CONTEXTO DA REDE DE ATENÇÃO À SAÚDE E CENÁRIO EPIDEMIOLÓGICO DOS DISTÚRBIOS DE VOZ RELACIONADOS AO TRABALHO EM MINAS GERAIS, 2019 A 2025

CONTEXT OF THE HEALTHCARE SYSTEM AND EPIDEMIOLOGICAL LANDSCAPE OF WORK-RELATED VOICE DISORDERS IN MINAS GERAIS, 2019–2025

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/791353951

RESUMO
Introdução: Os Distúrbios de Voz tiveram sua relação com o trabalho reconhecida e estabelecida no âmbito das políticas públicas de saúde recentemente, porém a publicação das normativas não tem sido suficiente para a efetivação das ações de vigilância. Objetivo: Apresentar o cenário epidemiológico evidenciado pelas notificações dos Distúrbios de Voz Relacionado ao Trabalho (DVRT), no período de 2019 a 2025, e a distribuição de profissionais especialistas, imprescindíveis ao manejo e diagnóstico dos casos, na Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora do estado de Minas Gerais. Método: Trata-se de um estudo transversal, com dados secundários, com origem no Sinan e e-SUS-Sinan, para análise de notificações de Distúrbios de Voz Relacionado ao Trabalho, e dados com origem no Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil (CNES) e Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS) para análise da frequência de profissionais e procedimentos em saúde do trabalhador registrados. Resultados: Foram notificados 215 casos no período analisado, sendo 61,4% no município de Belo Horizonte. Dentre as unidades notificadoras destacam-se Hospitais, Cerest e Unidades Básicas de Saúde. Verificou-se uma ampla variação na distribuição dos otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos nas macrorregiões de saúde de Minas Gerais, com concentração na macrorregião Centro. Conclusão: Apesar dos evidentes avanços, o número de notificações dos DVRT permanece aquém do esperado. O registro é crucial para que se conheça a real extensão do problema na população trabalhadora, norteando a criação de políticas públicas destinadas à prevenção de novos casos e reabilitação daqueles já acometidos.
Palavras-chave: Distúrbios da voz; Vigilância em Saúde do Trabalhador; Epidemiologia; Doenças profissionais.

ABSTRACT
Introduction: The link between voice disorders and work has recently been recognized and established within the framework of public health policies; however, the publication of these regulations has not been sufficient to ensure the implementation of surveillance measures. Objective: To present the epidemiological landscape as evidenced by reports of Work-Related Voice Disorders (DVRT) from 2019 to 2025, and the distribution of specialist professionals—who are essential for the management and diagnosis of these cases—within the National Network for Comprehensive Occupational Health Care in the state of Minas Gerais. Method: This is a cross-sectional study using secondary data from SINAN and e-SUS-SINAN to analyze reports of Work-Related Voice Disorders, and data from the National Registry of Health Facilities in Brazil (CNES) and the SUS Outpatient Information System (SIA/SUS) to analyze the frequency of registered occupational health professionals and procedures. Results: A total of 215 cases were reported during the analyzed period, with 61.4% occurring in the municipality of Belo Horizonte. Among the reporting facilities, hospitals, Cerest centers, and primary care clinics stood out. A wide variation was observed in the distribution of otolaryngologists and speech-language pathologists across the health macroregions of Minas Gerais, with a concentration in the Central macroregion. Conclusion: Despite clear progress, the number of reported cases of DVRT remains lower than expected. Reporting is crucial for understanding the true extent of the problem among the working population, guiding the development of public policies aimed at preventing new cases and rehabilitating those already affected.
Keywords: Voice Disorders; Surveillance of the Workers Health; Epidemiology; Occupational Diseases.

1. INTRODUÇÃO

São considerados Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho (DVRT) quaisquer formas de desvio vocal relacionados à atividade profissional que diminuam, comprometam ou impeçam a comunicação ou a atuação do trabalhado (Brasil, 2018). Este conceito abrange tanto os desvios vocais que têm alterações orgânicas da laringe, órgão com importantes atribuições na fala e respiração, quanto aqueles que não as possuam.

O trabalho possui notório impacto sobre os processos de saúde e adoecimento. Ao longo dos séculos, diferentes afecções tiveram sua relação com o trabalho reconhecida. No entanto, algumas doenças, como os Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho, tiveram sua relação com o trabalho reconhecida apenas nas últimas décadas. No Brasil, passou-se a debater o adoecimento da voz com as condições a que os profissionais estavam submetidos somente ao final da década de 1990 (Masson et al., 2019).

A partir destas discussões, houve gradual avanço no reconhecimento do caráter ocupacional de alterações vocais dos trabalhadores que faziam uso profissional da voz, em especial nos últimos dez anos (Masson et al., 2024). Neste processo destacam-se alguns eventos de interesse que têm contribuído para a institucionalização das práticas de investigação epidemiológica, manejo clínico e execução de ações protetivas e preventivas no âmbito dos ambientes e processos de trabalho. A publicação do Protocolo de Complexidade Diferenciada de Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho pelo Ministério da Saúde em 2018 (Brasil, 2018); a Resolução SES/MG Nº 6.532, de 05 de dezembro de 2018, que acrescentou os Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho à Lista de Doenças de Notificação Compulsória no estado de Minas Gerais (Minas Gerais, 2018); a publicação da Nota Técnica nº 2/SES/SUBVPS-SVEAST-DSAT/2018, que apresenta as orientações relacionadas à notificação e à investigação dos casos de Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho; a Portaria GM/MS Nº 1.999, de 27 de novembro de 2023, que atualizou a lista de doenças relacionadas ao trabalho, incluindo os distúrbios da voz (Brasil, 2023); a Portaria GM/MS Nº 5.201, de 15 de agosto de 2024, que incluiu os Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho como doença de notificação compulsória a nível nacional (Brasil, 2024); e a Nota Técnica Nº 21/2025-CGSAT/DVSAT/SVSA/MS, que orienta a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (Renastt) sobre a vigilância dos Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho (Brasil, 2025a).

Compreende-se que a publicação das normativas não garantem sua concretização no cotidiano do exercício profissional e das ações de vigilância, com ações efetivas e sustentadas de notificação, estabelecimento da vinculação do adoecimento com o trabalho e da implementação das linhas/redes de cuidado. Embora iniciativas locais estejam em vigor, o reconhecimento em todo o território faz-se premente. Observa-se que os cuidados com os Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho podem ser planejados considerando-se quatro vertentes: 1) divulgação do Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho entre os profissionais da saúde e da voz; 2) implantação da rede/linha de cuidado; 3) notificação dos Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho; e 4) capacitação para o manejo do Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho por parte dos profissionais da saúde (Masson; Ferreira; Maeno; 2024).

Esse estudo tem como objetivo apresentar o cenário epidemiológico evidenciado pelas notificações dos Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho registradas no período de 2019 a 2025 e a distribuição de profissionais especialistas, imprescindíveis ao manejo e diagnóstico dos casos, na Renastt do estado de Minas Gerais.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Os DVRTs são considerados multicausais, isto é, as alterações vocais podem ser atribuídas a fatores diversos (Brasil, 2018; Martins et.al.,2024). Para caracterização desse adoecimento a classificação de Schilling, método utilizado para categorização das doenças segundo sua relação com o trabalho, é uma ferramenta importante no âmbito teórico e prático.

As doenças do grupo I de Schilling têm o trabalho como causa necessária - ou seja, são patologias desencadeadas exclusivamente por determinado exercício profissional. As doenças do grupo II são aquelas em que o trabalho é um fator contributivo, mas não necessário; ou seja, o trabalho é tido como um dos fatores de risco para o desenvolvimento da doença, mas não o é exclusivamente. Por fim, há as doenças classificadas no grupo III, em que o trabalho atua como como provocador de um distúrbio latente ou como agravador de uma doença já estabelecida (Brasil, 2001). Os DVRTs podem ser classificados como doenças nas categorias Schilling II ou III. Portanto, é importante salientar que outros fatores ou comorbidades podem contribuir para o desenvolvimento das alterações vocais, mas a despeito da existência deles, o estabelecimento da relação com o trabalho não pode ser descartado (Brasil, 2018; Masson; Ferreira; Maeno; 2024).

A Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT), elenca como fatores de risco para o desenvolvimento dos DVRT, nela agrupados sob o CID R49 (Distúrbios da Voz), o trabalho com sobrecarga vocal associada e/ou agravada por fatores relacionados ao ambiente; dentre eles, destacam-se: pressão sonora acima dos níveis de conforto, acústica desfavorável, mobiliário e recursos materiais inadequados ou insuficientes, desconforto e choque térmico, má qualidade do ar, ventilação inadequada do ambiente, baixa umidade, exposição a produtos químicos irritativos de vias aéreas superiores (solventes, vapores metálicos, gases asfixiantes) e presença de poeira ou fumaça no local de trabalho. A LDRT também especifica fatores psicossociais relacionados à característica e à organização do trabalho; dentre eles, apontam-se jornada de trabalho prolongada, sobrecarga, acúmulo de atividades ou de funções, ausência de pausas e de locais de descanso durante a jornada, falta de autonomia, ritmo de trabalho acelerado para o cumprimento de metas, trabalho sob forte pressão, insatisfação com o trabalho ou com a remuneração, postura e equipamentos inadequados, dificuldade de acesso à hidratação e aos sanitários (Brasil, 2023).

No entanto, é importante considerar que também existem fatores de risco de natureza não ocupacional identificados pela literatura, notadamente: idade, sexo feminino, tabagismo, atividades extraprofissionais com alta demanda vocal (lazer ou dupla jornada), alergias respiratórias, estresse, doenças de vias aéreas superiores, influências hormonais, medicações, etilismo, falta de hidratação, dentre outros (Ferreira et.al., 2024; Brasil, 2018).

As categorias profissionais mais estudadas quanto ao desenvolvimento de Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho são os professores (Giannini; Latorre; Ferreira, 2012) e os teleoperadores (Santos et.al., 2016). No entanto, outras categorias que fazem uso profissional da voz merecem destaque, como cantores, atores, secretárias, advogados, profissionais de saúde, vendedores, agentes comunitários, radialistas, jornalistas, dentre outros (Santos; Almeida; Chagas, 2024; Martins, et.al.,2024). Há ainda os profissionais que, apesar de não fazerem uso intensivo da voz, estão sujeitos a outros tipos de exposições nocivas à qualidade vocal. Dentre tais fatores, estão a exposição a fumaça, produtos químicos, vibração e desconforto térmico. Quanto aos profissionais, destacam-se os motoristas e cobradores de ônibus, churrasqueiros, auxiliares de serviços gerais e os trabalhadores de frigoríficos (Masson; Ferreira; Maeno; 2024).

Para o diagnóstico dos Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho, devem ser levados em consideração aspectos diversos. Dentre eles, estão a história clínica, história laboral e evidências epidemiológicas, além da avaliação fonoaudiológica da voz e a avaliação médica com visibilização da região laringofaríngea (realizada preferencialmente por um otorrinolaringologista) e se necessário, deve ser realizada inspeção in loco do posto/atividade de trabalho para investigação da relação com o trabalho (Brasil, 2018). Portanto, destaca-se a importância do caráter multiprofissional da equipe que atende ao trabalhador com queixas vocais.

No âmbito das ações de vigilância epidemiológica, é importante destacar que o DVRT é um agravo de notificação compulsória, conforme a Portaria nacional (Brasil, 2024). Assim, é obrigatório aos profissionais de saúde ou responsáveis pelos estabelecimentos de saúde registrar a notificação da doença a partir da suspeição que o distúrbio de voz esteja relacionado ao trabalho. Atualmente, a notificação é feita no e-SUS Sinan, novo Sistema de Informação de Agravos de Notificação, através do preenchimento da Ficha de Notificação/Conclusão (Brasil, 2025).

3. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal, retrospectivo, descritivo, de dados de base secundária.

Foram coletados dados do Sinan Net e do e-SUS-Sinan para analisar o número de notificações de Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho por município, por macrorregião de saúde e por estabelecimento notificador.

A coleta de dados para análise das notificações foi realizada no Sinan no período de 2019 a 2025, uma vez que a Resolução SES/MG Nº 6.532/2018, estabelecia que em Minas Gerais os Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho seriam notificados neste sistema de informação (Minas Gerais, 2018). Também foram coletados dados do e-SUS-Sinan no ano de 2025, visto que a Nota Técnica Nº 21/2025-CGSAT/DVSAT/SVSA/MS passou a orientar a notificação deste agravo no e-SUS-Sinan (BRASIL, 2025a). As notificações foram analisadas por município e macrorregião de saúde de notificação e tipo de estabelecimento notificador.

A coleta de dados para análise da distribuição dos profissionais foi realizada a partir do Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil (CNES). Dados extraídos do Tabnet, referentes aos profissionais cadastrados no CNES no período de dezembro de 2025, segundo tipo de estabelecimento e ocupação (médico otorrinolaringologista e fonoaudiólogo), classificados quanto ao critério de estabelecimento de saúde prestador ou não prestador de atendimento ao SUS.

A coleta de dados para análise dos procedimentos em saúde do trabalhador foi realizada a partir do Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS). Foram extraídas informações dos procedimentos aprovados realizados no estado de Minas Gerais no intervalo de janeiro de 2008 a dezembro de 2025, filtrados a partir do código CBO (Classificação Brasileira de Ocupações) das categorias profissionais fonoaudiólogo e médico otorrinolaringologista. Foram selecionados os procedimentos cadastrados vinculados à saúde de trabalhador, tanto pertencentes ao sub-grupo de vigilância em saúde quanto de consultas, atendimentos e acompanhamentos, conforme estabelecido na Portaria SAES/MS nº 1.187/2023.

4. RESULTADOS

Ao se avaliar a distribuição geográfica das notificações no período de sete anos da série histórica, observou-se que 24 municípios notificaram Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho. Isto representa 2,8% dos municípios mineiros. Dentre os notificadores, 15 notificaram apenas um caso no período avaliado. Houve um total de 215 notificações entre 2019 e 2025, sendo que 61,4% foram reportados pelo município de Belo Horizonte.

Os municípios notificadores encontram-se distribuídos em 14 das 16 macrorregiões de saúde de Minas Gerais. Com a exceção das macrorregiões Centro, Leste, Nordeste, Norte e Sudeste, houve apenas um município em cada macrorregião de saúde que registrou notificações. A macrorregião Centro foi responsável por 75,4% das notificações do período, a macrorregião Leste por 12,6% e as demais macrorregiões que notificaram casos, por valores iguais ou inferiores a 3,3% das notificações (Figura 1).

Figura 1. Número de notificações de Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho por macrorregião de saúde de notificação. Minas Gerais, 2019 a 2025.

Fonte: Dados de 2019 a 2025 – SINAN / sistema de tabulação de dados online TABNET. Dados extraídos em 22 de setembro de 2026.
Dados de 2025 – e-SUS-Sinan. Dados extraídos em 21 de setembro de 2026

Quando analisados os tipos de estabelecimento de saúde notificadores dos DVRT, observa-se que a maior parte das notificações foi realizada por hospitais no período de 2019 a 2025. Cabe assinalar que dentre as 118 notificações registradas por este tipo de estabelecimento, 112 foram realizadas pelo Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte. Outro tipo de estabelecimento que realizou parte significativa das notificações foram os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest) e os Centros de Saúde/Unidade Básica, conforme Figura 2. Os Cerest estão registrados no CNES sob o tipo Clínica/Centro de Especialidade e representaram 96,4% das notificações desse grupo de estabelecimentos de saúde, no período analisado.

Figura 2. Notificações de Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho, por tipo de estabelecimento notificador. Minas Gerais, 2019 a 2025

Fonte: Dados de 2019 a 2025 – SINAN / sistema de tabulação de dados online TABNET. Dados extraídos em 22 de setembro de 2026.
Dados de 2025 - e-SUS-Sinan. Dados extraídos em 21 de setembro de 2026

Considerando–se que os médicos otorrinolaringologistas e os profissionais fonoaudiólogos têm importante atribuição no diagnóstico e manejo clínico dos casos, quanto à distribuição de profissionais especializados e pontos da rede de atenção onde estão vinculados, verifica-se que há maior proporção de otorrinolaringologistas que não prestam atendimento ao SUS do que aqueles que o fazem, e o contrário pode ser observado em relação aos fonoaudiólogos. Já em relação ao tipo de estabelecimento em que prestam atendimento, destaca-se os otorrinolaringologistas que atendem em Hospital Geral (1.658), Clínica/Centro de Especialidade (927) e Consultório Isolado (483), porém considerando apenas os que atendem ao SUS, predominam os que atendem em Hospital Geral (786) e Clínica/Centro de Especialidade (333). Em relação aos fonoaudiólogos, destacam-se os profissionais que atendem em Clínica/Centro de Especialidade (2.323), Hospital Geral (943), Centro de Saúde/Unidade Básica (893) e Consultório Isolado (789). Já entre o número de fonoaudiólogos que atendem ao SUS, predomina os que atuam em Clínica/Centro de Especialidade (1.000), Centro de Saúde/Unidade Básica (885) e Hospital Geral (734) (Tabela 1).

Tabela 1. Frequência absoluta e relativa de otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos no estado de Minas Gerais, pelo tipo de estabelecimento de atuação, conforme registro no CNES, em fevereiro de 2025.

Tipo de Estabelecimento

Otorrinolaringologista

Fonoaudiólogo

Atende ao SUS

%

Não atende ao SUS

%

Total

Atende ao SUS

%

Não atende ao SUS

%

Total

Clínica/Centro de Especialidade

333

35,92

594

64,08

927

1.000

43,05

1.323

56,95

2.323

Hospital Geral

786

47,41

872

52,59

1.658

734

77,84

209

22,16

943

Consultório Isolado

19

3,93

464

96,07

483

33

4,18

756

95,82

789

Centro de Saúde/Unidade Básica

29

87,88

4

12,12

33

885

99,1

8

0,9

893

Policlínica

133

57,58

98

42,42

231

190

56,72

145

43,28

335

Cooperativa ou Empresa de Cessão de Trabalhadores na Saúde

184

39,23

285

60,77

469

8

15,38

44

84,62

52

Hospital Especializado

16

7,73

191

92,27

207

43

65,15

23

34,85

66

Unidade de Apoio Diagnose e Terapia (SADT Isolado) 

15

37,5

25

62,5

40

31

31,31

68

68,69

99

Hospital/Dia - Isolado

23

36,51

40

63,49

63

9

45

11

55

20

Serviço de Atenção Domiciliar Isolado (Home Care)

0

0

0

0

0

5

6,25

75

93,75

80

Outros

24

72,73

9

27,27

33

154

95,06

8

4,94

162

Total

1.562

 

2.582

 

4.144

3.092

 

2.670

 

5.762

Fonte: Ministério da Saúde - Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil – CNES. Data de extração: 18 de março de 2025

Há uma ampla variação na distribuição dos otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos nas macrorregiões de saúde de Minas Gerais. A macrorregião Centro concentra o maior número dos profissionais de ambas as categorias. As macrorregiões Jequitinhonha, Nordeste e Leste do Sul são as com menor número de otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos em geral (Tabela 2).

Tabela 2. Presença de otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos no estado de Minas Gerais segundo vinculação aos serviços públicos (SUS) e privados (não SUS) conforme registro no CNES em dezembro de 2025

Macrorregião de saúde

Otorrinolaringologista

Fonoaudiólogo

Atende ao SUS

%

Não atende SUS

%

Total

Atende ao SUS

%

Não atende SUS

%

Total

Centro

612

27,76

1593

72,24

2.205

1043

47,54

1151

52,46

2194

Sudeste

160

54,79

132

45,21

292

308

55,3

249

44,7

557

Norte

135

64,59

74

35,41

209

286

70,27

121

29,73

407

Triângulo do Norte

74

27,51

195

72,49

269

136

35,14

251

64,86

387

Centro Sul

70

47,62

77

52,38

147

193

59,02

134

40,98

327

Oeste

83

46,89

94

53,11

177

156

53,98

133

46,02

289

Vale do Aço

34

40,96

49

59,04

83

131

46,29

152

53,71

283

Sudoeste

94

69,12

42

30,88

136

202

72,4

77

27,6

279

Extremo Sul

75

45,73

89

54,27

164

131

47,46

145

52,54

276

Sul

94

64,38

52

35,62

146

179

66,3

91

33,7

270

Triângulo do Sul

37

48,68

39

51,32

76

120

51,28

114

48,72

234

Noroeste

27

39,13

42

60,87

69

97

57,4

72

42,6

169

Leste

41

53,25

36

46,75

77

98

61,25

62

38,75

160

Leste Do Sul

60

64,52

33

35,48

93

89

62,68

53

37,32

142

Nordeste

35

70

15

30

50

94

81,74

21

18,26

115

Jequitinhonha

32

71,11

13

28,89

45

68

73,12

25

26,88

93

TOTAL

1663

39,24

2575

60,76

4.238

3331

53,88

2851

46,12

6182

4238

6182

Fonte: Ministério da Saúde - Cadastro Nacional dos Estabelecimentos de Saúde do Brasil – CNES. Data de extração: 22 de setembro de 2026

Em relação aos procedimentos em saúde do trabalhador realizados por fonoaudiólogos identificou-se registro nas seguintes macrorregiões, em ordem decrescente: Centro, Leste, Extremo Sul, Sudoeste, Vale do Aço, Centro Sul, Sudeste, Norte e Jequitinhonha. As demais não registraram nenhum procedimento em saúde do trabalhador por essa categoria profissional. Em comparação, observa-se que houve consideravelmente menos procedimentos realizados e registrados por otorrinolaringologistas: apenas 263 em Minas Gerais durante o período analisado, enquanto foram registrados 7.456 procedimentos por fonoaudiólogos. Observa-se que 91,6% dos procedimentos registrados por médicos otorrinolaringologistas no período foram realizados na macrorregião Triângulo do Norte. As macrorregiões Centro (13), Sudeste (8) e Sudoeste (1) também registraram procedimentos em saúde do trabalhador realizados por esses profissionais (Tabela 3).

Tabela 3. Número de procedimentos em saúde do trabalhador realizados por otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos por macrorregião de saúde, registrados no SIA-SUS- Minas Gerais, janeiro de 2008 a dezembro de 2025.

Macrorregião de saúde

Otorrinolaringologista

Fonoaudiólogo

N

%

N

%

Centro

13

4,94

4548

58,59

Leste

0

0

1924

24,79

Extremo Sul

0

0

891

11,48

Sudoeste

1

0,38

171

2,2

Vale do Aço

0

0

100

1,29

Centro Sul

0

0

68

0,88

Sudeste

8

3,04

54

0,7

Norte

0

0

4

0,05

Jequitinhonha

0

0

2

0,03

Sul

0

0

0

0

Oeste

0

0

0

0

Noroeste

0

0

0

0

Leste do Sul

0

0

0

0

Nordeste

0

0

0

0

Triangulo do Sul

0

0

0

0

Triangulo do Norte

241

91,63

0

0

TOTAL

263

100

7762

100

Fonte: Sistema de Informações Ambulatoriais do SUS (SIA/SUS). Data de extração: 22 de setembro de 2026* Número de registros no SIA/SUS de procedimentos de saúde de trabalhador, sejam eles assistenciais ou de vigilância em saúde.

5. DISCUSSÃO

O estado de Minas Gerais estabeleceu a obrigatoriedade da notificação dos Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho a partir de 2018, pela Resolução SES/MG Nº 6.532 (Minas Gerais, 2018) e a Portaria GM/MS Nº 5.201, de 15 de agosto de 2024 (Brasil, 2025a) incluiu os Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho como doença de notificação compulsória em todo território nacional, no entanto, observa-se que durante o período de 2019 a 2025, apenas 2,8% dos municípios de Minas Gerais registraram casos. Quanto aos dados investigados, é preciso ressaltar o cenário geral e crônico de subnotificação e/ ou sub registro das doenças e agravos relacionados ao trabalho no Brasil (Galdino et.al., 2020) e em particular dos DVRT, considerando-se o quão recente foi incorporação no rol de doenças de notificação compulsória no país. Em particular, é necessário analisar a situação de Minas Gerais, que apesar da inclusão anterior, da obrigatoriedade desse registro em instrumentos de gestão da vigilância em saúde, ainda apresenta dificuldades na efetiva implementação (Minas Gerais, 2018). Entre os trabalhadores afetados pelos distúrbios de voz estão os professores (CORREA, et.al, 2025; Ferreira et.al., 2024), que são trabalhadores com ampla distribuição nos municípios mineiros. Existem estudos também identificando maior adoecimento para trabalhadores do setor de teleatendimento (Jones et al., 2002). É importante observar que queixas de problemas vocais também foram encontradas em trabalhadores que não utilizavam a voz como instrumento de trabalho. Merecem atenção ocupações com elevada exposição à fumaça, como churrasqueiros e chapeiros; produtos químicos que podem ser inalados, como trabalho em salão de beleza e atividades de limpeza/serviços gerais; sob condições extremas de temperatura, como trabalho em frigoríficos, entre outras que mantêm características laborais que podem impactar o aparelho fonador (JESUS et.al, 2020).

