REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/781668333
RESUMO
O câncer do colo do útero constitui um relevante problema de saúde pública, especialmente em contextos marcados por desigualdades no acesso aos serviços de saúde e às ações de prevenção. O presente estudo tem como objetivo analisar a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde na prevenção e no rastreamento do câncer do colo do útero. Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida a partir da análise de produções científicas relacionadas ao tema em estudo. A busca foi realizada em bases de dados científicas, como SciELO, LILACS, BDENF e Google Acadêmico, considerando publicações no período de 2017 a 2025, nos idiomas português, inglês e espanhol. Os resultados evidenciam que o enfermeiro exerce papel estratégico nas ações de promoção da saúde, educação em saúde, realização do exame citopatológico, captação ativa de mulheres, acompanhamento dos resultados e encaminhamento de casos suspeitos. No entanto, persistem desafios que comprometem a efetividade do rastreamento, como baixa adesão ao exame preventivo, barreiras socioculturais, desigualdades regionais e limitações no acesso aos serviços de saúde. Conclui-se que o fortalecimento das práticas de enfermagem na Atenção Primária é essencial para ampliar a cobertura das ações preventivas, favorecer o diagnóstico precoce e contribuir para a redução da incidência e mortalidade por câncer do colo do útero no contexto brasileiro atual.
Palavras-chave: Atenção Primária à Saúde; Neoplasias do Colo do Útero; Enfermagem; Rastreamento; Saúde da Mulher.
ABSTRACT
Cervical cancer constitutes a significant public health problem, especially in contexts marked by inequalities in access to health services and preventive actions. This study aims to analyze the role of nurses in Primary Health Care in the prevention and screening of cervical cancer. This is an integrative literature review developed through the analysis of scientific publications related to the topic under study. The search was conducted in scientific databases such as SciELO, LILACS, BDENF and Google Scholar, considering publications from 2017 to 2025, in Portuguese, English and Spanish. The results show that nurses play a strategic role in health promotion actions, health education, performance of cytopathological examinations, active recruitment o
women, monitoring of results and referral of suspected cases. However, challenges remain that compromise the effectiveness of screening, such as low adherence to preventive examinations, sociocultural barriers, regional inequalities and limitations in access to health services. It is concluded that strengthening nursing practices in Primary Health Care is essential to expand the coverage of preventive actions, promote early diagnosis and contribute to reducing the incidence and mortality of cervical cancer in the current Brazilian context.
Keywords: Primary Health Care; Uterine Cervical Neoplasms; Nursing; Screening; Women’s Health.
INTRODUÇÃO
O câncer do colo do útero configura-se como um dos principais problemas de saúde pública no cenário mundial, especialmente em países de baixa e média renda, onde persistem desigualdades no acesso aos serviços de saúde e às estratégias de prevenção (WHO, 2023). Trata-se de uma neoplasia com elevado potencial de prevenção e controle, cuja ocorrência está diretamente relacionada à infecção persistente pelo Papilomavírus Humano (HPV), sobretudo pelos subtipos oncogênicos de alto risco, como o HPV 16 e 18, responsáveis pela maioria dos casos da doença (Singer, 2017). A transmissão ocorre predominantemente por via sexual, sendo a infecção pelo HPV uma das infecções sexualmente transmissíveis mais frequentes em nível mundial (Brasil, 2022).
Do ponto de vista epidemiológico, o câncer cervical permanece entre os tipos mais incidentes e letais na população feminina em escala global. Estimativas mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que, em 2022, foram registrados aproximadamente 660 mil novos casos e cerca de 350 mil óbitos por câncer do colo do útero em todo o mundo, evidenciando sua elevada carga de morbimortalidade, especialmente em contextos de vulnerabilidade social (WHO, 2023).
No cenário brasileiro, segundo o Instituto Nacional de Câncer, são estimados cerca de 17.010 novos casos anuais para o triênio 2023–2025, mantendo o câncer do colo do útero como o terceiro tipo mais incidente entre mulheres, excluindo-se os tumores de pele não melanoma (INCA, 2022). Contudo, estimativas mais recentes indicam crescimento no número de casos, alcançando aproximadamente 19.310 novos casos anuais para o triênio 2026–2028, o que evidencia a persistência e a magnitude desse agravo no país (INCA, 2025). Observa-se, ainda, uma distribuição desigual da doença no território nacional, com maiores taxas de incidência nas regiões Norte e Nordeste, o que reflete disparidades socioeconômicas, limitações no acesso aos serviços de saúde e fragilidades na organização das ações de rastreamento e prevenção (INCA, 2025)
Embora a maioria das infecções seja transitória e eliminada espontaneamente pelo sistema imunológico, a persistência viral pode desencadear alterações celulares progressivas no epitélio cervical, levando ao desenvolvimento de lesões intraepiteliais escamosas de baixo e alto grau, que, quando não diagnosticadas e tratadas oportunamente, podem evoluir para a forma invasiva do câncer (Brasil, 2022; Singer, 2017). Ressalta-se que a evolução da doença é geralmente lenta e assintomática em suas fases iniciais, o que reforça a importância das estratégias de rastreamento, uma vez que o diagnóstico precoce está diretamente relacionado à redução da morbimortalidade.
As estratégias de controle do câncer do colo do útero são tradicionalmente estruturadas em dois eixos complementares: prevenção primária e prevenção secundária. A prevenção primária está associada, principalmente, à vacinação contra o HPV, incorporada ao Programa Nacional de Imunizações, conforme previsto nas políticas públicas de imunização no Brasil, sendo considerada uma das intervenções mais eficazes para a redução da incidência da doença a médio e longo prazo (Brasil, 2014; Brasil, 2022).
No Brasil, a vacinação é recomendada prioritariamente para meninas e meninos na faixa etária de 9 a 14 anos, antes do início da vida sexual, período em que a resposta imunológica é mais eficaz (Brasil, 2022). Já a prevenção secundária ocorre por meio do rastreamento organizado, especialmente através do exame citopatológico (Papanicolau), indicado para mulheres entre 25 e 64 anos com vida sexual ativa, com periodicidade recomendada conforme diretrizes nacionais. Essas estratégias, quando implementadas de forma integrada na Atenção Primária à Saúde, contribuem significativamente para a detecção precoce das lesões precursoras e para a redução da incidência e mortalidade por câncer do colo do útero (INCA, 2022; WHO, 2023).
Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) assume papel central na operacionalização dessas estratégias, uma vez que se constitui como a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e como espaço privilegiado para o desenvolvimento de ações de promoção, prevenção e cuidado integral. Segundo Starfield (2002), a APS se caracteriza pela acessibilidade, longitudinalidade e integralidade do cuidado, elementos fundamentais para o acompanhamento contínuo da saúde da mulher e para a efetividade das ações de rastreamento do câncer do colo do útero.
A atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde destaca-se como elemento estratégico nesse processo, uma vez que esse profissional desempenha funções assistenciais, educativas e gerenciais no cuidado à saúde da mulher. Entre suas atribuições, destacam-se a realização do exame citopatológico, a orientação quanto à prevenção da doença, o incentivo à adesão ao rastreamento, a busca ativa de mulheres em situação de vulnerabilidade e o acompanhamento dos resultados dos exames (Rosário et al., 2023). Além disso, o enfermeiro atua no fortalecimento do vínculo com a comunidade, contribuindo para a construção de práticas de autocuidado e para a ampliação do acesso aos serviços de saúde.
Sob a perspectiva das práticas educativas, a enfermagem assume papel fundamental na promoção da saúde e na prevenção de agravos. A educação em saúde, nesse contexto, constitui-se como ferramenta essencial para a conscientização das mulheres acerca da importância do exame preventivo e da vacinação contra o HPV. Conforme destacam Silva et al. (2021), o processo educativo em saúde deve ser construído de forma dialógica, valorizando o conhecimento prévio dos sujeitos e promovendo sua autonomia no cuidado com a própria saúde. Essa abordagem torna-se especialmente relevante no enfrentamento de barreiras culturais, sociais e informacionais que dificultam a adesão ao rastreamento.
Entretanto, apesar da existência de políticas públicas e estratégias eficazes de prevenção, diversos fatores ainda limitam a efetividade das ações de rastreamento do câncer do colo do útero. Estudos apontam que a baixa adesão ao exame citopatológico está associada a aspectos como medo, vergonha, desconhecimento, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e fragilidades na organização da atenção básica (Melo et al., 2017). Além disso, a descontinuidade do cuidado e a ausência de acompanhamento sistemático contribuem para o diagnóstico tardio da doença, comprometendo as chances de tratamento e cura.
Nesse cenário, torna-se evidente a necessidade de aprofundar a compreensão acerca da atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde no desenvolvimento das ações de prevenção e rastreamento do câncer do colo do útero. A análise das práticas profissionais, bem como dos desafios enfrentados no cotidiano dos serviços, pode contribuir para o fortalecimento das estratégias existentes e para a construção de intervenções mais eficazes no enfrentamento desse agravo. Apesar da ampla produção sobre o câncer do colo do útero, ainda se observa necessidade de sistematizar as evidências sobre como o enfermeiro atua na APS, quais práticas são mais recorrentes e quais barreiras limitam a efetividade do rastreamento.
Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo analisar, na produção científica disponível, a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde na prevenção e no rastreamento do câncer do colo do útero, buscando identificar as principais práticas desenvolvidas, os desafios enfrentados e as potencialidades relacionadas à atuação desse profissional no contexto da saúde pública.
METODOLOGIA
O presente estudo caracteriza-se como uma revisão integrativa da literatura, método de pesquisa que possibilita a síntese, análise e interpretação crítica do conhecimento científico produzido acerca de uma determinada temática, a partir da reunião sistematizada de estudos previamente publicados. Segundo Gil (2022), a pesquisa bibliográfica é desenvolvida com base em materiais já elaborados, especialmente livros e artigos científicos, permitindo ao pesquisador ampliar a compreensão sobre o objeto investigado e fundamentar teoricamente o estudo. Nesse contexto, a revisão integrativa configura-se como uma estratégia relevante para a sistematização do conhecimento científico, possibilitando a inclusão de estudos com diferentes delineamentos metodológicos e contribuindo para uma compreensão ampliada do fenômeno investigado no campo da saúde.
A condução da revisão fundamentou-se nos princípios metodológicos descritos por Gil (2022) e Lakatos e Marconi (2021), que orientam a organização lógica da pesquisa científica, a definição do problema investigado e a análise crítica das produções selecionadas. O percurso metodológico compreendeu as seguintes etapas: definição do tema, formulação da questão norteadora, estabelecimento dos critérios de inclusão e exclusão, levantamento bibliográfico nas bases de dados selecionadas, leitura exploratória e analítica dos estudos, organização das informações e interpretação crítica dos achados científicos.
A questão norteadora da pesquisa foi formulada da seguinte forma: “Qual é a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde na prevenção e no rastreamento do câncer do colo do útero?” Para a construção dessa questão, utilizou-se a estratégia PICo, que favorece maior precisão na delimitação do problema investigado e na condução da busca científica.
Nessa perspectiva, o elemento P (População) correspondeu aos profissionais de enfermagem atuantes na Atenção Primária à Saúde; o elemento I (Interesses) prevenção e rastreamento do câncer do colo do útero, incluindo a realização do exame citopatológico, o desenvolvimento de práticas educativas e o incentivo à vacinação contra o HPV; e o elemento Co (Contexto) compreendeu o cenário da Atenção Primária à Saúde, enquanto principal porta de entrada do sistema de saúde e espaço estratégico para o desenvolvimento de ações de promoção, prevenção e cuidado integral à saúde da mulher.
Para a localização dos estudos, foram utilizados descritores controlados e não controlados, obtidos a partir dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), tais como: “Enfermagem”, “Atenção Primária à Saúde”, “Neoplasias do Colo do Útero”, “Rastreamento”, “HPV” e “Saúde da Mulher”, além de seus correspondentes em inglês e espanhol. Os cruzamentos dos descritores foram realizados por meio da busca avançada, utilizando os operadores booleanos AND e OR, conforme as especificidades de cada base de dados. Os principais cruzamentos utilizados foram: “Enfermagem AND Atenção Primária à Saúde AND Neoplasias do Colo do Útero”; “Rastreamento AND Saúde da Mulher”; “HPV AND Atenção Primária à Saúde”; e “Enfermagem AND Exame Citopatológico”. A utilização desses cruzamentos possibilitou maior refinamento na busca e seleção dos estudos relacionados à temática investigada.
Foram estabelecidos como critérios de inclusão: artigos científicos disponíveis na íntegra, publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol, no período de 2017 a 2025, que abordassem diretamente a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde relacionada à prevenção e ao rastreamento do câncer do colo do útero. Foram incluídos estudos com diferentes delineamentos metodológicos, considerando a característica abrangente da revisão integrativa. Como critérios de exclusão, consideraram-se estudos duplicados entre as bases de dados, publicações sem relação direta com a temática proposta, artigos com acesso restrito ao texto completo, além de editoriais, cartas ao leitor, dissertações, teses, trabalhos incompletos e artigos de revisão.
O processo de seleção das publicações foi organizado em etapas sequenciais, contemplando as fases de identificação, seleção, elegibilidade e inclusão. Inicialmente, na fase de identificação, foram localizados os estudos nas bases de dados a partir dos descritores previamente definidos. Em seguida, na etapa de seleção, realizou-se a leitura dos títulos e resumos das publicações, com o objetivo de verificar sua pertinência em relação ao tema investigado. Posteriormente, na fase de elegibilidade, os estudos pré-selecionados foram submetidos à leitura na íntegra, considerando rigorosamente os critérios de inclusão e exclusão estabelecidos. Por fim, na etapa de inclusão, foram definidos os artigos que compuseram a amostra final da revisão.
A extração dos dados foi realizada por meio de um instrumento previamente elaborado, no qual foram registrados os seguintes elementos: autor(es), ano de publicação, objetivo do estudo, delineamento metodológico e principais resultados. A organização dessas informações possibilitou a comparação entre os estudos selecionados e favoreceu a construção de uma análise crítica sobre a atuação do enfermeiro na prevenção e no rastreamento do câncer do colo do útero.
A análise dos dados foi conduzida de forma descritiva e temática, permitindo a identificação de categorias que sintetizam os principais achados da literatura. Os resultados foram organizados em três eixos temáticos: (1) atuação do enfermeiro nas ações de prevenção e rastreamento; (2) práticas educativas em saúde; e (3) desafios enfrentados na Atenção Primária à Saúde.
O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos foi descrito por meio do fluxograma Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA), apresentado na Figura 1, amplamente recomendado para revisões na área da saúde por garantir transparência, rastreabilidade e rigor metodológico. O fluxograma evidencia de forma sistemática todas as etapas do processo de seleção dos estudos, desde a identificação nas bases de dados até a definição da amostra final, assegurando a clareza dos critérios de inclusão e exclusão adotados e contribuindo para a confiabilidade e reprodutibilidade dos resultados da pesquisa.
Figura 1 - Fluxograma do processo de seleção dos estudos segundo o PRISMA
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A análise dos estudos selecionados evidenciou que a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde desempenha papel fundamental na prevenção e no rastreamento do câncer do colo do útero, abrangendo dimensões assistenciais, educativas e gerenciais. Os achados permitiram identificar padrões recorrentes na literatura, possibilitando a organização dos resultados em três categorias temáticas: (1) atuação do enfermeiro nas ações de prevenção e rastreamento; (2) práticas educativas em saúde; e (3) desafios enfrentados na Atenção Primária à Saúde.
O Quadro 1 apresenta a síntese dos estudos selecionados para compor a amostra final desta revisão, totalizando 12 artigos científicos publicados entre os anos de 2017 e 2025. Os estudos foram organizados de acordo com autor, ano de publicação, delineamento metodológico e principais resultados, permitindo uma visão sistematizada das evidências disponíveis na literatura.
Observa-se a predominância de estudos de natureza transversal, descritiva e qualitativa, evidenciando diferentes abordagens na análise da atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde, bem como nos fatores associados à adesão ao exame citopatológico. De modo geral, os achados convergem ao apontar a influência de aspectos socioeconômicos, organizacionais e educativos na realização do rastreamento, além de destacarem o papel central da enfermagem na promoção da saúde, na educação em saúde e na ampliação da cobertura das ações preventivas relacionadas ao câncer do colo do útero.
Quadro 1 - Síntese dos estudos incluídos na revisão integrativa sobre a atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde na prevenção e rastreamento do câncer do colo do útero.
AUTOR/ANO | TÍTULO | DELINEAMENTO METODOLÓGICO | PRINCIPAIS RESULTADOS |
MELO, Willian Augusto de; et al. (2017) | Fatores associados a alterações do exame citopatológico cérvico-uterino no Sul do Brasil | Estudo transversal analítico | O estudo evidenciou que fatores sociodemográficos, especialmente baixa escolaridade e pertencimento a grupos étnicos vulneráveis, estão significativamente associados à ocorrência de lesões cervicais de alto grau. Esses achados reforçam a influência das desigualdades sociais no processo saúde-doença, indicando que o rastreamento não depende apenas da oferta do serviço, mas também das condições sociais das mulheres. |
CASTRO, Laryssa Gabriele de Lima et al. (2025) | Epidemiologia do câncer de colo uterino em Rondônia (2020–2024): impacto dos programas de rastreamento na detecção precoce e redução da mortalidade | Estudo quantitativo retrospectivo | Os resultados demonstraram que, embora tenha ocorrido aumento na realização de exames citopatológicos, a mortalidade por câncer do colo do útero permanece elevada. Isso evidencia fragilidades na continuidade do cuidado, especialmente no seguimento dos casos e no acesso ao tratamento, indicando que o rastreamento isolado não garante a efetividade das ações de controle da doença. |
CELLA, Eliane Nunes et al. (2025) | A análise da progressão da cobertura do citopatológico e da incidência de câncer de colo de útero pela implementação do Programa Previne Brasil | Estudo transversal com dados secundários | O estudo identificou aumento progressivo da cobertura do exame citopatológico após a implementação do programa, porém ainda aquém das metas recomendadas. Observou-se persistência de desigualdades entre regiões, indicando que políticas públicas ampliam o acesso, mas não garantem equidade nem efetividade plena das ações de rastreamento. |
DIAS, Ernandes Gonçalves et al. (2021) | Atuação do enfermeiro na prevenção do câncer do colo de útero em Unidades de Saúde | Estudo qualitativo | Evidenciou que a atuação do enfermeiro está centrada em ações educativas e na realização do exame citopatológico, sendo fundamental na prevenção. Contudo, destacou-se a permanência de uma lógica curativista nos serviços, o que limita o potencial das ações preventivas e dificulta a adesão das usuárias ao rastreamento. |
FERNANDES, Noêmia Fernanda Santos et al. (2019) | Acesso ao exame citológico do colo do útero em região de saúde: mulheres invisíveis e corpos vulneráveis | Estudo qualitativo | Os resultados evidenciaram que o acesso ao exame é atravessado por múltiplas barreiras, incluindo distância geográfica, precariedade estrutural e fatores simbólicos, como vergonha e estigma. O estudo destaca a existência de “mulheres invisíveis” para o sistema de saúde, revelando que a organização da APS ainda reproduz desigualdades sociais no acesso ao cuidado. |
FERREIRA, Danielly de Morais et al. (2025) | Perfil epidemiológico dos exames citopatológicos do colo do útero no Brasil (2020–2024): adesão, alterações e desafios no rastreamento | Estudo quantitativo descritivo | O estudo demonstrou que, embora haja elevada realização de exames, a detecção de alterações não ocorre de forma proporcional, indicando possíveis falhas na qualidade do rastreamento e na periodicidade adequada. Os dados sugerem fragilidade na efetividade das ações preventivas e necessidade de qualificação dos serviços. |
FERREIRA, Márcia de Castro Martins et al. (2022) | Detecção precoce e prevenção do câncer do colo do útero: conhecimentos, atitudes e práticas de profissionais da ESF | Estudo transversal | Evidenciou que, apesar de práticas assistenciais relativamente adequadas, há déficit significativo de conhecimento entre profissionais da ESF. Além disso, a baixa realização de ações educativas aponta para lacunas na promoção da saúde, indicando necessidade de educação permanente. |
KAUFMANN, Luana Cristina et al. (2023) | Repercussões da pandemia de COVID-19 no exame preventivo de câncer de colo uterino: percepção de enfermeiros | Estudo qualitativo descritivo | O estudo evidenciou que a pandemia de COVID-19 ocasionou prejuízos no rastreamento do câncer do colo do útero, reduzindo a adesão ao exame preventivo e dificultando a reorganização dos serviços na Atenção Primária à Saúde. Destacaram-se limitações relacionadas à falta de insumos, recursos humanos e estratégias de busca ativa. |
ROSÁRIO, Tanira Maria Barbosa do et al. (2023) | Desafios da enfermagem diante da prevenção do câncer de colo uterino | Estudo transversal descritivo com abordagem qualitativa | O estudo identificou que os principais desafios enfrentados pelos enfermeiros na prevenção do câncer do colo do útero envolvem a baixa adesão das mulheres ao exame citopatológico, falta de insumos, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e déficit de informação sobre a doença. Evidenciou ainda a relevância do enfermeiro como educador em saúde na ampliação das ações preventivas. |
SANTOS, Júlio Sérgio Brito dos et al. (2025) | Rastreamento do câncer de colo do útero: perspectiva dos enfermeiros na Atenção Primária à Saúde | Estudo qualitativo | Evidenciou que os enfermeiros desempenham papel essencial na captação, acompanhamento e monitoramento das usuárias. Entretanto, limitações estruturais e insuficiência de recursos humanos comprometem a qualidade da assistência. |
SILVA, Carlos Eduardo da; REIS, Sabrina Thalita dos (2024) | Rastreamento do câncer do colo do útero no Brasil: um estudo ecológico acerca das barreiras de acesso ao exame citopatológico | Estudo ecológico | Demonstrou que o acesso ao rastreamento é desigual entre regiões, sendo fortemente influenciado por fatores socioeconômicos. Os resultados evidenciam que a organização do sistema de saúde ainda não garante equidade no acesso. |
SILVA, Danielle Oliveira da et al. (2021) | Ação educativa sobre a prevenção do papiloma vírus humano e do câncer de colo uterino: um relato de experiência | Relato de experiência | Evidenciou que estratégias educativas interativas, como rodas de conversa e uso de tecnologias leves, promovem maior compreensão, participação e fortalecimento do autocuidado, contribuindo para a adesão às práticas preventivas. |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).
Atuação do Enfermeiro nas Ações de Prevenção e Rastreamento
A atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde constitui um dos principais pilares para a efetividade das ações de prevenção e rastreamento do câncer do colo do útero. Esse protagonismo decorre não apenas das atribuições técnicas desse profissional, mas, sobretudo, da sua inserção estratégica no processo de trabalho das equipes de saúde, atuando como articulador entre as diretrizes das políticas públicas e a realidade concreta dos serviços e dos territórios (Brasil, 2016).
Corroborando essa perspectiva, Dias et al. (2021) evidenciam que a atuação do enfermeiro está diretamente associada à realização de ações educativas e à coleta do exame citopatológico, sendo fundamental para a prevenção do câncer cervical. Entretanto, os autores apontam que essa atuação ainda se encontra, em muitos contextos, limitada por um modelo assistencial com predominância curativista, o que reduz o alcance das práticas preventivas. Esse achado revela que, para além da execução técnica, é necessário o fortalecimento de uma abordagem ampliada do cuidado, centrada na promoção da saúde.
Adicionalmente, a literatura aponta que a atuação do enfermeiro extrapola a realização do exame citopatológico, incorporando atividades essenciais para a efetividade do rastreamento. Nesse contexto, Santos et al. (2025) destacam que esse profissional desempenha papel fundamental na captação ativa de mulheres, na realização da consulta de enfermagem ginecológica e no acompanhamento dos casos com resultados alterados, configurando-se como articulador do cuidado no âmbito da Atenção Primária. Essa ampliação do escopo de atuação reforça a centralidade do enfermeiro na garantia da continuidade assistencial.
Outro aspecto relevante refere-se à dimensão relacional do cuidado. Estudos qualitativos evidenciam que a adesão das mulheres ao rastreamento está fortemente associada à qualidade do vínculo estabelecido com os profissionais de saúde. Fernandes et al. (2019) apontam que barreiras simbólicas, como vergonha, medo e estigmas, interferem diretamente na realização do exame, sendo o enfermeiro um agente fundamental na superação desses obstáculos por meio do acolhimento, da escuta qualificada e da construção de confiança. Essa perspectiva reforça que o cuidado em saúde ultrapassa a dimensão técnica, envolvendo aspectos subjetivos e socioculturais.
No campo da organização dos serviços, estudos evidenciam que a efetividade das ações de rastreamento está diretamente relacionada às condições estruturais e ao planejamento das equipes de saúde. Ferreira et al. (2022) identificam lacunas no conhecimento dos profissionais da Estratégia Saúde da Família, bem como a necessidade de educação permanente, o que impacta diretamente na qualidade das ações desenvolvidas. De forma complementar, Cella et al. (2025) demonstram que, embora haja avanço na cobertura do exame citopatológico, ainda persistem desigualdades regionais e dificuldades na consolidação das políticas públicas, evidenciando limites na organização dos serviços.
Além disso, os estudos de base epidemiológica reforçam que o aumento da realização de exames não necessariamente se traduz em redução da morbimortalidade. Castro et al. (2025) evidenciam que, mesmo com a ampliação do rastreamento, a mortalidade por câncer do colo do útero permanece elevada em determinadas regiões, indicando falhas na continuidade do cuidado, especialmente no acompanhamento e tratamento dos casos diagnosticados. Da mesma forma, Ferreira et al. (2025) demonstram que, apesar do elevado número de exames realizados no Brasil, a baixa proporção de resultados alterados pode indicar fragilidades na efetividade do rastreamento.
Por fim, destaca-se que fatores socioeconômicos continuam sendo determinantes importantes para a realização do exame citopatológico. Mulheres com menor escolaridade e pertencentes a grupos socialmente vulneráveis apresentam maior risco de desenvolver lesões cervicais, o que reforça a necessidade de atuação do enfermeiro na promoção do acesso equitativo, na educação em saúde e na busca ativa das usuárias (Melo et al., 2017.
Dessa forma, observa-se que a atuação do enfermeiro no rastreamento do câncer do colo do útero deve ser compreendida de maneira ampliada, integrando dimensões assistenciais, educativas, gerenciais e relacionais. A literatura analisada converge ao indicar que o fortalecimento dessa atuação é essencial para a efetividade das políticas públicas de prevenção, bem como para a redução das desigualdades no acesso e da morbimortalidade associada à doença.
Práticas Educativas em Saúde na Prevenção do Câncer do Colo do Útero
As práticas educativas em saúde emergem, na literatura analisada, como um dos principais dispositivos para a promoção da adesão ao rastreamento do câncer do colo do útero, especialmente no contexto da Atenção Primária à Saúde. Nesse cenário, a educação em saúde deve ser compreendida como um processo contínuo e dialógico, que ultrapassa a simples transmissão de informações, envolvendo a construção compartilhada de saberes e a valorização das experiências das usuárias. Essa perspectiva é evidenciada no estudo de Silva et al. (2021), no qual ações educativas baseadas em metodologias participativas, como rodas de conversa e uso de tecnologias leves, demonstraram potencial significativo na ampliação do conhecimento e no fortalecimento do autocuidado.
Corroborando essa abordagem, Dias et al. (2021) destacam que a educação em saúde constitui uma das principais estratégias utilizadas pelo enfermeiro na prevenção do câncer do colo do útero, sendo fundamental para sensibilizar as mulheres quanto à importância do exame citopatológico. No entanto, os autores ressaltam que tais ações ainda são frequentemente limitadas por práticas tradicionais, centradas na transmissão vertical de informações, o que pode comprometer sua efetividade.
Além disso, a literatura evidencia que o conhecimento das mulheres sobre o exame preventivo ainda apresenta lacunas importantes. O estudo de Ferreira et al. (2022) identificam fragilidades no processo educativo, tanto do ponto de vista dos profissionais quanto das usuárias, evidenciando a necessidade de qualificação das práticas educativas e de investimento em educação permanente. Esse achado reforça que a educação em saúde não depende apenas da oferta de informações, mas da capacidade de promover compreensão crítica e autonomia.
Outro aspecto relevante refere-se às barreiras socioculturais que interferem na adesão ao rastreamento. Fernandes et al. (2019) demonstram que fatores como vergonha, medo e estigmas associados ao exame citopatológico dificultam a participação das mulheres nas ações preventivas. Nesse contexto, práticas educativas sensíveis às especificidades culturais e sociais tornam-se fundamentais para a superação desses obstáculos, favorecendo o acesso e a continuidade do cuidado.
Sob a perspectiva epidemiológica, observa-se que, embora haja ampliação da cobertura do exame citopatológico, ainda persistem desafios relacionados à efetividade das ações de rastreamento. Cella et al. (2025) evidenciam que o aumento da cobertura está associado a maior detecção de casos, porém ainda abaixo das metas estabelecidas, indicando a necessidade de estratégias educativas mais eficazes e direcionadas às populações vulneráveis. De forma complementar, Ferreira et al. (2025) demonstram que, apesar do elevado número de exames realizados no Brasil, a baixa proporção de resultados alterados pode indicar fragilidades na qualidade do rastreamento, reforçando a importância da educação em saúde como estratégia para qualificar o cuidado.
Ademais, estudos apontam que a atuação educativa do enfermeiro está diretamente relacionada à construção do vínculo com as usuárias, o que favorece a adesão às práticas preventivas. Santos et al. (2025) destacam que o acompanhamento contínuo, aliado à orientação qualificada, contribui para a maior participação das mulheres no rastreamento, evidenciando o papel do enfermeiro como mediador do conhecimento e facilitador do acesso aos serviços de saúde.
Dessa forma, observa-se que as práticas educativas em saúde devem ser compreendidas como componente estruturante das ações de prevenção do câncer do colo do útero. A literatura analisada converge ao indicar que a efetividade dessas práticas está diretamente relacionada à sua capacidade de dialogar com a realidade das usuárias, promover autonomia e fortalecer o vínculo com os serviços de saúde. Nesse contexto, o enfermeiro assume papel central na condução dessas ações, articulando dimensões educativas, assistenciais e sociais, fundamentais para a ampliação da adesão ao rastreamento e para a consolidação das políticas públicas de saúde da mulher.
Desafios Enfrentados na Atenção Primária à Saúde
Apesar dos avanços observados nas políticas públicas e nas estratégias de prevenção, o controle do câncer do colo do útero ainda enfrenta importantes desafios no âmbito da Atenção Primária à Saúde. Esses desafios são multifatoriais e envolvem aspectos estruturais, organizacionais, culturais e individuais, que impactam diretamente a efetividade das ações de rastreamento (Ferreira et al. 2025).
No que se refere à organização dos serviços, Cella et al. (2025) destacam que a ausência de planejamento adequado, a insuficiência de recursos materiais e a fragilidade na integração das equipes comprometem a qualidade das ações de prevenção. Esses fatores limitam a capacidade dos serviços de ofertar um cuidado contínuo e resolutivo.
As barreiras relacionadas às usuárias também constituem um desafio significativo. Santos et al. (2025) apontam que sentimentos como medo, vergonha e constrangimento estão entre os principais fatores que dificultam a realização do exame citopatológico, evidenciando a importância de considerar as dimensões subjetivas no cuidado em saúde.
Além disso, Melo et al. (2017) evidenciam que dificuldades de acesso aos serviços, como distância, limitações financeiras e horários incompatíveis, impactam negativamente a adesão ao rastreamento. Esses fatores são ainda mais evidentes em populações em situação de vulnerabilidade social.
A desigualdade regional também se destaca como um importante desafio para a efetivação das ações de prevenção e rastreamento do câncer do colo do útero. Rosário et al. (2023) demonstram que fatores como dificuldades de acesso aos serviços de saúde, limitações estruturais das unidades, baixa adesão das mulheres ao exame citopatológico e insuficiência de insumos comprometem a ampliação da cobertura do rastreamento, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade social.
Outro fator relevante refere-se ao impacto da pandemia de COVID-19, que provocou interrupções nas ações de prevenção e redução na realização do exame citopatológico, conforme apontado por Kaufmann et al. (2023). Esse cenário agravou desafios já existentes e comprometeu a continuidade das ações de rastreamento, especialmente na Atenção Primária à Saúde.
Adicionalmente, a literatura destaca a necessidade de qualificação profissional contínua. Rosário et al. (2023) ressaltam que a atuação do enfermeiro como educador em saúde é essencial para fortalecer as ações preventivas, ampliar o conhecimento das mulheres acerca do exame citopatológico e promover maior adesão às estratégias de prevenção do câncer do colo do útero.
Diante desse contexto, observa-se que os desafios enfrentados na Atenção Primária à Saúde exigem estratégias integradas que considerem tanto a qualificação dos profissionais quanto a melhoria das condições estruturais dos serviços. A superação desses obstáculos é fundamental para a efetividade das ações de prevenção.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A análise da produção científica evidencia que o enfermeiro desempenha papel estratégico na Atenção Primária à Saúde, atuando de forma integrada nas dimensões assistencial, educativa e organizacional para a prevenção e o rastreamento do câncer do colo do útero. Sua atuação contribui diretamente para a ampliação do acesso ao exame citopatológico, para o fortalecimento do vínculo com as usuárias e para a continuidade do cuidado.
Entretanto, a efetividade dessas ações ainda é limitada por desafios estruturais, organizacionais e socioculturais, que impactam a adesão das mulheres ao rastreamento. Dentre esses fatores, destacam-se as desigualdades no acesso aos serviços de saúde, as fragilidades na organização da atenção básica e as barreiras relacionadas ao conhecimento e às percepções das usuárias.
Nesse contexto, as práticas educativas em saúde e a qualificação contínua dos profissionais configuram-se como estratégias essenciais para o fortalecimento das ações preventivas. Além disso, torna-se fundamental aprimorar os processos de acompanhamento das usuárias, garantindo maior resolutividade e continuidade do cuidado.
Dessa forma, conclui-se que o fortalecimento da atuação do enfermeiro na Atenção Primária à Saúde, aliado à melhoria das condições estruturais dos serviços e à implementação de estratégias intersetoriais, é indispensável para a ampliação da cobertura do rastreamento e para a redução da morbimortalidade por câncer do colo do útero. Recomenda-se, ainda, o desenvolvimento de novos estudos que aprofundem a compreensão das práticas profissionais e subsidiem a qualificação das ações em saúde da mulher.
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1 Acadêmica do Curso de Enfermagem – Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Acadêmica do Curso de Enfermagem – Faculdade Supremo Redentor (FACSUR). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
3 Professora Orientadora- Mestra em Saúde da Família - Universidade Federal do Maranhão (UFMA). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail