AVALIAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DA CULTURA NEGATIVA NA MASTITE BOVINA EM FAZENDAS LEITEIRAS DA REGIÃO DE FORMIGA-MG
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REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.18563788
Lethícia Costa Cunha Lara de Albuquerque1
Sávio Henrique Silva de Andrade2
Lara Luísa de Camargos Guimarães3
Leonardo Borges Acurcio4
RESUMO
A mastite é uma inflamação da glândula mamária que causa perdas econômicas na produção leiteira. Até 85% dos animais apresentam cura espontânea e desaparecimento dos grumos sem o uso de antimicrobianos, nos casos de cultura negativa. O trabalho objetiva verificar a participação da cultura microbiológica negativa na mastite bovina nas fazendas leiteiras da região de Formiga-MG. Foram coletadas amostras de leite de vacas com mastite durante março a maio de 2020 e 2021 em fazendas leiteiras da região de Formiga e realizada a cultura microbiológica nos meios ágar BHI, MacConkey, Hipertônico Manitol e meio cromogênico SmartColor®. De acordo com as análises, constatou-se participação da cultura negativa em 30% das amostras. Os dados mostram necessidade de incluir a cultura microbiológica na fazenda objetivando direcionar o tratamento da mastite, reduzir uso de antimicrobianos, a resistência dos microrganismos, reduzir o descarte de leite e as chances de resíduos de antimicrobianos no tanque. Com o não tratamento da cultura negativa, o produtor pode economizar, em média, R$41,50 com o leite de descarte e antimicrobiano intramamário, enquanto o custo com a cultura microbiológica seria, em média, R$10,00 por amostra. Conclui-se que a cultura negativa foi frequentemente isolada (30%) nas fazendas leiteiras da região de Formiga-MG.
Palavras-chave: Infecção mamária. Leite. Microbiologia. Resistência bacteriana.
ABSTRACT
Mastitis is an inflammation of the mammary gland that causes economic losses in dairy production. Up to 85% of the animals show spontaneous healing and the disappearance of clumps without the use of antimicrobials, in cases of negative culture. The work aims to verify the participation of negative microbiological culture in bovine mastitis in dairy farms in the region of Formiga-MG. Milk samples were collected from cows with mastitis during March to May 2020 and 2021 in dairy farms in the Formiga region and microbiological culture was performed on BHI agar, MacConkey, Mannitol Hypertonic and SmartColor® chromogenic medium. According to the analyses, participation of the negative culture was found in 30% of the samples. The data show the need to include the microbiological culture on the farm in order to direct the treatment of mastitis, reduce the use of antimicrobials, the resistance of microorganisms, reduce the discard of milk and the chances of antimicrobial residues in the tank. By not treating the negative culture, the producer can save, on average, R$41.50 with discard milk and intramammary antimicrobial, while the cost with the microbiological culture would be, on average, R$10.00 per sample. It is concluded that the negative culture was frequently isolated (30%) in dairy farms in the region of Formiga-MG.
Keywords: Udder infection. Milk. Microbiology. Bacterial resistance.
1. INTRODUÇÃO
O Brasil é um dos maiores produtores de leite do mundo e, por este motivo, surgem desafios que devem ser enfrentados pelos produtores e laticínios, sendo um destes, a mastite bovina (Dell’osbel et al., 2019)
A mastite é uma inflamação da glândula mamária (Santos & Fonseca, 2019) que possui diversas etiologias, que vão desde traumas e intoxicações até os casos mais relevantes, causados por infecções bacterianas. Verificando-se que as bactérias mais frequentemente associadas à mastite são: Staphylococcus aureus, Streptococcus agalactiae, Streptococcus dysgalactiae, Streptococcus uberis, Escherichia coli, Pseudomonas aeruginosa, Corynebacterium spp., Klebsiella spp., Nocardia spp. (Zimermann & Araújo, 2017), entre outras. Algumas são mais patogênicas e/ou resistentes ao tratamento antibiótico que outras, o que dificulta ou facilita a resolução da enfermidade.
Os agentes etiológicos causadores de mastites podem variar de acordo com o clima, raça e sistema de produção utilizado na criação dos animais (Mendonza et al., 2017), por exemplo, meses com maior incidência de chuva e altas temperaturas predispõem ao surgimento de mastite ambiental (Silva & Antunes, 2018). Isso ocorre em animais criados em sistemas intensivos mal manejados, tendo maior predisposição à mastite devido ao contato com matéria orgânica e umidade (Oliveira et al., 2012).
Normalmente a mastite envolve três principais fatores que terão influência direta na ocorrência e no modo como a enfermidade irá se manifestar, sendo estes a resistência do animal (os mecanismos de defesa do hospedeiro), o ambiente (clima da região e limpeza das instalações) e o agente patogênico (etiologia e fator de virulência) (Kurosawa et al., 2019)
Há duas formas de apresentação da doença, quanto a manifestação dos sintomas: a mastite clínica e a subclínica. A mastite clínica apresenta alterações visíveis a olho nu, como pus e grumos no leite, edema, rubor e aumento da temperatura da glândula mamária. Na mastite subclínica, as alterações não são visíveis a olho nu, mas apresenta aumento da contagem de células somáticas (CCS) do leite (Zimermann & Araújo, 2017). A mastite clinica pode ser reconhecida por meio dos sinais clínicos citados acima e por meio do teste da caneca telada (TCT), avaliando a presença de alterações no aspecto, cor e odor do leite. Já o diagnóstico de mastite subclínica ocorre, usualmente, por meio do California Mastitis Test (CMT) ou CCS individual (Silva & Rizzo, 2019).
Independentemente do patógeno, a mastite leva a perdas na produção de leite durante todo o processo de lactação (Costa et al., 2019), dentre as principais perdas estão, respectivamente: redução da produção de leite, desvalorização do animal devido à perda ou diminuição da função do quarto mamário afetado, descarte ou morte antecipada dos animais, perda de leite por motivo de contaminação microbiológica ou devido à presença de resíduos de antimicrobianos pós-tratamento, gastos com o tratamento e honorários veterinários (Freitas et al., 2019).
A forma mais comum de enfrentar a mastite é através da administração de antimicrobianos intramamário ou antimicrobianos sistêmicos (USDA, 2016), entretanto há uma preocupação crescente sobre a utilização de antimicrobianos em animais de fazenda (Stilfferlin, 2021). As preocupações com o uso indiscriminado dos antimicrobianos é crescente, pois pode representar um risco a saúde pública através de seleção e disseminação de bactérias resistentes (Stevens et al., 2019), causando comprometimento da eficácia dos tratamentos com antimicrobianos (Freitas et al., 2018).
O alto custo relacionado com o tratamento da mastite gera um grande impacto econômico na produção leiteira e a identificação dos agentes causadores da mastite, por meio da cultura microbiológica possibilita um direcionamento do tratamento com taxas de cura otimizadas e adequações de práticas de manejo que se tornam mais precisas (Stessari et al., 2019). Um estudo recente, realizado com vinte rebanhos leiteiros, mostrou que em média 44% do total de amostras de leite de vacas com mastite clínica são representadas pela cultura negativa, ou seja, ausência de crescimento microbiano nos meios de cultura, mesmo quando a coleta e os métodos de isolamento são realizados de forma correta (Tomazi et al., 2018). A cultura negativa pode ocorrer por diversos motivos, dentre eles podemos citar: eliminação espontânea da infecção, baixo número de patógenos no leite, posicionamento intracelular de determinados patógenos e a possibilidade de microrganismos incomuns, como fungos, leveduras, Mycoplasma spp., entre outros que não crescem nos meios de cultura tradicionais (Brito, 2009).
Segundo Fuenzalida e Ruegg (2019) em estudo recentemente desenvolvido nos Estados Unidos, no qual foram analisadas as respostas a tratamentos, com e sem antimicrobianos, em vacas diagnosticadas com cultura negativa na mastite clínica, o tratamento com antimicrobiano nos casos de cultura negativa não foi efetivo. Além disso, o total de dias de descarte do leite foi em média três dias a mais para as vacas tratadas com antimicrobianos se comparado com as vacas não tratadas, chegando a conclusão de que o tratamento de cultura negativa é desnecessário pois, na maioria dos casos, o animal consegue resolver a infecção de forma espontânea. Assim, reduz-se um gasto desnecessário com o tratamento e com o aumento das chances de resistência bacteriológica.
Até 85% dos casos de cultura negativa apresentam cura espontânea durante a mastite subclínica e quando ocorre a mastite clínica, normalmente apresentam desaparecimento dos grumos em quatro a seis dias, sem nenhuma intervenção com antimicrobianos, sendo indicado assim, descartar o leite com alteração, monitorar o animal e, se necessário, fazer o uso de anti-inflamatórios não esteroidais, para reduzir o processo inflamatório na glândula mamária. Caso persistam os sintomas, a terapia com antimicrobianos intramamários de curta duração pode ser indicada (Ruegg, 2018).
Logo, o objetivo do presente trabalho consiste em verificar a participação da cultura negativa na mastite clínica e subclínica nas fazendas leiteiras da região de Formiga-MG.
2. METODOLOGIA
Para realização do estudo, durante os meses de março, abril e maio de 2020 e 2021, foram coletadas amostrar de leite de 112 animais, de 15 fazendas leiteiras da região de Formiga-MG, de forma asséptica, descartando os primeiros jatos de leite. Na primeira bateria de analise, em 2020, foram coletadas 44 amostras e na segunda bateria, em 2021, foram coletadas 68 amostras.
Dentre os 112 animais, 74 foram identificados com mastite clínica, por meio do teste da canela telada e os outros 38 foram identificados com mastite subclínica, por meio do teste California Mastitis Test (CMT), teste que mensura o número de células somáticas no leite (Rodriguez, 2020) com base na viscosidade do leite com o reagente de detergente aniônico neutro (CMT) (Santos & Fonseca, 2019).
As amostras foram acondicionadas em caixas isotérmicas sob refrigeração com gelo reciclável e encaminhadas ao Laboratório de Microbiologia do Centro Universitário de Formiga (UNIFOR/MG) para identificação dos agentes etiológicos causadores da mastite e avaliação da participação da cultura negativa na mastite bovina clínica e subclínica.
As amostras de leite de vacas com mastite foram divididas em duas baterias de análises microbiológicas, sendo a primeira bateria composta de 44 amostras, onde havia 10 amostras de leite de vacas com mastite clínica e 34 amostras de leite de vacas com mastite subclínica e a segunda bateria composta de 68 amostras, onde 40 amostras eram de leite de vacas com mastite clínica e 28 amostras eram de leite de vacas com mastite subclínica (Quadro 1).
Quadro 1. Descrição do número de amostras de leite de vacas com mastite clínica e subclínica coletadas para a bateria de análises microbiológicas.
Bateria de análise | Propriedade | Nº de amostras | Nº de amostras de leite de vacas com mastite clínica | Nº de amostras de leite de vacas com mastite subclínica |
Primeira | 1 | 3 | 0 | 3 |
2 | 17 | 5 | 12 | |
3 | 10 | 5 | 5 | |
4 | 8 | 0 | 8 | |
5 | 6 | 0 | 6 | |
Segunda | 6 | 3 | 3 | 0 |
7 | 1 | 1 | 0 | |
8 | 20 | 11 | 9 | |
9 | 6 | 6 | 0 | |
10 | 5 | 2 | 3 | |
11 | 10 | 9 | 1 | |
12 | 10 | 0 | 10 | |
13 | 2 | 2 | 0 | |
14 | 1 | 1 | 0 | |
15 | 10 | 5 | 5 | |
Total | 15 | 112 | 50 | 62 |
Na primeira bateria de amostras foi realizada cultura microbiológica para identificação dos microrganismos causadores da mastite, por meio de plaqueamento por estriamento nos meios ágar BHI, ágar MacConkey e ágar Sal Manitol.
O meio ágar BHI (HiMedia, Mubai, Índia) foi utilizado para o crescimento indistinto de microrganismos (Santos & Fonseca, 2019).
O meio ágar MacConkey (Kasvi, São José dos Pinhais, Brasil) é um meio seletivo e diferencial para identificação de coliformes relacionados com o grupo das bactérias Gram negativo, onde Escherichia coli, Klebsiella spp. e Enterobacter spp. conseguem fermentar a lactose e formam colônias rosa se diferenciando de outros coliformes que não conseguem usar a lactose (Santos & Fonseca, 2019).