Tanto o diagnóstico quanto o manejo e a reabilitação dos Distúrbios de Voz relacionados ao trabalho devem levar em consideração aspectos diversos. A disfonia ocupacional necessita de uma abordagem multidisciplinar; em alguns países a equipe é constituída por fonoaudiólogos, terapeutas da fala, psicólogos e fisioterapeutas/osteopatas; bem como pelos médicos especialistas como otorrinolaringologista e médico do trabalho. Os profissionais de reabilitação oral conseguem proporcionar resultados positivos (por vezes na ordem dos quase 90%) (Santos; Almeida; Chagas, 2024). Portanto, conhecer a distribuição destes profissionais nos diversos serviços de saúde e nas macrorregiões de saúde do estado é condição fundamental para planejar e executar ações mais assertivas no âmbito da vigilância em saúde do trabalhador.

Ao analisar o cenário epidemiológico e da rede de atenção vinculados a vigilância dos distúrbios de voz relacionados ao trabalho, o elemento da regionalização da saúde enquanto um princípio organizativo do SUS, desde sua concepção, é fundamental. O processo de implementação do sistema adotou a municipalização como estratégia central de descentralização. Buscando coordenar esforços entre os entes federativos para aproximar a gestão dos serviços das populações locais, considerando suas especificidades e promovendo respostas mais efetivas às suas necessidades. Consequentemente atuando na ampliação do acesso da população a serviços de saúde em todos os níveis, além da otimização o uso dos recursos públicos (Shimizu, 2021). É importante ressaltar que o planejamento de ações de saúde deve levar em consideração as assimetrias de cada território: situação de saúde, indicadores, recursos disponíveis (Santana; Arce, 2024). Porém, neste estudo, ao observar os dados relacionados a oferta de atendimento na rede pública e privada, além da distribuição socioespacial dos profissionais especialistas e consequentemente evidenciar as disparidades regionais, faz-se necessário interrogar sobre os circuitos assistenciais enquanto trajetórias percorridas por usuários e as estratégias encontradas para acessarem os pontos de atenção secundária de apoio terapêutico e diagnóstico na rede de saúde (Santos, 2018).

As desigualdades no acesso aos serviços de saúde ocasionadas pela carência e má distribuição geográfica de seus profissionais, especialmente médicos, têm sido apontadas como um problema grave, persistente ao longo do tempo e resistente às mais variadas estratégias adotadas para seu enfrentamento na maioria dos países (Nogueira et.al.,2016). Quanto à distribuição geográfica dos profissionais otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos identifica-se ampla variação entre as macrorregiões de saúde, porém com a maior parte dos especialistas concentrados na região metropolitana e grandes centros, tendência já evidenciada pela literatura (BRASIL, 2025b).

Conforme verificou-se neste estudo, a proporção de otorrinolaringologistas e fonoaudiólogos que atuam em Centros de Especialidades e Policlínicas que prestam atendimento ao SUS é semelhante, quando considerados os números totais de profissionais das respectivas categorias que atuam em estabelecimentos que não atendem ao SUS. Apesar de carecer de aprofundamento e investigação das causas, a partir desse dado é possível pressupor que há de fato potencialidade para organização de rede de média complexidade para o atendimento às afecções da voz no SUS, no estado de Minas Gerias, mas os trabalhadores podem encontrar gargalos distintos que dificultam o atendimento adequado e oportuno (Santos, 2018).

A vasta superioridade numérica de fonoaudiólogos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) reforça o papel primordial destes profissionais e implica em compreender as características desse nível de atenção e as atribuições esperadas dos profissionais que ali atuam (Cagnoni; Jorge, 2023). Especialmente no acolhimento e reconhecimento dos trabalhadores acometidos pelos Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho, que podem ter no SUS e, mais especificamente, na atenção primária, a principal porta de acesso aos atendimentos de saúde necessários.

Conforme discute Ribeiro et.al. (2025), no campo de atuação da fonoaudiologia, quanto a atenção e vigilância das doenças e agravos relacionados ao trabalho, estudos mostram que o número de casos notificados é inferior ao esperado. Isso ocorre por diversos aspectos, como: gestão local, falta de capacitação, dificuldade no diagnóstico das doenças relacionadas ao trabalho, alta rotatividade dos profissionais nos Cerest e a falta de conhecimento dos profissionais da Rede de Atenção à Saúde sobre: 1) a ficha de notificação, 2) a Lista de Doenças Relacionadas ao Trabalho (LDRT) e 3) a necessidade de notificar.

Quanto a ação de registrar a ocorrência dos DVRT apesar de obrigatória, conforme discute Assunção (2022), existem circunstâncias que explicam, em parte, a discrepância entre as estimativas dos efeitos da exposição aos riscos ocupacionais sobre a saúde e as estatísticas oficiais de doenças relacionadas ao trabalho no Brasil. São apontadas lógicas institucionais e administrativas na definição de tempos, espaços e funções específicas que compõem o sistema de reconhecimento destas doenças. Além do controle e regulação da força de trabalho enquanto fator influenciador no processo de declaração, notificação e registro. Apesar dos recentes avanços nos dispositivos legais e institucionais, ainda não se configurou um cenário de reorganização das práticas de saúde que altere a invisibilidade social, em particular dos distúrbios de voz relacionados ao trabalho.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do exposto, considerando a transversalidade das ações de saúde do trabalhador, observa-se que a estruturação da atenção integral a saúde dos trabalhadores com exposição de risco para desenvolvimento dos distúrbios de voz relacionados ao trabalho está em processo de construção no estado de Minas Gerais. Processo este que enfrenta desafios compartilhados com toda a rede de atenção à saúde, em especial no fortalecimento da atenção primária como ordenadora do cuidado e na garantia de acesso a avaliação e atendimento especializado regionalizado, quando indicado.

Apesar dos evidentes avanços, o número de notificações dos Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho permanece aquém do esperado. O aumento das notificações é crucial para que se conheça a real extensão dos Distúrbios de Voz Relacionados ao Trabalho na população, norteando a criação de políticas públicas destinadas à prevenção de novos casos e reabilitação daqueles já acometidos. Por esta razão, torna-se fundamental traçar estratégias de organização da rede de saúde para ampliar a captação dos casos e promover a sensibilização e práticas de educação permanente direcionadas aos profissionais de saúde que prestam atendimento aos profissionais acometidos, além das referências técnicas de Vigilância em Saúde do Trabalhador, que têm a atribuição de acompanhar e fomentar a implementação da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora (PNSTT) no seu âmbito de atuação.

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1 Especialista em Medicina do Trabalho pelo programa do Hospital das Clínicas da UFMG. Graduada em Medicina (UFMG) - Médica do Trabalho do Cerest Estadual de Minas Gerias. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Mestre em Gestão de Serviços de Saúde - Escola de Enfermagem da UFMG. Especialista em Enfermagem do Trabalho –Una Belo Horizonte, Graduação em Enfermagem (UFVJM). Referência Técnica da Coordenação de Vigilância em Saúde do Trabalhador da SES-MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

3 Especialista em Data Science e Analytics pela Universidade de São Paulo, Graduação em Farmácia UFMG. Referência Técnica da Coordenação de Vigilância em Saúde do Trabalhador da SES-MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Graduado em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro (FJP). Diretor de Vigilância em Saúde Ambiental e Saúde do Trabalhador – SES-MG. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail