ATUAÇÃO DO PROFISSIONAL BIÓLOGO NA PROMOÇÃO DO BEM-ESTAR ANIMAL EM UM BIOTÉRIO DE EXPERIMENTAÇÃO


REGISTRO DOI: 10.5281/zenodo.10676895


Hyago da Silva Medeiros Elidio1
Jhônata Willy Rocha Coelho¹
Rita de Cássia dos Passos Ferraz da Silva1
João Gabriel Regis Sobral1
Tânia Regina Ribeiro de Melo1
Bárbara Alves de Brito Soledade2
Leandro Thomaz Vilela1
André Nunes de Sales1
Isabele Barbieri dos Santos¹


RESUMO
O uso de animais de laboratório em pesquisas na área de saúde ainda se faz necessário atualmente, por isso é de extrema importância ética que esse trabalho seja feito da forma mais refinada possível, não só devemos respeitar as normas existentes a respeito da utilização de animais em experimentação, como também precisamos buscar refinar nossos métodos de experimentação. O objetivo deste trabalho foi demonstrar que o biólogo por meio do estudo da etologia dos animais de laboratório se torna capaz de refinar continuamente todo o manejo realizado nesse ambiente, pois à medida que observa e aprende sobre o comportamento dos biomodelos, tendo em foco suas sensibilidades e necessidades, aumenta sua capacidade de adequar os métodos de refinamento do manejo para que resultem em uma melhora para o bem-estar dos animais durante todos os processos da experimentação. Foram realizadas como rotina, pelo biólogo, boas práticas para o manejo de animais de laboratório, que consistiam em: evitar gerar ruídos altos e estridentes, como risos, palmas, bater de portas e outros materiais utilizados; evitar movimentos bruscos dentro da sala que possam deixar os animais arredios; não gerar odores externos, como cigarro, perfume, etc; sempre se aproximar e realizar as contenções e manipulações físicas dos animais da forma mais tranquila possível. A etologia foi avaliada por meio de parâmetros comportamentais: higiene pessoal; apetite; atividade; agressividade; autocuidado; expressão facial; vocalização; aparência; postura; resposta ao manejo; interação social; que foram registrados em um etograma. Com o estudo da etologia dos biomodelos utilizados em laboratórios, o profissional biólogo foi capaz de desenvolver e refinar todo manejo e técnicas de experimentação, visando sempre promover melhoras para o bem-estar dos animais, e como resultado disso obter uma melhora na qualidade dos experimentos.
Palavras-chave: Etologia. Refinamento. Biólogo. Bem-estar. Experimentação animal.

ABSTRACT
The use of laboratory animals in health research is still necessary today, which is why it is of the utmost ethical importance that this work is done in the most refined way possible. Not only must we respect the existing rules regarding the use of animals in experimentation, but we must also seek to refine our methods of experimentation. The aim of this work was to demonstrate that, by studying the ethology of laboratory animals, biologists are able to continually refine all the management carried out in this environment, because as they observe and learn about the behavior of biomodels, focusing on their sensitivities and needs, they increase their ability to adapt the methods of refining management so that they result in an improvement in the well-being of the animals during all the processes of experimentation. The biologist carried out routine good practices for the handling of laboratory animals, which consisted of: avoiding loud and shrill noises, such as laughter, clapping, slamming doors and other materials used; avoiding sudden movements inside the room that could make the animals uncomfortable; not generating external odors, such as cigarettes, perfume, etc.; always approaching and physically restraining and handling the animals as calmly as possible. Ethology was assessed using behavioral parameters: personal hygiene; appetite; activity; aggression; self-care; facial expressions; vocalization; and the following.
Keywords: Ethology. Refinement. Biologist. Animal welfare. Animal experimentation.

INTRODUÇÃO

Por mais sensível que seja esse assunto, o uso de animais em experimentação ainda tem se mostrado necessário em pesquisas na área de saúde, devido ao fato de que muitas das vezes as doenças com que lidamos sejam causadas por diferentes microrganismos, que estão sempre em constantes mudanças dando origem a novas cepas resistentes. Vacinas e tratamentos que são desenvolvidos pela ciência com passar dos anos, fazem com que as pesquisas nas áreas de saúde, sejam sempre necessárias não só para lidar com doenças que ainda não possuam tratamentos que sejam completamente efetivos, como também para monitorar o surgimento de novas doenças e desenvolver novas formas de tratá-las (ANDRADE, 2006; CONCEA, 2023).

Na área de ciência em experimentação animal foi criado em 1959 o princípio dos 3Rs, pelos cientistas Willam Russell e Rex Burch, visando a ética e o bem-estar animal no uso de animais em pesquisas (LAPICHICK, 2009). O princípio dos 3Rs engloba os conceitos de Substituição, Redução e Refinamento (Replacement, Reductiom e Refinement) no uso de animais em experimentação. Esse conceito trouxe um pensamento crítico sobre a forma desumana como a experimentação animal ocorria. Trazendo a crítica filosófica de que uma das coisas que define o conceito de humanidade é a capacidade de termos empatia não só com nossos semelhantes, mas também com outras espécies. Desde aquela época até os dias atuais as discussões dentro dos conceitos dos 3Rs foi crescendo e ganhando mais importância na ciência no uso de animais em experimentação, mas mesmo com o crescimento do desenvolvimento de métodos alternativos e de formas para diminuição no uso de animais para pesquisa voltadas a educação, ciências e saúde, o uso de animais em pesquisas ainda faz parte da nossa realidade atual. Por isso, os profissionais da área de ciências e saúde que lidam com animais de laboratório tem responsabilidade ética de realizar esse trabalho com os animais da forma mais refinada possível.

O objetivo deste trabalho foi demonstrar que com o estudo da etologia dos animais de laboratório pelo profissional biólogo é possível refinar continuamente todo o manejo realizado nesse ambiente, garantindo em uma melhora para o bem-estar dos animais durante todos os processos da experimentação.

METODOLOGIA

Os animais observados neste estudo (hamsters e coelhos) foram mantidos dentro de estantes ventiladas (Alesco®, Brasil), dotados de sistema de ventilação controlado (10 a 15 trocas de ar por hora), com regime de claro/escuro de 12 horas, temperatura de 21+2°C, umidade 40-60%, fornecimento de água e ração própria para espécie, tratadas com autoclavação, “ad libitum” e fornecimento de papel , feno, algodão hidrofóbico e rolo de papelão ,como itens de enriquecimento ambiental, no biotério de Experimentação Animal do Pavilhão Carlos Chagas do Centro de Experimentação Animal (CEA) do Instituto Oswaldo Cruz (IOC)-Fiocruz.

A etologia foi avaliada pelo biólogo por meio de parâmetros comportamentais: higiene pessoal; apetite; atividade; agressividade; autocuidado; expressão facial; vocalização; aparência; postura; resposta ao manejo; interação social; que foram registrados em um etograma.

Foram realizadas como rotina pelo biólogo, boas práticas para o manejo de animais de laboratório, que consistam em: evitar gerar ruídos altos e estridentes, como risos, palmas, bater de portas e outros materiais utilizados; evitar movimentos bruscos dentro da sala que possam deixar os animais arredios; não gerar odores externos, como cigarro, perfume, etc; sempre se aproximar e realizar as contenções e manipulações físicas dos animais da forma mais tranquila possível.

Os procedimentos executados no presente estudo seguiram as normas de bem-estar, sendo aprovado pela Comissão de Ética em uso de Animais do Instituto Oswaldo Cruz (CEUA/IOC) de número L-009/2021.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Nos últimos anos tivemos a oportunidade de trabalhar com algumas linhagens de biomodelos em nosso biotério, como resultado falaremos sobre os métodos realizados pelo profissional biólogo, por meio do estudo da etologia dos biomodelos: Coelho Nova Zelândia Albino (Oryctolagus cunniculus), Hamster Sírio ou Dourado (Mesocricetus auratos), e do camundongo (Mus Musculus) para refinamento do manejo.

Condicionamento do Coelho a procedimentos de experimentação.

Estudando o comportamento dos coelhos, observamos que ele é um animal ansioso e neofóbico. Devido a essas características, se for submetido a uma situação desconfortável e estressante, além do animal muitas apesentar muita agressividade o que dificulta a realização de certos procedimentos, ele também poderia sofrer algumas complicações em procedimentos simples, como em uma contenção física, com risco de fraturas na coluna vertebral ou membros (ANDRADE, 2006; LAPICHICK, 2009; CONCEA, 2023). Por isso buscamos refinar o manejo de coelhos de forma a condicioná-los por meio de interação com os técnicos, de forma a permanecerem calmos e em posição ideal durante a realização do procedimento experimental, conforme figuras 1 e 2 A e B.

Figura 1. Contenção para o condicionamento - coelho mantido erguido em decúbito ventral, com sua parte ventral e membros sobre um dos braços, enquanto o outro braço o acomoda lateralmente o animal junto ao corpo, nessa posição o profissional passa levemente a mão no dorso e na cabeça do animal.

Homem com camiseta azul

Descrição gerada automaticamente com confiança média
Fonte: Biotério de Experimentação Animal do Pavilhão Carlos Chagas do Centro de Experimentação Animal do Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz

Figuras 2 A e B. Condicionamento do animal ao contato físico - o profissional passa levemente a mão no dorso e na cabeça do animal.

Fonte: Biotério de Experimentação Animal do Pavilhão Carlos Chagas do Centro de Experimentação Animal do Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz.

Com o condicionamento dos coelhos pelo manejo, tivemos uma melhora em seu bem-estar, pois eles se habituaram com o contato humano, não sendo necessário a utilização de métodos desconfortáveis para realizarmos a contenção nos momentos de experimentação, como no caso da gaiola de contenção (Figura 3 A) ou do método de contenção manual (Figura 3 B) que são desconfortáveis para os animais.

Figura 3 A e B. 3A. Coelho na calha de contenção. 3B: Método de contenção física manual do coelho.

Fonte: Biotério de Experimentação Animal do Pavilhão Carlos Chagas do Centro de Experimentação Animal do Instituto Oswaldo Cruz - Fiocruz.

Como resultado, não só conseguimos abandonar nossos antigos métodos de contenção física para realizar os procedimentos experimentais de forma mais confortável para os animais, como também tivemos mais facilidade de realizar as inoculações e coletas de sangue devido à menor resistência e agressividade por parte do animal, como podemos ver na figura 4 A, B e C.

Figura 4 A, B e C: A: Inoculação de coelhos pela via endovenosa na veia marginal da orelha. B: Inoculação de coelhos pela via subcutânea no dorso. 4C: Inoculação de coelhos pela via intramuscular na parte posterior da coxa, após o condicionamento do animal.