DEMÊNCIAS E ENVELHECIMENTO: ESTRATÉGIAS DE DIAGNÓSTICO PRECOCE NA ATENÇÃO À SAÚDE MENTAL DO IDOSO

DEMENTIA AND AGING: STRATEGIES FOR EARLY DIAGNOSIS IN MENTAL HEALTH CARE FOR THE ELDERLY

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781154488

RESUMO
O diagnóstico precoce das demências constitui uma estratégia fundamental para a promoção da saúde mental da pessoa idosa, permitindo intervenções oportunas capazes de retardar a progressão do comprometimento cognitivo e funcional. Nesse contexto, o presente estudo teve como objetivo discutir as principais estratégias de diagnóstico precoce das demências na atenção à saúde mental do idoso, com ênfase na utilização de instrumentos cognitivos e funcionais validados. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de natureza qualitativa e descritiva, desenvolvida por meio da análise de artigos científicos, diretrizes clínicas e documentos institucionais publicados entre 2014 e 2025, consultados nas bases SciELO, Biblioteca Virtual em Saúde, PubMed/MEDLINE e Google Scholar. Os resultados evidenciaram que o Mini Exame do Estado Mental, o Montreal Cognitive Assessment, o Mini-Cog, o Teste do Desenho do Relógio e o Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer apresentam relevância para o rastreamento inicial das alterações neurocognitivas em idosos, contribuindo para a identificação precoce de indivíduos com risco de comprometimento cognitivo leve e demências. Verificou-se, entretanto, que nenhum desses instrumentos possui capacidade diagnóstica suficiente quando utilizado isoladamente, sendo recomendada sua aplicação integrada à avaliação clínica, funcional e neuropsicológica. Conclui-se que a combinação de instrumentos validados amplia a acurácia diagnóstica e favorece o planejamento de intervenções terapêuticas e assistenciais mais precoces e efetivas, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida da população idosa.
Palavras-chave: Demência; Diagnóstico precoce; Saúde mental do idoso; Avaliação cognitiva; Rastreamento cognitivo.

ABSTRACT
Early diagnosis of dementia is a fundamental strategy for promoting the mental health of older adults, allowing for timely interventions capable of delaying the progression of cognitive and functional impairment. In this context, the present study aimed to discuss the main strategies for early diagnosis of dementia in the mental health care of older adults, with an emphasis on the use of validated cognitive and functional instruments. This is a bibliographic research, of a qualitative and descriptive nature, developed through the analysis of scientific articles, clinical guidelines and institutional documents published between 2014 and 2025, consulted in the SciELO, Virtual Health Library, PubMed/MEDLINE and Google Scholar databases. The results showed that the Mini-Mental State Examination, the Montreal Cognitive Assessment, the Mini-Cog, the Clock Drawing Test and the Pfeffer Functional Activities Questionnaire are relevant for the initial screening of neurocognitive changes in older adults, contributing to the early identification of individuals at risk of mild cognitive impairment and dementia. However, it was found that none of these instruments has sufficient diagnostic capacity when used in isolation, and their application integrated with clinical, functional, and neuropsychological assessment is recommended. It is concluded that the combination of validated instruments increases diagnostic accuracy and favors the planning of earlier and more effective therapeutic and care interventions, contributing to the improvement of the quality of life of the elderly population.
Keywords: Dementia; Early diagnosis; Mental health of the elderly; Cognitive assessment; Cognitive screening.

1. INTRODUÇÃO

O envelhecimento populacional constitui uma das principais transformações demográficas do século XXI, impondo desafios crescentes aos sistemas de saúde, especialmente no âmbito da saúde mental, onde as demências, caracterizadas no DSM-5 pelo declínio progressivo das funções cognitivas, se destacam por seu impacto na autonomia e na qualidade de vida dos idosos (APA, 2014). Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 57 milhões de pessoas vivem com demência em todo o mundo, sendo que mais de 60% dos casos concentram-se em países de baixa e média renda, com aproximadamente 10 milhões de novos diagnósticos registrados anualmente (OMS, 2025).

No Brasil, aproximadamente 8,5% da população com 60 anos ou mais vive com demência, o que corresponde a cerca de 2,71 milhões de pessoas. As projeções indicam que esse número poderá atingir 5,6 milhões de casos até 2050 (Brasil, 2024). Estudos epidemiológicos discutidos por Arvanitakis et al. (2019), indicam que a Doença de Alzheimer, descrita por Alzheimer (1907) e Katzman et al. (1976), constitui a principal etiologia, sendo responsável por mais da metade dos casos, seguida pelas demências vascular, frontotemporal e com corpos de Lewy. Além disso, evidências neuropatológicas sugerem que as demências frequentemente apresentam etiologia mista, sendo comum a coexistência de alterações características da Doença de Alzheimer e de doença cerebrovascular, fato que contribui para a complexidade clínica e diagnóstica desses transtornos.

Nesse contexto, o diagnóstico precoce é apontado como estratégia fundamental para favorecer intervenções terapêuticas e retardar a progressão funcional da doença, conforme defendem Petersen et al. (2018). Embora, existam divergências na literatura, uma vez que Brayne e Kelly (2019) alertam para possíveis consequências psicossociais negativas da rotulagem precoce, Livingston et al. (2020) reforçam que os benefícios superam os riscos ao possibilitar intervenções sobre fatores modificáveis, como hipertensão arterial, sedentarismo, isolamento social, perda auditiva e depressão, contribuindo potencialmente para a redução da incidência de novos casos de demência.

Embora instrumentos validados, como o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) (Folstein et al., 1975), o Montreal Cognitive Assessment (MoCA) (Nasreddine et al., 2005), o Mini-Cog (Brodaty et al., 2002), o Teste do Desenho do Relógio (Shulman, 2000) e o Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer (Pfeffer et al., 1982) sejam amplamente reconhecidos como ferramentas úteis para o rastreamento cognitivo inicial, sua aplicação ainda é heterogênea nos diferentes níveis de atenção à saúde. Nesse contexto, o presente artigo busca discutir as principais estratégias de diagnóstico precoce das demências na atenção à saúde mental do idoso, com ênfase na utilização de instrumentos de avaliação cognitiva e funcional validados, contribuindo para o aprimoramento das práticas assistenciais e das políticas públicas voltadas ao envelhecimento saudável.

2. METODOLOGIA

A presente investigação caracteriza-se como uma pesquisa bibliográfica, de natureza qualitativa e descritiva, realizada por meio da análise de produções científicas e documentos institucionais relacionados ao diagnóstico precoce das demências na população idosa. De acordo com Gil (2022), a pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, permitindo a análise crítica e a sistematização do conhecimento disponível sobre determinado tema, enquanto Marconi e Lakatos (2021) destacam sua relevância para a construção e atualização do conhecimento científico.

A busca das publicações foi realizada nas bases de dados Scientific Electronic Library Online (SciELO), Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), PubMed/MEDLINE e Google Scholar, além de documentos oficiais da Organização Mundial da Saúde (OMS), do Ministério da Saúde e da Academia Brasileira de Neurologia, utilizando os descritores “demência”, “Doença de Alzheimer”, “diagnóstico precoce”, “idoso”, “saúde mental” e “rastreamento cognitivo”, combinados pelos operadores booleanos AND e OR.

Foram incluídos artigos científicos, diretrizes clínicas e documentos institucionais publicados em português, inglês ou espanhol, com prioridade para produções publicadas entre 2014 e 2025, sendo excluídos estudos duplicados, publicações sem acesso ao texto completo e trabalhos que não abordavam diretamente a temática proposta.

Os dados foram submetidos à leitura exploratória, seletiva, analítica e interpretativa, conforme orientações metodológicas de Gil (2022), e organizados em categorias temáticas para análise.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS

Os achados da pesquisa foram organizados em dimensões de análise estruturadas a partir dos principais instrumentos validados para o rastreamento cognitivo e funcional de idosos, com o objetivo de examinar suas evidências de validade, aplicabilidade e contribuição para o diagnóstico precoce das demências.

3.1. Mini Exame do Estado Mental (MEEM)

O Mini Exame do Estado Mental (MEEM), desenvolvido por Folstein et al. (1975), é um dos instrumentos de rastreamento cognitivo mais utilizados para a avaliação global das funções cognitivas em idosos. O teste possui pontuação máxima de 30 pontos, distribuídos entre orientação temporal (5 pontos), orientação espacial (5 pontos), registro de palavras ou memória imediata (3 pontos), atenção e cálculo (5 pontos), memória de evocação (3 pontos), nomeação de objetos (2 pontos), repetição de frase (1 ponto), execução de comando de três etapas (3 pontos), leitura e execução de comando escrito (1 ponto), escrita espontânea de uma frase (1 ponto) e cópia de um diagrama composto por dois pentágonos intersectados (1 ponto).

Quadro 1: Mini Exame do Estado Mental (MEEM)

Fonte: Brucki et al., 2003.

A interpretação dos resultados considera a escolaridade do indivíduo, sendo frequentemente adotados no Brasil os pontos de corte de 20 pontos para analfabetos, 25 pontos para indivíduos com 1 a 4 anos de estudo, 26,5 pontos para aqueles com 5 a 8 anos, 28 pontos para indivíduos com 9 a 11 anos e 29 pontos para pessoas com mais de 11 anos de escolaridade. Escores abaixo desses valores podem indicar comprometimento cognitivo e a necessidade de investigação clínica complementar.

Estudos recentes corroboram a utilização do MEEM como instrumento eficaz para o rastreamento precoce das demências em idosos. Segundo Sagbay Coronel e Ramírez Coronel (2023), o instrumento apresenta propriedades psicométricas satisfatórias, incluindo adequada confiabilidade e validade para a identificação de déficits cognitivos. De forma semelhante, Kamalzadeh et al. (2024) verificaram que o MEEM mantém desempenho consistente em diferentes contextos clínicos e populacionais, especialmente quando associado a pontos de corte ajustados para escolaridade. Além disso, o relatório internacional de Alzheimer's Disease International (2022) destaca que ferramentas de triagem de fácil aplicação, como o MEEM, são fundamentais para ampliar a detecção precoce de casos de demência, particularmente em sistemas de saúde com recursos limitados.

Outros autores reforçam a relevância clínica do MEEM ao demonstrarem sua ampla aplicabilidade em serviços de atenção primária e especializada. Naole et al. (2025), em estudo comparativo entre instrumentos de rastreamento cognitivo, observaram que o MEEM permanece como uma das ferramentas mais utilizadas mundialmente devido à sua simplicidade, rapidez de aplicação e capacidade de avaliar múltiplos domínios cognitivos. De modo convergente, Luz et al. (2021) ressaltam que a identificação precoce do declínio cognitivo constitui um dos principais desafios da saúde pública relacionada ao envelhecimento, sendo o rastreamento cognitivo sistemático uma estratégia essencial para o encaminhamento oportuno dos pacientes. Nesse contexto, a utilização do MEEM favorece a detecção inicial de alterações cognitivas que podem estar associadas à doença de Alzheimer e outras demências.

Entretanto, a literatura também apresenta limitações importantes relacionadas ao uso isolado do MEEM. Pellicer-Espinosa e Díaz-Orueta (2022) argumentam que fatores como escolaridade, alfabetização e contexto sociocultural podem influenciar significativamente os resultados obtidos, reduzindo a precisão diagnóstica em determinados grupos populacionais. Taherinezhad et al. (2025) acrescentam que novas abordagens tecnológicas e modelos baseados em inteligência artificial vêm sendo investigados para complementar os instrumentos tradicionais de rastreamento cognitivo.

3.2. Montreal Cognitive Assessment (MoCa)

O Montreal Cognitive Assessment (MoCA), desenvolvido por Nasreddine et al. (2005), é um instrumento de rastreamento cognitivo criado para detectar comprometimento cognitivo leve e alterações cognitivas precoces, apresentando maior sensibilidade que o Mini Exame do Estado Mental (MEEM) para identificar déficits sutis. O teste possui pontuação máxima de 30 pontos e avalia múltiplos domínios cognitivos, distribuídos entre habilidades visuoespaciais e funções executivas (5 pontos), nomeação (3 pontos), atenção (6 pontos), linguagem (3 pontos), abstração (2 pontos), memória de evocação tardia (5 pontos) e orientação temporal e espacial (6 pontos).

Quadro 2: Montreal Cognitive Assessment (MoCA)

Fonte: Nasreddine et al., 2005.

A interpretação dos resultados do MoCA baseia-se em uma pontuação máxima de 30 pontos, sendo tradicionalmente adotado o ponto de corte de 26 pontos para distinguir indivíduos com desempenho cognitivo preservado daqueles com possível comprometimento cognitivo. Escores iguais ou superiores a 26 pontos são considerados compatíveis com cognição normal, enquanto resultados entre 18 e 25 pontos podem sugerir comprometimento cognitivo leve, frequentemente associado às fases iniciais das síndromes demenciais. Pontuações entre 10 e 17 pontos indicam comprometimento cognitivo moderado, caracterizado por déficits mais evidentes em memória, atenção, linguagem e funções executivas, ao passo que escores inferiores a 10 pontos são sugestivos de comprometimento cognitivo grave, com importante repercussão sobre a autonomia e a funcionalidade do indivíduo.

Considerando a influência da escolaridade sobre o desempenho cognitivo, recomenda-se o acréscimo de um ponto ao escore final para indivíduos com até 12 anos de estudo formal, procedimento que contribui para reduzir vieses educacionais e aumentar a sensibilidade do instrumento na identificação de alterações cognitivas precoces (Nasreddine et al., 2005).

A literatura científica recente apresenta evidências robustas favoráveis à utilização do Montreal Cognitive Assessment (MoCA) para o rastreamento precoce das demências e do comprometimento cognitivo leve (CCL) em idosos. Em uma revisão sistemática e metanálise, Islam et al. (2023) verificaram que o instrumento apresenta sensibilidade superior a 80% para a detecção do CCL, enquanto Sun et al. (2023) destacaram sua elevada capacidade discriminativa para identificar alterações cognitivas precoces. De forma convergente, Lam et al. (2023) observaram que o MoCA alcançou sensibilidade de 89,3% e acurácia de 86,4% na identificação de comprometimento cognitivo leve e demência, evidenciando sua superioridade em relação a outros instrumentos de triagem.

A validade e a aplicabilidade do MoCA também foram confirmadas em diferentes contextos populacionais. Carvalho et al. (2024), ao validarem a versão audiovisual do instrumento para idosos brasileiros, identificaram adequada confiabilidade e desempenho diagnóstico, ampliando sua utilização em indivíduos com distintos níveis de escolaridade. Da mesma forma, Wang et al. (2023), utilizando dados do Alzheimer’s Disease Neuroimaging Initiative (ADNI), demonstraram que o MoCA possui elevada capacidade para distinguir indivíduos cognitivamente saudáveis daqueles com comprometimento cognitivo leve e doença de Alzheimer, reforçando sua relevância para o rastreamento e a identificação precoce de alterações neurocognitivas.

Entretanto, embora apresente elevada sensibilidade, o uso isolado do MoCA é questionado por parte da literatura. A revisão sistemática da Cochrane conduzida por Davis et al. (2013) concluiu que o instrumento possui boa capacidade para detectar demência utilizando o ponto de corte de 26 pontos, porém apresenta especificidade relativamente baixa, podendo gerar falsos positivos. Os autores observaram que, em alguns estudos, mais de 40% dos indivíduos sem demência foram classificados incorretamente como casos suspeitos, recomendando que os resultados do MoCA sejam interpretados em conjunto com avaliações clínicas, funcionais e neuropsicológicas para aumentar a precisão diagnóstica.

3.3. Mini-cog e o Teste do Desenho do Relógio

O Mini-Cog (Brodaty et al., 2002) e o Teste do Desenho do Relógio (TDR) (Shulman, 2000) constituem instrumentos breves amplamente empregados no rastreamento de déficits cognitivos em idosos. O Mini-Cog combina a evocação de três palavras com a execução do TDR, permitindo avaliar simultaneamente memória episódica, funções executivas, atenção, planejamento visuoespacial e capacidade de organização. Inicialmente, o indivíduo recebe três palavras para memorizar e, após realizar o desenho de um relógio marcando um horário específico, deve recordá-las.

Quadro 3: Mini-Cog

Fonte: Brodaty et al., 2002.

A interpretação do Mini-Cog considera o número de palavras evocadas e o desempenho no TDR: a recordação de três palavras (3/3) indica resultado negativo para déficit cognitivo; a recordação de uma ou duas palavras (1–2/3) associada a TDR normal também sugere ausência de comprometimento cognitivo; entretanto, a recordação de uma ou duas palavras (1–2/3) acompanhada de TDR anormal é considerada positiva para déficit cognitivo; e a recordação de nenhuma palavra (0/3) indica comprometimento cognitivo independentemente do resultado do desenho.

Já o Teste do Desenho do Relógio, quando utilizado isoladamente, pode ser avaliado segundo a escala proposta por Shulman (2000), que varia de 0 a 5 pontos, sendo 5 pontos atribuídos a um relógio perfeitamente desenhado; 4 pontos para pequenos erros visuoespaciais; 3 pontos para distribuição incorreta dos números ou erros moderados na organização; 2 pontos para desorganização acentuada com representação inadequada do relógio; 1 ponto para tentativa mínima de desenho; e 0 ponto para incapacidade de produzir uma representação reconhecível.

Figura 1: Teste do Desenho do Relógio (TDR)

Fonte: Adaptado de Shulman, 2000.

Abayomi et al. (2024), em uma revisão sistemática e metanálise envolvendo 14 estudos e mais de 4.700 participantes, demonstraram que o Mini-Cog apresenta sensibilidade de 76% e especificidade de 83% para a detecção de demência, confirmando sua capacidade discriminatória em diferentes cenários assistenciais. Os autores destacam que a associação entre a evocação de palavras e o TDR permite avaliar simultaneamente memória episódica, funções executivas, atenção e habilidades visuoespaciais, domínios frequentemente comprometidos nas fases iniciais das síndromes demenciais. De forma complementar, Pellicer-Espinosa e Díaz-Orueta (2022), em uma revisão sistemática envolvendo 61 estudos, ressaltaram a importância de instrumentos breves de rastreamento cognitivo para populações com baixa escolaridade, contexto em que ferramentas de rápida aplicação apresentam grande relevância para a identificação precoce de déficits cognitivos.

Kehl-Floberg et al. (2023), ao analisarem 310 idosos residentes na comunidade, reforçam a relevância do TDR ao destacarem que o teste permanece amplamente utilizado para o rastreamento de demência e comprometimento cognitivo leve. Os autores ressaltam que o TDR possibilita a avaliação integrada de habilidades visuoespaciais, planejamento, organização e funções executivas, aspectos frequentemente afetados nos estágios iniciais das doenças neurodegenerativas. Nesse sentido, a combinação do TDR com testes de evocação de memória, como ocorre no Mini-Cog, amplia a capacidade de identificação de indivíduos que necessitam de avaliação neuropsicológica mais aprofundada.

Entretanto, Kehl-Floberg et al. (2023) apresentam ressalvas quanto ao uso isolado desses instrumentos ao observarem que os sistemas convencionais de pontuação do TDR apresentaram confiabilidade e validade variando de baixa a moderada para a detecção de comprometimentos cognitivos sutis em idosos da comunidade. De maneira semelhante, Pellicer-Espinosa e Díaz-Orueta (2022) alertam que características educacionais e socioculturais podem influenciar o desempenho em tarefas cognitivas que envolvem desenho e habilidades visuoconstrutivas.

3.4. Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer (Pfeffer Et Al., 1982)

O Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer (Pfeffer et al., 1982) é um instrumento amplamente utilizado para avaliar a capacidade funcional de idosos na realização das atividades instrumentais da vida diária, permitindo mensurar o impacto das alterações cognitivas sobre a autonomia e a independência do indivíduo. O instrumento é composto por 10 questões, respondidas por um familiar ou cuidador, que investigam habilidades como administrar finanças, utilizar medicamentos corretamente, realizar compras, preparar refeições, acompanhar acontecimentos cotidianos, lembrar compromissos e permanecer sozinho em segurança. Cada item recebe pontuação de 0 a 3 pontos, sendo 0 = realiza a atividade normalmente, 1 = realiza com dificuldade, 2 = necessita de auxílio e 3 = é incapaz de realizar a atividade. Para atividades nunca desempenhadas pelo idoso, atribui-se 0 ponto quando ele seria capaz de realizá-las e 1 ponto quando apresentaria dificuldade para executá-las atualmente.

Quadro 4: Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer

Fonte: Pfeffer et al., 1982.

O escore total varia de 0 a 30 pontos, sendo que pontuações mais baixas indicam maior independência funcional e pontuações mais elevadas refletem maior grau de dependência. Na interpretação dos resultados, escores entre 0 e 4 pontos indicam preservação da independência funcional ou comprometimento mínimo das atividades instrumentais da vida diária. Pontuações iguais ou superiores a 5 pontos sugerem declínio funcional significativo, compatível com perda de autonomia em tarefas complexas do cotidiano e frequentemente associado ao comprometimento cognitivo. À medida que o escore aumenta, observa-se maior grau de dependência funcional, refletindo dificuldades progressivas no gerenciamento de atividades como administração financeira, uso de medicamentos, realização de compras e organização da rotina diária, características frequentemente observadas nos estágios moderados e avançados das síndromes demenciais.

González et al. (2021) demonstraram que o instrumento apresenta propriedades psicométricas robustas, com adequada confiabilidade e validade para mensurar dificuldades nas atividades instrumentais da vida diária. De forma semelhante, Assis et al. (2014) verificaram forte associação entre os escores do Pfeffer e medidas cognitivas e funcionais, evidenciando sua capacidade de discriminar indivíduos com e sem comprometimento cognitivo. Essas evidências reforçam a relevância do instrumento para a identificação precoce de perdas funcionais frequentemente associadas às fases iniciais das demências.

Divers et al. (2023) destacam a importância da avaliação funcional como componente essencial do diagnóstico precoce das síndromes demenciais, ao acompanharem mais de 2.600 indivíduos com comprometimento cognitivo leve, observaram que alterações funcionais mensuradas pelo FAQ estiveram associadas à progressão clínica e à conversão para demência. De forma complementar, Yang et al. (2023) demonstraram que o declínio progressivo das atividades instrumentais da vida diária constitui importante fator preditor para comprometimento cognitivo leve em idosos. Esses achados corroboram a utilização do Questionário de Pfeffer como ferramenta complementar na detecção precoce de alterações cognitivas com repercussão funcional significativa.

Entretanto, González et al. (2021) também apontam limitações relacionadas ao seu uso isolado ao argumentarem que a avaliação funcional deve ser interpretada em conjunto com medidas cognitivas e clínicas mais abrangentes, uma vez que fatores como condições físicas, sintomas depressivos e características socioculturais podem influenciar o desempenho funcional. De maneira semelhante, Assis et al. (2014) observaram que os escores do instrumento podem sofrer influência de variáveis não cognitivas, enquanto Divers et al. (2023) destacam que alterações funcionais representam apenas um dos componentes do processo diagnóstico.

4. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se que os objetivos propostos neste estudo foram alcançados ao identificar, analisar e discutir as principais estratégias de diagnóstico precoce das demências na atenção à saúde mental da pessoa idosa, com ênfase na utilização de instrumentos cognitivos e funcionais validados. A revisão da literatura evidenciou que o Miniexame do Estado Mental (MEEM), o Montreal Cognitive Assessment (MoCA), o Mini-Cog, o Teste do Desenho do Relógio (TDR) e o Questionário de Atividades Funcionais de Pfeffer constituem ferramentas relevantes para o rastreamento inicial das alterações neurocognitivas, apresentando diferentes níveis de sensibilidade, especificidade e aplicabilidade conforme o contexto clínico e as características da população avaliada. Os resultados demonstraram que a utilização combinada desses instrumentos favorece uma avaliação mais abrangente dos domínios cognitivos e funcionais, aumentando a capacidade de identificação precoce de indivíduos em risco para comprometimento cognitivo leve e demências.

Verificou-se ainda que nenhum instrumento, quando utilizado isoladamente, apresenta capacidade diagnóstica suficiente para confirmar a presença de demência, sendo necessária sua integração com avaliação clínica, funcional e neuropsicológica especializada. Nesse sentido, a literatura analisada reforça a importância de uma abordagem multidimensional que considere aspectos cognitivos, funcionais, educacionais, socioculturais e clínicos do idoso, contribuindo para maior acurácia diagnóstica e para o planejamento oportuno de intervenções terapêuticas, assistenciais e de suporte familiar.

Como limitações deste estudo, destaca-se a utilização de dados provenientes exclusivamente da literatura científica disponível, sem a realização de investigação de campo ou aplicação prática dos instrumentos analisados. Além disso, observou-se heterogeneidade metodológica entre os estudos revisados, especialmente quanto aos critérios diagnósticos, características amostrais e pontos de corte utilizados. Recomenda-se que pesquisas futuras desenvolvam estudos longitudinais e multicêntricos que avaliem a efetividade da aplicação combinada desses instrumentos em diferentes contextos assistenciais, bem como investiguem a incorporação de tecnologias digitais, inteligência artificial e biomarcadores na triagem precoce das demências. Dessa forma, espera-se contribuir para o aprimoramento das estratégias de detecção precoce e para a promoção de uma atenção integral, qualificada e baseada em evidências à saúde mental da população idosa.

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11 Docente do Curso Superior de Medicina da União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental (UNNESA) Faculdade Metropolitana-RO. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: http://lattes.cnpq.br/3825754948604128.

12 Interno do Curso Superior de Medicina da União de Ensino Superior da Amazônia Ocidental (UNNESA) Faculdade Metropolitana-RO. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: http://lattes.cnpq.br/8754245231535185.