REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/790303667
RESUMO
Os transtornos mentais e o uso de medicamentos psicotrópicos podem estar associados a diferentes repercussões na saúde bucal. Este trabalho teve como objetivo analisar as principais alterações bucais descritas em pacientes com transtornos mentais e sua possível relação com o uso de psicotrópicos. Foi realizada uma revisão narrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, com artigos publicados entre 2020 e 2026, identificados no PubMed/MEDLINE e complementados por buscas na BVS, LILACS, SciELO e Google Acadêmico. Os estudos apontaram maior ocorrência de cárie, perda dentária e doença periodontal nessa população, embora esses achados não possam ser atribuídos exclusivamente ao tratamento medicamentoso. Entre usuários de psicotrópicos, foram descritas associações com xerostomia, sialorreia, bruxismo, alterações do paladar e comprometimento periodontal. Conclui-se que a saúde bucal desses pacientes deve ser interpretada de forma multifatorial, considerando aspectos medicamentosos, clínicos e comportamentais, com ênfase na prevenção e no cuidado integrado.
Palavras-chave: Psicotrópicos; Transtornos Mentais; Saúde Bucal; Manifestações Bucais; Odontologia.
ABSTRACT
Mental disorders and the use of psychotropic medications may be associated with different oral health repercussions. This study aimed to analyze the main oral alterations described in patients with mental disorders and their possible relationship with psychotropic drug use. A narrative literature review with a qualitative and descriptive approach was conducted using articles published between 2020 and 2026, identified in PubMed/MEDLINE and complemented by searches in BVS, LILACS, SciELO, and Google Scholar. The studies indicated a higher occurrence of dental caries, tooth loss, and periodontal disease in this population, although these findings cannot be attributed exclusively to pharmacological treatment. Among psychotropic drug users, associations were described with xerostomia, sialorrhea, bruxism, taste alterations, and periodontal impairment. It is concluded that the oral health of these patients should be interpreted from a multifactorial perspective, considering pharmacological, clinical, and behavioral factors, with emphasis on prevention and integrated care.
Keywords: Psychotropic Drugs; Mental Disorders; Oral Health; Oral Manifestations; Dentistry.
1. INTRODUÇÃO
Pessoas com transtornos mentais podem apresentar maior vulnerabilidade a alterações na saúde bucal em razão da interação entre fatores clínicos, comportamentais, sociais e relacionados ao tratamento farmacológico. Estudos apontam maior ocorrência de cárie dentária, perda dentária e doença periodontal nessa população, embora esses achados não possam ser atribuídos exclusivamente ao uso de medicamentos psicotrópicos (Choi et al., 2022; Cai et al., 2022). Os medicamentos psicotrópicos são amplamente utilizados no tratamento de diferentes transtornos mentais e incluem classes como antidepressivos, antipsicóticos, estabilizadores do humor e ansiolíticos. Embora sejam fundamentais para o controle dos sintomas e para a melhora da qualidade de vida, seu uso pode estar associado a diferentes repercussões na cavidade oral (Abed et al., 2023).
Entre as manifestações descritas em usuários de psicotrópicos estão xerostomia, sialorreia, candidíase, ardência bucal, alterações na língua e desconfortos orais (Gandhi et al., 2022). A redução do fluxo salivar é frequentemente relatada em usuários de antidepressivos e pode contribuir para maior vulnerabilidade à cárie e às alterações periodontais (Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024).
Entre usuários de antipsicóticos também são descritas alterações salivares, dor e sensação de queimação oral (Meurman; Murtomaa; Koski, 2024), enquanto antidepressivos serotoninérgicos têm sido associados à ocorrência de bruxismo (Santos et al., 2026). Entretanto, a condição de saúde bucal desses pacientes é multifatorial. Dificuldades na manutenção da higiene oral, hábitos alimentares, tabagismo, polifarmácia e menor acesso aos serviços odontológicos também podem contribuir para os desfechos observados, dificultando a atribuição de determinadas alterações exclusivamente ao tratamento farmacológico (Abed et al., 2023).
Diante desse contexto, este estudo teve como objetivo analisar as principais alterações bucais descritas em pacientes com transtornos mentais e sua possível relação com o uso de medicamentos psicotrópicos.
2. METODOLOGIA
Este estudo consiste em uma revisão narrativa da literatura, de abordagem qualitativa e caráter descritivo, desenvolvida com o objetivo de reunir e discutir evidências sobre as alterações bucais observadas em pacientes com transtornos mentais e sua possível relação com o uso de medicamentos psicotrópicos.
A busca bibliográfica foi realizada nas bases PubMed/MEDLINE, Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), LILACS e SciELO, com complementação pelo Google Acadêmico. Foram utilizados descritores e termos livres em português e inglês relacionados a psicotrópicos, transtornos mentais, saúde bucal, manifestações bucais, antidepressivos, antipsicóticos, xerostomia e bruxismo, combinados pelos operadores booleanos AND e OR, conforme as características de cada base.
Foram incluídos artigos científicos publicados entre 2020 e 2026, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem a saúde bucal de pessoas com transtornos mentais, as manifestações bucais associadas ao uso de medicamentos psicotrópicos ou fatores clínicos e comportamentais relacionados ao cuidado odontológico dessa população. Foram considerados estudos observacionais, ensaios clínicos, revisões sistemáticas, revisões de escopo, metanálises e revisões de literatura compatíveis com o objetivo proposto.
Foram excluídos estudos duplicados, publicações anteriores a 2020, relatos de caso, editoriais, cartas ao editor, resumos de eventos, monografias, dissertações, teses e trabalhos sem relação direta com o tema. A seleção foi realizada por meio da leitura de títulos e resumos, seguida da análise dos estudos considerados elegíveis.
Os artigos selecionados foram organizados de acordo com autoria, ano de publicação, tipo de estudo, população analisada, classe de medicamento utilizada, principais alterações bucais identificadas e implicações para o atendimento odontológico. A análise foi conduzida de forma descritiva, buscando diferenciar os achados relacionados à condição geral de saúde bucal de pessoas com transtornos mentais daqueles especificamente associados ao uso de psicotrópicos.
3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
3.1. Medicamentos Psicotrópicos e Repercussões na Saúde Bucal
Os medicamentos psicotrópicos são utilizados no tratamento de diferentes transtornos mentais e incluem classes como antidepressivos, antipsicóticos, ansiolíticos e estabilizadores do humor. A escolha do tratamento depende do diagnóstico, das características clínicas e da resposta individual do paciente. Embora sejam fundamentais para o controle dos sintomas, essas medicações podem estar associadas a diferentes repercussões na cavidade oral (Abed et al., 2023).
Entre os antidepressivos, destacam-se os inibidores seletivos da recaptação de serotonina, os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina e os antidepressivos tricíclicos. Essas classes apresentam mecanismos de ação distintos e têm sido associadas principalmente a alterações do fluxo salivar e ao bruxismo (Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024; Santos et al., 2026).
Os antipsicóticos, empregados no tratamento de condições como esquizofrenia, transtorno esquizoafetivo e alguns transtornos do humor, também podem apresentar repercussões bucais. Entre os achados descritos estão xerostomia, dor oral, sensação de queimação e alterações periodontais, além de repercussões metabólicas que podem interferir indiretamente na saúde bucal (Meurman; Murtomaa; Koski, 2024; Shalaby; Elmahdy; Mikhail, 2023; Urien et al., 2024).
Os ansiolíticos, especialmente os benzodiazepínicos, também podem estar associados à xerostomia, enquanto estabilizadores do humor, como lítio e valproato, apresentam possíveis repercussões de interesse odontológico. Em situações de polifarmácia, a identificação do fármaco relacionado a determinada manifestação pode ser dificultada, tornando necessária a avaliação do conjunto das medicações utilizadas, do tempo de tratamento e das condições clínicas do paciente (Abed et al., 2023).
3.2. Alterações Salivares e Xerostomia
As alterações na função salivar estão entre as principais manifestações descritas em usuários de medicamentos psicotrópicos. A saliva desempenha funções importantes na lubrificação da mucosa, na limpeza da cavidade oral, na neutralização de ácidos e na proteção contra microrganismos, de modo que alterações em sua quantidade ou qualidade podem comprometer a homeostase bucal (Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024).
A xerostomia constitui uma das queixas mais frequentes entre usuários de psicotrópicos, especialmente antidepressivos e antipsicóticos. Entre os antidepressivos, essa manifestação foi descrita com maior frequência em usuários de inibidores seletivos da recaptação de serotonina e antidepressivos tricíclicos (Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024).
Nos pacientes em uso de antipsicóticos, tanto xerostomia quanto sialorreia podem estar presentes, a depender do medicamento utilizado. Em estudo comparativo, a xerostomia foi relatada por 66% dos usuários de antipsicóticos típicos e por 53% dos usuários de antipsicóticos atípicos (Meurman; Murtomaa; Koski, 2024). A presença de manifestações distintas reforça a necessidade de avaliação individualizada da função salivar.
A redução do fluxo salivar pode favorecer o acúmulo de biofilme, aumentar a vulnerabilidade à cárie e contribuir para alterações periodontais. Além disso, pode estar relacionada a dificuldades na mastigação, deglutição e fala, bem como a desconforto durante o uso de próteses, podendo interferir na qualidade de vida dos pacientes (Abed et al., 2023; Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024).
3.3. Cárie Dentária e Alterações Periodontais
Estudos que avaliaram a condição de saúde bucal de pessoas com transtornos mentais identificaram maior ocorrência de cárie dentária, perda dentária, edentulismo e doença periodontal. Entretanto, esses achados não devem ser interpretados isoladamente como efeitos adversos diretos do uso de psicotrópicos, uma vez que também podem estar relacionados a fatores clínicos, comportamentais e sociais (Choi et al., 2022; Cai et al., 2022).
Entre usuários de antidepressivos, o maior risco de cárie pode estar relacionado, entre outros fatores, às alterações no fluxo salivar. A redução da capacidade de limpeza da cavidade oral e de neutralização de ácidos pode aumentar a vulnerabilidade ao desenvolvimento de lesões cariosas, especialmente quando associada a hábitos alimentares inadequados e consumo frequente de alimentos açucarados (Abed et al., 2023; Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024).
Alterações periodontais também têm sido descritas em usuários de determinados antipsicóticos. Shalaby, Elmahdy e Mikhail (2023) observaram parâmetros periodontais mais desfavoráveis em usuários de antipsicóticos indutores de prolactina, incluindo maior profundidade de sondagem e perda de inserção clínica. Além disso, alterações metabólicas associadas ao tratamento antipsicótico podem contribuir para o comprometimento periodontal (Urien et al., 2024).
Entre os estabilizadores do humor, o valproato também foi descrito como medicamento potencialmente associado ao aumento gengival em pessoas com transtorno bipolar (Chen et al., 2024).
3.4. Bruxismo, Alterações do Paladar e Outros Desconfortos Orais
O bruxismo tem sido associado ao uso de antidepressivos serotoninérgicos, especialmente aos inibidores seletivos da recaptação de serotonina. Essa condição pode ocorrer durante o sono ou em vigília e pode estar relacionada a desgaste dentário, dor orofacial e alterações associadas às disfunções temporomandibulares (Santos et al., 2026).
Alterações do paladar também foram descritas em usuários de antidepressivos e antipsicóticos, incluindo quadros de disgeusia. Outras manifestações relatadas incluem candidíase, ardência bucal, lesões ulceradas, dor oral persistente e sensação de queimação, demonstrando que as repercussões bucais associadas ao tratamento psicofarmacológico podem apresentar manifestações variadas (Gandhi et al., 2022; Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024; Sharma et al., 2025).
3.5. Fatores Associados à Condição de Saúde Bucal
A condição de saúde bucal de pessoas com transtornos mentais apresenta caráter multifatorial e não pode ser explicada exclusivamente pelo uso de medicamentos. Fatores como dificuldades na manutenção da higiene bucal, hábitos alimentares, tabagismo, polifarmácia, limitações no autocuidado e menor acesso aos serviços odontológicos também podem contribuir para os desfechos observados (Abed et al., 2023; Choi et al., 2022; Wölfle et al., 2025).
A higiene bucal inadequada pode favorecer o acúmulo de biofilme e contribuir para o desenvolvimento de cárie e doença periodontal. O tabagismo também constitui fator relevante, tendo sido identificado com maior frequência em alguns grupos de pacientes com transtornos mentais. Além disso, hábitos alimentares inadequados e consumo frequente de alimentos e bebidas açucaradas podem contribuir para o agravamento da condição bucal (Abed et al., 2023; Choi et al., 2022; Wölfle et al., 2025).
O acesso aos serviços odontológicos também deve ser considerado, uma vez que a procura pelo atendimento apenas diante de dor ou desconforto pode reduzir as oportunidades de prevenção, acompanhamento e diagnóstico precoce de alterações bucais. Nesse contexto, a integração entre os serviços de saúde mental e a Odontologia pode favorecer a continuidade do cuidado (Abed et al., 2023; Poornachitra; Narayan, 2023).
3.6. Implicações para o Atendimento Odontológico
A atuação do cirurgião-dentista é importante no acompanhamento de pacientes com transtornos mentais em uso de psicotrópicos. A avaliação odontológica deve considerar o histórico medicamentoso, as possíveis repercussões dos fármacos na cavidade oral, as condições de higiene bucal e a presença de manifestações como xerostomia, alterações da mucosa e sinais de bruxismo (Abed et al., 2023; Poornachitra; Narayan, 2023).
As medidas preventivas devem ser individualizadas de acordo com a condição clínica e a capacidade de autocuidado de cada paciente. Estratégias educativas, demonstrações práticas de higiene, estabelecimento de rotinas, uso de lembretes e participação de familiares ou cuidadores podem contribuir para a manutenção da saúde bucal em pessoas com transtornos mentais (Kuipers et al., 2021; Kuo et al., 2020).
A integração entre o atendimento odontológico e o acompanhamento em saúde mental também é relevante. Quando houver suspeita de efeito adverso relacionado à medicação ou possibilidade de interação entre psicotrópicos e medicamentos utilizados no tratamento odontológico, recomenda-se comunicação com o profissional responsável pelo acompanhamento psiquiátrico, favorecendo uma abordagem interdisciplinar e individualizada (Poornachitra; Narayan, 2023).
Com o objetivo de sintetizar as principais características e os achados dos estudos utilizados nesta revisão, o Quadro 1 apresenta a distribuição das publicações segundo autor, ano, delineamento, população analisada, tema investigado e principais resultados.
Quadro 1. Síntese dos principais estudos incluídos na revisão
Autor e ano | Tipo de estudo e amostra | Tema analisado | Principais resultados |
Kuo et al. (2020) | Ensaio controlado randomizado por conglomerados; 68 homens internados em unidades psiquiátricas | Promoção da saúde bucal em pessoas com transtornos mentais graves | A intervenção de 12 semanas reduziu o índice de placa e melhorou conhecimentos, atitudes e comportamentos relacionados à higiene bucal. |
Gandhi et al. (2022) | Estudo observacional; 46 pacientes em uso de psicotrópicos | Manifestações bucais associadas aos psicotrópicos | Foram observadas xerostomia, sialorreia, língua geográfica, candidíase e ardência bucal; 34 dos 46 participantes apresentaram alterações orais. |
Choi et al. (2022) | Revisão guarda-chuva; 11 metanálises | Saúde bucal de pessoas com transtornos mentais | Maior ocorrência de cárie, perda dentária e edentulismo, especialmente entre indivíduos com transtornos mentais graves. |
Cai et al. (2022) | Revisão sistemática e metanálise | Transtornos mentais graves e doença periodontal | Maior prevalência e gravidade da doença periodontal, incluindo periodontite e bolsas periodontais. |
Abed et al. (2023) | Revisão de literatura | Efeitos bucais dos medicamentos psiquiátricos | Foram descritas xerostomia, cárie, doença periodontal, bruxismo, candidíase e alterações do paladar associadas ao uso de psicotrópicos. |
Poornachitra e Narayan (2023) | Revisão da literatura com proposição de algoritmo | Manejo odontológico de pacientes com transtornos mentais | Destacou-se a necessidade de considerar medicamentos, interações farmacológicas, prevenção e integração entre Odontologia e saúde mental. |
Shalaby, Elmahdy e Mikhail (2023) | Coorte retrospectiva; 64 pacientes com esquizofrenia | Antipsicóticos, hiperprolactinemia e doença periodontal | Antipsicóticos indutores de prolactina foram associados a maiores níveis hormonais, profundidade de sondagem e perda de inserção clínica. |
Alcázar-Hernández, Pecci-Lloret e Guerrero-Gironés (2024) | Revisão sistemática; 11 estudos observacionais | Manifestações bucais associadas aos antidepressivos | Predominaram xerostomia, cárie e doença periodontal, além de alterações do paladar e possíveis alterações relacionadas ao sangramento oral. |
Chen et al. (2024) | Revisão narrativa | Transtornos mentais, medicamentos e saúde bucal | O valproato foi descrito entre os medicamentos associados ao aumento gengival em pacientes com transtorno bipolar. |
Meurman, Murtomaa e Koski (2024) | Estudo transversal; 170 pacientes psiquiátricos hospitalizados | Antipsicóticos típicos e atípicos | Xerostomia foi relatada por 66% dos usuários de antipsicóticos típicos e 53% dos usuários de atípicos; dor oral persistente foi mais frequente no primeiro grupo. |
Urien et al. (2024) | Revisão narrativa | Efeitos dos medicamentos na saúde bucal de pacientes com esquizofrenia | Foram discutidas alterações salivares, movimentos involuntários e alterações metabólicas potencialmente relacionadas ao comprometimento da saúde bucal e periodontal. |
Sharma et al. (2025) | Revisão de escopo | Antipsicóticos de segunda geração e saúde bucal | Foram descritas disfunção salivar, xerostomia, sialorreia, cárie, doença periodontal, disgeusia e redução da sensibilidade oral. |
Wölfle et al. (2025) | Estudo caso-controle; 112 participantes | Transtornos mentais e condição de saúde bucal | Pacientes com transtornos mentais apresentaram piores índices de cárie, placa e sangramento gengival, além de maior frequência de tabagismo e uso combinado de medicamentos. |
Santos et al. (2026) | Estudo retrospectivo transversal; 583 pacientes | Bruxismo em usuários de ISRS e IRSN | Houve maior frequência de sinais de bruxismo entre usuários de antidepressivos serotoninérgicos, particularmente entre usuários de ISRS. |
Fonte: Elaborado pelas autoras (2026).
4. DISCUSSÃO
Os estudos analisados demonstram que a saúde bucal de pessoas com transtornos mentais é influenciada por múltiplos fatores, entre eles o uso de medicamentos psicotrópicos, as condições clínicas associadas ao transtorno, aspectos comportamentais e dificuldades relacionadas ao autocuidado e ao acesso aos serviços odontológicos (Abed et al., 2023; Choi et al., 2022; Wölfle et al., 2025). Dessa forma, a interpretação dos achados deve evitar relações causais simplificadas entre o uso de psicotrópicos e determinadas alterações bucais.
As alterações salivares constituíram um dos achados mais recorrentes entre os estudos, especialmente xerostomia e, em determinados grupos, sialorreia (Gandhi et al., 2022; Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024; Meurman; Murtomaa; Koski, 2024; Sharma et al., 2025). A variação dessas manifestações conforme a classe medicamentosa reforça a necessidade de avaliação individualizada, uma vez que diferentes psicotrópicos podem exercer efeitos distintos sobre a função salivar. Além disso, a redução do fluxo salivar pode atuar como fator intermediário para outros desfechos, como maior vulnerabilidade à cárie e alterações periodontais (Abed et al., 2023; Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024).
Em relação à saúde periodontal, os achados sugerem uma interação complexa entre fatores farmacológicos, metabólicos e comportamentais. Shalaby, Elmahdy e Mikhail (2023) identificaram parâmetros periodontais mais desfavoráveis entre usuários de antipsicóticos indutores de prolactina, enquanto Urien et al. (2024) discutiram a influência de alterações metabólicas frequentemente observadas em pacientes com esquizofrenia. Esses achados indicam que o comprometimento periodontal deve ser interpretado dentro de um contexto multifatorial, não sendo adequado atribuí-lo exclusivamente ao efeito direto dos medicamentos.
A associação entre antidepressivos serotoninérgicos e bruxismo também merece atenção. Santos et al. (2026) observaram maior frequência de sinais de bruxismo entre usuários de antidepressivos serotoninérgicos, especialmente entre usuários de inibidores seletivos da recaptação de serotonina. Esse achado amplia o espectro de possíveis repercussões bucais relacionadas aos psicotrópicos para além das alterações salivares e periodontais e reforça a importância de investigar sinais e sintomas parafuncionais durante o acompanhamento odontológico.
Outras manifestações, como alterações do paladar, ardência bucal, candidíase, lesões ulceradas e desconforto oral, também foram descritas em usuários de psicotrópicos (Gandhi et al., 2022; Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024; Sharma et al., 2025). Embora representem achados relevantes, sua interpretação deve ser cautelosa, considerando a heterogeneidade das populações avaliadas, dos medicamentos utilizados e dos métodos empregados nos estudos disponíveis.
Outro aspecto importante é que a condição bucal de pessoas com transtornos mentais não depende apenas do tratamento farmacológico. Higiene bucal inadequada, tabagismo, dificuldades no autocuidado, alimentação desfavorável, polifarmácia e menor utilização dos serviços odontológicos também podem contribuir para os desfechos observados (Abed et al., 2023; Choi et al., 2022; Meurman; Murtomaa; Koski, 2024; Wölfle et al., 2025). Esse conjunto de fatores reforça a necessidade de uma abordagem clínica ampliada e individualizada.
Os estudos sobre promoção da saúde bucal também indicam que intervenções educativas e comportamentais adaptadas às necessidades de pessoas com transtornos mentais podem contribuir para a melhora dos hábitos de higiene e do autocuidado (Kuo et al., 2020; Kuipers et al., 2021). Esses achados reforçam o papel do cirurgião-dentista na prevenção, no acompanhamento periódico e na orientação individualizada desses pacientes.
Nesse contexto, a atuação odontológica deve incluir investigação detalhada do histórico medicamentoso, tempo de uso, presença de polifarmácia e surgimento das manifestações bucais, além da avaliação dos fatores clínicos e comportamentais associados (Abed et al., 2023; Gandhi et al., 2022; Alcázar-Hernández; Pecci-Lloret; Guerrero-Gironés, 2024). Quando houver suspeita de efeito adverso medicamentoso ou necessidade de ajuste terapêutico, a comunicação com o profissional responsável pelo acompanhamento psiquiátrico é recomendada, favorecendo uma abordagem integrada do cuidado (Poornachitra; Narayan, 2023).
Entre as limitações deste estudo, destaca-se o caráter narrativo da revisão e a heterogeneidade dos trabalhos incluídos, que apresentaram diferentes desenhos metodológicos, populações, classes de medicamentos e desfechos bucais. Além disso, parte dos estudos avaliou a condição geral de saúde bucal de pessoas com transtornos mentais sem investigar diretamente a relação com o uso de psicotrópicos. Essas características limitam o estabelecimento de associações específicas entre determinados medicamentos e manifestações orais, reforçando a necessidade de estudos futuros com metodologias mais padronizadas.
Assim, o conjunto das evidências reforça que as alterações bucais observadas em pacientes com transtornos mentais resultam da interação entre fatores farmacológicos, clínicos e comportamentais. O reconhecimento dessa multifatorialidade é essencial para evitar interpretações causais simplificadas e orientar uma abordagem odontológica preventiva, individualizada e integrada ao cuidado em saúde mental.
5. CONCLUSÃO
As evidências analisadas indicam que pacientes com transtornos mentais podem apresentar diferentes alterações bucais relacionadas à interação entre fatores farmacológicos, clínicos e comportamentais. Entre as manifestações associadas ao uso de psicotrópicos, destacam-se xerostomia, sialorreia, alterações do fluxo salivar, bruxismo, alterações do paladar e comprometimento periodontal.
Entretanto, alterações como cárie dentária, perda dentária e doença periodontal não devem ser atribuídas exclusivamente ao tratamento medicamentoso, uma vez que fatores como higiene bucal inadequada, tabagismo, polifarmácia, dificuldades de autocuidado e menor acesso aos serviços odontológicos também podem influenciar a condição bucal dessa população.
Dessa forma, o acompanhamento odontológico desses pacientes deve ser individualizado e integrado ao cuidado em saúde mental, considerando o histórico medicamentoso, os fatores de risco associados e a necessidade de medidas preventivas, acompanhamento periódico e identificação precoce de alterações bucais.
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1 Discente do Curso de Graduação em Odontologia da UniCesumar – Universidade Cesumar, Maringá, PR, Brasil.
2 Professora orientadora do Curso de Graduação em Odontologia da UniCesumar – Universidade Cesumar, Maringá, PR, Brasil.