028, estimam-se 78.610 novos casos de câncer de mama no Brasil, mantendo-se como a neoplasia mais incidente entre mulheres no país (INCA, 2026).

A detecção precoce do câncer de mama envolve tanto o reconhecimento de alterações mamárias quanto a utilização de estratégias de rastreamento, sendo a mamografia o principal exame recomendado para mulheres de 50 a 74 anos, com periodicidade bienal. A identificação da doença em estágios iniciais está relacionada a maior probabilidade de sucesso terapêutico, melhor prognóstico e possibilidade de intervenções menos invasivas, sendo os casos suspeitos confirmados por meio de análise histopatológica (INCA, 2025b).

As mulheres acometidas por câncer de mama sofrem impactos na autoimagem, no aspecto psicológico e nas relações sociais. Diante do diagnóstico, relatam um momento intenso de angústia, medo e insegurança em relação ao futuro, podendo, em alguns casos, evoluir para depressão (Souza et al., 2021).

As mulheres que enfrentam o câncer de mama apresentam dificuldades e vulnerabilidades nas relações interpessoais, além de alterações na imagem corporal. O apoio de profissionais, amigos e familiares auxilia na redução dos impactos negativos decorrentes do diagnóstico, frequentemente associados a sentimentos de desespero, medo do futuro e percepção antecipada de morte. Ademais, o contexto familiar pode desencadear reflexões mais profundas sobre aspectos existenciais, como a finitude e o sentido da vida (Souza et al., 2021).

O diagnóstico e o tratamento do câncer de mama estão associados a impactos na saúde psicológica e na imagem corporal das mulheres acometidas. Em consonância, uma das implicações envolve a autoaceitação após a mastectomia, que não se restringe à percepção individual, mas também ao olhar de familiares e amigos. Além disso, o apoio da rede afetiva mostra-se essencial para o enfrentamento da doença, contribuindo para o fortalecimento emocional (Almeida et al., 2022).

A participação em atividades sociais, como palestras em igrejas e escolas realizadas por mulheres que vivenciaram o câncer de mama, contribui para o fortalecimento pessoal e coletivo. Somado a isso, o envolvimento em projetos, como a distribuição de próteses mamárias, favorece o processo de adaptação, promovendo esperança e maior autoconfiança (Almeida et al., 2022).

Frente a essa complexidade, o câncer de mama deve ser compreendido a partir de uma abordagem biopsicossocial, uma vez que seus impactos extrapolam a dimensão biológica, envolvendo aspectos psicológicos, emocionais e sociais na experiência da doença, com ênfase nas estratégias de enfrentamento adotadas pelas mulheres diante do diagnóstico e do tratamento (Guesser et al., 2025). Nesse sentido, o presente estudo teve por objetivo analisar o enfrentamento do câncer de mama sob a perspectiva biopsicossocial, por meio de uma revisão integrativa.

2. MÉTODOS

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura científica, a qual é um tipo de revisão que integra literatura teórica e empírica, de métodos quantitativos e qualitativos, para fornecer uma compreensão abrangente de um fenômeno. A revisão integrativa permite reunir múltiplos desenhos metodológicos, combinando dados teóricos e empíricos de diferentes abordagens metodológicas, podendo incluir revisões sistemáticas, metanálises, bem como outros tipos de revisão e textos que contribuam de forma analítica para o fenômeno estudado (Schick-Makaroff; Mccrandle; Molzahn, 2015; Tarroco, 2005; Whittemore; Knafl, 2005).

Para garantir rigor científico na busca e seleção dos artigos nas bases de dados, foi utilizado o Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) como referência para o percurso metodológico da presente revisão integrativa. O PRISMA foi reformulado e revisado em 2020 e se resume em um checklist de 27 itens, compondo subitens, que devem ser incluídos no estudo, além de incluir listas de checagens, explicação e elaboração de fluxograma com as seguintes etapas: identificação, seleção, elegibilidade e inclusão (Page et al., 2021). A revisão fundamentou-se na análise da literatura científica publicada entre 2020 e 2025, com foco em um problema de pesquisa previamente definido. O problema de pesquisa foi: como o enfrentamento do câncer de mama tem sido compreendido e descrito sob a perspectiva biopsicossocial na literatura científica?

Os estudos foram selecionados por meio da Biblioteca Virtual da Saúde (BVS), considerando publicações no período de 2020 a 2025. A estratégia de busca foi conduzida de forma sistematizada, com base em descritores previamente definidos e relacionados ao tema da pesquisa. Foram utilizados os termos “câncer de mama” e “enfrentamento”, combinados por meio do operador booleano AND, conforme a seguinte estratégia de busca: ("câncer de mama") AND ("enfrentamento").

A seleção dos artigos seguiu os seguintes critérios de inclusão: artigos publicados em português, espanhol e inglês, disponíveis na íntegra, publicados entre 2020 e 2025 e relacionados ao tema proposto. Os critérios de exclusão foram estudos, que não abordassem o enfrentamento do câncer de mama e suas relações com aspectos biopsicossociais.

O processo de seleção dos estudos foi apresentado por meio do fluxograma PRISMA (Figura 1), evidenciando as etapas de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos artigos na amostra final.

Figura 1: O fluxograma apresenta o número de registros identificados, triados, avaliados e incluídos na síntese qualitativa, conforme as diretrizes PRISMA.

Fonte: Elaborado pelos autores.

3. RESULTADOS

Conforme apresentado na Figura 1, foram incluídos 6 artigos na amostra final, sendo um de 2020, três de 2021, um de 2022, nenhum de 2023 e um de 2024. O Quadro 1 apresenta a síntese dos principais achados dos estudos selecionados, permitindo a visualização dos objetivos e dos resultados de cada artigo.

Quadro 1: Caracterização dos estudos incluídos na revisão integrativa, 2026.

Autor/Ano

Objetivo

Tipo de estudo

Principais achados

Categoria temática

Almeida et al., 2022

Sentimentos e vivências no câncer de mama

qualitativo

Tristeza, medo e desespero associados ao diagnóstico; impacto da mastectomia na autoimagem; presença de aceitação e esperança

impacto emocional; autoimagem

França et al., 2021

Itinerário terapêutico no câncer de mama

qualitativo

Diagnóstico inesperado; dificuldades de acesso aos serviços de saúde; influência do apoio familiar no enfrentamento

itinerário terapêutico; apoio social

Ribeiro et al., 2021

Experiência e qualidade de vida no câncer de mama

misto

Ambivalência entre medo e esperança; impacto na saúde mental; enfrentamento da doença

qualidade de vida; enfrentamento

Vargas et al., 2020

Rede de apoio social no câncer de mama

qualitativo

Apoio de família, amigos, grupo e equipe de saúde; espiritualidade e religiosidade como suporte no enfrentamento

apoio social; espiritualidade

Valentim; Yamamoto, 2024

Adaptação psicológica no câncer de mama

clínico-qualitativo

Desamparo egóico; comprometimento afetivo-relacional; psicoterapia breve favorece adaptação

adaptação psicológica; saúde mental

Campos; Coelho; Trentini, 2021

Crescimento pós-traumático no câncer de mama

quantitativo

Crescimento associado à centralidade do evento e enfrentamento focado no problema

crescimento pós-traumático; estratégias de enfrentamento

Fonte: Elaborado pelos autores.

4. DISCUSSÃO

Os sentimentos mais comuns em mulheres que tiveram o diagnóstico confirmado do câncer de mama foram tristeza, medo, desespero e aceitação, e, em mulheres que foram mastectomizadas, observaram-se sentimentos de vergonha, estranheza, desvalorização, angústia e insatisfação corporal, impactando na saúde mental e autoestima da mulher (Almeida et al., 2022).

Os primeiros sinais e sintomas do câncer de mama foram percebidos de forma inesperada, frequentemente no cotidiano ou durante consultas de rotina (França et al., 2021). Diante do diagnóstico, surgem o enfrentamento e os desafios de conhecer a doença e os processos que envolvem a assistência clínica (médicos e equipes) (Ribeiro et al., 2021).

Nesse contexto, observa-se que a experiência do adoecimento não se limita apenas às repercussões emocionais imediatas, mas envolve também elementos relacionados ao itinerário terapêutico e às condições de acesso à assistência. Aspectos como a organização dos serviços, possíveis barreiras estruturais e a necessidade de mobilização de recursos familiares parecem influenciar diretamente a forma como essas mulheres enfrentam o diagnóstico e o tratamento. Assim, o enfrentamento do câncer de mama tende a se configurar não apenas como um processo individual, mas como uma experiência que articula dimensões subjetivas e contextuais (França et al., 2021).

No que se refere ao convívio social e familiar, estudos apontam que o apoio da família, amigos e vizinhos faz parte da vivência da mulher com câncer, contribuindo para o enfrentamento da doença e adesão ao tratamento. A religiosidade, a fé e a espiritualidade também se mostram presentes nesse processo, atuando como estratégias de enfrentamento; contudo, não deve ser dispensada a participação da equipe médica e de enfermagem. Adicionalmente, observa-se o papel dos grupos de apoio, uma vez que esses espaços possibilitam a troca de experiências entre mulheres que vivenciam situações semelhantes, favorecendo o acolhimento, o fortalecimento emocional e o sentimento de pertencimento, além de contribuírem para o envolvimento social e para a construção de novas formas de lidar com o adoecimento (Vargas et al., 2020).

Com relação à saúde mental, observou-se o desamparo egóico diante do adoecimento e tratamento oncológico. No entanto, a psicoterapia breve operacionalizada possibilitou efeitos terapêuticos na adaptação, reverberando na resolução das situações-problema relacionadas à perda. Além disso, identificam-se repercussões físicas do tratamento e afetivo-relacionais, indicando que o processo de adoecimento e tratamento envolve múltiplas dimensões da adaptação (Valentim; Yamamoto, 2024).

Sob essa perspectiva, as adversidades percebidas no processo de adoecimento também revelam a possibilidade de crescimento pessoal em mulheres que enfrentaram o câncer de mama e concluíram o tratamento, indicando que estratégias de enfrentamento, especialmente aquelas focadas no problema, podem contribuir para esse processo (Campos; Coelho; Trentini, 2021). Observa-se, ainda, que a experiência do adoecimento não ocorre de forma linear, sendo marcada por sentimentos ambivalentes. Ao mesmo tempo em que o diagnóstico está associado ao medo, sofrimento e incertezas, também foram identificados sentimentos de esperança e expectativa em relação ao tratamento, indicando diferentes respostas emocionais ao longo do processo (Ribeiro et al., 2021).

Observa-se, portanto, que o enfrentamento do câncer de mama atua como elemento integrador entre as dimensões biopsicossociais, articulando respostas emocionais, suporte social, repercussões relacionadas ao corpo e processos de atribuição de significado à experiência de adoecimento (Campos; Coelho; Trentini, 2021; Guesser et al., 2025).

Ribeiro et al. (2021) identificaram alterações no estilo de vida das mulheres com câncer de mama, com presença de medo e redução das expectativas. Em relatos das participantes, observa-se que o diagnóstico foi vivenciado como um evento súbito, gerando ruptura na rotina e intensificando sentimentos relacionados à finitude, especialmente o medo da progressão da doença e da morte. De forma complementar, Souza et al. (2021) destacam que o adoecimento também mobiliza reflexões sobre o significado da doença e a experiência vivida.

Na mesma perspectiva, Valentim e Yamamoto (2024) afirmaram que a psicoterapia breve operacionalizada possibilitou efeitos na adaptação, contribuindo para a elaboração da crise adaptativa por perda, além da legitimação do sofrimento diante do adoecimento e das perdas ocasionadas pelo tratamento. Os autores ainda destacam que esse método pode ser um instrumento relevante para a diminuição do sofrimento psíquico no processo de diagnóstico e tratamento do câncer de mama, favorecendo a adesão ao tratamento por meio da melhor compreensão do significado do adoecimento.

A experiência do adoecimento também pode mobilizar reflexões sobre o sentido de vida, levando à busca por propósito e à reorganização de prioridades pessoais. Em consonância, observa-se que o enfrentamento do câncer de mama envolve não apenas respostas emocionais e adaptativas, mas também um processo de atribuição de significado à experiência vivida (Campos; Coelho; Trentini, 2021).

Como limitações deste estudo, destaca-se o número reduzido de artigos incluídos na amostra final, bem como a utilização de uma única base de dados para a busca, o que pode restringir a abrangência dos achados.

5. CONCLUSÃO

Diante do exposto, evidenciou-se que o enfrentamento do câncer de mama se relaciona com múltiplas dimensões, incluindo aspectos biológicos, psicológicos, sociais e espirituais. No que se refere aos aspectos biológicos, destacam-se alterações na autoimagem, especialmente relacionadas à mastectomia e às mudanças decorrentes do tratamento quimioterápico.

Além dos efeitos físicos, foram identificados impactos significativos na saúde mental, com a presença de sentimentos como tristeza, medo, desespero e, em alguns casos, aceitação. Em mulheres submetidas à mastectomia, observaram-se ainda sentimentos relacionados à autoimagem, como vergonha, estranheza, desvalorização, angústia e insatisfação corporal, com repercussões na autoestima e na qualidade de vida. Por outro lado, também foram identificados sentimentos de esperança e motivação, frequentemente associados ao apoio de familiares e à rede social.

O apoio social e espiritual mostrou-se relevante no processo de enfrentamento da doença, envolvendo a participação de familiares, amigos e comunidades religiosas. Esses elementos, associados às estratégias de enfrentamento, contribuem para a adaptação ao adoecimento e ao tratamento.

Esta revisão possibilitou compreender os impactos biopsicossociais vivenciados por mulheres após o diagnóstico de câncer de mama, com ênfase nas estratégias de enfrentamento e nas respostas emocionais associadas ao adoecimento. Observa-se, diante desse cenário, que o enfrentamento do câncer de mama se articula com as dimensões biopsicossociais, atuando como elemento integrador entre aspectos emocionais, sociais e relacionados ao corpo, além de processos de atribuição de significado à experiência vivida.

Adicionalmente, os achados apontam para a importância da atuação dos profissionais de saúde no suporte às dimensões emocionais e sociais dessas mulheres, favorecendo uma abordagem mais integral do cuidado.

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1 Discente do Curso de Biomedicina da Faculdade de Princípios Militares (FPM). Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Biomédica. Mestra em Ciências Ambientais e Saúde. Professora do Instituto de Pós-Graduação e Graduação (IPOG). Goiânia, Goiás, Brasil. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Doutor em Sociologia. Professor da Faculdade de Princípios Militares (FPM) e da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail