REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792376189
RESUMO
As dermatopatias constituem afecções de grande relevância na clínica de pequenos animais, apresentando diferentes etiologias e manifestações clínicas que podem dificultar o diagnóstico e a definição da conduta terapêutica. Este trabalho teve como objetivo revisar os principais aspectos relacionados às dermatopatias em cães e gatos, com ênfase nos fatores etiológicos e epidemiológicos, manifestações clínicas, métodos diagnósticos e possibilidades terapêuticas. Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo, mediante levantamento e análise de publicações científicas e trabalhos acadêmicos relacionados à dermatologia veterinária. Foram abordadas dermatopatias de origem bacteriana, fúngica, parasitária, endócrina e imunológica, além dos principais métodos utilizados no diagnóstico e das abordagens terapêuticas. Os estudos analisados demonstraram a diversidade de agentes e fatores associados às doenças dermatológicas, bem como a ocorrência de sinais clínicos variados, destacando-se alterações como prurido, alopecia, eritema, crostas e seborreia. A avaliação clínica associada ao uso de exames complementares mostrou-se importante para a investigação e diferenciação das enfermidades. Conclui-se que o conhecimento dos aspectos etiológicos, epidemiológicos, diagnósticos e terapêuticos é fundamental para o manejo adequado das dermatopatias e para a promoção da saúde e do bem-estar de cães e gatos.
Palavras-chave: Dermatologia veterinária; Doenças cutâneas; Fungo; Pequenos animais; Prurido.
ABSTRACT
Dermatopathies are highly relevant conditions in small animal practice, presenting different etiologies and clinical manifestations that may make diagnosis and the establishment of appropriate therapeutic management challenging. This study aimed to review the main aspects related to dermatopathies in dogs and cats, with emphasis on etiological and epidemiological factors, clinical manifestations, diagnostic methods, and therapeutic options. A descriptive narrative literature review was conducted through the survey and analysis of scientific publications and academic studies related to veterinary dermatology. Dermatopathies of bacterial, fungal, parasitic, endocrine, and immune-mediated origin were addressed, as well as the main methods used for diagnosis and therapeutic approaches. The studies analyzed demonstrated the diversity of agents and factors associated with dermatological diseases, as well as the occurrence of varied clinical signs, particularly pruritus, alopecia, erythema, crusts, and seborrhea. Clinical evaluation combined with the use of complementary diagnostic tests was shown to be important for the investigation and differentiation of these diseases. It is concluded that knowledge of the etiological, epidemiological, diagnostic, and therapeutic aspects is essential for the appropriate management of dermatopathies and for promoting the health and well-being of dogs and cats.
Keywords: Veterinary dermatology; Skin diseases; Fungi; Small animals; Pruritus.
1. INTRODUÇÃO
A dermatologia veterinária é uma área de grande relevância na clínica de animais de companhia, exigindo uma abordagem diagnóstica criteriosa e individualizada, uma vez que diferentes enfermidades podem apresentar sinais clínicos semelhantes, dificultando a identificação precisa da causa e a instituição do tratamento adequado (Romani et al., 2020).
As doenças dermatológicas podem impactar significativamente a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida dos animais. Além disso, podem interferir diretamente na relação entre os animais e seus tutores, especialmente nos casos que envolvem desconforto intenso, prurido, dor ou alterações visíveis na pele e nos anexos cutâneos. Essas enfermidades apresentam etiologias variadas e podem estar relacionadas a causas infecciosas, parasitárias, endócrinas, imunomediadas, ambientais e genéticas.
As dermatopatias infecciosas podem ser causadas por bactérias, fungos ou parasitas, manifestando-se por meio de lesões cutâneas, infecções secundárias e processos inflamatórios. As enfermidades endócrinas, por sua vez, estão relacionadas a alterações hormonais que podem afetar a integridade e a função da pele, enquanto as doenças imunomediadas resultam de respostas imunológicas inadequadas que promovem danos aos tecidos cutâneos. Independentemente da etiologia, as manifestações clínicas podem variar amplamente, comprometendo o bem-estar dos animais e exigindo investigação clínica detalhada para o estabelecimento do diagnóstico e da conduta terapêutica adequados (Hnilica; Patterson, 2018).
Nesse contexto, o conhecimento dos aspectos etiológicos e epidemiológicos das dermatopatias é fundamental para a compreensão dos diferentes fatores associados à ocorrência dessas enfermidades, bem como de sua distribuição e frequência em cães e gatos. A identificação das manifestações clínicas e a utilização adequada dos métodos diagnósticos também são importantes para a diferenciação entre as diversas afecções dermatológicas e para o direcionamento da conduta terapêutica, de acordo com a causa e as características de cada enfermidade.
Diante da diversidade de dermatopatias que podem acometer cães e gatos e da semelhança entre algumas de suas manifestações clínicas, o presente trabalho teve como objetivo revisar os principais aspectos relacionados às dermatopatias em cães e gatos, com ênfase nos fatores etiológicos e epidemiológicos, nas manifestações clínicas, nos métodos diagnósticos e nas possibilidades terapêuticas. A realização desta revisão justificou-se pela importância de reunir e sistematizar conhecimentos acerca das dermatopatias que acometem cães e gatos, contribuindo para uma compreensão integrada dessas afecções e de sua abordagem na prática da medicina veterinária.
2. METODOLOGIA
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, de caráter descritivo, desenvolvida com o objetivo de reunir e discutir informações referentes às principais dermatopatias que acometem cães e gatos, com ênfase em seus aspectos etiológicos, epidemiológicos, manifestações clínicas, métodos diagnósticos e possibilidades terapêuticas.
O levantamento bibliográfico foi realizado por meio de buscas em bases de dados científicas e plataformas de pesquisa acadêmica, incluindo Google Acadêmico, PubMed, SciELO e periódicos especializados em medicina veterinária. Foram utilizados, de forma combinada, os seguintes descritores: “dermatopatias em cães”, “dermatopatias em gatos”, “dermatologia veterinária”, “doenças dermatológicas em pequenos animais”, “piodermite”, “dermatofitose”, “demodicose”, “dermatite atópica”, “hiperadrenocorticismo”, “diagnóstico dermatológico” e “tratamento dermatológico veterinário”, bem como seus correspondentes em língua inglesa.
Foram consideradas publicações disponíveis entre os anos de 2010 e 2025, priorizando-se artigos científicos, livros, dissertações e trabalhos acadêmicos relacionados à dermatologia de pequenos animais. A seleção das referências foi realizada mediante leitura dos títulos, resumos e, posteriormente, do conteúdo integral das publicações consideradas pertinentes ao objetivo da revisão. Foram incluídos trabalhos que apresentassem informações relacionadas à etiologia, epidemiologia, sinais clínicos, diagnóstico ou tratamento das dermatopatias em cães e gatos. Foram excluídas publicações que não apresentassem relação direta com o tema proposto ou que não contribuíssem para os objetivos estabelecidos.
Após a seleção, as informações obtidas foram organizadas de acordo com os principais eixos temáticos definidos para o trabalho: aspectos gerais e etiológicos, epidemiologia, dermatopatias bacterianas, fúngicas e parasitárias, dermatopatias endócrinas e imunológicas, diagnóstico e tratamento. Posteriormente, os conteúdos foram analisados de forma descritiva e integrados em uma discussão acerca das características das diferentes enfermidades dermatológicas, buscando estabelecer uma visão abrangente sobre sua ocorrência, identificação e manejo clínico em cães e gatos.
3. RESULTADOS E DISCUSSÃO
3.1. Etiologia
A pele, reconhecida como o maior órgão do corpo, desempenha importante função como barreira anatômica e fisiológica entre o animal e o ambiente. Essa estrutura protege o organismo contra lesões de natureza física, química e microbiológica, além de possibilitar a percepção de estímulos sensoriais, como calor, frio, dor, tato e pressão (Paula, 2019).
Por estar constantemente exposta ao ambiente, a pele está sujeita a diferentes agentes e condições capazes de provocar alterações dermatológicas. De acordo com Paula (2019), essa característica, associada à facilidade de identificação das alterações cutâneas, contribui para o elevado número de atendimentos relacionados à dermatologia em clínicas e hospitais veterinários. Nesse contexto, as patologias dermatológicas constituem uma preocupação relevante tanto para os médicos veterinários quanto para os tutores de cães e gatos, uma vez que as lesões cutâneas e os sinais clínicos associados são, em geral, facilmente observáveis e reconhecíveis (Pinho; Monzón; Simões, 2013).
A elevada ocorrência de afecções dermatológicas na clínica de cães e gatos está relacionada à diversidade de fatores etiológicos envolvidos. Entre eles, destacam-se bactérias, parasitas, fungos, carrapatos, reações alérgicas e outras causas, que podem desencadear diferentes manifestações clínicas e exigir abordagens diagnósticas e terapêuticas específicas (Gomes et al., 2021).
3.2. Epidemiologia
As dermatopatias apresentam elevada relevância na rotina da clínica de pequenos animais. Estima-se que entre 20% e 75% dos animais atendidos em clínicas veterinárias apresentem condições diretamente relacionadas à dermatologia (Campana, 2010). Essa elevada frequência demonstra a importância dessas afecções na medicina veterinária e reforça a necessidade de conhecimento acerca dos fatores associados à sua ocorrência.
As afecções dermatológicas são diagnosticadas com maior frequência em cães do que em gatos. Entre as condições mais frequentemente observadas nos cães estão as piodermatites bacterianas, dermatites alérgicas, seborreias, atopias e dermatoses imunomediadas. Nos gatos, por sua vez, destacam-se as doenças bacterianas, as dermatoses parasitárias, o complexo granuloma eosinofílico felino, as infecções micóticas, as reações de hipersensibilidade, os quadros seborreicos e as dermatoses autoimunes (Carvalho, 2017).
Apesar da ampla disponibilidade de literatura internacional na área de dermatologia veterinária, os estudos epidemiológicos permanecem limitados, especialmente no contexto brasileiro (Campana, 2010). Paula (2019) também destaca que as informações disponíveis sobre a casuística de distúrbios cutâneos em cães e gatos são escassas. Essa limitação pode estar relacionada, entre outros fatores, à elevada quantidade de casos não finalizados e ao preenchimento inadequado das fichas de atendimento.
Segundo Paula (2019), embora existam formulários específicos para a anamnese de pacientes com dermatopatias, estes frequentemente não são preenchidos ou são preenchidos de maneira inadequada. Em algumas situações, o clínico estabelece um diagnóstico, mas não registra corretamente as informações, levando à classificação do caso como inconclusivo. Essas falhas no registro dos atendimentos comprometem os levantamentos de casuística e, consequentemente, a produção de informações epidemiológicas sobre as doenças dermatológicas.
3.3. Dermatopatias Bacterianas
As piodermites ou piodermatites correspondem às infecções bacterianas da pele, podendo afetar a epiderme, a derme papilar e reticular, os óstios e o epitélio folicular (Carvalho, 2017). De acordo com a profundidade de acometimento cutâneo, essas afecções são classificadas clinicamente em superficiais e profundas (Paula, 2019).
As piodermites superficiais comprometem as camadas mais externas da pele, incluindo a epiderme e o epitélio folicular (Vaz et al., 2021). Nas formas profundas, por outro lado, ocorre comprometimento do folículo piloso e da derme, podendo haver, em determinadas situações, envolvimento do tecido subcutâneo (Carvalho, 2017). Essa classificação é relevante para a avaliação da extensão do processo infeccioso e para o direcionamento da abordagem clínica.
As manifestações clínicas das dermatopatias bacterianas podem variar de acordo com o padrão racial, a resposta imunológica individual do paciente e as características específicas do agente etiológico envolvido (Paula, 2019). Em geral, as infecções bacterianas cutâneas são secundárias a uma condição primária de origem metabólica, dermatológica ou imunológica (Botoni et al., 2014). Para que ocorra a infecção, as bactérias precisam ser capazes de aderir à pele, processo relacionado a fatores de virulência, tropismo tecidual e susceptibilidade do hospedeiro (Vaz et al., 2021).
Entre os agentes bacterianos associados às piodermites, o Staphylococcus pseudintermedius é descrito como a bactéria mais frequentemente relacionada às piodermites em cães (Vaz et al., 2021). Nos gatos, o gênero Staphylococcus spp. é apontado como o mais comumente identificado (Vieira, 2012).
3.4. Dermatopatias Fúngicas
Entre as dermatopatias de origem fúngica, destaca-se a dermatofitose, uma infecção cutânea superficial de distribuição global causada por fungos queratinofílicos que acometem estruturas queratinizadas da pele e dos pelos de cães, gatos e seres humanos. Além de sua importância como enfermidade infecciosa, a dermatofitose apresenta relevância em saúde pública devido ao seu potencial zoonótico (Paryuni et al., 2023).
Os agentes etiológicos da dermatofitose podem ser classificados, de acordo com suas adaptações, em três grupos: antropofílicos, geofílicos e zoofílicos (Dworecka-Kaszak; Dąbrowska, 2017). Entre as espécies mais prevalentes estão Microsporum canis, Microsporum gypseum e Trichophyton mentagrophytes (Hainsworth et al., 2020). A transmissão pode ocorrer por contato direto com animais infectados ou indiretamente por meio de fômites contendo esporos infecciosos (Pires et al., 2014).
As manifestações clínicas mais frequentes incluem alopecia, crostas, escamas, hiperpigmentação, foliculite e obstrução dos folículos pilosos (Gnat et al., 2018). Também podem ser observadas lesões nodulares com padrão de Quérion, além de pseudomicetomas e micetomas, que podem apresentar-se de forma fistulada ou ulcerativa e apresentar drenagem de secreção seropurulenta (Lagowsk et al., 2019).
O diagnóstico pode envolver diferentes exames complementares. A lâmpada de Wood pode ser utilizada como instrumento de triagem, enquanto a confirmação pode ser realizada por meio de tricograma, citologia e/ou raspado cutâneo, com utilização de amostras tratadas com hidróxido de potássio, além da cultura fúngica em meio de Ágar Sabouraud (Bouza-Rapti et al., 2023; Dyer; Foy, 2022).
O tratamento pode envolver a utilização de antifúngicos sistêmicos associados a agentes tópicos antimicóticos. Entre os fármacos citados estão cetoconazol, griseofulvina, itraconazol e terbinafina, enquanto entre os agentes tópicos são mencionados clorexidina, cal de enxofre, enilconazol e miconazol (Barrs et al., 2024).
3.5. Dermatopatias Parasitárias
As doenças parasitárias cutâneas podem ser provocadas por diferentes agentes etiológicos, incluindo insetos, artrópodes, helmintos e protozoários. As manifestações dessas enfermidades variam de acordo com o agente envolvido, as lesões produzidas na pele e a resposta imunológica do hospedeiro. Entre as causas de alterações dermatológicas em animais, os ectoparasitas, como carrapatos e pulgas, apresentam importante participação, podendo estar relacionados a até 50% das dermatopatias diagnosticadas em pequenos animais (Paula, 2019).
Segundo Paula (2019), as dermatopatias decorrentes da presença de ectoparasitas manifestam-se predominantemente por meio de prurido intenso. Entre as doenças cutâneas de origem parasitária encontram-se as acaríases, dermatopatias causadas por ácaros que acometem principalmente os cães. Esses organismos estabelecem-se predominantemente na pele e nas mucosas, sendo apenas uma minoria considerada endoparasita.
Entre as acaríases de importância na clínica de pequenos animais, destaca-se a demodicose, também conhecida como sarna demodécica. Essa enfermidade é caracterizada como uma doença parasitária inflamatória da pele associada à presença abundante de ácaros do gênero Demodex spp., considerados habitantes naturais da pele canina (Fourie et al., 2015). O Demodex canis é um ácaro comensal que habita os folículos pilosos e, com menor frequência, as glândulas sebáceas dos cães, sem comprometer a integridade do tecido superficial (Mueller et al., 2012).
A demodicose pode ser classificada em localizada ou generalizada, de acordo com a extensão das lesões, e pode ocorrer tanto em animais jovens quanto adultos (Fourie et al., 2015). Embora a proliferação excessiva dos ácaros esteja relacionada ao desenvolvimento da enfermidade, a simples presença desses organismos não deve ser considerada determinante para o estabelecimento da doença. Sua ocorrência está associada à interação de diferentes fatores, incluindo idade, raça, nutrição, predisposição genética, fatores hormonais, condições imunológicas e aspectos ambientais e bacterianos, além da própria infestação parasitária (Singh; Dimri, 2014).
Essa interação pode favorecer a ocorrência de infecções secundárias, contribuindo para a importância da demodicose na rotina dermatológica de cães (Singh; Dimri, 2014). Além disso, a enfermidade pode estar relacionada à resposta da imunidade inata, uma vez que foi observada superexpressão dos genes receptores Toll-like TLR2 em cães com manifestações clínicas, especialmente na forma generalizada da doença (Kumari et al., 2017).
O diagnóstico da demodicose é inicialmente baseado na avaliação clínica das lesões cutâneas, que podem apresentar áreas de alopecia associadas ou não ao prurido. Para a confirmação diagnóstica, recomenda-se a realização de raspado cutâneo profundo, possibilitando a visualização das diferentes formas evolutivas do parasita (Mueller et al., 2012). Outra possibilidade para o diagnóstico e monitoramento da enfermidade é a utilização da técnica de fita adesiva, que consiste na compressão da pele e aplicação de fita de acetato sobre a área afetada, permitindo a avaliação da presença e a contagem dos ácaros (Barillas et al., 2019).
3.6. Dermatopatias Endócrinas
Entre as endocrinopatias de importância dermatológica, destaca-se o hiperadrenocorticismo (HAC), também denominado síndrome de Cushing. Trata-se de uma endocrinopatia de etiologia multifatorial decorrente do excesso de glicocorticoides sistêmicos e que apresenta importante relação com manifestações dermatológicas (Bennaim; Shiel; Mooney, 2019).
O hiperadrenocorticismo pode estar associado à liberação excessiva do hormônio adrenocorticotrófico (ACTH), decorrente da presença de tumor hipofisário ativo, a uma neoplasia adrenocortical secretora de cortisol ou a causas iatrogênicas (Lamoureux et al., 2023). Do ponto de vista epidemiológico, observa-se maior prevalência da enfermidade em cães castrados, fêmeas e animais de pequeno porte, enquanto sua ocorrência é considerada incomum em felinos (Hardy et al., 2023).
As principais manifestações dermatológicas observadas em animais com hiperadrenocorticismo incluem afinamento e perda da elasticidade da pele, alopecia, calcinose cutânea, comedões, hiperpigmentação e seborreia (Orito, 2022). Dessa forma, as alterações dermatológicas podem constituir importantes achados durante a avaliação clínica desses pacientes.
O diagnóstico fundamenta-se na associação entre os achados clínicos e a realização de exames hormonais, incluindo testes dinâmicos, como a estimulação com ACTH e o teste de supressão com dexametasona (Zeugswetter et al., 2021). Exames complementares, como ultrassonografia, ressonância magnética e tomografia computadorizada, além de exames bioquímicos, hemograma, histopatologia e urinálise, também podem ser empregados na investigação do quadro (Del Baldo et al., 2022).
Entre as possibilidades terapêuticas, destacam-se o trilostano e o mitotano, utilizados com o objetivo de reduzir os níveis hormonais no organismo (Park et al., 2021). No diagnóstico diferencial, incluem-se o hipotireoidismo e a doença de Addison, sendo esta última uma endocrinopatia rara em cães e gatos, caracterizada pela diminuição dos níveis de glicocorticoides e mineralocorticoides (Klassman; Gusso, 2022).
Embora o hiperadrenocorticismo possa apresentar manifestações relacionadas aos sistemas intestinal, renal e cardiovascular, alterações dermatológicas também podem ocorrer, incluindo alopecia na região dorsal e nos flancos (Feldman et al., 2015). Nesses casos, a investigação pode envolver exames complementares, como avaliação da razão sódio/potássio, ultrassonografia abdominal e teste de estimulação com ACTH (Ramos et al., 2022).
3.7. Dermatopatias Imunológicas
Entre as dermatopatias de origem imunológica, destaca-se a dermatite atópica (DA), uma enfermidade dermatológica crônica, inflamatória e pruriginosa, de etiologia multifatorial, que acomete predominantemente cães e, ocasionalmente, gatos (Santoro, 2019). Embora os mecanismos envolvidos em sua ocorrência ainda não estejam completamente esclarecidos, estudos associam a enfermidade a fatores genéticos, imunológicos e relacionados à barreira cutânea (Gedon; Mueller, 2018).
Entre os fatores relacionados à dermatite atópica, destacam-se a predisposição genética, evidenciada pela maior ocorrência em determinadas raças, como Golden Retriever, Poodle, Shih Tzu e Terrier, embora também possa acometer animais sem raça definida; as alterações do sistema imunológico decorrentes do contato com aeroalérgenos ambientais; e as alterações na barreira cutânea. A resposta imunológica envolve a ativação de linfócitos T helper tipo 2 (Th2) e a produção de imunoglobulinas E (IgE), enquanto as alterações da barreira cutânea estão associadas à perda de água transepidermal, à redução de lipídios e ceramidas e a alterações em genes relacionados à proteína filagrina (Han; Roan; Ziegler, 2017).
Clinicamente, a dermatite atópica caracteriza-se principalmente pela presença de lesões intensamente pruriginosas, automutilação, alopecia, crostas e eritema, frequentemente observados na região facial, nos pavilhões auriculares, nos flancos e nos membros posteriores (Pucheu-Haston et al., 2015). O diagnóstico é estabelecido por meio da análise do histórico clínico, da avaliação física e da exclusão das principais dermatopatias diferenciais (Solomon; Farias; Pimpão, 2012).
Em razão de seu caráter crônico e do impacto sobre a qualidade de vida dos animais afetados, o tratamento da dermatite atópica geralmente requer manejo prolongado. Entre as possibilidades terapêuticas estão suplementos contendo ácidos graxos essenciais, anti-histamínicos, glicocorticoides tópicos e sistêmicos e imunomoduladores (Stehle et al., 2010).
Outra dermatopatia de origem imunológica é a dermatite alérgica à picada de ectoparasitas (DAPE), caracterizada por uma manifestação cutânea de hipersensibilidade (Seglin; Queiroz, 2022). Nessa condição, ocorre ativação do sistema imunológico, predominantemente por meio de uma reação de hipersensibilidade do tipo I, mediada por anticorpos IgE, mastócitos e basófilos (Cruvinel et al., 2010).
Cães e gatos acometidos podem apresentar prurido intenso, alopecia, crostas, dermatite esfoliativa, eritema, escoriações e seborreia (Vasconcelos et al., 2017). O diagnóstico é realizado por meio da associação entre o histórico da doença, os dados obtidos na anamnese, o exame físico e a avaliação da resposta à terapia ectoparasiticida (Noli; Matricoti; Schievano, 2019).
O tratamento da DAPE tem como base o controle dos ectoparasitas, podendo envolver fármacos com princípios ativos como fluralaner, permetrina e/ou selamectina. Também podem ser empregados shampoos à base de clorexidina ou aloe vera, associados a glicocorticoides sistêmicos para auxiliar no controle do prurido (Ranjan; Young; Sun, 2018). Além da terapia direcionada ao animal, é fundamental estabelecer medidas de manejo e profilaxia, incluindo o uso de coleiras inseticidas e a eliminação dos ectoparasitas presentes no ambiente por meio de medidas de desinfecção (Mencalha, 2019).
3.8. Diagnóstico
A diversidade etiológica e a semelhança entre as manifestações clínicas de diferentes dermatopatias tornam o diagnóstico um dos principais desafios na abordagem desses pacientes. Na prática clínica, muitas enfermidades dermatológicas são diagnosticadas predominantemente com base nos dados clínicos ou por meio de abordagens terapêuticas, o que pode prolongar o período necessário para a obtenção de um diagnóstico definitivo e aumentar os custos relacionados ao tratamento para os tutores.
As falhas no processo diagnóstico podem resultar na utilização de medicamentos inadequados, com possibilidade de agravamento do quadro clínico. Além disso, em animais destinados à reprodução, doenças não identificadas podem ser transmitidas à progênie. Da mesma forma, erros diagnósticos envolvendo doenças zoonóticas podem favorecer a transmissão entre animais e seres humanos quando essas enfermidades são equivocadamente interpretadas como alergias (Madureira, 2017).
Outro fator que pode dificultar a realização de exames laboratoriais na medicina veterinária é a menor demanda por esses procedimentos em comparação à medicina humana, o que contribui para custos mais elevados, podendo chegar a valores até três vezes superiores aos observados na área da saúde humana (Guardabassi et al., 2017).
Apesar dessas limitações, as alterações cutâneas apresentam a vantagem de serem facilmente acessíveis à coleta de amostras para diferentes exames laboratoriais. Amostras de pelos e pele podem fornecer informações importantes para confirmar ou excluir determinadas suspeitas clínicas. Dessa forma, a escolha dos exames deve ser realizada de maneira criteriosa, considerando os achados clínicos e os diagnósticos diferenciais previamente estabelecidos (Campana, 2010).
O diagnóstico das dermatopatias deve, portanto, considerar o histórico clínico, o exame dermatológico, os dados epidemiológicos e os resultados dos exames complementares. Entre os métodos disponíveis encontram-se exames micológicos, bacteriológicos e parasitológicos da pele, citopatológicos, histopatológicos, tricogramas, dosagens hormonais, testes bioquímicos, hemograma, imunohistoquímica e técnicas moleculares (Vasconcelos et al., 2020). A utilização desses métodos de forma direcionada permite ampliar a investigação das diferentes causas de alterações cutâneas e auxiliar na definição da conduta terapêutica.
3.9. Tratamento
A diversidade de causas envolvidas nas dermatopatias também determina a necessidade de individualização da abordagem terapêutica. O manejo dessas afecções requer diagnóstico criterioso e seleção adequada dos agentes terapêuticos, considerando a etiologia da doença, a espécie animal, a faixa etária, o estado geral de saúde e a gravidade das lesões (Rodrigues, 2022).
A escolha do agente dermatológico deve ser realizada de maneira individualizada, considerando sua segurança e eficácia, além da via de administração, da dosagem e da duração recomendada do tratamento (Alcantara; Salvarani; João, 2022). Esses fatores são relevantes para que a terapia seja adequada às características específicas de cada paciente e da enfermidade apresentada.
A ocorrência de efeitos adversos está relacionada à classe de potência dos fármacos utilizados e ao tempo de tratamento. Nesse contexto, a adoção de uma abordagem terapêutica proativa pode contribuir para minimizar o risco de exacerbações e prolongar os períodos de remissão. O acompanhamento do paciente durante o tratamento também é fundamental, permitindo a identificação de possíveis reações adversas, como irritação local, alergias, distúrbios gastrointestinais e hepatotoxicidade, entre outras (Neres et al., 2025).
O tratamento sistêmico das condições dermatológicas pode ser realizado por meio da administração de fármacos por vias oral e injetável. Entre as principais classes farmacológicas utilizadas em cães e gatos estão os antimicrobianos, anti-histamínicos, anti-inflamatórios, antifúngicos e antiparasitários (Alcantara; Salvarani; João, 2022; Rodrigues, 2022).
De modo geral, a obtenção de um diagnóstico preciso permite direcionar de maneira mais adequada o tratamento das patologias dermatológicas. Entretanto, a escolha do fármaco deve considerar a dermatopatia específica apresentada pelo animal, de modo que a terapia empregada seja compatível com a causa e com as características do quadro clínico, favorecendo resultados terapêuticos mais satisfatórios (Neres et al., 2025).
4. CONCLUSÃO
As dermatopatias em cães e gatos apresentam elevada relevância na medicina veterinária devido à diversidade de agentes etiológicos, fatores predisponentes e manifestações clínicas que podem estar envolvidos em seu desenvolvimento. A revisão evidenciou a ocorrência de enfermidades de origem bacteriana, fúngica, parasitária, endócrina e imunológica, demonstrando a complexidade das afecções dermatológicas e a necessidade de considerar suas diferentes causas durante a avaliação clínica.
Os aspectos epidemiológicos e clínicos apresentados reforçam a importância do conhecimento das características de cada enfermidade, enquanto a utilização de métodos diagnósticos complementares contribui para a identificação ou exclusão de diferentes diagnósticos diferenciais. Nesse contexto, a realização de uma investigação criteriosa, associando histórico, exame dermatológico, dados epidemiológicos e exames complementares, mostra-se fundamental para o direcionamento adequado da conduta clínica.
Quanto ao tratamento, a literatura evidencia a necessidade de individualização da terapia de acordo com a etiologia, a espécie, as características do paciente e a gravidade da enfermidade. Dessa forma, o conhecimento integrado dos aspectos etiológicos, epidemiológicos, diagnósticos e terapêuticos das dermatopatias constitui importante ferramenta para o manejo adequado dessas afecções e para a promoção da saúde e do bem-estar de cães e gatos.
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1 Graduada em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário Vale do Salgado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Graduada em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário Vale do Salgado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Graduando em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário Vale do Salgado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
4 Graduado em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário Vale do Salgado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
5 Graduado em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário Vale do Salgado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
6 Graduanda em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário Vale do Salgado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
7 Graduada em Medicina Veterinária pela Universidade Federal Rural da Amazônia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
8 Graduanda em Medicina Veterinária pelo Centro Universitário Vale do Salgado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
9 Orientador: Doutor em Ciência e Saúde Animal pela Universidade Federal de Campina Grande. Docente do Centro Universitário Vale do Salgado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail