ARTE E EDUCAÇÃO NA SAÚDE DO/A TRABALHADOR/A DO SUS: RELATO DE EXPERIÊNCIA DE UMA PSICÓLOGA

ART AND EDUCATION IN SUS WORKER HEALTH: A PSYCHOLOGIST'S EXPERIENCE REPORT

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/784098824

RESUMO
Este artigo consiste num relato de experiência de uma intervenção grupal, no formato de rodas de conversa, desenvolvidas no âmbito da saúde do/a trabalhador/a, no Programa Arte e Educação em Saúde para Trabalhadores/as e Familiares, PAESF. O objetivo da intervenção foi abordar temas em saúde mental, na perspectiva da educação em saúde e a partir do enfoque da arte e criatividade, junto aos trabalhadores/as e seus familiares. Os referenciais da Educação em Saúde, sob a ótica de Paulo Freire e da Psicologia da Arte, a partir de Vygotsky, no tocante aos seus estudos sobre criatividade e arte, fundamentam esse trabalho. A metodologia adotada foi o relato de experiência, que é um tipo de produção de conhecimento, no qual há descrição e análise da intervenção, à luz do referencial teórico adotado. Ocorreram dois grupos, o primeiro em 2023 e o segundo em 2024, cada qual teve dez rodas de conversa. Os participantes eram familiares e trabalhadores, vinculados à rede estadual de saúde de Pernambuco. Os principais resultados desse trabalho foram uma melhor compreensão acerca das emoções que estão presentes na vida pessoal e profissional, bem como aprendizagem sobre as questões de saúde mental, principalmente no tocante ao sofrimento psíquico e diminuição acerca de preconceitos ligados ao campo. Outro ganho foi o desenvolvimento de estratégias criativas para uma vida mais leve. O trabalho foi avaliado de forma bastante positiva, contribui com o campo da saúde do trabalhador, bem como na promoção de saúde no SUS.
Palavras-chave: criatividade; arte; educação em saúde; saúde do trabalhador.

ABSTRACT
This article presents an account of a group intervention, conducted as conversation circles, focused on worker health within the Art and Health Education Program for Workers and Their Families (PAESF). The objective of the intervention was aprroach mental health topics, with workers and their families, through the lenses of health education, art, and creativity. The work is grounded in health education frameworks based on Paulo Freire’s perspective and the psychology of art, drawing on Vygotsky’s studies, regarding creativity and art. The methodology employed was the "experience report", a form of knowledge production involving the description and analysis of an intervention in light of the adopted theoretical framework. Two group cycles took place, one in 2023 and another in 2024, each consisting of ten discussion circles. The participants were family members and workers linked to the Pernambuco state health network. The results outcomes included a better understanding of emotions present in personal and professional life, as well as learning about mental health issues, particularly regarding psychological distress, and a reduction in stigma associated with the field. Another benefit was the development of creative strategies for a lighter, more balanced life. The initiative was evaluated very positively and contributes to the field of worker health as well as to health promotion within the Unified Health System (SUS).
Keywords: creativity; art; health education; occupational health.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo consiste na apresentação de um relato de experiência de uma intervenção grupal, desenvolvida no âmbito da saúde do/a trabalhador/a, por mim, psicóloga/trabalhadora do SUS, que tenho experiência de quase uma década nesse campo, atuando nas políticas públicas de cuidado ao cuidador, isto é, junto aos/às trabalhadores/as vinculados à rede estadual de saúde pernambucana, na Secretaria Estadual de Saúde, SES-PE.

Essa intervenção foi desenvolvida no Programa Arte e Educação em Saúde para Trabalhadores/as e Familiares, PAESF do qual sou uma das criadoras. Esse programa nasceu em 2022, no contexto de pós-pandemia da Covid-19, que afetou profundamente a saúde mental dos profissionais de saúde, que atuaram na linha de frente, no enfrentamento à pandemia (Fiocruz, 2020). Então, é nesse cenário que o referido programa foi desenvolvido, com o objetivo de trabalhar temas em saúde mental, na perspectiva da educação em saúde e a partir do olhar da arte e criatividade, junto aos trabalhadores/as e seus familiares. Desse modo, busca-se democratizar o acesso aos conhecimentos em saúde mental, desmistificando preconceitos nesse campo, possibilitar a participação da família no processo de cuidado em saúde mental e favorecer a prevenção e promoção no campo da saúde mental (Sousa et al, 2026).

A necessidade de trabalhar essa temática se justifica, pois há pouco conhecimento sobre as questões de saúde mental, principalmente ligadas ao sofrimento psíquico. Sendo assim, trabalhar temas nessa área é uma forma de realizar a promoção em saúde, bem como a prevenção, acolhendo as pessoas (Franco; Bueno; Merhy, 1999). Vale ressaltar também que, nessa área, além de haver pouca informação, também existem muitos preconceitos, quanto ao sofrimento psíquico, que é visto como “loucura” de forma estereotipada e sem que haja compreensão adequada.

O PAESF também visa uma produção de cuidado horizontalizada, ampliada e relacional no campo da saúde mental, ao trazer tanto os/as usuários/as-trabalhadores/as, quanto seus familiares, nesses grupos, que tiveram composição mista, como forma de democratizar o acesso aos conhecimentos em saúde mental, abrangendo mais pessoas e favorecendo que a família, também participe do processo de cuidado de seu ente. A política de saúde mental também preconiza a importância da participação da família no processo de cuidado (Brasil, 2001).  Sendo assim, é um modo de favorecer a participação do familiar e sensibilizá-lo quanto à importância de sua presença no cuidado em saúde. A seguir, explanarei sobre o referencial teórico desse artigo.

2. O SOFRIMENTO PSÍQUICO, O/A TRABALHADOR/A E SUA FAMÍLIA

Saliento que o campo da saúde do/a trabalhador, no qual se insere essa experiência, é orientado pela Política Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, PNSTT (Brasil, 2012), que é uma diretriz do SUS que visa proteger, promover e recuperar a saúde dos trabalhadores, focando na promoção de saúde e prevenção de acidentes e doenças ocupacionais. Desse modo, integra os ambientes laborais à saúde coletiva, garantindo assistência aos profissionais. Especificamente no contexto dos/as trabalhadores/as do SUS, alvo dessa intervenção, acrescento que, atualmente, encontra-se em construção o Programa Nacional de Atenção Integral à Saúde e Segurança do Trabalhador e da Trabalhadora do Sistema Único de Saúde, PNAIST/SUS, que foi criado pelo Ministério da Saúde e visa promover a saúde integral, a prevenção de adoecimentos ocupacionais e a humanização das relações dos profissionais que atuam no SUS.

No que tange à questão do sofrimento psíquico, a saúde dos/as trabalhadores do SUS é bastante influenciada por uma variedade de riscos ocupacionais, pois há alguns contextos em que estão expostos a patógenos, substâncias tóxicas, radiação, ruído excessivo e outras condições que levam a distúrbios osteomusculares. Além disso, com relação à saúde mental, enfrentam estresse crônico e sobrecarga emocional, o que contribui para alta prevalência de transtornos mentais, como a síndrome de burnout (Sousa et al, 2026).

Com relação ao público-alvo dessa intervenção: trabalhadores/as do SUS e seus familiares, assinalo que as situações de adoecimento, mobilizam tanto a pessoa enferma, quanto os familiares e os que estão ao seu redor. Então, também é preciso cuidar do cuidador e fortalecê-lo, para que possa acompanhar seu ente de forma adequada. Pontuo que a família, nas suas mais diversas configurações, constitui-se como um espaço altamente complexo. É construída e reconstruída histórica e cotidianamente, através das relações e negociações que estabelece entre seus membros e entre esses e outras esferas da sociedade, tais como Estado, trabalho e mercado. Reconhece-se também que além de sua capacidade de produção de subjetividades, ela também é uma unidade de cuidado e de redistribuição interna de recursos (Mioto; Campos; Lima, 2006).

Essa concepção de família contrapõe-se àquelas que tratam a família a partir de uma determinada estrutura, tomada como “ideal”: casal com seus filhos e com papéis pré-definidos, bem como às que analisam a família somente a partir de sua estrutura relacional, não incorporando as relações estabelecidas com outras esferas da sociedade. É preciso considerar, por exemplo, como a relação com o Estado, através de sua legislação, de suas políticas econômicas e sociais, interfere na história das famílias, na construção dos processos familiares que são expressos através das dinâmicas familiares. Sendo assim, a família não é apenas uma construção privada, mas também pública e tem um papel importante na estruturação da sociedade em seus aspectos sociais, políticos e econômicos (Mioto; Campos; Lima, 2006).

3. EDUCAÇÃO EM SAÚDE, CRIATIVIDADE E ARTE

A presente experiência se desenvolveu na perspectiva da educação em saúde, prática bastante importante no contexto do Sistema Único de Saúde, SUS. A educação em saúde no Brasil, conforme Santos et al (2011), começou a se desenvolver de forma mais intensa, por volta dos anos 1970, no período de redemocratização. Essa prática é uma tecnologia que se coaduna com os princípios e diretrizes do SUS e que se desenvolveu a partir do Movimento Sanitário, o qual culminou com a materialização do SUS.

Nessa época, a proposta de educação problematizadora, baseada na ação e na reflexão e sistematizada por Paulo Freire, torna-se referência para a relação entre profissionais de saúde e população, a partir de uma relação dialógica entre o conhecimento técnico-científico e a sabedoria popular e com base na possibilidade da população refletir sobre suas condições de vida e saúde. Vale salientar, que isso ocorreu, a partir da valorização e acolhimento aos saberes populares, algo bastante inovador nessa época, pois havia uma supervalorização do conhecimento científico, em detrimento de outros saberes (Lopes; Pereira; Morel, 2020).

Freire (1996) é considerado o principal referencial da educação em saúde no Brasil, um pesquisador e intelectual respeitado mundialmente. Em seu livro Pedagogia da Autonomia, ele nos diz, que ensinar exige respeito aos saberes dos educandos. Transpondo isso para o contexto da saúde, é necessário que os/as profissionais acolham e respeitem os saberes dos usuários; no caso desse programa em questão, os saberes dos/as trabalhadores/as e seus familiares, fazendo um diálogo entre esses e os conhecimentos científicos.

Além da perspectiva de educação em saúde freireana, debatida anteriormente, outro referencial que fundamenta o PAESF, é a Psicologia da Arte, a partir das contribuições de Vygotsky (1999, 2025) principalmente a partir de seu livro Psicologia da Arte, uma obra ainda pouco conhecida no Brasil, mas que aos poucos está sendo mais estudada e difundida, na qual o referido autor, apresenta contribuições muito importantes acerca da arte e da criatividade. Para ele, a tarefa criadora, base da criatividade, é toda atividade humana geradora de algo novo e que os processos criadores surgem desde a infância, podendo ser desenvolvidos ao longo da vida. Porém, muitas vezes, sabemos que os diversos espaços de socialização, por vezes, podem tolher ou inibir o desenvolvimento da criatividade, que é fonte para um desenvolvimento humano saudável e pleno. 

Nesse contexto, a atividade reprodutora está relacionada à memória, sua essência está ligada à repetição de normas de comportamento ou relembrar de acontecimentos passados, não há criação de nada novo, limitando-se à reprodução de alguma coisa já existente. Por seu turno, a atividade criadora é toda atividade humana que não se restringe à reprodução de fatos e impressões vividas, mas produz novas imagens e ações, através da combinação de elementos e reelaboração, por exemplo (Vygotsky, 2014). A compreensão dessas modalidades de atividade está na base da discussão acerca da criatividade e compreendo que atividade criadora é fonte de saúde, pois criar mobiliza ativamente a pessoa, favorecendo o papel ativo do ser humano, dimensão fundamental para seu desenvolvimento.

Quanto ao ato artístico este é, portanto, um ato criador e não pode ser recriado por meio de operações puramente conscientes (Vygotsky, 1999, 2025). Toassa (2011) grafa as funções da arte na visão vygotskyana e uma delas é produzir a descarga energética dos sentimentos comuns que não encontram vazão na vida normal. Outra função é introduzir ação na paixão, transformar paixão em ação. A seguir, apresentarei o percurso metodológico desse relato de experiência.

4. METODOLOGIA

A metodologia adotada nesse artigo foi o relato de experiência, que é um tipo de produção de conhecimento, que aborda uma vivência acadêmica e/ou profissional e tem como característica principal a descrição da intervenção, cuja reflexão é feita à luz do referencial teórico adotado (Mussi; Flores; Almeida, 2021). O relato de experiência é uma modalidade de cultivo de conhecimento no território da pesquisa qualitativa, que também envolve um trabalho a partir da memória (Daltro; Faria, 2019). Nesse trabalho a reflexão teórica, utilizada para compreender a experiência é fundamental.

Num momento anterior à elaboração desse artigo, realizei a escrita de relatórios dos encontros de forma pormenorizada, através da explanação sobre como ocorreu cada roda de conversa. Para a construção desse artigo, fiz a leitura de todos esses relatórios e síntese dos principais temas debatidos, cuja reflexão acerca deles, foi feita, a partir do referencial teórico que norteia essa intervenção.

Acerca do Programa Arte e Educação em Saúde para Trabalhadores/as e Familiares/as, PAESF, fui uma das criadoras, desse programa que tem como eixo de ação, a realização das rodas de conversa. O PAESF nasceu em 2022, no contexto de pós-pandemia da Covid -19, num cenário que já estava voltando à normalidade, porém ainda havia um certo receio desse novo momento que estávamos vivendo, devido à recente experiência da pandemia. No ano de 2022, houve a construção do projeto do PAESF, momento marcado pelo forte investimento teórico-conceitual e trabalho de escrita.

A partir de 2023, as rodas de conversa começaram a acontecer numa unidade de saúde, na qual atuei como psicóloga, durante quase dez anos. A referida unidade é vinculada à Secretaria Estadual de Saúde, SES-PE, na cidade de Recife-PE, é pioneira na atenção à saúde do trabalhador, atuando há trinta anos nesse campo, quando nem havia, ainda a política pública de saúde do trabalhador. Essa unidade é composta por uma equipe interprofissional formada por psicólogas, psiquiatra, assistentes sociais, profissionais das práticas integrativas, entre outros, que prestam assistência aos/às trabalhadores/as da rede estadual de saúde pernambucana, fomentando o “cuidado ao cuidador”.

Quanto à intervenção, ocorreram dois grupos, o primeiro realizou-se entre os meses de setembro a dezembro do ano de dois mil e vinte e três e o segundo, entre os meses de setembro a dezembro de 2024. Cada grupo teve dez encontros, no formato de rodas de conversa, metodologia bastante utilizada no contexto do SUS, fundamentada no referencial da educação em saúde freireana com base na problematização, diálogo, horizontalidade nas relações e fomento à autonomia das pessoas. O tema é trazido pelo/a facilitador/a, que busca inicialmente, compreender os conhecimentos prévios que as pessoas tem acerca das temáticas e a partir da interação com os participantes, a roda vai sendo tecida, no diálogo entre os conhecimentos científicos e os saberes populares, cada qual com sua importância (Freire, 2013).

Esses grupos correram com formato aberto, isto é, no qual as pessoas podem ingressar no decorrer dos encontros. Sendo assim, por se tratar de um grupo aberto, não há um número fixo de participantes e sim, uma média de integrantes que foi sete por encontro. Quanto à caracterização, o grupo configurou-se como misto, isto é, com dois perfis de participantes: trabalhadores/as da saúde e seus familiares (Zimerman, 2000).

Os/as integrantes eram provenientes das diversas unidades de saúde, principalmente hospitais, vinculados à Secretaria Estadual de Saúde, SES-PE. Em sua maioria, foram mulheres, público que historicamente, mais acessa os serviços de saúde, pelo fato de, desde cedo, serem estimuladas em atividades de cuidado, a exemplo de cuidar de si e do outro, devido aos papéis de gênero (Scott, 1995), conforme amplamente referenciado nos estudos que debatem as relações entre gênero e saúde (Gomes, 2008).

