REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792817989
RESUMO
Os cânceres de mama e do colo do útero apresentam elevada relevância sanitária e expressivas desigualdades de acesso à detecção precoce, à confirmação diagnóstica e ao tratamento. Objetivou-se analisar criticamente as barreiras à detecção precoce dessas neoplasias e discutir os desafios do cuidado multiprofissional à saúde da mulher. Realizou-se revisão narrativa crítica, exploratório-descritiva, de abordagem qualitativa e natureza bibliográfica-documental, mediante levantamento dirigido de cinquenta publicações e documentos oficiais de 2022 a 2026, com fontes recuperáveis no PubMed/MEDLINE e portais institucionais. A síntese temática considerou fatores individuais, sociais, territoriais e organizacionais, além de estratégias de acesso e continuidade do cuidado. Evidenciaram-se obstáculos ligados à informação, ao medo, à mobilidade, à oferta de exames, à comunicação de resultados e às transições entre serviços. A navegação de pacientes, a busca ativa, a telessaúde e a autocoleta para testes de HPV revelam potencial em contextos específicos, desde que associadas à confirmação diagnóstica e ao seguimento. Conclui-se que a resolutividade exige articulação entre atenção primária, diagnóstico, regulação e atenção especializada, com responsabilidades multiprofissionais definidas e monitoramento de indicadores de equidade.
Palavras-chave: Neoplasias da Mama; Neoplasias do Colo do Útero; Detecção Precoce de Câncer; Atenção Primária à Saúde; Equipe Multiprofissional.
ABSTRACT
Breast and cervical cancers are major public health concerns characterized by substantial inequalities in access to early detection, diagnostic confirmation, and treatment. This study aimed to critically analyze barriers to early detection of both malignancies and discuss challenges to multiprofessional women’s health care. An exploratory and descriptive critical narrative review was conducted using a qualitative bibliographic and documentary approach. A purposive collection of fifty scientific publications and official documents from 2022 to 2026 was assembled from PubMed/MEDLINE records and institutional sources. The thematic synthesis addressed individual, social, geographical, and organizational determinants, along with access and continuity-of-care strategies. Barriers included limited information, fear, mobility constraints, inadequate examination availability, poor result communication, and fragmented referral pathways. Patient navigation, proactive outreach, telehealth, and HPV self-sampling may improve participation in specific settings, provided that diagnostic confirmation and follow-up are ensured. The analysis indicates that better outcomes require coordination among primary care, diagnostic services, referral management, and specialized care, with clearly assigned multiprofessional responsibilities and equity-sensitive monitoring. The narrative design does not support pooled effect estimates or claims of exhaustive evidence retrieval.
Keywords: Breast Neoplasms; Uterine Cervical Neoplasms; Early Detection of Cancer; Primary Health Care; Patient Care Team.
1. INTRODUÇÃO
Os cânceres de mama e do colo do útero configuram prioridades da saúde pública porque combinam carga expressiva de adoecimento, mortalidade evitável e desigualdade no acesso ao cuidado. Embora tenham mecanismos etiológicos distintos, ambos demandam identificação tempestiva de riscos, oferta qualificada de exames, comunicação efetiva dos resultados e possibilidade concreta de confirmação diagnóstica e tratamento. Na análise das estimativas globais para 2022, o câncer de mama destacou-se entre os tumores mais incidentes, enquanto o câncer cervical permaneceu associado a elevada mortalidade em contextos de menor desenvolvimento humano. A relevância do tema, portanto, não se esgota na disponibilidade tecnológica: depende da capacidade das redes assistenciais de converter oportunidades de prevenção em desfechos favoráveis (Bray et al., 2024; Filho et al., 2025; Li et al., 2025).
O cenário brasileiro reproduz parte dessa assimetria. A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer situa o câncer de mama entre as neoplasias mais frequentes nas mulheres e aponta diferenças regionais significativas para o colo do útero, com maior peso relativo em territórios de vulnerabilidade social. As taxas nacionais sintetizam realidades heterogêneas e não representam, isoladamente, a probabilidade de uma mulher conseguir consulta, exame e retorno em tempo apropriado. O uso das estimativas requer considerar distribuição por idade, estrutura dos serviços, registro de casos, acesso aos meios diagnósticos e continuidade do tratamento, sob pena de confundir frequência da doença com desempenho efetivo do sistema de saúde (INCA, 2026; Gomes et al., 2025).
A expressão detecção precoce envolve dois processos complementares, porém não intercambiáveis. O rastreamento se dirige, em condições específicas, a pessoas assintomáticas de grupos definidos por recomendações e avaliação de riscos; o diagnóstico precoce procura reconhecer sinais e sintomas suspeitos e reduzir o tempo até a investigação conclusiva. Um nódulo mamário palpável, alteração de pele, descarga papilar suspeita ou sangramento genital anormal não deve aguardar o calendário de um programa de rastreio. A distinção é decisiva para evitar tanto exames inadequados em grupos sem indicação quanto atrasos em pacientes que já apresentam sinais de alerta e exigem fluxo diagnóstico diferenciado (INCA, 2025b; Niell et al., 2024; WHO, 2023a).
A trajetória assistencial das mulheres não começa no equipamento de mamografia nem termina na coleta de material cervical. Antes do exame, existem decisões influenciadas por renda, escolaridade, informação, crenças, disponibilidade de transporte, experiências anteriores com profissionais e regras institucionais. Após o exame, surgem novas demandas: localização do resultado, classificação do achado, agendamento de procedimentos complementares, orientação sobre riscos e organização de encaminhamentos. Revisões sobre participação em programas de rastreamento mostram que dificuldades individuais e problemas de funcionamento dos serviços interagem, tornando insuficientes estratégias baseadas unicamente na conscientização da população (Akoto; Allsop, 2023; Aguiar-Ibáñez et al., 2025; Tavakoli et al., 2024).
As desigualdades ganham concretude quando se observa que a oferta formalmente universal não garante a mesma possibilidade de utilização. Mulheres residentes em áreas rurais, com restrições de mobilidade, longas jornadas de trabalho, dificuldades de comunicação ou experiências discriminatórias podem enfrentar custos indiretos expressivos para acessar serviços públicos. Estudos sobre determinantes sociais do rastreio mamário e participação de pessoas com deficiência indicam que a acessibilidade envolve dimensões arquitetônicas, comunicacionais, financeiras, geográficas e organizacionais. A classificação de uma usuária como 'não aderente' pode esconder falhas da própria rede, especialmente quando faltam agendamento oportuno, acomodação razoável, busca ativa e retorno de resultados (Jhumkhawala et al., 2024; Andiwijaya et al., 2022; Buckley et al., 2025).
No controle do câncer de mama, diretrizes e sociedades científicas também diferem quanto ao grupo etário, à periodicidade e ao balanço entre benefícios e danos. No Brasil, a orientação ministerial atualizada em 2025 passou a priorizar mamografia de rastreamento a cada dois anos entre 50 e 74 anos. Recomendações de sociedades médicas brasileiras, por outro lado, sustentam o rastreamento anual a partir dos 40 anos em mulheres de risco habitual, enquanto recomendações internacionais adotam outros intervalos. Essa pluralidade não autoriza combinar documentos seletivamente; exige contextualizar população, financiamento, magnitude dos riscos, sobrediagnóstico, falso-positivos e capacidade de investigação dos achados (Brasil, 2025b; Urban et al., 2023; Niell et al., 2024).
No câncer do colo do útero, a infecção persistente por tipos oncogênicos de papilomavírus humano fundamenta uma abordagem preventiva distinta, envolvendo imunização, testes de rastreamento e tratamento oportuno das lesões precursoras. A Portaria Conjunta SAES/SECTICS nº 13/2025 estabeleceu a diretriz brasileira de rastreamento organizado com testes moleculares para DNA-HPV oncogênico, em processo de implantação progressiva. A mudança altera fluxos laboratoriais, convocações, intervalos e possibilidades de autocoleta, mas não elimina o papel de equipes que esclarecem resultados, acolhem preocupações e asseguram avaliação e tratamento quando necessários (Brasil, 2025a; INCA, 2025a; WHO, 2023b).
A experiência de exames preventivos é atravessada por sentimentos de medo, vergonha, insegurança diante da exposição corporal e receio do diagnóstico. Entre mulheres com menor familiaridade com a linguagem biomédica, mensagens ambíguas podem produzir adiamento da consulta ou interpretação equivocada de resultados alterados. Esses fatores devem ser compreendidos em relação com a forma como a equipe se comunica, organiza a privacidade, explica a finalidade do procedimento e respeita a autonomia da usuária. A literatura mostra que abordagens culturalmente sensíveis e adaptadas ao contexto comunitário podem melhorar a aproximação, mas não substituem a solução dos obstáculos logísticos posteriores ao primeiro contato (Farajimakin, 2024; Luizaga et al., 2025; Petersen et al., 2022).
O percurso terapêutico também pode ser descontínuo. Revisões sobre navegação de pacientes relatam melhora na realização do rastreamento e em determinadas etapas de seguimento quando há profissionais responsáveis por identificar barreiras, lembrar compromissos e articular serviços. Entretanto, os resultados variam conforme população, modalidade de intervenção e desfecho analisado, e alguns estudos observam dificuldades em demonstrar resolução de todas as anormalidades. A eficácia de um programa, portanto, não deve ser avaliada somente pela quantidade de testes realizados, mas pela proporção de mulheres que percorrem as etapas necessárias até uma decisão clínica documentada (Nelson et al., 2025; Mosquera et al., 2023; Tian et al., 2022).
A atenção primária à saúde constitui ponto estratégico para articular prevenção, cuidado longitudinal e apoio em situações de suspeita oncológica. A integração com assistência especializada, apoio diagnóstico, vigilância e gestão regional pode reduzir duplicidade de solicitações, perda de resultados e peregrinação entre serviços. Quando os mecanismos de referência e contrarreferência são frágeis, responsabilidades podem ser transferidas sem confirmação de que a usuária alcançou o atendimento necessário. O problema da pesquisa situa-se justamente no intervalo entre a existência de tecnologias e a efetivação do cuidado, no qual se expressam injustiças sanitárias evitáveis (Sala et al., 2025; Nascimento et al., 2025; WHO, 2023a).
A produção recente oferece elementos para discutir intervenções mais robustas, tais como convite ativo, autocoleta de HPV em contextos apropriados, navegação de pacientes, telessaúde, coordenação de equipes multiprofissionais e monitoramento de tempos assistenciais. Entretanto, diferenças metodológicas, resultados heterogêneos e diversidade de sistemas de saúde exigem cautela ao propor transposição direta de estratégias internacionais para municípios brasileiros. A adoção de qualquer medida deve ser acompanhada de critérios de equidade, responsabilidade clínica, disponibilidade de insumos e capacidade de acompanhar resultados positivos ou inconclusivos (Wong; Wong, 2024; Zhang et al., 2024; Ferrari et al., 2025).
Diante dessa problemática, o estudo justifica-se pela necessidade de articular a literatura epidemiológica com o desenho concreto das linhas de cuidado, examinando obstáculos que persistem mesmo quando exames e recomendações estão formalmente disponíveis. A abordagem comparativa das duas neoplasias permite identificar componentes transversais da gestão do acesso e requisitos específicos de cada agravo. Ao integrar perspectivas da enfermagem, medicina, radiologia, assistência social, psicologia, fisioterapia, agentes comunitários e gestão pública, pretende-se contribuir com proposições aplicáveis à organização da atenção à saúde da mulher, sem equiparar indiscriminadamente competências profissionais distintas (Chattopadhyay et al., 2024; Sala et al., 2025; WHO, 2023a).
O objetivo deste artigo é analisar criticamente as barreiras à detecção precoce dos cânceres de mama e do colo do útero e discutir os desafios e as possibilidades de atuação multiprofissional para ampliar o acesso equitativo, a continuidade assistencial e a resolutividade da atenção à saúde da mulher.
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Epidemiologia, Prevenção e Desigualdades
A distribuição global dos cânceres femininos reflete simultaneamente mudanças demográficas, exposições a fatores de risco, expansão diagnóstica e capacidade de tratamento. Para 2022, estimativas da Agência Internacional de Pesquisa em Câncer indicaram aproximadamente 2,3 milhões de casos de câncer de mama e 660 mil de colo uterino em mulheres. A magnitude não permite inferir diretamente qualidade de programas de rastreamento, pois incorpora diferenças entre registros populacionais, modelos de estimativa e acesso a diagnóstico. A interpretação crítica combina dados de incidência, mortalidade, estágio ao diagnóstico e desigualdades regionais, em vez de utilizar isoladamente um ranking de tumores para definir estratégias assistenciais (Filho et al., 2025; Bray et al., 2024).
O câncer cervical apresenta relação particularmente evidente entre desigualdade social e mortalidade evitável. Países com menor índice de desenvolvimento humano reúnem maior proporção de óbitos por acesso limitado à vacinação, rastreamento efetivo e tratamento de lesões precursoras. A análise das diferenças não pode atribuir o quadro apenas ao conhecimento das usuárias: condições de oferta, financiamento e continuidade têm impacto decisivo. O problema se agrava quando o resultado alterado não produz convocação, triagem e tratamento em tempo útil, o que enfraquece a capacidade preventiva de tecnologias com desempenho satisfatório em condições controladas (Li et al., 2025; Petersen et al., 2022; WHO, 2024).
No Brasil, a vigilância epidemiológica deve ser interpretada junto com a composição demográfica das regiões e com as desigualdades de rede. Municípios com baixa proporção de exames cervicais podem representar ausência de oferta, fragilidade de registro ou dificuldade de acompanhamento das usuárias. Estudos espaciais identificam agrupamentos de menor rastreamento em estados do Norte e Nordeste e associação com indicadores sociais. Esses achados orientam a identificação de necessidades territoriais, mas não demonstram causalidade individual nem permitem substituir auditoria da qualidade dos serviços por correlações ecológicas (Gomes et al., 2025; INCA, 2026).
A prevenção primária do câncer cervical inclui vacinação contra HPV, cuja efetividade populacional depende de cobertura sustentada, esquemas atualizados e acesso equitativo para adolescentes elegíveis. Uma síntese de programas globais apontou persistente distância entre as coberturas observadas e as metas internacionais, especialmente em contextos onde logística, hesitação vacinal e comunicação constituem entraves. O rastreamento permanece necessário nas coortes indicadas, mesmo quando a vacinação avança, porque o efeito da proteção se distribui ao longo de anos e existem gerações não contempladas integralmente por programas prévios (Han et al., 2025; WHO, 2022).
2.2. Conceitos e Critérios do Rastreamento Mamário
A mamografia constitui tecnologia central para identificar alterações ainda não percebidas clinicamente em grupos elegíveis ao rastreamento. Sua utilidade depende da qualidade da aquisição da imagem, interpretação por profissionais capacitados, classificação padronizada e acesso a procedimentos de confirmação. O exame não é infalível: resultados falso-positivos podem gerar ansiedade e intervenções adicionais, e resultados falso-negativos não excluem investigação de sintomas suspeitos. Por isso, recomendações populacionais precisam balancear benefícios, riscos e recursos locais, além de definir trajetórias para achados potencialmente malignos (Niell et al., 2024; Urban et al., 2023; Brasil, 2025b).
A idade de início e o intervalo são escolhas que devem refletir políticas vigentes e não opiniões individuais descontextualizadas. A Nota Técnica nº 626/2025 do Ministério da Saúde definiu como prioritário o rastreamento mamográfico bienal de 50 a 74 anos no SUS, sem impedir acesso por demanda esclarecida fora desse recorte, conforme orientações oficiais. Já entidades profissionais brasileiras publicaram recomendação de exame anual para mulheres a partir de 40 anos. A coexistência de normas reforça a necessidade de explicar à população o protocolo utilizado, as exceções para risco elevado e a diferença entre exame para investigação clínica e rastreamento de assintomáticas (Brasil, 2025b; INCA, 2025b; Urban et al., 2023).
Mulheres com variantes patogênicas associadas a risco elevado, forte história familiar, exposição prévia à radioterapia torácica em idades específicas ou outros fatores clínicos relevantes não devem ser simplesmente enquadradas no mesmo fluxo de risco habitual. A individualização requer avaliação adequada e, quando indicada, encaminhamento para aconselhamento e protocolos específicos. A equipe deve evitar tanto a banalização do risco quanto a medicalização indiscriminada de mulheres com baixo risco, garantindo registro fundamentado das condutas e comunicação inteligível sobre incertezas (Urban et al., 2023; Niell et al., 2024).
2.3. Rastreamento Cervical Baseado no HPV
A detecção molecular de DNA-HPV oncogênico altera a lógica do rastreamento cervical ao privilegiar um marcador etiológico associado ao risco de lesões precursoras. Em sistemas organizados, testes de maior sensibilidade podem ampliar a proteção entre rodadas de rastreio, desde que utilizados com algoritmos de triagem e seguimento definidos. Resultado positivo não equivale ao diagnóstico de câncer, e sua comunicação exige orientação clara sobre infecção, persistência viral e próximos passos. A implantação brasileira aprovada em 2025 prevê organização do percurso assistencial e substituição progressiva do modelo oportunístico por convocação e acompanhamento da população elegível (Brasil, 2025a; WHO, 2024; INCA, 2025a).
A citologia cervical continua relevante nos locais em que os testes moleculares ainda não estão plenamente disponíveis e como componente de algoritmos conforme orientação normativa. A transição exige capacitação profissional, adaptação de laboratórios, definição de critérios para amostras inválidas, padronização de registros e estratégias para contato seguro com usuárias. Em um programa incompleto, a introdução de nova tecnologia pode deslocar gargalos para a triagem, a colposcopia ou o tratamento das lesões; por isso, o planejamento deve considerar toda a rede e não apenas a contratação do teste inicial (Brasil, 2025a; Serra Tochetto et al., 2025; WHO, 2024).
A qualidade do procedimento permanece central. Pesquisa brasileira sobre amostras citopatológicas mostrou variabilidade em indicadores técnicos de adequação e evidenciou a importância da qualificação da coleta, da documentação e do monitoramento laboratorial. Sem padronização, o número de exames processados pode crescer sem ganho proporcional de detecção de alterações significativas. A avaliação deve incluir condições de privacidade, acolhimento, preparo da usuária, logística dos materiais, transporte de amostras e retorno do laudo, elementos que dependem de interação entre profissionais assistenciais e apoio técnico (Serra Tochetto et al., 2025; Brasil, 2025a).
2.4. Autocoleta e Estratégias para Populações Subrastreadas
A autocoleta de material para testes de HPV representa alternativa promissora para mulheres que encontram constrangimentos ou barreiras de deslocamento na coleta convencional. Revisões sistemáticas e metanálises registram aumento da participação quando kits são disponibilizados por estratégias ativas, especialmente com entrega domiciliar ou convite do tipo opt-out. Contudo, o impacto depende da validade do ensaio utilizado, das instruções fornecidas, do transporte adequado e da disponibilidade de seguimento clínico quando o resultado indica maior risco. A autocoleta não deve ser apresentada como substituta da rede diagnóstica (Di Gennaro et al., 2022; Wong; Wong, 2024; WHO, 2023b).
Uma revisão de escopo envolvendo protocolos de autocoleta identificou boa aceitabilidade, mas também diversidade de dispositivos, métodos e populações pesquisadas. Em contextos de menor renda, a eficácia observada depende de iniciativas adaptadas ao território: distribuição assistida, linguagem acessível e apoio de agentes de saúde podem ser mais pertinentes do que campanhas exclusivamente digitais. A seleção da estratégia demanda respeito à autonomia da mulher, oferta de alternativas presenciais e explicação de que um exame positivo exige acesso garantido à conduta subsequente (Colonetti et al., 2024; Mekuria et al., 2023; Mackay et al., 2025).
O ensaio MBMT-3, realizado entre mulheres subrastreadas de baixa renda nos Estados Unidos, examinou a oferta de kits enviados pelo correio associada a apoio para agendamento. O estudo ilustra o potencial de estratégias que ultrapassam a simples comunicação genérica sobre prevenção. Ainda assim, sua transferibilidade ao SUS não deve ser presumida: cobertura territorial de transporte postal, registro de contatos, disponibilidade de unidades e organização laboratorial são distintos. A evidência serve como referência para desenho e avaliação de projetos-piloto, não como prova de eficácia automática em qualquer município (Pretsch et al., 2023; Mackay et al., 2025).
2.5. Determinantes da Participação e Barreiras Persistentes
A literatura identifica um mosaico de fatores relacionados à realização de exames: conhecimento sobre o agravo, percepção de suscetibilidade, experiências anteriores, apoio familiar, crenças culturais, aconselhamento profissional e existência de recursos financeiros ou logísticos. Esses fatores não agem de modo independente; a percepção de benefício pode ser insuficiente diante de custos de transporte, cuidado de crianças e ausência de horário compatível com trabalho. Intervenções de orientação em saúde só alcançam potencial pleno quando acompanhadas de agendamento viável e acesso real à investigação de alterações (Tavakoli et al., 2024; Aguiar-Ibáñez et al., 2025; Akoto; Allsop, 2023).
As dificuldades atingem de maneira desigual mulheres racializadas, migrantes e integrantes de grupos historicamente excluídos. Uma revisão britânica sobre rastreio mamário entre mulheres negras de origem africana e caribenha evidenciou interações entre confiança, comunicação e acesso a serviços; estudos de outros países apontam barreiras institucionais e culturais. Tais achados não devem ser usados para essencializar identidades ou imputar comportamentos homogêneos a grupos populacionais. Indicam, antes, a necessidade de produzir informação apropriada, construir confiança e reconhecer diferenças nas experiências de atendimento (Aliu; Kerrison; Marcu, 2025; Jhumkhawala et al., 2024).
Mulheres com deficiência podem necessitar de adaptação da altura dos equipamentos, transferência assistida, comunicação acessível, tempo adicional para atendimento e possibilidade de acompanhante escolhido. Revisões apontam menor participação em serviços preventivos quando barreiras físicas e organizacionais não são enfrentadas. Da mesma forma, usuários trans e pessoas não binárias com órgãos elegíveis ao rastreio podem vivenciar obstáculos decorrentes de documentação, acolhimento e discriminação. O critério clínico deve considerar anatomia relevante e riscos individuais, enquanto a prestação do cuidado deve preservar nome social, confidencialidade e respeito (Andiwijaya et al., 2022; Buckley et al., 2025; Berzansky; Reynolds; Charlton, 2024).
2.6. Continuidade Assistencial e Navegação de Pacientes
A navegação de pacientes consiste em apoio estruturado para compreender o percurso, superar obstáculos e realizar encaminhamentos entre pontos de atenção. Sua finalidade não é substituir a responsabilidade clínica, mas conectar etapas frequentemente fragmentadas: convite, agendamento, confirmação do comparecimento, entrega do laudo, investigação complementar e acompanhamento. Revisões sistemáticas evidenciam ganhos de participação no rastreio em diferentes populações e indicam que componentes de intervenção precisam ser descritos para possibilitar reprodução e avaliação. O treinamento, a supervisão e a integração do navegador à rede são características essenciais (Mosquera et al., 2023; Nelson et al., 2025).
Uma metanálise de ensaios sobre navegação para rastreamento mamário encontrou melhora na realização de exames, embora os resultados para resolução de alterações tenham sido menos consistentes. Estudos econômicos indicam que o custo por pessoa adicionalmente rastreada e a relação custo-efetividade variam segundo o desenho do programa e o contexto. Portanto, a decisão de implantar navegadores deve integrar estimativa de capacidade instalada e indicadores de fluxo, evitando programas de captação que produzam maior demanda sem condições de confirmação e tratamento (Tian et al., 2022; Chattopadhyay et al., 2024; Phillips; Montoya; Adams, 2024).
Em redes públicas de grande extensão territorial, a efetividade da navegação depende de definição concreta de responsabilidades. A equipe de atenção primária pode identificar mulheres sem rastreio, registrar a indicação e acompanhar resultados, enquanto a regulação precisa assegurar prioridade a casos suspeitos e a atenção especializada deve devolver contrarreferências claras. O vínculo comunitário pode apoiar o comparecimento, mas a execução de atos clínicos e o tratamento devem respeitar competências e protocolos. A navegadora ou o navegador atua como facilitador, não como substituto do sistema de agendamento e transporte (Nelson et al., 2025; WHO, 2023a; Sala et al., 2025).
2.7. Tecnologias Digitais, Equidade e Cuidado Centrado na Pessoa
Ferramentas digitais podem apoiar identificação de pessoas elegíveis, envio de lembretes, retorno de exames e gestão de listas de pendências. Uma metanálise em rede de intervenções de telessaúde encontrou efeitos positivos sobre a realização de rastreamentos, com resultados variados conforme modalidade tecnológica e população. Entretanto, o uso de aplicativos ou mensagens automáticas tende a reproduzir desigualdades quando não considera letramento digital, estabilidade de telefone, privacidade doméstica, deficiência sensorial e disponibilidade de acesso à internet. O desenho centrado na usuária combina alternativas presenciais e remotas (Zhang et al., 2024; Ferrari et al., 2025).
O registro eletrônico de eventos assistenciais deve permitir rastreabilidade do percurso sem reduzir a experiência clínica a indicadores de produção. Bases inconsistentes, telefones desatualizados e ausência de interoperabilidade podem produzir perdas de seguimento silenciosas. A equipe deve utilizar práticas de proteção de dados, verificar consentimentos e evitar mensagens que revelem informação sensível a terceiros. Sistemas de apoio à decisão e de busca ativa são auxiliares para qualificar o trabalho, mas sua eficácia deve ser auditada em termos de confirmação diagnóstica e redução de iniquidades, e não apenas pela quantidade de contatos emitidos (Zhang et al., 2024; Gomes et al., 2025; Sala et al., 2025).
2.8. Cuidado Ampliado Após a Suspeita ou Diagnóstico
O diagnóstico oncológico pode repercutir na autonomia, no vínculo familiar, no trabalho e na segurança econômica. Revisão sobre impactos sociais do câncer cervical identificou questões relativas a apoio social, escolarização, independência e proteção financeira, com lacunas importantes no conhecimento sobre efeitos indiretos para crianças. No câncer de mama, consequências de cirurgia e terapias complementares podem afetar mobilidade, imagem corporal, fadiga e participação social. Por isso, a atenção integral demanda acolhimento psicológico, assistência social, educação em saúde e possibilidades de reabilitação conforme avaliação individual (Dau et al., 2023; Monte Nero et al., 2025; Ramos et al., 2025).
A reabilitação física integra o cuidado de mulheres com alterações funcionais decorrentes do tratamento, sobretudo quando existem limitação de movimento, fadiga, dor e comprometimento da capacidade de executar atividades habituais. Revisões sobre exercício supervisionado ou domiciliar sugerem benefícios em determinados desfechos, mas protocolos variam em intensidade, duração e condições clínicas. A indicação precisa ser individualizada e articulada com equipe assistencial, levando em conta riscos pós-operatórios, comorbidades e preferências. Essa dimensão não substitui o rastreamento, porém explicita por que a detecção precoce só realiza sua finalidade quando conectada ao cuidado contínuo (Xue; Zhang; Zhang, 2025; Ramos et al., 2025; Monte Nero et al., 2025).
