ASSOCIAÇÃO ENTRE QUALIDADE DO SONO E FUNCIONALIDADE EM CRIANÇAS COM PARALISIA CEREBRAL: UMA REVISÃO INTEGRATIVA

ASSOCIATION BETWEEN SLEEP QUALITY AND FUNCTIONALITY IN CHILDREN WITH CEREBRAL PALSY: AN INTEGRATIVE REVIEW

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/792125905

RESUMO
Introdução: A paralisia cerebral é a principal causa de incapacidade física na infância, caracterizando-se por alterações permanentes do movimento e da postura que comprometem a funcionalidade e a participação das crianças em diferentes contextos. Nessa população, os distúrbios do sono são frequentes e podem influenciar negativamente o desempenho funcional e a qualidade de vida. Objetivo: Analisar as evidências científicas disponíveis acerca da relação entre a qualidade do sono e a funcionalidade em crianças com paralisia cerebral. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, conduzida conforme as etapas propostas por Whittemore e Knafl e estruturada pela estratégia PICO. A seleção dos estudos foi realizada de acordo com as recomendações do PRISMA 2020, utilizando critérios previamente estabelecidos de inclusão e exclusão. Resultados: A busca identificou inicialmente 1.078 registros, dos quais, após as etapas de triagem e elegibilidade, 10 estudos compuseram a amostra final. Os estudos demonstraram elevada prevalência de distúrbios do sono em crianças com paralisia cerebral. A maior parte das evidências indicou que alterações na qualidade do sono estiveram associadas à redução da independência funcional, pior qualidade de vida e menor participação nas atividades diárias. Entretanto, alguns estudos não encontraram associação significativa entre os distúrbios do sono e o comprometimento motor avaliado pelo Gross Motor Function Classification System (GMFCS), evidenciando a influência de múltiplos fatores clínicos sobre a funcionalidade. Conclusão: As evidências sugerem que a qualidade do sono constitui um fator relevante para o desempenho funcional de crianças com paralisia cerebral, devendo ser considerada durante a avaliação e o planejamento terapêutico fisioterapêutico. Contudo, a heterogeneidade metodológica dos estudos evidencia a necessidade de pesquisas com maior rigor científico para melhor compreender essa relação. 
Palavras-chave: Paralisia cerebral; Sono; Distúrbios do sono; Funcionalidade; Fisioterapia;  .

ABSTRACT
Introduction: Cerebral palsy is the leading cause of physical disability in childhood, characterized by permanent alterations in movement and posture that compromise children's functionality and participation across various contexts. In this population, sleep disorders are frequent and can negatively influence functional performance and quality of life. Objective: To analyze the available scientific evidence regarding the relationship between sleep quality and functionality in children with cerebral palsy. Methodology: This is an integrative literature review, conducted according to the steps proposed by Whittemore and Knafl and structured using the PICO strategy. Study selection followed the PRISMA 2020 recommendations, applying pre-established inclusion and exclusion criteria. Results: The search initially identified 1,078 records; following screening and eligibility assessment, 10 studies were included in the final sample. The studies demonstrated a high prevalence of sleep disorders among children with cerebral palsy. Most of the evidence indicated that poor sleep quality was associated with reduced functional independence, lower quality of life, and decreased participation in daily activities. However, some studies did not find a significant association between sleep disorders and motor impairment—as assessed by the Gross Motor Function Classification System (GMFCS)—highlighting the influence of multiple clinical factors on functionality. Conclusion: The evidence suggests that sleep quality is a relevant factor for the functional performance of children with cerebral palsy and should be considered during assessment and the planning of physical therapy interventions. Nevertheless, the methodological heterogeneity across the studies underscores the need for research with greater scientific rigor to better understand this relationship.
Keywords: Cerebral palsy; Sleep; Sleep disorders; Functionality; Physiotherapy.

1. INTRODUÇÃO

A paralisia cerebral (PC) é considerada uma das principais causas de incapacidade física na infância, sendo definida como um grupo de distúrbios permanentes do desenvolvimento do movimento e da postura, decorrentes de alterações não progressivas ocorridas no cérebro em desenvolvimento (Rosenbaum et al., 2007). Essas alterações podem resultar em limitações da atividade e estar associadas a comprometimentos sensoriais, cognitivos, perceptivos, comunicativos, comportamentais, musculoesqueléticos e à epilepsia, repercutindo diretamente sobre o desempenho funcional e a qualidade de vida das crianças acometidas (Rosenbaum et al., 2007; Frare et al., 2025).  

Sob a perspectiva da Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF), a funcionalidade compreende um conceito amplo, que envolve funções e estruturas do corpo, realização de atividades, participação nos diferentes contextos da vida e influência de fatores ambientais e pessoais sobre o desempenho do indivíduo (Organização Mundial da Saúde, 2001). Dessa forma, em crianças com paralisia cerebral, a funcionalidade não se restringe ao desempenho motor, mas também envolve independência funcional, mobilidade, participação social, desempenho escolar e realização das atividades de vida diária (Organização Mundial da Saúde, 2001)

Entre as condições frequentemente associadas à paralisia cerebral, os distúrbios do sono destacam-se pela elevada ocorrência e por suas possíveis repercussões sobre o desenvolvimento infantil. O sono constitui um processo biológico essencial para a maturação do sistema nervoso central, consolidação da memória, recuperação física, regulação metabólica e equilíbrio emocional, desempenhando papel importante no crescimento, na aprendizagem, no desenvolvimento motor e no desempenho funcional durante a infância (Rozeira et al., 2024; Almeida et al., 2025; Annuzzo et al., 2024; Santos, 2025).  

Crianças com paralisia cerebral podem apresentar dificuldades para iniciar e manter o sono, despertares noturnos frequentes, sonolência diurna excessiva, distúrbios respiratórios do sono e redução da eficiência do sono, sendo essas alterações descritas com maior frequência nessa população quando comparadas a crianças com desenvolvimento típico (Adiga et al., 2014; Romeo et al., 2014; Ghorbanpour et al., 2019; Samota et al., 2023).  

A ocorrência dos distúrbios do sono em crianças com PC apresenta caráter multifatorial e pode estar relacionada a fatores como dor, espasticidade, deformidades musculoesqueléticas, limitações posturais, epilepsia, uso de medicamentos anticonvulsivantes, alterações respiratórias e outros comprometimentos neurológicos associados à condição clínica (Santos et al., 2021; Adiga et al., 2014; Dreier et al., 2021).  

Além disso, alguns estudos apontam que crianças com maior comprometimento funcional, especialmente aquelas classificadas nos níveis mais elevados do Gross Motor Function Classification System (GMFCS), podem apresentar maior frequência de alterações relacionadas ao sono, sugerindo uma possível relação entre a gravidade das limitações funcionais e a qualidade do sono (Romeo et al., 2014; Dreier et al., 2021; Obrecht et al., 2021).

Evidências apontam para uma associação entre a qualidade do sono e a funcionalidade em crianças com paralisia cerebral, embora a direção dessa relação ainda não esteja completamente esclarecida. Alterações do sono podem estar associadas a dificuldades de atenção, aprendizagem, desempenho motor, independência funcional, participação em atividades físicas e sociais e qualidade de vida. Por outro lado, maiores limitações funcionais também podem contribuir para o aparecimento ou agravamento de distúrbios do sono (Ghorbanpour et al., 2019; Badaru et al., 2021; Günaydın et al., 2023). Esses achados reforçam a importância de considerar a qualidade do sono durante o acompanhamento clínico e o planejamento terapêutico de crianças com paralisia cerebral.  

Embora os distúrbios do sono em crianças com paralisia cerebral sejam amplamente investigados na literatura, ainda existem lacunas quanto à compreensão de sua associação com a funcionalidade. Os estudos apresentam diferenças metodológicas relacionadas ao delineamento, às características das amostras, aos instrumentos de avaliação e aos desfechos investigados, dificultando a comparação dos resultados. Além disso, algumas pesquisas priorizam o comprometimento motor, enquanto outras analisam a independência funcional, a participação nas atividades diárias ou a qualidade de vida. Nesse contexto, torna-se relevante reunir e analisar criticamente as evidências disponíveis, buscando compreender como as alterações do sono se relacionam com diferentes dimensões da funcionalidade nessa população.

Diante desse contexto, formulou-se a seguinte questão norteadora: qual é a associação entre a qualidade do sono e a funcionalidade em crianças com paralisia cerebral? 

Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar as evidências científicas acerca da associação entre a qualidade do sono e a funcionalidade em crianças com paralisia cerebral, por meio de uma revisão integrativa da literatura. 

2. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, desenvolvida com o objetivo de reunir, analisar e sintetizar criticamente as evidências científicas acerca da relação entre a qualidade do sono e a funcionalidade em crianças com paralisia cerebral. A revisão integrativa possibilita a inclusão de estudos com diferentes delineamentos metodológicos, permitindo uma compreensão abrangente do fenômeno investigado e contribuindo para a prática baseada em evidências (Whittemore; Knafl, 2005). 

A revisão integrativa foi fundamentada na proposta metodológica de Whittemore e Knafl (2005), contemplando cinco etapas: identificação do problema, busca na literatura, avaliação dos dados, análise dos dados e apresentação dos resultados. Para assegurar maior transparência na descrição do processo de seleção dos estudos, foram utilizadas as recomendações do Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA 2020) (Page et al., 2021), sendo as etapas de identificação, triagem e inclusão dos artigos apresentadas por meio de um fluxograma.

A elaboração da questão norteadora foi fundamentada na estratégia PICO, considerando-se: P (População) – crianças e adolescentes com diagnóstico de paralisia cerebral; I (Interesse) – qualidade do sono e distúrbios relacionados ao sono; C (Comparação) – não aplicável, uma vez que não foi exigido grupo comparador; e O (Outcome/Desfecho) – funcionalidade, incluindo desempenho motor, independência funcional e participação nas atividades cotidianas.

A busca bibliográfica foi realizada entre junho e julho de 2026, nas bases de dados PubMed/MEDLINE, LILACS, SciELO, PEDro, Scopus e Web of Science. A seleção dessas fontes buscou abranger publicações científicas relacionadas à saúde, à reabilitação e à fisioterapia. Não foi estabelecida restrição quanto ao ano de publicação, considerando a necessidade de identificar estudos que investigassem especificamente a associação entre qualidade do sono e funcionalidade em crianças com paralisia cerebral.

Para a identificação dos estudos, foram utilizados descritores relacionados à paralisia cerebral, ao sono e à funcionalidade, selecionados a partir dos vocabulários Medical Subject Headings (MeSH) e Descritores em Ciências da Saúde (DeCS), complementados por termos livres. Entre os termos empregados, destacaram-se “Cerebral Palsy”, “Sleep”, “Sleep Wake Disorders”, “Motor Activity”, “Activities of Daily Living” e “Functionality”. Os termos foram combinados por meio dos operadores booleanos AND e OR, considerando as particularidades de cada base de dados. A estratégia principal apresentada para a busca foi: (“Cerebral Palsy”) AND (“Sleep” OR “Sleep Disorders”) AND (“Activities of Daily Living” OR “Motor Activity” OR “Functionality”), com adaptações conforme as características das fontes consultadas.

Foram incluídos estudos científicos originais, disponíveis na íntegra, publicados nos idiomas português, inglês ou espanhol, que investigaram crianças e adolescentes com diagnóstico de paralisia cerebral e analisaram a associação entre qualidade do sono e funcionalidade, independentemente do delineamento metodológico. Foram excluídos artigos de revisão, revisões sistemáticas e integrativas, metanálises, relatos de caso, editoriais, cartas ao editor, resumos publicados em anais de eventos científicos, dissertações e teses. Também foram excluídos estudos que investigaram exclusivamente alterações do sono ou aspectos funcionais, sem estabelecer relação entre essas variáveis.

