REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/785039873
RESUMO
A adaptação acadêmica dos estudantes universitários é complexo, dinâmico e influenciado por contextos pessoais, sociais, culturais, econômicos e inclusive ambientais. O objetivo do presente estudo foi analisar a adaptação de universitários de cursos da saúde a vida acadêmica, relacionado com a presença de Transtornos Mentais Comuns (TMC), com questões relacionadas a pandemia da COVID-19 e com fatores socioeconômicos e de ingresso à universidade. Por meio de um modelo múltiplo de regressão foi identificado os fatores com maior associação a uma pior condição de adaptação acadêmica. Em conclusão os fatores com associação significativa na piora da adaptação foram: maior escore de transtornos mentais; menor idade; falta de cuidado com a saúde mental durante a pandemia e escolha do curso motivado pelos desejos de familiares/parceiros. O estudo aponta para a necessidade de um olhar cuidadoso das instituições de ensino superior para os estudantes, sobretudo devido aos reflexos do período pandêmico na vida dos acadêmicos.
Palavras-chave: ciências da saúde; estudantes universitários; SARS-COV-2; transtornos mentais; vivências acadêmicas.
ABSTRACT
The academic adaptation of university students is complex, dynamic and influenced by personal, social, cultural, economic and even environmental contexts. The aim of the present study was to analyze the adaptation of university students from health courses to academic life, related to the presence of Common Mental Disorders (CMD), with issues related to the COVID-19 pandemic and with socioeconomic factors and university entrance. Through a multiple regression model, the factors with the greatest association with a worse condition of academic adaptation were identified. In conclusion, the factors with a significant association with worse adaptation were: higher scores for mental disorders; younger age; lack of mental health care during the pandemic and choice of course motivated by the wishes of family members/partners. The study points to the need for a careful look at higher education institutions towards students, especially due to the impact of the pandemic period on the lives of academics.
Keywords: health sciences; college students; SARS-CoV-2; mental disorders; academic living.
1. INTRODUÇÃO
O universo acadêmico corresponde a um período de intensas mudanças no cotidiano do estudante, o qual demanda excessiva carga horária de estudo, nível de exigências em relação ao processo de formação, adaptação a um novo contexto, novas rotinas de sono, novas habilidades para a organização de tempo e estratégias de estudo (Ariño e Bardagi, 2018). A adaptação à vida universitária não é um processo fácil e as repercussões deste processo que, muitas vezes, pode levar ao insucesso acadêmico, vão além da área da educação e incidem, diretamente, sobre a saúde do indivíduo e da comunidade e no desenvolvimento social e econômico do país (Byrd e Mckinney, 2012).
Assim, durante esse processo de adaptação, aprendizagem e formação, os universitários se diferenciam em suas expectativas, níveis de autonomia, habilidades cognitivas, motivações, desempenho acadêmico e desenvolvimento psicossocial. Esse novo panorama coloca o estudante universitário em um estado de vulnerabilidade, ampliando as chances de quadros psicopatológicos e, consequentes, dificuldades no desenvolvimento pessoal e profissional dos mesmos (Mercuri e Polydoro, 2004).
Essas dificuldades adaptativas podem predispor ao aparecimento dos chamados Transtornos Mentais Comuns (TMC) que envolvem os diagnósticos de depressão e ansiedade. Esses quadros incluem sintomas como esquecimento, insônia, irritabilidade, dificuldade na concentração e tomada de decisões, fadiga e queixas somáticas, como cefaleia, falta de apetite, tremores, entre outras. Os TMC podem ser evidenciados logo no ingresso do estudante no ensino superior e são mais frequentes entre os universitários da área da saúde, uma vez que, em sua rotina acadêmica, lidam com o sofrimento e a dor do outro (Silva e Costa, 2012).
No contexto universitário, os problemas de saúde mental entre os estudantes têm aumentado em número e gravidade e constituem grande desafio para as instituições de ensino superior e para os serviços de saúde. Sintomas como estresse, ansiedade, entre outros, relacionados às vivencias acadêmicas, podem impactar negativamente a saúde mental, o desempenho acadêmico, o desenvolvimento do estudante e acarretar consequências para sua formação e atuação futuras (Marchi et al., 2013; Sulkowski e Joyce, 2012).
Dentro os cursos do ensino superior destacam-se a sobrecarga que os cursos da área das Ciências da Saúde trazem a saúde mental. É reconhecido que os estudantes da área de saúde são mais propensos a apresentar sintomas depressivos e ansiosos durante o curso, e essa condição pode impactar o seu futuro profissional (Alves, 2014).
Recentemente um novo estressor foi introduzido na vida dos universitários, a pandemia do novo coronavírus SARS- CoV-2, a pandemia da COVID-19. Iniciando-se na China e rapidamente se espalhando pelo globo, a pandemia trouxe paralisações, interrupções e adaptações bruscas no processo de ensino-aprendizado nos cursos de graduação. Tais mudanças esbarraram em questões culturais, econômicas, tecnológicas e sociais que moldaram a forma como os alunos lidaram com a pandemia. Mas, qual será o impacto disso na adaptação dos estudantes universitários? Para responder tal questionamento foi desenvolvido um estudo com estudantes universitários de cursos da área da saúde, tendo como desfecho central a adaptação acadêmica frente a uma série de fatores independentes.
2. METODOLOGIA
2.1. Desenho e Contexto do Estudo
Foi delineado uma pesquisa observacional, transversal e prospectiva com abordagem quantitativa. Seguiu-se os padrões e preceitos éticos envolvendo a pesquisa com seres humanos. O projeto previamente foi aprovado por um Comitê de Ética em Pesquisa independente, com parecer de aprovação nº 4.180.059. O estudo foi conduzido em uma instituição não pública de ensino superior localizada na capital do estado de Alagoas. O recrutamento dos participantes ocorreu dentre o período de agosto a setembro de 2020.
2.2. Participantes, Procedimentos e Mensuração dos Dados
Foram incluídos acadêmicos do ensino superior dos cursos da área da saúde: enfermagem, medicina e odontologia, com idade mínima de 18 anos. Devido a pandemia de COVID-19 a coleta de dados foi realizada por meio virtual, inclusive a assinatura do consentimento livre e esclarecido. O contato com os alunos foi facilitado por intermédio da coordenação dos cursos envolvidos e do contato com os docentes dos respectivos períodos de graduação.
Foram utilizados quatro instrumentos de coleta de dados: 1) – Questionário de adaptação acadêmica; 2) – Questionário de suspeita de Transtornos Mentais Comuns (TMC); 3) – Questionário sobre a pandemia de COVID-19 e 4) – Questionário demográfico e de ingresso à universidade, descritos a seguir.
1) – Questionário de adaptação acadêmica
A adaptação acadêmica dos estudantes foi aferida pelo Questionário de Vivências Acadêmicas versão reduzida (QVAr). Originalmente o QVA foi desenvolvido em Portugal e na sua versão integral era composto por 170 itens (Almeida e Ferreira, 1997). A versão reduzida foi validada para 54 itens por Almeida et al. (2001) e Almeida, Soares e Ferreira (2002). Ele foi adaptado e validado ao Brasil por Granado et al. (2005), de modo que a versão brasileira do QVAr passou a ser composto por 54 itens inicialmente, sendo posteriormente acrescentado mais um item, compondo finalmente 55 itens (Lemos; 2010; Santos et al., 2013). A consistência interna do QVAr é satisfatória (α=0,77 a α=0,88). Foi solicitado aos autores que adaptaram e validaram a versão brasileira do questionário uma cópia integral do mesmo.
Os itens do QVAr são distribuídos em cinco dimensões: pessoal com 14 itens (englobando questões de bem-estar físico e psicológico, equilíbrio emocional, estabilidade afetiva, otimismo e autoconfiança); interpessoal com 12 itens (englobando questões de relações com colegas, competências de relacionamento em situações de maior intimidade, estabelecimento de amizades e procura de ajuda); carreira com 12 itens (englobando questões de sentimentos relacionados com o curso, perspectivas de carreira e projetos vocacionais); estudo com 9 itens (englobando questões de hábitos de estudo, gestão do tempo, utilização dos recursos de aprendizagem no campus e preparação para os testes) e institucional com 8 itens (englobando questões de apreciação dos alunos face à instituição de ensino que frequentam, desejo de permanecer ou mudar de instituição, conhecimento e apreciação das infraestruturas existentes).
A resposta de cada item compreende uma escala tipo likert variando de 1 (nada a ver comigo) a 5 (tudo a ver comigo); os demais são 2 (pouco a ver comigo), 3 (algumas vezes de acordo comigo e outras não) e 4 (bastante a ver comigo). Desta forma a pontuação da escala varia de 55 a 275 pontos, ou seja, quanto maior o valor obtido maior a magnitude de adaptação acadêmica. Cabe ressaltar que 17 dos 55 itens da escala apresentam sentido negativo e durante a pontuação de análise precisam ter a pontuação invertida. Durante a análise de dados, a pontuação da escala é dividida pela quantidade de itens, podendo, portanto, variar de 1 (menor pontuação de likert) até 5 (maior pontuação de likert).
2) – Questionário de suspeita de Transtornos Mentais Comuns (TMC)
A aferição de transtornos mentais é complexa e individual. Para estudo em populações tem sido utilizado o questionário desenvolvido pela Organização Mundial de Saúde (OMS) denominado de Self-Reporting Questionnaire (SRQ). Este questionário é destinado a triagem de pessoas com suspeição de algum transtorno mental, mas não oferece um diagnóstico preciso da doença/condição individual (Santos et al., 2011). A versão original é composta por 24 itens, sendo os vinte primeiros relacionados a condições não psicóticas e os quatro últimos para distúrbios psicóticos. Na versão brasileira é utilizado apenas os 20 primeiros itens da escala original, denominado de SRQ-20 (Santos et al., 2011; Borges e Faria 1993). Os sintomas neuróticos podem ser capturados pelo SRQ e incluem insônia, fadiga, irritabilidade, esquecimento, dificuldade de concentração e queixas somáticas (Goldberg e Huxley; 1992).
As perguntas do SRQ-20 são relativas aos últimos 30 dias, e as respostas são dicotômicas mutuamente excludentes (sim x não), onde cada resposta positiva tem valor de 1,0 ponto. Desta forma o mínimo da escala é 0,0 e o máximo é 20,0 pontos. O ponto de corte de rastreamento suspeito para TMC em estudo prévio foi estimado em torno e 6,0 pontos, sendo utilizado então este corte no presente estudo (Santos et al., 2011).
3 – Questionário sobre a pandemia COVID-19
Quanto aos dados relacionados ao contexto da pandemia de COVID-19, tem-se: a) grau de satisfação no desenvolvimento das atividades de estudo de modo remoto durante a pandemia; b) a adaptação às tecnologias de ensino remoto; c) realização de alguma medida para cuidar e/ou preservar sua saúde mental; d) se esteve mais ansioso, preocupado e/ou impaciente durante a pandemia; e) se esteve mais deprimido, desanimado e/ou triste durante a pandemia; e f) se recebeu suporte/apoio psicológico/emocional da instituição de ensino durante a pandemia.
4 – Questionário demográfico e de ingresso à universidade
O questionário sociodemográfico elaborado compreende as seguintes variáveis: sexo, idade, estado civil, número de filhos, religião, período do curso, com quem reside, município de residência, raça, atividade remunerada e carga horária semanal, renda pessoal e familiar mensal, orientação sexual, pai e/ou mãe possui nível superior, presença de hábitos parafuncionais; dados estudantis anteriores ao ingresso no nível superior. Os dados estudantis anteriores ao ingresso no nível superior compõem-se por: realizou curso preparatório para o ENEM e/ou afins; como se deu a opção pelo curso; se apresentou dificuldades para ingressar no ensino superior e se já possui nível superior.
2.3. Universo, Amostra e Amostragem
A amostra compreendeu os alunos regulamente matriculados nos cursos de Enfermagem, Medicina e Odontologia de uma instituição de ensino não pública do nordeste brasileiro. Os dados da instituição da pesquisa mostram que existiam 541 alunos matriculados no curso de Enfermagem, 807 alunos no curso de Medicina e 616 alunos matriculados no curso de Odontologia, totalizando um universo de 1964 alunos, de acordo com informações extraídas nas coordenações dos respectivos cursos.
Diante dos dados apresentados acima procedeu-se ao cálculo probabilístico do tamanho amostral mínimo, sendo estimado um número necessário de 251 alunos, utilizando-se a equação estatística abaixo especificada.
Onde: n = tamanho da amostra; N = tamanho do universo populacional = 1964; Z = nível de confiança 95% (1,96); e = margem de erro = 5%; p = proporção que se deseja encontrar (25%).
A amostra final foi acrescida em 17,5% (n = 44), sendo utilizado esta quantidade excedente de participantes para compensar eventuais perdas amostrais no decorrer da pesquisa, resultando em um total de 295 participantes.
2.4. Estudo das Variáveis
O fator dependente (desfecho) em análise do estudo foi a média global do escore QVAr e a média de cada uma das suas cinco dimensões: pessoal, interpessoal, carreira, estudo e institucional. Os fatores independentes primários foram o escore de TMC aferido pelo SRQ-20 e os dados relacionados à pandemia. As variáveis independentes secundárias foram aquelas relacionadas aos aspectos sociodemográficos, econômicos e relacionados ao ingresso ao nível superior. A figura 1 abaixo demonstra o modelo de relação das variáveis do estudo e de suas interrelações. Por se tratar de um estudo transversal as setas da figura indicam possíveis associações em investigação, mas não uma relação causa-efeito.
Figura 1. Modelo de relação do fator dependente com os independentes
2.5. Métodos Estatísticos
O planejamento estatístico considerou a interação das variáveis independentes com o fator desfecho. Inicialmente, todos os fatores foram testados de maneira bivariada. Ao final, as variáveis significativas foram incluídas para uma modelagem considerando múltiplos fatores, por meio da Regressão Linear Generalizada (GLM). Por meio da modelagem linear geral comparou-se os múltiplos fatores independentes do SRQ-20 em função do escore do QVAr. O GLM é o modelo indicado para dados que não apresentam uma distribuição normal, e, portanto, realiza o modelo baseado em outra distribuição de probabilidade. As variáveis significativas no modelo bivariado foram testadas como modelo inicial. A modelagem seguiu até que o alcance do melhor ajuste, considerando o valor do R2 e da significância do modelo. Utilizou-se o teste post-hoc de Bonferroni para diferenciação das significâncias nas múltiplas comparações. Em todas as análises fixou-se o nível de significância em 5% (p < 0,05), e foi utilizado o SPSS (versão 20.0) para auxílio estatístico.
3. RESULTADOS
3.1. Análise Descritiva das Escalas QVAr e SRQ-20
A média global da escala QVAr foi 3,5 (DP: ±0,4), com mediana de 3,6 (Q1: 3,29; Q3: 3,85), apresentando valor mínimo de 1,91 e máximo de 4,82. Considerando as dimensões temos: média pessoal (2,97; DP: ±0,8); média interpessoal (3,63; DP: ±0,7); média carreira (4,04; DP: ±0,6); média estudo (3,47; DP: ±0,6); média institucional (3,81; DP: ±0,5). A prevalência de alunos com rastreio positivo para TMC foi de 64,1% (n = 189), com média de escore de 7,7 (DP: ±4,7). Nas mulheres a prevalência foi de 68,5% e nos homens foi de 47,6%.
3.2. Análise Bivariada: Adaptação Acadêmica X Transtornos Mentais Comuns
Houve correlação de Separman significativa negativa entre o QVAr-Global e o SRQ-20 (p < 0,001; rs = -0,64), considerada uma correlação moderada. Isto indica que à medida que aumenta o escore de transtorno mental, menores serão os valores do QVAr, ou seja, menos adaptado estará o aluno. Analisando as dimensões do QVAr separadamente identificou-se que a dimensão pessoal foi forte (rs = -0,80); enquanto todas demais foram fracas: interpessoal (rs = -0,22); carreira (rs = -0,32); estudo (rs = -0,35); institucional (rs = -0,21). A figura 2 abaixo detalha o comportamento gráfico das correlações inter variáveis.
Figura 2. Diagramas de dispersão entre a escala QVAr e os escores do SRQ-20
3.3. Análise Bivariada: Adaptação Acadêmica X Contexto da Pandemia
O resultado da ANOVA de uma via mostrou que os alunos muito adaptados às tecnologias durante a pandemia são significativamente diferentes daqueles menos adaptados (F = 4,81; p = 0,003). Os alunos muito satisfeitos às tecnologias apresentaram maiores médias do escore QVAr em relação aos insatisfeitos. A tabela 1 abaixo exibe as médias, desvios-padrão e intervalo de confiança para o QVAr dentre as categorias da variável em análise.
Tabela 1. Valores descritivos da média QVAr dentre as categorias da variável de “adaptação às tecnologias”
| Média QVAr | DP | IC 95% | Mínimo | Máximo | |
Inferior | Superior | |||||
insatisfeito | 3,37 | 0,44 | 3,23 | 3,51 | 2,29 | 4,24 |
pouco satisfeito | 3,53 | 0,43 | 3,44 | 3,62 | 2,16 | 4,29 |
nem satisfeito, nem insatisfeito | 3,55 | 0,45 | 3,45 | 3,64 | 1,91 | 4,80 |
muito satisfeito | 3,72 | 0,54 | 3,58 | 3,86 | 2,27 | 4,82 |
Fonte: Autores
A identificação das diferenças entre os grupos foi realizada por meio do post-hoc de Tukey, apresentados na tabela 2 abaixo. Verificou-se que a diferença estava entre aqueles que responderam “muito satisfeito” em comparação as respostas “insatisfeitos”, com médias respectivas de 3,72 e 3,37 (p = 0,001).
Tabela 2. ANOVA de uma via para múltiplas comparações nos valores médios das categorias da variável “adaptação às tecnologias”
|
| Diferença Média | p* | IC 95% | |
Inferior | Superior | ||||
Insatisfeito | Pouco satisfeito | -0,15 | 0,25 | -0,38 | 0,06 |
Nem satisfeito, nem insatisfeito | -0,17 | 0,17 | -0,39 | 0,04 | |
Muito satisfeito | -0,35 | 0,001** | -0,59 | -0,10 | |
Pouco satisfeito | Insatisfeito | 0,15 | 0,25 | -0,06 | 0,38 |
Nem satisfeito, nem insatisfeito | -0,01 | 0,99 | -0,19 | 0,16 | |
Muito satisfeito | -0,19 | 0,06 | -0,39 | 0,01 | |
Nem satisfeito, nem insatisfeito | Insatisfeito | 0,17 | 0,17 | -0,04 | 0,39 |
Pouco satisfeito | 0,01 | 0,99 | -0,16 | 0,19 | |
Muito satisfeito | -0,17 | 0,11 | -0,37 | 0,02 | |
Muito satisfeito | Insatisfeito | 0,35 | 0,001** | 0,10 | 0,59 |
Pouco satisfeito | 0,19 | 0,06 | -0,01 | 0,39 | |
Nem satisfeito, nem insatisfeito | 0,17 | 0,11 | -0,02 | 0,37 | |
*ANOVA (uma via); graus de liberdade entre grupo = 3; quadrado médio = 1,06; F = 4,81. **Significativo ao nível de 5% (post-hoc de Tukey). | |||||
Fonte: Autores
Com relação a variável “grau de satisfação às atividades de modo remoto na pandemia” o resultado do teste global de Kruskal-Wallis indicou inicialmente haver ligeira diferença entre as categorias (p = 0,01; Chi-Square = 9,98; graus de liberdade = 3). Entretanto, após múltiplas comparações entre os grupos, as diferenças intergrupo perderam a significância nas comparações por pares, indicando que as categorias possuem médias estatisticamente iguais quanto à satisfação. A tabela 3 abaixo exibe a médias dos ranks para cada categoria de resposta.
Tabela 3. Média dos Ranks do escore QVAr pelo teste H de Kruskal-Wallis
| Média dos Ranks QVAr |
Grau de satisfação às atividades de modo remoto na pandemia | |
insatisfeito | 128 |
pouco satisfeito | 161 |
nem satisfeito, nem insatisfeito | 137 |
muito insatisfeito | 171 |
Fonte: Autores
As demais variáveis do contexto da pandemia eram dicotômicas e foram testadas por meio do teste U de Mann-Whitney. A tabela 4 abaixo exibe a média dos ranks de cada item do SQR-20 e a significância do teste. Aqueles que realizaram medidas para preservar a saúde mental estiveram mais adaptados (p < 0,001), enquanto aqueles que se sentiram deprimidos estiveram menos adaptados (p < 0,001).
Tabela 4. Comparação por meio do teste U de Mann-Whitney | ||
Média dos Ranks do QVAr | p | |
Realizou alguma medida para cuidar e/ou preservar sua saúde mental durante a Pandemia? | <0,001* | |
sim | 157 | |
não | 112 | |
Você se sentiu mais ansioso, preocupado e/ou impaciente durante a pandemia de COVID-19? | 0,09 | |
sim | 145 | |
não | 175 | |
Você se sentiu mais deprimido, desanimado e/ou triste durante a pandemia de COVID-19? | <0,001* | |
sim | 138 | |
não | 191 | |
Recebeu suporte/apoio psicológico/emocional da instituição que estuda durante a pandemia de COVID-19? | 0,42 | |
sim | 159 | |
não | 146 | |
*Significativo ao nível de 5%. | ||
Fonte: Autores
3.4. Análise Bivariada: Adaptação Acadêmica X Fatores Secundários
A análise bivariada relacionada aos fatores secundários mostrou haver diferenças nas médias do QVAr para: idade; estado civil; exercer atividade remunerada; renda familiar; escolha do curso. A idade mostrou uma correlação de Spearman positiva fraca (rs = 0,16; p < 0,001). Por meio do teste U de Mann-Whitney verificou-se que o estado civil de casado mais adaptado (p = 0,008) e que aqueles que exercem atividade remunerada também estão adaptados (p = 0,01).
Por meio da múltipla comparação de grupos pelo teste de Kruskal-Wallis foi identificado que aqueles que possuem maior renda (acima de R$ 7985,00) estão mais adaptados do que aqueles com renda entre R$ 999,00-2294,00 (p = 0,006) e renda entre R$ 2295,00-5998,00 (p = 0,03). O resultado do teste de múltiplas comparações de Kruskal-Wallis também evidenciou que aqueles que escolhem o curso por aptidão vocacional estão mais adaptados do que aqueles que escolheram por desejo dos pais/familiar (p <0,001) e aqueles que não desejaram responder (p = 0,04).
3.5. Análise Múltipla de Regressão Linear Generalizada (GLM)
Foram escolhidas as variáveis significativas na análise bivariada para inclusão no modelo GLM: escore SRQ-20; adaptação às tecnologias remotas; atividade para cuidar ou preservar a saúde mental; sentir-se desanimado, deprimido/triste na pandemia; atividade remunerada; renda familiar; idade e estado civil. A construção do modelo seguiu a ordem de inclusão de uma variável por vez. O modelo mais explicativo considerou a inclusão do escore SRQ-20; da idade; se o aluno realizou alguma medida para cuidar da saúde mental e escolha do curso. O valor final de R2 (ajustado) foi 0,48 e valor de significância p < 0,001 (F = 8,77). Na tabela 5 abaixo temos o resultado do modelo GLM final.
Tabela 5. Modelo Linear Generalizado incluindo as variáveis com melhor ajuste
| Df | Valor F | Mean Square | p |
Intercepto | 1 | 1484 | 173 | <0,001 |
Escore SRQ | 1 | 173 | 20,3 | <0,001* |
Idade | 1 | 8,36 | 0,98 | 0,004* |
Cuidou da Saúde Mental | 1 | 5,40 | 0,63 | 0,02* |
Escolha do Curso | 3 | 8,77 | 1,03 | <0,001* |
R2 ajustado = 0,48. *Significativo ao nível de 5%. | ||||
Fonte: Autores
4. DISCUSSÃO
O presente estudo investigou a adaptação acadêmica de estudantes universitários da área da saúde e sua associação com TMC; além de fatores relacionados à pandemia da COVID-19 e ainda fatores sociodemográficos, econômicos e relacionados com o ingresso à universidade. Por meio de uma pesquisa de corte transversal pudemos identificar algumas associações do desfecho “adaptação acadêmica”, aferido pelo Questionário de Vivências Acadêmicas na sua versão reduzida, traduzida, adaptada e validada.
A presença de TMC (fator independente primário) foi elevada e esteve estatisticamente associada com a menor adaptação à vida acadêmica no modelo múltiplo final. Foi encontrado em recente revisão sistemática que a presença de TMC entre estudantes universitários brasileiros variou entre 19-53% (Lopes et al., 2022). Cavestro e Rocha (2006) relatam não ser incomum que os universitários, de modo geral, apresentem ou desenvolvam algum transtorno mental ao longo da sua formação, uma vez que estão submetidos a variados estressores, tais como intensa dedicação aos estudos; abdicação de tempo; administração de novas responsabilidades; cobranças pessoais e externas quanto ao futuro; mercado de trabalho e sucesso profissional.
Internacionalmente também tem sido verificado problemas mentais entre universitários. Estudo (Auerbach et al., 2018) da Organização Mundial de Saúde envolvendo quase 14 mil universitários dentre 19 faculdades de 8 países distintos (África do Sul, Alemanha, Austrália, Bélgica, Espanha, Estados Unidos, Irlanda do Norte e México) apontou que cerca de um terço dos alunos sofreram alguma vez na vida com distúrbios psicológicos, e que, 31% sofreram distúrbios nos últimos 12 meses da pesquisa. A depressão e o transtorno de ansiedade generalizada foram os problemas mais frequentes, ainda sendo identificado síndrome do pânico, hipomania e transtornos por uso de álcool e outras substâncias (AUERBACH et al., 2018). Extensa revisão dos fatores de risco e proteção associadas ao sofrimento psíquico entre universitários pode ser encontrada na revisão integrativa de Graner e Cerqueira (vide Graner e Cerqueira, 2019).
No atual estudo a presença de transtornos mentais nos estudantes esteve fortemente correlacionada com pior adaptação à universidade, sobretudo na dimensão pessoal do QVAr. Esta dimensão integra a avaliação do bem-estar físico e psicológico dos alunos, seu equilíbrio emocional, a estabilidade afetiva, o otimismo e a sua autoconfiança (Granado et al., 2005), e avalia características nos alunos que estão relacionadas à depressão e ansiedade (Brum e Teixeira, 2020). Podemos então considerar que os estudantes participantes dessa pesquisa apresentaram dificuldades de ajuste pessoal.
Além da presença de TMC, outro fator independente primário estatisticamente significativo no modelo múltiplo final foi o cuidado com a saúde mental durante o período pandêmico da COVID-19. Aqueles que realizaram alguma medida para cuidar da saúde mental se mostraram mais adaptados ao mundo acadêmico. A pandemia trouxe vários impactos para a saúde mental dos estudantes. Um estudo identificou alguns fatores relacionados como a quebra da rotina acadêmica; afastamento dos amigos; preocupação com o atraso das atividades e consequentemente o possível adiamento da formatura; interrupção das aulas práticas e estágios curriculares; mudança para atividades remotas e dificuldade na adaptação aos novos métodos de aprendizagem (Gundim et al., 2021).
Em estudo envolvendo 656 acadêmicos de medicina encontrou alguns fatores relacionados a pandemia de COVID-19 como possíveis riscos para o adoecimento mental, dentre eles está a má adaptação ao ensino a distância; dificuldade de concentração; preocupar-se com atraso na graduação; cursar os primeiros anos do curso; ser do sexo feminino; dividir residência com alguém que trabalha fora de casa; incapacidade de manter hábitos saudáveis e ter medo ser infectado pelo vírus SARS-CoV-2 (Teixeira et al., 2021). Outro estudo realizado em Sichuan, China, com o objetivo de avaliar o impacto da doença COVID-19 na saúde mental de estudantes universitários, encontrou que 19% dos estudantes entrevistados apresentavam sofrimento psíquico, sendo que os estudantes com idade inferior a 22 anos; universitários ingressantes; cursantes de medicina; alunos com condições médicas precárias no local de residência relataram experimentar mais sintomas de angústia (Yang et al., 2021). No Brasil, pesquisa envolvendo alunos de 63 universidades federais e 2 institutos federais identificou a ansiedade como a principal dificuldade emocional vivenciada pelos estudantes, seguido pelo desânimo/desmotivação (Fonaprace, 2019).
Dos fatores independentes secundários apenas a idade e a influência de escolha do curso foram significativas no modelo múltiplo final. Os estudantes mais velhos estiveram mais adaptados que aqueles com menor idade. O fator idade, em outros estudos, sugere ser este fator algo relevante na melhor adaptação, sobretudo pela maior capacidade de planejamento e execução das atividades (Granado et al., 2005; Schleich, 2006; Noronha et al., 2009; Sarriera et al., 2012). Com relação a escolha do curso foi perceptível a influencia negativa das pressões familiares na opção do aluno ao curso superior, uma vez que os alunos que escolheram o curso por aptidão vocacional estiveram significativamente mais adaptados ao ambiente acadêmico. A família exerce forte papel na escolha do curso de muitos adolescentes, gerando expectativas quanto à escolha de uma profissão rentável e segura, muitas vezes os pais revivem sua própria história ao relembrar conflitos da sua escolha pessoal de curso superior (Santos, 2005).
A escolha do curso superior é um momento difícil na vida de uma pessoa, e aqueles que optam por um curso na área da saúde enfrentarão peculiaridades do processo educativo que podem impactar negativamente a saúde física e psicológica, além da função cognitiva e de aprendizagem. Tais processos incluem estressores como a proximidade da morte de pacientes; inúmeros processos patológicos; excesso de atividades; a competitividade; o medo de errar e prejudicar o paciente; não serem reconhecidos por parte dos colegas e professores; a independência financeira tardia, bem como a privação do convívio familiar e de lazer (Finger; Silva; Falavigna, 2013; Millan e Arruda, 2008; Omigbodun et al., 2006).
Dentre os cursos de graduação na área de saúde, vale destacar o de medicina, odontologia, enfermagem e fisioterapia que, tradicionalmente, são reconhecidos como sendo alguns dos cursos universitários mais extenuantes, uma vez que exigem maior dedicação e imenso esforço físico, intelectual e emocional dos alunos, com a maioria deles possuindo carga horária em período integral, o que pode favorecer o comprometimento da vida social e do bem-estar físico e psicológico dos estudantes, dessa forma, afetando a qualidade de vida dos mesmos (Costa et al. 2014; Olmo et al., 2012). Outrossim, esses cursos possuem em sua matriz curricular atividades práticas, diante das quais os estudantes comumente percebem suas limitações quanto ao conhecimento (Oliveira; Caregnato; Câmara, 2012) e; por conseguinte, isso pode gerar sentimentos de frustação, angústias e incapacidade diante das atividades exigidas durante a formação. Assim, o ambiente que seria apropriado para a construção do conhecimento profissional torna-se, por vezes, adoecedor (Gervásio et al., 2012).
Em síntese, o presente estudo elenca algumas possíveis hipóteses para as dificuldades de adaptação ao mundo acadêmico durante um período complicado em que os estudantes atravessaram: a pandemia da COVID-19. Este fator, sem dúvidas, foi um estressor considerável, e que, aliado a outros fatores como transtornos mentais prévios podem ter agravado a aderência do estudante ao contexto universitário. É preciso ponderar que o presente estudo, devido a sua magnitude transversal, esbarra na limitação de não poder inferir causalidade-efeito dentre os fatores independentes e dependente em análise, mas suscita algumas relações possíveis de investigações longitudinais mais aprofundadas.
5. CONCLUSÃO
A adaptação acadêmica dos estudantes universitários no presente estudo esteve associada a uma multiplicidade de fatores, revelando a complexidade multifatorial que o tema abrange. Dentre os fatores independentes primários houve associação com TMC e ausência de cuidados com a saúde mental durante o período pandêmico. Dos fatores independentes secundários houve relação com a idade do estudante (jovens são menos adaptados) e com a escolha do curso superior durante o período pré-universitário. Em suma, é sugerido que as universidade e faculdades estejam atentas e flexíveis aos possíveis desdobramentos que a pandemia da COVID-19 trará a vida acadêmica dos estudantes universitários nos próximos anos.
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1 Mestre em Pesquisa em Saúde (Centro Universitário Cesmac). Enfermeira do Instituto Federal de Alagoas, Campus Palmeira dos Índios, Alagoas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-7624-412X
2 Doutor em Saúde Coletiva. Professor Adjunto da Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Odontologia, Belo Horizonte. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: http://orcid.org/0000-0002-9410-7356
3 Doutora em Psicologia. Professora do Centro Universitário Cesmac, Campus Maceió, Alagoas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0128-591X
4 Doutora em Ciências. Professora da Universidade Estadual de Ciências da Saúde, Campus Maceió, Alagoas. E-mail: [clique para visualizar o e-mail]acesse o artigo original para visualizar o e-mail. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6963-8158