O meio ágar Sal Manitol (Kasvi, São José dos Pinhais, Brasil) é um meio seletivo e diferencial para o crescimento de Staphylococcus aureus, onde o mesmo consegue fermentar o manitol formando colônias amarelas e Staphylococcus não aureus que por não fermentarem o manitol, formam colônias da cor rosa (Levy, 2004).
Ambos os meios são mais utilizados na cultura microbiológica laboratorial, pois embora sejam de baixo custo e fácil realização, precisam ser realizadas por profissionais capacitados através de procedimentos microbiológicos padronizados, pois a realização de métodos não adequados podem ocasionar diagnósticos indeterminados, aumento dos custos e desperdício de instrumentos (Santos & Fonseca, 2019).
Na segunda bateria de análise foi realizado a cultura microbiológica por meio de plaqueamento por estriamento em meio SmartColor® (OnFarm, Piracicaba, Brasil), que consiste em três meios cromogênicos diferenciais desenvolvidos para a identificação de patógenos de acordo com as características e coloração das colônias, sendo ideal para utilização em programas de cultura microbiológica na fazenda (cultura on-farm), pois possui bom custo benefício, pode ser utilizado em laboratórios básicos, com resultados rápidos após 18 a 24 horas após a incubação e pode ser facilmente manuseado por colaboradores treinados (Santos & Fonseca, 2019)
Todos os meios foram incubados em estufa a 37ºC por pelo menos 24 horas (Oliveira et al., 2012). Após o processo de incubação e desenvolvimento das colônias, foram observadas as características morfologias do crescimento, como tamanho, coloração e tipo (Zimermann & Araújo, 2017) (Quadro 2).
Quadro 2. Descrição da apresentação dos microrganismos causadores da mastite após crescimento nos meios de cultura utilizados.
Meios de cultura | Microrganismo | Descrição |
Ágar MacConkey | Coliformes fermentadores de lactose (Escherichia coli, Klebsiella spp., Enterobacter spp.) | Rosa |
Coliformes não fermentadores de lactose (Salmonella spp., Proteus spp., Pseudomonas spp.) | Amarelo | |
Ágar Hipertônico Manitol | Staphylococcus aureus | Amarelo |
Staphylococcus não aureus | Rosa | |
SmartColor Etapa 1(18) | Streptococcus uberis | Azul escuro metálico |
Enterococcus spp. | Roxo | |
Lactococcus spp. | Rosa claro | |
Streptococcus agalactiae / Streptococcus dysgalactiae | Azul turquesa/ Azul claro | |
Outros gram positivos não Staphylococcus sp. | Outras cores | |
SmartColor Etapa 2(18) | Escherichia coli | Roxo/vinho |
Klebsiella spp., Enterobacter spp. | Azul escuro | |
Serratia spp. | Azul claro-esverdeado | |
Pseudomonas spp. | Amarelo esverdeado | |
Levedura e Prototheca spp. | Pequena, branca-acinzentada e seca | |
SmartColor Etapa 3(18) | Staphyloccoccus aureus | Rosa |
Staphylococcus não aureus | Outras cores |
Por fim, após a classificação primária de acordo com a cultura microbiológica, as amostras da primeira bateria foram submetidas a coloração de Gram, para diferenciação das amostras em dois grupos de bactérias, gram positiva e gram negativa, de acordo com a visualização microscópica da forma, tamanho e coloração dos microrganismos (Santos & Fonseca, 2019) e ao teste da catalase, para diferenciação de bactérias catalase positiva como Staphylococcus spp. de bactérias catalase negativa, como Streptococcus spp. (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e algumas amostras da segunda bateria foram submetidas a coloração de Gram para auxiliar na diferenciação do microrganismo.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
De acordo com os resultados obtidos nas análises, pode se perceber a participação da cultura negativa em 30% das amostras, Streptococcus spp. em 25%, Staphylococcus aureus em 20%, Staphylococcus não aureus em 15%, coliformes em 4%, Klebsiella spp. em 3%, leveduras em 1%, Pseudomonas spp. em 1%, Serratia spp. em 1% e Prototheca spp. em 1% (Tabela 2).
Tabela 1. Microrganismos identificados em amostra de leite de vacas com mastite clínica e subclínica de 15 fazendas leiteiras da região de Formiga-MG e a participação da cultura negativa nas amostras.
Agente etiológico | Primeira bateria de análises | Segunda bateria de análises | Total | |||
n | % | n | % | n | % | |
Cultura negativa | 7 | 16 | 27 | 40 | 34 | 30 |
Streptococcus spp. | 13 | 30 | 15 | 22 | 28 | 25 |
Staphylococcus aureus | 7 | 16 | 15 | 22 | 22 | 20 |
Staphylococcus não aureus | 12 | 27 | 5 | 7 | 17 | 15 |
Coliformes | 4 | 9 | - | - | 4 | 4 |
Klebsiella spp. | - | - | 3 | 4 | 3 | 3 |
Leveduras | 1 | 2 | - | - | 1 | 1 |
Pseudomonas spp. | - | - | 1 | 1 | 1 | 1 |
Serratia spp. | - | - | 1 | 1 | 1 | 1 |
Prototheca spp. | - | - | 1 | 1 | 1 | 1 |
Total | 44 | 100 | 68 | 100 | 112 | 100 |
- Microrganismo não detectado
Os resultados apresentados concordam com a fala de Brito (2009) em que este aponta que 15% a 40% das amostras de leite podem ter resultados negativos na cultura microbiológica, podendo ter ocorrido eliminação espontânea do agente, baixa concentração de microrganismos no leite, a localização intracelular de alguns microrganismos, a presença de antimicrobianos no leite e microrganismos, como o Mycoplasma spp. que não cresce nos meios de cultura convencionais.
Dentre as amostras de leite de vacas com mastite clínica (50 amostras) que foram analisadas, 36% apresentaram resultado negativo na cultura microbiológica, ou seja, não houve crescimento nos meios de cultura e dentre as amostras de leite de vacas com mastite subclínica (62 amostras) que foram analisadas, 26% apresentam resultado negativo na cultura microbiológica (Tabela 2). Ultrapassando os resultados obtidos por Gonçalves et al. (2020), onde os colaboradores encontraram resultados negativos em 39,5% das amostras de leite de vacas com mastite clínica (46.425 amostras) e 39,6% das amostras em leite de vacas com mastite subclínica (36.731 amostras).
Tabela 2. Distribuição do percentual de amostras sem crescimento no meio de cultura de acordo com o tipo de mastite e com a sua respectiva propriedade.
Propriedade | Nº de amostras | Nº de amostras sem crescimento | |||
Mastite clínica | Mastite subclínica | Mastite clínica (%) | Mastite subclínica (%) | Total (%) | |
1 | 0 | 3 | 0% | 67% | 67% |
2 | 5 | 12 | 0% | 0% | 0% |
3 | 5 | 5 | 10% | 0% | 10% |
4 | 0 | 8 | 0% | 38% | 38% |
5 | 0 | 6 | 0% | 17% | 17% |
6 | 3 | 0 | 67% | 0% | 67% |
7 | 1 | 0 | 0% | 0% | 0% |
8 | 11 | 9 | 25% | 20% | 45% |
9 | 6 | 0 | 33% | 0% | 33% |
10 | 2 | 3 | 40% | 40% | 80% |
11 | 9 | 1 | 10% | 0% | 10% |
12 | 0 | 10 | 0% | 10% | 10% |
13 | 2 | 0 | 50% | 0% | 50% |
14 | 1 | 0 | 0% | 0% | 0% |
15 | 5 | 5 | 40% | 30% | 70% |
Total | 50 | 62 | 36% | 26% | 30% |
Dados relatados no trabalho de Kuehn et al. (2013) mostram que há diferença relevante na microbiota do leite de tetos com mastite clínica quando comparada a microbiota de tetos saudáveis, apesar de ambos apresentarem cultura negativa, sendo assim os resultados da cultura negativa da mastite apresentados no presente estudo, podem estar associados a um baixo número de bactérias toxigênicas que apesar de não serem detectadas na cultura microbiológica, são capazes de provocar uma inflamação do tecido da glândula mamária ou pode estar associado a animais que eliminaram o microrganismo antes do momento da coleta das amostras, mas que ainda se encontravam com a inflamação (Costa et al., 2019).
A cultura microbiológica previamente ao tratamento da mastite possibilita a realização de protocolos de tratamento seletivo e aumento da economia na fazenda, permitindo a cura espontânea de casos de cultura negativa, possibilitando a redução no uso de antimicrobianos para o tratamento da mastite (Funezalida & Ruegg, 2019), o descarte do leite e resíduo de antimicrobianos no tanque (Rodrigues, 2008). O custo de realização da cultura microbiológica no presente estudo foi estimado em R$10,00 a amostra, incluindo o material necessário para o plaqueamento, sendo assim o custo para as 112 amostras analisadas foi de R$1.120,00.
O trabalho de Fuenzalida e Ruegg (2019) mostra que o uso de antimicrobianos intramamário para o tratamento da cultura negativa não apresentou resultados clínicos economicamente significantes, como redução do descarte de leite, aumento da produção ou redução da CCS, sendo assim, de acordo com a literatura, o tratamento da cultura negativa da mastite leve a moderada com a utilização de antimicrobianos não se faz necessário. O custo do antimicrobiano intramamário é, em média, R$12,00/teto, entretanto como já foi citado anteriormente, não se faz necessário o uso de antimicrobianos para o tratamento da cultura negativa, desta forma seria possível economizar, nas 34 amostras analisadas com resultado negativo na cultura microbiológica, cerca de R$400,00 em um único dia de tratamento, porém o tratamento da mastite dura em média de três a oito dias, resultando em um custo aproximado de R$1.200,00 a R$3.200,00 (Pinzón-Sánchez et al., 2011). É relevante reforçar que a mastite pode ser uma doença dolorosa e o uso de anti-inflamatórios não esteroidais como terapia de suporte podem promover redução da dor e aumento do bem-estar das vacas, aumentando, todavia, ainda mais o custo do tratamento por vaca (Leislie & Petersson-Wolfe, 2012).
O número de dias em que o leite é descartado é em média três dias menor, quando não se faz o uso de antimicrobianos nos animais que apresentam cultura microbiológica negativa. A diminuição dos dias de descarte do leite com o não uso dos antimicrobianos é uma redução de custos no suporte ao tratamento seletivo conduzido pela cultura na fazenda, podendo ter a capacidade de reduzir em até 30% o uso de antimicrobianos (Rodrigues, 2008). De acordo com a média do preço líquido do leite em Minas Gerais, anunciado no Boletim do Leite emitido pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) em julho de 2021, em três dias, o produtor tem um lucro médio de R$6,50 por litro de leite (Santos & Grigol, 2021), que é deixado de ser descartado com a não utilização de antimicrobianos. Supondo que os animais que apresentaram cultura negativa no presente estudo, (34 amostras) não fossem tratados, o lucro com o não descarte do leite seria, em média, R$220,00/litro de leite.
De acordo com o estudo de Lago et al. (2011) foi determinado que o risco de resíduo de antimicrobianos no leite está relacionado com a constância do uso de antimicrobianos intramamários, sendo assim, possui relação também com o número de casos de mastite tratados com antimicrobianos. Ao chegar no laticínio, o leite passa por uma avaliação em busca da presença de resíduos de antimicrobianos no leite e, quando positivo, a empresa faz o rastreamento para descobrir o fornecedor responsável, onde o produtor pode sofrer punições do laticínio (Lago et al., 2011).
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Conclui-se que a cultura negativa é frequente (30%) nas fazendas da região de Formiga-MG, sendo encontrado. Este resultado é importante para auxiliar as fazendas na tomada de decisão com relação ao tratamento mais eficaz nos casos de cultura negativa. De acordo com a literatura, o uso de antimicrobianos no tratamento da cultura negativa não possui efeito, representando desperdício de recursos terapêuticos e financeiros, além de aumentar os dias de descarte do leite e as chances de resíduos de antimicrobianos no leite do tanque.
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1 Médica Veterinária; Centro Universitário de Formiga – UNIFOR/MG; e-mail: [email protected]
2 Médico Veterinário; Centro Universitário de Formiga – UNIFOR/MG; e-mail: [email protected]
3 Discente do curso de Medicina Veterinária na Instituição Centro Universitário de Formiga – UNIFOR/MG; e-mail: [email protected]
4 Médico Veterinário; Doutor em Microbiologia; Professor do Centro Universitário de Formiga – UNIFOR/MG; e-mail: [email protected]