Após a realização das buscas bibliográficas, os registros identificados foram organizados em planilha eletrônica para identificação e exclusão de duplicatas. Posteriormente, realizou-se a triagem dos estudos por meio da leitura dos títulos e resumos, considerando os critérios de elegibilidade previamente estabelecidos. Os artigos potencialmente relevantes foram submetidos à leitura na íntegra, sendo selecionados aqueles que atenderam aos critérios de inclusão e apresentaram resultados relacionados à associação entre qualidade do sono e funcionalidade em crianças com paralisia cerebral. As etapas de identificação, triagem, avaliação de elegibilidade e inclusão dos estudos foram representadas no fluxograma PRISMA 2020 (Figura 1).

FIGURA 1. Fluxograma de seleção de artigos 

Fonte: Produzido pelos autores. Fonte dos dados: PubMed/MEDLINE, LILACS, SciELO, PEDro, Scopus e Web of Science. Maringá, PR, 2026. 

Os estudos incluídos foram organizados em um quadro sinóptico, contemplando autor e ano de publicação, objetivo, delineamento metodológico, características da amostra, instrumentos utilizados para avaliação do sono e da funcionalidade e principais resultados. Posteriormente, os dados foram submetidos à análise descritiva e comparativa, buscando identificar convergências, divergências e possíveis associações entre a qualidade do sono e a funcionalidade em crianças com paralisia cerebral. A síntese dos achados considerou as diferenças metodológicas entre os estudos, especialmente quanto aos instrumentos de avaliação, às características das amostras e aos desfechos investigados, permitindo uma interpretação crítica das evidências disponíveis.

3. RESULTADOS

A busca bibliográfica identificou inicialmente 1.078 registros nas bases de dados pesquisadas. Após a remoção dos registros duplicados e a aplicação dos critérios de elegibilidade, 92 artigos foram selecionados para avaliação por meio da leitura na íntegra. Destes, 10 estudos compuseram a amostra final da revisão integrativa. O processo de identificação e seleção dos estudos encontra-se apresentado na Figura 1, enquanto a caracterização dos artigos incluídos está descrita no Quadro 1.

QUADRO 1. Artigos incluídos nesta revisão 

Autor/ano

Objetivo

Delineamento

Amostra

Instrumento de avaliação do sono

Instrumento de avaliação da funcionalidade

Principais resultados

Adiga et al. (2014) 

Avaliar a frequência dos distúrbios do sono e seus fatores associados em crianças com paralisia cerebral. 

Estudo observacional transversal 

50 crianças com PC 

Sleep Disturbance Scale for Children (SDSC) 

Gross Motor Function Classification System (GMFCS) e avaliação clínica 

Os distúrbios do sono foram identificados em 36% das crianças avaliadas, com predomínio de dificuldades para iniciar e manter o sono. Observou-se associação com epilepsia e alterações do sono dos cuidadores. Entretanto, não foi identificada associação estatisticamente significativa entre os distúrbios do sono e os níveis de comprometimento motor classificados pelo GMFCS.

Badaru et al. (2021) 

Avaliar a prevalência, o padrão e o impacto dos distúrbios do sono na qualidade de vida e na participação em exercícios em crianças com PC. 

Estudo transversal 

200 crianças com PC 

SDSC 

GMFCS, Cerebral Palsy Quality of Life Questionnaire (CP-QOL) e participação em exercícios 

Os distúrbios do sono estiveram associados à pior qualidade de vida e à menor participação em exercícios físicos entre crianças com paralisia cerebral, especialmente naquelas com maior comprometimento motor. Os achados sugerem que alterações do sono podem estar relacionadas a limitações em diferentes aspectos da funcionalidade infantil.

Ghorbanpour et al. (2019) 

Investigar a correlação entre distúrbios do sono e funcionalidade em crianças com paralisia cerebral espástica 

Estudo transversal 

62 crianças com PC espástica (4–12 anos) 

SDSC 

Activities Scale for Kids (ASK) e CP-QOL 

Crianças com distúrbios do sono apresentaram menores escores médios de independência funcional e qualidade de vida. Entretanto, não foi identificada correlação estatisticamente significativa entre os escores totais de sono e funcionalidade. Observou-se associação entre alterações do despertar e pior saúde familiar.

Günaydın et al. (2023) 

Avaliar a relação entre independência funcional, problemas do sono e constipação em crianças com paralisia cerebral. 

Estudo transversal observacional 

60 crianças com PC (GMFCS III–V) 

Pediatric Sleep Questionnaire (PSQ) 

Functional Independence Measure for Children (WeeFIM) e GMFCS 

Crianças com menor independência funcional apresentaram mais problemas de sono. Houve correlação negativa significativa entre o escore do WeeFIM e os problemas de sono, indicando que menor funcionalidade esteve associada a pior qualidade do sono. 

Dreier et al. (2021) 

Avaliar problemas relacionados ao sono em crianças e adolescentes com PC utilizando um instrumento específico para essa população. 

Estudo prospectivo observacional 

100 crianças e adolescentes com PC (2–18 anos) 

SNAKE Sleep Questionnaire 

GMFCS e BFMF 

Crianças e adolescentes com maior comprometimento motor apresentaram maior frequência de problemas relacionados ao sono. Os resultados sugerem uma associação entre a gravidade do comprometimento motor e as alterações do sono em indivíduos com paralisia cerebral.

Karabulut; Avcı (2020) 

Investigar a relação entre problemas do sono, função motora grossa e qualidade de vida dos pais de crianças com PC. 

Estudo caso-controle observacional 

60 crianças com PC espástica e 60 crianças com desenvolvimento típico 

Children's Sleeping Habits Questionnaire (CSHQ) 

GMFCS 

Os distúrbios do sono foram identificados em 86,7% das crianças com paralisia cerebral, apresentando frequência significativamente maior em comparação ao grupo com desenvolvimento típico. As alterações do sono também estiveram associadas à pior qualidade de vida dos pais, evidenciando possíveis repercussões sobre o contexto familiar.

Obrecht et al. (2021) 

Investigar a relação entre comprometimento da função motora grossa, problemas do sono e necessidade de suporte noturno em crianças e adolescentes com PC. 

Estudo observacional transversal 

Crianças e adolescentes com PC 

SDSC e questionário sobre suporte noturno 

GMFCS 

Crianças e adolescentes com maior comprometimento da função motora grossa apresentaram mais problemas relacionados ao sono e maior necessidade de assistência durante o período noturno. Os achados indicam associação entre a gravidade do comprometimento motor, as alterações do sono e a demanda por suporte noturno.

Romeo et al. (2014) 

Avaliar a frequência dos distúrbios do sono e sua relação com aspectos motores, cognitivos e comportamentais. 

Estudo observacional transversal 

165 crianças com PC 

SDSC 

GMFCS + escalas cognitivas/comportamentais 

Os distúrbios do sono foram frequentes em crianças com paralisia cerebral, apresentando associação com maior comprometimento motor, presença de epilepsia e alterações comportamentais. Os achados sugerem que os problemas relacionados ao sono podem estar associados a diferentes manifestações clínicas e funcionais dessa população.

Samota et al. (2023) 

Avaliar distúrbios do sono e qualidade de vida em crianças com PC e investigar sua associação. 

Estudo transversal caso-controle 

117 crianças com PC e 117 controles 

PSQ, Sleep Disturbance Scale for Children 

CPQOL-Child 

Crianças com paralisia cerebral apresentaram maior frequência de distúrbios do sono e piores indicadores de qualidade de vida em comparação àquelas com desenvolvimento típico. Os resultados evidenciam a coexistência de alterações do sono e prejuízos na qualidade de vida nessa população, sem estabelecer necessariamente uma relação causal entre essas variáveis.

Sandella et al. (2011) 

Avaliar a relação entre sintomas de distúrbios do sono e qualidade de vida em crianças com PC. 

Estudo prospectivo correlacional 

41 crianças com PC e 91 crianças com desenvolvimento típico 

PSQ 

Pediatric Quality of Life Inventory (PedsQL 4.0) 

A sonolência diurna excessiva e os sintomas de insônia estiveram associados à pior qualidade de vida nos domínios físico e psicossocial de crianças com paralisia cerebral. Os resultados sugerem uma associação entre alterações do sono e diferentes dimensões da qualidade de vida nessa população.

Fonte: Produzido pelos autores. Fonte dos dados: PubMed/MEDLINE, LILACS, SciELO, PEDro, Scopus e Web of Science. Maringá, PR, 2026.

4. DISCUSSÃO

Os estudos incluídos nesta revisão evidenciaram a elevada frequência de distúrbios do sono em crianças com paralisia cerebral. Romeo et al. (2014), Karabulut e Avcı (2020), Samota et al. (2023) e Badaru et al. (2021) identificaram alterações relacionadas ao início e à manutenção do sono, despertares noturnos e sonolência diurna. Adiga et al. (2014), por sua vez, identificaram distúrbios do sono em 36% das crianças avaliadas. Esses resultados demonstram a relevância das alterações do sono nessa população, embora as diferenças entre as amostras e os instrumentos utilizados dificultem a comparação direta das prevalências encontradas.

A elevada frequência de distúrbios do sono em crianças com paralisia cerebral pode estar relacionada à interação de diferentes fatores clínicos, incluindo espasticidade, dor, epilepsia, deformidades musculoesqueléticas, limitações posturais, uso de medicamentos anticonvulsivantes e alterações respiratórias (Adiga et al., 2014; Dreier et al., 2021; Obrecht et al., 2021). Nesse contexto, Dreier et al. (2021) identificaram maior ocorrência de problemas relacionados ao sono em crianças com comprometimento motor mais acentuado, enquanto Obrecht et al. (2021) observaram associação entre maior comprometimento da função motora grossa, alterações do sono e necessidade de suporte noturno. Esses achados sugerem que a gravidade das limitações motoras pode estar relacionada às dificuldades do sono, embora outros fatores clínicos também devam ser considerados nessa associação.

Entretanto, os resultados encontrados na literatura não foram totalmente concordantes. Ghorbanpour et al. (2019), embora tenham identificado menores escores médios de independência funcional e qualidade de vida em crianças com distúrbios do sono, não observaram correlação estatisticamente significativa entre os escores totais de sono e funcionalidade. De maneira semelhante, Karabulut e Avcı (2020) não identificaram associação significativa entre os níveis do GMFCS e o escore global de sono, com exceção da fadiga matinal. Adiga et al. (2014) também não encontraram associação significativa entre os distúrbios do sono e a classificação motora pelo GMFCS. Essas divergências indicam que a relação entre sono e funcionalidade é complexa e não pode ser explicada exclusivamente pela gravidade do comprometimento motor. Além disso, é importante considerar que o GMFCS classifica a função motora grossa, não contemplando isoladamente todas as dimensões da funcionalidade infantil.

As divergências observadas entre os estudos podem estar relacionadas à heterogeneidade metodológica das pesquisas, especialmente quanto ao tamanho das amostras, à faixa etária dos participantes, à gravidade do comprometimento motor, aos delineamentos metodológicos e aos instrumentos utilizados para avaliação do sono e da funcionalidade. Enquanto Günaydın et al. (2023) utilizaram o Functional Independence Measure for Children (WeeFIM) para investigar a independência funcional, Ghorbanpour et al. (2019) empregaram o Activities Scale for Kids (ASK), e outros estudos utilizaram o Gross Motor Function Classification System (GMFCS) para classificar a função motora grossa. Essas diferenças dificultam a comparação direta dos resultados, uma vez que os instrumentos avaliam dimensões distintas da funcionalidade. Dessa forma, a ausência de associação estatisticamente significativa em determinados estudos não exclui a possibilidade de relações entre alterações do sono e outros aspectos funcionais, como independência nas atividades diárias, participação e qualidade de vida.

Outro aspecto relevante identificado nesta revisão refere-se à associação entre os distúrbios do sono infantil e o bem-estar dos familiares e cuidadores. Ghorbanpour et al. (2019) identificaram associação entre alterações do despertar e pior saúde familiar, enquanto Karabulut e Avcı (2020) observaram repercussões relacionadas à qualidade de vida dos pais. Obrecht et al. (2021), por sua vez, destacaram a maior necessidade de assistência durante o período noturno em crianças com comprometimento motor mais acentuado. Esses resultados sugerem que as dificuldades relacionadas ao sono podem ultrapassar as condições individuais da criança, estando associadas à maior demanda de cuidados e a possíveis prejuízos no bem-estar familiar. Dessa forma, a avaliação das alterações do sono deve considerar não apenas as necessidades da criança, mas também o contexto familiar no qual ela está inserida.

Sob a perspectiva da fisioterapia pediátrica, os achados desta revisão reforçam a importância de considerar a qualidade do sono durante a avaliação e o acompanhamento de crianças com paralisia cerebral. Embora a avaliação fisioterapêutica contemple tradicionalmente aspectos relacionados ao controle motor, à mobilidade e à independência funcional, a investigação dos hábitos e das alterações do sono pode contribuir para uma compreensão mais abrangente das condições que interferem no desempenho diário dessas crianças. Nesse contexto, a identificação de fatores como dor, espasticidade, dificuldades de posicionamento e limitações motoras pode auxiliar no planejamento de condutas terapêuticas individualizadas e na necessidade de encaminhamento para avaliação multiprofissional. Entretanto, considerando o predomínio de estudos observacionais, ainda não é possível afirmar que intervenções destinadas à melhora do sono resultem diretamente em ganhos funcionais.

Por fim, esta revisão apresenta limitações que devem ser consideradas na interpretação dos resultados, especialmente a heterogeneidade dos delineamentos metodológicos, das características das amostras e dos instrumentos utilizados para avaliar o sono e a funcionalidade. Além disso, o predomínio de estudos observacionais impossibilita estabelecer relações de causalidade entre essas variáveis. A utilização de diferentes medidas de funcionalidade também dificulta a comparação direta dos achados e a elaboração de conclusões mais abrangentes. Dessa forma, destaca-se a necessidade de pesquisas longitudinais e estudos com maior padronização dos instrumentos de avaliação, a fim de esclarecer a associação entre qualidade do sono e funcionalidade em crianças com paralisia cerebral e fornecer evidências mais consistentes para a prática fisioterapêutica.

5. CONCLUSÃO

A presente revisão integrativa evidenciou que os distúrbios do sono são frequentes em crianças com paralisia cerebral e podem estar associados a diferentes dimensões da funcionalidade, especialmente à independência nas atividades diárias, à participação e à qualidade de vida. Entretanto, os resultados encontrados não foram uniformes, uma vez que alguns estudos não identificaram associação estatisticamente significativa entre as alterações do sono e o comprometimento da função motora grossa.

A heterogeneidade metodológica e o predomínio de estudos observacionais limitam a compreensão da direção dessa associação e impedem o estabelecimento de relações causais. Nesse contexto, os achados reforçam a importância de considerar a qualidade do sono na avaliação fisioterapêutica, por meio de uma abordagem individualizada e multiprofissional. Ressalta-se, ainda, a necessidade de pesquisas com maior rigor metodológico e instrumentos padronizados, visando ampliar a compreensão dessa relação e contribuir para o aprimoramento da assistência fisioterapêutica pediátrica.

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1 Acadêmica do curso de Fisioterapia – UNICIVE – Centro Universitário Cidade Verde, em Maringá/PR.

2 Acadêmica do curso de Fisioterapia – UNICIVE – Centro Universitário Cidade Verde, em Maringá/PR.

3 Docente do curso de Fisioterapia – UNICIVE – Centro Universitário Cidade Verde, em Maringá/PR.