ATUAÇÃO E DESAFIOS DO ENFERMEIRO NO TRATAMENTO DE FERIDAS CRÔNICAS NO CONTEXTO DA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE

THE ROLE AND CHALLENGES OF NURSES IN THE TREATMENT OF CHRONIC WOUNDS IN THE CONTEXT OF PRIMARY HEALTH CARE

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/780384910

RESUMO
Feridas crônicas, também chamadas de feridas de cicatrização complexa, são lesões que afetam a integridade da pele humana e se caracterizam por apresentar um longo processo de cicatrização, podendo ainda haver recidivas pertinentes. A Atenção Primária à Saúde representa a principal forma de acesso às estratégias de prevenção, educação em saúde e promoção de saúde à população brasileira. O objetivo geral é identificar a atuação e os desafios do enfermeiro no tratamento de feridas crônicas em pacientes no âmbito da APS. A pergunta norteadora desta revisão integrativa foi elaborada utilizando a estratégia PICOS, e para a busca nas bases de dados Google Acadêmico, LILACS, BDENF e SciELO, foram utilizados os descritores DeCS "Cuidados de Enfermagem", "Ferimentos e lesões", "Atenção Primária à Saúde", "Enfermagem" e “Úlcera por pressão", além da utilização do termo geral “feridas”; esses termos foram combinados utilizando os Operadores Booleanos “AND” e “OR”, para o refinamento da busca. Ao final, foi elaborado um fluxograma recomendado pelo PRISMA. Os estudos selecionados evidenciaram que a atuação do enfermeiro se concentra principalmente na avaliação clínica, no diagnóstico de enfermagem, na elaboração de estratégias que contemplem o plano terapêutico individualizado e a escolha do curativo ideal. Os desafios enfrentados pelos profissionais envolvem a parte da infraestrutura, a sobrecarga de trabalho, a carência de insumos adequados, dificuldades na comunicação enfermeiro-paciente e o conhecimento deficitário dos profissionais. Portanto, percebeu-se a necessidade de investimento na capacitação constante para os enfermeiros da APS a fim terem melhor autonomia na prestação da assistência aos pacientes com feridas crônicas.
Palavras-chave: Atenção primária à saúde; Feridas de cicatrização complexa; Cuidados de enfermagem.

ABSTRACT
Chronic wounds, also known as complex-healing wounds, are lesions that affect the integrity of human skin and are characterized by a prolonged healing process, which may also be accompanied by recurrent episodes. Primary Health Care represents the main channel through which the Brazilian population accesses prevention strategies, health education, and health promotion. The overall objective is to identify the role and challenges of nurses in the treatment of chronic wounds in patients within the PHC setting. The guiding question for this integrative review was formulated using the PICOS strategy, and for the search in the Google Scholar, LILACS, BDENF, and SciELO databases, the following DeCS descriptors were used “Nursing Care,” “Injuries and Lesions,” “Primary Health Care,” “Nursing,” and “Pressure Ulcer,” in addition to the general term “wounds”; these terms were combined using the Boolean operators ‘AND’ and “OR” to refine the search. Finally, a flowchart recommended by PRISMA was developed. The selected studies showed that nurses’ practice focuses primarily on clinical assessment, nursing diagnosis, the development of strategies that include an individualized treatment plan, and the selection of the optimal dressing. The challenges faced by professionals include infrastructure issues, work overload, a lack of adequate supplies, and difficulties in nurse-patient communication and the lack of knowledge among healthcare professionals. Consequently, it became clear that there was a need to invest in ongoing training for primary care nurses so that they could have greater autonomy in providing care to patients with chronic wounds.
Keywords: Primary health care; Complex wound healing; Nursing care.

1. INTRODUÇÃO

Feridas crônicas ou também conhecidas como feridas de difícil cicatrização têm como definição: lesões que comprometem a integridade da pele humana, as quais são caracterizadas por apresentar um processo de cicatrização longo, podendo perdurar por semanas, meses ou anos e até mesmo haver recidivas pertinentes. Além disso, é válido ressaltar que esses agravos têm significativa relação com as condições fisiológicas e comorbidades pré-existentes da pessoa acometida. (Resende et al., 2017).

De acordo com algumas pesquisas, os fatores que propiciam o desenvolvimento e a manutenção de feridas crônicas são: diabetes mellitus, dislipidemias, hipertensão arterial sistêmica e outras doenças cardiovasculares, principalmente quando o manejo e controle delas não estão sendo efetivos, lesões por pressão ou traumas físicos não devidamente tratados e a idade, principalmente pessoas idosas. Tudo isso aliado à carência de informações relacionadas à educação em saúde que podem evitar complicações ou incapacidades físicas oriundas deste agravo à saúde. (Carbinatto; Junior; Bagnato, 2024; Resende et al., 2017)

A Atenção Primária à Saúde (APS) ou Atenção Básica (AB) representa o principal meio de o indivíduo e a população terem acesso às informações relacionadas à educação em saúde e à promoção do cuidado. Neste sentido, dentre os princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS), destacam-se a integralidade (ter um olhar holístico), longitudinalidade do cuidado (ter um planejamento de médio e longo prazo) e resolutividade no cuidado (solucionar as queixas/demandas de saúde e saber encaminhar aos demais serviços de saúde que integram à Rede de Atenção à Saúde (RAS). (Brasil, 2017)

Uma das estratégias utilizadas na AB é o planejamento e desenvolvimento de ações voltadas à atenção domiciliar, cujo objetivo é atender as pessoas que não possuem condições de se deslocar até a Unidade Básica de Saúde (UBS), por conta de algum agravo à saúde ou incapacidade física, destacando, por exemplo, as pessoas que estão acamadas. Desse modo, é essencial que o profissional enfermeiro, durante a visita de Enfermagem Domiciliar faça uma avaliação das necessidades apresentadas por este público a fim de elaborar um plano de cuidados efetivo e que otimize o tempo e gerencie os recursos. (Pereira, 2023)

Portanto, diante do que foi exposto acima, este trabalho tem como pergunta norteadora: como é a atuação do enfermeiro e quais os principais desafios enfrentados no cuidado aos pacientes com feridas crônicas na Atenção Primária à Saúde?

A temática abordada neste trabalho possui significativa relevância aos autores, uma vez que representa a oportunidade de aprofundar os conhecimentos teóricos acerca do tratamento de feridas crônicas, reconhecendo que este é um aspecto essencial da prática de Enfermagem, visto que em diferentes áreas de atuação o enfermeiro inevitavelmente se deparará com esse tipo de cuidado. Além disso, o fato de eles terem parentes que já tiveram alguma ferida de difícil cicatrização e que passaram pelo processo de cuidado a este agravo, representa uma motivação pessoal ao desenvolvimento desta pesquisa.

O tratamento de feridas crônicas é um processo que demanda conhecimento teórico-científico e experiência prática por parte dos profissionais envolvidos. Destaca-se, então, a importância do gerenciamento dos recursos humanos e tecnológicos (não somente equipamentos, mas também os materiais utilizados no processo terapêutico) disponíveis nos serviços de saúde que ofertam este cuidado, principalmente no contexto da AB, a fim de contribuir para qualidade de vida do paciente e redução dos custos. (Brasil, 2017; Pereira, 2023)

É indispensável a todo enfermeiro ter a devida competência ao prestar assistência aos pacientes que sejam portadores de alguma ferida crônica. Devendo não somente preocupar-se com qual tipo de cobertura, correlatos e afins a ser utilizado no leito da lesão, mas também em investigar qual a etiologia, os fatores que influenciam ou retardam o processo de cicatrização e reconhecer que cada pessoa apresenta particularidades durante o processo terapêutico. (Carbinatto; Junior; Bagnato, 2024; Machado et al., 2024; Resende et al., 2017)

Diante dos fatos supracitados, ressalta-se que o enfermeiro precisa utilizar estratégias que promovam a participação efetiva dos familiares de pacientes portadores de feridas crônicas, a fim de contribuir para um processo de cicatrização em tempo oportuno e reduzir os riscos de piora do quadro clínico e do agravo à saúde. Portanto, é fundamental que as ações de educação em saúde façam parte das estratégias implementadas para atingir este fim. (Pereira, 2023)

Conforme o que foi exposto, esta pesquisa tem como objetivo geral: identificar a atuação e os desafios do enfermeiro no tratamento de feridas crônicas em pacientes no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA OU REVISÃO DA LITERATURA

2.1. Pele e Feridas: Definição e Características

O sistema tegumentar do ser humano é constituído pela pele e suas estruturas auxiliares: pelos, unhas e glândulas. O tecido cutâneo saudável e íntegro está organizado em três camadas, sendo elas a epiderme, derme e hipoderme. (Lotfollahi, 2024)

A epiderme é a porção mais superficial da pele e desempenha uma função importantíssima no processo de renovação e proteção contra a invasão de microrganismos patogênicos, pois as células estão constantemente passando pelo processo de divisão celular mitótica a fim de regenerar esta camada; e é onde estão localizadas a células responsáveis pela pigmentação da pele, os melanócitos, os queratinócitos e as células de Langherans e Merkel, as quais são responsáveis, respectivamente, pela resposta imunológica e percepção tátil. (Lotfollahi, 2024; Pereira; Silva; Albuquerque, 2025)

A camada intermediária, a derme, caracteriza-se por conferir à pele resistência e elasticidade, pois é constituída principalmente por tecido conjuntivo denso, contendo abundantemente fibras de colágeno e elastina. Além disso, encontram-se nesta porção da pele, vasos linfáticos e sanguíneos, fornecendo oxigênio e nutrientes à derme e epiderme, glândulas exócrinas (sudoríparas e sebáceas) e terminações nervosas. (Bernardo; Santos; Silva, 2019)

A camada localizada mais internamente, a hipoderme, também chamada de porção gordurosa, é composta pelas células adiposas (adipócitos). Dentre as principais funções do tecido subcutâneo, destacam-se a termorregulação, proteção contra impactos mecânicos e a capacidade em armazenar energia na forma de lipídios. Desse modo, fica evidenciado a complexidade do ponto de vista anátomo-fisiológico da pele e a importância da manutenção da sua integridade. (Lotfollahi, 2024; Pereira; Silva; Albuquerque, 2025)

Quando a pele sofre alguma lesão, ocasionando a perda da sua continuidade, é possível denominar esta injúria como ferida (Cortez et al., 2025). Dentre as formas de classificar as feridas propostas por Carbinatto, Junior e Bagnato (2024), é válido destacar para melhor compreensão deste trabalho a etiologia, como traumáticas (incisões cirúrgicas, lacerações, perfurações, pressão constante etc.) e patológica, e o tempo de cicatrização (agudas e crônicas).

As feridas agudas geralmente são causadas por traumas externos, como os que ocorrem em incidentes domésticos, lesões causadas por facas, manipulação de produtos químicos sem o devido uso de EPIs, quedas etc. A principal característica das lesões agudas é a rápida resposta fisiológica, isto significa que o processo de cicatrização ocorre em tempo hábil e há uma melhor aceitação ao plano terapêutico escolhido. (Oliveira et al., 2020)

Em relação às feridas crônicas, estas demandam um tempo maior para que o processo cicatricial seja efetivamente concluído. As feridas que apresentam características de cronicidade como difícil cicatrização, estagnação durante o manejo terapêutico ou recidivas pertinentes contribuem significativamente ao alto custo com materiais e a mão de obra do profissional que está cuidando da pessoa acometida, além de comprometer a qualidade de vida dela, tanto o aspecto psicológico, causando frustrações e ansiedade, quanto a limitação física. (Cortez et al., 2025)

De acordo com Oliveira et al. (2020), as feridas crônicas geralmente estão relacionadas a doenças como insuficiência venosa, isquemia arterial, diabetes mellitus, dislipidemias, hipertensão arterial sistêmica e feridas de origem neoplásicas. Neste sentido, é comum a ocorrência e a alta prevalência de lesões crônicas como, por exemplo, as ulcerações de origem arterial, venosa, neuropática diabética e de pressão constante, lesão por pressão (Cortez et al., 2025).

As úlceras venosas são decorrentes de uma insuficiência venosa, isto significa que as veias doentes, podendo ser tanto as superficiais (menos calibrosas) quanto as profundas (mais calibrosas), apresentam uma obstrução ou perderam a capacidade de bombear o fluxo sanguíneo, prejudicando o retorno venoso. Desse modo, a estase venosa desencadeia o aumento da pressão na parede do vaso, levando ao extravasamento de líquido e metabólitos para os tecidos adjacentes (edema), que deixa o tecido cutâneo mais suscetível ao desenvolvimento de feridas. (Donath et al., 2024)

Quanto às úlceras arteriais, estas ocorrem a partir de uma isquemia, ou seja, não há um fornecimento adequado de oxigênio e nutrientes ao tecido cutâneo, caracterizando uma hipoperfusão arterial. Logo, ao lidar com este tipo de lesão, é imprescindível investigar a causa, a qual está relacionada, na maioria das vezes, com a formação de placas de ateromas, que está associada às dislipidemias. (Bragato et al., 2024)

Portanto, o processo de cicatrização de qualquer ferida crônica envolve vários fatores, exigindo não somente a participação do profissional de enfermagem para a avalição e escolha do curativo para cada caso, mas também a participação de outros profissionais, como médicos, nutricionistas, farmacêuticos, fisioterapeutas e psicólogos, a fim de potencializar o plano terapêutico individualizado. (Cortez et al., 2025)

2.2. Atenção Primária à Saúde e Pacientes Portadores de Feridas Crônicas

A Atenção Primária à Saúde tem importante responsabilidade no que se refere à saúde individual e coletiva da população, sendo uma assistência caracterizada por um conjunto de ações que envolvem não somente a promoção e proteção da saúde, mas também a prevenção de agravos, elaboração de diagnóstico, indicação de tratamento e acompanhamento para redução dos danos e manutenção da saúde. Sendo assim, o objetivo principal da APS é prestar uma atenção integral, que possa refletir na situação de saúde e na autonomia da população. (Ferreira et al., 2022)

O envelhecimento da população acarreta não apenas o aumento da idade, mas também o surgimento de doenças crônicas, e com isso, culminando frequentemente na perda da mobilidade e da independência. Em razão disso, há um aumento do risco de desenvolver lesões pela carência de um cuidado adequado. Por isso, a elaboração de um plano de cuidados eficaz e a utilização de ferramentas adequadas são essenciais para otimizar a avaliação e acompanhamento com lesões de pele de difícil cicatrização. (Freitas; Pereira; Padilha, 2023)

2.3. Tratamento de Feridas Crônicas

O tratamento de feridas crônicas está para além dos curativos, sendo assim, é importante que seja aplicada uma abordagem holística que envolva uma avaliação abrangente do paciente e da ferida, levando também em consideração os aspectos psicológicos, sociais e espirituais do indivíduo. Esse tipo de assistência parte da ideia de que a melhora da qualidade de vida também está correlacionada ao enfrentamento das dificuldades que o paciente vivencia no seu dia a dia. (Santos, 2024)

Medidas preventivas de desenvolvimento de lesão por pressão também são importantes, e para isso, podem ser aplicadas algumas técnicas no dia a dia, como por exemplo: usar lençóis adequados, manter a pele limpa e hidratada e utilizar distribuidores de pressão. Além disso, vale ressaltar que proporcionar um ambiente limpo e com boas condições de higiene é imprescindível para uma boa recuperação da ferida. No entanto, quando esses critérios não estão disponíveis, a lesão pode ser afetada, e em casos mais graves gerar até mesmo infecção e contaminação da ferida, levando a um atraso no processo de cicatrização da ferida e prolongar o tempo de cuidado. (Guerra et al., 2021)

Existem várias opções de materiais que são utilizados em etapas diferentes do tratamento das feridas. Esses materiais são classificados em: curativos passivos, como o esparadrapo, gaze, ataduras etc.; curativos com princípio ativo, por exemplo os elaborados com papaína, colagenase, hidrogel, que promovem, respectivamente, o desbridamento enzimático e autolítico, além de equilibrar a colonização de microrganismos no leito da ferida; curativos inteligentes, como as placas, espumas etc.; e os curativos biológicos, produzidos com pele alógena, matriz de colágeno e matriz de celulose, que são utilizadas com o objetivo de substituir a pele humana de forma temporária, sendo bastante utilizado para tratamento de úlceras crônicas e ferimentos em diabéticos. (Locatelli; Medeiros; Marchese, 2025)

3. METODOLOGIA

Esta pesquisa trata-se de uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo, que teve por objetivo a identificação da atuação e dos desafios do enfermeiro no tratamento de feridas crônicas em pacientes no âmbito da atenção primária à saúde. Para tal, buscou-se elaborar a questão norteadora com base na estratégia PICOS, um acrônimo que caracteriza a População, Intervenção, Comparação, Desfecho (Outcome) e Tipo de estudo (Study type). (Galvão; Pereira, 2014)

Para orientação adequada da busca metodológica, elaborou-se a seguinte pergunta norteadora: “Como é a atuação do enfermeiro e quais os principais desafios enfrentados no cuidado aos pacientes com feridas crônicas na Atenção Primária à Saúde?”. Os elementos da estratégia PICOS foram elaborados da seguinte forma: População: usuários da APS com feridas crônicas; Intervenção: atuação do enfermeiro identificada para esta população; Comparação: não se aplica, considerando a natureza descritiva do estudo; Desfecho: envolve a identificação das estratégias adotadas no manejo, bem como os desafios enfrentados pelos enfermeiros; Tipo de estudo: apenas estudos primários.

Ressalta-se que esta revisão obedeceu às recomendações do modelo metodológico PRISMA 2020 (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses), através dos processos de identificação, triagem e seleção dos estudos (Prisma, 2020). Dessa forma, o processo ocorreu, inicialmente, pela identificação dos estudos nas bases de dados e, em seguida, realizou-se a triagem por meio da leitura dos títulos e resumos. Por fim, os artigos potencialmente relevantes foram avaliados na íntegra para verificar sua elegibilidade e foram incluídos aqueles que atenderam aos critérios previamente estabelecidos.

Foram incluídos os artigos publicados entre 2018 e 2026, apenas no idioma português, de acesso completo e livre nas bases de dados consultadas, além dos que apresentavam, em sua metodologia, dados primários, como pesquisas quali e quantitativas, descritivas e relatos de caso. Dentre os critérios de exclusão, não foram selecionados os artigos fora do período determinado, os que não possuíam acesso completo, nos demais idiomas que não português, monografias, dissertações, teses, artigos publicados em anais de congressos e capítulos de livros. Foram excluídos os estudos que adotaram revisões de literatura como método de pesquisa.

Para a busca dos artigos, foram utilizadas as seguintes bases de dados: LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde), BDENF (Base de Dados de Enfermagem), Google Acadêmico e SciELO (Scientific Electronic Library Online). Para o encadeamento das buscas nas bases de dados, utilizou-se dos seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): "Cuidados de Enfermagem", "Ferimentos e lesões", "Atenção Primária à Saúde", "Enfermagem" e “Úlcera por pressão", além da utilização do termo “feridas”. Esses termos foram combinados pela utilização dos Operadores Booleanos “AND” e “OR”, para o refinamento da busca.

A chave de busca nas bases de dados LILACS, BDENF e Google Acadêmico foi: "Cuidados de Enfermagem" AND "Ferimentos e lesões" AND "Atenção Primária à Saúde". Para a SciELO, utilizou-se: ("enfermagem") AND ("feridas" OR "úlcera por pressão") AND ("atenção primária à saúde"). Ao todo, foram identificados 136 artigos, dos quais 9 estavam duplicados nas bases de dados. Assim, a amostra dos artigos que seguiu para as etapas de elegibilidade e seleção foram 27. No final, 9 artigos foram incluídos nesta revisão. A triagem e seleção dos artigos foram feitas por dois pesquisadores independentes.

O Fluxograma 1, recomendado pelo PRISMA (2020), apresenta de forma sistematizada as etapas de triagem e inclusão dos artigos que compõem este estudo.

Fluxograma 1: Processo de seleção dos estudos.

Fonte: Os autores.

4. RESULTADOS E DISCUSSÕES

Quadro 1: Apresentação dos estudos incluídos

AUTOR, ANO

BASE DE DADOS

TÍTULO

OBJETIVO PRINCIPAL

TIPO DE ESTUDO

Cavalcanti et al., (2024)

Google Acadêmico

Assistência de enfermagem ao paciente com úlcera venosa complexa.

Apresentar a sistematização da assistência de enfermagem em um paciente com úlcera venosa complexa na APS.

Estudo de caso, de caráter qualitativo, exploratório-descritivo; realizado em uma Unidade de Saúde da Família em Recife, Pernambuco.

Costa et al., (2022)

BDENF

Conhecimento dos enfermeiros sobre tratamento de feridas crônicas na atenção primária à saúde.

Identificar o conhecimento técnico-científico de enfermeiros da atenção primária à saúde sobre o tratamento de lesões crônicas.

Estudo transversal, observacional, descritivo e com abordagem quantitativa; a amostra foi composta por 41 enfermeiros que atuam em UBS da região da zona da mata mineira.

Mihaliuc et al., (2026)

Google Acadêmico

Cuidado de enfermagem à pessoa com lesão complexa na atenção primária à saúde: relato de caso.

Relatar a assistência de enfermagem ao usuário com lesão complexa na atenção primária fundamentada nos aspectos sociais da ferramenta TIMERS.

Relato de caso, de caráter qualitativo; este estudo foi desenvolvido em uma UBS do Distrito Federal; o público-alvo foram os pacientes com lesões complexas que são atendidos nesta unidade.

Mohr et al., (2024)

LILACS

Cuidado de enfermagem à pessoa com ferida na atenção primária à saúde: desafios e potências.

Descrever os fatores identificados pelos enfermeiros como desafios e como potências no cuidado de enfermagem à pessoa com ferida na APS.

Estudo exploratório, descritivo, de abordagem qualitativa; a população que compôs a amostra foi: 29 enfermeiros equipe de Saúde da Família (eSF), em Florianópolis, Santa Catarina.

Silva Júnior; Dantas; Abreu, (2023)

BDENF

Assistência de enfermagem a pessoas com feridas crônicas: uma experiência na atenção primária à saúde.

Relatar a experiência de enfermeiros residentes na assistência às pessoas com feridas crônicas no âmbito da atenção primária à saúde.

Relato de experiência, de caráter descritivo e exploratório; os dados foram obtidos através da vivência de 2 enfermeiros residentes do Programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica da Escola Multicampi de Ciências Médicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, na cidade Caicó, Rio Grande do Norte.

Soares et al., (2021)

LILACS

Apoio matricial de enfermagem como inovação no cuidado à pessoa com ferida.

Relatar a vivência profissional de enfermeiros na implantação do apoio matricial como iniciativa inovadora no cuidado à pessoa com ferida no âmbito da APS.

Relato de experiência, de caráter descritivo; participaram da pesquisa enfermeiros que integram a eSF, Enfermeiros Gestores de Caso (EGC) e um enfermeira estomaterapeuta que faz parte do serviço de AMECPF; a cidade foi Florianópolis, Santa Catarina.

Soares; Heidemann, (2018)

SciELO Brasil

Promoção da saúde e prevenção da lesão por pressão: expectativas do enfermeiro da atenção primária à saúde.

Apresentar a aplicabilidade da Escala de Braden na percepção dos enfermeiros da APS, e identificar as medidas de prevenção e de promoção da saúde adotadas, de modo a evitar o desenvolvimento da lesão por pressão, impactando positivamente na qualidade de vida das pessoas.

Estudo qualitativo, descritivo, utilizando com estratégia metodológica a Pesquisa Convergente Assistencial (PCA); ao total 20 enfermeiros da eSF, pertencentes à um Distrito Sanitário de um município de Santa Catarina, participaram da pesquisa.

Tristão et al., (2020)

LILACS

Práticas de cuidados do enfermeiro na atenção primária à saúde: gestão do cuidado da pele do idoso.

Identificar práticas de cuidado empregadas pelos Enfermeiros da Estratégia Saúde da Família para prevenção, diagnóstico de enfermagem e tratamento de lesão por fricção e lesão por pressão em idosos na comunidade.

Estudo qualitativo, descritivo; ao total, 25 enfermeiros que integram a eSF, em São José, Santa Catarina, foram elegíveis para participar desta pesquisa.

Vieira; Araújo, (2018)

SciELO Brasil

Prevalência e fatores associados a feridas crônicas em idosos na atenção básica.

Analisar a prevalência de lesão por pressão, úlcera diabética e vasculogênica e os fatores associados em idosos assistidos na atenção básica.

Estudo epidemiológico transversal, analítico; a pesquisa foi realizada no município de Terezina, Piauí; a amostra foi composta por 339 idosos (>/= 60 anos) atendidos pelas eSF.

Fonte: Os autores.

Após a organização do quadro de resultados, realizou-se uma síntese dos principais achados para o discurso alinhados aos objetivos propostos na pesquisa.

4.1. Atuação do Enfermeiro

A partir da análise dos artigos selecionados, constatou-se que a atuação do enfermeiro no tratamento de feridas na APS se concentra predominantemente na consulta de enfermagem, caracterizado pelas etapas de avaliação clínica e diagnóstico de enfermagem. Além disso, destacou-se também uma forte inserção desse profissional na escolha da terapia tópica ideal, na indicação de coberturas tecnológicas e na realização de curativos. Ademais, o papel do enfermeiro no estímulo à autonomia também se mostrou presente, principalmente por meio da capacitação do indivíduo e de seus familiares para a continuidade do tratamento em nível domiciliar.

No estudo conduzido por Mihaliuc et al. (2026), descreve-se a assistência de enfermagem prestada a um usuário com lesão complexa, onde houve a utilização das 5 etapas da consulta de enfermagem em conjunto com a ferramenta “TIMERS” para avaliação e tomada de decisão mais adequada. Tal abordagem mostrou-se essencial para o desfecho clínico positivo, uma vez que houve uma abordagem holística, abrangendo não só os aspectos clínicos da lesão, como as variáveis sociais que poderiam retardar o processo de cicatrização e prolongar o tempo de tratamento.

Além disso, na pesquisa realizada por Soares e Heidemann (2018), revelou que a aplicação da Escala de Braden é percebida como um facilitador da prática assistencial, visto que ela auxilia não somente na estratificação de riscos como na identificação de prioridades, direcionando mais esforço para as subescalas de menor resultado. Essa percepção é fundamental, uma vez que a utilização dessa escala oportuniza uma avaliação direcionada a necessidade individual de cada paciente, garantindo um cuidado personalizado e assertivo.

No que tange ao uso de protocolos, o estudo de Tristão et al. (2020), evidenciou a falta de padronização institucional, na qual os enfermeiros entrevistados revelaram a utilização de variadas ferramentas de avaliação, tais como as escalas de Braden, Norton, RYB, Measure e STAR. Contrapondo esse cenário, Mohr et al. (2024) destacou que, para os enfermeiros, ter acesso a um protocolo de enfermagem no cuidado a pessoas com feridas é visto como uma potência para a prática. Portanto, tais achados revelam que a utilização de protocolos é imprescindível para evitar a fragmentação das ferramentas de avaliação e assegurar um cuidado padronizado e contínuo.

Ademais, Mohr et al. (2024) trouxeram também em seus resultados que a autonomia do enfermeiro para tomada de decisão, no tratamento de feridas, é considerada uma potência no processo de trabalho. Essa realidade converge com o estudo realizado por Costa et al. (2022), o qual apontou que, em caso de dúvidas sobre feridas, grande parte dos profissionais enfermeiros buscam suporte de outros enfermeiros. Logo, esses achados reafirmam o protagonismo do enfermeiro neste cenário assistencial, destacando seu papel fundamental ao ofertar seu domínio técnico e clínico sobre o tema, de forma integrada.

Também é válido ressaltar que a atuação do enfermeiro na promoção do autocuidado do paciente é primordial. Mohr et al. (2024), demonstraram na sua pesquisa que, na percepção dos enfermeiros, a capacidade do paciente em manter o autocuidado com a lesão, controlar comorbidades, praticar atividade física, e adotar uma alimentação saudável, são fatores que, se realizados de forma adequada, favorecem o processo de cicatrização. Isso demonstra que a atuação do enfermeiro deve ir além do procedimento técnico do curativo, abrangendo também a orientação contínua para que o paciente consiga dar continuidade ao seu tratamento em seu domicílio.

Aliada à promoção do autocuidado, a experiência descrita por Silva Júnior, Santos e Abreu (2023) revelou que a inserção de enfermeiros residentes na APS se mostra como uma relação benéfica, pois sua atuação abrange desde a assistência direta ao paciente até a qualificação de profissionais, englobando também o incentivo ao autocuidado e a capacitação dos familiares para assegurar a continuidade do plano terapêutico estabelecido. Diante desses fatos supracitados, compreende-se que o manejo adequado de feridas na APS exige responsabilidade compartilhada entre a equipe, usuário e família.

4.2. Os Desafios para o Enfermeiro

Na pesquisa realizada por Mohr et al. (2024), na cidade de Florianópolis, contando com a participação de 29 enfermeiros que integram algumas equipes do Distrito Sanitário Centro da cidade, foi possível evidenciar que uma das barreiras mencionadas pelos profissionais é o fator tempo, pois eles também precisam cumprir outras atividades de sua competência na UBS. Neste sentido, ao prestar a assistência e avaliar as feridas crônicas dos pacientes que são atendidos na unidade, muitas vezes não conseguem dispor de tempo adequado que contribua de maneira eficaz para este cuidado.

Devido à alta demanda de pacientes e sobrecarga de trabalho que o enfermeiro da eSF tem que desenvolver, percebe-se que há um comprometimento significativo na sua capacitação a fim de prestar uma assistência de qualidade aos pacientes portadores de feridas crônicas (Mohr et al. 2024). Ademais, os pacientes em condições socioeconômicas precárias apresentam maiores dificuldades na continuidade do cuidado dessas lesões e um déficit na educação em saúde, refletindo, assim, em um tempo prolongado de cuidado a estes pacientes e resistência à adesão ao plano terapêutico proposto (Silva Júnior, Dantas e Abreu 2023).

É imprescindível destacar que os pacientes idosos, portadores de alguma ferida crônica, geralmente possuem alguma doença associada, como diabetes e hipertensão, as quais impactam significativamente na evolução deste agravo. Desse modo, a avaliação em tempo oportuno pelo enfermeiro sobre o tipo de lesão e o manejo adequado desses fatores associados representam algumas dificuldades ao longo do acompanhamento desses pacientes na APS. (Vieira e Araújo, 2018)

Diante das informações supracitadas, nas pesquisas realizadas por Soares et al. (2021), Vieira e Araújo, (2018), Cavalcanti et al. (2024) e Tristão et al. (2020) mostram que a população idosa representa a faixa etária com alta prevalência para o desenvolvimento de úlceras vasculogênicas e diabéticas e lesão por pressão, representando um desafio aos profissionais enfermeiros que atendem estes pacientes, pois precisam implementar estratégias que contemplem a prevenção e práticas de cuidados que favoreçam a evolução benéfica desses tipos de lesões e à adesão ao tratamento, a fim de evitar recidivas e, até mesmo, complicações extremas como amputação de membros.

Nos estudos realizados por Silva Júnior, Dantas e Abreu (2023) e Costa et al. (2022) foi possível destacar que a relação entre o paciente com ferida crônica e o enfermeiro é um processo embasado na confiança mútua, a qual muitas vezes encontra-se prejudicada por conta da carência de conhecimento acerca das feridas crônicas pelos enfermeiros, bem como a escassez de materiais adequados e uma infraestrutura precária para a realização de curativos complexos. Tal fato evidenciado impacta não somente no adiamento do processo de cicatrização, mas também na piora da qualidade de vida desses pacientes.

Diante dos pontos ressaltados ao longo desta discussão como dificuldades ou percalços enfrentados pelos profissionais enfermeiros da AB ao prestar assistência à pessoa com alguma ferida complexa, Mihaliuc (2026) enfatiza que a APS, quando dispõe de uma infraestrutura adequada, materiais e insumos necessários para a realização de curativos complexos e com enfermeiros devidamente capacitados, buscando a integração da equipe multiprofissional, pode fortalecer tanto as estratégias de prevenção como a continuidade do cuidado aos usuários que demandam deste serviço.

5. CONCLUSÃO/CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os objetivos propostos para esta revisão integrativa foram alcançados, uma vez que permitiu identificar a atuação e os desafios enfrentados pelos profissionais enfermeiros da APS no manejo de feridas crônicas. O estudo evidencia que a atuação do enfermeiro está centrada principalmente nos âmbitos clínico, técnico e educativo, dimensões que se mostram essenciais para uma boa resolutividade deste agravo à saúde e para prestação de uma assistência qualificada ao paciente.

No que se refere aos desafios, observou-se que os principais entraves estão relacionados à sobrecarga de trabalho, que culmina na falta de tempo adequado, aos problemas estruturais da unidade, a carência de insumos apropriados que podem potencializar o manejo dessas feridas, à ausência de protocolos institucionais e à vulnerabilidade socioeconômica dos pacientes.

Portanto, apesar das competências e da autonomia que o enfermeiro da APS detém no manejo dessas feridas de cicatrização complexa, o êxito de suas ações está atrelado diretamente suporte institucional e à superação de barreiras estruturais, comunicativas e de recursos materiais, fatores estes que impactam significativamente na assistência prestada aos pacientes. Logo, é necessário que os gestores das UBS invistam na capacitação constante dos enfermeiros a fim de atender as demandas dos pacientes que possuem alguma ferida crônica, fortalecendo, assim, a atenção ao primeiro contato e a continuidade do cuidado, características da APS.

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1 Discente do Curso Superior de Enfermagem do Centro Universitário Santa Terezinha - CEST. ORCID: https://orcid.org/0009-0003-8526-539X. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Discente do Curso Superior de Enfermagem do Centro Universitário Santa Terezinha - CEST. ORCID: https://orcid.org/0009-0002-6458-6787. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail 

3 Docente do Curso Superior de Enfermagem do Centro Universitário Santa Terezinha - CEST. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5654-2413. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

4 Enfermeira, egressa do Curso Superior de Enfermagem do Centro Universitário Santa Terezinha - CEST. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-5050-3819. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail