REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/775520729
RESUMO
A partir de 2016, as mudanças nas regras do handebol permitiram a remoção do goleiro para criar condições de vantagem ou equilíbrio numérico no ataque, alterando consideravelmente as táticas ofensivas. Embora essa estratégia esteja sendo cada vez mais utilizada em competições internacionais, há poucos estudos sobre seu efeito nas seleções da América do Sul, com isso o objetivo desta pesquisa é analisar o perfil das situações ofensivas e eficiência com relação as equipes sul-americanas no 27º campeonato mundial de handebol feminino. Este é um estudo descritivo com enfoque quantitativo, fundamentado na análise de documentos. Súmulas e estatísticas fornecidas pela Federação Internacional de Handebol, relativas à primeira fase do 27º Campeonato Mundial de Handebol Feminino (2025), foram analisadas. A amostra abrangeu quatro seleções da América do Sul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai), somando um total de 12 jogos. As informações foram agrupadas em categorias de situações ofensivas (igualdade, superioridade e inferioridade numérica) e examinadas por meio de estatística descritiva. Os resultamos apontam que o Brasil demonstrou maior eficácia nos ataques em igualdade numérica (6x6), com 57,3%, além de se sobressair no aproveitamento do gol vazio (62,5%). Nas ações de superioridade 6x5, o Paraguai teve o melhor desempenho, com 76,2%. Durante os ataques 7x6 com gol vazio, a Argentina executou mais ações, porém o Brasil demonstrou maior eficiência (50%). As situações de inferioridade (5x6) foram pouco frequentes e ineficazes para todos os times. Conclui-se que que a eficiência ofensiva não depende apenas da superioridade numérica, mas da qualidade da organização do ataque.
Palavras-chave: Handebol. Análise ofensiva. Eficiência ofensiva. Superioridade numérica. Gol vazio.
ABSTRACT
Since 2016, changes in handball rules have allowed the removal of the goalkeeper to create conditions of numerical advantage or balance in attack, significantly altering offensive tactics. Although this strategy has been increasingly used in international competitions, there are few studies on its effect on South American teams. Therefore, the aim of this research was to analyze the profile of offensive situations and efficiency regarding South American teams in the 27th Women’s Handball World Championship. This is a descriptive study with a quantitative approach, based on document analysis. Match reports and statistics provided by the International Handball Federation, related to the first phase of the 27th Women’s Handball World Championship (2025), were analyzed. The sample included four South American teams (Brazil, Argentina, Paraguay, and Uruguay), totaling 12 matches. The information was grouped into categories of offensive situations (numerical equality, superiority, and inferiority) and examined using descriptive statistics. The results show that Brazil demonstrated the highest effectiveness in attacks under numerical equality (6x6), with 57.3%, and also stood out in empty-goal situations (62.5%). In 6x5 superiority actions, Paraguay achieved the best performance, with 76.2%. During 7x6 attacks with an empty goal, Argentina executed more actions, but Brazil showed greater efficiency (50%). Inferiority situations (5x6) were rare and ineffective for all teams. It is concluded that offensive efficiency depends not only on numerical superiority but also on the quality of attack organization.
Keywords: Handball. Offensive analysis. Offensive efficiency. Numerical superiority. Empty goal.
1. INTRODUÇÃO
Na atualidade tem sido frequente durante a fase de ataque das partidas de handebol, que as equipes renunciem à presença do goleiro no campo de jogo, criando a situação do gol vazio. Até a alteração da regra no ano 2016, era exigido que o jogador que substituísse o goleiro utilizasse uma camisa diferente dos demais jogadores, já que a regra obrigava a ter em quadra a presença de um jogador com a função de goleiro. O uso dessa situação do gol vazio, era evidente principalmente nas situações de desigualdade numérica absoluta, o que possibilita uma opção tática ofensiva para as equipes possam assim atenuar o a situação de estar com menos jogadores em quadra. Entretando, equipes adotaram o mesmo comportamento em situações de igualdade numérica absoluta, para jogar com um jogador a mais de ataque realizando o 7x6 (Maroja et al., 2020).
Anterior a isso, García (2010), investigou o uso sobre o que ele denominou de “goleiro falso”, durante competições internacionais, identificando que poucas equipes adotaram essa abordagem. Ele concluiu que embora a inferioridade numérica ofensiva, pareça criar igualdade numérica no ataque, essa é uma afirmação discutível, uma vez que os resultados observados não demonstram muitos aspectos positivos. Para o autor, o principal inconveniente estava no risco assumido ao deixar a meta vazia e sem proteção, o que frequentemente resultou em gols pelo adversário após um erro técnico ou perda de bola. Inferindo que, embora a tática possa ser oportuna em "situações limite" do jogo (como nos minutos finais com placar desfavorável).
Tempos depois, Maroja et al. (2020) concluiu que as equipes vitoriosas utilizam mais a estratégia do gol vazio nas situações com o placar favorável, enquanto as equipes derrotadas o fazem quase exclusivamente quando se encontram em desvantagem.
Flores-Rodríguez e Ramírez-Macías (2021) ao analisarem os jogos de handebol do Campeonato Mundial Masculino de 2019, concluem que a troca do goleiro por um jogador de linha extra foi utilizada em todos os ataques realizados em inferioridade numérica, com o intuito de compensar a ausência do jogador excluído. Nas situações de igualdade numérica, o percentual de acerto dos ataques realizados com o gol vazio é inferior ao dos ataques em que o goleiro não é substituído por um jogador de linha.
Os estudos observacionais de torneios revelam que as equipes recorrem predominantemente à formação 7x6 no final das partidas e em situações específicas de placar. Prudente et al. (2024) observaram que a escolha do 7x6 ocorreu predominantemente no segundo tempo (>73%) e que as equipes melhor classificadas tendiam a utilizá-la quando estavam com placar favorável, enquanto equipes de classificação inferior empregavam a situação ofensiva quando estavam atrás do placar por vários gols.
As recentes alterações nas regras do handebol, especialmente a partir de 2016, inseriram novas possibilidades táticas, como a retirada do goleiro para criar situações de superioridade ou igualdade numérica no ataque. Essas mudanças impactaram a dinâmica do jogo e exigem adaptações estratégicas por parte das equipes. Apesar da crescente utilização dessas estratégias em competições internacionais, ainda há escassez de estudos que analisem sua aplicação em seleções sul-americanas, particularmente em torneios de alto nível como o Campeonato Mundial. Assim, compreender como essas equipes utilizam as diferentes formações ofensivas (6x6, 6x6 com gol vazio, 7x6, 6x5, entre outras) e sua eficiência é essencial para identificar padrões, potencialidades e limitações dessas abordagens no contexto competitivo atual.
Este estudo contribui para o avanço do conhecimento sobre o comportamento tático das seleções sul-americanas em situações ofensivas, fornecendo dados quantitativos que podem subsidiar treinadores e analistas na tomada de decisão. A análise da eficiência em diferentes cenários (igualdade, superioridade e inferioridade numérica) permite compreender quais estratégias apresentam maior retorno e em quais condições são mais vantajosas. Além disso, os resultados podem orientar o planejamento de treinos, a elaboração de modelos de jogo e a definição de estratégias para competições internacionais, fortalecendo o desenvolvimento do handebol na América do Sul e promovendo maior competitividade frente às principais potências mundiais.
Com isso, o presente estudo tem como objetivo analisar o perfil das situações ofensivas e eficiência com relação as equipes sul-americanas no 27º campeonato mundial de handebol feminino.
2. METODOLOGIA
Este é um estudo descritivo de abordagem quantitativa (Thomas; Nelson; Silverman, 2012), que emprega técnicas de análise documental, esse tipo de análise lida com registros que já existem e sendo estas análises primordialmente quantitativas em sua natureza, abordando características que podem ser identificadas e contadas, mesmo que as interpretações qualitativas sejam muitas vezes desejáveis e necessárias (Rummel, 1981). Os dados foram analisados por meio de técnicas de estatística descritiva. Para isso, foram analisadas as súmulas e estatísticas disponibilizadas pela Federação Internacional de Handebol (International Handball Federation, 2025), durante a primeira fase do 27º campeonato mundial de handebol feminino, das equipes sul-americanas. No total foram analisadas 4 seleções, Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Cada uma participou nessa fase de três jogos, totalizando assim 12 súmulas estatísticas.
3. RESULTADOS E DISCUSSÕES
Os resultados da análise documental, permitiram organizar as situações ofensivas em três categorias: superioridade numérica (7x6 com gol vazio; 6x5; 7x5 com gol vazio), igualdade numérica (6x6; 6x6 com gol vazio) e inferioridade numérica (5x6). Na tabela 1, são apresentadas as ações ofensivas que ocorreram em igualdade numérica de 6 contra 6.
Tabela 1: Ações ofensivas em igualdade 6x6, e eficiência dos ataques.
Seleções | Ataques totalizados | Eficiência dos ataques (%) |
Brasil | 150 | 57.3 |
Paraguai | 136 | 33.1 |
Uruguai | 132 | 29.5 |
Argentina | 108 | 48.1 |
Fonte: elaborado pelos autores.
A seleção brasileira foi a que mais ataques realizou na condição de 6 contra 6, ela também apresentou maior aproveitamento dos ataques realizados. A seleção da Argentina embora tenha realizados menos ataques do que a as seleções do Paraguai e do Uruguai, teve eficiência superior as duas. Comparando a diferença em pontos percentuais a seleção argentina foi 15 pontos percentuais mais eficiente que a seleção paraguaia e 18.6 pontos percentuais do que a seleção uruguaia. A seguir temos a Tabela 2, que demonstra as situações ofensivas que utilizaram a estratégia de retirar o goleiro para atacar em igualdade numérica de 6x6.
Tabela 2: Ações ofensivas em igualdade 6x6 com gol vazio, e eficiência dos ataques.
Seleções | Ataques totalizados | Eficiência dos ataques (%) |
Argentina | 9 | 22.2 |
Brasil | 8 | 62.5 |
Paraguai | 8 | 25.0 |
Uruguai | 4 | 25.0 |
Fonte: elaborado pelos autores.
A utilização do gol vazio em igualdade numérica de 6 contra 6, parece uma situação bem treinada e eficiente pela seleção brasileira. Já as seleções da Argentina, Paraguai e Uruguai, apresentam uma baixo percentual de eficiência. No caso específico da equipe do Brasil, quando com parado o 6x6 frente ao 6x6 com gol vazio, o aproveitamento com gol vazio tem uma pequena melhora na eficiência embora as situações de ataque totalizados na segunda condição tenham um quantitativo muito inferior quando comparado com a primeira situação. Nesse sentido, Dallegrave et al. (2024), analisou uma equipe profissional brasileira de handebol feminino quanto as probabilidades de sucesso em situações de ataque. Eles encontraram com relação as probabilidades de sucesso da organização ofensiva que a equipe mostrou maiores probabilidades de marcar quando essa encontra-se completa em seu ataque. Isso corrobora para ideia de optar pelo ataque com o gol vazio.
Na Tabela 3, temos a apresentação das ações de ataque que utilizaram a estratégia de retirar o goleiro (gol vazio) para atacar em superioridade numérica de 7 contra 6.
Tabela 3: Ações ofensivas em superioridade numérica de 7x6 com gol vazio.
Seleções | Ataques totalizados | Eficiência dos ataques (%) |
Argentina | 14 | 42,9 |
Uruguai | 8 | 25 |
Paraguai | 7 | 42,9 |
Brasil | 4 | 50 |
Fonte: elaborado pelos autores.
Os dados demonstram que a seleção argentina foi a que mais recorreu ao uso do ataque de 7x6, seguida da seleção uruguaia, da paraguaia e da brasileira. Apesar do menor número de ataques totalizados essa última apresentou maior eficiência na ação ofensiva analisada, já a equipe uruguaia teve menor aproveitamento. Na Tabela 4, são apresentadas as situações ofensivas que tiveram superioridade numérica de 6x5.
Tabela 4: Ações ofensivas em superioridade numérica de 6x5.
Seleção | Ataques totalizados | Eficiência dos ataques (%) |
Argentina | 22 | 59,1 |
Paraguai | 21 | 76,2 |
Uruguai | 20 | 40 |
Brasil | 10 | 50 |
Fonte: elaborado pelos autores.
O ataque em superioridade de 6 contra 5 ocorreu em maior número pela equipe argentina, paraguaia, uruguaia e por último a brasileira. Nessa condição a seleção do Paraguai teve um alto número de eficiência dos seus ataques. Já a seleção brasileira apesar de ter metade dos números de ataque em comparação a seleção uruguaia, conseguiu ter eficiência superior. A tabela 5, apresenta as ações de superioridade numérica de 7x5 com gol vazio.
Tabela 5: Ações ofensivas em superioridade numérica de 7x5 com gol vazio.
Seleção | Ataques totalizados | Eficiência dos ataques (%) |
Argentina | 3 | 66,7 |
Brasil | 2 | 100 |
Uruguai | 1 | 0 |
Paraguai | 0 | 0 |
Fonte: elaborado pelos autores.
Os ataques realizados em superioridade numérica de 7x5 com o gol vazio, foram realizados poucas vezes, sendo a seleção brasileira a mais eficiente nessa situação. A equipe paraguaia não realizou nenhum ataque nessa condição e a uruguaia teve apenas uma tentativa que não resultou em gol. A seleção da Argentina foi a que realizou mais ataques. A tabela 6, traz os dados referentes aos ataques realizados na condição de inferioridade numérica de 5x6.
Tabela 6: Ações ofensivas em inferioridade numérica de 5x6.
Seleção | Ataques totalizados | Eficiência dos ataques (%) |
Brasil | 2 | 0 |
Paraguai | 1 | 0 |
Uruguai | 1 | 0 |
Argentina | 0 | 0 |
Fonte: elaborado pelos autores.
As ações ofensivas em inferioridade numérica de 5x6, foram pouco presentes, haja visto que há a opção estratégica de atacar com o gol vazio para igualar o número de atacantes e defensores. Nenhuma das equipes analisadas conseguiu eficiência em seus ataques em inferioridade.
4. CONCLUSÃO
Esta pesquisa apresenta suas limitações referentes ao número de partidas disputadas na primeira fase da competição. Entretanto, ela atende ao objetivo que se consistiu em analisar o perfil das situações ofensivas e eficiência com relação as equipes sul-americanas no 27º campeonato mundial de handebol feminino.
Deste modo, constatou-se que na situação de ataque 6x6, a seleção brasileira teve maior eficiência, isso repercute também na situação de ataque de 6x6 com o gol vazio, onde o Brasil tem 5.2 pontos percentuais a mais de eficiência, quando comparada com ela mesma. Na primeira fase da competição a equipe brasileira demonstrou maior eficiência nas suas ações de 6x6 de uma forma geral com e sem goleiro. Provavelmente equipes com melhor rendimento no 6x6 tendem a ser mais eficientes no 6x6 com gol vazio.
Nas situações ofensivas de 7x6 com gol vazio, a seleção da Argentina demonstrou maior número de ações ofensivas, porém a equipe do Brasil foi quem apresentou maior eficiência e menor número de ações ofensivas. Talvez isso seja devido a menor necessidade já que essa seleção teve maior eficiência nas ações de 6x6.
A equipe paraguaia teve o maior aproveitamento nas situações de superioridade 6x5. Já nos ataques de 7x5 com gol vazio, foi a equipe brasileira que teve melhor aproveitamento, apesar dos baixos números de ataques nessa condição para todas as equipes.
As ações ofensivas em inferioridade numérica de 5x6, provavelmente são suprimidas devido à escolha pelos ataques em igualdade de 6x6 com o gol vazio, já que essa estratégia de retirar o goleiro para realizar esse ataque foi mais utilizada em comparação a situação de 5x6.
O exposto até aqui, reforça que é necessária a realização de mais pesquisas sobre o handebol feminino e que a eficiência ofensiva não depende apenas da superioridade numérica, mas também da qualidade da organização do ataque e da tomada de decisão estratégica. Esses resultados oferecem subsídios práticos para treinadores, permitindo ajustar modelos de jogo e definir critérios mais claros para a utilização do gol vazio em diferentes cenários competitivos. Recomenda-se que estudos futuros explorem fases eliminatórias, variáveis contextuais como tempo de jogo e placar, além de análises qualitativas das movimentações ofensivas, a fim de construir um panorama mais abrangente sobre a eficácia dessas estratégias no alto rendimento.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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