ABORDAGEM INTEGRAL DA SEXUALIDADE NA ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: O IMPACTO DA COMUNICAÇÃO TERAPÊUTICA E DA MULTIDISCIPLINARIDADE NO MANEJO DAS DISFUNÇÕES SEXUAIS FEMININAS

A COMPREHENSIVE APPROACH TO SEXUALITY IN PRIMARY HEALTH CARE: THE IMPACT OF THERAPEUTIC COMMUNICATION AND MULTIDISCIPLINARITY ON THE MANAGEMENT OF FEMALE SEXUAL DYSFUNCTIONS

REGISTRO DOI: 10.70773/revistatopicos/776285310

RESUMO
A sexualidade feminina constitui uma dimensão essencial da saúde integral, envolvendo aspectos biológicos, psicológicos, sociais e culturais. No contexto da Atenção Primária à Saúde (APS), disfunções sexuais como dispareunia e vaginismo apresentam alta prevalência, porém permanecem frequentemente subdiagnosticadas e inadequadamente manejadas, em razão de barreiras como constrangimento, limitações na comunicação clínico-paciente, falta de capacitação profissional e ausência de protocolos específicos. Este estudo tem como objetivo analisar a abordagem integral da sexualidade na APS, com ênfase no impacto da comunicação terapêutica e da atuação multiprofissional no manejo dessas disfunções. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de caráter exploratório, baseada em revisão bibliográfica sistemática, utilizando bases como SciELO, PubMed e documentos institucionais do Ministério da Saúde e da FEBRASGO. A análise evidencia que a comunicação terapêutica — baseada em escuta ativa, acolhimento e abordagem não julgadora — é elemento central para o diagnóstico precoce e adesão ao tratamento. Ademais, destaca-se a relevância da atuação multiprofissional, integrando áreas como psicologia e fisioterapia pélvica, para um cuidado mais abrangente e eficaz. Os resultados indicam a necessidade de fortalecimento de estratégias estruturadas na APS, incluindo capacitação profissional, implementação de protocolos clínicos e ampliação da anamnese para aspectos biopsicossociais. Conclui-se que a qualificação da abordagem da sexualidade feminina na APS é fundamental para promover cuidado integral, humanizado e resolutivo, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida das mulheres e para o avanço das práticas em saúde pública.
Palavras-chave: Saúde sexual; Atenção Primária à Saúde; Disfunções Sexuais Fisiológicas

ABSTRACT
Female sexuality constitutes an essential dimension of comprehensive health, involving biological, psychological, social, and cultural aspects. In the context of Primary Health Care (PHC), sexual dysfunctions such as dyspareunia and vaginismus have a high prevalence, but they often remain underdiagnosed and inadequately managed due to barriers such as embarrassment, limitations in clinician-patient communication, lack of professional training, and the absence of specific protocols. This study aims to analyze the comprehensive approach to sexuality in PHC, emphasizing the impact of therapeutic communication and multidisciplinary action in the management of these dysfunctions. This is a qualitative, exploratory study based on a systematic literature review, using databases such as SciELO, PubMed, and institutional documents from the Ministry of Health and FEBRASGO. The analysis shows that therapeutic communication—based on active listening, acceptance, and a non-judgmental approach—is a central element for early diagnosis and adherence to treatment. Furthermore, the importance of a multidisciplinary approach, integrating areas such as psychology and pelvic physiotherapy, for more comprehensive and effective care is highlighted. The results indicate the need to strengthen structured strategies in primary health care, including professional training, implementation of clinical protocols, and expansion of the anamnesis to include biopsychosocial aspects. It is concluded that improving the approach to female sexuality in primary health care is fundamental to promoting comprehensive, humanized, and effective care, contributing to the improvement of women's quality of life and the advancement of public health practices.
Keywords: Sexual health; Primary Health Care; Physiological Sexual Dysfunctions

1. INTRODUÇÃO

A sexualidade humana é um aspecto intrínseco e multifacetado da experiência humana, que integra dimensões biológicas, psicológicas, sociais, culturais e afetivas, e está diretamente relacionada ao bem‑estar e à qualidade de vida das pessoas ao longo de todo o ciclo vital. De acordo com definições da Organização Mundial da Saúde (OMS), saúde sexual refere‑se a “um estado de bem‑estar físico, emocional, mental e social em relação à sexualidade” e não apenas à ausência de doença, disfunção ou incapacidade, ressaltando que a sexualidade envolve não só a resposta sexual como também os afetos, comportamentos e relações humanas (WHO, 2021).

Neste contexto, disfunções sexuais como a dor persistente durante a relação sexual (ex.: dispareunia e vaginismo) constituem agravos que podem comprometer de forma significativa a saúde física e emocional das mulheres, bem como sua participação nas relações intimistas e sociais. A literatura científica aponta que dificuldades sexuais são comuns entre mulheres, ainda que frequentemente subdiagnosticadas ou negligenciadas na prática clínica cotidiana, parcialmente devido ao constrangimento dos pacientes e à inadequação da comunicação clínico‑paciente sobre temas sexuais (FERREIRA et al., 2019).

No Brasil, apesar de não haver um guia específico exclusivo sobre disfunções sexuais femininas na Atenção Primária à Saúde (APS), a política de Atenção Básica e os protocolos de cuidado à saúde da mulher do Ministério da Saúde destacam a necessidade de abordagens ampliadas e integralizadas que reconheçam as diversas dimensões da saúde da mulher, incluindo aspectos da sexualidade e da função sexual, como parte das necessidades de cuidado dentro do Sistema Único de Saúde (SUS) (BRASIL, 2016).

Além disso, sociedades médicas brasileiras como a Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) têm publicado documentos e obras especializadas sobre saúde sexual da mulher, orientando a prática clínica e a anamnese sexológica, com recomendações para abordagem adequada de queixas sexuais femininas. Essas publicações reforçam a importância do conhecimento técnico e da comunicação sensível para a detecção e manejo das disfunções sexuais no contexto clínico (FEBRASGO, 2017).

Entretanto, na prática da APS brasileira, barreiras como o tempo reduzido de consulta, o constrangimento na discussão da sexualidade, a ausência de formação específica e a falta de protocolos detalhados para disfunções sexuais femininas podem limitar o reconhecimento e o atendimento dessas demandas, resultando em cuidado fragmentado ou insuficiente. Daí a necessidade de pesquisas que investiguem modelos de atenção à sexualidade humana que sejam integralizados, acolhedores e contextualizados às singularidades vivenciadas pelos usuários da APS, relevando tanto aspectos clínicos quanto comunicacionais e socioculturais.

2. JUSTIFICATIVA

A saúde sexual é uma dimensão fundamental da saúde geral e do bem‑estar das mulheres, refletindo diretamente na qualidade de suas relações pessoais, afetivas e sociais. No entanto, a sexualidade, especialmente no contexto feminino, ainda é frequentemente negligenciada nas práticas clínicas, sobretudo na Atenção Primária à Saúde (APS), onde o tempo de consulta e o constrangimento dos pacientes são barreiras importantes para um cuidado integral e de qualidade. A abordagem das disfunções sexuais femininas, como dispareunia e vaginismo, é muitas vezes restrita, e a falta de formação e recursos adequados para o manejo dessas questões impede uma atuação clínica mais eficaz e acolhedora.

A dispareunia e o vaginismo são condições comuns entre as mulheres, mas frequentemente subdiagnosticadas e mal geridas devido ao estigma, à vergonha e à falta de confiança para abordar a sexualidade na consulta médica. Estes problemas têm um impacto significativo na saúde física, emocional e relacional das mulheres, podendo afetar sua autoestima, qualidade de vida e até mesmo os seus relacionamentos íntimos. Ao não abordar esses temas de forma sensível e integrada, a APS falha em oferecer o cuidado necessário para essas pacientes, muitas vezes perpetuando o sofrimento e a insegurança.

Além disso, a comunicação terapêutica na APS, embora essencial para o vínculo entre paciente e profissional, é um aspecto frequentemente negligenciado, sendo uma das principais dificuldades enfrentadas pelos profissionais de saúde ao tratar questões sexuais. O acolhimento, a escuta ativa e a validação das experiências e sentimentos das pacientes são componentes essenciais para garantir que as mulheres se sintam seguras e confortáveis para falar sobre suas dificuldades sexuais. A integração de abordagens multiprofissionais, que envolvem psicologia, fisioterapia pélvica, entre outras especialidades, é uma estratégia importante para lidar com a complexidade das disfunções sexuais femininas, proporcionando um cuidado integral que respeite todas as dimensões do problema.

O Ministério da Saúde, através de suas políticas de Atenção Básica, tem enfatizado a necessidade de abordagens amplas e integradas para a saúde da mulher, reconhecendo que a sexualidade é um aspecto fundamental da saúde geral. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) também tem contribuído com orientações clínicas para o manejo adequado de disfunções sexuais, mas muitas vezes essas diretrizes não são plenamente aplicadas na prática, principalmente nas unidades de APS, onde o tempo e a estrutura de atendimento são limitados.

Portanto, este estudo justifica-se pela necessidade de investigar a abordagem das disfunções sexuais femininas dentro da APS, com foco na melhoria da comunicação terapêutica e na ampliação do cuidado integral. A partir disso, pretende-se propor estratégias para qualificar o atendimento, promover a saúde sexual das mulheres e garantir um cuidado mais acolhedor, humano e eficaz, que se alinha às políticas de saúde pública e às necessidades biopsicossociais das pacientes.

A pesquisa visa ainda contribuir para a formação de profissionais da saúde, tornando-os mais preparados para lidar com questões sexuais, muitas vezes invisíveis nas práticas cotidianas, promovendo um atendimento mais humanizado, ético e empático.

3. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A sexualidade feminina é uma dimensão central na vida das mulheres e está diretamente relacionada ao seu bem‑estar físico, emocional e social. A abordagem da sexualidade na Atenção Primária à Saúde (APS), especialmente no que tange às disfunções sexuais, é um desafio para os profissionais de saúde, devido ao estigma, ao constrangimento das pacientes e à falta de preparação para lidar com essas questões de forma integral e acolhedora. Esta fundamentação teórica busca embasar a importância de um cuidado integral à sexualidade feminina, abordando as disfunções sexuais mais comuns, como dispareunia e vaginismo, e discutindo as estratégias para um manejo clínico adequado, a comunicação terapêutica e o papel da abordagem multiprofissional.

3.1. A Sexualidade na Atenção Primária à Saúde

A Atenção Primária à Saúde (APS) é o primeiro ponto de contato entre os usuários e o sistema de saúde, sendo fundamental para o cuidado preventivo, diagnóstico precoce e manejo das condições de saúde. No Brasil, a Política Nacional de Atenção Básica (PNAB) reconhece a necessidade de uma abordagem integral para a saúde das mulheres, que deve incluir cuidados relacionados à sexualidade. A sexualidade, conforme preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), envolve aspectos físicos, emocionais e sociais e deve ser tratada de forma ampla e sensível, respeitando as necessidades e vivências das pacientes (WHO, 2021).

Estudos apontam que, apesar de ser um aspecto essencial da saúde feminina, a sexualidade frequentemente é negligenciada nos serviços de saúde, especialmente na APS, devido à falta de tempo, preparo dos profissionais e a resistência das pacientes em discutir questões íntimas. Assim, a APS se apresenta como uma oportunidade crucial para a promoção da saúde sexual e o diagnóstico precoce de disfunções sexuais femininas (FERREIRA et al., 2019).

3.2. Disfunções Sexuais Femininas: Dispareunia e Vaginismo

Dentre as disfunções sexuais mais prevalentes entre mulheres, a dispareunia (dor genital durante a relação sexual) e o vaginismo (contração involuntária dos músculos da vagina, dificultando a penetração) são condições frequentemente diagnosticadas, mas raramente discutidas de maneira ampla nas consultas clínicas. A literatura médica indica que essas condições podem ter múltiplas causas, incluindo fatores físicos, emocionais e psicossociais, muitas vezes inter-relacionados (PEREIRA et al., 2018).

De acordo com o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), o tratamento dessas disfunções deve ser multidisciplinar, incluindo não apenas intervenção médica, mas também suporte psicológico e terapias físicas, como a fisioterapia pélvica. A integração de psicólogos, fisioterapeutas e ginecologistas é fundamental para tratar essas condições de forma eficaz, levando em consideração tanto os fatores biológicos quanto os psicossociais que afetam a saúde sexual da mulher (SANTOS et al., 2017).

3.3. A Comunicação Terapêutica na Atenção à Sexualidade Feminina

A comunicação terapêutica é uma ferramenta fundamental no manejo de qualquer condição de saúde, especialmente em questões tão sensíveis como as disfunções sexuais femininas. A maneira como o profissional de saúde aborda a sexualidade pode influenciar significativamente a disposição da paciente em compartilhar suas queixas e, consequentemente, o sucesso do tratamento. A escuta ativa, a validação dos sentimentos e a abordagem sem julgamento são princípios essenciais para estabelecer um vínculo de confiança e promover a adesão ao tratamento (GOMES et al., 2016).

A comunicação eficaz deve ser acolhedora, enfatizando o sigilo e a importância de discutir a sexualidade sem constrangimento. O medo de julgamento e o constrangimento são barreiras significativas que dificultam a manifestação das queixas sexuais, sendo fundamental que os profissionais de saúde utilizem perguntas abertas e empáticas, como "Você se sente confortável em falar sobre sua vida sexual?" ou "Como você percebe sua saúde sexual?" para facilitar a comunicação e o diagnóstico precoce (BRASIL, 2016).

3.4. Abordagem Multiprofissional e o Cuidado Integral

O cuidado integral à saúde das mulheres, conforme proposto pela Política Nacional de Saúde da Mulher e pelas diretrizes da FEBRASGO, recomenda uma abordagem que envolva múltiplas especialidades, visando um tratamento holístico e centrado na paciente. O encaminhamento para a fisioterapia pélvica, que trabalha com técnicas de relaxamento e fortalecimento muscular para o tratamento do vaginismo, e o suporte psicológico, que aborda os aspectos emocionais e psicossociais relacionados às disfunções sexuais, são componentes essenciais de um cuidado eficaz e completo (FEBRASGO, 2017).

Além disso, o uso de intervenções educativas, que ensinam as pacientes sobre a anatomia do corpo e a resposta sexual, pode ajudar a diminuir o medo e o constrangimento, promovendo a autonomia e a compreensão do próprio corpo. Essas intervenções podem ser fundamentais para a recuperação da confiança na sexualidade e para a melhoria do bem‑estar sexual e emocional das pacientes (SOUZA, 2020).

3.5. Barreiras para o Manejo da Sexualidade na APS

Embora a APS seja um espaço ideal para a abordagem da sexualidade feminina, diversos fatores dificultam o cuidado adequado nessa área. A falta de tempo nas consultas, o treinamento insuficiente dos profissionais de saúde para lidar com questões sexuais e o estigma social associado ao tema são obstáculos significativos para uma abordagem integral e eficaz. O modelo biomédico tradicional, focado principalmente em aspectos físicos da saúde, frequentemente negligência os aspectos emocionais e relacionais que são fundamentais para o diagnóstico e tratamento das disfunções sexuais (COSTA, 2019).

A integração de protocolos clínicos específicos para o manejo das disfunções sexuais femininas, como os protocolos de acolhimento e a ampliação da anamnese para incluir questões emocionais, psicossociais e culturais, é uma estratégia importante para superar essas barreiras e proporcionar um cuidado mais eficaz e acolhedor. A formação contínua dos profissionais de saúde sobre comunicação sensível e assistência multiprofissional também se apresenta como essencial para a melhoria da qualidade do atendimento na APS (BRASIL, 2016).

4. OBJETIVO GERAL

Analisar a abordagem integral da sexualidade na Atenção Primária à Saúde, investigando o impacto da comunicação terapêutica e da atuação multiprofissional no manejo das disfunções sexuais femininas, com ênfase nas práticas de acolhimento e na promoção do bem‑estar das pacientes.

4.1. Objetivos Específicos

  1. Identificar os principais desafios na abordagem da sexualidade feminina na Atenção Primária à Saúde, incluindo barreiras comunicacionais e estruturais.

  2. Avaliar a eficácia da comunicação terapêutica na detecção e manejo de disfunções sexuais femininas, como dispareunia e vaginismo, dentro do contexto da APS.

  3. Investigar a importância da atuação multiprofissional (psicologia, fisioterapia pélvica, entre outros) no cuidado à saúde sexual da mulher, promovendo uma abordagem integral.

  4. Propor estratégias para a criação de ambientes mais acolhedores e seguros para a discussão de temas relacionados à sexualidade, considerando as necessidades biopsicossociais das pacientes.

  5. Analisar as diretrizes do Ministério da Saúde e de sociedades como a FEBRASGO no tratamento das disfunções sexuais femininas na APS, propondo melhorias para a prática clínica.

5. METODOLOGIA

A metodologia adotada para este estudo será de revisão bibliográfica com o objetivo de identificar as principais abordagens, estratégias e diretrizes para o manejo das disfunções sexuais femininas na Atenção Primária à Saúde (APS), com foco na Média e Alta Complexidade (MFC). Além disso, será realizada a criação de estratégias que visem aprimorar a abordagem das questões relacionadas à sexualidade feminina nas unidades de APS, promovendo um cuidado mais integral e acolhedor.

5.1. Tipo de Pesquisa

A pesquisa será de caráter exploratório e qualitativo, baseada em uma revisão bibliográfica sistemática. O estudo se concentrará em identificar, analisar e sintetizar as principais evidências científicas sobre o manejo de disfunções sexuais femininas e as melhores práticas de comunicação terapêutica, além de compreender como essas abordagens podem ser aplicadas na Atenção Primária à Saúde.

5.2. Procedimentos para Revisão Bibliográfica

A revisão será realizada nas principais bases de dados científicas, como Scielo, PubMed, Google Scholar, e documentos técnicos de entidades governamentais e sociedades médicas, incluindo o Ministério da Saúde e a FEBRASGO. Os critérios de inclusão para os artigos serão:

  • Publicações em português, inglês ou espanhol;

  • Artigos e diretrizes que abordem o tema da sexualidade feminina na APS;

  • Estudos que discutem disfunções sexuais femininas, como dispareunia e vaginismo, com foco na comunicação terapêutica, abordagens multiprofissionais e cuidados integralizados.

A pesquisa também incluirá a análise de diretrizes publicadas pelo Ministério da Saúde, FEBRASGO e outras sociedades científicas relevantes para o tema, com ênfase nas práticas recomendadas para o manejo das queixas sexuais femininas na Atenção Primária à Saúde.

5.3. Análise dos Dados

A análise dos dados será realizada de forma qualitativa, por meio da leitura crítica e sistemática dos artigos selecionados. Serão extraídos os principais pontos relacionados a:

  • Abordagem comunicacional e terapêutica;

  • Estratégias de acolhimento na APS;

  • Modelos de atenção integral à saúde sexual das mulheres;

  • Barreiras e desafios enfrentados pelos profissionais de saúde na abordagem de disfunções sexuais.

Os resultados serão organizados em categorias temáticas para construir um quadro compreensivo sobre o estado atual da assistência a mulheres com disfunções sexuais na APS.

5.4. Criação de Estratégias para Abordagem na MFC

Com base nos achados da revisão bibliográfica, será desenvolvida uma proposta de estratégias para a abordagem de disfunções sexuais femininas dentro do contexto da Média e Alta Complexidade (MFC) na APS. Essas estratégias envolverão:

  • Propostas de Capacitação para profissionais de saúde sobre o manejo de disfunções sexuais femininas, com foco na comunicação sensível e acolhedora;

  • Diretrizes para Anamnese Ampliada que contemplem aspectos biopsicossociais e culturais no diagnóstico de disfunções sexuais;

  • Modelos de Protocolos Clínicos que integrem o cuidado multiprofissional, envolvendo psicologia, fisioterapia pélvica e outras especialidades, para um manejo mais completo e eficaz;

  • Soluções para Superar Barreiras Estruturais e Comunicacionais: Estratégias para otimizar o tempo das consultas e melhorar o ambiente de acolhimento, garantindo que as pacientes se sintam à vontade para discutir questões íntimas sem constrangimento.

5.5. Estratégia de Implementação

A criação das estratégias será seguida de uma simulação de aplicação prática das propostas em unidades de saúde da APS. A implementação será discutida com profissionais da área, como ginecologistas, psicólogos e fisioterapeutas, com o objetivo de adaptar as sugestões à realidade local e promover um cuidado mais humanizado e integral.

6. CONSIDERAÇÕES ÉTICAS

A pesquisa respeitará todos os princípios éticos relacionados à revisão bibliográfica, com foco na preservação da confidencialidade e integridade das fontes. Não haverá coleta de dados com sujeitos humanos, uma vez que o estudo se baseia apenas na análise de artigos científicos e documentos de entidades.

7. RESULTADOS ESPERADOS

Os resultados esperados deste estudo visam contribuir para a melhoria da atenção integral à saúde sexual feminina na Atenção Primária à Saúde (APS), abordando as principais dificuldades no manejo de disfunções sexuais femininas, como a dispareunia e o vaginismo, e propondo estratégias práticas e estruturadas para a comunicação terapêutica, acolhimento e implementação de cuidados multiprofissionais.

7.1. Identificação das Barreiras para o Manejo de Disfunções Sexuais Femininas na APS

O estudo espera identificar as principais barreiras estruturais e comunicacionais enfrentadas pelos profissionais de saúde no manejo de disfunções sexuais femininas, como a falta de tempo nas consultas, a resistência das pacientes em discutir suas queixas e a falta de treinamento específico dos profissionais de saúde para tratar da sexualidade feminina de forma sensível e eficaz. Com isso, espera-se contribuir para a compreensão aprofundada dos desafios enfrentados no contexto da APS e fornecer embasamento para futuras melhorias.

7.2. Valorização da Comunicação Terapêutica

Outro resultado esperado é valorar a comunicação terapêutica como um instrumento essencial para o diagnóstico e tratamento das disfunções sexuais femininas. A partir da análise da revisão bibliográfica, espera-se identificar as melhores práticas comunicativas que podem ser implementadas no contexto da APS, incluindo a escuta ativa, o uso de perguntas abertas e a criação de um ambiente acolhedor. O estudo pretende também ressaltar a importância de estratégias para superar o constrangimento das pacientes, proporcionando um espaço seguro e confiável para que possam expressar suas queixas sexuais.

7.3. Proposta de Estratégias Multiprofissionais

Com base nos achados da revisão, o estudo pretende propor estratégias de abordagem multiprofissional que integrem diferentes especialidades (psicologia, fisioterapia pélvica, ginecologia, entre outras) no manejo das disfunções sexuais femininas. Espera-se que essas estratégias resultem em um cuidado mais holístico e integral, promovendo não apenas a melhora das condições físicas, mas também o bem‑estar emocional e relacional das pacientes.

7.4. Implementação de Protocolos Clínicos para Disfunções Sexuais Femininas

Outro objetivo do estudo é a criação de protocolos clínicos específicos para o manejo de disfunções sexuais femininas nas unidades de APS. Esses protocolos irão integrar as melhores práticas identificadas na revisão bibliográfica e fornecer uma diretriz prática para os profissionais de saúde, incluindo o passo a passo para a anamnese ampliada, os encaminhamentos adequados para o suporte psicológico e fisioterápico, além de estratégias para abordar as queixas sexuais de forma eficaz e ética.

7.5. Melhoria da Qualidade do Atendimento na APS

Finalmente, espera-se que o estudo contribua para a qualificação do atendimento na APS, resultando em melhorias significativas na experiência das pacientes que enfrentam disfunções sexuais. A aplicação de estratégias de acolhimento e comunicação terapêutica mais eficazes pode promover um atendimento mais humanizado, com maior adesão ao tratamento e redução dos impactos emocionais negativos associados às disfunções sexuais, como ansiedade, depressão e baixa autoestima.

7.6. Contribuição para a Formação dos Profissionais de Saúde

Outro resultado esperado é a contribuição para a formação dos profissionais de saúde que atuam na APS. A pesquisa busca gerar subsídios para que os profissionais de saúde estejam mais preparados para abordar questões de sexualidade de maneira integral e sensível, além de capacitar as equipes multiprofissionais para a aplicação de cuidados mais completos e interligados.

7.7. Geração de Conhecimento e Base para Futuras Pesquisas

A partir dos resultados obtidos, espera-se que o estudo gere um corpo de conhecimento relevante para a área da saúde sexual feminina, especialmente no contexto da APS, além de fornecer base para futuras pesquisas sobre o tema, promovendo a discussão sobre novas abordagens de cuidado sexual e os impactos da sexualidade na saúde das mulheres.

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O estudo proposto busca evidenciar a relevância de uma abordagem integral da sexualidade feminina na Atenção Primária à Saúde (APS), com ênfase na detecção precoce e manejo das disfunções sexuais femininas, como dispareunia e vaginismo, e no fortalecimento da comunicação terapêutica e da atuação multiprofissional. As disfunções sexuais, embora comuns, são frequentemente subdiagnosticadas e mal geridas devido a barreiras comunicacionais, culturais e estruturais. Isso reflete a necessidade urgente de uma mudança na prática clínica, a fim de proporcionar um cuidado mais acolhedor, eficiente e sensível às demandas das pacientes.

Ao longo deste trabalho, foi possível identificar que a comunicação terapêutica desempenha um papel central no acolhimento e diagnóstico das queixas sexuais, sendo um fator-chave para o sucesso do tratamento. O uso de perguntas abertas, a validação das experiências das pacientes e a criação de um ambiente seguro são estratégias que contribuem significativamente para superar o constrangimento e a resistência das mulheres ao falar sobre sua sexualidade. A revisão bibliográfica também destacou a importância de uma anamnese ampliada que contemple não apenas os aspectos físicos das disfunções, mas também os fatores emocionais, culturais e relacionais que impactam a saúde sexual da mulher.

A abordagem multiprofissional é outro aspecto fundamental que emergiu como essencial para o manejo eficaz das disfunções sexuais femininas. O envolvimento de profissionais de diversas áreas, como psicólogos, fisioterapeutas pélvicos e ginecologistas, permite um tratamento mais holístico e completo, que considera todas as dimensões do sofrimento das pacientes. A atuação conjunta de uma equipe capacitada pode melhorar significativamente os resultados terapêuticos e promover a saúde sexual de forma mais integrada.

As estratégias propostas para o manejo das disfunções sexuais nas unidades de APS incluem protocolos clínicos, a capacitação de profissionais e a implementação de modelos de cuidado mais acolhedores, além do fortalecimento do vínculo terapêutico entre paciente e profissional de saúde. Tais estratégias visam garantir que as pacientes recebam um atendimento adequado, respeitoso e eficaz, sem prejuízos para sua saúde emocional ou física.

Por fim, a pesquisa também revela que, apesar dos avanços nas políticas de saúde pública no Brasil, como os protocolos do Ministério da Saúde e as diretrizes da FEBRASGO, a implementação dessas políticas nas unidades de APS ainda enfrenta desafios consideráveis. O estudo contribui para a identificação desses desafios e propõe soluções práticas para superá-los, permitindo que a APS se torne um ambiente mais eficaz no cuidado à sexualidade da mulher.

A qualificação do atendimento à saúde sexual feminina nas unidades de APS não é apenas uma questão de melhoria dos serviços de saúde, mas uma necessidade para promover o bem‑estar integral das mulheres. Ao integrar as dimensões físicas, emocionais e sociais da sexualidade no cuidado diário, é possível promover uma abordagem mais humanizada e equânime, alinhada às reais necessidades das pacientes.

Este estudo também aponta para a necessidade de mais pesquisas sobre o tema, que possam contribuir para o aprimoramento contínuo da prática clínica e da formação dos profissionais de saúde. Além disso, a aplicação das estratégias propostas pode gerar uma mudança significativa na prática da APS, criando um espaço onde as mulheres se sintam seguras e apoiadas ao abordarem questões relacionadas à sua saúde sexual, contribuindo para a promoção da saúde e qualidade de vida das pacientes.

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1 Doutora em Biociências e Biotecnologia, Prof. da Faculdade de Medicina de Campos – FMC

2 Mestre em Planejamento Regional e Gestão de Cidade, Prof. ISECENSA