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

O Programa Arte e Educação em Saúde para Servidores/as e Familiares foi desenvolvido, a partir de grupos no formato roda de conversa, as quais se configuram como estratégia bastante utilizada no campo da educação em saúde. Freire (2013) nos diz, que a educação é pautada no diálogo e na escuta e que o ser humano é o sujeito de sua própria educação e não objeto, por isso ninguém educa ninguém. Ele também refere que a educação tem um caráter permanente e que estamos todos nos educando, mutuamente. Nesse contexto, existem graus de educação, mas esses não são absolutos. Sendo assim, na realização da roda de conversa, o facilitador do grupo, nesse caso o profissional de saúde, não deve se colocar na posição de ser superior que detém o saber, mas sim, na posição humilde daquele que tem um saber relativo que comunica um saber relativo a outros, que também tem um saber relativo.  

Especificamente quanto à atuação da psicologia no contexto da saúde coletiva, área na qual se insere essa intervenção, Pinheiro (1985) assinala que as pessoas precisam se libertar dos preconceitos, dos tabus, das regras muito rígidas, e tentar ser criativas, ficarem conscientes de que diante de um objeto novo é preciso experimentar. É preciso ser criativo e ousar na prática, buscando uma nova maneira de encarar esse objeto de trabalho no contexto da saúde coletiva.

No decorrer dos encontros, abordei diversos temas no âmbito da saúde mental, dentre esses: uma conversa sobre as emoções básicas - medo, alegria, raiva e tristeza. Para dialogar sobre esse tema, utilizei o poema Motivo2, de Cecília Meireles, que foi recitado, bem como também usei a versão musical que o cantor cearense Fagner3, fez para esse poema. Utilizar duas linguagens artísticas, nesse caso a poesia e a música possibilitou aos/às participantes refletirem sobre o tema, a partir de caminhos diferentes, para além da linguagem verbal cotidiana. Além de ser uma forma de trabalhar a temática de forma criativa, que diz respeito a algo novo e estabelecimento de novas relações, conforme destaca Vygotsky (2025).

Outra música que utilizei para conversar sobre o tema das emoções foi: Como uma onda4, do cantor Lulu Santos, visando trabalhar a questão da transitoriedade das emoções, que cada uma delas é passageira e quanto mais estivermos conscientes do que estamos sentindo, teremos uma vida emocional mais equilibrada. A música possibilitou trabalhar o tema de forma leve e que os/as integrantes refletissem sobre isso, a partir de outras linguagens, nesse caso, a musical.

Ressalto que atualmente, no Brasil, os grupos, a partir dos quais se desenvolveram as rodas de conversa dessa intervenção, vêm sendo utilizados em diversas áreas da saúde no Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente na atenção primária. Esses podem ser aplicados para promoção da saúde, prevenção de doenças e prestação de cuidados específicos. Podem também promover programas educativos que possibilitem uma melhoria da qualidade de vida e saúde das pessoas. Esses grupos possuem uma prática coletiva de problematização e discussão, gerando um processo de aprendizagem crescente e atuando na promoção de saúde (Menezes; Avelino, 2016).

Assinalo que a dimensão da problematização, estratégia desenvolvida por Freire (1996), permeou todas as rodas de conversa, fazendo com que os participantes trouxessem seus conhecimentos prévios e refletissem acerca das temáticas debatidas. Estimulando, desse modo, o papel ativo tanto dos trabalhadores, quanto de seus familiares, bem como reforçando o caráter educativo do grupo. Esse autor nos diz que a roda de conversa é pautada no diálogo, na escuta e que a educação tem um caráter permanente.

Outro eixo de discussão presente nos grupos foi o sofrimento psíquico e algumas formas de expressão: ansiedade, depressão, síndrome de burnout, entre outros. Para abordagem desse tema, fiz uma explanação acerca da caracterização de cada um desses, bem como da sintomatologia presente nesses quadros, ressaltando a importância de acolher as pessoas com algum tipo de sofrimento psíquico, bem como combater preconceitos e estereótipos no contexto da saúde mental. No caso dos/as participantes que eram familiares, apropriar-se desses conhecimentos auxilia no processo de cuidar de seu ente, tal ação é um dos principais objetivos do grupo.

Para abordagem desse tema, também propus uma prática de meditação (mindfulness) com as pessoas presentes, com o intuito que vivenciassem o estado de presença de forma prática, também como modo de estarem mais conscientes das emoções e consequentemente, prevenir o adoecimento psíquico. Demarzo (2016) refere que o mindfulness consiste numa prática, na qual há série de exercícios, técnicas ou práticas formais que treinam e cultivam o estado psicológico de se manter presente.

Na realização das rodas de conversa, o objetivo foi não apenas compreender as condições de saúde e de doença, mas também dar respostas criativas às questões suscitadas. Desse modo, o grupo desempenha um papel educativo relevante para com os participantes, no que concerne ao esclarecimento e reflexão dos temas, elementos importantes no contexto da educação em saúde. A aprendizagem envolve mais do que a aquisição de uma nova informação, não se restringe à dimensão cognitiva, mas envolve também a elaboração de significados, sentimentos e relações (Afonso, 2006).

Outro tema que discuti nas rodas de conversa foi o cuidado e o autocuidado, ressaltando a importância dessas dimensões tanto para os/as trabalhadores/as de saúde, quanto para os seus familiares. Especificamente quanto aos familiares, é necessário cuidar de si, para poder cuidar do outro, essa questão foi amplamente debatida ao longo dos encontros, por se configurar como aspecto fundamental nesse trabalho. Conversei sobre a importância de dedicar tempo para si, mesmo em meio à rotina, bem como desenvolver estratégias criativas para cuidar de si e do outro e ter uma vida mais leve. Isso pode ser feito, através de atividades, das quais gostamos, como ver filmes, ouvir música, fazer uma caminhada, entre outras formas que são fonte de bem-estar.

Nas rodas de conversa, outro eixo que dialoguei foi acerca da importância do viver criativo para a saúde mental, trouxe as discussões da Drª Nise da Silveira, que destaca a importância da arte e da criatividade, como fontes de saúde e bem-estar (Melo, 2025). Para apoiar essa discussão, utilizei frases em folhas de papel A4, escritas a mão, com hidrocores, visando apresentar as contribuições dessa autora. Além das frases, também utilizei o filme5: Nise, o coração da loucura, que retrata a história dessa médica psiquiatra alagoana, que trouxe tantas contribuições e revolucionou o campo de cuidados em saúde mental, através do emprego da arte e da criatividade.

Todo o trabalho, ora apresentado, se pautou no diálogo e horizontalidade nas rodas de conversa, aspectos que são base na perspectiva de educação em saúde, conforme Freire (1996). Nesse contexto, o saber técnico-científico do profissional e o saber empírico e cultural do usuário são considerados igualmente importantes e complementares. Pontuo que um dos desafios dessa intervenção, foi mobilizar a família, quanto a sua importância na participação do grupo, pois às vezes, apesar de desejarem, não conseguem estar presentes, devido a questões, como o trabalho, por exemplo, mas quando frequentam os encontros manifestam boa adesão e reforçam a importância dos mesmos.

Enfatizo que na realização das rodas de conversa, alguns dos principais resultados desse trabalho, externados pelos participantes foi uma melhor compreensão acerca das emoções que estão presentes na vida pessoal e profissional. Outro ganho foi a reflexão e aprendizagem sobre as questões de saúde mental, principalmente no tocante ao sofrimento psíquico e suas formas de expressão. Outro resultado do trabalho destacado foi combater preconceitos nesse campo. Nas rodas de conversa, tanto os trabalhadores/as de saúde, quanto seus familiares, foram acolhidos/as e ouvidos, expressando-se e falando sobre suas inquietações no processo de conviver com alguém que está vivenciando sofrimento psíquico, algo que é bastante desafiador, daí a importância de espaços como esse. Outro ganho destacado pelos participantes foi o desenvolvimento de estratégias criativas para viver uma vida mais leve, compreendendo a criatividade como fonte de desenvolvimento humano e saúde (Vygotsky, 1999, 2025).

É oportuno corroborar que a experiência do Programa Arte e Educação em Saúde para trabalhadores/as e familiares, que foi desenvolvida através das rodas de conversa, se configura como estratégia importante no âmbito do Sistema Único de Saúde, SUS.  Os grupos surgem como cenários e procedimentos metodológicos, que permitem consolidar uma concepção do ser humano em sua integralidade, para além do foco de entendimento do processo saúde-doença, isto é, fundamenta-se na visão de saúde integral. Do princípio da integralidade vem o entendimento do ser humano biopsicossocial que se estrutura como sujeito, pela estreita interação de suas diversas dimensões e por suas relações com o meio (Menezes; Avelino, 2016). No grupo, o compartilhamento de experiências possibilita as pessoas perceberem que existem outras vivenciando problemas semelhantes e mobiliza reflexões sobre estratégias de enfrentamento, além disso, é uma forma de beneficiar um número maior de pessoas.

Assinalo que outro resultado desse trabalho, foi favorecer a autonomia dos/as participantes, aspecto essencial na educação em saúde, na visão de Freire (1996), para que as pessoas sejam protagonistas da sua própria saúde, visando também que compreendam seus direitos, conforme garantidos pelo SUS.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse relato de experiência versou acerca das rodas de conversa desenvolvidas no Programa Arte e Educação em Saúde para Trabalhadores/as e Familiares, PAESF que tem como objetivo de trabalhar temas em saúde mental, na perspectiva da educação em saúde e a partir do olhar da arte e criatividade, junto aos/às trabalhadores/as do SUS e seus familiares.

Para abordagem desses temas, utilizei linguagens artísticas como a música, literatura, cinema, entre outras, bem como técnicas de meditação, visando o cuidado em saúde de modo integral, conforme preconiza o SUS. Por meio desse trabalho, os/as participantes compreenderam melhor o processo saúde-doença no tocante ao sofrimento psíquico, diminuíram preconceitos relacionados ao adoecimento psíquico e refletiram sobre modos de bem viver mais leves, inspirados/as na arte e na criatividade. Os/as integrantes avaliaram as rodas de conversa de forma bastante positiva, corroborando para a promoção de saúde no SUS.

Para mim, que como profissional de saúde/psicóloga, sou uma das criadoras do PAESF e estive presente nos dois momentos nos quais o grupo ocorreu, foi muito gratificante e prazeroso, viver tudo isso. É muito boa a sensação de ver um projeto sai do papel, tomar forma e ganhar vida, beneficiando as pessoas e acolhendo quem precisa, bem como contribuir com o campo da saúde do/a trabalhador/a no SUS.

Promover essa forma de cuidado, através da participação, tanto dos/as trabalhadores/as, quanto de sua família, também se revelou como estratégia muito potente, pois geralmente são poucos os espaços de saúde, que também ofertam algum tipo de cuidado específico à família, sendo esse é um diferencial, configurando-se também como caráter inovador nesse trabalho. Ressalto a necessidade desse tipo de intervenção continuar sendo fomentada, no contexto da saúde do trabalhador, ampliando essas práticas.

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1 Doutora em Psicologia (UFPE). Professora do Departamento de Psicologia da UFPE. Psicóloga. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail

2 Motivo, poema publicado no livro Viagem. Meireles, Cecília. Viagem. Global Editora, 1939.

3 Motivo (poema musicado). Raimundo Fagner. Álbum: Eu canto. Rio de Janeiro: CBS, 1978.

4 Com uma onda. Intérprete: Lulu Santos. Compositores: Lulu Santos e Nelson Motta. Álbum: O Ritmo do Momento. Rio de Janeiro: RCA, 1983.

5 NISE: o coração da loucura. Direção de Roberto Berliner. Produção: Rodrigo Letier, Diogo Dahl, Flavio Tambellini e Roberto Berliner. Intérpretes: Glória Pires, Fabrício Boliveira, Fernando Eiras e outros. Brasil: Tv Zero; Globo Filmes, 2015. (109 min).