3. METODOLOGIA
3.1. Tipo, Abordagem e Questão Norteadora
Realizou-se uma revisão narrativa crítica de caráter exploratório-descritivo, com abordagem qualitativa e natureza bibliográfica e documental. A escolha desse delineamento decorre do objetivo analítico de integrar diretrizes, metanálises, estudos observacionais e investigações sobre a organização do SUS, cuja heterogeneidade torna inadequada uma agregação estatística simples. A revisão narrativa permite discutir processos assistenciais e identificar convergências e contradições entre fontes, mas não autoriza afirmar que a seleção foi exaustiva nem estimar efeitos causais a partir de achados heterogêneos. A questão norteadora foi: quais barreiras dificultam a detecção precoce dos cânceres de mama e do colo uterino e como o cuidado multiprofissional pode enfrentar perdas de acesso e seguimento?
O objeto da análise compreendeu mulheres e demais pessoas com órgãos elegíveis ao rastreamento, sempre respeitando as indicações clínicas e normas aplicáveis. Foram considerados três momentos do percurso: pré-acesso, incluindo informação, convite e agendamento; realização e interpretação do rastreio ou da avaliação de sintomas; e pós-exame, abrangendo resultados, confirmação diagnóstica, tratamento e seguimento. Essa decomposição buscou impedir que a participação no exame fosse confundida com resolução clínica. Os dados discutidos correspondem a fontes secundárias publicadas e não incluem prontuários, entrevistas, amostras biológicas, registros individuais ou observação direta de serviços.
3.2. Fontes, Descritores e Período
O levantamento dirigido foi desenvolvido em outubro de 2026, tendo como fonte principal registros bibliográficos recuperáveis no PubMed/MEDLINE, com apoio de buscas por títulos de revisões e estudos de implementação. A complementação documental incluiu os portais oficiais do Ministério da Saúde, Instituto Nacional de Câncer e Organização Mundial da Saúde. Essas fontes foram escolhidas pela relevância para o contexto brasileiro e pela possibilidade de confirmação pública de autoria, ano, título e conteúdo principal. Não houve emprego de bases fechadas mediante assinatura, nem pretensão de equivalência metodológica entre pesquisa bibliográfica exploratória e revisão sistemática com protocolo registrado.
Os grupos de descritores em português e inglês incluíram: 'Neoplasias da Mama'/Breast Neoplasms, 'Neoplasias do Colo do Útero'/Uterine Cervical Neoplasms, 'Detecção Precoce de Câncer'/Early Detection of Cancer, Mass Screening, Mammography, Human Papillomavirus, Self-Sampling, Primary Health Care, Patient Navigation, Health Equity e Patient Care Team. Foram utilizadas combinações conceituais com AND e OR adaptadas aos temas investigados, tais como breast cancer AND screening AND barriers; cervical cancer AND HPV AND self-sampling; Brazil AND mammography AND health system; patient navigation AND breast AND cervical screening. Não se apresenta uma estratégia bibliográfica replicável linha a linha porque o levantamento ocorreu de forma dirigida e iterativa.
3.3. Elegibilidade e Corpus Documental
Foram priorizadas publicações de 2022 a outubro de 2026, período dentro dos cinco anos recentes adotado para este artigo; documentos institucionais e artigos precisavam apresentar identificação verificável e pertinência direta com um dos eixos temáticos. Admitiram-se revisões sistemáticas, metanálises, pesquisas observacionais, ensaios clínicos, documentos normativos e recomendações de organizações de reconhecida atuação. Excluíram-se relatos sem identificação bibliográfica segura, textos que discutiam tumores alheios ao objetivo sem informações aproveitáveis sobre rastreamento, recomendações substituídas quando incompatíveis com normas brasileiras atualizadas e conteúdos sem relação clara com acesso, cuidado ou prevenção.
O corpus final destinado à discussão e às referências bibliográficas reúne cinquenta fontes publicadas, com acesso público às suas páginas de identificação. A cifra descreve o total de documentos efetivamente selecionados para fundamentar o artigo, e não uma contagem de estudos primários incluídos por triagem sistemática. Como não foi mantida uma base documental de todos os registros inicialmente encontrados, não se reportam quantitativos de duplicatas, exclusões por título, avaliações integrais ou divergências entre revisores. A ausência desses registros é expressamente assumida para evitar um fluxograma com números artificiais e impede a caracterização da revisão como sistemática, integrativa com amostragem reprodutível ou metanálise.
3.4. Seleção, Extração e Análise Qualitativa
A seleção ocorreu por leitura dirigida de títulos, resumos e informações institucionais, seguida da identificação dos pontos de interesse nas fontes com relevância maior para a pergunta norteadora. Foi organizada uma matriz analítica com os seguintes campos: referência e ano, país ou contexto, tipo de publicação, foco no câncer de mama ou cervical, barreira discutida, componente do percurso de cuidado, estratégia proposta, limites da evidência e implicação para a rede assistencial. A comparação privilegiou consistência interna, convergência entre diferentes desenhos e aplicabilidade ao SUS, evitando apresentar resultados de ensaios internacionais como estimativas diretas para municípios brasileiros.
A síntese foi realizada em cinco movimentos: delimitação conceitual de rastreamento e diagnóstico precoce; organização das barreiras por nível individual, social, territorial e institucional; descrição dos pontos críticos de transição entre exame, resultado e tratamento; análise das atribuições complementares das profissões; e proposição de indicadores operacionais para avaliação do cuidado. Não foram calculadas medidas agregadas inéditas, não se reanalisaram microdados e não se atribuíram taxas de eficácia às intervenções além das reportadas por fontes específicas. Números extraídos de revisões ou estudos foram descritos com indicação do desenho original para evitar deslocamento indevido de inferência.
3.5. Fluxograma Metodológico e Limites
O Fluxograma 1 documenta as etapas do levantamento bibliográfico e da síntese crítica, diferenciando identificação dirigida, análise de pertinência e organização final das fontes. Por não existir registro integral do universo pesquisado, os quadros não reproduzem contagens de exclusão nem utilizam indevidamente o modelo PRISMA como se houvesse uma revisão sistemática. A opção metodológica favorece a discussão abrangente, mas restringe a avaliação de risco de viés e a generalização quantitativa dos achados. Estudos futuros podem superar essas limitações mediante protocolo pré-registrado, busca detalhada por base, dupla triagem independente e avaliação formal da certeza da evidência.
Fluxograma 1. Etapas documentadas da revisão narrativa crítica.
Os aspectos éticos relacionam-se ao uso responsável de fontes publicadas e à fidelidade na representação de achados científicos. Não houve interação com participantes, acesso a registros identificáveis nem coleta de dados sensíveis; assim, este trabalho é uma síntese bibliográfica e documental sem pesquisa direta com seres humanos. Preservaram-se autoria, contexto de publicação e a distinção entre recomendação normativa, evidência experimental e interpretação analítica.
4. RESULTADOS E DISCUSSÕES OU ANÁLISE DOS DADOS
4.1. Barreiras Socioeconômicas, Territoriais e de Acessibilidade
A análise das fontes evidencia que o acesso ao rastreamento não constitui um evento binário de procura ou não procura por atendimento, mas um percurso condicionado por renda, transporte, vínculos de trabalho, organização familiar e distribuição de serviços. Em localidades com baixa densidade assistencial, a realização de um exame pode exigir mais de um deslocamento, afastamento de atividades remuneradas e cuidado substitutivo de dependentes. Esses custos indiretos são particularmente relevantes para usuárias que não conseguem reorganizar a rotina com facilidade. Desse modo, o planejamento municipal deve mapear oportunidades perdidas, barreiras geográficas e tempos efetivos de espera, sem reduzir o fenômeno a desconhecimento sobre a prevenção (Jhumkhawala et al., 2024; Ebrahimoghli et al., 2025; Gomes et al., 2025).
O estudo de Gomes e colaboradores sobre padrões espaço-temporais do rastreamento cervical encontrou agrupamentos territoriais de menor cobertura em estados do Norte e Nordeste, além de associações com indicadores sociais e cobertura da Estratégia Saúde da Família. A evidência reforça a importância do território na formulação de respostas, mas sua natureza ecológica impede explicar por que uma usuária específica não compareceu. Em paralelo, a revisão brasileira sobre implementação da mamografia identificou determinantes externos e internos dos serviços, revelando que oferta, financiamento, gestão e características do processo de trabalho interagem. A mudança de desempenho requer combinação de políticas estruturantes com ajustes operacionais locais (Gomes et al., 2025; Sala et al., 2025).
A adequação do ambiente também integra a qualidade. Equipamentos inacessíveis, falta de comunicação em formatos apropriados e necessidade de deslocamento sem acompanhante seguro podem gerar exclusão de pessoas com deficiência. Acolhimento deve incluir recursos de transferência e posicionamento quando clinicamente indicados, respeito à privacidade e tempo de atendimento compatível com necessidades de mobilidade. Em vez de registrar essas situações como recusa, a unidade deve identificar adaptações viáveis e condições para agendamento em serviço acessível. Esse enfoque reforça a equidade como resultado mensurável da rede, e não apenas como princípio declarado (Andiwijaya et al., 2022; Buckley et al., 2025).
4.2. Informação Qualificada, Medos e Comunicação Clínica
Entre os achados mais consistentes estão medo de um resultado desfavorável, desconforto com o procedimento, vergonha e informações insuficientes sobre sua finalidade. Um estudo com mulheres atendidas na atenção primária em São Paulo identificou medos e atrasos percebidos nos serviços como barreiras importantes, confirmando que fatores emocionais e institucionais podem coexistir. A resposta profissional não deve limitar-se à repetição de mensagens imperativas sobre 'fazer o preventivo'. É necessário perguntar o que a usuária compreendeu, explicar o próximo passo, avaliar experiências anteriores e permitir decisão informada de acordo com suas condições de vida e o protocolo vigente (Luizaga et al., 2025; Farajimakin, 2024).
A orientação deve explicitar que resultados suspeitos de imagem mamária não equivalem automaticamente ao diagnóstico de câncer e que positividade para HPV não significa presença de neoplasia invasiva. Confundir rastreamento com diagnóstico pode estimular ansiedade e afastamento do seguimento. Profissionais devem traduzir termos técnicos sem banalizar achados e sem oferecer falsas garantias, informando risco, urgência relativa, eventual necessidade de novos exames e local de retorno. A comunicação centrada na pessoa também contempla tempo para perguntas e registro de preferências, respeitando letramento em saúde e diversidades culturais (Brasil, 2025a; Niell et al., 2024; Farajimakin, 2024).
Estratégias de comunicação comunitária podem beneficiar-se de lideranças locais, agentes comunitários e organizações territoriais, especialmente quando a confiança institucional foi comprometida por experiências discriminatórias. A literatura sobre grupos subatendidos recomenda abordagens contextualizadas em vez de pressupostos homogêneos sobre raça, classe ou cultura. O êxito deve ser acompanhado por indicadores de comparecimento e conclusão do seguimento, e não somente pelo alcance de campanhas. O vínculo estabelecido no primeiro contato precisa ser preservado durante os próximos passos, evitando que a mulher receba mensagens sem apoio para concretizar os agendamentos necessários (Aliu; Kerrison; Marcu, 2025; Akoto; Allsop, 2023; Mosquera et al., 2023).
4.3. Convocação e Organização do Rastreamento Mamográfico no SUS
A experiência brasileira evidencia obstáculos para transformar recomendações em cobertura programática. Revisão de escopo sobre a implementação da mamografia no SUS encontrou determinantes associados ao ambiente externo, à organização interna e à própria execução das atividades de rastreio. Isso demonstra que elevar a produção de exames sem mapear a população-alvo pode perpetuar ações oportunísticas e intervalos inadequados. Recomenda-se construir listas nominais qualificadas da população elegível, associadas à verificação de exames prévios, indicação individual e convocação por risco, de modo a reduzir exames redundantes e alcançar quem historicamente permaneceu fora do cuidado (Sala et al., 2025; Brasil, 2025b).
A orientação do Ministério da Saúde de 2025 para rastreamento populacional bienal entre 50 e 74 anos precisa ser diferenciada de solicitações para investigação de sinais suspeitos e de recomendações específicas para alto risco. O sistema assistencial deve evitar que a exigência de pertencer à população de rastreamento seja aplicada indevidamente à mulher sintomática. Também não cabe afirmar que as recomendações de entidades científicas com faixas etárias distintas sejam juridicamente idênticas ao protocolo operacional do SUS. O aconselhamento deve apresentar os critérios utilizados, possíveis benefícios e danos e caminhos apropriados para avaliação individual (Brasil, 2025b; INCA, 2025b; Urban et al., 2023).
Na gestão do exame, a resolutividade depende de manutenção de equipamentos, padronização de laudos, disponibilidade de radiologistas, classificação adequada e comunicação entre a unidade solicitante e os serviços de imagem. Uma agenda de mamografia lotada não traduz, por si, efetividade; é preciso monitorar comparecimento, repetição por qualidade insuficiente, indicação de complementação e destino dos achados suspeitos. Recomendações internacionais e brasileiras destacam a importância da qualidade técnica e da seleção apropriada de modalidades complementares em subgrupos de maior risco. Essas condições são fundamentais para que a detecção de alterações se converta em diagnóstico oportuno (Niell et al., 2024; Urban et al., 2023; Ferrari et al., 2025).
4.4. Transição para Testes de HPV e Rastreamento Organizado do Colo do Útero
O avanço para o rastreamento primário com testes moleculares de DNA-HPV no Brasil representa oportunidade de superar parte das limitações do modelo baseado somente em exames oportunísticos. A política aprovada em 2025 exige identificar pessoas elegíveis, definir intervalos, estruturar exames reflexos e garantir encaminhamento quando houver risco aumentado. A implantação deve ser tratada como mudança de processo assistencial, e não simples substituição de insumo laboratorial. A unidade de saúde precisa reconhecer quem realizou a coleta, quando o resultado estará disponível e qual profissional assumirá a responsabilidade pelo contato e pelo seguimento (Brasil, 2025a; INCA, 2025a; WHO, 2024).
Ao contrário da percepção de que um teste mais sensível resolveria todas as falhas, o desempenho populacional pode ser reduzido por listas desatualizadas, amostras inválidas, demora laboratorial e insuficiência de colposcopia. A literatura sobre triagem e testes complementares enfatiza que a estratégia depende de algoritmos bem definidos para mulheres com resultado positivo. Informar um resultado sem orientar o passo subsequente cria risco de abandono e insegurança. A qualificação da enfermagem na coleta, educação e busca ativa e a disponibilidade de especialistas para confirmação são dimensões interdependentes dessa transição (WHO, 2024; Serra Tochetto et al., 2025; Varon et al., 2024).
A qualidade da citologia deve continuar sendo monitorada nos serviços em que integra o fluxo assistencial. Achados brasileiros sobre adequação de amostras evidenciam a relevância das práticas de coleta e do controle de qualidade, reforçando a necessidade de educação permanente. A implantação gradual exige planos de contingência para municípios em diferentes estágios de disponibilidade do teste molecular. A usuária não pode ser responsabilizada pela inconsistência da transição: a rede deve garantir orientação sobre o método utilizado e continuidade do acompanhamento conforme diretrizes vigentes, independentemente da tecnologia disponível naquele momento (Serra Tochetto et al., 2025; Brasil, 2025a).
A integração de serviços preventivos também pode aproveitar contatos já realizados pelas usuárias. Ensaio randomizado por conglomerados conduzido em contexto europeu examinou o uso da presença no rastreamento mamário como oportunidade para ampliar a participação em programas de rastreamento cervical e colorretal. Essa evidência sugere que convites integrados podem reduzir oportunidades perdidas, desde que mantenham elegibilidade, consentimento e protocolos próprios de cada neoplasia. No SUS, o princípio pode orientar estratégias de convocação combinada na atenção primária, mas não deve confundir calendários de exames ou transformar um encontro assistencial em realização indiscriminada de testes (Helgestad et al., 2024; Brasil, 2025b; Brasil, 2025a).
4.5. Autocoleta de HPV, Consentimento e Acompanhamento de Exames Positivos
A autocoleta oferece vantagens potenciais para ampliar acesso entre pessoas que não comparecem à coleta convencional por constrangimento, dificuldades de horário ou mobilidade. Revisões e ensaios mostram que a forma de convite interfere consideravelmente na participação, com melhor desempenho de determinados modelos de distribuição direta em comparação com estratégias dependentes de solicitação espontânea. A adoção no SUS, contudo, requer exame validado para a modalidade de coleta, instruções compreensíveis, condições de armazenamento e laboratório preparado. Sem essas garantias, a intervenção pode produzir resultados inválidos ou percepção enganosa de proteção (Wong; Wong, 2024; Di Gennaro et al., 2022; Mekuria et al., 2023).
A implementação equitativa deve manter escolha genuína entre modalidades quando disponíveis, sem pressionar a mulher a realizar o procedimento em casa e sem abandonar quem necessita de ajuda. Algumas usuárias preferirão coleta por profissional por segurança, limitações físicas ou necessidade de avaliação ginecológica. Estratégias eficazes em ambientes urbanos com serviços postais estáveis podem não alcançar comunidades ribeirinhas ou áreas rurais remotas. A análise prévia do território deve orientar pilotos com agentes comunitários, pontos de entrega seguros ou coleta assistida e mecanismos confiáveis para devolver resultados respeitando confidencialidade (Mackay et al., 2025; Colonetti et al., 2024; Pretsch et al., 2023).
Um programa de autocoleta só demonstra efetividade clínica quando pessoas com resultados que exigem investigação conseguem completar a linha de cuidado. Revisão sobre intervenções para seguimento de resultados cervicais anormais indica que lembretes, navegação e apoio organizado podem reduzir perdas em determinados contextos, mas a magnitude varia conforme intervenção e sistema. A equipe deverá registrar tentativas de contato, razões de atraso, data da avaliação especializada e resultado final da investigação. É inadequado anunciar ampliação de cobertura como sucesso isolado se o número de mulheres sem desfecho clínico conhecido cresce paralelamente (Varon et al., 2024; Nelson et al., 2025; WHO, 2023b).
4.6. O Intervalo Entre Laudo Alterado e Confirmação Diagnóstica
O período posterior a um exame alterado é ponto de fragilidade assistencial, pois frequentemente depende de múltiplos serviços com agendas independentes. Em câncer de mama, imagens suspeitas podem exigir ultrassonografia direcionada, biópsia e avaliação histopatológica, enquanto achados cervicais requerem conduta conforme risco e algoritmo vigente. A mulher precisa compreender o significado do achado e ter acesso à etapa seguinte sem peregrinar entre unidades. O sistema deve identificar as transições não concluídas e estabelecer responsáveis pelo fechamento do ciclo, em vez de presumir que o encaminhamento eletrônico corresponde ao atendimento efetivamente realizado (Nascimento et al., 2025; Nelson et al., 2025; WHO, 2023a).
A pandemia evidenciou a vulnerabilidade de fluxos oncológicos diante de restrições de circulação e suspensão de procedimentos não urgentes. Estudo sobre atrasos no cuidado ao câncer de mama no SUS durante a COVID-19 mostrou a importância de examinar diferentes tempos do percurso e não apenas a data do diagnóstico. O aprendizado para a gestão consiste em diferenciar atrasos atribuíveis à procura inicial, à confirmação histológica e ao início do tratamento. Sem essa decomposição, intervenções podem aumentar a velocidade em um ponto e manter obstáculos decisivos em outro, com pouca repercussão sobre o tempo total de cuidado (Nascimento et al., 2025; WHO, 2023a).
A coordenação clínica necessita de protocolos para estratificar urgência sem criar atalhos arbitrários ou discricionários. Resultados de alto risco devem desencadear prazos definidos, comunicação ativa com a equipe solicitante e avaliação da capacidade especializada. Indicadores úteis incluem proporção de exames com resultado entregue, intervalo mediano entre resultado suspeito e avaliação diagnóstica, casos sem desfecho identificado e tempos entre confirmação e tratamento. O monitoramento deve permitir recorte por território e vulnerabilidade, de modo a revelar se a média regional mascara filas muito prolongadas em determinadas populações (Sala et al., 2025; Varon et al., 2024; Brasil, 2025a).
4.7. Papel da Enfermagem e da Atenção Primária na Coordenação do Cuidado
A enfermagem atua de modo estratégico na educação em saúde, identificação de necessidades, execução de procedimentos dentro de competências regulamentadas, avaliação de situações que exigem encaminhamento e acompanhamento longitudinal. Em programas de rastreamento, sua participação pode incluir identificação de usuárias elegíveis, verificação do histórico de exames, explicação de orientações e comunicação com a equipe multiprofissional. Essa atuação precisa estar integrada a protocolos claros e à disponibilidade de serviços de referência, evitando que a realização de ações preventivas seja confundida com responsabilidade exclusiva por resultados que dependem da rede (Sala et al., 2025; Serra Tochetto et al., 2025; WHO, 2023a).
No seguimento de resultados alterados, a enfermeira ou o enfermeiro pode coordenar informações de retorno, orientar sinais de alerta, registrar pendências e negociar com equipes médicas, laboratório e regulação as etapas necessárias ao cuidado. A continuidade da comunicação é especialmente importante quando o serviço tem grande rotatividade de profissionais. Revisões de navegação evidenciam benefício quando há definição de tarefas, supervisão e registro do percurso. A presença de profissionais de enfermagem não substitui infraestrutura diagnóstica, mas pode reduzir a perda de informações e ampliar capacidade da unidade de acompanhar a mulher após cada decisão clínica (Mosquera et al., 2023; Nelson et al., 2025).
A consulta de enfermagem deve privilegiar escuta qualificada e linguagem acessível. Queixas como dor persistente, nódulo recente, sangramento pós-coital ou dificuldade de agendar retorno não devem ser minimizadas nem enquadradas automaticamente em rotinas de rastreamento. A equipe deve distinguir prevenção de avaliação de sintomas, documentar informações relevantes e direcionar a usuária ao profissional e ao serviço competentes. Estratégias de educação permanente podem fortalecer a identificação de problemas de comunicação e a prática de busca ativa, desde que acompanhadas de indicadores que revelem o fechamento do ciclo assistencial (Akoto; Allsop, 2023; Aguiar-Ibáñez et al., 2025; Brasil, 2025a).
4.8. Medicina, Radiologia, Laboratórios e Regulação Assistencial
A atuação médica integra avaliação de sintomas, estratificação de risco, definição de hipóteses diagnósticas e condução da investigação conforme recursos e atribuições profissionais. Especialidades como mastologia, ginecologia, patologia e radiologia devem estabelecer fluxos compatíveis com a gravidade dos achados, reduzindo solicitações repetitivas e atrasos na confirmação. O trabalho do radiologista e da equipe técnica interfere diretamente na qualidade das imagens e na padronização de laudos, enquanto a patologia fornece elementos decisivos para diagnóstico e escolha terapêutica. Essa articulação demanda comunicação bidirecional com a atenção primária e regras de encaminhamento verificáveis (Niell et al., 2024; Urban et al., 2023; Nascimento et al., 2025).
O laboratório de análises do HPV e o serviço de citopatologia precisam oferecer critérios uniformes de identificação da amostra, processamento, rastreabilidade e emissão dos resultados. A falha em qualquer etapa pode produzir exame inválido ou atraso desnecessário. Da mesma maneira, a regulação de colposcopias e biópsias deve considerar risco clínico e capacidade instalada. A experiência de programas organizados demonstra que tecnologia e logística devem ser planejadas em conjunto: ampliar testes sem garantia de triagem e avaliação dos resultados positivos desloca o problema para outra fila (Brasil, 2025a; WHO, 2024; Serra Tochetto et al., 2025).
A perspectiva multiprofissional exige decisões clínicas compartilhadas, porém não implica dissolução de responsabilidades legais ou competência técnica. A gestão deve definir claramente quem solicita, executa, interpreta e comunica exames, quem encaminha e quem confirma que a usuária foi atendida. Matriz de responsabilidades, canais de contato e reuniões de discussão de casos complexos são ferramentas potenciais. O acompanhamento de inconformidades deve privilegiar melhoria do processo, distinguindo falhas individuais de problemas sistêmicos e evitando que as usuárias tenham de atuar como mensageiras entre serviços sem integração (WHO, 2023a; Sala et al., 2025; Nelson et al., 2025).
4.9. Psicologia, Serviço Social e Necessidades Psicossociais
A investigação de uma suspeita oncológica pode mobilizar ansiedade, medo de morte, preocupações sobre sexualidade, imagem corporal e manutenção do trabalho. A oferta de escuta psicológica e suporte emocional deve começar quando há necessidade identificada, sem aguardar diagnóstico definitivo. Mulheres que apresentam resultado positivo para HPV podem interpretar o achado como sinal de infidelidade ou de câncer inevitável; a comunicação clínica precisa evitar estigmatização e oferecer explicações cientificamente corretas. O acolhimento é componente da segurança do cuidado quando favorece compreensão, adesão informada e continuidade das etapas previstas (Farajimakin, 2024; Dau et al., 2023; WHO, 2023b).
O serviço social contribui para identificar benefícios disponíveis, barreiras de transporte, fragilidade de redes familiares, necessidades de cuidado de dependentes e outras condições que comprometem o comparecimento. Revisões sobre repercussões do câncer cervical evidenciam impactos sociais e econômicos que podem ultrapassar a pessoa diagnosticada, atingindo a organização familiar. A intervenção deve ocorrer dentro dos recursos e critérios de cada território, articulando proteção social sem prometer benefícios inexistentes. A presença desse apoio pode ser crucial para mulheres que precisam escolher entre comparecer à consulta e preservar renda imediata (Dau et al., 2023; Chattopadhyay et al., 2024).
A atenção ampliada demanda abordagem culturalmente responsiva e livre de práticas discriminatórias. Mulheres negras, indígenas, migrantes e pessoas trans podem ter experiências diferenciadas de acesso, confiança e segurança no atendimento, embora essas experiências não possam ser reduzidas a categorias fixas. A equipe deve reconhecer nome e identidade declarados, assegurar sigilo e ofertar procedimentos segundo a anatomia e as necessidades de saúde pertinentes. A formação permanente sobre comunicação e direitos das usuárias pode diminuir barreiras invisíveis para instrumentos tradicionais que apenas contabilizam exames, favorecendo relações terapêuticas mais estáveis (Berzansky; Reynolds; Charlton, 2024; Aliu; Kerrison; Marcu, 2025; Buckley et al., 2025).
4.10. Fisioterapia, Reabilitação e Qualidade de Vida
O cuidado integral não termina com a confirmação diagnóstica. Para mulheres submetidas a cirurgia, quimioterapia ou radioterapia, podem surgir limitações funcionais, dor, fadiga e dificuldades para retomar atividades cotidianas. Revisões recentes sobre exercícios e reabilitação em câncer de mama indicam benefícios potenciais em capacidade funcional e qualidade de vida, respeitadas diferenças entre protocolos e condições clínicas. A avaliação fisioterapêutica pode integrar planos individualizados de reabilitação e prevenção de complicações funcionais, em coordenação com a equipe oncológica responsável pelo tratamento e pela segurança das intervenções (Monte Nero et al., 2025; Ramos et al., 2025; Xue; Zhang; Zhang, 2025).
O planejamento deve evitar prescrições uniformes e contemplar estágio terapêutico, fadiga, comorbidades, risco de complicações, preferências e possibilidades de acompanhamento. A participação da fisioterapia reforça a abordagem multiprofissional porque desloca o foco da doença isolada para o funcionamento cotidiano e a participação social. Contudo, o benefício de intervenções pós-tratamento não prova eficácia na adesão inicial ao rastreamento; são fases assistenciais distintas. O artigo considera a reabilitação por sua conexão com o cuidado longitudinal e com a necessidade de evitar descontinuidade após o encaminhamento oncológico (Ramos et al., 2025; Xue; Zhang; Zhang, 2025).
Projetos territoriais podem articular educação física, fisioterapia, psicologia e apoio comunitário para manutenção da funcionalidade e fortalecimento de vínculos, desde que haja avaliação clínica e coordenação das atividades. O acompanhamento da qualidade de vida deve ser combinado com indicadores de segurança, dor, retorno às atividades e participação da usuária nas escolhas. Para contextos com escassez de especialistas, planos domiciliares supervisionados remotamente podem oferecer alternativas, mas precisam considerar exclusão digital e não podem ser tratados como substitutos absolutos da avaliação presencial em situações de risco (Ramos et al., 2025; Zhang et al., 2024; Monte Nero et al., 2025).
4.11. Agentes Comunitários, Ações Extramuros e Busca Ativa
A proximidade da Estratégia Saúde da Família com o território favorece identificação de barreiras que dificilmente aparecem em sistemas de informação: mudança de endereço, perda de documentos, necessidade de cuidados familiares e dificuldades para compreender mensagens automatizadas. Agentes comunitários podem apoiar atualização cadastral, entrega de orientações não invasivas, convocação conforme protocolos e identificação de necessidades de acesso. Sua atuação requer delimitação clara de funções, supervisão e respeito ao sigilo, sobretudo em pequenas comunidades nas quais mencionar um exame específico pode expor informações privadas sem autorização (Gomes et al., 2025; Mosquera et al., 2023; WHO, 2023).
Ações extramuros podem aproximar serviços de comunidades distantes, mas precisam ser articuladas à capacidade de produzir laudo, comunicar resultados e encaminhar alterações. Uma campanha itinerante que realiza muitos exames e não assegura seguimento pode criar falsa sensação de êxito. Experiências internacionais com apoio comunitário e estratégias ativas de autocoleta sugerem que a confiança interpessoal favorece participação; a aplicação local deve ser construída com atores comunitários sem substituir critérios clínicos ou processos de avaliação. A busca ativa mais adequada é aquela que identifica o obstáculo concreto e oferece solução proporcional (Mackay et al., 2025; Ferrari et al., 2025; Wong; Wong, 2024).
O trabalho conjunto com profissionais da unidade pode organizar listas de mulheres que não receberam resultado ou faltaram à avaliação especializada. Essas listas não devem gerar abordagem coercitiva: a mulher conserva direito de decisão e privacidade, e a equipe precisa reconhecer motivos legítimos para adiamento ou recusa informada. A prioridade deve recair sobre confirmação do contato e oferta de condições reais de atendimento. A qualidade da busca ativa se mede pela redução de perdas de seguimento e pela satisfação com a comunicação, não apenas pelo número de visitas ou mensagens realizadas (Nelson et al., 2025; Varon et al., 2024; Akoto; Allsop, 2023).
4.12. Telessaúde, Lembretes e Proteção de Dados
Soluções digitais podem melhorar a comunicação entre consultas e reduzir esquecimentos, especialmente quando combinam lembretes, orientações sobre preparo e possibilidade de remarcar horários. Uma metanálise em rede identificou melhora da participação em rastreamentos com diferentes modalidades de telessaúde, mas os resultados são heterogêneos e sensíveis ao perfil da população. A seleção entre telefonema, mensagem de texto, aplicativo e contato presencial precisa considerar disponibilidade de aparelho, estabilidade do número e preferência da mulher. A automatização indiscriminada pode aumentar desigualdades quando pessoas com menor conectividade deixam de receber alternativas adequadas (Zhang et al., 2024; Ferrari et al., 2025).
O conteúdo das mensagens deve proteger a confidencialidade e evitar comunicar resultados sensíveis por canais inseguros. Para alertas sobre encaminhamentos, linguagem neutra e verificação da identidade podem reduzir exposição indevida em telefones compartilhados. Além disso, a equipe deve registrar respostas e encaminhar demandas clínicas ao profissional responsável, em vez de apresentar o envio automático como prova de contato efetivo. A tecnologia deve auxiliar acompanhamento e gerar trilhas auditáveis, sem criar a falsa expectativa de que todas as mulheres possam responder pelo mesmo meio (WHO, 2023a; Nelson et al., 2025; Zhang et al., 2024).
A avaliação de ferramentas digitais precisa considerar custos de manutenção, capacitação dos profissionais, interoperabilidade entre serviços e riscos de desatualização de cadastros. Um painel de dados que identifica exames pendentes pode ser valioso quando existe equipe capacitada para agir; na ausência de oferta assistencial, a informação expõe o gargalo sem resolvê-lo. Recomenda-se testar intervenções em escala local, medir resultados clínicos e aperfeiçoar os fluxos antes da expansão. A abordagem preserva o cuidado centrado na pessoa e evita confundir inovação tecnológica com melhoria automaticamente demonstrada (Zhang et al., 2024; Sala et al., 2025; Chattopadhyay et al., 2024).
4.13. Navegação, Desempenho e Custo-Efetividade das Intervenções
A síntese quantitativa de Nelson e colaboradores, publicada em 2025, reuniu ensaios randomizados sobre navegação de pacientes e encontrou aumento de participação tanto no rastreamento mamário quanto no cervical. O resultado fortalece a hipótese de que apoio ativo é superior à expectativa de que a usuária transite sozinha entre serviços complexos. Todavia, os efeitos variaram por contexto, composição da intervenção e desfecho, de modo que índices de melhora de outros países não devem ser empregados como metas automáticas para o SUS. A implantação exige definição da população prioritária e capacidade de absorver encaminhamentos (Nelson et al., 2025; Mosquera et al., 2023).
Análises econômicas sobre navegação e estratégias de ampliação do rastreamento sugerem potencial de custo-efetividade em situações selecionadas, embora haja heterogeneidade de custos e escassez de estudos em determinados tipos de câncer e sistemas. A decisão de financiamento requer distinguir custo por exame adicional realizado, custo por caso efetivamente diagnosticado e custo por benefício clínico relevante. Um serviço pode aumentar testes e, ao mesmo tempo, perder eficiência se produzir repetição desnecessária, filas de confirmação ou abandono após resultado alterado. O desenho de avaliação deve incorporar custos diretos, transporte, tempo da usuária e capacidade de tratamento (Chattopadhyay et al., 2024; Phillips; Montoya; Adams, 2024; Tian et al., 2022).
A navegação é especialmente útil quando implementada com objetivos explícitos e mecanismos de supervisão, incluindo identificação de riscos de perda de seguimento, apoio no agendamento e comunicação articulada com a rede. Em revisão dos componentes de programas, Mosquera e colaboradores observaram variação importante na descrição de treinamento e supervisão, questão que dificulta replicação. Para o SUS, convém especificar quais atividades serão atribuídas à equipe de enfermagem, à assistência social, aos agentes comunitários e aos profissionais administrativos, evitando sobreposição de tarefas e lacunas de responsabilização (Mosquera et al., 2023; Nelson et al., 2025; Sala et al., 2025).
4.14. Monitoramento da Linha de Cuidado e Indicadores de Equidade
O monitoramento deve acompanhar toda a cadeia assistencial, desde a identificação da população elegível até a decisão clínica final. Sugere-se observar cobertura por faixa etária e território, intervalo entre convocação e exame, proporção de resultados disponíveis e comunicados, tempo entre achado suspeito e avaliação complementar, perda de seguimento e intervalo até o início do tratamento quando indicado. Indicadores devem ser estratificados por vulnerabilidade social e localização geográfica sempre que houver dados confiáveis e salvaguardas de privacidade. O objetivo não é criar rankings punitivos, mas detectar onde a rede deixa de responder às necessidades das usuárias (Gomes et al., 2025; Nascimento et al., 2025; Sala et al., 2025).
O aumento no número de exames não deve ser automaticamente interpretado como ampliação de prevenção eficaz. O indicador pode refletir concentração de procedimentos em mulheres já cobertas, repetição fora do intervalo ou maior oferta em territórios de melhor infraestrutura. A avaliação apropriada diferencia convite de realização, exame de resultado conhecido e resultado alterado de desfecho clínico confirmado. Para o rastreamento cervical com HPV, a qualidade inclui cumprimento do algoritmo de triagem e acompanhamento das pessoas positivas. Para a mama, deve incluir capacidade de investigação rápida dos achados de imagem suspeitos (Brasil, 2025; Brasil, 2025; WHO, 2023).
A gestão compartilhada pode institucionalizar reuniões periódicas entre atenção primária, regulação, serviços de imagem, laboratório e atenção especializada. Em cada etapa, convém identificar causas frequentes de atraso e pactuar medidas corretivas mensuráveis, com devolutiva aos profissionais e participação das usuárias. Pesquisas de implementação recomendam interpretar indicadores no contexto dos recursos disponíveis e da organização local, pois soluções padronizadas nem sempre funcionam igualmente em territórios diferentes. A governança da linha de cuidado deve reconhecer que resultados equitativos requerem distribuição diferenciada de esforços segundo a magnitude das barreiras (Sala et al., 2025; Jhumkhawala et al., 2024; WHO, 2023).
Para interpretar cobertura, é necessário explicitar como se define o denominador da população-alvo, quais registros são utilizados e como são tratados exames realizados em serviços públicos e privados. Mudanças demográficas, migrações e cadastros desatualizados podem produzir taxas artificiais e dificultar comparações entre municípios. Indicadores agregados também podem ocultar grupos com menor acesso, sobretudo quando não há desagregação por idade, raça/cor autodeclarada, escolaridade, deficiência e local de residência. A avaliação da equidade deve reconhecer lacunas na qualidade desses campos e priorizar a melhoria do registro, sem transformar a ausência de dado em atributo presumido das usuárias. A transparência metodológica é condição para que gestores e equipes interpretem tendências com prudência (Gomes et al., 2025; Jhumkhawala et al., 2024; Andiwijaya et al., 2022).
Além de cobertura, é pertinente examinar o tempo percorrido em cada transição: do convite ao agendamento, do exame à emissão do laudo, da comunicação ao exame confirmatório e deste à definição terapêutica. O simples cálculo de média pode esconder mulheres com esperas muito longas; por isso, distribuições por percentis e proporções acima de prazos pactuados podem ser mais informativas. Toda medida deve ser vinculada a uma ação assistencial possível, com identificação da unidade responsável e revisão de pendências até a solução. No acompanhamento cervical, a avaliação deve incluir a conclusão da conduta após teste positivo; no mamário, é fundamental diferenciar rastreamento alterado, investigação concluída e tratamento efetivamente iniciado (Nascimento et al., 2025; Varon et al., 2024; Sala et al., 2025).
4.15. Síntese Crítica e Proposta Operacional Multiprofissional
O conjunto das evidências sustenta um modelo de cuidado em quatro eixos articulados. O primeiro é a identificação ativa de mulheres elegíveis e a oferta de informação compreensível, considerando as diferenças entre rastreamento e investigação de sintomas. O segundo corresponde à realização de exame indicado e tecnicamente qualificado, com agendamento viável e acolhimento. O terceiro envolve contato efetivo sobre o resultado, decisão clínica e encaminhamento documentado. O quarto exige acompanhamento até conclusão do percurso, com apoio psicossocial e reabilitação quando necessários. A proposta não equivale a protocolo clínico universal: sua execução deve observar diretrizes nacionais e pactuações regionais (Brasil, 2025; Brasil, 2025; WHO, 2023).
Na distribuição de responsabilidades, a atenção primária mantém cadastro e acompanhamento longitudinal; profissionais médicos conduzem investigação e conduta segundo suas competências; enfermagem organiza educação, cuidado e seguimento; radiologia, laboratórios e patologia asseguram qualidade diagnóstica; assistência social e psicologia abordam obstáculos socioeconômicos e sofrimento; e fisioterapia contribui para a recuperação funcional na fase indicada. A regulação precisa coordenar a circulação entre serviços, enquanto gestores monitoram capacidade de oferta e equidade. Essa organização evita que a mulher seja obrigada a reconstruir sua trajetória a cada consulta e fortalece a responsabilização compartilhada (Mosquera et al., 2023; Xue; Zhang; Zhang, 2025; Dau et al., 2023).
Duas precauções são essenciais. A primeira consiste em não confundir recomendações de rastreamento para populações assintomáticas com resposta a sintomas ou a risco individual elevado. A segunda é não tratar a inovação isoladamente como solução: autocoleta, aplicativos, navegação e equipamentos devem ser integrados à disponibilidade de confirmação diagnóstica e tratamento. A ausência de estudos primários brasileiros em alguns componentes e a heterogeneidade das revisões recomendam avaliação prospectiva de intervenções locais. O benefício esperado é a redução de lacunas de acesso e de seguimento, sem prometer efeitos quantitativos não demonstrados neste estudo (Mackay et al., 2025; Nelson et al., 2025; Urban et al., 2023).
Como proposta de implementação, a rede pode iniciar projeto-piloto em territórios com elevada demanda reprimida, mapeando o itinerário da usuária e pactuando responsabilidades por resultados pendentes. O planejamento deve prever capacitação breve de equipes, canais de comunicação com retorno confirmado, agenda reservada para investigação de achados suspeitos e reuniões de avaliação em ciclos definidos. A primeira fase deve medir viabilidade e aceitabilidade, além de levantar motivos de não comparecimento sem culpabilizar as mulheres. A expansão pode ocorrer depois de verificada a capacidade de atendimento e de resolvidos os gargalos identificados, pois convites adicionais sem acesso ao diagnóstico não representam avanço suficiente da linha de cuidado (Mosquera et al., 2023; Sala et al., 2025; Nelson et al., 2025).
A participação das próprias mulheres no planejamento torna os fluxos mais responsivos a necessidades que não aparecem em protocolos. Entrevistas de experiência, comunicação de devolutivas e avaliação da compreensão das orientações podem revelar obstáculos relativos a horários, privacidade, transporte, linguagem e acolhimento. A decisão compartilhada não substitui critérios técnicos de rastreamento, mas permite expor benefícios, limitações, riscos de resultados falsos e possíveis procedimentos subsequentes de forma acessível. Quando uma pessoa recusa ou adia o exame, o registro deve preservar autonomia e permitir nova abordagem apropriada, em vez de encerrar o vínculo assistencial. Em síntese, uma intervenção multiprofissional só se sustenta quando combina evidência, capacidade organizacional e respeito às escolhas informadas das usuárias (Akoto; Allsop, 2023; Tavakoli et al., 2024; WHO, 2023).
5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise crítica identifica que as barreiras à detecção precoce do câncer de mama e do colo do útero são multidimensionais e se reforçam ao longo do percurso assistencial. A insuficiência de informação, o medo, as dificuldades de transporte, as desigualdades territoriais, a inacessibilidade de serviços e a descontinuidade entre exames, resultados e encaminhamentos limitam o potencial das estratégias de rastreamento e diagnóstico precoce. O enfrentamento dessas barreiras exige mais do que ampliar a quantidade de procedimentos realizados.
O objetivo do estudo é atendido ao demonstrar que a resolutividade depende da articulação entre atenção primária, apoio diagnóstico, regulação e atenção especializada, com responsabilidades definidas para equipes multiprofissionais. Educação em saúde, acolhimento, navegação de pacientes, busca ativa proporcional às necessidades, comunicação segura e monitoramento de resultados constituem componentes complementares de uma linha de cuidado capaz de reduzir perdas assistenciais.
No contexto brasileiro, a organização do rastreamento mamográfico e a transição para testes de DNA-HPV devem observar recomendações ministeriais vigentes, sem confundir protocolos populacionais com investigação clínica de pessoas sintomáticas ou de maior risco. A implantação de novas tecnologias requer capacidade laboratorial, pessoal qualificado, comunicação efetiva e garantia de continuidade até a conclusão da conduta indicada. A equidade deve orientar prioridades e indicadores, com atenção especial a territórios e grupos historicamente subatendidos.
Como limite, reconhece-se que a revisão narrativa dirigida não fornece estimativas de prevalência de barreiras nem medidas agregadas inéditas de efetividade. Recomenda-se que pesquisas posteriores empreguem protocolos reprodutíveis e avaliações de implementação em redes brasileiras, incorporando desfechos de diagnóstico conclusivo, tempo até tratamento e experiência das usuárias. A contribuição central do artigo consiste em defender uma prevenção organizada e centrada nas pessoas, na qual o exame constitui etapa de um cuidado contínuo e responsável.
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1 Graduado em Medicina pela Universidade de Rio Verde – Aparecida de Goiânia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: https://lattes.cnpq.br/0278805449803477.
2 Graduação em Enfermagem. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: https://lattes.cnpq.br/1477878254178982.
3 Aluno de Medicina. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-4729-3360.
4 Enfermeira, mestranda em biotecnologia pela UCDB, atuando na área de saúde do adolescente e promoção da Saúde. Lattes: http://lattes.cnpq.br/1372360955865415
5 Medicina (2022), Faculdade SLM – Campinas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
6 Mestrado em Enfermagem pela UFRGS. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: http://lattes.cnpq.br/7887464010847916
7 Mestrado. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-0247-961X.
8 Aluna de graduação em Enfermagem. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-9769-0251.
9 Aluna de Enfermagem. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-2823-2984.
10 Enfermagem. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: https://lattes.cnpq.br/4764560775986583.
11 Gestão Pública. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
12 Biólogo; Tecnólogo em Radiologia; Especialista em Radioterapia e Docência em Saúde. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-0928-7169.
13 Enfermeira. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
14 Fisioterapeuta. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. Lattes: https://lattes.cnpq.br/4196312346452455.
15 Graduação em Enfermagem. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
16 Pós-graduado em Administração e Gestão Hospitalar. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
17 Pós-graduada em Enfermagem em Cardiologia. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
18 Pós-graduado em Hematologia e Banco de Sangue, Análises Clínicas e Microbiologia e Biologia Molecular. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
19 Mestre em Saúde Pública. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.
20 Pós-graduada em Auditoria em Serviços de Saúde. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail.