REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792676947
RESUMO
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) constitui uma patologia respiratória caracterizada por obstrução persistente ao fluxo aéreo, associada a repercussões sistêmicas e deficiências cinético-funcionais progressivas. O presente estudo objetivou evidenciar o conhecimento científico recente sobre a atuação da fisioterapia respiratória no manejo de indivíduos com DPOC. Para tanto, realizou-se uma revisão integrativa da literatura, de caráter descritivo e qualitativo, estruturada a partir da estratégia PICO. O levantamento bibliográfico foi conduzido nas bases de dados MEDLINE (via PubMed), LILACS e SciELO, selecionando-se ensaios clínicos randomizados primários publicados entre 2020 e 2026 nos idiomas português, inglês e espanhol. A amostra analítica final totalizou 23 artigos científicos originais. Os achados demonstraram que o Treinamento Muscular Inspiratório (TMI), isolado ou associado à pressão expiratória positiva e terapia manual, proporcionou aumentos consistentes na pressão inspiratória máxima, na resistência à fadiga muscular e na modulação autonômica cardíaca. O condicionamento aeróbio e resistido, complementado por práticas integrativas como Tai Chi e Yoga, ampliou a tolerância ao esforço físico e mitigou a dispneia, ocorrendo descompasso entre a melhora funcional e os parâmetros espirométricos fixos. As abordagens baseadas em saúde digital e telereabilitação comprovaram eficácia clínica equivalente aos programas presenciais, favorecendo a retenção terapêutica domiciliar. Conclui-se que a fisioterapia respiratória atua como intervenção não farmacológica indispensável para atenuar o declínio cinético-funcional e reabilitar a autonomia do indivíduo, ressaltando-se a necessidade de descentralização assistencial para a Atenção Primária no SUS e a utilização da CIF na avaliação multidimensional.
Palavras-chave: Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica; Fisioterapia; Modalidades de Fisioterapia; Reabilitação Pulmonar; Telereabilitação.
ABSTRACT
Chronic Obstructive Pulmonary Disease (COPD) is a respiratory condition characterized by persistent airflow limitation associated with systemic manifestations and progressive kinetic-functional impairments. This study aimed to highlight recent scientific evidence regarding the role of respiratory physiotherapy in the management of individuals with COPD. An integrative literature review was conducted, using a descriptive and qualitative approach based on the PICO framework. Bibliographic searches were performed in the MEDLINE (via PubMed), LILACS, and SciELO databases, selecting primary randomized controlled trials published between 2020 and 2026 in Portuguese, English, and Spanish. The final analytical sample comprised 23 original articles. Findings demonstrated that Inspiratory Muscle Training (IMT), whether administered alone or combined with positive expiratory pressure and manual therapy, yielded substantial improvements in maximal inspiratory pressure, fatigue resistance, and cardiac autonomic modulation. Aerobic and resistance training, complemented by integrative practices such as Tai Chi and Yoga, improved exercise tolerance and reduced dyspnea, displaying a noticeable dissociation from fixed spirometric indices. Interventions based on digital health and telerehabilitation demonstrated clinical equivalence to traditional outpatient programs, promoting higher treatment retention during home maintenance. In conclusion, respiratory physiotherapy is a fundamental non-pharmacological pillar for mitigating functional decline and promoting daily independence, underscoring the necessity of decentralizing care to Primary Health Care within the Brazilian Unified Health System and adopting the ICF framework for comprehensive multidimensional assessment.
Keywords: Chronic Obstructive Pulmonary Disease; Physical Therapy; Physical Therapy Modalities; Pulmonary Rehabilitation; Telerehabilitation.
1. INTRODUÇÃO
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC) representa um desafio crítico para a saúde pública global, sendo caracterizada por elevada morbimortalidade e um impacto profundo na longevidade dos pacientes. Essa condição crônica manifesta-se por uma obstrução persistente do fluxo aéreo, frequentemente agravada por comorbidades cardiovasculares e metabólicas que deterioram o prognóstico clínico.
Globalmente, a enfermidade figura como a terceira causa de morte, vitimando mais de 3,2 milhões de pessoas anualmente, com projeções de aumento para 5,4 milhões de óbitos até 2060. No contexto epidemiológico brasileiro, a doença afeta mais de 15 milhões de indivíduos e representa a quarta principal causa de mortalidade no país, impondo um expressivo volume de internações no Sistema Único de Saúde (SUS), especialmente nas regiões Sudeste e Sul, que juntas somam quase 70% das hospitalizações por causas respiratórias obstrutivas.
Sob a perspectiva fisiopatológica e motora, as repercussões da patologia transcendem o aparelho respiratório. Nicoletti, Costa e Silva (2024) destacam que a DPOC provoca alterações sistêmicas que prejudicam a função autonômica cardíaca e a capacidade de resposta do sistema cardiovascular a estímulos físicos. No âmbito funcional, Nunes et al. (2024) definem as implicações da doença como deficiências cinético-funcionais respiratórias por obstrução crônica (DCFROC), as quais afetam as vias aéreas de forma progressiva, comprometem as trocas gasosas e reduzem a força dos músculos respiratórios, mensurada clinicamente pelas pressões inspiratórias e expiratórias máximas.
Complementarmente, Rodrigues (2022) reforça que a avaliação da funcionalidade na reabilitação pulmonar deve integrar os componentes da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), uma vez que instrumentos tradicionais nem sempre abrangem todas as dimensões de atividade e participação social do indivíduo.
A assistência fisioterapêutica é reconhecida como um componente essencial no manejo da DPOC, abrangendo desde o treinamento físico e a educação em saúde até mudanças no estilo de vida que visam melhorar a condição clínica e a funcionalidade do paciente. Essa abordagem multidimensional é capaz de reduzir sintomas incapacitantes, elevar o bem-estar psicológico e diminuir significativamente a frequência de exacerbações e a utilização de serviços de emergência (Nascimento et al., 2022; Vieira; Camargo; Vieira, 2024).
Contudo, a realidade brasileira revela desafios substanciais no acesso a esses cuidados, visto que dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) indicam que apenas 11,6% dos adultos mais velhos com a doença relatam realizar o tratamento fisioterapêutico. Diante da elevada morbimortalidade e dessa expressiva disparidade assistencial, justifica-se a realização deste estudo para sintetizar as evidências científicas contemporâneas, subsidiando condutas pautadas na funcionalidade e no fortalecimento do cuidado integral na rede pública de saúde.
Apesar de diretrizes internacionais como o relatório GOLD (2025) classificarem a reabilitação pulmonar como uma intervenção de alta evidência para reduzir a mortalidade, o persistente déficit de acesso no cenário nacional evidencia a necessidade de investigar a produção científica recente para qualificar a prática clínica.
Diante dessa conjuntura, delimita-se a seguinte questão de pesquisa: qual o panorama das evidências científicas publicadas na literatura, entre 2020 e 2026, acerca das intervenções e benefícios da fisioterapia respiratória no manejo de pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica? Em resposta a esse problema, o presente estudo tem como objetivo geral evidenciar o conhecimento científico produzido na literatura sobre a atuação da fisioterapia respiratória no manejo de indivíduos com DPOC.
Para alcançar essa finalidade, definiram-se como objetivos específicos caracterizar a fisiopatologia da DPOC e seus impactos diretos sobre a mecânica ventilatória e a capacidade funcional dos indivíduos acometidos. Pretende-se, igualmente, identificar as técnicas, modalidades e recursos de fisioterapia respiratória descritos na produção científica recente, bem como verificar os desfechos clínicos e os benefícios promovidos pelas intervenções fisioterapêuticas para a restauração da função pulmonar e a melhora da qualidade de vida.
2. REVISÃO DA LITERATURA
2.1. Aspectos Clínicos, Fisiopatológicos e Classificação da DPOC
A Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica configura-se como uma afecção respiratória comum, prevenível e tratável, caracterizada por sintomas persistentes e limitação crônica ao fluxo aéreo secundária à inalação contínua de gases e particulados nocivos (GOLD, 2025). Sua etiologia decorre da interação entre fatores ambientais e vulnerabilidades genéticas endógenas, a exemplo da deficiência de alfa-1 antitripsina (Stolz et al., 2022; Brasil, 2025).
No plano celular, a agressão inalatória deflagra inflamação crônica mediada por macrófagos, neutrófilos e linfócitos T CD8+, resultando no desequilíbrio proteólise-antiproteólise e estresse oxidativo que promovem a destruição dos septos alveolares (enfisema) concomitante ao remodelamento fibroso com hipersecreção nas pequenas vias aéreas (Kanchustambham; Brown, 2026; Brasil, 2025).
A perda da retração elástica associada ao colapso prematuro das vias condutoras distais provoca aprisionamento de ar e hiperinsuflação estática e dinâmica. Essa alteração mecânica eleva os volumes residuais e retifica as cúpulas diafragmáticas, submetendo os sarcômeros a severa desvantagem de comprimento-tensão e configurando as deficiências cinético-funcionais respiratórias por obstrução crônica (DCFROC), com marcante redução nas pressões respiratórias máximas (Nunes et al., 2024).
Paralelamente, o processo inflamatório sistêmico gera disfunção na modulação autonômica cardíaca (Nicoletti, Costa e Silva, 2024) e conduz à miopatia periférica e sarcopenia por desuso (Kanchustambham; Brown, 2026; Nunes et al., 2024). Clinicamente, manifesta-se pela tríade de dispneia progressiva, tosse crônica e expectoração, acompanhada por sinais semiológicos como aumento do diâmetro torácico, sinal de Hoover e uso compensatório da respiração freno-labial (Passos et al., 2011; GOLD, 2025).
A confirmação diagnóstica requer avaliação espirométrica padronizada, estabelecendo-se a relação VEF1/CVF menor que 0,70 pós-broncodilatador como critério de limitação obstrutiva fixa, estadiada em quatro graus (GOLD 1 a 4) pelo valor previsto do VEF1 (Albuquerque et al., 2024; GOLD, 2025). A estratificação clínica contemporânea adota o sistema ABE, no qual o Grupo E unifica todos os indivíduos com histórico frequente de exacerbações moderadas ou graves, em virtude do elevado impacto no prognóstico e na mortalidade (GOLD, 2025; Brasil, 2025).
Adicionalmente, definições diagnósticas precoces como Pré-DPOC e PRISm (espirometria preservada com razão comprometida) foram consolidadas para identificar sintomas respiratórios ou alterações estruturais antes da fixação da obstrução espirométrica irreversível (Stolz et al., 2022; Brasil, 2025).
2.2. Abordagem Terapêutica Geral e Manejo Farmacológico e Não Farmacológico
O plano terapêutico da DPOC visa atenuar os sintomas diários, prevenir exacerbações, melhorar a tolerância ao esforço físico e aprimorar a qualidade de vida (GOLD, 2025). A farmacoterapia de manutenção fundamenta-se no uso contínuo de medicações inalatórias por via tópica, garantindo ação concentrada nas vias aéreas com mínimos efeitos adversos sistêmicos (Brasil, 2025; Kanchustambham; Brown, 2026).
Os broncodilatadores de longa ação representam a base desse manejo, integrando os agonistas beta-2 adrenérgicos (LABA) e os antagonistas muscarínicos (LAMA), cuja ação sinérgica relaxa a musculatura lisa peribronquial e reduz o tônus vagal, expandindo o lúmen brônquico, diminuindo a resistência das vias condutoras e contendo a hiperinsuflação estática e dinâmica durante o exercício (GOLD, 2025; Nunes et al., 2024).
A associação de corticosteroides inalatórios (ICS) restringe-se a perfis fenotípicos específicos, indicada prioritariamente a pacientes com histórico de agudizações frequentes ou contagem de eosinófilos sanguíneos superior a 300 células/µL, evitando-se o uso indiscriminado devido ao risco aumentado de pneumonia bacteriana (GOLD, 2025; Brasil, 2025).
No âmbito da saúde pública brasileira, a atualização do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) pelo Ministério da Saúde e as diretrizes da CONITEC incorporaram as formulações de terapia tripla em inalador único (LABA + LAMA + ICS) ao SUS, facilitando a adesão ao tratamento e reduzindo as taxas de hospitalização (Brasil, 2025; Silva Júnior et al., 2025).
No espectro não medicamentoso, a cessação do tabagismo configura-se como a medida de maior impacto prognóstico e custo-efetividade, sendo a única intervenção capaz de desacelerar o declínio anual do VEF1 e diminuir a mortalidade global (GOLD, 2025; Stolz et al., 2022).
Adicionalmente, a imunização profilática ampla contra agentes respiratórios, a oxigenoterapia domiciliar prolongada para indivíduos com hipoxemia crônica de repouso e a ventilação não invasiva (VNI) noturna para quadros de hipercapnia persistente compõem o suporte biológico necessário para viabilizar a estabilização clínica e a inserção segura do paciente em programas de reabilitação física (Brasil, 2025; Kanchustambham; Brown, 2026; Andrei et al., 2024).
2.3. Atuação da Fisioterapia Respiratória, Funcionalidade e Cenário Nacional
A abordagem fisioterapêutica contemporânea na DPOC orienta-se pela superação do modelo biomédico tradicional em favor do paradigma biopsicossocial estabelecido pela Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) (Bezerra, 2022). Sob essa perspectiva, o foco clínico ultrapassa a análise isolada das variáveis espirométricas, viabilizando o diagnóstico cinético-funcional amplo de como a limitação ao fluxo aéreo repercute nas estruturas do corpo, no desempenho em atividades de vida diária e na participação social (Bezerra, 2022; Tomazi, 2025).
No cenário brasileiro, essa metodologia foi consolidada pela validação clínica do Comprehensive ICF Core Set para a DPOC (Züge et al., 2019), o qual estabelece um roteiro padronizado para mapear os domínios funcionais mais comprometidos e fornece subsídios fundamentais para a formulação de metas individualizadas e a prescrição assertiva na reabilitação pulmonar (Andrei et al., 2024).
No âmbito ambulatorial, os programas de reabilitação pulmonar representam uma intervenção multifacetada de alta evidência científica, focada na restauração da capacidade física e na quebra do ciclo vicioso do descondicionamento. Esses protocolos associam treinamento aeróbio e resistido de membros superiores e inferiores, estratégias de conservação de energia e educação em saúde para otimizar o padrão ventilatório e melhorar a captação periférica de oxigênio (Dantas et al., 2025; Silva et al., 2025).
Dentre os recursos especializados, o Treinamento Muscular Inspiratório (TMI) com dispositivos de carga linear destaca-se por elevar a força diafragmática e atenuar a dispneia (Mota et al., 2023), enquanto recursos oscilatórios de pressão positiva (OPEP) favorecem a depuração mucociliar em hipersecretores crônicos (Passos et al., 2011; Silva et al., 2025), complementados pela telereabilitação e práticas corporais integrativas como alternativas para sustentar a adesão a longo prazo (Simões et al., 2026).
Durante os episódios de exacerbação aguda em âmbito hospitalar, a assistência fisioterapêutica objetiva a rápida estabilização ventilatória, exigindo titulação cautelosa de oxigenoterapia com alvo de SpO2 entre 88% e 92% para evitar o agravamento da hipercapnia (GOLD, 2025; Brasil, 2025). Nesse ambiente crítico, a Ventilação Não Invasiva (VNI) com pressão positiva em dois níveis posiciona-se como conduta de primeira linha na insuficiência respiratória hipercápnica com acidose, aliviando o trabalho muscular diafragmático e reduzindo expressivamente as taxas de intubação orotraqueal e mortalidade (Brasil, 2025; Nunes et al., 2024).
Não obstante a eficácia dessas condutas, o cenário epidemiológico brasileiro revela severas iniquidades assistenciais: dados do ELSI-Brasil e da Pesquisa Nacional de Saúde evidenciam que apenas 11,6% dos pacientes com a patologia realizam fisioterapia (Marques et al., 2022; Fontanela et al., 2025), gerando sobrecarga hospitalar no SUS, onde as regiões Sudeste e Sul sozinhas concentram aproximadamente 70% das internações obstrutivas (Silva et al., 2023).
Segundo Faria (2023), as principais barreiras para a ampliação desses serviços decorrem da restrição orçamentária municipal e do déficit de qualificação específica das equipes. Para reverter esse panorama, Silva et al. (2025) e as diretrizes do Ministério da Saúde (2025) preconizam a descentralização do cuidado para a Atenção Primária à Saúde (APS), mediante a implantação de programas comunitários de reabilitação de baixo custo amparados em circuitos urbanos de caminhada, calistenia e exercícios respiratórios no próprio território.
3. METODOLOGIA
3.1. Delineamento da Pesquisa e Estratégia de Delimitação
O presente estudo constitui-se por uma revisão integrativa da literatura, de natureza descritiva e abordagem qualitativa, método reconhecido no campo das ciências da saúde por possibilitar a busca sistematizada, a avaliação crítica e a síntese abrangente do conhecimento empírico primário disponível acerca de uma questão clínica relevante.
A condução operacional da pesquisa fundamentou-se no cumprimento rigoroso de seis fases sequenciais e interdependentes: a definição do tema e formulação da questão norteadora; o estabelecimento dos critérios de elegibilidade para busca e seleção dos estudos; a categorização e extração estruturada dos dados primários; a avaliação crítica dos artigos incluídos; a discussão inferencial e confronto dos resultados; e a apresentação consolidada da síntese do conhecimento produzido.
Para orientar a busca bibliográfica e assegurar a acurácia metodológica na identificação dos estudos pertinentes, a questão norteadora foi estruturada a partir da estratégia mnemônica PICO. Nesse enquadramento conceitual, a População (P) abrangeu indivíduos adultos e idosos diagnosticados clinicamente com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, independentemente do estadiamento funcional da limitação aérea; a Intervenção (I) contemplou protocolos, técnicas, modalidades instrumentais e programas de fisioterapia respiratória e reabilitação pulmonar ambulatorial, comunitária ou hospitalar; a Comparação (C) envolveu cuidados clínicos habituais, tratamento medicamentoso isolado, intervenções simuladas ou ausência de fisioterapia; e os Desfechos (O) englobaram a capacidade de exercício, pressões respiratórias máximas, mecânica ventilatória, intensidade da dispneia, qualidade de vida, depuração mucociliar e taxas de descompensação ou internação hospitalar.
A partir desse arranjo, consolidou-se a seguinte pergunta investigativa: quais são as evidências científicas publicadas na literatura, no período compreendido entre 2020 e 2026, acerca das intervenções e dos benefícios da fisioterapia respiratória no manejo de pacientes com Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica?
3.2. Fontes de Informação e Estratégias de Busca
O levantamento bibliográfico foi conduzido por meio do acesso eletrônico aos portais da Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) e do PubMed, viabilizando a busca sistematizada em bases de dados indexadoras de relevância nacional e internacional no domínio das ciências biomédicas e da saúde. Foram consultadas especificamente a Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), o Medical Literature Analysis and Retrieval System Online (MEDLINE, acessado via PubMed) e a biblioteca eletrônica Scientific Electronic Library Online (SciELO).
A seleção conjunta dessas plataformas assegurou ampla representatividade científica, combinando ensaios clínicos multicêntricos de alto impacto internacional da base MEDLINE com investigações indexadas no SciELO e LILACS, fundamentais para contextualizar a aplicabilidade assistencial no Sistema Único de Saúde.
A padronização das buscas estruturou-se na consulta aos vocabulários controlados dos Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) e do Medical Subject Headings (MeSH), definindo-se descritores trilíngues em português, inglês e espanhol. Foram selecionados os termos "Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica", "Fisioterapia", "Reabilitação Pulmonar" e "Técnicas de Manejo", combinados aos seus equivalentes em inglês ("Pulmonary Disease, Chronic Obstructive", "Physical Therapy Modalities", "Pulmonary Rehabilitation" e "Management Techniques") e em espanhol ("Enfermedad Pulmonar Obstructiva Crónica", "Fisioterapia", "Rehabilitación Pulmonar" e "Técnicas de Manejo").
A articulação conceitual ocorreu mediante o emprego dos operadores booleanos OR (para interligar termos sinônimos no interior de cada eixo temático) e AND (para efetuar a intersecção restritiva entre a afecção respiratória e as abordagens de fisioterapia e reabilitação), adequando a sintaxe aos filtros de cada mecanismo indexador.
3.3. Critérios de Elegibilidade e Processo de Seleção dos Estudos
A seleção dos artigos científicos foi norteada por parâmetros de elegibilidade estabelecidos previamente. Como critérios de inclusão, definiram-se: pesquisas empíricas primárias do tipo ensaios clínicos randomizados e controlados; publicações veiculadas no recorte temporal delimitado entre os anos de 2020 e 2026; produções redigidas nos idiomas português, inglês ou espanhol; textos integralmente disponibilizados em formato digital de acesso aberto; e trabalhos que examinassem diretamente condutas, técnicas, modalidades ou recursos de fisioterapia respiratória aplicados a indivíduos com diagnóstico confirmado de DPOC.
Em contrapartida, os critérios de exclusão abrangeram publicações duplicadas decorrentes do cruzamento entre as bases indexadoras; estudos secundários, revisões sistemáticas, revisões integrativas prévias e metanálises; publicações inseridas na literatura cinzenta, como dissertações de mestrado, teses de doutorado, monografias de especialização e resumos em anais de congressos; editoriais, cartas ao leitor, resumos expandidos e ensaios teóricos; investigações com foco restrito em terapêutica farmacológica ou abordagens cirúrgicas isoladas; modelos experimentais em animais ou culturas celulares in vitro; artigos que investigaram outras patologias respiratórias crônicas sem diagnóstico de DPOC; e publicações cujos desfechos não correspondiam aos componentes delimitados pela estratégia PICO.
O processo de triagem dos estudos desenvolveu-se em duas etapas avaliativas sucessivas. A busca inicial nas bases indexadoras recuperou 430 registros, dos quais 35 publicações em duplicidade foram imediatamente removidas. Na primeira etapa, procedeu-se à leitura exploratória dos títulos e resumos das 395 publicações remanescentes, resultando no descarte de 362 estudos que não contemplaram os critérios de elegibilidade (sendo 24 revisões sistemáticas ou integrativas, 12 investigações pré-clínicas com animais ou modelos celulares, 184 levantamentos epidemiológicos sem condutas ativas, 118 intervenções exclusivamente medicamentosas ou cirúrgicas e 24 estudos envolvendo doenças respiratórias distintas da DPOC).
Na segunda fase, 33 artigos foram selecionados para leitura analítica integral, momento no qual 10 publicações foram desconsideradas em virtude da ausência de acesso aberto integral ao texto completo, consolidando a amostra analítica final em 23 artigos científicos originais. Por fim, procedeu-se à análise temática do material empírico por meio das etapas de pré-análise, exploração exaustiva dos dados e tratamento inferencial, estruturando a síntese do conhecimento nas categorias que compõem os resultados deste estudo.
A extração dos elementos essenciais ocorreu por meio de roteiro padronizado que contemplou autoria, ano de divulgação, periódico, país, desenho metodológico, amostragem, intervenção fisioterapêutica e desfechos mensurados. O percurso detalhado de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos que compuseram o corpus analítico desta revisão está ilustrado na Figura 1.
Figura 1. Fluxograma dos estudos para análise temática
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
O percurso de busca e seleção nas bases indexadoras culminou na consolidação de uma amostra analítica final composta por 23 artigos científicos originais, publicados no recorte temporal compreendido entre 2020 e 2026. Em termos de delineamento metodológico, a totalidade do corpus analítico constituiu-se por pesquisas empíricas primárias do tipo ensaios clínicos randomizados (RCTs), englobando 21 delineamentos paralelos controlados, um estudo piloto cruzado (crossover) e um ensaio clínico pragmático de longo prazo.
A distribuição cronológica das publicações evidenciou uma concentração acentuada de estudos veiculados nos anos mais recentes, sinalizando o crescente interesse da comunidade científica internacional e nacional pela qualificação das intervenções fisioterapêuticas e pela consolidação de novas tecnologias no cuidado à saúde respiratória.
A amostragem agregada dos estudos reuniu milhares de participantes com diagnóstico confirmado de DPOC, contemplando desde indivíduos com obstrução leve a moderada até pacientes com acometimento funcional grave e muito grave (estágios GOLD III e IV), além de coortes sob ventilação mecânica invasiva hospitalar e pacientes em fase de acompanhamento domiciliar pós-reabilitação.
No que tange às condutas fisioterapêuticas testadas, os ensaios clínicos investigaram intervenções diversificadas, que abrangeram modalidades consolidadas de treinamento muscular inspiratório resistido com cargas lineares, manobras ativas e dispositivos mecânicos oscilatórios de higiene brônquica, liberação miofascial torácica, protocolos de condicionamento físico aeróbio e resistido, bem como a emergência de condutas amparadas em saúde digital, incluindo ferramentas de telereabilitação, inteligência artificial por Internet das Coisas (IoT) e práticas corporais integrativas.
A síntese descritiva e comparativa dos 23 artigos selecionados, estruturada a partir da identificação de autoria e ano, periódico, país de realização, desenho metodológico, perfil amostral, intervenção fisioterapêutica aplicada, desfechos cinético-funcionais mensurados e principais conclusões clínicas, Encontra-se detalhada no Quadro 1 a seguir.
Quadro 1. Síntese das evidências científicas da fisioterapia respiratória na DPOC (2020–2026).
Estudo (Autor, Ano) | Periódico / País | Desenho Metodológico e Amostra | Intervenção / Técnica Fisioterapêutica | Principais Desfechos Mensurados | Conclusões Clínicas Relevantes |
Aucoin et al. (2026) | European Respiratory Journal / Canadá | Ensaio clínico randomizado com 23 participantes com DPOC () ou doença pulmonar intersticial (). | 5 semanas de treinamento aeróbico supervisionado em esteira (3x/semana) com fluxo de ar facial (fan-to-face - F2F) vs. grupo controle sem ventilador (No Fan - NF). | Tempo de tolerância ao exercício (EET), intensidade da dispneia em iso-tempo (escala mBorg-CR10), dispneia desagradável, desconforto nas pernas e escore CAT. | A terapia de fluxo de ar facial reduziu consistentemente os sintomas de dispneia durante o treino, permitindo maior conforto, embora o volume acumulado e o EET tenham sido semelhantes entre os grupos. |
Suraprapapich et al. (2026) | Respiratory Medicine / Tailândia | Ensaio clínico randomizado com 39 pacientes com DPOC estável (37 concluíram o protocolo). | 8 semanas de treinamento muscular inspiratório (TMI) na intensidade máxima tolerável (30 respirações 2x/dia) com dispositivo de carga resistiva de fluxo cônico (POWERbreathe KHP2) vs. controle (cuidado padrão). | Função pulmonar e força muscular respiratória (PImax, PEmax, endurance), variabilidade da frequência cardíaca (HRV), sensibilidade do barorreflexo, dispneia (mMRC, TDI), distância no TC6M e estado de saúde (CAT, CCQ). | O TMI de alta intensidade melhorou a função autonômica cardiovascular (aumentando a atividade parassimpática e reduzindo a simpática), além de aprimorar a força muscular inspiratória, capacidade funcional e estado de saúde. |
Jalal et al. (2026) | BMC Pulmonary Medicine / Turquia | Ensaio clínico randomizado controlado com 62 pacientes com DPOC estável do Grupo E (alto risco de exacerbações). | Terapia combinada de treinamento muscular inspiratório e pressão expiratória positiva (TMI/PEP) 2x/dia (15 min/sessão) por 3 meses + tratamento padrão vs. tratamento padrão isolado. | Testes de função pulmonar (VEF, CVF, razão MEF25-75%, razão RV/TLC), força muscular respiratória (MIP, MEP), 6MWD, e escalas de dispneia (mMRC, CAT, MBS, VAS). | A terapia combinada TMI/PEP melhorou significativamente a função pulmonar, força muscular inspiratória, oxigenação e capacidade de exercício, além de reduzir expressivamente a dispneia ao longo de 3 meses. |
Abdeen et al. (2025) | Respiratory Physiology & Neurobiology / Egito e Espanha | Ensaio clínico randomizado controlado de três braços, com 90 pacientes com DPOC em ventilação mecânica e insuficiência respiratória aguda. | 10 dias de treinamento muscular inspiratório (TMI) via dispositivo Threshold + fisioterapia convencional vs. ajuste de sensibilidade do gatilho do ventilador + fisioterapia convencional vs. fisioterapia convencional isolada. | Força inspiratória negativa (NIF), frequência respiratória (RR), volume corrente (VT), índice de respiração rápida e superficial (RSBI), pH, gases sanguíneos (, ), razão P/F, porcentagem e dias de desmame. | O treinamento com o dispositivo Threshold TMI promoveu melhorias significativamente superiores na força inspiratória (NIF) e reduziu a duração do desmame da ventilação mecânica em comparação às demais técnicas. |
Chung et al. (2025) | JMIR mHealth and uHealth / Coreia do Sul | Ensaio clínico randomizado multicêntrico com 100 participantes com doenças respiratórias crônicas (predominantemente DPOC). | Programa de reabilitação pulmonar guiada por aplicativo de smartphone (Redpill Breath) por 12 semanas vs. grupo controle com tratamento clínico padrão e orientações impressas. | Distância no teste de caminhada de 6 minutos (6MWD), escala mMRC, questionário SGRQ, escala HADS e uso de recursos de saúde (hospitalizações/pronto-socorro). | A reabilitação guiada por aplicativo não demonstrou diferença estatística na melhoria do 6MWD ou qualidade de vida em comparação ao controle, mas mostrou-se segura e viável para o uso por idosos. |
de Toledo et al. (2025) | einstein (São Paulo) / Brasil | Ensaio clínico randomizado com 60 pacientes com DPOC. | 8 semanas de telereabilitação com protocolo de exercícios respiratórios associados à educação em saúde (G1) vs. telereabilitação apenas com educação em saúde (G2). | Capacidade funcional (6MWD), dispneia (mMRC), função pulmonar e impacto clínico (CAT). | Ambas as estratégias de telereabilitação foram benéficas para a capacidade funcional, mas a associação de exercícios respiratórios e educação em saúde apresentou impacto superior na melhoria dos pacientes. |
Song et al. (2025) | International Journal of Chronic Obstructive Pulmonary Disease / China | Ensaio clínico randomizado com 83 pacientes com DPOC (63 completaram o estudo). | 12 semanas de treinamento de respiração abdominal forte com o corpo inclinado de cabeça para baixo (HDBT) vs. HDT isolado vs. BT sentado/em pé, 3x/semana (60 min por sessão). | Função cognitiva (escore MoCA) e desempenho de marcha (frequência, comprimento e velocidade da passada em tarefas simples e com obstáculo). | O programa HDBT de 12 semanas elevou a função cognitiva e melhorou significativamente o comprimento e a velocidade da passada durante tarefas de caminhada com obstáculo em pacientes com DPOC estável. |
Karlsson et al. (2025) | Journal of Medical Internet Research (JMIR) / Suécia | Ensaio clínico controlado piloto e de viabilidade com pessoas com DPOC leve a grave utilizando a ferramenta eHealth "Me&COPD". | Ferramenta eHealth "Me&COPD" por 3 meses (programa de exercícios domiciliar individualizado, estratégias de autogestão audiovisual/escrita e interação com fisioterapeuta) vs. grupo controle (cuidado usual). | Usabilidade, adesão ao exercício, intensidade, progressão, eventos adversos e resultados clínicos preliminares. | A ferramenta eHealth apresentou usabilidade aceitável, embora tenham ocorrido limitações e desafios operacionais no registro digital de sessões de exercício pelos pacientes, servindo de base para estudos futuros em maior escala. |
Liao et al. (2025) | The Journal of Nursing Research / Taiwan | Desenho experimental simples-cego com 100 idosos com DPOC e fragilidade (91 concluíram). | Pacote de exercícios de reabilitação pulmonar (PREP) incluindo educação, drenagem postural, respiração com lábios franzidos, exercícios de elevação de membros na cama e fortalecimento de panturrilha por 4 semanas vs. controle. | Fragilidade (Clinical Frailty Scale - CFS), dispneia (mMRC), resistência muscular de membros inferiores (30s-CST) e capacidade de caminhar (6MWD). | O programa PREP melhorou significativamente os escores de fragilidade, dispneia, resistência muscular de membros inferiores e capacidade de caminhada em idosos hospitalizados com DPOC e fragilidade. |
Rivilla et al. (2025) | Pulmonology / Espanha | Ensaio clínico piloto cruzado (crossover), randomizado e controlado com 21 pacientes com doenças respiratórias crônicas hipersecretoras (incluindo DPOC, fibrose cística e bronquiectasias). | Duas intervenções comparadas de limpeza de vias aéreas: Electrovest (dispositivo portátil eletrovibratório integrando NMES para vibração torácica) vs. The Vest (sistema HFCWO pneumático tradicional). | Mobilização de escarro (peso do escarro), conforto (escala VAS), função pulmonar (, CVF), pressões respiratórias máximas (PImax, PEmax, SNIP), capacidade funcional (6MWD), força peitoral (1RM), biomarcadores (CK, creatinina) e questionário CASA-Q. | O Electrovest apresentou eficácia de mobilização de escarro comparável ao colete tradicional, mas com pontuação de conforto significativamente superior, além de melhorias no PImax, distância no 6MWD e força peitoral, sem evidências de lesão muscular ou renal. |
Sacristán-Galisteo et al. (2025) | BMC Primary Care / Espanha | Ensaio clínico randomizado, simples-cego, com 80 pacientes com DPOC na atenção primária. | Programa de reabilitação pulmonar comunitário de 13 semanas com equipamento mínimo (circuitos urbanos de caminhada + educação estruturada) supervisionado presencialmente (FFS, ) vs. por telefone (TS, ). | Capacidade funcional (6MWD), nível de atividade física (passos/dia via acelerômetro), qualidade de vida (CAT), estado psicológico (HADS), autoeficácia, número de exacerbações e adesão (pós-intervenção, 6 e 12 meses). | A supervisão presencial (FFS) foi superior à supervisão telefônica (TS) para melhorar a capacidade funcional, os níveis de atividade física e a qualidade de vida em curto, médio e longo prazo (até 12 meses) em indivíduos com DPOC. |
Zhu et al. (2025) | Complementary Therapies in Medicine / Malásia e China | Ensaio clínico randomizado, controlado e simples-cego com 54 pacientes com DPOC em estágio estável leve a moderado (27 Mawangdui, 27 controle). | 12 semanas de exercício tradicional chinês Mawangdui (exercício aeróbico de baixa/média intensidade combinando movimentos e respiração diafragmática profunda, 1h/dia, 5 dias/semana) vs. controle mantendo atividades diárias. | Função pulmonar, capacidade de exercício (6MWT), força muscular de costas-pernas-tórax, flexibilidade, sintomas de dispneia (Borg CR-10, CAT, mMRC), , composição corporal e qualidade de vida (SGRQ). | O exercício Mawangdui por 12 semanas melhorou significativamente a capacidade de exercício, força muscular, flexibilidade, dispneia, composição corporal e qualidade de vida em pacientes com DPOC estável, sem alterar a função pulmonar espirométrica. |
Chen et al. (2024) | International Journal of Chronic Obstructive Pulmonary Disease / China | Ensaio clínico randomizado com 78 pacientes com DPOC estável. | 12 semanas de treinamento muscular respiratório (TMI e TME) domiciliar baseado em Internet das Coisas (IoT) vs. grupo controle com educação em saúde rotineira. | Função pulmonar (, CVF, ), força muscular respiratória (MIP, MEP), escala mMRC, CAT, HAMA e taxa de reinternação em 6 meses. | O treinamento muscular respiratório baseado em IoT melhorou significativamente a função pulmonar e força muscular respiratória, reduziu a dispneia, ansiedade e taxa de reinternação hospitalar em 6 meses. |
Cui et al. (2024) | BMC Pulmonary Medicine / China | Ensaio clínico randomizado multicêntrico com 366 pacientes com DPOC estável. | 12 semanas de tratamento médico padrão isolado (MT) vs. MT + treinamento de endurance (ET) vs. MT + treinamento de resistência (RT), com acompanhamento de longo prazo por 12 meses. | Distância no teste de caminhada de 3 minutos (3MWD), qualidade de vida (SGRQ), dispneia (CAT, mMRC) e ansiedade/depressão (HADS). | Tanto o treinamento de endurance quanto o de resistência trouxeram benefícios na qualidade de vida e capacidade de exercício, com leve superioridade do ET no 3MWD em longo prazo (12 meses) e eficácia destacada em pacientes nos estágios GOLD C e D. |
Kohlbrenner et al. (2024) | International Journal of Chronic Obstructive Pulmonary Disease / Suíça | Ensaio clínico randomizado controlado de centro único com 30 pacientes com DPOC estável (24 concluíram). | Sistema de telemonitoramento (CAir Desk) para todos, e o grupo intervenção recebeu adicionalmente coaching virtual híbrido via agente conversacional (CA) com conteúdo educacional, coaching de atividade física e exercícios domiciliares por 12 semanas. | Qualidade de vida relacionada à saúde (SGRQ), carga de sintomas (CAT), atividade física (passos diários), capacidade funcional (6MWT, 1MSTST) e função pulmonar. | O coaching virtual híbrido não melhorou a qualidade de vida de forma estatisticamente superior ao telemonitoramento isolado, mas promoveu um aumento clinicamente relevante na atividade física e reduziu a carga de sintomas. |
Phantayuth et al. (2024) | Respiratory Medicine / Tailândia | Ensaio clínico randomizado com 24 pacientes do sexo masculino com DPOC moderada a grave. | Programa combinado de Tai Chi e Yoga (TY combining) de 70 minutos, 3x/semana por 12 semanas vs. grupo controle com rotina habitual. | Função pulmonar (espirometria e volumes), aptidão funcional (CST-30, ACT-30, força de preensão manual, flexibilidade, 8-foot up & go, 6MWD), qualidade de vida (SGRQ), dispneia e fadiga (Borg). | O programa combinado de Tai Chi e Yoga melhorou significativamente a função pulmonar, aptidão funcional (com ganhos já na 4ª semana), qualidade de vida, dispneia e fadiga em pacientes com DPOC. |
Spielmanns et al. (2023) | Thorax / Alemanha e Suíça | Ensaio clínico randomizado controlado bicêntrico com pacientes com DPOC GOLD estágios II-IV logo após a reabilitação pulmonar (67 randomizados, 60 analisados). | Uso diário de aplicativo de smartphone (Kaia COPD app) como programa de manutenção pós-reabilitação por 6 meses (incluindo exercícios físicos, respiração e educação) vs. grupo controle com cuidados padrão. | Atividade física (passos diários por monitor Polar A370), CAT, CRQ (dispneia e fadiga), STST de 1 min, exacerbações e HADS. | O uso regular do aplicativo Kaia manteve a atividade física diária e melhorou significativamente os sintomas e escores de qualidade de vida (CAT e CRQ) em pacientes com DPOC após 6 meses. |
Zanaboni et al. (2023) | American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine / Noruega, Dinamarca e Austrália | Ensaio clínico randomizado controlado multicêntrico internacional com 120 pacientes com DPOC alocados em três grupos (telereabilitação, treinamento não supervisionado ou controle) e acompanhados por 2 anos. | Telereabilitação de longo prazo com treinamento individualizado em esteira em casa supervisionado por fisioterapeuta e autogestão vs. treinamento não supervisionado em esteira em casa vs. atendimento padrão (controle). | Número combinado de hospitalizações e atendimentos em pronto-socorro (desfecho primário), tempo livre até o primeiro evento, capacidade de exercício (6MWD), dispneia, estado de saúde (CAT), qualidade de vida (EQ-5D), ansiedade, depressão e autoeficácia. | A telereabilitação de longo prazo e o treinamento não supervisionado em casa reduziram significativamente o número de rehospitalizações e visitas ao pronto-socorro em comparação ao controle, além de manterem melhorias clinicamente significativas na capacidade de exercício. |
Ceyhan & Tekinsoy Kartin (2022) | Trials / Turquia | Ensaio clínico randomizado com 67 pacientes com DPOC. | Grupo 1 recebeu treino de respiração com lábios franzidos (PLB) associado a treinamento no uso de inaladores; Grupo 2 recebeu apenas treinamento no uso de inaladores, acompanhados por 4 semanas. | Severidade da dispneia (escala mMRC), teste CAT, qualidade de vida (SGRQ) e habilidade de uso do inalador. | Ambas as intervenções melhoraram a técnica inalatória, reduziram a dispneia e elevaram a qualidade de vida, demonstrando que o suporte com exercícios respiratórios otimiza o tratamento farmacológico. |
Buran Cirak et al. (2022) | The Clinical Respiratory Journal / Turquia | Ensaio clínico randomizado simples-cego com 60 pacientes com DPOC nos estágios GOLD III-IV. | 12 semanas de treinamento muscular inspiratório (TMI a 40% da PImáx) associado a terapia manual (MT) vs. apenas TMI. | Função pulmonar (espirometria), força muscular respiratória (MIP, MEP), capacidade funcional (6MWT), dispneia (mMRC), fadiga (FSS) e qualidade de vida (SGRQ). | A associação de terapia manual ao TMI proporcionou melhorias significativamente maiores na função pulmonar, força muscular respiratória, capacidade funcional, dispneia, fadiga e qualidade de vida em pacientes com DPOC grave. |
Frei et al. (2022) | CHEST / Suíça | Ensaio clínico randomizado multicêntrico com 123 pacientes com DPOC logo após reabilitação pulmonar. | Programa domiciliar de treinamento de força de longo prazo (12 meses) com equipamentos mínimos e suporte por coaching/telefonia vs. grupo controle com cuidados habituais. | Domínio de dispneia do CRQ, capacidade funcional (6MWD, 1-min sit-to-stand test - 1MSTST), qualidade de vida, exacerbações e sintomas. | O programa domiciliar de força não evitou o declínio na dispneia em 12 meses, mas melhorou significativamente o desempenho funcional avaliado pelo teste de sentar e levantar de 1 minuto (1MSTST), sendo bem aceito pelos pacientes. |
Tounsi et al. (2021) | PLOS ONE / França e Tunísia | Ensaio clínico randomizado com 32 pacientes do sexo masculino com DPOC moderada a muito grave, divididos em grupo experimental (TMI + ET, ) e grupo controle (ET isolado, ). | 8 semanas de treinamento muscular inspiratório específico (TMI) combinado com programa de treinamento de endurance de corpo inteiro (ET) vs. apenas ET. O TMI consistiu em 2 séries de 30 respirações diárias a 50-80% da PImáx, e o ET em esteira a 60-80% da velocidade média do TC6M (3x/semana). | Equilíbrio funcional (Berg Balance Scale - BBS, Timed Up and Go - TUG, Single Leg Stance - SLS, escala Activities-specific Balance Confidence - ABC), força inspiratória máxima () e desempenho no teste de caminhada de 6 minutos (6MWT). | A combinação de treinamento muscular inspiratório com o treinamento de endurance melhorou significativamente a função inspiratória () e o equilíbrio funcional (escalas BBS e ABC) em comparação ao treinamento de endurance isolado. |
Hansen et al. (2020) | Thorax / Dinamarca | Ensaio clínico randomizado, multicêntrico, controlado e cego (avaliadores), incluindo 134 pacientes com DPOC grave (). | 10 semanas de telereabilitação pulmonar baseada em grupos via videoconferência (3x/semana, 60 min) comparada à reabilitação pulmonar convencional presencial (2x/semana, 90 min). | Distância no teste de caminhada de 6 minutos (6MWD), questionário CAT, escalas HADS, EQ-5D, teste de sentar e levantar de 30s (30sec-STS), questionário CCQ e nível de atividade física (PAL). | A telereabilitação pulmonar supervisionada não foi superior à reabilitação convencional no ganho de 6MWD, porém apresentou uma taxa de conclusão significativamente maior pelos pacientes. |
Fonte: Elaborado pelos autores (2026).
4.1. Treinamento Muscular Respiratório e Recursos Desobstrutivos na DPOC
O comprometimento da musculatura ventilatória configura-se como uma das manifestações clínicas mais incapacitantes da DPOC, situando-se no núcleo das deficiências cinético-funcionais respiratórias por obstrução crônica (DCFROC) descritas por Nunes et al. (2024). A perda da retração elástica e a limitação crônica ao fluxo aéreo geram aprisionamento de ar e hiperinsuflação estática e dinâmica, impondo desvantagem biomecânica direta ao diafragma pelo encurtamento crônico de seus sarcômeros e retificação de suas cúpulas, o que deprime a capacidade de geração de tensão (Mota et al., 2023).
Diante desse substrato mecânico, o conjunto de ensaios clínicos analisados comprova que o Treinamento Muscular Inspiratório (TMI) atua como uma conduta não farmacológica direcionada e resolutiva, capaz de induzir adaptações neuromusculares que elevam a Pressão Inspiratória Máxima (PImáx) e diminuem a sensação subjetiva de esforço nas atividades rotineiras.
A análise comparativa do corpus empírico demonstra divergências metodológicas relevantes no tocante à prescrição de sobrecarga no TMI. Enquanto Buran Cirak, Yilmaz Yelvar e Durustkan Elbasi (2022) constataram que resistores de carga linear ajustados a 40% da PImáx foram suficientes para gerar aumentos expressivos na força muscular e na distância percorrida no Teste de Caminhada de 6 Minutos (TC6M) em pacientes com obstrução grave, Suraprapapich et al. (2026) demonstraram que a aplicação de cargas no limiar máximo tolerado promoveu ganhos superiores de resistência muscular à fadiga.
Paralelamente, Tounsi et al. (2021) aplicaram uma sobrecarga progressiva entre 50% e 80% da PImáx combinada ao treinamento aeróbio. O cruzamento desses achados evidencia que, embora cargas submáximas moderadas garantam segurança e tolerância em fases iniciais ou quadros graves, a progressão escalonada para intensidades elevadas é o fator determinante para conferir resistência à fadiga muscular respiratória durante esforços sustentados.
Para além das adaptações estritamente respiratórias, o estudo de Suraprapapich et al. (2026) ampliou a compreensão fisiológica do TMI ao documentar sua repercussão sobre a modulação autonômica cardíaca. Os autores observaram que o treino inspiratório de alta intensidade elevou a variabilidade da frequência cardíaca por ativação vagal parassimpática, atenuando a hiperatividade simpática característica de pneumopatas crônicos.
Esse achado converge diretamente com os apontamentos de Nicoletti, Costa e Silva (2024), que descrevem as disfunções cardiovasculares e a taquicardia de repouso compensatória na DPOC, confirmando que o fortalecimento diafragmático extrapola a caixa torácica e reduz a sobrecarga hemodinâmica secundária ao padrão ventilatório ineficiente.
A potencialização desses desfechos esteve condicionada, em múltiplos ensaios, à associação com recursos musculoesqueléticos torácicos e pressóricos. Conforme demonstrado por Buran Cirak, Yilmaz Yelvar e Durustkan Elbasi (2022), a combinação do TMI com liberação miofascial e mobilização manual torácica superou o treinamento isolado em mobilidade toracoabdominal e capacidade funcional.
A justificativa mecânica decorre da reversão do encurtamento dos intercostais e peitorais induzido pela hiperinsuflação, restaurando a complacência da parede torácica e permitindo que o ganho de força se converta em maior volume corrente com menor dispêndio metabólico. De forma sinérgica, Jalal et al. (2026) provaram que associar TMI à Pressão Expiratória Positiva (PEP) reduziu a relação Volume Residual/Capacidade Pulmonar Total (VR/CPT) e elevou a SpO2 e a PImáx em pacientes do Grupo E. A contrapressão expiratória da PEP previne o colapso prematuro das vias aéreas distais e favorece a desinsuflação alveolar, dinamizando as trocas gasosas.
A aplicabilidade do TMI estende-se igualmente ao paciente crítico hospitalizado. Abdeen et al. (2025) evidenciaram que a utilização de resistores de carga linear em indivíduos sob ventilação mecânica invasiva acelerou expressivamente o tempo até o desmame e elevou a força inspiratória negativa frente à fisioterapia convencional isolada. O estímulo resistido precoce contraria a atrofia por desuso induzida pela prótese ventilatória, afirmando-se como conduta essencial para prevenir a falência de extubação nesse estrato clínico de alta vulnerabilidade.
No manejo de sintomas e na desobstrução das vias condutoras, a literatura recente confronta manobras ativas e inovações eletromecânicas. Ceyhan e Tekinsoy Kartin (2022) observaram que a respiração com lábios semicerrados (freno-labial), quando incorporada à educação inalatória, reduziu a dispneia na escala mMRC e otimizou a qualidade de vida. Em indivíduos hipersecretores crônicos, Rivilla et al. (2025) demonstraram que dispositivos oscilatórios eletrovibratórios portáteis atingiram volumes de expectoração equivalentes à oscilação pneumática tradicional de alta frequência, fornecendo índices superiores de conforto e incremento na força respiratória.
Essa constatação alinha-se a Silva et al. (2025), ao defenderem recursos mecânicos oscilatórios para otimizar a depuração mucociliar sem induzir fadiga motora. Por fim, Chen et al. (2024) verificaram que a incorporação de biofeedback por Internet das Coisas (IoT) em protocolos domiciliares assegurou alta precisão na sobrecarga muscular respiratória, culminando na redução de reinternações hospitalares ao longo de seis meses.
4.2. Condicionamento Funcional, Manejo da Fragilidade e Terapias Integrativas
A intolerância ao esforço físico na DPOC não decorre exclusivamente da limitação mecânica ventilatória, mas de um ciclo sistêmico de descondicionamento físico e miopatia periférica que integra as deficiências cinético-funcionais respiratórias por obstrução crônica (DCFROC) caracterizadas por Nunes et al. (2024).
Conforme sustentam Dantas et al. (2025), o desuso muscular acentua o estresse oxidativo, a disfunção bioenergética mitocondrial e a perda de massa magra nos membros inferiores, antecipando o limiar de fadiga periférica antes mesmo que o limite ventilatório voluntário máximo seja alcançado. Nesse cenário de declínio motor progressivo, as diretrizes da Global Initiative for Chronic Obstructive Lung Disease (GOLD, 2025) classificam o treinamento físico estruturado como intervenção prioritária de alto grau de evidência, indispensável para atenuar sintomas incapacitantes e reverter o isolamento social do indivíduo acometido.
No confronto entre os diferentes modelos de condicionamento periférico, a literatura contemporânea analisa a efetividade relativa entre o estímulo aeróbio contínuo e o fortalecimento de força muscular resistida. Ao avaliarem 366 indivíduos com DPOC ao longo de 12 semanas com seguimento prolongado por um ano, Cui et al. (2024) observaram que tanto o treinamento aeróbico de endurance quanto o treinamento resistido proporcionaram ganhos imediatos na distância de caminhada e na redução do impacto clínico aferido pelos questionários SGRQ e CAT. Contudo, os autores comprovaram que o grupo submetido ao treinamento aeróbio sustentou benefícios de marcha superiores na avaliação de longo prazo aos 12 meses, demonstrando maior perenidade das adaptações oxidativas capilares e enzimáticas na musculatura periférica.
Em contrapartida, investigando a fase subsequente à alta ambulatorial, Frei et al. (2022) testaram um programa domiciliar de fortalecimento muscular com sobrecarga progressiva ao longo de 12 meses. O estudo confirmou que o treino resistido com equipamentos mínimos foi seguro e determinou a preservação da força funcional no teste de sentar e levantar de um minuto (1MSTST), ratificando que o fortalecimento muscular periférico opera como conduta profilática essencial para impedir a regressão funcional e a sarcopenia após o término de programas formais de reabilitação.
A sustentação de intensidades adequadas de treinamento frequentemente demanda recursos coadjuvantes que atenuem a sobrecarga respiratória durante a locomoção. Nesse contexto, Aucoin et al. (2026) avaliaram o impacto do fluxo de ar facial direcionado (fan-to-face – F2F) durante o treino aeróbio em esteira, constatando que, embora a tolerância máxima ao esforço tenha sido comparável entre os grupos, a terapia F2F promoveu uma redução consistente e significativa na intensidade e no desconforto da dispneia em todas as sessões.
Esse alívio decorre da estimulação tátil dos mecanorreceptores faciais inervados pelo nervo trigêmeo, a qual modula vias inibitórias reflexas no tronco encefálico e atenua a percepção central de sufocamento. Em abordagem complementar voltada ao controle motor, Song et al. (2025) investigaram o treinamento de respiração abdominal intensa com o corpo em declive (head-down tilt), observando que a reorganização biomecânica toracoabdominal promoveu melhorias no comprimento e na velocidade da passada durante tarefas complexas de transposição de obstáculos, acompanhadas de ganhos na função executiva cognitiva pelo teste MoCA. Ambos os ensaios clínicos convergem ao demonstrar que estratégias sensoriais e posturais facilitadoras minimizam o estresse ventilatório e otimizam a tolerância neuromuscular à marcha.
No âmbito hospitalar e em fases de vulnerabilidade clínica acentuada, a intervenção fisioterapêutica precoce revela-se determinante para interromper o ciclo de declínio funcional decorrente do repouso forçado no leito. Liao et al. (2025) investigaram o pacote de exercícios PREP aplicado a idosos hospitalizados com DPOC e síndrome de fragilidade clínica.
Em apenas quatro semanas, o protocolo gerou redução significativa nos escores da Escala Clínica de Fragilidade (CFS), diminuição da dispneia pela escala mMRC e incremento na distância percorrida no TC6M. Esse resultado corrobora os postulados de Dantas et al. (2025), comprovando que o manejo fisioterapêutico no leito atua na quebra do ciclo vicioso da sarcopenia hospitalar e reduz a vulnerabilidade sistêmica associada a reinternações recorrentes.
A descentralização das intervenções para o ambiente comunitário e a atenção básica foi igualmente analisada quanto à modalidade de acompanhamento. Sacristán-Galisteo et al. (2025) avaliaram um programa comunitário de 13 semanas com equipamento mínimo, baseado em circuitos urbanos de caminhada e educação estruturada, comparando a supervisão presencial contínua (face-to-face) à supervisão meramente telefônica.
O estudo comprovou que, embora ambas as vias tenham promovido melhorias, a presença física do fisioterapeuta foi estatisticamente superior na retenção dos passos diários medidos por acelerometria e na sustentação da distância no TC6M e da qualidade de vida ao longo de 12 meses de seguimento. O ensaio evidencia que a utilização do espaço urbano comunitário é viável e eficaz para a prática motora, exigindo, todavia, acompanhamento profissional direto para garantir a progressão terapêutica de sobrecarga e a retenção comportamental duradoura.
A incorporação de práticas corporais integrativas consolida-se como outro eixo de relevância na restauração da aptidão funcional. Zhu et al. (2025) verificaram que 12 semanas do exercício integrativo tradicional chinês Mawangdui, centrado em movimentos suaves de intensidade baixa a moderada sincronizados à respiração diafragmática profunda, resultaram em elevação da capacidade de exercício, incremento da força de tronco e membros, ganho de flexibilidade e atenuação sintomática da dispneia.
De modo sinérgico, Phantayuth et al. (2024) demonstraram que a combinação estruturada de Tai Chi e Yoga por 12 semanas proporcionou ganhos funcionais relevantes já a partir da quarta semana de protocolo, promovendo equilíbrio dinâmico, força periférica e alívio da fadiga em idosos com obstrução moderada a grave. Esses achados corroboram a revisão de Simões et al. (2026), ratificando que as abordagens mente-corpo constituem modalidades complementares seguras, acessíveis e resolutivas para promover o condicionamento biopsicossocial do paciente com DPOC.
A análise crítica transversal desse corpo empírico revela, fundamentalmente, uma marcante dissociação entre o ganho de aptidão funcional e os parâmetros espirométricos pulmonares fixos. Tanto Zhu et al. (2025) quanto Phantayuth et al. (2024) e Cui et al. (2024) reportaram incrementos expressivos na capacidade submáxima de exercício (TC6M e TC3M), alívio substancial da dispneia aos esforços e melhora na qualidade de vida (CAT e SGRQ), a despeito da ausência de alterações significativas nos valores do Volume Expiratório Forçado no primeiro segundo (VEF1) e da Capacidade Vital Forçada (CVF). Essa dissociação respalda-se nas diretrizes da GOLD (2025), que elucidam que a obstrução ventilatória estrutural decorre de remodelamento cicatricial e lise alveolar irreversíveis, componentes não modificáveis pela cinesioterapia.
Em contrapartida, as adaptações metabólicas periféricas, o aumento da densidade capilar e da extração tecidual de oxigênio explicam o resgate da tolerância ao exercício. Esse panorama empírico fundamenta as recomendações de Rodrigues (2022), Bezerra (2022) e Andrei et al. (2024), ao afirmarem a imperativa necessidade de transcender a avaliação puramente espirométrica em direção ao modelo multidimensional da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), visto que os desfechos cinético-funcionais refletem de maneira fidedigna a autonomia motora e a participação social do indivíduo.
4.3. Saúde Digital, Telereabilitação e Manutenção da Adesão Ao Exercício
A reabilitação pulmonar presencial convencional, a despeito de sua recomendação formal como intervenção padrão-ouro pelas diretrizes globais (GOLD, 2025), enfrenta históricas restrições assistenciais que limitam sua abrangência a uma parcela minoritária dos indivíduos elegíveis. Dificuldades crônicas de transporte urbano, despesas financeiras com deslocamentos frequentes, dependência de cuidadores para locomoção e a escassez de vagas em centros ambulatoriais especializados constituem entraves para a adesão contínua ao tratamento.
Diante desse gargalo assistencial, o comitê internacional GOLD (2025) incorporou formalmente as modalidades de atendimento remoto como alternativas resolutivas e seguras para democratizar o acesso terapêutico. O conjunto de ensaios clínicos analisados reflete esse direcionamento, investigando o impacto clínico de programas de telereabilitação por videoconferência, plataformas digitais (eHealth) e aplicativos para dispositivos móveis (mHealth).
No tocante à eficácia clínica em comparação aos programas ambulatoriais presenciais, as evidências apontam para uma consistente equivalência terapêutica nos desfechos funcionais essenciais. Hansen et al. (2020), ao conduzirem um ensaio clínico multicêntrico e controlado com 134 pacientes portadores de obstrução grave (VEF1 < 50%), verificaram que dez semanas de telereabilitação em grupos virtuais proporcionaram incrementos na distância percorrida no TC6M e na redução do impacto clínico aferido pelo questionário CAT plenamente comparáveis aos alcançados no modelo hospitalar presencial.
De maneira relevante, os autores demonstraram que a intervenção remota alcançou índices significativamente superior de adesão e de conclusão do protocolo, comprovando que a eliminação de barreiras geográficas minimiza as taxas de abandono.
A sustentabilidade das adaptações neuromusculares no longo prazo e a proteção contra descompensações respiratórias foram confirmadas em estudos de seguimento estendido. Zanaboni et al. (2023) demonstraram, em ensaio clínico multicêntrico internacional com dois anos de acompanhamento sistemático, que a telereabilitação individualizada com treinamento domiciliar em esteira ergométrica associada ao suporte regular de um fisioterapeuta reduziu expressivamente o número combinado de internações hospitalares e atendimentos de emergência.
Esse achado reveste-se de grande relevância clínica, uma vez que as exacerbações agudas aceleram o declínio da função pulmonar e elevam o risco de mortalidade na DPOC. Ao assegurar a manutenção da capacidade de caminhada e a autogestão precoce de sintomas ao longo de 24 meses, a monitorização continuada evitou a regressão funcional pós-reabilitação.
No cenário científico brasileiro, a viabilidade da intervenção remota foi confirmada pelo ensaio clínico de Toledo et al. (2025). As pesquisadoras compararam oito semanas de telereabilitação baseada em exercícios respiratórios direcionados associados à educação em saúde frente a um protocolo exclusivamente educativo por videoconferência.
Embora ambos os grupos tenham exibido ganhos, a associação de exercícios cinéticos guiados potencializou o ganho funcional no TC6M e atenuou a carga de sintomas pelo teste CAT. Esse resultado converge com as considerações de Simões et al. (2026), ratificando que a telereabilitação com orientação ativa do fisioterapeuta é uma ferramenta viável na realidade nacional para mitigar o impacto da dispneia sem impor custos de locomoção ao paciente.
A utilização de aplicativos móveis (mHealth) revelou-se especialmente assertiva para enfrentar o descondicionamento físico que habitualmente sucede a alta dos serviços supervisionados. Spielmanns et al. (2023) comprovaram que a utilização diária do aplicativo Kaia COPD por seis meses sustentou o nível de atividade física diária (quantificado pelo número de passos/dia via sensores de acelerometria) e preveniu a deterioração da qualidade de vida nos domínios de fadiga e dispneia do questionário CRQ, ao passo que o grupo controle sob cuidados habituais apresentou regressão funcional relevante.
De forma complementar, Kohlbrenner et al. (2024) verificaram que a integração de telemonitoramento contínuo com um agente conversacional inteligente induziu aumentos clinicamente significativos nos passos cotidianos e aliviou os sintomas respiratórios. Tais achados demonstram que as soluções digitais operam como eficientes ferramentas de manutenção, facilitando a adesão continuada a estilos de vida ativos.
Apesar do amplo potencial das ferramentas digitais, a literatura destaca que a eficácia da saúde digital na população idosa depende do nível de usabilidade dos sistemas e da preservação do acompanhamento profissional. Chung et al. (2025) observaram que, embora o uso do aplicativo Redpill Breath tenha se mostrado seguro e viável em idosos, as melhorias na capacidade de marcha concentraram-se naqueles com elevada fidelidade de uso, indicando que a disponibilização passiva de um aplicativo não gera mudanças comportamentais de forma isolada.
Em sintonia, Karlsson et al. (2025) avaliaram a plataforma Me&COPD e apontaram que o engajamento requer interfaces intuitivas e reuniões regulares com o fisioterapeuta para reajuste de metas. Conclui-se, assim, que a saúde digital e a telereabilitação não substituem o terapeuta, mas configuram modelos híbridos descentralizados que expandem a assistência fisioterapêutica no ambiente domiciliar.
4.4. Aplicação Prática das Evidências no Cenário Nacional (SUS/CIF) E Limitações do Estudo
A despeito da robustez metodológica dos 23 ensaios clínicos analisados e do grau de evidência prioritário preconizado pelas diretrizes da GOLD (2025), identifica-se um acentuado contraste quando esses achados são confrontados com a assistência fisioterapêutica pública no Brasil. Enquanto a literatura internacional consolida a reabilitação pulmonar como intervenção que reduz exacerbações e hospitalizações, os inquéritos epidemiológicos nacionais evidenciam um cenário persistente de subutilização.
Dados do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil) revelam que apenas 11,6% dos pacientes com diagnóstico de DPOC relatam realizar tratamento fisioterapêutico regular, com acesso restrito a indivíduos com maior escolaridade ou histórico recente de internação (Fontanela et al., 2025). Essa disparidade assistencial é reiterada por Marques et al. (2022) na Pesquisa Nacional de Saúde, que aponta desigualdades regionais marcantes na oferta de reabilitação e sobrecarga na rede hospitalar terciária do Sistema Único de Saúde, na qual as regiões Sudeste e Sul sozinhas concentram aproximadamente 70% das internações obstrutivas (Silva et al., 2023).
A superação desses nós críticos no SUS exige a formulação de condutas inovadoras de base territorial. Conforme demonstra Faria (2023), os principais entraves para a expansão da reabilitação pulmonar decorrem da escassez de recursos orçamentários municipais e do déficit de qualificação específica das equipes multiprofissionais.
Em resposta a essa realidade, Silva et al. (2025) e o Ministério da Saúde (2025) defendem a descentralização do cuidado para a Atenção Primária à Saúde (APS), apontando que protocolos de baixo custo baseados em circuitos de caminhada em praças públicas, exercícios calistênicos com o peso corporal e manobras ativas de controle ventilatório configuram soluções viáveis e resolutivas para o sistema público.
Paralelamente aos desafios organizacionais, o corpo empírico demanda uma transformação estrutural na avaliação clínica, superando o modelo centrado no VEF1 em direção ao paradigma biopsicossocial da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) (Bezerra, 2022; Tomazi, 2025). Essa abordagem ganha sustentação pela validação do Comprehensive ICF Core Set para a DPOC no Brasil (Züge et al., 2019), o qual padroniza o mapeamento dos domínios cinético-funcionais mais impactados pela enfermidade. Como destacam Andrei et al. (2024), a consideração dos componentes multidimensionais da CIF orienta o estabelecimento de metas terapêuticas individualizadas, garantindo que as condutas reabilitadoras reflitam ganhos reais na autonomia cotidiana do indivíduo.
Por fim, a interpretação dos achados deve considerar certas limitações metodológicas dos estudos compilados. Observou-se heterogeneidade nos desenhos dos 23 ensaios clínicos quanto à duração das intervenções (de 4 a 24 semanas) e à dosimetria de cargas, mormente no TMI. Constatou-se ainda a predominância de estudos internacionais, figurando a investigação de Toledo et al. (2025) como o único ensaio clínico nacional selecionado, reflexo do escasso financiamento para pesquisas controladas de grande porte no país.
No âmbito digital, as barreiras de letramento tecnológico entre idosos vulneráveis impõem cautela à generalização de ferramentas móveis. Tais aspectos reforçam a necessidade de fomento a ensaios clínicos pragmáticos no contexto brasileiro, voltados a investigar a custo-efetividade e a adesão a modelos híbridos de reabilitação na atenção primária.
5. CONCLUSÃO
A presente revisão integrativa alcança os objetivos delimitados e responde de forma conclusiva à questão norteadora ao evidenciar que a fisioterapia respiratória atua como um pilar não farmacológico indispensável, seguro e altamente resolutivo no manejo da Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica. A síntese dos ensaios clínicos randomizados contemporâneos comprova que as intervenções fisioterapêuticas interrompem a espiral de descondicionamento cinético-funcional, restabelecem as pressões musculares ventilatórias, ampliam a tolerância ao esforço físico e proporcionam modulação autonômica protetora sobre o sistema cardiovascular.
Constata-se uma inequívoca dissociação entre a melhora da capacidade funcional e os índices espirométricos fixos, o que demonstra que o ganho clínico decorre prioritariamente de adaptações metabólicas e mecânicas periféricas, e não da reversão da obstrução brônquica intrínseca. Esse achado consolida a imperiosa necessidade de superar o modelo biomédico centrado unicamente no VEF1, estabelecendo a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) como a ferramenta mandatória para a avaliação clínica integral e para a mensuração do resgate da autonomia nas atividades de vida diária.
No campo das inovações assistenciais, a telereabilitação supervisionada e os recursos de saúde digital comprovam equivalência terapêutica aos modelos presenciais tradicionais, afirmando-se como estratégias eficazes para combater o abandono terapêutico e assegurar a adesão a longo prazo, desde que integradas à supervisão profissional periódica. Em contrapartida, identifica-se um marcante descompasso entre essas evidências científicas e a realidade da saúde pública brasileira, na qual a escassa oferta de reabilitação culmina na sobrecarga de internações hospitalares na rede terciária do SUS. Torna-se urgente, portanto, a descentralização do cuidado mediante a implantação de programas comunitários de baixo custo e base territorial na Atenção Primária à Saúde.
Por fim, apontam-se como limitações metodológicas a moderada heterogeneidade nos protocolos de treinamento muscular respiratório e a escassez de ensaios clínicos controlados conduzidos no Brasil. Recomenda-se o fomento a pesquisas pragmáticas nacionais voltadas a avaliar a custo-efetividade de programas híbridos e comunitários na rede básica. Em suma, a fisioterapia respiratória reafirma sua relevância clínica e social como intervenção transformadora do prognóstico e da qualidade de vida de indivíduos com DPOC.
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1 Graduando do Curso de Bacharelado em Fisioterapia da Faculdade Estácio de São Luís (Campus Turu). E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail
2 Fisioterapeuta, Mestra em Ciências da Saúde, Docente do Curso de Fisioterapia da Faculdade Estácio de São Luís. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail